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Para além da árvore do esquecimento

Fiquei olhando para Luiza e bebendo as gotas de amor que caíam de seus ditos. Falava ela sobre a mulher. Sobre o sofrimento da mulher e sobre as esquisitices de quem não se incomoda. Falava que a verdade era mais fácil de ser empunhada como bandeira do que a mentira. Dava menos trabalho. Falava de seu avô, que dava conselhos em um interior de seu país. Havia gente e mais gente que se aproximava do velho e que jogava seus queixumes querendo uma opinião. Ele dizia que iria dormir com o problema e, na manhã seguinte, diria o seu achado. Era quando a avó de Luiza iluminava o marido e explicava a ele o que era o melhor para a vida de quem aguardava a resposta. A sábia era a mulher, mas deixava o homem brilhar. Eram tempos outros. Fiquei olhando para Luiza Diogo, a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra de Moçambique e descansei dos meus dissabores com o ser humano. Há muita perversidade por aí. Mas há Luizas que dignificam a natureza humana.

Moçambique é um entre tantos que cederam seus filhos para construir o país que somos, o nosso Brasil. Os construtores sofreram, entretanto.

Os navios negreiros trouxeram dores inconfessáveis. O último contato com a terra mãe, a África, se dava no “portal do não-retorno”. Dali sabiam que não havia mais volta, que nunca mais sentiriam o cheiro da terra em que nasceram. Antes, davam voltas na “árvore do esquecimento”. Ali, eram obrigados a esquecer o nome, a família, a pátria, a religião, a vida em desassossego. Esquecer? Como esquecer? Somos um punhado de instantes que vão se juntando e nos formando. Meu Deus, quanto horror, quanta perversidade, quanta ausência de compaixão! Vendidos chegavam ao Brasil. Sem referências. Sem direito ao amor. Sem direito à saudade.

Os tempos mostraram o quanto erramos. Aprendemos? Não sei. O preconceito ainda zomba de nós. Da nossa pouca capacidade de conviver. Continuamos exigindo esquecimentos e ditando o que é certo e errado no comportamento, na origem, na vida do outro, irmão nosso. Não é a cor que nos separa, nem a condição social, nem o local de nascimento, nem o gênero. O que nos separa é o ódio, a arrogância, a intolerância.

Fiquei olhando para Luiza e pensando na palavra esperança. Ela nasceu em outros tempos do que aqueles em que se escravizavam pessoas. Mas, nos tempos de Luiza, nos nossos tempos, ainda há homens espancando mulheres, ainda há crianças destruídas pela violência e pela ausência de possibilidades. Nos nossos tempos, as travessias ainda são dolorosas. Os medos das guerras e das pestes contemporâneas levam irmãos nossos ao fim antecipado. Pestes contemporâneas? Sim. As doenças da alma, dos comportamentos incorretos. Dos que se acham no direito de subjugar, de matar.

Luiza é uma linda mulher. Seus olhos olham longe e olham perto. Longe porque podem antever dias melhores a partir da sua ação. E perto porque têm respeito por aquele que dela se aproxima. Seus olhos sorriem. Nada de esquecimentos. Mas de acumulações. De histórias que ontem nos ensinaram a mudar. A abraçar a verdade. A defender a coerência como se defende uma irmã gêmea. A ser autêntica. Foi assim que ela encerrou sua fala, louvando a autenticidade.

Fiquei olhando para Luiza e agradecendo por estar ali. No oceano índico. No velho continente africano. Na Mãe de tantas mães nossas que embalaram seus sonhos em seus filhos e que, em um dia de luz – Luiza/luz – ,resolveram ir além e assumir o comando da própria história.

Mulheres e homens. Negros e brancos. Daqui ou de lá. De um jeito ou de outro. Não esqueçamos. As diferenças nos embelezam. Raízes lindas de tempos vindouros em que aprendamos que as mãos dadas tornam a jornada muito mais prazerosa.

Beijei Luiza como quem beija todas as mulheres. Com respeito. Como quem pede perdão pelos erros de ontem e pede permissão para tentar novamente. Um mal que se faz a qualquer humano desumaniza toda a humanidade.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 05/11/2017

Sobre feridas e cicatrizes

A conversa se deu entre uma mãe e uma filha.

A filha, jovem ainda, ardia em uma paixão teimosa. Havia feito todas as tentativas possíveis para estar ao lado de seu amado. Humilhou-se diversas vezes. Perdoou seus deslizes. Chorou um futuro que parecia decidido a não enlaçá-los. Ele parecia estar bem ao lado de uma outra. Ela imaginava os ditos que, da boca de seu amado, flechavam outro ouvido. Seria ele criativo e despejaria outras falas ou estaria repetindo o que um dia tanto a elevou? Estaria ele sentindo a sua falta ou a outra o preenchia plenamente? Enjoaria dela e voltaria para os seus braços, seu abraço, ou o melhor era não esperar nada disso e prosseguir? Cartas já foram enviadas. Mensagens também. Encontros com cheiro de acaso, muito bem planejados, deram em nada. Apenas um sorriso gentil e um “Como vão as coisas”? E nada mais. Mas, ontem ainda, havia fervura. Teria sido tudo um impulso, um desejo apenas? A efemeridade dos sentimentos é inaceitável para quem ainda os tem. Ele, definitivamente, havia esquecido as promessas de eternidade, os tantos “eu te amo” que tantas consequências trouxeram.

A mãe ouvia as dores e os argumentos da filha. Ouvia, apenas. Era disso que a filha precisava. Mas chegara a hora de algum remédio. As feridas estavam por demais doloridas. E incomodativas. Foi quando surgiu a pergunta: “Mãe, você já sofreu assim?”. A mãe olhou para trás e sorriu para dentro. “Diga, mãe. Você já se sentiu um nada, um troço qualquer, uma mulher trocada?”. Depois de uma pausa, não muito longa, vem a resposta. “Filha, é evidente que sim. Mais de uma vez. Eu sei como dói. Um buraco se abre. E quem nos ensina como remendá-lo?”

“Quem, mãe?” E foi quando a mãe, com a delicadeza que o momento exigia, lançou sua homenagem ao tempo. O tempo é senhor dessas circunstâncias. E é um senhor que não obedece aos nossos apelos. A dor não se vai no dia que decidimos.

“Mãe, um dia passa e a gente nunca mais lembra?”. Era a pergunta de quem ainda estava debutando no sofrer.

“Não digo que nunca mais a gente lembre, filha. Mas é uma lembrança diferente”. A filha quis saber, quis entender melhor.

“As feridas doem. As cicatrizes, não”.

A mãe foi acariciando a filha e dizendo que a sua alma era cheia de cicatrizes. Algumas de paixões que se foram, outras de amizades arruinadas, outras de dissabores da profissão, da lida. Outras de despedidas forçadas. Estavam todas ali enfeitando a sua alma. “Enfeitando, mãe?”.

“Sim, filha, o sofrer nos enfeita com uma magia própria. Quando mexemos nas feridas, a dor é horrível e elas demoram mais para cicatrizar. Mas quando viram cicatrizes – e delas nos lembramos -, lembramos mais da beleza dos sentimentos do que dos abandonos. Não se lamente por sentir o que você está sentindo. Você está viva. Apaixonada, ardente. O tempo fará você se lembrar desse tempo de uma outra maneira”.

“Aí será cicatriz e não ferida, né, mãe?”.

“Acho que já estou melhor, acho que já virou cicatriz”.

“Calma, minha filha, não é tão rápido assim. Mas um dia você abrirá a janela e respirará um outro ar e, subitamente, perceberá que está pronta para outras paisagens”.

Era um dia se despedindo quando se deu aquela conversa. E a janela estava aberta. Mãe e filha viram o pôr do sol. Quantos amantes, naquele mesmo instante, viam o mesmo pôr do sol sem saber se estarão juntos no amanhã? Quantos, de olhos fechados, impedem-se de assistir a essas fascinantes despedidas.

“Vou preparar uma comida gostosa para você. Se precisar chorar mais, chore. E não se envergonhe disso. É por amor e não por ódio que você está chorando”.

A filha olhou para a mãe e deu um sorriso há muito escondido. “Mãe, um dia eu vou ser igualzinha a você”.

“Cheia de cicatrizes, filha?” Riram juntas e se alimentaram uma da outra antes do jantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 29/10/2017

Francisco

“Que nome você quer dar a ele?” – era a pergunta que a mãe fazia ao filho.

“Francisco”.

“Francisco é nome de santo e não de cachorro”.

O filho ficou prestando atenção à resposta da mãe, enquanto olhava o olhar do cãozinho que acabara de chegar em casa para viver com eles.

Luciano, do alto dos seus 7 anos, explicou à mãe:

“Francisco é o santo que sempre gostou dos animais. Então, ele não vai ficar ofendido. Vai gostar. Pode ter certeza disso. Eu mesmo já expliquei para ele”.

“Explicou para ele como, menino?”

“Engraçado, né, mãe? Tem um monte de imagem de santo, aqui em casa, e a senhora não conversa com ninguém. Eu converso, uai”.

A mãe ficou perplexa diante do filho: “Nossa, nunca imaginei”.

“Eu vi o filme da vida de São Francisco, mãe. É muito lindo. Eu disse para ele que nós iríamos adotar um cachorrinho. E eu quase o vi sorrindo. É isso. E aí eu expliquei que o nome seria Francisco, embora eu vá chamá-lo de Chico”.

“Oh, meu filho. Acho que você tem razão”.

“Mãe, a gente aprende muito com os animais. Lembra do Spiff? Ele fazia festa toda vez que a gente chegava, ficava feliz quando saíamos com ele para passear, agradecia o menor carinho” – disse o garoto choramingando.

“Chora não, meu filho. O Spiff está no céu dos cachorrinhos”.

“Mãe, eu não sei se tem céu dos cachorrinhos. Eu sei que ele fez da nossa vida um céu. E agora é a vez do Francisco”.

“Olha aí Luciano! Ele acaba de fazer xixi”.

“Calma mãe. Ele aprende. Cachorro aprende mais fácil que gente”.

“Por que você diz isso, meu filho?”

“Já viu cachorro fazendo maldade mãe? Já viu cachorro com preconceito? Já viu cachorro exigindo alguma coisa para dar amor?”.

A mãe, que sempre se surpreendeu com Luciano, seu único filho, estava radiante de felicidade. Ela sempre teve medo das suas ausências. Viviam apenas os dois. O marido a deixara pouco tempo depois do nascimento do filho. Ela trabalhava duramente para manter a casa e dar o melhor ao menino. Invariavelmente, liam juntos à noite. Gostavam das histórias que nasciam das experiências de amor.

Durante o dia, pouco se viam. Vanessa tinha para si que, se ela falhava na quantidade, não podia falhar na qualidade. Os finais de semana eram lindos. Programas simples, mas juntos. O cachorro que morreu vivera com eles momentos preciosos de aconchego. Enquanto ela lia ou contava histórias ao filho, observava o menino deitado com o cachorro deitado nele, possivelmente, também atento à história. A despedida de um cachorro é sempre dolorosa. Depois de algum tempo, Luciano pediu um outro. A mãe concordou. E assim chegou Francisco que, por enquanto, olha assustado e faz xixi no lugar errado. Isso é pouco pelo muito de prazer que ele será capaz de proporcionar. Sem muito esforço. Apenas vivendo. Apenas festejando o estar vivo.

Pronto. O xixi já está limpo, e Francisco se espreguiça no colo de Luciano. E respira fundo como que sentindo as batidas de um coração menino. Viverão juntos por um tempo. Será um tempo bom. Um tempo de delicadezas e aprendizagens.

O Santo, cuja festa se deu no início deste mês, vê a cena e aprova. O nome e os afetos. É nessa fotografia que ele quer estar. O essencial está ali. Vanessa, Luciano, Francisco e uma arquitetura propícia para o alicerce da bondade. Se algo falta, o que está presente basta. Pelo menos é o que diz o rabinho acelerado do novo habitante daquela casa.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 22/10/2017

A salvadora de vidas

Passaram-se alguns dias. A dor não passou. As famílias de Janaúba ainda perambulam perdidas em pensamentos que não querem acreditar. Os mineiros, tão acostumados a contemplar suas montanhas, tão afeiçoados à prosa mansa, ao convite saboroso para um pão de queijo e um café fumegante, queimam-se de tristeza. O incêndio provocado foi no dia do aniversário do pai do tal fabricador de picolés que já havia denunciado a própria mãe por tentar envenená-lo. Não. Não vou falar sobre ele. Deixo a missão aos que estudam a mente humana e os seus desalinhos. Vou falar dela. A salvadora de vidas.

Quantas vidas salvou naquele dia a professora Heley de Abreu Silva Batista? Quantas vidas salvou em outros dias meneando seu corpo de um lado a outro para dar conta de entreter e acolher aquelas crianças? Quantas vidas iluminando, contando histórias e preparando festejos? Quantas vidas inspirou ao se dedicar a estudar as crianças que tinham alguma deficiência e que mereciam ser tratadas com dignidade e com oportunidades para prosseguir? A salvadora de vidas perdeu um filho em um triste dia de sol naquelas montanhas alterosas. Afogado em uma piscina. Afogou-se ela em lágrimas de uma mãe incrédula no enterro do próprio filho, de uma criança partida prematuramente. Chorou a dor mais doída. Fechou-se no luto dos que parecem desistir da luta. Não desistiu. Renasceu. Foi mãe novamente. Mais de uma vez. Prosseguiu. Sem nunca esquecer do que partiu naquele dia que poderia não ter existido. Quantas brigas com os pensamentos para tentar entender o que poderia ter sido feito.

O tempo passou. As crianças ocuparam o sagrado espaço do seu oráculo. Ser mãe, ser professora, ser salvadora de vidas. Ainda havia muitas ervas daninhas para separar das plantas que, ainda pequenas, deixavam de ser sementes e buscavam algum sol para crescer. A professora sabia disso. Sabia pelo que vivera. Sabia pelo que estudara. Sabia pelo que sentira. Sentia-se bem ali, naquela escola, até o nome lhe agradava: “Gente Inocente”. E estava perto o dia da criança. Todo dia é dia da criança. E estava perto o natal. A professora gostava dos serviços religiosos, da pastoral da família. Há muitas famílias em Janaúba olhando para os quartos vazios dos seus filhos que partiram antes. Há outras que, embora enlutadas também, olham as suas crianças sobreviventes e pensam na professora, na salvadora de vidas.

Quantos mistérios há nesta vida! Quanta dor acumulamos! Afinamos e desafinamos, como gostava de dizer o mineiro Guimarães Rosa ao explicar que vamos mudando, que não estamos prontos, que não somos sempre os mesmos.

Das tragédias também se aprendem lições. Desde o dia do incêndio, tenho pensado naquelas crianças e nas suas famílias. Tenho pensando nas três filhas da professora. Duas adolescentes e uma ainda bebê. Crescerão sem a sombra da mãe. Crescerão, entretanto, com a luz que não cessa mesmo quando quem amamos parte. A cidade mineira está triste, mas não deixa de estar iluminada. São os mistérios. Que não compreendemos. Que arrancam pedaços de nós, mas que, miraculosamente, se refazem aos poucos, com o sagrado tempo, para que consigamos prosseguir. A travessia – viva, Guimarães! -, é necessária. Prossigamos. Chorando os nossos amores, lembrando os nossos heróis.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 15/10/2017

As dores do Reitor

Morreu o Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Luiz Carlos Cancellier de Olivo não resistiu à dor da injustiça, não compreendeu a incompreendida ação contra sua dignidade e decidiu partir.

Morava ao lado da universidade. Vivia a vida da universidade. Foi acusado. Como tantos outros em tantas outras circunstâncias. Preso. Humilhado. Banido. Foi condenado? Não. Não pelo devido processo legal. Foi antecipadamente condenado, prematuramente condenado. Ele e tantos que se tornam vítimas de autoridades sem a maturidade necessária para o exercício do poder.

Há muitas manifestações de dor e de respeito ao reitor que partiu. Inclusive de setores da justiça. Dos que compreendem. Que lições podemos tirar? Os que o condenaram, antecipadamente, responderão por isso?

Há excelentes juízes e promotores e delegados e outras autoridades constituídas para fazer valer a justiça. Mas há tantos que embriagados pelo poder, pela síndrome do pequeno poder, pelos desequilíbrios de um aplauso fácil que não se contêm e se lançam ferozes contra a primeira vítima. E vão se alimentado do seu sangue e da sua dor. Tudo estampado nos jornais. Tudo apresentado pela “verdade fabricada” do noticiário televisivo. A perversa relação entre membros do ministério público e da polícia federal com a imprensa é caminho certo para a injustiça. Porque há excesso de pressa e ausência de cuidados. Por que é necessário dar entrevistas, divulgar fatos, vazar procedimentos no início de um processo investigatório? Onde está a cautela de quem deveria ter a responsabilidade de fazer valer o super princípio constitucional da dignidade da pessoa humana?

Um promotor de justiça que se lança com a fome dos urubus jamais cumprirá o seu dever. Devoradores ávidos, cegos pela própria necessidade de se alimentar do podre poder. Pena. A Constituição Federal de 1988 deu ao Ministério Público responsabilidades imensas. E, talvez, a maioria compreenda e assim aja. Mas os que se desviam causam um mal imenso ao país. Covardemente, sim, porque se escondem nos benefícios da instituição, atacam suas presas. E uma parte do judiciário prefere dar de ombros, lavar as mãos. Alguns por comodismo, outros por medo da imprensa. Triste imprensa que não se preocupa com a verdade, mas com a velocidade do que quer dizer. O fato? Importa menos que a versão, o preconceito.

Lá se foi um reitor, um educador. Foi triste. Prematuro. Viveu dias desnecessariamente amargos. Aprendamos com esse partir. A compaixão é um valor iluminativo ao direito. Compreender a dor do outro melhora a atuação dos profissionais que exercem poder. Se for muito pedir esse valor, ao menos a ética. O não fazer ao outro o que não gostaria que fizessem com você.

Não conheci o Cancellier. Conheci sua história e me entristeci. E me solidarizei e ousei sonhar com novos tempos. Tempos difíceis, hoje, em que os ódios se dissipam muito mais rapidamente que o amor. Que o sangue nos olhos impede a alma de se apresentar, em sua janela. O que se quer é o que queriam os que iam às arenas da Antiguidade ver os homens sendo devorados pelas feras? Então, não evoluímos?

Descanse em paz, reitor. Só me resta uma esperança. As boas sementes, um dia, desabrocharão e trarão novidades. Espero apenas que não demorem, há muita dor desnecessária por aí.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 08/10/2017

Amizade

A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.

Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, “quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”. Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece.

Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios.

O chão da amizade não oferece riscos de cortes, de sequelas. O chão da amizade é terra escolhida para a boa sementeira. O que se colhe de uma amizade? Sombras para os dias quentes, proteção para os dias de chuvas intermitentes, poesia para todos os dias. Mas nada planejado, nada buscado como troca de nada oferecido. Um caminhar, um encontrar, um conversar, um permanecer. A amizade é o antídoto dos tempos descartáveis. Os interesseiros se arvoram para sugar até o ultimo gole das tetas dos abastados. Lançam-se, sem amor próprio, em adjetivos à exaustão, em elogios a rodos, em busca de alguma participação na fortuna. Encolhem-se até para não parecerem famintos. E, se secam as benesses, partem em busca de um outro desavisado. Tristes dias, tristes figuras. Os amigos pouco se importam com o que não se deve importar. Efêmeros poderes, efêmeras posses. O que permanece quando as roupas luxuosas são retiradas é o que interessa aos verdadeiros amigos. Uma mesa, alguma bebida quente, fumegante, quem sabe. Um pão, talvez, Uma água vinda de alguma nascente pura. Puramente, permanecem ali a falar sobre a vida; a vida, esse presente inesgotável de novidades que nos surpreendem na rotina aquecida dos nossos olhares. Falar sobre os outros? Nem sempre é necessário. O calor do encontro amigo já é o bastante para estarmos bem. E quem está bem não carece de diminuir o outro. A amizade me eleva a patamares meritórios. Conquistados pelo simples fato de termos nascidos. Para o lugar do encontro. Sim, porque os desencontros foram invenções nossas. Algum descuidado resolveu competir, resolveu comparar, resolveu destruir, e, assim, os dias perdem os seus contempladores. Ah, os amigos contemplam as cenas comuns e pintam figuras extraordinárias. Viver é extraordinário. Desistir de viver, um desperdício.

A humanidade inventou tantas máquinas, algumas perversas, inclusive. Torturamos gentes e animais. Domesticamos os que viviam livres para nos servimos da sua dor. Por que isso foi acontecer? Quando se iniciou essa decadência? A liberdade é um presente que não se pode desconsiderar. A amizade é livre. Sem esse complemento essencial, ela nada é. Os que aprisionam não são amigos, os que machucam não são amigos, os que desrespeitam não são amigos.

A bebida quente em uma mesa e a ausência da pressa, o tal pão que inspirou uma oração e a gênese da palavra partilhar, a água pura que lava o que precisa ser lavado dentro e fora de nós. Tomar banho sem tampar o ralo para que as imprudências partam. E beber a água com a simplicidade necessária de quem sabe o que nos permite manter vivos, entrando dentro de nós e irrigando cada milagre. E depois nos levantamos, olhamos para o que nos resta da vida e, sem esforço algum, sorrimos o sorriso de quem se alimentou. Amizade é isso. Uma linha invisível aos que têm olhos de ver que nos conduz sem impedir que nos conduzamos para o melhor do que precisamos viver.

Muitos amigos? Não, não há necessidade nem tempo para, de todos eles, cuidar. É melhor que saibamos escolher, compreender. Sentemos, pois, à mesa sincera em que as palavras nascem do não planejado, apenas do esperado, para fazer amar. Amizade é a forma leve de amar. Prosa boa é a que poetiza os nossos dias. E nos deixa com um gosto de querência por outros amanheceres.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 17/09/2017

A chave certa

Vi, um dia desses, um homem com um molho de chaves tentando abrir uma porta. Passaram alguns segundos e ele insistia com a mesma chave. Eu olhava as outras chaves, ali, olhando para ele. Mas ele só via uma chave e só insistia com aquela chave, que, certamente, não era a chave certa para abrir aquela porta.

Lembrei-me de um homem chamado Teodoro,que tinha, também, um molho de chaves e que cuidava de uma Igreja. Cada chave abria uma porta. E ele sabia disso. Quando ele não ia, o molho de chaves ficava com a Sebastiana que também sabia que não adiantava insistir com uma chave que não abria aquela porta. Abria outras, mas não aquela.

Naquela época, também vi gente que, ao tentar com uma chave, desistia quando via que a porta não se abria. E eu ficava me perguntando por que não tentar com as outras chaves se há tantas no molho. Por que desistir na primeira tentativa fracassada? Por que não compreender que formato de fechadura exige uma chave. E que, mesmo que sejam muitas chaves, elas são diferentes e se prestam para abrir diferentes fechaduras. Há outra possibilidade também. Desistir da chave antes de saber se é ou não a chave certa. O que não é bom. Porque a pressa fará com que se tente uma chave após outra, e nenhuma delas abrirá a porta. O problema aí não é a chave, mas o jeito de usá-la. Acontece, muitas vezes, de alguém tentar abrir uma porta com uma chave e não conseguir, julgando ser a chave errada, e outra pessoa, usando a mesma chave, conseguir abrir.

Para se abrir uma porta, é preciso superar a teimosia e a impaciência. O teimoso insiste com a chave errada, e o impaciente não dá o tempo necessário para saber se é a chave certa ou errada.

O fato é que, na vida, haveremos de abrir muitas portas. E, para abri-las, precisaremos de muitas chaves. E de destreza. E de cuidado. Desistir no primeiro obstáculo demonstra pouco conhecimento da importância de abrir a porta. Insistir em demasia com a chave errada pode até prejudicar para sempre a fechadura. E a porta precisará ser arrombada, e arrombamentos podem machucar. E machucados nem sempre são fáceis de serem cicatrizados.

Teodoro e Sebastiana eram pessoas que viveram muito e que foram aprendendo, com o tempo, a colocar a chave certa, do jeito certo, e ver a porta se abrindo. Devem, naturalmente, ter errado muitas vezes. Os erros foram importantes para que percebessem a forma e o jeito certo de abrir a porta. O tempo deu a eles a sabedoria. O cuidado. A necessidade de se sentirem úteis abrindo portas. Quem sabe abrir também sabe fechar. Portas precisam ser fechadas. Ciclos vão se encerrando. A maturidade exige de nós outros posicionamentos. Quando escolhemos passar por uma porta, entramos em um novo cômodo e deixamos outro. Escolhas não são fáceis. Mas vivemos delas. Do que comemos à profissão que abraçamos. Do “sim” ou do “não” a um filho ao “sim” ou ao “não” aos nossos desejos. Teimosias atrapalham as nossas escolhas. Insistimos no erro da chave que não abre e desperdiçamos tempos preciosos. Passamos rapidamente de uma chave à outra sem saber, com certeza, se a que abandonamos não era a certa. E também desperdiçamos, porque o erro não estava na chave e, talvez ,demoremos para descobrir que o erro estava no nosso jeito.

Há muitos açodamentos. E a vida exige perícia, cautela, cuidado. Principalmente, quando lidamos com pessoas. Há muitos que dependem de nós e que esperam que estejamos com a chave certa e que a usemos do jeito certo para que uma nova porta se abra. E, com ela, um outro lugar. Um lugar desejado.

Um dia desses, um jovem, ao final de uma palestra, me disse que não suportava mais o seu trabalho. Mas que isso já havia se passado nos outros dois que ele havia abandonado. Fiquei apenas olhando. E ele prosseguiu tentando encontrar uma resposta se o erro estava no trabalho ou nele mesmo. Quando se tem dúvida já é uma possibilidade de acerto. Quem percebe a chave não abrindo e tem dúvida não abandona na primeira vez. Nem insisti em demasia com a mesma. O erro é da chave ou do meu jeito de abrir? O erro é do lugar em que estou ou é meu, de estar insatisfeito em qualquer espaço. Sabedoria não é privilégio apenas dos que vivem muito, mas é dom dos que querem abrir portas e encontrar o lugar correto.

Espero que o homem com o molho de chaves tenha a vontade de experimentar uma outra.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 06/08/2017

As escolhas de Alzira

Alzira trabalha em uma casa de família. Gosta do que faz. Trabalha na limpeza, na arrumação e, principalmente, na cozinha. Inventa receitas para agradar a família. Sonha, um dia, abrir um restaurante, mesmo que pequeno, para mostrar para mais gente o seu talento. Faz uma moqueca como ninguém. Sabe fazer à baiana e à capixaba. Faz todos os tipos de tortas e bolos. Enfeita até as saladas. O arroz com feijão tem algum segredo que ela não conta.

A patroa de Alzira a trata com muito carinho. Cada vez que há convidados para o almoço ou para o jantar, ela chama Alzira que recebe os aplausos como uma verdadeira chef de cozinha.

Alzira fica vendo, em seu celular, receitas de chefs famosos. Muda uma coisa aqui, outra ali. Concorda com o uso de alguns ingredientes; com outros, acredita que mistura o sabor, por isso muda. Faz do seu jeito e fica orgulhosa de ter a certeza de que sua receita melhora a original. E assim vai se surpreendendo e surpreendendo aos outros.

Alzira tem um filho de 6 anos, Mateus. Todos os dias senta com o menino e estuda junto com ele as lições da escola. Ela não pôde estudar como gostaria. O filho pode. O filho terá os caminhos mais abertos na vida, pensa ela. E, para isso, o estudo será o melhor companheiro. À noite, eles deitam juntos, e Alzira lê histórias para o filho. Ou inventa. Até que ele adormeça. Sonhando com palavras, personagens, vidas.

Em um dia de folga, Alzira estava indo com o filho na casa de uma amiga. Foi quando houve alguma confusão no ônibus em que estavam. E, então, ela viu que levaram o seu celular. O celular que ela mal havia começado a pagar.

A amiga disse que ela deveria ir à delegacia. Elas compraram juntas. E ela se lembra de que fizeram um seguro. Alzira foi. Foi bem atendida. O escrivão perguntou sobre o ocorrido. E ela explicou. Perguntou se houve violência ou ameaça contra ela. Ela disse que não. “Então, é furto”, disse ele. A amiga que estava junto explicou que era melhor que colocasse que fora roubo, senão o seguro não cobriria. O escrivão perguntou novamente a Alzira. Ela disse: “Não posso dizer que foi uma coisa, se foi outra”. O escrivão olhou para a amiga de Alzira. E para Alzira. Era apenas um detalhe. Era um celular novo. Comprado em 10 prestações. Só as duas primeiras haviam sido pagas. E agora teria que comprar outro. Bastava dizer que alguém a ameaçara com uma arma. Ninguém haveria de conferir. Ninguém ficaria sabendo.

A amiga de Alzira pediu ao escrivão que esperasse um pouco, que Alzira estava nervosa e que ela iria ajudar a amiga a se lembrar do ocorrido. Argumentou daqui, argumentou dali, Alzira ouviu atentamente. Disse-lhe a amiga que quem pagaria era uma empresa de seguro que tinha muito dinheiro, que ela ficasse tranquila. Depois de prestar muita atenção, Alzira explicou que gostaria demais que a tal seguradora pagasse, mas que não se sentia bem em mentir. A amiga voltou ao argumento de que ninguém ficaria sabendo. Foi quando Alzira concluiu: “Mas eu ficarei sabendo”. Voltaram ao escrivão e Alzira, já apressada, pediu que colocasse exatamente o que acontecera. “Foi furto, sim, doutor”. Saíram as duas da delegacia.

Na casa da amiga, estava Mateus, brincando com o filho dela. Alzira ficou pensando que teria que comprar rapidamente um outro celular. Não podia ficar sem. Falava com a família que mora em outro estado todos os dias. Saiu de lá como tantos para tentar uma vida melhor. E, no celular, estavam as receitas que ela pesquisava. E tinha as fotos que ela postava dos pratos tantos que elaborava com carinho. E os amigos que foi fazendo por ali.

Alzira sabe que já fez escolhas erradas na vida. O pai de Mateus foi um erro. Uma paixão que trouxe muita dor, mas que deu a ela o maior presente de sua vida, seu filho. Escolheu pessoas erradas para conviver e delas se desvencilhou. Quando olha para o passado, agradece pelo que aprendeu, mas gosta é do hoje. Da vida que tem.

Enquanto faziam bolo na cozinha, as duas conversavam. A amiga não quis mais tocar no assunto do celular. Falou apenas da insegurança das cidades, da violência que é um tormento, da injustiça que é tirarem da gente o que temos. Alzira, enquanto batia os ovos, foi ouvindo e dizendo: ” Por isso que eu gosto de ver o Mateus estudando. O estudo dele ninguém rouba, nem furta, não sei o jeito certo de dizer”. As duas riram. Prosseguiu Alzira: “Só sei que a gente não deve mentir”.

A mãe de Alzira está doente. E é a rocha sólida da vida da família. O pai de Alzira fez a mãe sofrer muito. Mas ela não quer mais pensar nisso. Gosta de lembrar do caráter, da firmeza, dos ensinamentos corretos da mãe. Alzira ainda toma a bênção da mãe todos os dias.

Mateus veio correndo e deu um abraço nas pernas da sua mãe. E disse que estava com fome. A mãe, orgulhosa do filho, sabia que tinha muito alimento para dar ao menino. O que cozia e o que fazia. O bolo de mandioca com coco, que estava terminando, e as lições de honestidade que nunca terminam. Foi por ele, também, que ela escolheu fazer sempre o que é correto. Se há outros que não se importam com os pequenos delitos, ela se importa. Que o Mateus seja o que quiser ser, exerça a profissão que quiser exercer, mas que escolha, desde cedo, ser bom, ser honesto e ser amoroso.

A amiga diz alguma coisa sobre políticos desonestos. Alguém no rádio estava falando sobre isso. Alzira pensa que é uma tristeza alguém não usar o poder que tem para fazer o bem. Escolhas erradas.

Enquanto olha o filho com aquele abraço apertado olhando para ela e pedindo comida, ela fica com lágrimas nos olhos, de felicidade, de gratidão por ser mãe de um menino tão lindo, tão bom.

Sobre o furto do celular? Ela nem está pensando mais.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 30/07/2017

Tempo de brincar

Li a reportagem sobre a reabertura do Hopi Hari. Fiquei feliz em saber que há espaço para matérias sobre parques e sobre brinquedos.

Longe de mim achar que temos de fechar os olhos para as graves crises que nos assolam. Precisamos de informações corretas e de opiniões edificantes. Precisamos de consciência política e de atitude corajosa frente aos erros tantos que maculam a imagem do nosso pais e a esperança que vive acanhada dentro de nós. Mas precisamos, também, de parques e de brinquedos. Precisamos de alegria. A alegria é um bom combustível para a inteligência. A criatividade que brota nas brincadeiras se estende nas várias formas de convivência e de solução de problemas.

Parques de diversão são um convite ao estar junto, ao rir, ao sentir e vencer o medo, ao se emocionar. É bonito de se ver os olhos ávidos de crianças que se lançam em cada atração. E de adultos que se permitem revisitar os melhores sentimentos da criança.

Já fui a muitos parques de diversão. Alguns pequenos, na minha cidade do interior. Ficava vendo a montagem do parque que funcionaria apenas durante a trezena de Santo Antônio, o Santo Padroeiro da cidade. E brincava o quanto podia. E, depois, via tudo sendo desmontado. A alegria partia um pouco e um pouco permanecia. Afinal, temos o humano poder da lembrança.

Menino ainda, fui a excursões nos parques de diversão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os dois, aliás, Playcenter e Tivoli Parque da Lagoa, já não existem mais. Mas me lembro das façanhas, dos medos, do correr cúmplice na chegada aos brinquedos, dos lanches, da ansiedade na ida e do cansaço da volta – éramos promessa, o tempo ainda não nos mostrava a sua face, a sua pressa.

Tínhamos pressa em brincar. Em rir. Em nos soltarmos da realidade para viver a fantasia desses mundos encantados. A volta para casa era cheia de relatos corajosos. Enfrentamos as montanhas russas mais íngremes, entramos na casa dos monstros, no rio cheio de ondas, nos gigantes aparelhos. Sem pestanejar. E falávamos aos nossos pais que vibravam com a nossa alegria.

Fico perplexo em ver a pouca disposição de alguns pais de ouvir os relatos dos filhos. Preocupam-se quando se trata de assunto preocupante como uma doença, mas, quando se trata de ouvir sobre brincadeiras, parece desnecessário. Não é. Cada relato de um filho compõe sua trajetória. E tão importante quanto o conteúdo a ser dito é o som da voz e o encontro do ouvir e o olhar de atenção e o partilhar de vidas que se dão em todo lugar, mas que, na família, precisa ser ainda mais cuidado.

Meu pai ficava em sua cadeira de balanços enquanto eu contava o que havia feito o parque. Do parque, passei a contar tudo o que fazia na vida. Erros e acertos. O que foi um aprendizado para mim. Soube, desde cedo, que não precisava mentir para ser amado. Meu pai me amava não pelas minhas notas altas, não pelas minhas façanhas de super-herói, mas por ser seu filho.

E um gigante parque reabre. Que boa notícia. Quero ir para lembrar o ontem e para viver, na minha idade, a idade que nunca morre quando prestamos atenção. É bom ser novamente criança. É bom deixar as rugas penduradas em algum canto das nossas preocupações e rir o riso livre, solto, generoso. E usar uma outra linguagem. E se permitir as lembranças que alimentam. Há tantas que desnutrem. Comer com os filhos. Abraçá-los. Aliviar os seus medos. Ter medos com eles. Enfrentar o que há por vir. E prestar atenção ao pôr do sol em um parque de diversões. Deixar a roda gigante substituir os gigantes problemas. Por um dia. Quem sabe esse dia tenha um poder milagroso.

Há parques em todos os lados. E, em todos os lados, é possível brincar. Nada contra os jogos tecnológicos, mas precisam as crianças das brincadeiras com gente. Das emoções que as gentes proporcionam.

Dias atrás, fiquei com três lindas crianças toda uma tarde. Contando histórias. Brincando de finais tristes ou felizes. Aqueles olhares ainda estão em mim. Saudade é uma palavra que tem destaque especial no meu dicionário. Saudade do meu pai. Dos parques da minha infância. Daquelas três crianças me pedindo para que eu repetisse, mais uma vez, a mesma história.

Precisamos de informações e de opiniões corretas, mas precisamos de sorrisos. E de brincar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 16/07/2017

Olhares de amor

Era um almoço em um dia comum. Dias comuns se sucedem e nos surpreendem quando permitimos. Sentei-me em uma cadeira confortável junto a uma mesa com alimentos preparados com muito cuidado.

Eles gostam de cuidar. Gostam de receber amigos. Gostam de palavras que unem. Estão unidos há 40 anos.

Carlos teve uma indisposição no dia anterior. Comeu alguns doces que não lhe caíram bem. Tomou algum medicamento e sentou-se para almoçar algo leve.

Beth sabia disso. Beth sabe de tudo o que se passa com o seu amor. Trabalham juntos. Sonham juntos. Vivem juntos uma juventude que desafia o tempo. Ah, eram muito jovens quando se viram pela primeira vez. Nem imaginavam o quanto seriam capazes de construir.

Carlos coloca pouca comida em seu prato. Beth presta atenção. Insiste que coma um pouco mais, mas que prefira o que é mais saudável. Para que melhore. Para que fique bem o quanto antes. Carlos parece estar distraído com a conversa. Ela insiste. Eles se olham. E foi aí que nasceu este artigo. Os olhares se cruzam, olhares de amor. Um amor que cuida, que se preocupa, que compreende que a vida de um e de outro ganha mais significado por estarem juntos.

Conheço outros casais assim. É difícil imaginar um sem o outro. Os tempos das labaredas da paixão dão lugar a uma brisa gostosa do amor. Do amor que respeita. Do amor que compreende. Do amor que se doa.

Não há amor onde não há entrega. Os que se fecham em si mesmos, os que se trancafiam em seus desejos, os que se imaginam o centro de tudo, esses se perdem nos egoísmos comuns dos que não amam. Os que assim agem, quando estão casados, exigem a renúncia do outro, querem o que não dão, acham-se – de alguma maneira – mais merecedores da realização pessoal do que o outro. Podem, inclusive, estar juntos há muitos anos. Mas, perdoe-me, sem amor.

Há histórias de violência e de acomodação. Há histórias de desrespeito e de humilhação. Vidas desperdiçadas. Piadas incômodas. Ditos mal escolhidos. Lembro-me de um marido dizendo, em tom de galhofa, que trocaria a mulher de 50 por duas de 25, que custariam menos e dariam mais prazer. Os filhos à mesa observavam os gestos do pai. Machismos colocam as mulheres como objetos. E não falo do ontem, mas do hoje. Cenas que se sucedem como uma sina triste de incompreensão de uma verdadeira história a dois.

Carlos diz a Beth que está melhor, que ela fique tranquila. Ela sorri. Ele prossegue dizendo: “Minha mulher é linda, não é?”. Eu aceno com a cabeça concordando. Beth diz alguma coisa que está mal arrumada, que trabalhou a manhã toda. E olha novamente para o seu amor. E ele me olha dizendo que é um homem de sorte, em um mundo tão grande, encontrar sua Beth, é bom demais.

Beth é mais tímida do que Carlos. Pega em sua mão. Agradece sorrindo. Ele pede licença e vai pegar alguma coisa. Ela começa a elogiá-lo, a dizer o quanto ele faz para ajudar as pessoas, o quanto ele se desdobra para que todo mundo esteja feliz. Reclama de alguns que não são corretos. Conta uma e outra história. Ele volta. Senta-se novamente. Pega a mãe de sua mulher e beija com carinho. E se olham. E me conta dos anos em que estão juntos. Já me falaram sobre isso outras vezes. Mas é sempre muito bom ouvir. E ver a sinceridade do enredo. As palavras bem colocadas nascidas dos sentimentos.

Chega a sobremesa. Eu lamento que o almoço esteja terminando. Era um dia comum feito extraordinário com aquele amor. Conversamos um pouco mais sobre a vida. Sobre os tempos difíceis que estamos vivendo. Sobre a necessidade de estarmos mais próximos. De nos aquecermos com os nossos afetos.

Chega o café bem quente. E eu conto, a eles, uma história que vivi com uma escritora. Perguntou-me ela se eu gostava de café. Eu disse que “sim”. Ela aumentou o entusiasmo para dizer que gostava muito. E respirou fundo dizendo que já sentia o cheiro. Que já estavam trazendo. Quando chegou o café, ela prosseguiu em seu prazer simples. E confidenciou-me que gostava, também, de mexer o café com o dedo, “esquenta o dedo da gente”.

Carlos e Beth riram, olharam para as suas xícaras, mas não quiseram experimentar a quentura do café no dedo. Preferiram continuar com o prazer do olhar, do sorrir e do me receber ali naquele recanto encantado de um dia comum.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 09/07/2017