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A força do bem

Tenho vivido momentos de profunda beleza na minha vida de educador. Em cada creche que tenho a oportunidade de inaugurar, ao lado do prefeito Fernando Haddad, vejo os olhos de esperança e a gratidão de pais que sabem que os seus filhos terão as oportunidades essenciais para o desenvolvimento de suas habilidades. Vejo as crianças sorrindo ainda surpresas com as novas descobertas. E vejo os professores ávidos por exercerem o ofício da generosidade. 

Professores ciosos da responsabilidade com a vida e com a história dessas crianças. Professores que se multiplicam para cuidar, para apresentar a novidade do aprender, para estimular, para caminhar juntos. Que bela profissão! Que escolha feliz!

Convivo, também, como todas as pessoas, com algumas que amanhecem aborrecidas pela vida sem significados. Detestam a felicidade dos outros. Praguejam contra o sucesso. E agem como seres venenosos, prontos para encontrar vítimas inocentes. São violentos com armas ou com palavras. São covardes que pensam em alimentar-se com a dor alheia. Mas não percamos muito tempo com esses seres infelizes. Não podem ter eles autorização para destruir nossa paz.

É preciso acreditar na força do bem. É preciso ter olhos de ver a bondade que nos surpreende a cada dia. Se há médicos insensíveis, há outros que fazem da sua profissão um permanente alívio na dor e na insegurança de tantos. Se há passageiros deselegantes nos ônibus e nos metrôs, há aqueles que cedem o seu lugar aos mais velhos, que se preocupam com as pessoas com deficiência, que cuidam para que ninguém seja atropelado em momentos de mais movimento. Se há injustiça na justiça, há operadores do direito que jamais negligenciam do poder e da responsabilidade que têm com a história de vida dos que a eles se achegam. Se há filhos que abandonam os pais, há outros que deles cuidam sem pestanejar. Ao contrário, amam sem economias aos que, sem economias, os amaram. 

Fala-se muito de policiais truculentos. E há. Mas é preciso reconhecer o caráter de tantos que não negligenciam os valores básicos do respeito e da retidão na profissão de cuidar da segurança de seus concidadãos. E assim acontece em outras áreas. Em outras profissões. Em outras relações.

Como é bom encontrar pessoas boas! Como é bom com elas conviver. É um combustível de esperança que nos recarrega para prosseguir. Gentis criaturas que nos sinalizam que, se há escuridão, no caminho logo à frente há luz. E é por isso que não se pode parar.

Dia desses, conversando com uma mulher que trabalha em uma escola, contou-me de sua alegria em preparar a refeição para as crianças. Disse do prazer em ver aquelas meninas e meninos se juntando, felizes, para comer. O prazer em alimentar os afetos dos filhos dos outros, já que o seu único filho ela perdera, vítima de uma doença que chegou e que nem deu tempo para despedidas. Com lágrimas nos olhos, ela me disse que era preciso prosseguir. 

Outro dia, uma professora que colocava os seus alunos pequeninos para dormir, um a um, contou-me da emoção que sente ao saber que, ali, eles estavam protegidos. Lamentou sobre crianças espancadas em lares doentes. E disse querer dedicar a vida às crianças porque já havia se desiludido demais com os adultos. 

Viveu a violência na própria casa e em casas alheias.

Aprendemos com os exemplos de bondade, mas também aprendemos com os perversos. Nas cenas cotidianas, se prestarmos atenção, recolheremos histórias que poderão iluminar as nossas.

Gosto de observar as pessoas e de me permitir o poder do encantamento.  Desde criança, a violência sempre me horrorizou. A falta de educação, de gentileza, as palavras ditas em tom errado, a mentira, o engodo. Cuidei para que esses não fossem os meus referenciais e para me convencer que ser bom é o melhor caminho para se chegar à felicidade. 

Sou grato aos professores que tive nas escolas em que estudei e aos professores da vida que me abrem os olhos, quando esses se cansam. Que me mostram as mãos enrugadas, mas valentes. Que me provam que o amor existe. Em cada canto. E que resistem aos que querem emudecer a bondade. Não conseguirão jamais. Basta olhar para o passado. De quem a humanidade se orgulha? Dos jogadores de pedra ou dos construtores do templo precioso que é o ser humano?

Fazer o bem vale a pena. O bem é durável, frutifica. O bem é amoroso, alimenta. Uma vida inteira. Várias vidas. Ensinou-nos Francisco de Assis, o que jamais deixou de acreditar no Amor, o que iluminou e ilumina as manhãs mais cinzentas desta nossa casa maior: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”. Que o Irmão Sol nos aqueça!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/06/2015

 

Sobre a paciência

Uma das frases que ficaram na minha caixa de memórias dentre tantas outras ditas pelo meu saudoso pai é: “Tenha paciência, meu filho”. Meu pai era um homem paciente. Era um homem generoso. O tempo foi seu bom companheiro. Ele envelheceu com sabedoria. E fez de tudo para que nós pudéssemos compreender que a paciência nos ajudaria a navegar, com mais leveza, a nossa nau.

Vejo com perplexidade o tanto de irritação que assalta as pessoas. De coisas corriqueiras a ações covardes. Da buzina desnecessária ao desrespeito com a demora de alguém. Da tentativa de levar vantagem furando a fila ao ataque nada correto nas redes sociais. O outro me irrita por alguma razão. Será que a irritação vem do outro ou das ausências de pensamento, de reflexão, de enredo da minha própria vida? A incapacidade de conviver com pessoas diferentes me torna um ser violento. Assistimos, recentemente, a cenas bárbaras de pedras jogadas em seres humanos. Irmãos nossos. Até onde vai a nossa intolerância! A que ponto chegamos! Nos tempos de absolutismos, senhores podiam valer-se da vida de seus servos. O ódio religioso, social, político, entre outros, já martirizou mulheres e homens bons. Não tiveram a paciência sequer de tentar entender as razões das acusações. Lançaram ao fogo ou pregaram na cruz ou lançaram fora a cabeça ou apenas fizeram desaparecer os que pareciam representar algum perigo.

Falamos, hoje, em dignidade da pessoa humana, em evolução, em respeito ao outro, em convivência pacífica. E, na prática, reproduzimos erros do passado. Meu pai nunca perdeu a fé. Era simples e grande. Foi se fazendo aos poucos. Foi construindo sua trajetória em cima do solo da dor e do afeto. Bebo dessa água e partilho da sua fé. Apesar de, muitas vezes, ficar impressionado com os estranhamentos que nos fazem tão pouco humanos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2015

 

Deus e a ciência

Certa vez, uma jovem estudante enviou uma questão para um dos mais famosos cientistas de todos os tempos, Albert Einstein. A pergunta era direta: “Cientistas rezam”? E ela explicava que se tratava de uma curiosidade que os instigava, ela e o grupo de estudantes do qual fazia parte. Queriam saber se é possível, ao mesmo tempo, acreditar na ciência e na religião.

Einstein respondeu, também diretamente, sem rodeios. Explicou que os cientistas acreditam que tudo o que ocorre no que nós conhecemos, incluindo os fatos da vida humana, deve-se às leis da natureza. Os nossos sentidos são capazes de apreender sobre esses fatos. Entretanto, admite Einstein, o nosso conhecimento dessas forças é imperfeito. Por mais que a ciência evolua, ou quanto mais ela assim o faz, os cientistas que se dedicam seriamente ao seu estudo acabam se convencendo de que um Espírito infinitamente superior se manifesta nas leis do universo. O trabalho científico, conclui ele na carta, leva a um tipo especial de sentimento religioso. Que nada tem de ingênuo.

Com alguma frequência, vejo alguns intelectuais tentando demonstrar que a crença em Deus significa a ausência da real inteligência do homem. Que se trata de uma necessidade de criar Deus para justificar o injustificável e que, com todo o conhecimento disponível, com tudo o que a evolução foi capaz de nos trazer, torna-se desnecessária a existência de Deus.

O papa Francisco, recentemente, falou sobre a convivência entre as teorias científicas e a fé. Buscar explicações para a evolução do mundo não significa desacreditar em uma Força Superior capaz de originar e de gerar a vida. Até hoje, a ciência não conseguiu chegar às razões primeiras de todas as coisas. Há um aspecto a ser considerado entre os ativistas ateus. O tanto que eles falam sobre Deus tentando fazer com que as pessoas deixem de acreditar. Se para eles, Deus não existe, por que gastar tanto tempo com Ele, então? Se alguns ateus criticam os fundamentalistas religiosos – e talvez tenham razão em fazê-lo –, precisam refletir se não estão se tornando fundamentalistas do ateísmo. Os radicalismos, os desrespeitos às crenças diferentes nos separam desnecessariamente. É possível e necessário conviver com as diferenças e aprender com esses convívios.

Desde muito cedo, afeiçoei-me às ciências sociais. Sou um leitor compulsivo. Gosto de estudar os clássicos e de reler teorias sobre temas que me instigam. A fé é um deles. Por um lado, há um caminho interessante a ser percorrido pelos filósofos e teólogos que gastaram a vida para nos dar explicações sobre a nossa presença no mundo. De onde viemos? O que fazemos por aqui? E para onde vamos? Por outro lado, enche-nos de esperança olharmos a fé das outras pessoas. A fé nascida na simplicidade e na experiência com a Bondade Infinita que nos ouve as dores e nos surpreende com milagres cotidianos. A experiência do homem com a natureza, a observação da vida nas suas mais variadas formas, o belo se manifestando em amanheceres e entardeceres frios ou quentes. E o agir humano. A manifesta caridade em mulheres e homens que, alimentados de fé, alimentam os seus irmãos.

É fato que há pessoas que não frequentam nenhuma religião e que praticam a caridade. Mas é fato, também, que a inspiração do que vem de Deus independe das religiões. As religiões deveriam nos religar ao Sagrado. Deveriam nos ajudar na ressignificação do que somos. A nossa relação com Deus repercute na nossa relação com os irmãos nossos.

Quão linda a prática e a oração de Madre Tereza de Calcutá. A mulher que nos ensinou que “quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Ou Francisco de Assis que assim orou: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”.

Os livros nos abrem horizontes, a ciência nos garante mais segurança, autonomia. Retira-nos véus de ignorância sobre os mais variados temas. E é bom saber que os estudos nos trazem novidades constantes. E, ratificando ou retificando verdades, a ciência vai evoluindo. 

Mas, voltando a Einstein, o nosso conhecimento é pequeno demais para compreender a grandeza do universo e de tudo o que existe além do que conhecemos. É preciso humildade para ser cientista e para se ter fé.

Acreditar em Deus não é desacreditar no homem, é – ao contrário – valorizá-lo como a inteligência criada pelo Artista para dar continuidade à obra, livremente, respeitando apenas os limites do amor, como nos ensina Agostinho de Hipona.

Ciência e religião podem, sim, conviver, caminhar em harmonia. Uma ou outra despertam, invariavelmente, em nós, a esperança. O prazer da descoberta. A importância da busca. Einstein, cientista e homem comum, fez das pesquisas e das descobertas a sua fé: “Quando abro a porta de uma nova descoberta já encontro Deus lá dentro.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/06/2015

Inveja

Tenho um programa de televisão, todas as quintas-feiras, na Rede Vida. Chama-se “Caminhos” e vai ao ar às 23h. O tema desta semana foi “inveja”. Parte do programa é feito com os comentários, acerca do tema escolhido, de meus seguidores no Facebook. As participações são sempre muitas. Mas fiquei impressionado ao ler, em minha fan page, a quantidade de depoimentos sobre este horrendo vício que é a inveja. Pessoas que tiveram suas vidas destruídas. Perderam emprego. Adoeceram. Viram a família sendo arruinada por atitudes inexplicáveis de quem se dizia próximo, amigo.

Gostei de uma mulher, em especial, que deu uma explicação interessante sobre a diferença entre a inveja e a cobiça. A inveja, disse ela, é ainda pior do que a cobiça. A cobiça é desejar algo do outro para mim. A inveja é desejar destruir algo do outro. Ou destruir o outro. Na cobiça, eu quero o lugar dele, o que já não é correto. Na inveja, eu quero acabar com ele, mesmo que eu não possa ter o seu lugar. O que me incomoda é vê-lo feliz. Costumo dizer que o amigo verdadeiro não é apenas aquele que o ajuda nos momentos em que você mais precisa. Talvez isso seja fácil. O amigo verdadeiro é aquele que vibra com suas vitórias, porque não as inveja. A inveja é um caso sério de desamor, por si mesmo e pelos outros. O invejoso é, sem dúvida, atormentado. É mal resolvido. É ausente dos melhores sentimentos. Quem é generoso, paciente, bondoso, definitivamente, não é invejoso.

Diz São Paulo sobre o amor a que ele chama de caridade:  “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade”. Evidentemente a inveja dos outros nos incomoda, mas vale a pena refletir, se, vez ou outra, esse mal sentimento não nos toma de surpresa. Errar é parte da caminhada. Corrigir e prosseguir, também.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/06/2015

 

O menino da porteira

Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.

Eu era menino ainda quando fui assistir ao filme “O menino da porteira”. Morávamos em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, e lá não havia cinema. Tínhamos uma casa em Caraguatatuba. Íamos nas férias. Era uma casa simples que tinha apenas um quarto grande, uma cozinha, uma varanda e dois banheiros. Dormíamos todos juntos. Meus pais, eu, meus três irmãos e a Rosa, uma mulher que ajudou a nos criar. Algumas vezes, iam também meus avós e tia Leila. Não sei como cabia todo mundo. Sei que era uma festa, desde os preparos para pegar a estrada até a chegada à praia. Minha mãe passava a noite cozinhando. Levávamos comida na praia. Eu nem dormia na véspera da viagem. Empolgação de criança. A casa ficava na rua do cinema. E foi a primeira vez que fui assistir a um filme.

Assisti a “O menino da porteira”, um dos maiores sucessos da bilheteria da época. Um filme baseado em uma canção. Uma linda canção de Tedy Vieira:
 
Toda vez que eu viajava pela estrada de ouro fino


De longe eu avistava a figura de um menino


Que corria abrir a porteira depois vinha me pedindo


“toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo


Quando a boiada passava e a poeira ia baixando


Eu jogava uma moeda e ele saía pulando

”

obrigado boiadeiro que Deus vá lhe acompanhando”


Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando (….)

Olhos fitos na tela, vivi profundas emoções. A beleza da tela grande. Do som. Das personagens. Da canção. Da história daquele boiadeiro. Tudo aquilo foi tomando conta de mim. Até o final do filme. Voltei para casa triste. Chorei. Fiquei deitado pensando nas despedidas. Não me lembro muito bem dos detalhes do que pensei, lembro que fiquei triste. E resolvi ir novamente ao cinema no dia seguinte e no outro e também no outro. Fui ver seguidas vezes o mesmo filme. E voltava chorando. Era um menino, já disse.

Quando minha mãe quis entender por que eu ia todos os dias, já que todos os dias eu voltava chorando, respondi algo de que me lembro bem: “Será que sempre o menino morre no final”? Minha mãe ainda se lembra dessa história. E de tentar me explicar que era apenas um filme. E que os filmes tinham sempre o mesmo final, independentemente da nossa vontade. A canção que inspirou o filme determinou este desfecho:

Pros caminhos desta vida muito espinho eu encontrei


Mas nenhum calor mais fundo do que isto que eu passei


Na minha viagem de volta, qualquer coisa eu cismei


Vendo a porteira fechada o menino não avistei



Apeei do meu cavalo num ranchinho à beira chão


Vi uma mulher chorando quis saber qual é a razão
”boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão


Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”

Revisitando esses tempos de inocência, penso em quanto é importante para as crianças os cenários imaginativos das várias linguagens da arte. O cinema, a contação de histórias, as conversas, o território sagrado do brincar e do conviver. Os espinhos todos, nós encontramos e encontraremos na vida. Eles nos causam emoções doídas. Mas se tivermos a oportunidade de uma educação que nos ajude a compreender nossa trajetória e nos ajude a sermos dela protagonistas essas dores nos farão mais bem do que mal. Conhecermos o sofrimento nos ajuda a compreender o sofrimento dos outros e a termos compaixão. Vez ou outra, lembro as dores que já me incomodaram. Irmãos meus que morreram. Meu pai. Amigos que se foram. Dores da injustiça – como doem as injustiças! E me lembro desse filme e daquele menino que eu gostaria que tivesse sobrevivido àquela boiada. A homenagem do boiadeiro ao amigo que partiu, prematuramente, foi o respeito em não mais tocar o berrante naquelas bandas:

Lá pras banda de ouro fino levando gado selvagem


Quando passo na porteira até vejo a sua imagem


O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem


Daquele rosto trigueiro desejando-me “boa viagem!”



A cruzinha no estradão do pensamento não sai


Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais


Nem que o meu gado estoure que eu precise ir atrás


Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais.

A homenagem que tento fazer aos sofrimentos que vivi é tentar compreender os sofrimentos do outro e ajudar o outro a prosseguir. Em outras palavras, é combater, a todo custo, a indiferença. Sou profundamente grato à família que tive e tenho. Aos amigos que fui acumulando. Aos que me estenderam a mão e compreenderam minhas imperfeições. E assim tento agir com os outros que encontro por aí e que de mim precisam. Que as nossas emoções infantis, as ingênuas, as puras, as dolorosas e as alegres nos ajudem a ressignificar nossa vida. O hoje se alimenta do ontem e nos ajuda a escrever o amanhã.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/06/2015

Lembra de mim?

Ouço com alguma frequência esta pergunta: “Lembra de mim?”.  Às vezes, lembro. Às vezes, não, como todo mundo. Fico um pouco preocupado em responder que não lembro. Acho deselegante, afinal, a pessoa vem com tanta expectativa que não me parece correto desapontá-la. Mas também não gosto de mentir. Então, fico revirando minha caixa de memórias para tentar identificar o meu interlocutor. Exatamente como na divertida crônica de Luis Fernando Veríssimo: O grande Edgar. Só que, nessa história, a confusão era ainda maior, pois o interpelado não era quem o interpelador pensava que fosse.

De qualquer forma, quando sou surpreendido com a fatal pergunta, costumo sorrir, esperando  que a pessoa diga, naturalmente, de onde nos conhecemos. Algumas me salvam nessas embaraçosas situações, dizendo: “Lembra de mim? Fui seu aluno na PUC!”.  Ufa, fica mais fácil.

Dia desses, um homem me abordou e demorou a dizer de onde nos conhecíamos. Ele falou: “Professor, não tem como o senhor se lembrar de mim. Fui seu aluno no Colégio Friburgo, em Santo Amaro, há mais de 20 anos. Eu era um adolescente e nunca mais me esqueci de suas aulas”. Contou-me algumas histórias que eu contava, lembrou-me de alguns projetos. Fiquei comovido. Disse-me ele que tinha muitos medos e que eu fui significativo em sua transformação.

Sou muito grato por esse ofício de ser professor. Não sei com quantos alunos, em todos esses anos, tive a honra de conviver. Sei do poder que temos quando entramos em uma sala de aula e nos deparamos com mulheres e homens carentes de espaços e de orientação para que protagonizem a própria história. Lembro-me de professores inesquecíveis que me alimentaram de futuro e que me ajudaram a compreender que eu poderia fazer escolhas corretas. Ao final da conversa, agradeci o carinho e disse-lhe que, agora, seria eu a não me esquecer de sua gratidão. Coisas da vida. Como diria Guimarães Rosa, “Mestre não é aquele que ensina, mas quem de repente aprende”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/05/2015

Onde anda a verdade?

Bons tempos os nossos em que as mídias sociais surgiram para democratizar a informação e aproximar as pessoas. Com alguns toques, podemos divulgar uma ideia, um evento, um chamamento a uma causa. Em pouco tempo, milhões de pessoas poderão se conectar com o que se quer apresentar. De lançamento de livros a defesa de conceitos. Desde a mobilização para uma caminhada em defesa de algum ideal até a venda de móveis ou imóveis. E tantas outras benesses. Podemos pesquisar sobre pessoas com as quais vamos nos encontrar. Sobre temas. É muita mudança em pouco tempo. Esse é o lado bom. Mas há um outro lado e, sobre esse, é preciso nos debruçarmos com alguma frequência, pois se refere a um valor que é essencial para a vida em sociedade: a verdade.

Onde anda a verdade nestes tempos virtuais? Quantas histórias absurdas são acessadas por pessoas, de todos os cantos, que acreditam no que é absolutamente mentiroso? Desde o erro até a perversidade. O erro pode ser um texto atribuído a Clarice Lispector, por exemplo, e que ela nunca tenha escrito. E de um em um, a mentira vai ficando verdadeira. Pode ser que o primeiro a afirmar tenha feito não por maldade, mas por descuido. E há o perverso. Aquele que quer destruir a imagem de alguém e que cria histórias mentirosas para que os que sofrem com a ausência de senso crítico as divulguem. Tenho escutado as mais absurdas histórias de pessoas que leram no Facebook ou no Twitter, ou em algum blog, alguma informação sobre alguém e resolveram acreditar e decidiram espalhar. Cenários ruins para quem preza a verdade.  

Podemos criticar, opinar, convergir ou divergir; tudo isso enriquece a democracia. Mas inventar é tosco, desonesto e só colabora para que o erro se sobreponha ao correto. Antes de espalhar o que se lê, não custa um pouco de cuidado. Estamos falando de vidas humanas e de seus ideais. De pessoas e de biografias que têm sentimentos e serviços prestados a uma causa. Um pouco de cuidado não faz mal a ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/05/2015

 

Maria e os pequenos

Dia 13 de maio, como acontece todos os anos, foi o dia em que cristãos de várias partes do mundo celebraram a festa de Nossa Senhora de Fátima. Ocorre que, em 13 de maio de 1917, Nossa Senhora apareceu a três crianças que pastoreavam um rebanho – Lúcia, Francisco e Jacinta -, na Cova da Iria, um bairro da freguesia de Fátima, em Portugal. E continuou a aparecer nos meses seguintes. Sempre no dia 13, com exceção do mês de agosto porque as crianças estavam presas. Nesse mês, ela apareceu no dia 19. Os homens da época desconfiaram das crianças. Por que Nossa Senhora escolheria crianças para trazer sua mensagem? E crianças pobres? Por que não revelaria seus segredos aos doutos das leis? Por que não falaria diretamente àqueles que tinham o poder de acabar com a guerra? A guerra que, em qualquer tempo, dilacera pessoas e sentimentos. A guerra que demonstra a incapacidade de solucionar conflitos com a inteligência. A guerra que apresenta nossa covardia. Quantas guerras se sucedem nas violentas relações entre as pessoas, inclusive dentro dos lares? Somos nós, adultos, que toleramos menos os nossos semelhantes. Nós, preenchidos por preconceitos e por pouca compaixão.

Maria escolheu os pequenos. As crianças, puras e verdadeiras. Os que não estavam viciados pelo poder. Os que tinham olhos de ver e mentes abertas para a luz que os iluminou. O clarão talvez cegasse os olhos céticos dos que se sentem acima do bem e do mal, senhores da razão. Os pequenos brincavam na terra. Riam. Corriam. E preenchiam-se uns dos outros, sem nenhuma preocupação em nada receber. Receberam a linda mensagem. Entraram para a história. Simples. Anunciadores de um anúncio. 

É preciso rezar mais e guerrear menos. Amar mais, compreender mais, para experimentar, já aqui, as delícias do Céu. Que é abertura e não fechamento. Abertos pela simplicidade, as crianças acolheram Nossa Senhora e sua mensagem. Os pequenos têm muito a nos ensinar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/05/2015

Mulheres fortes

“Meu marido teve que escolher: a bebida ou eu”, disse-me uma mulher em um evento na periferia de São Paulo. “Expliquei para ele: Deus te deu uma mulher maravilhosa. Eu sou maravilhosa, mas se você acha que vou de bar em bar para te buscar, esqueça”. Tudo isso ao lado do marido, que concordava mexendo a cabeça. A mulher prosseguia explicando que, quando namoravam, já suspeitava que ele tinha umas atitudes inadequadas. Ela ameaçou não casar. Ele melhorou. Depois do casamento, voltou ao erro. “Comigo não pode sair da linha”. E o marido olhava com olhos apaixonados para a mulher que falava pelos dois. 

Uma outra senhora explicou que não tinha mais filhos nem netos na creche, mas como gostava muito do bairro, passava de vez em quando nas creches para ver se algo estava fora do lugar. “Está tudo em ordem. Se não tivesse, eu falaria. Eu tomaria providências”. Uma outra falou sobre o sistema de saúde. Disse o que funcionava e o que faltava. E assim, as líderes comunitárias foram desfilando suas opiniões, com uma autoridade impressionante. Havia homens na conversa, mas eram elas, as mulheres fortes da periferia, que falavam mais, que apontavam problemas e apresentavam soluções. Soluções de quem ama o lugar em que vive, de quem não admite violência, de quem busca fazer de cada canto da cidade um canto bom para se viver. Bem informadas. Guerreiras. Cientes de que o mundo mudou. São elas que chefiam as famílias e que protagonizam as mudanças necessárias para que a cidade não deixe ninguém para trás. Confiam na educação como o caminho mais eficaz para que os filhos tenham uma vida digna. Enfrentam as adversidades com valentia. Não querem ser Amélias. São as mulheres de verdade que assumem o comando da própria vida e avisam ao medo que “sexo frágil” é um termo que não existe em seus dicionários. 

Saio revigorado desses encontros. Aprendo muito. Admiro quem não se entrega. Quem luta por suas convicções e faz história. Fiquei imaginando a luta daquele homem para não perder seu grande amor. Como diz a canção: “Aquilo sim é que era mulher”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/05/2015

 

Dia do trabalho

Uma mulher me respondeu com um sorriso contagiante quando eu lhe dei um simples “tudo bem?”. A resposta foi intensa: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Ela trabalha na limpeza da escola. Não mora tão perto. Acorda bem cedo. Pega mais de uma condução. Quando chega em casa, tem outra jornada com o marido e os filhos. E é feliz.

Tenho muito respeito pelos funcionários das escolas. Os que limpam os espaços em que educamos, os que preparam o alimento das crianças, os que cuidam para que tudo esteja em ordem para nós, professores, realizarmos nosso ofício. Sou muito feliz por ser professor. E escritor. E sempre que converso com jovens sobre profissões, tento ajudá-los a perceber que a melhor escolha é fazer aquilo que nos realize, que nos faça perceber que podemos ser úteis à sociedade. Não há profissões superiores ou inferiores. Todo trabalho é digno, quando feito honestamente. Mas é preciso ir além. É preciso ter o entusiasmo daquela mulher que encontrou naquela escola o seu canto de realização. Podemos lutar por nossos direitos, buscar melhores condições de trabalho. O papa Francisco disse, nesta semana, que é escandaloso mulheres ganharem menos que homens para exercer a mesma função.

Há ainda um longo caminho para valorizar as pessoas e as profissões, para dar dignidade a todos e acabar com preconceitos. Mas há um outro fator, de extrema importância, também, que é o encontro com nossa própria vocação, com o que, de fato, nos diga se estamos ou não no lugar certo. Como é ruim encontrar pessoas que detestam o próprio trabalho, que detestam o que fazem e que não encontram disposição para buscar novos caminhos. Vidas desperdiçadas. Sem sermos felizes naquilo que fazemos, dificilmente faremos algo de bom para outras pessoas. Com gestos amargurados, contaminamos o ambiente e a nós mesmos. Sempre é tempo de ressignificar nosso trabalho, de redescobrir a chama que nos faz iluminar pessoas com simples respostas como esta: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Feliz dia do trabalho.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/05/2015