Tenho vivido momentos de profunda beleza na minha vida de educador. Em cada creche que tenho a oportunidade de inaugurar, ao lado do prefeito Fernando Haddad, vejo os olhos de esperança e a gratidão de pais que sabem que os seus filhos terão as oportunidades essenciais para o desenvolvimento de suas habilidades. Vejo as crianças sorrindo ainda surpresas com as novas descobertas. E vejo os professores ávidos por exercerem o ofício da generosidade.
Professores ciosos da responsabilidade com a vida e com a história dessas crianças. Professores que se multiplicam para cuidar, para apresentar a novidade do aprender, para estimular, para caminhar juntos. Que bela profissão! Que escolha feliz!
Convivo, também, como todas as pessoas, com algumas que amanhecem aborrecidas pela vida sem significados. Detestam a felicidade dos outros. Praguejam contra o sucesso. E agem como seres venenosos, prontos para encontrar vítimas inocentes. São violentos com armas ou com palavras. São covardes que pensam em alimentar-se com a dor alheia. Mas não percamos muito tempo com esses seres infelizes. Não podem ter eles autorização para destruir nossa paz.
É preciso acreditar na força do bem. É preciso ter olhos de ver a bondade que nos surpreende a cada dia. Se há médicos insensíveis, há outros que fazem da sua profissão um permanente alívio na dor e na insegurança de tantos. Se há passageiros deselegantes nos ônibus e nos metrôs, há aqueles que cedem o seu lugar aos mais velhos, que se preocupam com as pessoas com deficiência, que cuidam para que ninguém seja atropelado em momentos de mais movimento. Se há injustiça na justiça, há operadores do direito que jamais negligenciam do poder e da responsabilidade que têm com a história de vida dos que a eles se achegam. Se há filhos que abandonam os pais, há outros que deles cuidam sem pestanejar. Ao contrário, amam sem economias aos que, sem economias, os amaram.
Fala-se muito de policiais truculentos. E há. Mas é preciso reconhecer o caráter de tantos que não negligenciam os valores básicos do respeito e da retidão na profissão de cuidar da segurança de seus concidadãos. E assim acontece em outras áreas. Em outras profissões. Em outras relações.
Como é bom encontrar pessoas boas! Como é bom com elas conviver. É um combustível de esperança que nos recarrega para prosseguir. Gentis criaturas que nos sinalizam que, se há escuridão, no caminho logo à frente há luz. E é por isso que não se pode parar.
Dia desses, conversando com uma mulher que trabalha em uma escola, contou-me de sua alegria em preparar a refeição para as crianças. Disse do prazer em ver aquelas meninas e meninos se juntando, felizes, para comer. O prazer em alimentar os afetos dos filhos dos outros, já que o seu único filho ela perdera, vítima de uma doença que chegou e que nem deu tempo para despedidas. Com lágrimas nos olhos, ela me disse que era preciso prosseguir.
Outro dia, uma professora que colocava os seus alunos pequeninos para dormir, um a um, contou-me da emoção que sente ao saber que, ali, eles estavam protegidos. Lamentou sobre crianças espancadas em lares doentes. E disse querer dedicar a vida às crianças porque já havia se desiludido demais com os adultos.
Viveu a violência na própria casa e em casas alheias.
Aprendemos com os exemplos de bondade, mas também aprendemos com os perversos. Nas cenas cotidianas, se prestarmos atenção, recolheremos histórias que poderão iluminar as nossas.
Gosto de observar as pessoas e de me permitir o poder do encantamento. Desde criança, a violência sempre me horrorizou. A falta de educação, de gentileza, as palavras ditas em tom errado, a mentira, o engodo. Cuidei para que esses não fossem os meus referenciais e para me convencer que ser bom é o melhor caminho para se chegar à felicidade.
Sou grato aos professores que tive nas escolas em que estudei e aos professores da vida que me abrem os olhos, quando esses se cansam. Que me mostram as mãos enrugadas, mas valentes. Que me provam que o amor existe. Em cada canto. E que resistem aos que querem emudecer a bondade. Não conseguirão jamais. Basta olhar para o passado. De quem a humanidade se orgulha? Dos jogadores de pedra ou dos construtores do templo precioso que é o ser humano?
Fazer o bem vale a pena. O bem é durável, frutifica. O bem é amoroso, alimenta. Uma vida inteira. Várias vidas. Ensinou-nos Francisco de Assis, o que jamais deixou de acreditar no Amor, o que iluminou e ilumina as manhãs mais cinzentas desta nossa casa maior: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”. Que o Irmão Sol nos aqueça!
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/06/2015

Certa vez, uma jovem estudante enviou uma questão para um dos mais famosos cientistas de todos os tempos, Albert Einstein. A pergunta era direta: “Cientistas rezam”? E ela explicava que se tratava de uma curiosidade que os instigava, ela e o grupo de estudantes do qual fazia parte. Queriam saber se é possível, ao mesmo tempo, acreditar na ciência e na religião.
Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.