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Multiplicar o quê?

No domingo passado, ouvi atento à  homilia do padre explicando o milagre da multiplicação dos pães. A história é fácil de compreender. Os homens que seguiam Jesus eram muitos, mais de cinco mil. E chegou a hora de se alimentarem. Uns acharam que o melhor era fazê-los ir embora para que se virassem e comessem em suas próprias casas, ou arranjassem, de outra maneira, o próprio sustento. Jesus não concordou com essa lógica, embora fosse ela a mais fácil – deixar que cada um se virasse era melhor do que ter o trabalho de cuidar de todos. Jesus, com alguns peixes e poucos pedaços de pão, alimentou a todos e ainda sobrou. Além dos homens, serviram-se as mulheres e as crianças. E sobrou. A lição da partilha se repete em outras situações do cotidiano. Com coisas e com sentimentos. Poderíamos inverter a ordem. Partilhar sentimentos. Os melhores sentimentos. Fazê-los multiplicar. 

 

Quais são os melhores sentimentos? Um dia desses, uma senhora me disse que havia cansado de ser boa. Que ninguém respeita uma pessoa boa. Que não quer passar por tola. Que iria dar um basta. Já ouvi de outro homem que cansou de ser honesto e que, se há no mundo tanta gente desonesta, por que ele persistiria sem negligenciar os ensinamentos éticos que bebeu no chafariz do seu pai? É comum que o traído não acredite mais na confiança, que o usado duvide da sinceridade do amor. 

Há muita gente por aí multiplicando ódio. Discípulos da mentira fazem de tudo para mostrar que são todos iguais. Que a falsidade é matéria constituinte do que somos. Que o egoísmo nos leva longe. Longe onde? Certamente, longe de nós mesmos. Narciso olhou tanto para a própria imagem que perdeu os olhos e todo o resto. Os sentimentos egoicos nos enlameiam nos lagos toscos do falso poder. Multiplicarmos essas atitudes não nos leva aonde deveríamos estar.

Naquela relva, junto a Jesus, as pessoas confiaram no que haveriam de receber. O alimento da alma e do corpo. As histórias que ensinariam a escolher os caminhos corretos e o que comeriam. Sem pressa. Sem a tentação de acumular mais, porque poderia faltar depois. Apenas estavam ali, vivendo a multiplicação.

Sou daqueles que ainda acreditam nos exemplos, nos referenciais, nos que nos elevam por suas atitudes. Há mulheres e homens desconhecidos dos holofotes que multiplicam no seu cotidiano a bondade. Conheço líderes comunitários das periferias das grandes cidades que multiplicam a vida no cuidado das vidas que ninguém cuida. Chefes de famílias que são exemplos de retidão. Professoras e professores, cientes do poder de abrir as portas e apresentar o que há por vir, sem direcionar qual o caminho que devem seguir os seus aprendizes, preservando a autonomia. Respeitando a liberdade dos que têm o direito de protagonizar o próprio viver.

Conheço religiosas e religiosos que têm, na vida, uma inspiração de servir a Deus e ao seu próximo. Que encontram alegria nisso e que são livres multiplicando os dons para semear em terras nem sempre tão férteis. Mas prosseguem. Cantando a liberdade e agradecendo a escolha.

Conheço jovens que não se rendem ao prazer fácil, que prezam por suas vidas e que cultuam utopias. Enquanto há sonho, enquanto há indignação, a juventude não se esvai. Multiplicam eles as aspirações de mudar o mundo sem permitir que lhes abortem esses ideais.

Conheço gente que é gente e que gosta de gente. E, exatamente por isso, acreditam na travessia. Curta ou longa. Mas com significados. Multiplicam na vida a conjugação do verbo amar. E, exatamente por isso, são capazes de sentar nas relvas e aprender. Ouvir as lições do mestre e praticá-las. Ser também distribuidores dos alimentos que alimentam a vida e os viventes. Irmãos de caminhada.

Foi isso o que entendi daquela homilia e compartilho com vocês. Saibamos o que multiplicar. E não mudemos o rumo quando presenciarmos outros que, infelizmente, optaram por abandonar o belo e o bom, enfeando, com os exemplos e as palavras, esse pedaço do universo que nos foi dado de presente para construir a nossa morada. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/08/2015

Coragem para amar

Diz Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”. O filósofo escreveu sobre a conduta humana, sobre os erros e os acertos que cometemos em nossa trajetória. Confessou ele os dissabores que viveu. Falou de escolhas equivocadas. Dos males que a ausência de amor é capaz de causar. E nos iluminou com a esperança.

O olhar atento ao mundo talvez seja motivo para desacreditarmos do ser humano. As misérias humanas não nos surpreendem mais. Acostumamo-nos com a maldade, com a mentira, com a injustiça, o que é triste e demonstra que estamos negando nossa própria essência. Perdemos nossa capacidade de indignação. Acovardamo-nos diante da vida. Cada vez menos falamos de valores como generosidade,companheirismo, respeito e compaixão. Interesses pouco humanos estão transformando as nossas relações em palcos de guerra. Guerreamos contra o diferente ou contra o semelhante que pode ocupar o nosso espaço – tosca impressão, porque nada nos pertence. Partiremos, um dia, como chegamos: carregando apenas uma chama inapagável que se chama amor. É o amor que nos identifica, que nos retira da multidão, que nos faz únicos. Entretanto, com essas turbulências todas, é preciso coragem para amar, para não se deixar levar pelos equívocos de um aplauso rápido por ter atingido alguém com a pedra da crueldade. A vítima é um irmão meu. Um irmão é como uma parte de um mesmo corpo. Quando atingido, o corpo todo dói. Talvez por isso uma dor comum nos adoeça. Doentes ficamos todos quando não nos indignamos ao ver as injustiças contra o nosso irmão. Fechar os olhos não resolve a dor alheia nem a nossa.

Coragem. Se não temos o poder de mudar o mundo, mudemos o mundo que nos cerca. Comecemos uma silenciosa revolução no nosso entorno, mostrando que somos capazes de fazer as escolhas corretas. Com aquilo que fica para sempre: Amor, amar. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/07/2015

 

Globalização da indiferença

Acompanhei o prefeito Fernando Haddad em um evento com o Papa Francisco, na última semana, no Vaticano. Estavam prefeitos e outras lideranças de várias partes do planeta.

O Papa convidou a todos para refletir sobre a vida nas cidades e as consequências da globalização da indiferença. O encontro tinha como base a Encíclica Laudato si que traduz a voz do Sumo Pontífice sobre a Casa que é de todos.

Nos pronunciamentos, o cenário de um mundo repleto de desafios. O prefeito de Roma falou do terrível comércio de órgãos para transplantes. A cada hora, um órgão é vendido no mundo. Pessoas pobres que retiram uma parte do corpo em troca de dinheiro. No comércio ilegal de órgãos, os rins representam 75%. A prefeita de Paris falou da responsabilidade que têm os países mais ricos em socializar a tecnologia com os mais pobres para que não destruamos ainda mais a natureza. Insistiu ela que os mais ricos gastaram, irresponsavelmente, os recursos naturais e, agora, querem exigir que os mais pobres não façam a mesma coisa. Para isso, é preciso ajudá-los. A recém-eleita prefeita de Madrid discorreu sobre as modernidades necessárias para que as vidas nas cidades sejam melhores. Juíza de carreira, ela insistiu nos exemplos que os governantes precisam dar para quem os elegeu. O prefeito de Medellín falou sobre o problema das cidades quando das expansões que segregam os mais pobres. Falou também sobre a importância da mobilidade e da requalificação dos espaços públicos. A prefeita de Gana ponderou sobre políticas afirmativas para as mulheres. Elas representam 65% da população e são vítimas de todas as formas de violência. O prefeito de São Paulo relacionou a melhoria das questões sociais com as questões ambientais, mostrando que é mais fácil lutar por aquilo que me atinge do que por aquilo que atinge aos outros. O meio ambiente é uma preocupação de todos. A fome não pode ser uma preocupação apenas daqueles que passam fome.

Alguns depoimentos de vítimas da escravidão moderna emocionaram os participantes do evento. Meninas escravizadas para o sexo ou para o trabalho forçado. Vidas dolorosas covardemente usadas por outras pessoas.

O papa Francisco, com uma simplicidade contagiante, falou dos seus sonhos de que os homens de boa vontade não permitam que os seus irmãos sofram. O tráfico de pessoas, a escravidão disfarçada dos nossos tempos, o uso irresponsável dos recursos que são de todos, e tudo isso agravado pela globalização da indiferença.

O que é a indiferença? É o lavar as mãos, como fez Pilatos, para os problemas dos outros. É o egoísmo, um dos piores vícios do ser humano. É o acomodar-se diante do incômodo do outro. No mundo em que vivo, crianças são destruídas e eu não me importo; mulheres são violentadas e eu não me importo. Irmãos nossos morrem em travessias clandestinas para fugir das guerras ou da miséria de seus países. Fogem em busca de liberdade, em busca de paz. Alguns morrem na travessia. Outros encontram cenários por vezes tão perversos quanto aqueles que deixaram. Dores de alma. E os indiferentes preferem nem ouvir falar sobre isso.

A globalização da indiferença aponta um pecado comum. Eu não quero cuidar do meu irmão. Porque me dá trabalho. Porque não tenho tempo. Porque tenho outras preocupações na vida. Então, o melhor é nem ficar sabendo.

Mas a indiferença não mora apenas naqueles que nada fazem por um irmão que arranca um órgão do próprio corpo para vender a alguém, por necessidade de ter dinheiro. A indiferença também está na falta de compaixão com o meu próximo mais próximo. Aquele que vive comigo, que é meu pai, minha mãe, meu irmão ou a pessoa que trabalha na minha casa. Aquele com quem eu convivo no dia a dia da minha profissão. Ou o amigo que a vida me deu e que, por alguma razão, eu vou ficando indiferente à sua dor. E a dor é uma senhora insistente que visita todos em muitos momentos da vida. E como é bom quando há por perto quem socialize a amizade, a generosidade, o cuidar. Eis a vacina contra a indiferença. Um remédio poderoso chamado Amor. Mesmo que nos sintamos impotentes diante de tantas agruras que destroem cidadãos dos nossos tempos, façamos nossa parte.

Descruzemos os braços e calcemos as sandálias para entrar no território sagrado do encontro. Encontremos quem de nós precisa – e há tantos – e, ao menos desses, cuidemos. É esse o primeiro passo para os outros que surgirão. O primeiro abraço em tantos que em nós poderão ver acesos os luminares da própria esperança.

Voltei de Roma com este desejo. Persistir na determinação de não permitir que nenhuma força do mal roube a crença de que posso tornar o mundo melhor. Todo mundo pode.

A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. (…) Nem tudo está perdido, porque os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também superar-se, voltar a escolher o bem e regenerar-se. (Laudato si – Papa Francisco)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/07/2015

Criança infeliz

É de Francisco Alves uma canção que embalou muitas infâncias:

“Criança feliz, que vive a cantar/ alegre embalar seu sonho infantil”. A cena de uma criança feliz é contagiante. A ausência de preocupações ou vícios. A confiança nos adultos que, decerto, derramam amor sem economias. Os cuidados todos. Os aplausos para as conquistas de todos os dias. O engatinhar, o andar, o pronunciar das primeiras palavras. Os risos. Os choros. Os dizeres que, com algum esforço, vão expressando sentimentos, desejos. É assim que quer a canção. É assim que se espera de quem resolveu trazer vida nova ao mundo. Mas os cotidianos estão cheios de infelicidades. 

Nesta semana, conheci Karla Jacinto, escravizada desde a infeliz infância para serviços sexuais. Karla era usada por uma média de 30 homens por dia. Porque era um serviço rápido. Eles queriam apenas “dar uma aliviada”, em seus próprios dizeres. Rápido e doloroso. Demorado e doloroso. Aos 12, 13, 14, 15 anos, foi sendo trocada por algum dinheiro. E via outras meninas no mesmo calvário. Algumas levadas pelos próprios pais. Covardes os que roubam a infância, a inocência, o futuro de uma criança. 

Karla, hoje, vive testemunhando sua dor para tentar acabar com essa chaga que adoece o mundo. O mundo de hoje. O que nós vivemos. Histórias de violência sexual contra crianças são mais comuns do que possamos imaginar. Dentro de casa, inclusive. Culpa-se o álcool, as outras drogas. Culpa-se alguma demência da mente ou da alma. Culpa-se a desestruturação familiar. Talvez todos nós tenhamos um pouco de culpa, quando não enxergamos o que está ao lado, preocupados que estamos com nossos próprios afazeres. Cuidar uns dos outros é a nossa constituição humana, é o nosso respirar comum. Há muito de poluição por aí. Infelizes seres indefesos que sorvem a dor dos desequilíbrios adultos. Que a poesia inspire a vida, reza o compositor: “Crianças com alegria qual um bando de andorinhas viram Jesus que dizia: Vinde a mim as criancinhas!”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/07/2015

 

 

O dom das lágrimas

Dia desses, ouvi uma mãe explicando ao filho que “homem não chora”. O menino de três ou quatro anos fazia de tudo para não chorar, mas não conseguia. Passava os bracinhos miúdos sobre os olhos que insistiam em gotejar, tentava limpar o nariz, que também participava da dor, e nada. E a mãe agia com mais vigor, alertando : “você é um homem. E homem não chora!”.

Quem será que criou essa teoria?  Quem separou o gênero humano entre aqueles que podem e aqueles que não podem chorar? Homem chora, sim! Homem é razão e emoção como a mulher. Homem chora de dor,  de saudade, de felicidade. Homem chora as dores da alma,  é um direito inegável a qualquer ser humano. Jesus chorou diante do sofrimento da família de Lázaro. Sabia que tinha o poder de ressuscitá-lo, mas a situação daquelas irmãs inconsoláveis diante da perda o emocionou, e ele chorou. Uniu-se à nossa humanidade e chorou. 

Na educação dos filhos, não poucas vezes, as famílias cobram de uma criança a postura de um adulto. Criança é criança. Tem inseguranças próprias de criança. O adulto tem as suas. Os medos talvez sejam diferentes. Mas todos têm medo. Meninas e meninos também têm diferenças como as mulheres e os homens. Mas têm muito em comum: choram, emocionam-se, amam. É para isso que fomos criados. 

Fiquei imaginando por que aquele menino estava chorando. E fiquei pensando nos erros que algumas mães e pais cometem quando querem transformar os seus filhos em heróis. Os pais não são heróis. Por que os filhos haveriam de ser? 

Vez ou outra, é necessário sentar-se diante de um filho e chorar com ele. Pai ou mãe. Contar alguma história das tantas pedras que surgiram no seu caminho. Mostrar os fracassos e as possibilidades de superação. Porque os seus filhos passarão por histórias de fracassos, também. Todos passam. E o problema não será a queda, será a ausência da aprendizagem de que quem está caído pode se levantar. E pode chorar quando da queda. E pode chorar quando da superação da queda.

Meu pai chorava muito de emoção. Ele se foi. Minha mãe ainda chora. E eu choro também. De dor, de tristeza, de alegria. Em casa, nunca tivemos constrangimento em chorar. Nas partidas ou nas chegadas. Como é bom viver sem máscaras. Como é bom ter uma família que nos ajude a viver sem ter medo das nossas emoções. Na minha casa, sempre fomos muito unidos. Em todas as situações. Meus pais me ensinaram a ter compromisso com a verdade. Não havia mentira entre nós. Se algo de ruim acontecesse, chorávamos todos juntos.

É essa a referência de “família” que permeia minha vida, minhas ações. Minha força. Meus sentimentos. Talvez por isso a reação daquela mãe tenha me causado estranhamento. Talvez por isso tenha escrito este artigo. Precisamos nos respeitar.  Somos todos passíveis de erros. Quem determinou que precisamos ser perfeitos e fortes o tempo todo? Fraquejar é humano. Chorar, também. Vamos nos permitir – como defende Clarice Lispector. Afinal, foi-nos dado um dom. O dom das lágrimas.

Respeito Muito o Homem que Chora

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar. 
                                                                                

Clarice Lispector (1967)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/07/2015

Conviver

Nesta semana, lançamos o programa “Recreio nas férias”. São inúmeras atividades de lazer e aprendizagem para crianças e adolescentes. As escolas são espaços privilegiados de convivência. Estava em um CEU, quando ouvi uma mãe dizendo ao filho: “Nossa, como é difícil conviver com você, somos muito diferentes”. Olhei e vi o menino inquieto e a mãe emburrada. Conversei com os dois. Disse que ficava muito feliz em ver os pais frequentando as escolas. Que isso é fundamental, pois, por melhor que seja a escola, ela nunca substitui o espaço da família e não resolve as carências deixadas pelas ausências.

Fiquei pensando nas palavras ditas por aquela mãe a seu filho. É verdade. Conviver não é fácil. Talvez seja, exatamente, pelo fato de sermos diferentes. Todos nós. E as diferenças se alargam quando convivemos mais proximamente. Quantos amigos se estranham em viagens, quando se deparam com as surpresas do dia a dia. Quantas inquietações há nas cobranças de uma relação amorosa, se um não faz o que o outro sonhou. Da lembrança de datas especiais à desatenção na mudança de penteado. Projeto no outro o que gostaria que o outro acrescentasse em mim. Mas o outro não sou eu e, por isso, me frustro. Conviver exige compreensão das imperfeições e dos sonhos de cada um. É difícil; porém, belo. Porque exige arte. Paciência. E um pouco de sabedoria. Compreender o tempo e as escolhas individuais é uma grande aprendizagem. Mãe e filho são diferentes, mas o amor entre eles é como um cimento poderoso que resolve as saliências e edifica construções bonitas de histórias de vida. 

Conviver sem amar é um desperdício. É o amor que ressignifica as relações e cria espaços saudáveis nos ambientes tantos que temos de frequentar. Casa, escola, trabalho, espaços públicos, mundos virtuais. Conviver sem amar pode ser inóspito, desagradável e desrespeitoso. O amor amplia minha visão sobre o outro e sobre a beleza das diferenças. Convivamos, pois, com amor e respeito. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/07/2015

 

 


A verdade e as miopias

Miopia é uma anomalia da refração ocular que faz com que a visão à distância seja comprometida. Falta nitidez, clareza, certeza na visão de um objeto.

O poeta Carlos Drummond de Andrade fala sobre a miopia em um belo poema em que descreve as dificuldades de encontrar a verdade.

A porta da verdade estava aberta


mas só deixava passar


meia pessoa de cada vez.



Assim não era possível atingir toda a verdade,


porque a meia pessoa que entrava


só conseguia o perfil de meia verdade.


E sua segunda metade


voltava igualmente com meio perfil.


E os meios perfis não coincidiam.



Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.


Chegaram ao lugar luminoso 


onde a verdade esplendia os seus fogos.


Era dividida em duas metades


diferentes uma da outra.



Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.


Nenhuma das duas era perfeitamente bela.


E era preciso optar. Cada um optou


conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

(Drummond)

A verdade é profundamente desafiadora. Conhecer a verdade requer muito cuidado, muito respeito, muita determinação. Vivemos tempos fugidios, fluidos, pouco reflexivos. Acreditamos na primeira história que nos contam. Aceitamos, passivamente, a primeira impressão que alguém foi capaz de criar em nós. Não conhecemos e não gostamos de fulano. Não lemos e desprezamos o livro ruim de certo autor. Nunca o vimos e descrevemos com detalhes o que nos incomoda no outro. Não é estranho? Não é pouco racional termos opinião sobre o que não tivemos tempo de conhecer?

A informação rápida nos rouba, desprevenidos, a chance de nos aprofundarmos. Ouvimos uma notícia e, imediatamente, nos prostramos como seus servos necessitados de propagá-la. E o fazemos sem o crivo da verdade. Mas o que é a verdade? Como entrar por sua porta, como queria o poeta, e conhecê-la? Como fazer uma opção sabendo que os caprichos, as ilusões e a miopia nos acompanham nessas escolhas?

Vejam a responsabilidade que tem um juiz ao julgar, tendo como objetivo maior a concretização da justiça. A responsabilidade que tem um jornalista quando ouve um relato e precisa decidir se há verdade ou não. Quando sabe que, de seu teclar, vidas poderão ser atingidas. Um marido que fica sabendo da vida paralela de sua mulher. Será verdade? Quantas histórias de amor acabaram por interferências mentirosas de terceiros?

No domingo passado, fui assistir a um filme, “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”, que traz o tema da verdade com um enredo muito bem escrito. Fui com uma amiga jornalista. Saímos e fomos prosear sobre a verdade. Fiquei feliz ao ver sua preocupação com a vida dos outros, com os erros que a imprensa comete quando descuida da ética e da perseguição implacável pela verdade. Quando o que perseguem é alguém, por interesses menores, pouco honestos. Porque, também na imprensa, há ausência de ética. Disse-me ela que os jornalistas deveriam  lembrar os sonhos que os motivaram a ingressar em uma profissão tão essencial para a verdade. Para a defesa dos que não têm voz. Para ser a porta aberta àqueles que, sozinhos, não chegariam a lugar algum. Enquanto nos alimentávamos da conversa e de uma boa massa, o garçom que nos atendia explicou que, “para falar a verdade”, o abacaxi, sobremesa que havíamos escolhido e perguntado se estava doce, não estava tão saboroso.  Eu brinquei dizendo que era bom saber que ali morava a verdade. Ele sorriu e disse que não adiantaria mentir, pois logo descobriríamos. Como é bom quando se tem a esperança de que a verdade não tardará a chegar. Quantas dores seriam evitadas, quantas injustiças seriam minimizadas com a sua chegada.

Míopes somos nós quando acreditamos em algo que não conhecemos. Quando nos convencemos, utilizando os argumentos mais duvidosos, apenas para insistir em nossa teimosia. É melhor não dar opinião do que opinar irresponsavelmente. No filme “Os Olhos Amarelos dos Crocodilos”, os que optaram por uma vida errática não se deram bem. Prefiro acreditar que na vida real pode ser assim. Que o mal não vence o bem, que a mentira não prevalece sobre a verdade, que os que respeitam o outro acabam compreendendo que assim é que se faz para se ter felicidade, paz.
Viva a verdade. Quanto à miopia dos olhos, há remédio: cirurgia, óculos, lentes de contato. Já a miopia da alma, essa dá mais trabalho de curar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/07/2015

Racismo: criminoso e covarde

Quem inventou o racismo? Quem, um dia, decidiu que uma raça pudesse ser superior à outra? Quem deu o primeiro passo para uma ação covarde e injustificável que é também criminosa? Quem determinou a divisão de categorias e direitos humanos por cores de pele?

Lemos muito sobre os tempos da escravidão. Os horrores vividos nos navios negreiros viraram inspiração poética. Poesia de dor, de sofrimento, de indignação. Filmes relatam sagas de negros e a ausência de compaixão de brancos. Todo tipo de arte denuncia os horrores humanos contra mulheres e homens e crianças negras, amarelas, vermelhas. Tempos passados. Não! Ainda há racismo nos dias de hoje. Ainda há gente sofrendo pela ação patética de gente que se sente melhor por ter outra cor. Ícones dos movimentos humanistas de respeito deixaram legados que buscam, ainda hoje, melhorar o mundo. Sonhos como os de Luther King: “Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados por sua personalidade e não pela cor de sua pele” ou o de Nelson Mandela: “Sonho com o dia em que todos se levantarão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos” ainda não se tornaram realidade. Evidentemente, demos passos importantes para acabar com o racismo e os preconceitos horrendos que nos diminuem. Há uma abundância de legislações sinalizando que esses sonhos precisam se tornar realidade. Exigindo que ninguém humilhe o seu próximo por razão alguma. Quando criminosos atacam, barbaramente, uma mulher conhecida, desencadeando uma série de manifestações em sua defesa, vemos que ainda há, nos cantos de barbárie, manifestações odiosas. Piadas, ditos incorretos, ações que causam dor.

Caminhemos na direção da superação do que nunca deveria ter existido. Não sei quem inventou o racismo só sei que faz um mal enorme para a humanidade. Que a igualdade entre os homens garantida nas leis, enfim, contamine o coração dos homens que cometem a crueldade de desrespeitar um irmão. Somos todos dignos de respeito. Todos nós.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/07/2015

Avenida Paulista

Quando cheguei a São Paulo, vindo do interior, gostava de passar pela Avenida Paulista para contemplar a grandeza da cidade que adotei como minha. Era aluno da PUC, dava aulas em alguns colégios e faculdades e ia me encontrando nas novas tribos da capital. Os teatros, cinemas, museus, restaurantes. O vaivém de pessoas. Arlequinal, como poetizou Mário de Andrade. Pulsante. Gigante.

Lembro que, nessa época, era sucesso nas rádios uma linda composição de Eduardo Gudin, Paulista. Na voz de Vania Bastos ou Leila Pinheiro, eu sentia a cidade em mim:

“Na Paulista os faróis já vão abrir…
 E um milhão de estrelas 
prontas pra invadir, os jardins 
onde a gente aqueceu uma paixão…
 Manhãs frias de abril.”

Quando eu passava pela Avenida, sempre imaginava os tempos de ontem, da cidade antiga, de outras pessoas que também ali gastaram sua existência. Dos gritos políticos aos encontros de amor. Caminhantes defendendo a liberdade ou o direito de encontrar alguém para aquecer os sonhos nas “manhãs frias de abril”. Eu ficava ressabiado com o mês escolhido para falar do frio. Por que não junho ou julho? Talvez porque o compositor, ou alguém que o inspirou, tivesse alguma história habitada no mês de abril. Eu nasci em abril.

Segue a canção:
“
Se a avenida exilou seus casarões,
 quem reconstruiria nossas ilusões?
 Me lembrei de contar pra você, nessa canção,
 que o amor conseguiu…

O que teria o amor conseguido? Com que dificuldades? 

Você sabe quantas noites eu te procurei,
 nessas ruas onde andei?
 Conta onde passeia hoje esse seu olhar…
 Quantas fronteiras ele já cruzou, 
no mundo inteiro de uma só cidade?”

São Paulo não é apenas uma cidade. O mundo inteiro passa por aqui. Todos os dias é dia de lágrimas. Todos os dias é dia de sorriso. Nascem e morrem pessoas. Chegadas e partidas. Celebrações e lamentos. Cruzando os  quarteirões e rasgando os céus na cidade que tem a vocação para ser de todos.

No domingo passado, estava na Paulista, como tantos outros, celebrando o povo que tomava posse da avenida. Na ciclovia, nas calçadas, nas ruas proibidas aos carros, os faróis abriam e fechavam sem impedir que a Paulista fosse de todos.
Em que cidade sonhamos morar? Que futuros nascem nas nossas aspirações de hoje? Como será a convivência amanhã? Conseguiremos diminuir o fosso que separa a cidade rica da cidade pobre? A que oferece oportunidades da que não oferece? A que dá condições de que os seus protagonizem histórias de sucesso e a que fecha os olhos à dor dos outros que não encontraram o caminho porque ninguém a eles estendeu as mãos?

No domingo, estavam todos na Paulista. Sem desperdícios de reparações entre as tristes divisões da nossa cidade. Salve Castro Alves: “A praça é do povo como o céu é do condor”. De todo o povo. A Paulista é também do povo. Símbolo da pujança e dos movimentos que não param em nossa cidade. Coração que acolhe os choros e ri os risos. Uma avenida que tem sentimentos.


”Se os seus sonhos imigraram sem deixar
nem pedra sobre pedra pra poder lembrar…
 Dou razão, é difícil hospedar no coração
 sentimentos assim.”

Sou grato por viver em São Paulo e por ver que a cidade, embora com enormes problemas, é maior do que eles todos. Por sua gente valente. De razão e de sentimentos.

Ocupemos, civilizadamente, a Paulista como símbolo de tempos que ousamos sonhar. Uma cidade melhor. Mais educada e mais acolhedora. Nos concretos que ousamos construir, há metáforas abstratas de sentimentos que somos capazes de sentir.

Que cada um faça a sua parte. A cidade é de todos. Que os faróis da gentileza, do respeito e da generosidade estejam sempre abertos. Quem ganha somos todos nós.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/07/2015

O território sagrado da saudade

Estava em um evento numa escola quando crianças, lindamente, apresentavam-se cantando “Que Nem Jiló”, de Luiz Gonzaga: “Se a gente lembra só por lembrar/ O amor que a gente um dia perdeu/ Saudade inté que assim é bom/ Pro cabra se convencer/ Que é feliz sem saber/ Pois não sofreu”. O coral tinha uma dança e foi envolvendo a plateia. Alunos e professores cantavam juntos. Bonito de se ver. Bonito de se viver. Foi quando uma professora me disse da saudade do amor que se foi. Eu ouvi, no meio do burburinho bom, sua história de despedida. “Por que as pessoas vão embora?”, disse sem talvez desejar uma resposta. “Por que não dá para voltar no tempo?”. Como outros professores falavam comigo, eu tentava dar atenção. E pensava no que dizer. Ela me deu um abraço forte e agradeceu por ouvir seu desabafo. Eu lhe disse que a saudade ocupava um território sagrado dentro de nós. Que o fato de não podermos voltar no tempo não significa que não possamos reviver, nas nossas lembranças, os tempos bons. E agradecer. 

Pessoas que amamos partem. Faz parte da vida. Partem por razões diversas. Partem involuntariamente, porque a eternidade chegou prematura. E a morte cobra a sua dor. Partem porque resolveram que ficar não era bom e quiseram experimentar outros enlaces. A angústia de ser trocado incomoda. Mas passa. O tempo ajuda a reorganizar os sentidos. O compositor diz mais ou menos isso em sua canção: “Porém se a gente vive a sonhar/ Com alguém que se deseja rever/ Saudade, entonce, aí é ruim/ Eu tiro isso por mim/ Que vivo doido a sofrer”. Ela contou que seu amado partira por decisão e que, um dia, quis voltar, mas ela disse “não”. Mas não sabe se fez o certo. E completou: “Vou ficar com a canção do Gonzaga, “Saudade, o meu remédio é cantar”. Sorriu e se foi. Boa dica.

Remoer o passado não nos ajuda muito. Amplia as dores que já vivemos. Por outro lado, lembrar o que foi bom e partir em busca de mais, “cantando”, porque assim deve ser, já que a arte inspira a viver melhor, é um bom refrão. “Saudade, o meu remédio é cantar”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/07/2015