Christiane Torloni é Maria Callas.
Exatamente. Maria Callas, uma das maiores cantoras de todos os tempos. A menina que – nascida em Nova York, mas criada em Atenas – ia todos os dias ao conservatório viver da música em tempos de guerra. Ali, ela encontrava paz. Ali, ela encontrava uma razão de viver. A menina gordinha foi ganhando espaço e conquistando o mundo. Sua interpretação de “Norma”, de Bellini, em Florença, deu início a tantas outras que calavam as plateias atônitas por uma voz divina. Chamada de “A Diva”, Callas resolveu emagrecer. Queria ser uma mulher bonita. Conseguiu. Queria viver a intensidade da paixão. Conseguiu. Mas, dessa paixão, também foi vítima. Arruinou-se por amor. Sofreu o abandono mesmo sendo amada por todo o mundo. No palco, o aplauso, a multidão. No quarto, a carência da ausência, a solidão. Callas marcou a história. Genial e geniosa. Disciplinada. Ciente de seu ofício de subir em um palco e viver sua arte.
Em São Paulo, podemos ver um pedaço da vida de Callas na vida de Christiane Torloni. A peça “Master Class”, de Terrence Mcnally, traz uma época em que Callas não cantava. A tristeza, talvez, tenha roubado sua voz. Mas o mito persistia vivo. E alunos se candidatavam para participar de suas aulas. Queriam ser observados por ela. Ensinados. Impulsionados, talvez.
Callas variava de uma mulher profundamente crítica, demolidora até, para uma mulher que, generosamente, se emocionava e abria as portas dos amanhãs para aqueles jovens cantores. No texto, as lembranças de dias gloriosos e de dias tristes. Seus maridos. Suas separações. O filho que não chegou a nascer. A dor de ser trocada. De ser desprezada.
Esse texto já foi encenado, no Brasil, com a genial Marília Pêra. Eu tive a honra de assistir várias vezes. Gloriosa interpretação. Torloni é corajosa. Assumiu para si a responsabilidade de ser Callas. A mulher Torloni já sofreu muitas perdas na vida. Dolorosas. Inesquecíveis. Mas não se apequenou. Fez da sua arte uma redenção. É única em cada personagem. É inteira. Valente e disciplinada, arranca até o último suspiro de inspiração para cada gesto de cada pessoa a que dá vida. Já a vi muitas vezes em cena. E não me surpreendi com sua interpretação impecável, com seu brilho!
Torloni é Callas entrando em cena. É Callas arrumando os óculos, a roupa, o copo com água. É Callas cobrando profissionalismo. Recordando os dias que se foram. Chorando o choro amargo das ausências do seu amor. Torloni é Callas andando, sentando, olhando. Era apenas a estreia, e ela já estava inteira em cena. O movimento das mãos. O olhar. Surpreende ao se fazer surpreendida com os alunos que ora a temem, ora a tentam desafiar. Bom de ver. Bom de aplaudir.
Gosto de usar este espaço para escrever algumas linhas sobre pessoas e sentimentos. Sobre referenciais que nos ajudam a compreender as escolhas que precisamos fazer todos os dias. Escolhi escrever sobre Callas e Torloni por duas razões. A primeira é que vidas dedicadas à arte sempre nos inspiram, principalmente quando essa dedicação é o tema de uma vida inteira. A segunda razão é para incentivar os meus leitores que frequentem mais os teatros. A cultura é nossa identidade. Emoções desfilam nos palcos, desafiando os desfiles da nossa vida. Enxergamo-nos nas dores e levantamo-nos nas vitórias. Vivemos a vida dos outros um pouco quando ali estamos sentados. E saímos incomodados quando a peça é boa. O bom incômodo do desafio que a vida deve nos oferecer. Viver. Sem concessões. Viver apaixonadamente mesmo quando a paixão nos rouba momentos de paz. Talvez sejam eles importantes para não nos esquecermos da força do amor. Da força que temos que ter, pois o texto de todos os dias não foi escrito por nenhum autor. O Autor maior nos deu a vida, a inteligência, as emoções, o resto depende de nós. Sem ensaios. E todo dia é dia de existir.
Os cantores, o maestro e o funcionário que traz humor ao drama, estão todos muito afinados. Direção do genial José Possi Neto.
Viva a arte!
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/09/2015

Amanhã, é dia 7 de setembro. Dia da pátria. Dia da independência. Dia da liberdade. E o que mais? E por que amanhã? A resposta rápida é porque, em 1822, Dom Pedro I proclamou nossa Independência. E isso merece comemoração. Mas insistamos um pouco mais: por que amanhã? Amanhã, eu começo a me esforçar para ser livre. Amanhã, eu vou parar de mentir. Amanhã, eu vou fazer o que já decidi: mudar de vida, mudar de humor, mudar de atitude, mudar qualquer coisa que hoje me incomoda. Mas o incômodo não é hoje? Por que esperar amanhã?
Uma mulher escreveu para o meu programa de TV, na Rede Vida, falando sobre sua decisão de partir. Contou, com dignidade, sua história de amor e de recomeço. “Fiz tudo pelo meu namorado. Tudo. Vivi por ele. Cuidei dele. Imaginei um mundo lindo ao lado dele. Até a velhice. Mas acabou. A pedra que ele me atirou ainda dói. Mas sou decidida. Acabou, acabou!”. Esse é um trecho de uma longa narrativa.
Meu pai era um homem terno. Gostaria de estar com ele. Gostaria de ter tido o poder de prolongar o tempo. O tempo das prosas de tantos entardeceres. Juntos. Infância regada a exemplos. Gentileza natural nascida na crença de que o outro merece sempre o nosso melhor.