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O brilho de Torloni

Christiane Torloni é Maria Callas.

Exatamente. Maria Callas, uma das maiores cantoras de todos os tempos. A menina que – nascida em Nova York, mas criada em Atenas – ia todos os dias ao conservatório viver da música em tempos de guerra. Ali, ela encontrava paz. Ali, ela encontrava uma razão de viver. A menina gordinha foi ganhando espaço e conquistando o mundo. Sua interpretação de “Norma”, de Bellini, em Florença, deu início a tantas outras que calavam as plateias atônitas por uma voz divina. Chamada de “A Diva”, Callas resolveu emagrecer. Queria ser uma mulher bonita. Conseguiu. Queria viver a intensidade da paixão. Conseguiu. Mas, dessa paixão, também foi vítima. Arruinou-se por amor. Sofreu o abandono mesmo sendo amada por todo o mundo. No palco, o aplauso, a multidão. No quarto, a carência da ausência, a solidão. Callas marcou a história. Genial e geniosa. Disciplinada. Ciente de seu ofício de subir em um palco e viver sua arte.

 

Em São Paulo, podemos ver um pedaço da vida de Callas na vida de Christiane Torloni. A peça “Master Class”, de Terrence Mcnally, traz uma época em que Callas não cantava. A tristeza, talvez, tenha roubado sua voz. Mas o mito persistia vivo. E alunos se candidatavam para participar de suas aulas. Queriam ser observados por ela. Ensinados. Impulsionados, talvez.

Callas variava de uma mulher profundamente crítica, demolidora até, para uma mulher que, generosamente, se emocionava e abria as portas dos amanhãs para aqueles jovens cantores. No texto, as lembranças de dias gloriosos e de dias tristes. Seus maridos. Suas separações. O filho que não chegou a nascer. A dor de ser trocada. De ser desprezada.

Esse texto já foi encenado, no Brasil, com a genial Marília Pêra. Eu tive a honra de assistir várias vezes. Gloriosa interpretação. Torloni é corajosa. Assumiu para si a responsabilidade de ser Callas. A mulher Torloni já sofreu muitas perdas na vida. Dolorosas. Inesquecíveis. Mas não se apequenou. Fez da sua arte uma redenção. É única em cada personagem. É inteira. Valente e disciplinada, arranca até o último suspiro de inspiração para cada gesto de cada pessoa a que dá vida. Já a vi muitas vezes em cena. E não me surpreendi com sua interpretação impecável, com seu brilho!

Torloni é Callas entrando em cena. É Callas arrumando os óculos, a roupa, o copo com água. É Callas cobrando profissionalismo. Recordando os dias que se foram. Chorando o choro amargo das ausências do seu amor. Torloni é Callas andando, sentando, olhando. Era apenas a estreia, e ela já estava inteira em cena. O movimento das mãos. O olhar. Surpreende ao se fazer surpreendida com os alunos que ora a temem, ora a tentam desafiar. Bom de ver. Bom de aplaudir.

Gosto de usar este espaço para escrever algumas linhas sobre pessoas e sentimentos. Sobre referenciais que nos ajudam a compreender as escolhas que precisamos fazer todos os dias. Escolhi escrever sobre Callas e Torloni por duas razões. A primeira é que vidas dedicadas à arte sempre nos inspiram, principalmente quando essa dedicação é o tema de uma vida inteira. A segunda razão é para incentivar os meus leitores que frequentem mais os teatros. A cultura é nossa identidade. Emoções desfilam nos palcos, desafiando os desfiles da nossa vida. Enxergamo-nos nas dores e levantamo-nos nas vitórias. Vivemos a vida dos outros um pouco quando ali estamos sentados. E saímos incomodados quando a peça é boa. O bom incômodo do desafio que a vida deve nos oferecer. Viver. Sem concessões. Viver apaixonadamente mesmo quando a paixão nos rouba momentos de paz. Talvez sejam eles importantes para não nos esquecermos da força do amor. Da força que temos que ter, pois o texto de todos os dias não foi escrito por nenhum autor. O Autor maior nos deu a vida, a inteligência, as emoções, o resto depende de nós. Sem ensaios. E todo dia é dia de existir.

Os cantores, o maestro e o funcionário que traz humor ao drama, estão todos muito afinados. Direção do genial José Possi Neto.

Viva a arte!

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/09/2015

Estúpidas escolhas

Não conheço Walter Palmer, o dentista que ficou famoso por postar fotos nas redes sociais com os animais que conseguiu matar. Não o conheço e não gostaria de conhecê-lo. Não costumo escrever artigos criticando pessoas. Há muitos que fazem isso. Prefiro percorrer outros caminhos. Mas, no meu caminho, surgiu esse senhor. Li com decepção as reportagens que mostram o perfil desse homem que ganha dinheiro arrumando dentes e gasta dinheiro desarrumando vidas. Cecil foi morto sem razão alguma. Um leão famoso na África. Conhecido. Querido. Poderia ser outro leão não tão famoso. Poderia ser um elefante. O dentista também queria caçar um elefante e exibi-lo, morto, para os seus amigos nas redes sociais. Quem são os amigos de Walter? Não há ninguém que o ajude a recobrar o juízo e fazer escolhas menos estúpidas? Ele já foi multado por caçar um urso e processado por assédio sexual. Mente confusa. 

Repito. Não gosto de escrever criticando pessoas até porque só sabemos delas pelo que se noticiou e nem sempre as notícias são verdadeiras. E Walter não é o único caçador de leões e de outros animais de grande porte. Há muitos milionários que fazem isso. Que pagam para entrar em uma fazenda na África e matar pelo prazer de se sentir viril, talvez. Alguns dirão que é cultural. Querem cultura? Por que não uma peça de teatro, uma ópera, um livro, uma exposição? Outros dirão que caçam por esporte. Querem esporte? Por que não uma corrida, um jogo de futebol ou de basquete ou de tênis?

A ausência de compaixão com os animais se reflete na relação que temos com os seres humanos. Ou temos sensibilidade ou não temos. Com pessoas e animais. Gostei muito da cena do filme que retrata a rainha Elizabeth espantando um lindo alce fêmea que corria o risco de ser morto por caçadores britânicos. Ainda sonho com tempos em que os animais sejam tratados de outra maneira e que as nossas diversões não destruam ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/09/2015

Amanhã, é dia da Pátria

Amanhã, é dia 7 de setembro. Dia da pátria. Dia da independência. Dia da liberdade. E o que mais? E por que amanhã? A resposta rápida é porque, em 1822, Dom Pedro I proclamou nossa Independência. E isso merece comemoração. Mas insistamos um pouco mais: por que amanhã? Amanhã, eu começo a me esforçar para ser livre. Amanhã, eu vou parar de mentir. Amanhã, eu vou fazer o que já decidi: mudar de vida, mudar de humor, mudar de atitude, mudar qualquer coisa que hoje me incomoda. Mas o incômodo não é hoje? Por que esperar amanhã?

Que pátria queremos? A que abraça todos os seus filhos ou a que privilegia alguns? A que reduz as desigualdades ou a que deixa para amanhã a edificação de um país mais justo? A que combate todas as formas de discriminação ou a que não enxerga uma parte dos seus negligenciando ajuda aos que mais precisam? A pátria dos perversos ou dos cordiais? Amanhã, é o dia de uma boa lembrança de um dia importante de nossa história. Mas o hoje existe. E é no hoje que devemos fazer o que deve ser feito para que a “casa” onde nascemos seja a pátria que sonhamos.

 

Sonhamos quando? Ontem ou hoje? Quais foram os sonhos que embalaram os nossos dias de preparação para o hoje? O que aprendemos nas escolas em que frequentamos? Somos “um povo heroico” capaz de um “brado retumbante”?

Nos meus tempos de escola, quando ainda não havia decorado o Hino Nacional, criei uma forma de não confundir a primeira com a segunda parte. A confusão vinha depois de “O pátria amada, idolatrada, salve! salve”! Fiz a seguinte relação. Primeiramente, vem o sonho. “Brasil, um sonho intenso…”. Depois vem o amor. “Brasil, de amor eterno…”. Primeiro vem o sonho de uma gente que se prepara para assumir o comando. Depois vem o amor que é o sonho em ação. O amor pela pátria e por todas as pessoas que nela habitam. Conceitualmente, é isso. O amor é responsável, não é excludente, não tem preconceito, não desiste de ninguém. É livre. E nasce de algum sonho bom. E, sem sonho, é difícil que o amor venha. É o sonho que alimenta o amor. O amor pelo amado, amada ou por um tema. A pátria.

Amanhã, é o dia da pátria. Mas hoje também. Amanhã, é apenas uma comemoração. Hoje, é ação. É sonho que se faz amor quando não nos acomodamos à espera de um amanhã. O amanhã existe, e essa certeza nos é muito cara. Saber que o tempo prossegue. Que as paisagens mudam. Que as pessoas amadurecem. Mas, hoje, quero falar do hoje. A pátria que queremos depende dos que estão no comando dos poderes constituídos, mas depende, também, dos comandantes das próprias vidas. Vidas que se somam; afinal, estamos falando de pátria. Pátria é coletivo. É somatório de forças individuais em busca do bem comum. Isso é também a ética. E a ética não é obrigação apenas dos que têm alguma visibilidade. A ética é barro que nos molda no cotidiano de nossas construções. Vamos nos fazendo dia a dia. E nos refazendo quando necessário. É desse barro que nascem os políticos, os magistrados, os pensadores. Não caem de outro planeta. Nascem das gentes. Da nossa gente. É por isso que temos que nos educar. Hoje. Não apenas amanhã. É hoje o dia de optarmos pela verdade, pelo correto, pelo decente, pelo digno, pelo amoroso. É hoje que temos de decidir pela coerência. Cobrar do outro quando erra e esconder o nosso erro em algum canto é não compreender o canto coletivo do hino que diz: “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante”. O instante da liberdade é amanhã? Também. Mas é hoje. É hoje que, para sermos livres, temos de ser verdadeiros. A hipocrisia é uma praga que destrói as pátrias. A incoerência também. Cobremos a honestidade, temos esse direito. Sejamos honestos, temos esse dever. Hoje.

Diante de tantos pessimismos, não nos iludamos, não será fácil combater o erro e prosseguir. Não há ingenuidade em falar de sonho e de amor. Há esperança. Não do verbo “esperar”, mas esperançar. Esperar fica para amanhã. Esperançar é hoje. É agora. Quando temos forças para corrigir rotas e comandar a embarcação da qual todos nós fazemos parte. E temos o direito e o dever de sermos protagonistas. Cada qual em sua posição. Fazendo o que precisa ser feito todo dia. Das pequenas rotinas às grandes decisões. É assim que se constrói uma pátria – território e povo – espaço e valentia.

 Sejamos valentes para que nosso brado retumbe de fato. Não pela altura da voz, pelo grito, mas pelo som contagiante de quem sonha e ama, de quem é justo, enfim. Comemoremos amanhã, façamos hoje e amanhã e depois de amanhã o que precisa ser feito para que a pátria seja nossa. Livremente nossa. De todos os que aqui têm o privilégio de viver. Conviver. Brasil!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/09/2015

Sobre o sorriso

Em visita ao Hospital A.C. Camargo, vi e senti, mais uma vez, o significado do verbo “cuidar”. Médicos, professores, funcionários, voluntários. Gente que entrega a vida a cuidar de gente. Ali, vivem, nas crianças, as dores da doença e os sonhos de vencê-la. O hospital dedica-se à pesquisa, à ciência e ao que há de mais sofisticado para salvar vidas. Os atendimentos impressionam em número e em qualidade. Conversei com alguns pais e vi a gratidão deles a essa gente que cuida e cuida bem de seus filhos. Os professores que ali trabalham tem um perfil todo especial. As aulas ocorrem nas salas ou nos quartos ou onde for necessário para roubar o sorriso de uma criança e ajudá-la a exercer a criatividade, a inteligência, nessa fase difícil. Brincam. Ensinam. Animam o ambiente. E fazem daquele espaço o altar do seu ofício.

 

Ser professor é irradiar vida mesmo em vidas abaladas por circunstâncias alheias à nossa vontade. Alguns estão lá há muito tempo. Há outros que chegam e precisam entender as especificidades do lugar. Confidenciou-me D.Genoveva, antiga voluntária do A.C. Camargo, que, ao entrar certa feita numa sala, viu uma jovem emburrada. Quis saber quem era, qual o seu problema. A moça respondeu que não havia problema algum e que era a nova professora. Então, D.Genoveva explicou: “Seja bem-vinda, minha filha. Mas, aqui, você tem que sorrir”. E deu as razões. Aprofundou-se no tema da vida. Algumas vidas se despedem ali. Outras são recuperadas para seguir. A medicina evoluiu muito e o potencial de crianças curadas é enorme. Mas, nessa fase da travessia, precisam elas de pessoas de fibra e capazes de sorrir.

Saí do hospital sorrindo e pensando no ensinamento daquela senhora. Algumas histórias me fizeram chorar. Um dia, vou partilhá-las. Fazem bem à nossa vida. Nossos problemas ficam menores. Crianças lindas aquelas. Fizeram minha caricatura. Escreveram sobre meus livros. Guardarei para sempre. Além dos presentes, ganhei ensinamentos. “Aqui, você tem que sorrir”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/09/2015

Amores partidos

Uma mulher escreveu para o meu programa de TV, na Rede Vida, falando sobre sua decisão de partir. Contou, com dignidade, sua história de amor e de recomeço. “Fiz tudo pelo meu namorado. Tudo. Vivi por ele. Cuidei dele. Imaginei um mundo lindo ao lado dele. Até a velhice. Mas acabou. A pedra que ele me atirou ainda dói. Mas sou decidida. Acabou, acabou!”. Esse é um trecho de uma longa narrativa. 

 Lembrei-me da antiga canção, composta por Herivelto Martins e David Nasser, que diz “Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem”. Pedras machucam. As reais e as imaginárias. Pedras causam perdas. Perdas nos tiram o que gostaríamos de ter. Pessoas. Momentos. Vida. Gosto de encontrar gente decidida. Mesmo na dor.

 

Histórias de amor chegam ao fim por várias circunstâncias. Morre-se um pouco quando morre a amada ou o amado. Despede-se do corpo sem vida que tanta vida trouxe. Vida que ganhou sabor, vida que reencontrou o significado por um amor. O luto é incomodativo. Entretanto, é definitivo. Cessam-se as possibilidades. E segue-se a vida. O tempo ajuda. A dor lancinante do amado que enterrou seu amor transforma-se em saudade, lembrança boa de tempos, de canções, de enternecimentos. Findam-se as histórias por outras razões, como a da mulher que me escreveu. O amado não foi capaz de respeitá-la, não soube valorizar os dias gastos, voluntariamente, em nome do amor. E atirou a pedra. E quebrou o telhado. E feriu, sem sobre isso antes refletir, quem não desperdiçou os momentos em atenção. Desatenção, teve ele. O tempo lhe ensinou alguma coisa. Tentou voltar. Manso. No lugar das pedras, as flores. Por que não as trouxe antes? Por que não romantizou os momentos enquanto estavam juntos? Por que brincou de conquistador compulsivo, necessitado de informar aos outros os feitos heroicos de macho? 

 E ela, no início, não acreditou. Esperou confirmação. Sofreu as notícias ditas por estranhos. Sim. Porque o íntimo era ele. O que recebia o seu devotado amor. Pensou ela em segui-lo. Não o fez. Teve dignidade. Por outros caminhos, reconheceu suas mentiras. É uma mulher, diz o texto, cultora da verdade. Vê a mentira como o lodo imundo da humanidade. Aprendeu a ser verdade. Decidiu seguir a aprendizagem. E isso lhe deu seguranças para decidir partir. Mesmo que partida. Mesmo que o amor não tenha dito a ele quanto tempo ainda há de permanecer remoendo seus sentidos. Não deixamos de pensar em alguém quando decidimos. Paciência. Não é a primeira nem será a última pessoa a sofrer de amor. Um dia, ela há de abrir as janelas, respirar fundo, e perceber que os incômodos da paixão indevida se foram. E aí a vida recomeça.

E é assim com todo mundo. Melhor isso do que não amar. Melhor a dor de uma paixão não correspondida ou a ferida de um amor que se foi do que a triste constatação de que as portas para o amor foram trancadas desde sempre. E a chave não está disponível para abri-la.

Vinicius de Moraes, o poeta que amou por decisão de vida, crê em uma eternidade no tempo do amor:

 

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

(Soneto da Fidelidade)

 

A mulher que me escreveu inspirou-se nesse texto. Amanhã, ela estará melhor, certamente. E um outro amor haverá de fazer sua morada em uma casa já limpa, preparada para receber.

 

Atiraste uma pedra

No peito de quem

Só te fez tanto bem

E quebraste um telhado

Perdeste um abrigo

Feriste um amigo

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/08/2015

O sabor da Chef

Fui ao restaurante Tordesilhas no início desta semana. Comida maravilhosa. Brasileira. Gostos e temperos que valorizam a riqueza de nossa terra. Tudo muito caprichado. Atendimento carinhoso, gentil. A decoração é criativa. E há, na parede, um texto que fala sobre os 10 mandamentos da cozinha brasileira. O mandamento derradeiro e universal é este: bom apetite! Porque o mal nunca entra pela boca, o mal é o que sai da boca do homem.

Enquanto comia, pensava no que lia. E partilhava com os meus amigos. Como é bom almoçar com amigos. E prosear. E agradecer o privilégio dos sabores que nos alimentam. E celebrar a vida. No cotidiano. Nas ações que fazemos com que sejam especiais. Falamos sobre os dizeres. A inspiração está no Evangelho. O problema é o que sai de nossa boca. É a força do que falamos. É o estrago que somos capazes de causar aos outros. Por quê? Por que nos interessarmos tanto pela vida dos outros? Se fosse o interesse generoso da partilha, da ajuda amiga, da compreensão de que é melhor caminharmos juntos, seria bom. Mas não é. Estragamos a vida dos outros com o que sai da nossa boca. Desnecessariamente.

Quando já nos preparávamos para sair, encontramos a chef Mara Salles. Que mulher incrível! Falamos do sabor de sua comida. Ela agradeceu e começou a conversar sobre outros sabores. Sobre projetos sociais. De inclusão. De acolhimento de pessoas que, por alguma razão, ficaram à margem. O prazer de cozinhar talvez seja um bom aliado para recuperá-los para a vida. Sorria, enquanto dizia do sabor de viver, de fazer o que gosta, e de ajudar as pessoas. A prosa foi breve, mas revigorante. Saímos dizendo que nem tudo o que sai da boca do homem prejudica o homem. Há palavras de esperança. Há textos que narram contextos de gente que faz o bem. Almoço bom aquele. Depois do sabor da boa comida brasileira, o prazer de ouvir uma brasileira que não desiste de fazer o bem. E bem feito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/08/2015

A medida do amor

A medida do amor é amar sem medida. O que queria Santo Agostinho com essa assertiva? Amar sem medida? O que é uma medida? O amor pode ser medido? Pode-se medir o amor de uma mãe que, generosa, faz da vida dos filhos a própria vida? Que, em noites indormidas, acalenta a dor dos seus rebentos? Que se multiplica para atender a avidez por respostas dos filhos inquietos? Pode-se medir o amor de um religioso que faz de sua vida uma entrega a Deus e ao seu próximo? Que repete o ensinamento de Madre Teresa de Calcutá, a peregrina do amor, que dizia que quem julga  as pessoas não tem tempo para amá-las? Pode-se medir o amor de um cidadão comprometido com a geração que virá depois e que, por isso, cuida da Casa Comum que é o planeta em que vivemos? Pode-se medir o amor de uma mulher ou de um homem apaixonado que resolve dividir o que tem, o que sabe, o que sonha com outro alguém que chegou por alguma razão que nem a razão imagina e que permaneceu? Renúncias e encontros. Amargores e sabores. Caminhadas apedregulhadas de surpresas. Mas juntos. Juntos por uma decisão de não medir o amor. O poeta Drummond nos ajuda a compreender as “Sem-razões do amor”: Eu te amo porque te amo, /Não precisas ser amante,/ e nem sempre sabes sê-lo./ Eu te amo porque te amo./ Amor é estado de graça e com amor não se paga.

Amigos também amam. Professores também. Médicos. Juízes. Atores e atrizes, senhores das emoções. Amam os que se põem a conhecer melhor os outros. Porque quem não conhece não é capaz de amar. E quem conhece, verdadeiramente, ama. Ama inclusive as imperfeições. Ama como resistência ao que é descartável ou medido. Não se mede o amor. Nem o descarta. Senão não é amor. Não é amar.

Sábio Santo Agostinho que, ainda sobre o amor, dizia: “ama e faz o quiseres”. Primeiramente, ame. O que virá depois não há como não ser bom, pois “Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/08/2015

Quem deve se envergonhar?

“Tenho vergonha de confessar que meu marido bate em mim”, disse-me uma mulher. “Vergonha do meu casamento fracassado. Vergonha de criar justificativas para as marcas que ele deixa no meu rosto e no meu corpo”.

Palavras fortes de um forte calvário. Vergonha, fracasso, violência. Será que é ela quem deve se envergonhar? Por que é tão difícil denunciar um companheiro?

Continuei ouvindo-a. Há duas crianças no enredo. O desfecho, diz ela, não é tão simples. Não quer que os filhos tenham um pai preso. Não quer que saibam do que ele é capaz, embora desconfiem. Certamente sabem, pensei eu. Sabem e também se incomodam, mas são muito pequenos para agir. Tentou conversar com a sogra que disse que também apanhou e que, agora, o marido já idoso não encosta mais nela. Aconselhou-a a ter paciência, um dia, ele também deixaria de agredi-la. Perguntei se gostaria de passar a vida apanhando à espera do envelhecimento. Ela chorou. Disse que fez promessas. Que orou. E que não adiantava. Falamos sobre oração e sobre ação humana. Difícil invadir o outro e decidir por ele. Mas impossível ficar passivo diante de um ato covarde, criminoso. Entre convicções e dúvidas, ora parecia decidida, ora apequenada em carências. Foi textual sua colocação: “Ele bate em mim, mas pelo menos me toca”. E prosseguiu falando de conhecidas que foram abandonadas por maridos que sequer as tocavam. Contei histórias de despedidas antecipadas, de mulheres assassinadas pelos companheiros, de vidas reduzidas a nada. E ainda há os filhos. Filhos do medo ou da esperança?

Essa é uma entre tantas mulheres que demoram a tomar consciência de que nenhum homem tem o direito de humilhá-las, agredi-las, violentá-las. Algumas decisões são dolorosas, mas as dores são necessárias à vida que virá depois. É assim no parto. E nos tumores que precisam ser arrancados para evitar a morte. Paciência tem limite. Vida também. Por isso, não se pode desperdiçá-la com quem não a dignifica.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/08/2015

 

A ternura de meu pai

Meu pai era um homem terno. Gostaria de estar com ele. Gostaria de ter tido o poder de prolongar o tempo. O tempo das prosas de tantos entardeceres. Juntos. Infância regada a exemplos. Gentileza natural nascida na crença de que o outro merece sempre o nosso melhor.

Calvários doloridos os de meu pai. Foi preso, injustamente, na época da ditadura Vargas. Trabalhou com afinco. Primeiramente, para ajudar os pais. Limpou escolas, plantou em hortas, vendeu na feira, trabalhou no comércio, virou comerciante, empresário, construtor. Não teve oportunidade de estudar. Estudou, entretanto, a alma humana, com tamanha delicadeza e paciência que se formou mestre na área complexa de compreender que o outro merece ser respeitado. 

Sofreu meu pai pela morte de dois filhos. Chorou a inversão da lógica. Um morreu aos 21 anos, acidente de carro. O outro de complicações no pulmão, aos 33. Tinha síndrome de Down. Era o centro da casa. Alegria contagiante de quem não tem economia em expressar os sentimentos.

Era profundamente religioso. Gostava do sagrado. Das celebrações eucarísticas. Da comunhão com os seus irmãos. Da reza silenciosa em sua cadeira de balanço. Esta é uma das lembranças mais lindas que tenho dele. Rezando. E eu, cheio da curiosidade de criança, queria saber o que ele pedia a Deus, em oração. Ele fazia segredos, sorria, dizia que eu fizesse o mesmo e que deixasse meu coração ir dizendo, apenas isso. “Deus escuta o nosso coração”, dizia-me ele, com um sorriso generoso. O coração é a metáfora do que se sente. De onde dói. Do que faz bem. Dos sonhos que servem de combustível para prosseguir.

Meu pai era um homem bom. Soube partilhar o seu dinheiro. Dizia que Deus fizera dele um velhinho rico e que era preciso cuidar dos velhinhos que não tiveram a mesma sorte. Ainda hoje, na minha amada terra natal, Cachoeira Paulista, há o Asilo dos Vicentinos que ele construiu.

Meu pai era um homem trabalhador. Com o tempo, comprou um sítio e, ali, plantava café. Gostava da terra. De plantar e de colher. Um dia me confidenciou que pedia a Deus que não o deixasse em uma cama enfermo, como seu irmão mais velho. Era triste demais viver sem trabalhar. E que queria morrer trabalhando. E, assim, ele foi. Depois de um casamento. Depois de uma festa. A partida. Dolorosa partida. Rápida como ele queria. Difícil para os que dele se alimentavam de sua ternura.

Falo de meu pai como exemplo de um amor que nos molda. Cada um tem sua história afetiva com seus próprios pais. Alguns sofreram mais com pais violentos ou ausentes ou, estranhamente, pouco amorosos. O amor é elo sem o qual a engrenagem familiar não funciona. Mas mesmo os que lamentam os erros dos pais, em algum momento, podem mergulhar nos seus acertos. Ninguém erra ou acerta o tempo todo. Conheço filhos que lastimam, o tempo todo, os erros dos pais. Que contam histórias de alcoolismo e de exemplos desagradáveis. Mas e os afetos?  E os bons momentos que, não raro, ocorreram? A memória não pode abandoná-los. Até mesmo o sentimento de falta do pai, no dia de hoje, que muitos devem estar sentindo, é um indício de que há o desejo de que, ao menos, “aquele momento” estivesse ainda presente. 

No dia dos pais, símbolo que nos ajuda a refletir, valem alguns dizeres aos pais que estão por perto. Se falta dinheiro para o presente, vale a presença de palavras que agradecem, que celebram, que reconhecem. Vale a presença de gestos de amor. Se eu pudesse, abraçaria longamente, meu pai, neste dia. Se eu pudesse deitaria em seu colo e brincaria com ele para ver qual das mãos é a maior: a dele ou a minha. Ele tinha mãos grandes. E eu dizia que, um dia, as minhas seriam maiores que as dele. E brincávamos de medi-las. Ele sempre ganhava. Na época de sua morte, repetimos emocionados “nossa” brincadeira e eu lhe disse que as dele continuavam maiores. Ele piscou, sorriu e disse que, há algum tempo, percebia que eu dobrava um pouco os dedos para que a mão dele continuasse maior. Mas que ele tinha muito orgulho de saber que as minhas mãos eram maiores que as dele. Que, para um pai, isso não era um problema. E que sonhava que eu continuasse crescendo. Nas mãos, no caráter, na vida e nos sonhos de construir um mundo melhor. De ser bom. De ser uma pessoa de bem.

Meu pai compreendia as minhas inquietudes. Ouvia os meus lamentos. Celebrava as minhas conquistas. Pai é assim. Presença que acalma e que alimenta de vida a vida dos seus filhos. Um filho que nega os pais é como árvore sem raiz. Nutrimo-nos do solo que nos gerou e devemos a ele voltar sempre na presença dos nossos pais ou na memória do que eles em nós plantaram.

Tento reproduzir a sua ternura. Sou ainda um aprendiz.

Feliz dia aos pais!

 

Ao meu pai José

Pai querido, é pena que já partiste

És saudade presente

Do tempo que, na minha mente,

Ainda existe

Os teus olhos tão vivos, tua mão, que suave

Conselhos constantes e os gestos marcantes

De quem ensina sem desanimar

Tua voz tão segura e plena de amor

Caminho infinito de quem, qual num rito

Toma cuidado para não deixar dor

Caminhas comigo, em cada momento

Vives ao meu lado em qualquer ação

Orienta meus passos teu ensinamento

Inteligência não vive sem o coração

Tu és simples sapiência, bondade, és motor

Princípios eternos, valores presentes

Prolongam no tempo o belo exemplo

O teu grande valor, sempre sem medida

Valor de oração, de trabalho diário

Suave encanto presente na vida

E teu romantismo : único amor

Exemplo de vida, marcante, constantes

Meu jamais esquecido, poeta sonhador

E teu romantismo : mamãe era rosa

Flor e princesa, único amor

Exemplo de vida, marcante, constante

Meu, jamais esquecido, poeta sonhador

E teu romantismo : mamãe era rosa

Flor e princesa, único amor

Exemplo de vida, marcante, constante

Meu, jamais esquecido, poeta construtor

Pai querido.

 

(Gabriel Chalita)

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/08/2015

Um menino, uma pomba, um destino

Domingo passado, fui almoçar na região da Paulista com alguns amigos. Em pleno inverno, o sol aquecia a cidade. Estávamos caminhando, quando vi uma cena triste. Um menino saiu de uma lanchonete e, ao ver uma pomba na calçada, não teve dúvidas, chutou com uma violência impressionante o assustado animal. Não conseguiu atingi-la. Pombos têm asas. Melhor assim. E o menino? Tem o quê? Que destino? Quem chuta uma pomba, hoje, chuta uma pessoa amanhã. Quem não tem sensibilidade com um animal, que nada fez nem o importunou nem estava no seu caminho, imagine o que poderá fazer com alguém que o incomodar? Dizia Tolstoi, acostumado a traduzir em palavras as angústias humanas, que “se um homem aspira a uma vida correta, seu primeiro ato de abstinência é o de ter compaixão pelos animais.”

 Sou educador e preocupo-me cada vez mais com o que vem acontecendo com as pessoas. A agressividade vem ganhando patamares impressionantes. Na vida real e na virtual. A ausência de paciência e de compaixão é cada vez mais evidente. Impaciência com o jeito do outro, com o tempo do outro, com as escolhas do outro. Compaixão como um dos mais nobres sentimentos humanos: a capacidade de sentir a dor do outro e fazer de tudo para não provocá-la ou, se for o caso, amenizá-la. A compaixão é a certeza de que habitamos a mesma moradia humana. E que o que o outro sofre eu também poderia sofrer.

Mas quero voltar ao menino. Quem educou esse menino? Quem lhe apresentou os valores mais significativos da vida? Quem o conduziu para ver e compreender as criaturas que compõem o universo? Almir Sater, em inspiração poética, canta: “Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”. Mas, no início, se não educarmos, as escolhas ficam mais difíceis, os destinos mais tristes, e um menino perde a capacidade de ver que, até nas pombas, há vida, há sentimento, há beleza.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/08/2015