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A partida de Yasmin

Nesta semana, estive na Brasilândia em um evento de escuta com a rede pública. Estamos fazendo isso em todas as regiões de São Paulo. Rica experiência de aprender com os profissionais que fazem o dia a dia acontecer nas nossas escolas. Terminado o evento com centenas de professores, pais, alunos, funcionários, uma professora veio falar comigo sobre um artigo que escrevi quando da minha outra visita na DRE Freguesia/Brasilândia. O artigo chamava-se “O perfume de Yasmin”, sobre uma linda menina com Síndrome de Down. Escrevi neste mesmo espaço, no Diário de São Paulo. A professora me abraçou e me contou: “Yasmin morreu”. Olhei os olhos marejados e bebi daquela emoção. Yasmin havia pedido para ficar mais tempo no meu colo. E me fez lembrar meu irmão que também tinha Down e que também partiu. Yasmin era muito menina para partir – mas quem somos nós para decidir? Era uma menina meiga. Feliz por conviver em espaços em que era amada, respeitada. Lembro-me do seu jeito espontâneo, características das crianças com Síndrome de Down – não negam afetos, não escondem sentimentos, não disfarçam verdades.

 A partida de Yasmin mexeu comigo. Quis saber o que aconteceu. Ouvi com atenção os relatos da doença que, prematuramente, a levou. Outros professores queriam conversar. Dei atenção a eles. Afinal, eles me alimentam de ideias e de entusiasmo. Mas naquele entardecer da Brasilândia a imagem que me frequentava era a de Yasmin, do seu sorriso, do seu abraço prolongado, de sua cabeça jogada nos meus ombros e de sua decisão ao não concordar com a professora que queria tirá-la do meu colo. A resposta decidida foi: “Está bom aqui”.

Pequena Yasmin, você perfumou um pouco a minha vida e outras vidas. A fé que comungo me faz ter a certeza de que você está bem. Perfumando outros mundos. E sei que, aí onde você está, você pode dizer com ainda mais convicção: “Está bom aqui”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/10/2015

Maria e as Bodas de Caná

No dia 12 último, celebramos a festa da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Romeiros de cantos diversos foram à casa da Mãe para cantar a simplicidade e sonhar com dias melhores. Festa da fé. No dia anterior, em Belém do Pará, uma multidão veio de cantos diversos para caminhar com a imagem da Virgem de Nazaré. Não há competição entre uma ou outra. Trata-se da mesma Maria, da mãe de Jesus, que é lembrada com nomes diversos por razões diversas. Nossa Senhora de Fátima ou de Lourdes ou da Piedade ou de Guadalupe ou da Glória é a mesma que a de Aparecida ou Nazaré. É a mãe do Filho de Deus. É a intercessora junto ao Mediador.

No dia da Padroeira, dia 12, o evangelho da celebração traz o que é considerado o primeiro milagre de Jesus. As Bodas de Caná.

Maria estava na festa com seu filho. Festa de casamento. Maria não tinha responsabilidade nenhuma por aquele casamento. Nem pela comida. Nem pela bebida. Nem pelos convidados. Era ela convidada. Poderia estar apenas se divertindo como tantos outros. Poderia estar desligada – isso acontece com frequência em festas dos outros. Maria percebeu, entretanto, que o vinho havia acabado. As festas de casamento, na época, duravam uma semana. Cabia aos anfitriões oferecer boa comida e boa bebida a seus convidados. E o vinho era essencial para a celebração da alegria em torno do casal. As pessoas estavam aflitas e não sabiam o que fazer. E, assim, Maria intercede a Jesus para que resolva aquela tristeza.

 Há vários significados para essa passagem evangélica. Optemos por um. O vinho simboliza, nesse contexto, a alegria. A alegria dos esposos que, ali, comemoravam com seus convidados o amor.

Naquela festa, havia acabado a alegria. Na festa das Bodas de Caná, acabou a alegria. Em uma festa, em uma família, acabou a alegria. O símbolo de uma união bem sucedida estava em risco.

A imagem da festa e daquelas pessoas frente a uma dificuldade assemelha-se à vida de uma família dentro de um lar. As preocupações do dia a dia, a importância da crença na intercessão de algo ou alguém cujo desejo maior seja a restauração da alegria, da paz, da harmonia. Assim foi a ação de Maria ao pedir a seu filho que a alegria voltasse. Porque uma vida sem alegria não tem o sabor que merecemos. Maria poderia não estar atenta, mas estava. Maria poderia não ter tido compaixão, mas teve. Maria poderia ter ficado inerte, mas agiu. E a alegria voltou.

Há tanto aprendizado nessa narrativa. Um mundo com desatentos e descompromissados com a ausência de alegria dos outros é um mundo que nos diminui. Maria nos amplia, nos eleva, nos inspira. Faz-nos crer que há saídas, soluções para nossos dramas, nossos desapontamentos. Basta esperar. Basta acreditar. Em cada aparição de Nossa Senhora, uma razão especial, uma mensagem especial para resgatar a alegria. É a mãe dizendo ao Filho: “Ajude-os, meu filho! A alegria deles acabou”. A atenção de Maria, sua sensibilidade e amor, evitaram que a alegria se transformasse em tristeza e a festa que selava uma união fracassasse.

Onde está nossa alegria? Talvez o caminho para recuperarmos a nossa alegria seja refletir sobre o que ela disse àqueles homens que trabalhavam naquela festa: “Façam tudo o que meu Filho vos disser”.

O que Jesus nos diz hoje? O mesmo que disse ontem. E o mesmo que dirá amanhã: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Apenas isso. E a alegria estará de volta. A nossa e a dos outros. Porque sozinhos não há festa, não há vida, não há alegria.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/10/2015

Professores que permanecem

Ontem, foi dia dos professores. Ontem, tivemos professores que nos ensinaram com seus conteúdos e suas atitudes. Todos nós tivemos professores. Desde as primeiras experiências nas primeiras escolas até os graus que conseguimos alcançar entrando nas salas de aula, pesquisando, criando, construindo o que somos.

 Todos nós temos como revisitar o ontem e encontrar o que conseguiu permanecer. De alguns professores, não lembramos sequer os nomes. Tentamos nos recordar de quem nos deu aula de tal disciplina no ano tal. E não vem. Não permaneceram. De outros professores, lembramos com detalhes das aulas que despertavam sabor em saberes que nos surpreendiam. Mesmo se já faz muito tempo, se éramos muito pequenos. Eles permanecem. Talvez não nos lembremos dos conteúdos que nos ofereciam. Já as atitudes, os gestos, o andar, o olhar, o apresentar ao mundo dos nossos universos um novo universo de mundos desconhecidos, isso fica.

 Lembro-me de professoras contadoras de histórias. Os seus nomes. Os seus gestos de acolhimento. Suas palavras de incentivo. A autoridade com que regiam o nosso grupo. Grupos são sempre heterogêneos. Pessoas não se repetem. Por isso, é preciso, aos professores, a arte da reinvenção. Do ressignificar o próprio ofício.

Sou professor orgulhoso de minha escolha. E sei que esse sonho nasceu em uma sala de aula, em uma escola pública, em uma cidade pequena, regida por uma senhora professora. Lembro-me de seu prazer em ensinar, em estar conosco, em nos alimentar de futuro. Sou capaz de, ainda hoje, imitá-la. Com respeito. Com reverência. Marcas do tempo que marcam o nosso percurso. É essa a responsabilidade que temos, nós que educamos, de sermos lembrados, dignamente lembrados. Minha homenagem a todas as professoras e professores que permanecem…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/10/2015

Que horas ela volta?

Assisti ao filme de Anna Muylaert. Assisti com atenção à excelente trama que traz o universo cotidiano da casa brasileira – o universo de relações entre patrões e empregados. O filme traz uma profunda reflexão sobre preconceitos, solidão, sonhos, ética.

Uma empregada, Val, interpretada brilhantemente por Regina Casé, dedica a sua vida a cuidar da vida dos seus patrões. Faz de tudo. Esmera-se para fazê-los felizes. Percebe, sutilmente, as idiossincrasias de cada um deles, mas, com abnegação e respeito, fica no seu espaço, a cozinha. Espaços são bem tratados na trama. Qual é o espaço dos patrões? Qual o espaço dos empregados? Val parece ser tratada como alguém da família. O patrão não trabalha. É um pintor que perdeu a inspiração. Mas tem dinheiro. A patroa busca reconhecimento por seu estilo. E tem uma relação fria com o marido e o filho. O filho dos patrões busca os afetos no quarto da empregada. É ela a sua mãe de acolhimento. É ela que o incentiva a acreditar no seu talento. Os lugares dos afetos são o quarto da empregada e a cozinha. Ali, o menino se desmancha em vida. Ali, ele é ouvido e tem voz.

 Mas um fato muda a rotina da família. A filha de Val vem do Nordeste para prestar vestibular de arquitetura. E fica hospedada com a mãe na casa dos patrões. O conflito vai ganhando tom. O tom desafinado do desalinhamento do discurso inicial de permissão à prática de preconceito com a filha da empregada. A cena da limpeza da piscina é cheia de significados. A menina é jogada na piscina, em uma brincadeira. Brinca com o filho do patrão e com um amigo dele. A dona da casa chama um homem para esvaziar e desinfetar a piscina. A justificativa é que um rato foi encontrado naquele espaço que pertence apenas à família e aos seus convidados.

A linguagem trabalha com o não-dito. A escada interna da casa tem um significado que sugere várias possibilidades. O país mudou. A filha da empregada passa,  para assombro da patroa, no vestibular de arquitetura. O filho do patrão não passa. A filha da empregada tem um filho. E o deixa no Nordeste para fazer faculdade em São Paulo e, depois, voltar a cuidar dele. É como a história da mãe que deixou a filha e veio trabalhar por causa da filha. Laços que se rompem por razões sociais. Futuros que, para serem atingidos, dependem de presentes interrompidos. Mas a história não se repete. O desfecho é surpreendente. É preciso ver o filme para saber. É preciso ver o filme para refletir sobre os preconceitos disfarçados que continuam a desafinar as histórias entre empregados e patrões. É preciso ver o filme para aplaudir o cinema brasileiro. O talento de Anna Muylaert e de um elenco afinadíssimo.

Histórias do cotidiano são mais complexas de serem retratadas. Poderiam cair na vala comum dos exageros, dos apelos, da intenção maniqueísta de criar bruxas e princesas ou bandidos e mocinhos. Não se trata de maldade ou de bondade. Trata-se de ética. De comportamentos erráticos que fazem com que patrões não consigam enxergar os seus empregados. Cenas de famílias brasileiras ainda são chocantes. Empregados que cozinham para os seus patrões e não podem sequer experimentar o que preparam. Os patrões dão uma desculpa que julgam satisfatória: “O problema é que não estão acostumados a comer dessa comida”.  Separam os copos de bebida. Os espaços. Os problemas. Empregados com problemas familiares não agradam. Os patrões justificam: “Já tenho problemas demais para me preocupar com os outros”. “Os outros”, no caso, são pessoas que vivem na mesma casa, que preparam a comida, que lavam as roupas, que melhoram o ambiente, que cuidam diuturnamente para que o espaço esteja o mais agradável possível. Mas o espaço do empregado não é o do patrão. “Essa gente é folgada”, sugerem alguns. Qual gente? Há categorias de gente? Os que têm mais ou menos dinheiro? Os que têm mais ou menos instrução? O país está mudando. Quem nunca imaginou entrar numa universidade, hoje, faz mestrado e doutorado. Quem estava apartado começa a exigir fazer parte de um país que é de todos. Os anos horrendos da escravidão se findaram, mas ainda há, na alma de alguns brasileiros, resquícios daqueles tempos: casa grande e senzala.

Que bom sair do cinema refletindo. Sobre a postura dos outros. Sobre a nossa própria. “Que horas ela volta” é uma inspiração para dias melhores…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/10/2015

Crianças abandonadas

Mais uma criança recém-nascida é encontrada na rua. Em um saco qualquer, em um canto qualquer, abandonada por uma mulher. Já se sabe que era a mãe. Primeiramente, tal ato nos desperta questionamentos. Por quê? Por que abandonar crianças? Falta de vontade de cuidar? Medo? Ignorância por não saber que, se não se tem condições, é possível entregar para a adoção? O fato é que mais uma criança foi abandonada. Quantas crianças abandonadas ainda veremos por aí? Essa foi salva. Alguém a viu. Sentiu sua existência. Teve compaixão. Cuidou dela. Encaminhou para pessoas responsáveis com a responsabilidade de quem pode contribuir para não matar futuros, não deixar morrer crianças.

 Essa criança há de crescer. Outras não tiveram essa oportunidade. Essa criança há de superar o abandono – é o que sonhamos. Outras tantas são abandonadas e, se sobrevivem, carregam marcas desses tempos. Longe de mim justificar a ação da  mãe. Teria sido ela um dia abandonada? Faltou a ela instrução, esclarecimento, compaixão? Ela justifica como medo de perder o emprego, pois, certamente, a patroa não aceitaria a criança ali. Deu à luz no banheiro da casa dos patrões, silenciosa e solitária. Sufocando a dor. Movida pelo pavor de ser descoberta. Limpou a filha, cortou o cordão umbilical, alimentou-a e, por desespero – quem sabe? – abandonou-a num canto qualquer, numa noite de chuva.

Intenções. Ações. 

Mas um porteiro surgiu na vida dessa criança e repetiu a parábola do bom samaritano. Ele poderia ter seguido o seu caminho, estava indo à missa. Poderia ter fingido não ter ouvido o choro. Poderia ter tido a decisão de não se meter com problema dos outros. Mas o bom porteiro, outro Francisco de Assis, abriu as portas do futuro para essa criança.  Segurou a menina no colo. Embalou-a. Está radiante com a vida que salvou. Quer adotá-la. Trazê-la para o aconchego de sua família. Já escolheu o destino do bebê. Ser amado. Escolheu seu nome: Valentina. Que bom. Ainda há bondade no mundo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/10/2015

 

Um santo encontro

Imaginem um encontro entre Francisco de Assis e Terezinha do Menino Jesus. Hoje, é dia de São Francisco. Dia primeiro, foi dia de Santa Terezinha. 

Um encontro entre os dois, fisicamente, nas lindas histórias de vidas que viveram, não seria possível. Francisco nasceu na Itália, em 1182, e Terezinha na França, em 1873. De épocas e lugares diferentes, esses dois referenciais do amor absoluto a Deus e ao próximo continuam a nos inspirar. Mesmo entre aqueles que não são religiosos, mesmo entre os que não frequentam as Igrejas, os nomes de Terezinha do Menino Jesus ou de Francisco de Assis trazem alguma elevação. 

 

Pensamos na delicadeza de Terezinha. Na menina que quis ir cedo ao Carmelo, que escreveu lindos poemas de simplicidade, que cedo partiu para a eternidade, sorrindo, prometendo que mandaria do céu uma chuva de rosas para fazer o bem aos que na terra vivem. 

Francisco era irmão do Sol e da Lua, irmão dos pássaros e também dos lobos, noivo da dona pobreza, defensor da natureza como a casa comum, a casa de todos nós que merece ser cuidada.

Terezinha nos inspira a viver a delicadeza como uma decisão de vida. Francisco a nos comportarmos como irmãos, sem hierarquias, sem arrogâncias. Tudo é para todos. “Paz e bem!” – apenas isso. Um santo encontro entre esses dois jovens geraria conversas interessantes. “O que estão fazendo com a religião”? – perguntaria Terezinha. “Por que as pessoas continuam matando em nome de Deus? Deus é Amor. Julgam demais e amam de menos esses que se dizem tão religiosos. Pobres filhos de Deus que precisam fugir de suas terras porque os religiosos querem lhes cortar as cabeças. E, para onde querem ir, faltam religiosos acolhedores”. E Francisco, certamente, concordaria, explicando que o que falta é que se percebam como irmãos, que sintam o privilégio do dar sem querer nada em troca. Do movimento do amor. Do perdão. Do acolhimento. Das vidas que ganham significado quando compreendemos a lição do Mestre que cuidou, que nos falou sobre ter um coração de criança, que deu novo caminho à pecadora, que não fugiu dos que tinham lepra. Terezinha poderia cantar um cântico puro para Francisco, inspirado nele, inclusive. Ela poderia dizer aos irmãos que cantassem: “Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz”. E que cantassem a sequência dos lindos versos na própria vida. Nada de ódio. Tudo de amor. Nada de ofensa, de discórdia. Mas de perdão e de união. Cantemos o cântico da fé, da verdade, da esperança e da alegria. Diria Francisco a Terezinha, inspirado no poema da amorável menina, Viver de amor: “Viver de amor é compreender as dores dos calvários dessa vida, viver de amor é dar sem medida e sem buscar na vida a recompensa. Viver de amor é velejar sem descanso semeando nos corações a paz e a alegria. Viver de amor pode parecer uma estranha loucura. Sejamos loucos, Terezinha. Loucos apaixonados pela divina causa de cuidar do humano”. “Sejamos loucos, Francisco. Loucos comprometidos com cada irmão que, caído, espera, esperançosamente, uma chuva de rosas, de bênçãos para prosseguir”. “Prossigamos, Terezinha”.

E o encontro continuaria falando dos mais vulneráveis, dos injustiçados, das vítimas inocentes de tantos perversos. O que diriam eles sobre a perversidade, mal horrendo que revela uma face não humana dos humanos? O que diriam eles sobre uma segunda chance aos que erram? Como tratariam o tema da verdade, da autenticidade, da generosidade?

Santos encontros podem ocorrer nos nossos dias. Terezinha e Francisco continuam por aqui. Com outros nomes. Com outras faces. Pessoas que vão e que vêm e que, ao se reconhecerem irmãos, perceberão a delicadeza das rosas que caem sem que as vejamos. Sintamos o perfume da bondade em cada gesto em que reconhecemos o outro como nosso irmão.  Viver de amor como instrumentos de paz. 

Sejamos Terezinhas e Franciscos com a humildade de quem têm muito a aprender, mas com a esperança de que dias melhores poderão nascer.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/10/2015

Talentos desperdiçados

Já faz um tempo, o Papa Francisco, ao rezar uma missa na Praça São Pedro, disse aos jovens presentes: “Não enterrem seus talentos! Não tenham medo de sonhar grandes coisas”.

Ao exortar os jovens à perseguição de seus ideais, de seus temas de vida, o papa resumiu, com essas palavras, sua crença no humano jeito de ser um homem de Deus que cuida do povo. 

 Enterrar os talentos é uma menção a uma parábola de Jesus. E tem um significado claro. Cada um de nós recebe um quinhão de talentos. E é bom para nós e para o mundo que os multipliquemos. É bom para nós e para o mundo que coloquemos nossos talentos a serviço de boas causas. Todas as vezes que ouço histórias de jovens hackers, fico imaginando o tanto de inteligência que está sendo desperdiçado. Gastam tempo e talento a serviço de uma ação que nada contribui para si mesmos nem para o mundo. Ao contrário, ações que promovem, não raro, o mal. Há jovens que se lançam a mostrar a perícia em disputar rachas, com seus carros em alta velocidade, desafiando o medo e, infelizmente, pondo fim antecipadamente à vida de outros e às suas próprias. Por quê? Por que não usar o talento do domínio sobre o carro e sobre os medos de maneira nobre? Há jovens chefiando facções criminosas, mostrando disciplina e capacidade de trabalho e, por meio desses talentos que poderiam ser virtuosos, espalham o que há de pior na comunidade em que vivem: violência, exemplos equivocados, falta de apreço pela vida. Ausência de sonhos!

Sonhar grande, larguear os ideais, é o caminho, mas esse caminho só pode ser percorrido sobre os alicerces da ética, com a vivência comum, com sonhos comuns que trazem não apenas o prazer estranho que desvia a rota do comandante, mas a felicidade de uma vida plena de significados para toda a nau. Comandantes somos nós todos, quando não desperdiçamos nossos talentos, quando sonhamos o grande sonho de cuidar das pessoas e do mundo. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/10/2015

Começar de novo

Uma notícia muito positiva, nesses dias, merece nossa reflexão. Nove internos da Fundação Casa foram classificados para a 2ª prova das Olimpíadas de Matemática. Cada um deles teve, certamente, uma história de dor, de queda, de fracasso. Ao cometerem atos infracionais, tiveram sua liberdade privada, suas trajetórias interrompidas. Mudaram de lar, de escola, de espaço, de relacionamentos. Na Fundação Casa, precisaram buscar espaços para o reencontro com o que foi perdido. Na nossa sociedade, não é simples a reinserção social, nem do adolescente que frequentou uma unidade de internação nem do adulto que passou pelo sistema penitenciário. Erraram, certamente. Cometeram deslizes que prejudicaram a sociedade. Feriram pessoas e suas famílias. Mas e depois? Esses espaços consomem muito dinheiro público. E depois? Como deve ser a volta ao convívio social? Ficarão marcados para sempre pelos erros que cometeram? Mas, se cumpriram a lei, se tiveram direitos restringidos, não é necessário garantir a eles uma oportunidade para um novo começo? Até porque eles não terão muita escolha: ou isso ou o mundo do crime lhes estará de portas abertas.

 

Desse grupo de jovens, alguns já deixaram a fundação há poucos dias. Os outros três continuam cumprindo a internação. Ansiosos por contar às famílias suas conquistas no estudo. Sonham com uma vida melhor. Com um futuro diferente, de oportunidades.

“Se os outros conseguem, por que a gente não?”, perguntou um deles. E declarou, convicto: “Eu consigo ir além”. Esses jovens são tão inteligentes quanto os outros jovens que estudam em escolas públicas ou privadas. O que lhes falta, talvez, seja o exemplo, a educação correta, a inspiração que vale tudo na vida. Seus depoimentos servem de farol para uma sociedade que prefere descartar a corrigir, jogar fora a lapidar, dispensar a conclamar para um novo começo. Cuidemos das imperfeições para que vidas não sejam desperdiçadas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/09/2015

Lembranças e esquecimentos

Lembrar é uma das possibilidades da razão. Lembrar é revisitar o passado e encontrar significados no existir. Existimos instante a instante. Alguns revelam surpresas agradáveis, outros trazem dor. Instantes em que a vida é gerada. Instantes em que palavras de amor são proferidas. Instantes em que encontros marcam, para sempre, nossa trajetória. Quantas vezes agradecemos por ter conhecido alguém que nos ressignificou o sentido da palavra amar ou conviver ou cuidar ou partilhar a vida. Estávamos desprevenidos, distraídos, talvez, e alguém chegou. E mudou outros tantos instantes que se somaram e se somam à nossa vida.

 

Conquistas inesperadas. Portas que se abriram depois de outras que, subitamente, foram fechadas. Sem nossa autorização. Invasores dos nossos espaços nos fazem mal. Por que chegam? Por que incomodam tanto? Mas é assim. Não controlamos o outro nem suas flechadas. E, aí, vem a queda. A dor. A ferida aberta. Esquecer os que nos feriram? Esquecer as feridas? Não se trata de uma simples decisão. Trata-se de maturidade. Não é prudente recordar o tempo todo do tempo da dor. A dor ficou por um tempo e depois se foi. E agora há outro tempo. Outro instante.

Colecionadores de dores não prosseguem, não evoluem. As tristezas poetizam a vida e, portanto, têm razão de ser. Nesses instantes, recordamo-nos de nossas fragilidades e pedimos ajuda. A Deus. A um amigo. A um amor. Deitamos no colo materno e recebemos autorização para chorar. Licença para nos incomodar com o que nos incomoda, sabendo que aquele colo não nos expulsará antes do tempo. Mas há um tempo para o choro. Os exageros dramatizam demais a vida e prologam o desnecessário. Afinal, depois do instante de dor, vem o instante de algo novo. E outro algo novo. E assim, sucessivamente, em cada instante. É de amanhãs que o hoje está grávido. Os amanhãs nascerão. Dias se renovam. Pessoas, também. Dias se renovam com a lógica da natureza. Pessoas nem sempre. Se nos prendermos a lembranças ruins, as novas não poderão chegar. Se nos trancarmos, quem haverá de nos descobrir?

Colecionadores de dores não prosseguem, repito. E é preciso prosseguir. Independentemente do tamanho da ferida que se abriu. Um dia, no tempo do aconchego, podemos relembrá-la, mas a lembrança não causará o mesmo estrago. Será um outro tempo. E teremos esquecido parte do que deveria ter sido esquecido.

Um dia, ouvi de uma mãe de 4 filhos, todos eles nascidos de parto normal, sobre o milagre que é a lembrança do nascimento dos filhos sem a lembrança da dor imensa que os trouxe à vida. A vida nova chegou com tanta força que os sofrimentos ficaram intimidados de prosseguir sendo lembrados. É assim, também, nos sofrimentos que preparam o atleta, na disciplina que exaure o bailarino. Mas os ensaios ganham significado quando a arte nasce. E nasce com tamanha força que os esforços exagerados dos treinos dão lugar às lembranças das comemorações.

Lembrar é vital. Alimenta-nos. Recordar o que fomos e o que somos nos ajuda a continuar. Mas esquecer também é essencial. Que fiquem as cicatrizes, mas que não ganhem de nós mais atenção do que necessário. Se sofremos, não somos os únicos. O sofrimento não é um privilégio de alguns. Se sofremos injustamente, outros também beberam do cálice da injustiça. Mas também amamos e fomos amados. Também plantamos e colhemos. Também sorrimos, o sorriso bom dos instantes que nos surpreenderam com gestos e palavras de amor.

Lembranças e esquecimentos. Celebrar e relevar. Porque os instantes merecem ser vividos. Revividos. E relevados. Releve as sujeiras que enfearam instantes do seu caminho. E prossiga celebrando as limpezas. As belezas. Há beleza por toda parte, a todo instante. Disso, é bom não se esquecer. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/09/2015

Quem somos nós?

Alguns professores tiravam foto comigo, quando uma criança me olhou nos olhos e perguntou: “Quem é você?”. “Meu nome é Gabriel, sou professor”, respondi. E a criança prosseguiu: “Mas quem é você?”. “Eu cuido da educação, cuido de você”. “Cuida de mim?! Ah, bom!”, foi a resposta que o acalentou.

 

Quem somos nós? Cuidadores de outras pessoas? Seres capazes do caminhar coletivo, do pensar coletivo? Feitos da matéria-prima do encontro? Do amor que emancipa, que eleva, que faz brotar o riso bom da felicidade? Certamente que sim. Mas também somos capazes de outras atitudes. Menos nobres. Menos humanas. Fotografias de um mundo em desconstrução circulam por aí. Imagens reais de abandono, de perversidade, de egoísmo. Quem somos nós? Operários de que causa? Obreiros e poetas da esperança, sim, porque o fazer e o sonhar se encontram no amálgama propício das edificações. Mas também somos o oposto. Nossas misturas, por vezes, são explosivas. Corroemos os outros e nós mesmos com atitudes impensáveis para quem têm a virtude do pensamento. Ausências de reflexão sobre “quem somos” são presságios de derrota. O vitorioso não é aquele que tem mais, mas aquele que sabe mais sobre quem é. Conhecermos a nós mesmos é um dos impulsos vitais da filosofia. Sócrates, o pensador grego, instigava os seus interlocutores a irem além das aparências, a permitirem o nascimento das próprias ideias. Ideias, ideais. Alicerçava sua filosofia no autoconhecimento, na nossa relação com o mundo e com os outros. Como dita a máxima de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas quem somos nós?

Aquela criança insistiu. Não ficou satisfeita com o meu nome nem com a minha profissão. Queria mais. Queria entender a intenção da minha vida. Meu nome não foi escolha minha. Minha profissão, sim. “Mas para que serve tudo isso?”, indagou ele sem receios. “Para cuidar de você”. “Então, prossiga. Continue a fazer o que deve ser feito”. Autorizou-me ele com seus olhos de amanhã. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/09/2015