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Dormir para sonhar

Assisti ao filme que trata das numerosas quedas de Walt Disney antes de criar seu famoso personagem Mickey Mouse: Walt antes do Mickey (2014). O filme é biográfico e conta a história do menino Walt que se realizava ao desenhar. Desde os tempos da fazenda do pai. Desenhava onde conseguia. A família teve suas quedas econômicas. Dias difíceis para todos eles. Mas Walt persistia. Persistia desenhando. Persistia montando seus estúdios. Era despejado por falta de pagamento. Era ridicularizado pelos fracassos. Era explorado por intermediários. Era enganado por pessoas próximas. Desânimos não deixaram de surgir, mas ele era maior. 

 Em uma das quedas, em um dos despejos, em uma rua, vê um ratinho, brinca com ele, alimenta-o. E dele se alimenta sua imaginação criativa. E cria um rato especial em homenagem ao animalzinho amigo. Mickey Mouse. Sua história serve de inspiração para tantos que desistem nos primeiros tombos. Em qualquer carreira, em qualquer profissão, as portas não se abrem com sopros frágeis. É preciso mãos decididas e um olhar que vê além. Fracassos em negócios e em iniciativas não podem ser maiores do que a aspiração de construir algo que tenha significado na vida das pessoas. Erros de rotas também fazem parte. Quantas pessoas ao mudarem de profissão ou de emprego ou de atividade conseguem se realizar. O ruim é esperar acomodando-se no ruim para ver se algo melhora. 

Mesmo um ratinho surgido do nada em uma calçada de desesperança pode inspirar um homem a ser um dos maiores empresários do entretenimento de todos os tempos. Walt Disney é um entre tantos que não aceitaram passivamente as quedas. Vale a pena ver o filme e refletir. Afinal, dizia ele: “Um dia aprendi que sonhos existem para tornarem-se realidade. E, desde aquele dia, já não durmo pra descansar. Simplesmente durmo pra sonhar”. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/11/2015

 

Os olhos de Ana

Ana é do interior do Ceará. Ouvi sua história na viagem que fiz com Laércio que me levou de Fortaleza até Itapipoca. Belo povo o de Itapipoca. Bebi a água da esperança naquele chão encantado. Milhares de professores professando a crença nas consequências do que fazem. Educar com olhos de ver. Nenhum aluno pode passar despercebido. Nenhum aluno pode ser deixado de lado. A cada um deve ser dado o poder de ser o condutor da própria história.

Histórias são composições do cotidiano. Entoamos cantos diversos nos cantos que frequentamos. Ana frequentou uma escola como tantas outras crianças, mesmo naquele tempo em que a maior parte estava fora.

Era uma menina que não conseguia ser alfabetizada. Não por falta de esforço. Ia sempre. Sem falta. Mesmo em dias de humilhação. E esses dias não eram poucos.

 Um dia, alguns meninos que se achavam no direito de brincar fazendo do outro um brinquedo empurraram Ana de um barranco. Ela rolou por alguns metros e parou em um pé de espinhos. E se feriu. No corpo e nos afetos. Ferida, teve tempo de algum choro e de se levantar para ir à escola. Não perderia aula. Mesmo sangrando. A professora era nova. Olhou-a com preocupação. Como deve ocorrer com todos os alunos, sangrando ou não. Olhou-a e quis entender. Balbuciou Ana alguma coisa para justificar o injustificável. Ela não conseguia ler, e isso dava a eles o direito da chacota. A professora acolheu sua dor e olhou-a com respeito.

E percebeu que Ana não havia sido alfabetizada por uma razão simples, ela não enxergava. Providenciou uma consulta. Ana tinha 13 graus de miopia. E nem ela e nem os seus familiares sabiam disso. Desde menina, ela via desse jeito. Desde menina, ela não via.

Os óculos abriram o futuro para aquela menina. Guimarães Rosa deve ter ouvido histórias semelhantes para criar Miguilim. O menino que tem sua vida mudada quando chega o doutor e lhe coloca óculos. Metáfora do que precisa ser visto, das cicatrizes que vêm depois que o sangue deixa de jorrar. Da vida dura do sertão ou até do mar. Onde há gente, há gente que olha e gente que finge não ver, e há gente que tenta destruir.

Conta Rosa que “Miguilim olhou para todos, com tanta força. Saiu lá fora. Olhou os matos escuros de cima do morro, aqui a casa, a cerca de feijão-bravo e são-caetano; o céu, o curral, o quintal; os olhos redondos e os vidros altos da manhã. Olhou mais longe, o gado pastando perto do brejo, florido de são-josés, como um algodão. O verde dos buritis na primeira vereda. O Mutum era bonito! Agora ele sabia”.

Assim foi com Ana. Ana viu as letras, viu os números, os olhos de seus irmãos. Seus irmãos. Fez-se irmã. Pelos olhos atentos e acolhedores de sua professora.

Ana estudou muito. Virou professora, também. Depois, diretora. É freira. Irmã Ana faz da sua vida um serviço aos seus irmãos. Repete, na sua vida, o que aquela professora lhe fez. Olhou os seus olhos e viu que eles precisavam ver. E um mundo novo se abriu. Gosto dessas histórias e gosto de reproduzi-las. São inspiradoras. Nos livros e na vida. Vida longa é essa. Ou não. Mas o mesmo Guimarães nos ensinava que o que importa não é a chegada ou a partida, é a travessia.

Atravessemos como Irmã Ana. Se cairmos em espinhos empurrados por desavisados, levantemos. Há de haver uma professora em nossa vida que nos olhe nos olhos e que nos ajude a ver. A ver o que estava embaçado. A ver a travessia que se ressignifica quando somos cuidados ou quando cuidamos de alguém. Belos olhos os da professora. Belos olhos os de Irmã Ana.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/11/2015

Os porões dos navios negreiros

Hoje é o dia da consciência negra. Data escolhida em memória de Zumbi dos Palmares. Tem gente que acha desnecessário esse tipo de comemoração. Afinal, os negros não são uma pequena minoria. Será?

Numericamente, certamente, não são. Mas o são nos cargos de comando, nos poderes constituídos, nas direções de empresas e organizações. E por quê? São os negros menos competentes do que os brancos? Certamente que não. Não querem eles assumir também o comando? Seria ingênuo imaginar isso.

Mas o que há, então, se nossa constituição e nossas legislações infraconstitucionais são abundantes na proibição dos preconceitos e de toda forma de racismo?

 As leis vieram para corrigir um erro histórico, mas as mentalidades ainda demoram a mudar. Foi ontem que vieram esses nossos irmãos em porões de navios. Castro Alves põe sua alma para denunciar a ausência de alma com que foram tratados mulheres e homens, feitos escravos, arrancados de suas terras, e que atravessam os mares com esperanças nenhumas.

Como eram aqueles porões? Quanta dor presenciaram? Quantas lágrimas incontidas? Porões do horror e da ausência de humanidade.

Transcorridos tantos anos, ainda há porões de preconceitos nas mentes de nossa gente. Piadas desnecessárias, comentários chulos, atitudes incorretas;  já poderíamos ter superado esses erros. Mas os porões do racismo persistem. Vez ou outra, aparecem, nas mídias sociais, criminosos querendo lançar achincalhes. Elegem negras e negros que têm visibilidade, que romperam grilhões para viver a esperança e saem em decisão de ataque. Feias posturas de quem pouco entende das belezas da convivência, da pluralidade, do respeito, do amor.

Um dia, talvez, a data da consciência negra seja apenas um registro de feitos heroicos do passado. Hoje, ainda temos muito trabalho. Muitas limpezas nesses porões da consciência que persistem nos erros de ontem. Humanos é que somos. E então?

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/11/2015

Lygia e as meninas

Lygia Fagundes Telles foi homenageada, na última quinta-feira, na Academia Paulista de Letras, dentro da programação do EMIL – Encontro Mundial da Invenção Literária. Mais de 120 autores dos quatro cantos da Terra e de todos os cantos de nosso país participam desse evento que termina hoje. Conferências, diálogos, debates, saraus, contação de histórias trazendo o universo do livro e dos autores. A obra e os criadores. Sentimentos que nascem das tramas da vida e percorrem as páginas dos livros. E o caminho inverso, também.

Lygia é uma das maiores escritores da nossa língua. Seus contos e romances preenchem nosso imaginário. Sua ousadia, sua antevisão, trouxe temas leves e agudos. Escreveu sobre sentimentos nobres como a compaixão, a piedade, a cumplicidade e, sobretudo, o amor. Escreveu também sobre traição, perda, morte, medo, separação.

Leio e releio seus escritos e encanto-me como se os lesse pela primeira vez. Que água ela bebeu para saciar sua sede inspiradora? Quais os alimentos que a fortaleceram para dizer o que deveria ser dito em enredos e personagens marcantes? Lygia foi homenageada. Escritores falaram sobre sua obra. Os contos preferidos. Ela mesma já publicou um livro com esse título. E, depois, um outro chamado “Meus contos esquecidos”. Não sei qual o meu predileto. Confessei isso. Depende do dia. Depende do que estou sentindo. Acho que não esqueceria nenhum. Todos eles merecem um altar no oráculo da palavra: Biruta, Venha ver o pôr do sol, Natal na Barca, Antes do baile verde, O moço do saxofone, Papoulas em feltro negro e tantos outros escritos maravilhosos. 

 Lygia usou a palavra, sua majestade, para agradecer a homenagem. E resolveu falar sobre as meninas. Não falou sobre “As meninas”, seu romance. Falou sobre as meninas que precisam assumir o comando da própria vida.

Disse, lembrando Miguel Reale, que a revolução da mulher foi a mais importante do século XX. E continua no XXI.  Abriu o seu legado afetivo ao compartilhar as chamas que a aqueceram em vez de queimá-la. Sofrera ela preconceitos, certamente. A mãe, naquela época, separou-se do pai, que perdera tudo no jogo. Ela entrou para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Uma universidade de homens, disse ela. E teve de responder, várias vezes, as perguntas sobre o que levava uma mulher a ingressar naquele curso. “Quer estudar Direito ou arrumar marido?”, perguntou uma tia. Brincalhona, respondeu: “As duas coisas, por que não?”. E casou-se com um de seus professores, Goffredo da Silva Telles Júnior.

Lygia era amiga de Clarice Lispector. Conviveu com muitos escritores. Conta que se encontrou três vezes com Monteiro Lobato. Uma vez, foi visitá-lo na prisão. Outra, Lobato foi agradecer sua gentileza e foi à sua casa no dia do aniversário da jovem Lygia. E, na terceira vez, no enterro do escritor.

Disse Lygia, na homenagem:  “Sempre quis comandar o meu destino, por isso estudei, por isso resolvi sair dos espaços que me queriam reservar e fui construir o meu próprio”. E disse isso às meninas que estavam na Academia Paulista de Letras, olhos atentos na escritora. “A mulher tem de ser protagonista. Não pode ser relegada. Não pode se acovardar!”. Usou a metáfora do polvo que, quando tem medo, solta no mar uma mancha: “Em pleno mar, quando se sente perseguido, o polvo solta uma tinta negra para que a água fique escura e assim ele possa fugir. A negra tinta do medo, tão viscosa e morna.” Conclamou as mulheres a vencer os medos e, de cabeça erguida, construir os espaços desejados, com coragem.

Lygia, a eterna menina, terminou pedindo: “Eis que então, hoje, aqui na Academia Paulista de Letras, durante este evento tão importante para a literatura, esta escritora que está sendo homenageada faz um convite ao jovem e ao velho leitor: ‘ Me leia, não me deixe morrer. Repito: Me leia, não me deixe morrer!’”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/11/2015

Ruth e Maurício e os contadores de história

Na quarta-feira, tivemos a abertura do EMIL, Encontro Mundial da Invenção Literária.

O evento ocorreu no Museu da Língua Portuguesa e continua em vários pontos da cidade de São Paulo até o domingo próximo. São mais de 200 horas de atividades voltadas a palestras, conversas, saraus literários, contação de histórias entre outros. É sobre contação de história que gostaria de partilhar com vocês.

A abertura fez uma homenagem aos geniais escritores Ruth Rocha e Maurício de Sousa. Os dois completaram 80 anos. Os dois escrevem com a responsabilidade de ampliar os mundos de seus leitores. Os dois tratam a criança com respeito. Os dois são leitores ávidos que percorreram vários estilos literários de tempos e espaços diferentes.

 Os dois tiveram, em suas primeiras descobertas do fascinante mundo  em que vivem, contadores de história. Também Machado de Assis teve uma contadora de histórias. Também Goethe. E tantos outros que desenvolveram a capacidade imaginativa com contadores de história.

No passado, era comum que, nas famílias, alguém contasse histórias. Mesmo as pessoas que não tiveram a oportunidade de aprender a ler e a escrever traziam as magias encontradas na tradição oral. Pais, avôs, avós, tios, amigos da família sentavam-se em torno de algum aconchego e contavam histórias.  E por que, em tempos de informações tecnológicas, é importante resgatar esse fazer? Nas telas dos computadores ou nos televisores, temos as imagens prontas. Ao ouvirmos uma história ou lermos um livro, imaginamos. E precisamos desenvolver nossa capacidade imaginativa. Além de desenvolver os afetos mais profusamente brotados de encontros com os contadores. Quanta beleza há em uma criança que pede à mãe ou ao pai que conte, novamente, a mesma história e, vez ou outra, ainda os corrige quando esquecem algum detalhe. A história, a criança já sabe, mas o som da mãe, ao dizer a história, significa muito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/11/2015

Pedágio do amor

Crianças não deveriam ser tristes. Não deveriam experimentar a dor antes de criarem anticorpos na alma para isso. Com o tempo, vamos criando esses anticorpos. Combatemos os vírus da frustração, da desilusão, da traição e tantos outros com o tempo e com as experiências acumuladas de uma vida dual. Dual: bem e mal, bondade e perversidade, verdade e mentira, humanidade e sua ausência. 

No palco da vida, contracenam atores de todas as escolas. Alguns são intensos, outros fingem estar. O tempo nos mostra que, depois da subida íngreme, pode haver uma deslumbrante paisagem. O tempo nos ensina que, depois da chuva, o sol que vem é mais bonito. O tempo nos acorda para a compreensão de que os perversos não são regra, mas exceção – gosto de acreditar nisso.

Crianças não têm esse acúmulo de tempo. Não têm o calo necessário de mãos que precisam construir relações e espaços.

Crianças não deveriam ser tristes. É isso o que penso.

 

Estava em uma casa de conhecidos, depois de uma palestra. Era um final de semana e eu havia falado para professores de uma capital do nordeste. Encontro festivo. Reflexões sobre o nosso ofício de educar e de cuidar de crianças. Terminado o encontro, fui a essa casa. Ofereceram-me um almoço. Um jovem casal. Ele, diretor de uma faculdade; ela, consultora de marketing. Dois filhos. Um brincava e corria de um lado a outro. O outro andava com alguma dificuldade. Fazia um tratamento intenso para combater um câncer que lhe roubava forças e expectativas de um futuro.

O pai, profundamente carinhoso, brincava com os dois. Um corria, como já disse. O outro caminhava a passos lentos, carregando um equipamento que o mantinha tomando um tipo de soro. Mas ele tinha de pagar pedágio toda vez que passasse perto do pai. “Pedágio do amor”, sorria o pai. E o filho o beijava. E quando passasse, novamente, outro beijo. Ali havia o pacto do pedágio do amor. “Você tem que pagar, meu filho”. E prosseguia: “O bom é que você é muito rico, há muito amor em você”.

A mãe ocupava-se de preparar o que iríamos comer.

O pai falou-me pouco do tratamento do filho. Disse do tempo de internação em São Paulo. Elogiou o hospital, os médicos, os enfermeiros, os voluntários. Confidenciou-me das tristezas que os assaltam desprevenidos: “Vez ou outra, acordo de madrugada e me pergunto: Por quê?”. Repostas não há, e ele sabe disso. Faz parte do nosso estar no mundo. Não planejamos a doença, a morte. Não planejamos a dor. Mas ela insiste em nos provar a provar que somos fortes.

São fortes aqueles pais que se revezam no acender as velas de esperança daquela criança. Havia luz naquela casa. Certamente.

Pedi também ao menino que me pagasse o tal pedágio do amor, já que ele era tão rico. Ele sorriu. Lindamente. A ausência de cabelos não roubava a beleza daqueles olhinhos azuis cheios de vida, quando pedíamos o pagamento a ele. Abraçou-me e deu um beijo carinhoso.

Almoçamos juntos. Éramos dez ou doze pessoas naquela casa. Conversávamos um pouco sobre cada coisa.

Os pais falavam da vida. Vida era a refeição principal das manhãs daquela família. A cada dia, ganhavam um dia. Quantas dias terão juntos? Ninguém sabe. Há alguns que partem sem doença alguma e há outros que enganam as doenças para continuar pagando  o pedágio da existência: o pedágio do amor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/11/2015

Gritos desnecessários

Perdoe-me o aparente equívoco do título deste artigo. Da contradição. Gritos são sempre desnecessários. Gritos no sentido que utilizo neste texto. Um grito de gol é necessário. É bom. Um grito de chamamento também. Uma metáfora de uma força que nos impulsiona a prosseguir. Um grito de adeus em um porto para um navio que se vai. Os imigrantes viveram muito isso em tempos de despedidas definitivas.

O grito de que trato é outro. Um grito de uma mãe para um filho. Um grito de um namorado para a namorada. Pelo menos na situação que presenciei dias desses. Em uma saída de faculdade. Havia muita gente e muito barulho e não deu para saber detalhes. Deu para ouvir um homem gritando para uma mulher. Tratando-a como um objeto. Utilizando palavras desnecessárias em qualquer tipo de relação. E com tom acima do adequado. Namorados brigam. Seres humanos se desentendem. Há sentimentos contraditórios nas relações: paixão e ciúme, desejo e medo, confiança e desequilíbrio. E é de equilíbrio que falo, quando falo dos gritos desnecessários. Não poderiam esses dois conversar em local menos tumultuado? Ouvi dele, aos berros: “Há anos que te aturo e você me apronta essa?”. São anos de relação? Não há intimidade para limpar a sujeira em ambiente mais acolhedor? No mesmo dia, vi uma mãe gritando com uma criança. E, de novo, o grito. O grito desnecessário. Crianças não aprendem com gritos. Aprendem com palavras que tocam e com exemplos que dignificam a vida.
Há muitos desequilíbrios por aí. Pessoas que se perdem por acumularem problemas e despencarem todos eles de uma hora para outra. Da forma errada. Com a pessoa errada. No tom errado.
Aprendemos com os exemplos e com suas ausências. Essas cenas nos ajudam, talvez, a contracenar em outro tom, o tom do respeito.
Ah, como este conceito é bem-vindo: respeito! Com ele, só os gritos de entusiasmo, mesmo assim, no momento certo, com as pessoas certas, no limite certo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/11/2015

A morte e seus mistérios

Já sofri a dor da perda. Já enterrei amores. Já chorei as ausências. E não foram poucas. Partes nossas se vão. Difícil recompô-las. Elas se vão sofridas acompanhar os que gostaríamos que, por aqui, permanecessem. Encontrar palavras para o consolo não é fácil. Talvez não seja possível. Racionalizar o que acontece com os nossos mortos é quase ingenuidade. Como saber? As religiões não dão detalhes. Nem poderiam. Ou se tem fé ou não se tem. E, mesmo tendo, não tem a fé o poder da cicatrização imediata. Não estanca a saudade que barulhenta nos lembra, o tempo todo, do que perdemos. É uma perda, sim. Não há como negar. Perdemos a presença, o colo, o abraço, as histórias. Perdemos e é assim que é. Guardamos, entretanto, o que vivemos. O passado não nos pode ser roubado. Mas, no momento da separação, o passado parece até atrapalhar. Cada foto, cada filme, cada viagem no caldeirão da memória nos queima. E voltamos ao choro. E voltamos à consciência de que os momentos de amor precisam encontrar outra canção. Quando a morte vem, com ou sem despedidas, a dor que permanece é aguda. Voltar para a casa, depois de um enterro, é quase que um corte no que somos e no que gostaríamos de continuar a ser. 

 Sofri muito a morte de meu pai. Mas lembro-me dos gestos da minha mãe quando chegou ao quarto em que viveram por anos e anos um amor encantado. Os cantos de dor estavam ali para serem entoados. Minha mãe chorou baixinho. Olhou para mim e disse que não resistiria. Já havia perdido dois filhos. Já havia perdido os pais. Foi um pouco com cada um. Mas o seu amor estava com ela. Chorando junto. Cambaleando junto. Reerguendo com alguma dificuldade, junto. Olhou-me com vagar. Vagou pelo ontem e desejou que o ontem voltasse. Que tudo pudesse ser como nos dias que se foram. A fotografia da família estava incompleta. O filme já não tinha o mesmo barulho. Faltavam vozes. Disse pouco a ela. Abracei-a. Chorei junto. Agradeci por prosseguirmos, sabendo que independe de nós as partidas. Mas permanecemos, compreendendo que haveremos de continuar. É essa a nossa fé.

Minha mãe quis saber como nos encontraremos. Se seus filhos, na outra vida, continuarão sendo seus filhos. Se meu pai haverá de olhar para ela e reconhecê-la como a mulher que o amou e que foi amada. Se seus pais continuarão casados no Paraíso prometido.

Demorei a responder. Entendi que ela queria apenas desabafar. Mas ela insistiu.

– Só tenho dois filhos comigo. Quando morrermos todos, voltarei a ter os quatro filhos? Ou seremos todos irmãos? Eu quero saber.

Abracei-a novamente e tentei alguma resposta. Disse que não tinha certeza. Disse que a nossa crença era a de que há o mundo que vivemos e há um outro mundo, a eternidade ou Céu ou Paraíso ou como quisermos chamar.

– Mãe, entre esses dois mundos há algo fascinante chamado mistério. Não há como saber.

Ela quis saber o que dizem as Escrituras. Eu a lembrei de que Jesus falava que “na casa de meu Pai, há muitas moradas”.

E, se o Pai é Amor, o que virá depois não pode ser ruim. Se o Pai é Amor, não somos nós brinquedinhos que velhos ou estragados são descartados. Se o Pai é Amor, prosseguiremos.

– Permita, mãe, que o mistério a tranquilize. O mistério junto com a fé. Somos peregrinos de um mundo que nos encerra sem nos encerrar. Aqui, ficam sabores que experimentamos, afetos que alimentamos, histórias que escrevemos. Levamos a leveza dos nossos desprendimentos. O Amor nos liberta e nos dá asas. E é esse o voo final que os nossos amores já fizeram e que um dia faremos. Meu pai será meu pai na outra vida? Não sei. E meus irmãos? Também não sei. Só sei que não pode ser ruim. Só sei que estar mais próximo de Deus fará com que eu seja capaz de viver plenamente o que vivo, aqui, quando amo. Porque o céu começa aqui.

Minha mãe deitou e adormeceu com o cansaço da perda, mas ficou pensando na morte e nos seus mistérios. Eu me deitei ao seu lado e agradeci a Deus por sua inspiração e pelo meu pai que me ensinou a acreditar.

Saudade, pai.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/11/2015

Vou com ela

Era uma vez uma senhora muito solitária. Vivia em uma grande cidade, São Paulo, sozinha. Já havia criado a filha. Já havia ficado viúva. Já havia resolvido ser um pouco mais reservada. Resolveu ou aconteceu. No prédio em que morava, sentia-se bem tratada, respeitada, mas, como ninguém tem tempo, não cobrava visitas nem visitava as pessoas.

Certa vez, essa senhora ia andando pelo bairro, quando viu uma cadelinha atropelada. Cadelinha de rua. Não havia ninguém para com ela se preocupar. Ouviu os gritos contínuos e resolveu socorrê-la. Levou-a ao veterinário. Cuidou dela. E ali nasceu sua última história de amor. Passeavam juntas. Preocupavam-se uma com a outra. Isso mesmo. 

 Um dia, a cadelinha latiu tanto que fez com que o porteiro fosse ao apartamento e abrisse a porta. A mulher estava desmaiada. Caiu. Bateu a cabeça. Socorrida a tempo, foi salva. A cachorrinha passou dias de solidão. Emagreceu. Adoeceu, esperando a amiga. Ela voltou e os dias bons voltaram. Mas as histórias têm fim. Tempos depois, a doença veio decidida. E, com ela, a morte. E a morte levou a mulher. E a cachorrinha? Não ficou abandonada. A filha da mulher decidiu cuidar dela. Levou-a para casa depois do enterro. E depois? A história ainda não acabou. Mas vai acabar. A cachorra sofreu dois dias. Não comeu. Ficou em um canto da casa e, sem avisos, morreu. A filha da mulher que havia cuidado da cachorra não entendeu nada. Chorou mais uma vez.  Pelos sentimentos da cachorrinha de rua por sua mãe. Pelas suas ausências na vida da mãe. Falou sozinha, algumas vezes, querendo entender como pode um animal nos amar tanto. A história acaba aqui. 

Fiquei pensando na cachorra conversando com a morte. Primeiramente, reprovando o que ela fizera. Levar sua amiga. Depois, sua decisão: “Vou com ela”. Mistérios do que não sabemos.  Sabemos é que cachorros têm sentimentos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/10/2015

Canção de Misericórdia

Cássia é uma contadora de histórias. Professora dedicada, encontrou nas histórias um caminho para despertar sentimentos e atitudes. Muitas histórias começam com “Era uma vez”. Há, na esfera dos afetos, espaços para acolher essas histórias. Lembranças de embalos infantis ou adultos. De marcas que foram ficando. De pessoas, talvez, que nos surpreenderam com seus ditos fabulares ou reais. “Era uma vez” poderia, vez ou outra, não ser. Como é o caso da história contada por Cássia dia desses. Éramos um grupo de educadores sentados, atentos ao seu enredo. E ela começou. Poeticamente, entoou seu canto de misericórdia, lembrando a dor de um índio Pataxó que foi morto em Brasília.

Isso já faz algum tempo, mas ainda mora em nossa memória. Um índio de nome Galdino Jesus dos Santos foi até Brasília para a comemoração do dia do Índio, no dia 19 de abril de 1997. Conversou com autoridades, fez as suas reivindicações, cantou o seu canto em defesa dos seus e, depois, escolheu um canto para descansar. Sem grandes exigências, adormeceu em um ponto do ônibus. Poderia ter sonhado um sonho tranquilo. E a história poderia começar assim: Era uma vez um índio que foi até a capital do país para tratar dos direitos do seu povo ou, então, era uma vez um índio que foi celebrar o seu dia e depois adormeceu para recobrar as forças e voltar para os seus. Mas a história não foi essa. Um grupo de jovens que estava desocupado, segundo eles próprios, resolveu se divertir. E buscaram uma diversão que consideraram original: colocar fogo em quem dorme em algum canto. Disseram que a intenção não era a de matar. Era apenas a de assustar. De incomodar. De queimar. Disseram tantos ditos contraditórios e desnecessários!

 

E continuou Cássia emocionando a todos nós e supondo ter sido ela a professora desses jovens e se perguntando o que ela poderia ter feito e não fez na educação desses moços para evitar atitude tão horrenda. Emília, professora, formadora de professores, também estava lá. Tomou a palavra e confidenciou que, na época, era aluna de Paulo Freire. E que o mestre chorou quando soube da morte do índio. Chorou por pelo menos duas razões. Chorou por um irmão seu, da mesma natureza humana, que partiu prematuramente diante da criminosa ação, mas chorou, também, por ser educador e por se perguntar onde estamos errando ao não conseguir educar nossos alunos para os valores mais significativos da vida humana. Sim, a esses jovens faltou o respeito à vida, o respeito ao outro, a misericórdia. Misericórdia é uma palavra belíssima que se origina do latim. Misericórdia vem de “miseratio” que é derivado de “miserere” e significa compaixão, piedade. E vem de “cordis” que é derivada de “cor” e significa coração. Um coração compassivo ou piedoso. Um coração que tem compaixão ou, em outras palavras, que sofre com a dor do outro. Se tivessem sido educados corretamente, esses jovens chorariam antes com a simples ideia de colocar fogo em alguém. Onde estavam os seus educadores? Pais, professores, inspiradores de vida?

Muitos outros acontecimentos perversos marcaram e marcam os nossos tempos. Mas a lembrança de Paulo Freire, querendo entender a nossa função de educar corretamente, é muito significativa.

Não podemos mudar o passado. Mas a vida segue. Quem sabe no amanhã, quando contarem histórias dos nossos dias, o “Era uma vez…” tenha cores menos foscas. Quem sabe sejamos nós, educadores, os responsáveis por mudar o mundo. O mundo que habita cada aprendiz. Que também nos ensina. E que de nós é dependente na construção de suas escolhas e aspirações.

A professora Cássia nos tocou em um canto sagrado em que habitam razão e sentimento. É esse o papel da arte da contação das histórias. Comover e mover. Saí daquele encontro, encontrando mais razões para prosseguir, fazendo história e provando, a mim mesmo e aos meus irmãos, que as rasuras não podem destruir o lindo texto que é a escritura da vida. E que nós, professores, somos escritores por excelência. Das vidas que hoje, preparam-se para o hoje e para o sempre. 
         Era uma vez um grupo de professores que resolveu resistir aos perversos e prosseguir professando o amor como a mais linda profissão de fé. Paulo Freire, o mestre que inspirou Cássia, que foi professor de Emília e que deixou um legado para o mundo já nos ensinou “Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo”. Misericórdia, portanto!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) l Data: 25/10/2015