Tag: criança

Os direitos das crianças

Dados recentes da UNICEF chamam a atenção para uma canção triste na voz de milhões de crianças que orquestram a dor nos territórios atingidos por conflitos. São 250 milhões de crianças – ou 1 em cada 9 –  que moram em áreas em que a paz não tem autorização para permanecer.

Têm essas crianças o dobro de chances de morrer de doença antes dos 5 anos. Morrem também das armas fabricadas pelos homens. Morrem, também, ao verem morrer seus pais, seus parentes, seus amigos. Ao verem o quintal dos sonhos devastado pela ambição dos homens. Infâncias desperdiçadas. Brincam com utensílios de destruição, ouvem histórias de ódio, falam sobre os inimigos, choram as invasões. E são apenas crianças.

 E os direitos das crianças? Aqueles aprovados pela Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 20 de novembro de 1959? Envelheceram sem nascer? Foram esquecidos antes de mostrar a face? Seus 10 princípios são tão significativos. Vida, liberdade, educação, saúde, cuidado, proteção, narram direitos que não podem ser negligenciados. A narrativa, entretanto, não alcança quem é de direito. As crianças padecem do jardim propício para a formação das raízes. Raízes que exigem condições mínimas de uma vida digna. Se as raízes estiverem fincadas em terrenos corretos, crescerão com menos problemas e alcançarão os patamares que ousarem de acordo com os impulsos das próprias escolhas.

Escolhas? Em territórios de guerra, o que se escolhe? Em ausências de paz, as outras ausências vão se apresentando. Não há educação, não há saúde, não há equilíbrio, não há bondade. O que se vê e o que se aprende é a combater. Não o bom combate, o que exige valentia para fazer tremular os valores em que se acredita. Falamos, aqui, do combate para a sobrevivência. Ou mato ou morro. E isso na infância. Onde as raízes ainda não têm história. Terrenos de guerra são pouco férteis. Difícil de ver brotar frutos bons.

Toda criança deve crescer em um ambiente de amor. Em um ambiente de compreensão, de segurança. É linda a imagem do filme “A Vida é Bela”, em que o pai inventa uma história bonita para amenizar os horrores dos traumas nascidos em um campo nazista para os poucos que sobreviveriam. Há pais que conseguem fazer isso nesses territórios de conflito. Mas é difícil. É difícil saber que se pode morrer amanhã e, na noite de hoje, deitar na cama do filho e embalar os seus sonhos contando uma história de amor. É difícil brincar ao amanhecer se há barulhos de bomba eclodindo como primeira refeição. Nutrientes ruins esses. Nossos jardins foram invadidos por estranhos que, por razões econômicas ou religiosas ou quaisquer outras, se acham no direito de nos desconsiderar.

Até quando conviveremos com isso? Até quando as nossas diferenças serão resolvidas com a eliminação de vidas? Que racionalidade é essa que nos faz ostentar algum orgulho? Somos animais racionais, não é assim que ensinamos? Como uma criança aprenderá sobre isso nessas áreas tristemente violentas?

Estamos falando de episódios com os quais convivemos em nossos tempos. Este dado da UNICEF, de 250 milhões de crianças que vivem em áreas de conflito, é de agora. E então?

E, talvez, seja pior. Há territórios nos quais os conflitos não são contabilizados. Lares violentos, brigas entre os pais, espancamentos de mulheres, de crianças. E os direitos das crianças?

Não quero deixar uma mensagem de pessimismo, mas, para ousar a utopia, é preciso conhecer a realidade. A realidade é a de um jardim devastado. Ainda acredito nos semeadores. Nas mulheres e homens que percebem a complexidade do que fazem e que não desistem. Valentes educadores que ousam desafiar o ódio e implementar o plantio do amor. Vencem o medo com o canto certo. O que se afina dia a dia para que a orquestra dos que vêm chegando continue a ser executada.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/01/2016

Crianças abandonadas

Mais uma criança recém-nascida é encontrada na rua. Em um saco qualquer, em um canto qualquer, abandonada por uma mulher. Já se sabe que era a mãe. Primeiramente, tal ato nos desperta questionamentos. Por quê? Por que abandonar crianças? Falta de vontade de cuidar? Medo? Ignorância por não saber que, se não se tem condições, é possível entregar para a adoção? O fato é que mais uma criança foi abandonada. Quantas crianças abandonadas ainda veremos por aí? Essa foi salva. Alguém a viu. Sentiu sua existência. Teve compaixão. Cuidou dela. Encaminhou para pessoas responsáveis com a responsabilidade de quem pode contribuir para não matar futuros, não deixar morrer crianças.

 Essa criança há de crescer. Outras não tiveram essa oportunidade. Essa criança há de superar o abandono – é o que sonhamos. Outras tantas são abandonadas e, se sobrevivem, carregam marcas desses tempos. Longe de mim justificar a ação da  mãe. Teria sido ela um dia abandonada? Faltou a ela instrução, esclarecimento, compaixão? Ela justifica como medo de perder o emprego, pois, certamente, a patroa não aceitaria a criança ali. Deu à luz no banheiro da casa dos patrões, silenciosa e solitária. Sufocando a dor. Movida pelo pavor de ser descoberta. Limpou a filha, cortou o cordão umbilical, alimentou-a e, por desespero – quem sabe? – abandonou-a num canto qualquer, numa noite de chuva.

Intenções. Ações. 

Mas um porteiro surgiu na vida dessa criança e repetiu a parábola do bom samaritano. Ele poderia ter seguido o seu caminho, estava indo à missa. Poderia ter fingido não ter ouvido o choro. Poderia ter tido a decisão de não se meter com problema dos outros. Mas o bom porteiro, outro Francisco de Assis, abriu as portas do futuro para essa criança.  Segurou a menina no colo. Embalou-a. Está radiante com a vida que salvou. Quer adotá-la. Trazê-la para o aconchego de sua família. Já escolheu o destino do bebê. Ser amado. Escolheu seu nome: Valentina. Que bom. Ainda há bondade no mundo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/10/2015

 

Criança infeliz

É de Francisco Alves uma canção que embalou muitas infâncias:

“Criança feliz, que vive a cantar/ alegre embalar seu sonho infantil”. A cena de uma criança feliz é contagiante. A ausência de preocupações ou vícios. A confiança nos adultos que, decerto, derramam amor sem economias. Os cuidados todos. Os aplausos para as conquistas de todos os dias. O engatinhar, o andar, o pronunciar das primeiras palavras. Os risos. Os choros. Os dizeres que, com algum esforço, vão expressando sentimentos, desejos. É assim que quer a canção. É assim que se espera de quem resolveu trazer vida nova ao mundo. Mas os cotidianos estão cheios de infelicidades. 

Nesta semana, conheci Karla Jacinto, escravizada desde a infeliz infância para serviços sexuais. Karla era usada por uma média de 30 homens por dia. Porque era um serviço rápido. Eles queriam apenas “dar uma aliviada”, em seus próprios dizeres. Rápido e doloroso. Demorado e doloroso. Aos 12, 13, 14, 15 anos, foi sendo trocada por algum dinheiro. E via outras meninas no mesmo calvário. Algumas levadas pelos próprios pais. Covardes os que roubam a infância, a inocência, o futuro de uma criança. 

Karla, hoje, vive testemunhando sua dor para tentar acabar com essa chaga que adoece o mundo. O mundo de hoje. O que nós vivemos. Histórias de violência sexual contra crianças são mais comuns do que possamos imaginar. Dentro de casa, inclusive. Culpa-se o álcool, as outras drogas. Culpa-se alguma demência da mente ou da alma. Culpa-se a desestruturação familiar. Talvez todos nós tenhamos um pouco de culpa, quando não enxergamos o que está ao lado, preocupados que estamos com nossos próprios afazeres. Cuidar uns dos outros é a nossa constituição humana, é o nosso respirar comum. Há muito de poluição por aí. Infelizes seres indefesos que sorvem a dor dos desequilíbrios adultos. Que a poesia inspire a vida, reza o compositor: “Crianças com alegria qual um bando de andorinhas viram Jesus que dizia: Vinde a mim as criancinhas!”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/07/2015

 

 

O dom das lágrimas

Dia desses, ouvi uma mãe explicando ao filho que “homem não chora”. O menino de três ou quatro anos fazia de tudo para não chorar, mas não conseguia. Passava os bracinhos miúdos sobre os olhos que insistiam em gotejar, tentava limpar o nariz, que também participava da dor, e nada. E a mãe agia com mais vigor, alertando : “você é um homem. E homem não chora!”.

Quem será que criou essa teoria?  Quem separou o gênero humano entre aqueles que podem e aqueles que não podem chorar? Homem chora, sim! Homem é razão e emoção como a mulher. Homem chora de dor,  de saudade, de felicidade. Homem chora as dores da alma,  é um direito inegável a qualquer ser humano. Jesus chorou diante do sofrimento da família de Lázaro. Sabia que tinha o poder de ressuscitá-lo, mas a situação daquelas irmãs inconsoláveis diante da perda o emocionou, e ele chorou. Uniu-se à nossa humanidade e chorou. 

Na educação dos filhos, não poucas vezes, as famílias cobram de uma criança a postura de um adulto. Criança é criança. Tem inseguranças próprias de criança. O adulto tem as suas. Os medos talvez sejam diferentes. Mas todos têm medo. Meninas e meninos também têm diferenças como as mulheres e os homens. Mas têm muito em comum: choram, emocionam-se, amam. É para isso que fomos criados. 

Fiquei imaginando por que aquele menino estava chorando. E fiquei pensando nos erros que algumas mães e pais cometem quando querem transformar os seus filhos em heróis. Os pais não são heróis. Por que os filhos haveriam de ser? 

Vez ou outra, é necessário sentar-se diante de um filho e chorar com ele. Pai ou mãe. Contar alguma história das tantas pedras que surgiram no seu caminho. Mostrar os fracassos e as possibilidades de superação. Porque os seus filhos passarão por histórias de fracassos, também. Todos passam. E o problema não será a queda, será a ausência da aprendizagem de que quem está caído pode se levantar. E pode chorar quando da queda. E pode chorar quando da superação da queda.

Meu pai chorava muito de emoção. Ele se foi. Minha mãe ainda chora. E eu choro também. De dor, de tristeza, de alegria. Em casa, nunca tivemos constrangimento em chorar. Nas partidas ou nas chegadas. Como é bom viver sem máscaras. Como é bom ter uma família que nos ajude a viver sem ter medo das nossas emoções. Na minha casa, sempre fomos muito unidos. Em todas as situações. Meus pais me ensinaram a ter compromisso com a verdade. Não havia mentira entre nós. Se algo de ruim acontecesse, chorávamos todos juntos.

É essa a referência de “família” que permeia minha vida, minhas ações. Minha força. Meus sentimentos. Talvez por isso a reação daquela mãe tenha me causado estranhamento. Talvez por isso tenha escrito este artigo. Precisamos nos respeitar.  Somos todos passíveis de erros. Quem determinou que precisamos ser perfeitos e fortes o tempo todo? Fraquejar é humano. Chorar, também. Vamos nos permitir – como defende Clarice Lispector. Afinal, foi-nos dado um dom. O dom das lágrimas.

Respeito Muito o Homem que Chora

Há um tipo de choro bom e há outro ruim. O ruim é aquele em que as lágrimas correm sem parar e, no entanto, não dão alívio. Só esgotam e exaurem. Uma amiga perguntou-me, então, se não seria esse choro como o de uma criança com a angústia da fome. Era. Quando se está perto desse tipo de choro, é melhor procurar conter-se: não vai adiantar. É melhor tentar fazer-se de forte, e enfrentar. É difícil, mas ainda menos do que ir-se tornando exangue a ponto de empalidecer.

Mas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.

Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar. 
                                                                                

Clarice Lispector (1967)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/07/2015

Gabriel Chalita participa do 16º Salão FNLIJ para crianças e jovens

O professor Gabriel Chalita conversou com educadores e estudantes no 16º Salão FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), no Rio de Janeiro. Em meio a histórias e à frequente interação com as crianças, Chalita ressaltou a importância da leitura para uma formação escolar sólida e para a vida: “É preciso recuperar o valor da contação de histórias. Dos encontros, como este em que estamos.” E, dirigindo-se aos educadores presentes, completou: “Acerta quem permanece com os bons sentimentos de uma criança. Que a inocência não nos abandone.” 

O salão FNLIJ do livro para crianças e jovens já se tornou parte do calendário cultural do Rio de Janeiro. Esse projeto proporciona um importante diálogo entre escritores, ilustradores, professores e crianças para promover a educação e incentivar a leitura no Brasil. Além de bate-papos, o Salão do Livro disponibiliza bibliotecas, promove um seminário e uma premiação aos melhores livros do ano, de acordo com o júri da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. 

Fonte: assessoria de imprensa (5/6/2014)

Compaixão

Há palavras que nos trazem significados tão essenciais que é preciso, vez ou outra, usar um pouco de nosso tempo para refletir sobre elas. Compaixão é uma dessas palavras. Compaixão significa “sofrer com”. É a capacidade que tem uma pessoa de sofrer com a outra. De se colocar no lugar da outra, consciente de que fazemos parte do mesmo barro, da mesma espécie, da mesma humanidade.

Compaixão não se confunde com pena. Quem tem pena olha de cima para baixo. Quem tem compaixão senta junto. A pena é passiva. A compaixão, não. Ela requer atitude frente ao sofrimento do outro. Uma atitude que vise a minimizar a dor alheia. Para isso, é preciso sensibilidade e generosidade. Há exemplos por todos os lados: gente que sai a cuidar de quem precisa, que usa parte de seu tempo para ajudar os outros a encontrar significado para a própria vida.

Em trabalhos voluntários, é comum ver pessoas se emocionando com a capacidade que tiveram de roubar o sorriso de uma criança que sofre com câncer, de um idoso que não recebia visitas no asilo, de uma mãe que não sabia como cuidar de seu filho e assim por diante. Mas há um desafio que vai além. Usar a compaixão no dia a dia. Em qualquer profissão. Uma palavra, um gesto, uma preocupação do taxista e o passageiro sente-se cuidado. Um sorriso do motorista de ônibus, a paciência com aquele idoso que demora um pouco mais para subir. Um enfermeiro que usa as palavras corretas para que sua profissão não caia na rotina e ele continue enxergando o outro. Um professor que sabe do poder que tem de ajudar os seus alunos a serem protagonistas da própria história, superando dificuldades e seguindo adiante.

Podemos falar de compaixão, também, na família. Um pai que sofre com o sofrimento do filho. Um filho que sofre com o sofrimento do pai. Companheiros que se enxergam e, enxergando-se, sabem que podem amenizar a dor.

Em uma sociedade tão apressada, com relações tão egoístas, desperdiçamos o poder do “enlaçar as mãos”, do sentir, do alimentar de afeto. Mas dá tempo de mudar. O convite é viver compreendendo o sofrimento do outro, ajudando-o e nutrindo-o de esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/1/2014

A voz das crianças

O mundo das crianças é, evidentemente, diferente do mundo dos adultos. Uma criança não é um pequeno adulto. É uma criança. E a criança tem voz. E essa voz precisa ser ouvida. Uma criança tem sentimentos. E esses sentimentos precisam ser compreendidos. Uma criança tem o direito de ser alimentada de futuro.

Na família e na escola, é preciso que se compreenda esse universo e que se respeite cada fase de seu desenvolvimento.

Os primeiros estímulos vêm da família. A linguagem dos afetos. O exemplo. O cuidado. A criança precisa ter nos pais o porto seguro de uma embarcação que se prepara para singrar os mares, muitas vezes, pouco serenos da vida. Na escola, cada gesto deve ser cuidadoso para não ferir quem ainda não tem condições de se defender. Falo dos ferimentos físicos, mas – mais ainda – dos morais. A dor moral é terrível. O bullying é um sério risco para o desenvolvimento saudável das nossas crianças. As comparações equivocadas. Os pareceres apressados e outras inadequações.

O professor tem muito poder. Tem o poder de construir, de conduzir, de instigar, de alimentar de vida os seus alunos, mas também tem o poder de traumatizar, de escravizar em uma gaiola os talentos que poderiam alçar voos. É preciso ter cuidado. É preciso ter respeito. 

Pais e professores precisam estar juntos nessa tarefa de formar pessoas críticas para discernir o certo do errado, o que liberta do que escraviza, o que mata do que dá vida. A mídia também é uma fonte importante de influência. É preciso selecionar o que instrui, edifica e descartar o que destrói e deteriora os bons valores.

Criança tem voz. E uma voz que, se ouvida, é capaz de ensinar. Uma inocência que contagia. Pobres crianças alijadas de sua alegria pela violência de adultos: pedofilia, trabalho infantil, violência, ausência… viremos a página e voltemos ao porto seguro. Nossas crianças merecem. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/10/2013