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Crianças abandonadas

Mais uma criança recém-nascida é encontrada na rua. Em um saco qualquer, em um canto qualquer, abandonada por uma mulher. Já se sabe que era a mãe. Primeiramente, tal ato nos desperta questionamentos. Por quê? Por que abandonar crianças? Falta de vontade de cuidar? Medo? Ignorância por não saber que, se não se tem condições, é possível entregar para a adoção? O fato é que mais uma criança foi abandonada. Quantas crianças abandonadas ainda veremos por aí? Essa foi salva. Alguém a viu. Sentiu sua existência. Teve compaixão. Cuidou dela. Encaminhou para pessoas responsáveis com a responsabilidade de quem pode contribuir para não matar futuros, não deixar morrer crianças.

 Essa criança há de crescer. Outras não tiveram essa oportunidade. Essa criança há de superar o abandono – é o que sonhamos. Outras tantas são abandonadas e, se sobrevivem, carregam marcas desses tempos. Longe de mim justificar a ação da  mãe. Teria sido ela um dia abandonada? Faltou a ela instrução, esclarecimento, compaixão? Ela justifica como medo de perder o emprego, pois, certamente, a patroa não aceitaria a criança ali. Deu à luz no banheiro da casa dos patrões, silenciosa e solitária. Sufocando a dor. Movida pelo pavor de ser descoberta. Limpou a filha, cortou o cordão umbilical, alimentou-a e, por desespero – quem sabe? – abandonou-a num canto qualquer, numa noite de chuva.

Intenções. Ações. 

Mas um porteiro surgiu na vida dessa criança e repetiu a parábola do bom samaritano. Ele poderia ter seguido o seu caminho, estava indo à missa. Poderia ter fingido não ter ouvido o choro. Poderia ter tido a decisão de não se meter com problema dos outros. Mas o bom porteiro, outro Francisco de Assis, abriu as portas do futuro para essa criança.  Segurou a menina no colo. Embalou-a. Está radiante com a vida que salvou. Quer adotá-la. Trazê-la para o aconchego de sua família. Já escolheu o destino do bebê. Ser amado. Escolheu seu nome: Valentina. Que bom. Ainda há bondade no mundo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/10/2015

 

Um menino, uma pomba, um destino

Domingo passado, fui almoçar na região da Paulista com alguns amigos. Em pleno inverno, o sol aquecia a cidade. Estávamos caminhando, quando vi uma cena triste. Um menino saiu de uma lanchonete e, ao ver uma pomba na calçada, não teve dúvidas, chutou com uma violência impressionante o assustado animal. Não conseguiu atingi-la. Pombos têm asas. Melhor assim. E o menino? Tem o quê? Que destino? Quem chuta uma pomba, hoje, chuta uma pessoa amanhã. Quem não tem sensibilidade com um animal, que nada fez nem o importunou nem estava no seu caminho, imagine o que poderá fazer com alguém que o incomodar? Dizia Tolstoi, acostumado a traduzir em palavras as angústias humanas, que “se um homem aspira a uma vida correta, seu primeiro ato de abstinência é o de ter compaixão pelos animais.”

 Sou educador e preocupo-me cada vez mais com o que vem acontecendo com as pessoas. A agressividade vem ganhando patamares impressionantes. Na vida real e na virtual. A ausência de paciência e de compaixão é cada vez mais evidente. Impaciência com o jeito do outro, com o tempo do outro, com as escolhas do outro. Compaixão como um dos mais nobres sentimentos humanos: a capacidade de sentir a dor do outro e fazer de tudo para não provocá-la ou, se for o caso, amenizá-la. A compaixão é a certeza de que habitamos a mesma moradia humana. E que o que o outro sofre eu também poderia sofrer.

Mas quero voltar ao menino. Quem educou esse menino? Quem lhe apresentou os valores mais significativos da vida? Quem o conduziu para ver e compreender as criaturas que compõem o universo? Almir Sater, em inspiração poética, canta: “Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”. Mas, no início, se não educarmos, as escolhas ficam mais difíceis, os destinos mais tristes, e um menino perde a capacidade de ver que, até nas pombas, há vida, há sentimento, há beleza.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/08/2015

 

Compaixão

Há palavras que nos trazem significados tão essenciais que é preciso, vez ou outra, usar um pouco de nosso tempo para refletir sobre elas. Compaixão é uma dessas palavras. Compaixão significa “sofrer com”. É a capacidade que tem uma pessoa de sofrer com a outra. De se colocar no lugar da outra, consciente de que fazemos parte do mesmo barro, da mesma espécie, da mesma humanidade.

Compaixão não se confunde com pena. Quem tem pena olha de cima para baixo. Quem tem compaixão senta junto. A pena é passiva. A compaixão, não. Ela requer atitude frente ao sofrimento do outro. Uma atitude que vise a minimizar a dor alheia. Para isso, é preciso sensibilidade e generosidade. Há exemplos por todos os lados: gente que sai a cuidar de quem precisa, que usa parte de seu tempo para ajudar os outros a encontrar significado para a própria vida.

Em trabalhos voluntários, é comum ver pessoas se emocionando com a capacidade que tiveram de roubar o sorriso de uma criança que sofre com câncer, de um idoso que não recebia visitas no asilo, de uma mãe que não sabia como cuidar de seu filho e assim por diante. Mas há um desafio que vai além. Usar a compaixão no dia a dia. Em qualquer profissão. Uma palavra, um gesto, uma preocupação do taxista e o passageiro sente-se cuidado. Um sorriso do motorista de ônibus, a paciência com aquele idoso que demora um pouco mais para subir. Um enfermeiro que usa as palavras corretas para que sua profissão não caia na rotina e ele continue enxergando o outro. Um professor que sabe do poder que tem de ajudar os seus alunos a serem protagonistas da própria história, superando dificuldades e seguindo adiante.

Podemos falar de compaixão, também, na família. Um pai que sofre com o sofrimento do filho. Um filho que sofre com o sofrimento do pai. Companheiros que se enxergam e, enxergando-se, sabem que podem amenizar a dor.

Em uma sociedade tão apressada, com relações tão egoístas, desperdiçamos o poder do “enlaçar as mãos”, do sentir, do alimentar de afeto. Mas dá tempo de mudar. O convite é viver compreendendo o sofrimento do outro, ajudando-o e nutrindo-o de esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/1/2014