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Dormir para sonhar

Assisti ao filme que trata das numerosas quedas de Walt Disney antes de criar seu famoso personagem Mickey Mouse: Walt antes do Mickey (2014). O filme é biográfico e conta a história do menino Walt que se realizava ao desenhar. Desde os tempos da fazenda do pai. Desenhava onde conseguia. A família teve suas quedas econômicas. Dias difíceis para todos eles. Mas Walt persistia. Persistia desenhando. Persistia montando seus estúdios. Era despejado por falta de pagamento. Era ridicularizado pelos fracassos. Era explorado por intermediários. Era enganado por pessoas próximas. Desânimos não deixaram de surgir, mas ele era maior. 

 Em uma das quedas, em um dos despejos, em uma rua, vê um ratinho, brinca com ele, alimenta-o. E dele se alimenta sua imaginação criativa. E cria um rato especial em homenagem ao animalzinho amigo. Mickey Mouse. Sua história serve de inspiração para tantos que desistem nos primeiros tombos. Em qualquer carreira, em qualquer profissão, as portas não se abrem com sopros frágeis. É preciso mãos decididas e um olhar que vê além. Fracassos em negócios e em iniciativas não podem ser maiores do que a aspiração de construir algo que tenha significado na vida das pessoas. Erros de rotas também fazem parte. Quantas pessoas ao mudarem de profissão ou de emprego ou de atividade conseguem se realizar. O ruim é esperar acomodando-se no ruim para ver se algo melhora. 

Mesmo um ratinho surgido do nada em uma calçada de desesperança pode inspirar um homem a ser um dos maiores empresários do entretenimento de todos os tempos. Walt Disney é um entre tantos que não aceitaram passivamente as quedas. Vale a pena ver o filme e refletir. Afinal, dizia ele: “Um dia aprendi que sonhos existem para tornarem-se realidade. E, desde aquele dia, já não durmo pra descansar. Simplesmente durmo pra sonhar”. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/11/2015

 

Que horas ela volta?

Assisti ao filme de Anna Muylaert. Assisti com atenção à excelente trama que traz o universo cotidiano da casa brasileira – o universo de relações entre patrões e empregados. O filme traz uma profunda reflexão sobre preconceitos, solidão, sonhos, ética.

Uma empregada, Val, interpretada brilhantemente por Regina Casé, dedica a sua vida a cuidar da vida dos seus patrões. Faz de tudo. Esmera-se para fazê-los felizes. Percebe, sutilmente, as idiossincrasias de cada um deles, mas, com abnegação e respeito, fica no seu espaço, a cozinha. Espaços são bem tratados na trama. Qual é o espaço dos patrões? Qual o espaço dos empregados? Val parece ser tratada como alguém da família. O patrão não trabalha. É um pintor que perdeu a inspiração. Mas tem dinheiro. A patroa busca reconhecimento por seu estilo. E tem uma relação fria com o marido e o filho. O filho dos patrões busca os afetos no quarto da empregada. É ela a sua mãe de acolhimento. É ela que o incentiva a acreditar no seu talento. Os lugares dos afetos são o quarto da empregada e a cozinha. Ali, o menino se desmancha em vida. Ali, ele é ouvido e tem voz.

 Mas um fato muda a rotina da família. A filha de Val vem do Nordeste para prestar vestibular de arquitetura. E fica hospedada com a mãe na casa dos patrões. O conflito vai ganhando tom. O tom desafinado do desalinhamento do discurso inicial de permissão à prática de preconceito com a filha da empregada. A cena da limpeza da piscina é cheia de significados. A menina é jogada na piscina, em uma brincadeira. Brinca com o filho do patrão e com um amigo dele. A dona da casa chama um homem para esvaziar e desinfetar a piscina. A justificativa é que um rato foi encontrado naquele espaço que pertence apenas à família e aos seus convidados.

A linguagem trabalha com o não-dito. A escada interna da casa tem um significado que sugere várias possibilidades. O país mudou. A filha da empregada passa,  para assombro da patroa, no vestibular de arquitetura. O filho do patrão não passa. A filha da empregada tem um filho. E o deixa no Nordeste para fazer faculdade em São Paulo e, depois, voltar a cuidar dele. É como a história da mãe que deixou a filha e veio trabalhar por causa da filha. Laços que se rompem por razões sociais. Futuros que, para serem atingidos, dependem de presentes interrompidos. Mas a história não se repete. O desfecho é surpreendente. É preciso ver o filme para saber. É preciso ver o filme para refletir sobre os preconceitos disfarçados que continuam a desafinar as histórias entre empregados e patrões. É preciso ver o filme para aplaudir o cinema brasileiro. O talento de Anna Muylaert e de um elenco afinadíssimo.

Histórias do cotidiano são mais complexas de serem retratadas. Poderiam cair na vala comum dos exageros, dos apelos, da intenção maniqueísta de criar bruxas e princesas ou bandidos e mocinhos. Não se trata de maldade ou de bondade. Trata-se de ética. De comportamentos erráticos que fazem com que patrões não consigam enxergar os seus empregados. Cenas de famílias brasileiras ainda são chocantes. Empregados que cozinham para os seus patrões e não podem sequer experimentar o que preparam. Os patrões dão uma desculpa que julgam satisfatória: “O problema é que não estão acostumados a comer dessa comida”.  Separam os copos de bebida. Os espaços. Os problemas. Empregados com problemas familiares não agradam. Os patrões justificam: “Já tenho problemas demais para me preocupar com os outros”. “Os outros”, no caso, são pessoas que vivem na mesma casa, que preparam a comida, que lavam as roupas, que melhoram o ambiente, que cuidam diuturnamente para que o espaço esteja o mais agradável possível. Mas o espaço do empregado não é o do patrão. “Essa gente é folgada”, sugerem alguns. Qual gente? Há categorias de gente? Os que têm mais ou menos dinheiro? Os que têm mais ou menos instrução? O país está mudando. Quem nunca imaginou entrar numa universidade, hoje, faz mestrado e doutorado. Quem estava apartado começa a exigir fazer parte de um país que é de todos. Os anos horrendos da escravidão se findaram, mas ainda há, na alma de alguns brasileiros, resquícios daqueles tempos: casa grande e senzala.

Que bom sair do cinema refletindo. Sobre a postura dos outros. Sobre a nossa própria. “Que horas ela volta” é uma inspiração para dias melhores…

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/10/2015

O menino da porteira

Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.

Eu era menino ainda quando fui assistir ao filme “O menino da porteira”. Morávamos em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, e lá não havia cinema. Tínhamos uma casa em Caraguatatuba. Íamos nas férias. Era uma casa simples que tinha apenas um quarto grande, uma cozinha, uma varanda e dois banheiros. Dormíamos todos juntos. Meus pais, eu, meus três irmãos e a Rosa, uma mulher que ajudou a nos criar. Algumas vezes, iam também meus avós e tia Leila. Não sei como cabia todo mundo. Sei que era uma festa, desde os preparos para pegar a estrada até a chegada à praia. Minha mãe passava a noite cozinhando. Levávamos comida na praia. Eu nem dormia na véspera da viagem. Empolgação de criança. A casa ficava na rua do cinema. E foi a primeira vez que fui assistir a um filme.

Assisti a “O menino da porteira”, um dos maiores sucessos da bilheteria da época. Um filme baseado em uma canção. Uma linda canção de Tedy Vieira:
 
Toda vez que eu viajava pela estrada de ouro fino


De longe eu avistava a figura de um menino


Que corria abrir a porteira depois vinha me pedindo


“toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo


Quando a boiada passava e a poeira ia baixando


Eu jogava uma moeda e ele saía pulando

”

obrigado boiadeiro que Deus vá lhe acompanhando”


Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando (….)

Olhos fitos na tela, vivi profundas emoções. A beleza da tela grande. Do som. Das personagens. Da canção. Da história daquele boiadeiro. Tudo aquilo foi tomando conta de mim. Até o final do filme. Voltei para casa triste. Chorei. Fiquei deitado pensando nas despedidas. Não me lembro muito bem dos detalhes do que pensei, lembro que fiquei triste. E resolvi ir novamente ao cinema no dia seguinte e no outro e também no outro. Fui ver seguidas vezes o mesmo filme. E voltava chorando. Era um menino, já disse.

Quando minha mãe quis entender por que eu ia todos os dias, já que todos os dias eu voltava chorando, respondi algo de que me lembro bem: “Será que sempre o menino morre no final”? Minha mãe ainda se lembra dessa história. E de tentar me explicar que era apenas um filme. E que os filmes tinham sempre o mesmo final, independentemente da nossa vontade. A canção que inspirou o filme determinou este desfecho:

Pros caminhos desta vida muito espinho eu encontrei


Mas nenhum calor mais fundo do que isto que eu passei


Na minha viagem de volta, qualquer coisa eu cismei


Vendo a porteira fechada o menino não avistei



Apeei do meu cavalo num ranchinho à beira chão


Vi uma mulher chorando quis saber qual é a razão
”boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão


Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”

Revisitando esses tempos de inocência, penso em quanto é importante para as crianças os cenários imaginativos das várias linguagens da arte. O cinema, a contação de histórias, as conversas, o território sagrado do brincar e do conviver. Os espinhos todos, nós encontramos e encontraremos na vida. Eles nos causam emoções doídas. Mas se tivermos a oportunidade de uma educação que nos ajude a compreender nossa trajetória e nos ajude a sermos dela protagonistas essas dores nos farão mais bem do que mal. Conhecermos o sofrimento nos ajuda a compreender o sofrimento dos outros e a termos compaixão. Vez ou outra, lembro as dores que já me incomodaram. Irmãos meus que morreram. Meu pai. Amigos que se foram. Dores da injustiça – como doem as injustiças! E me lembro desse filme e daquele menino que eu gostaria que tivesse sobrevivido àquela boiada. A homenagem do boiadeiro ao amigo que partiu, prematuramente, foi o respeito em não mais tocar o berrante naquelas bandas:

Lá pras banda de ouro fino levando gado selvagem


Quando passo na porteira até vejo a sua imagem


O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem


Daquele rosto trigueiro desejando-me “boa viagem!”



A cruzinha no estradão do pensamento não sai


Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais


Nem que o meu gado estoure que eu precise ir atrás


Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais.

A homenagem que tento fazer aos sofrimentos que vivi é tentar compreender os sofrimentos do outro e ajudar o outro a prosseguir. Em outras palavras, é combater, a todo custo, a indiferença. Sou profundamente grato à família que tive e tenho. Aos amigos que fui acumulando. Aos que me estenderam a mão e compreenderam minhas imperfeições. E assim tento agir com os outros que encontro por aí e que de mim precisam. Que as nossas emoções infantis, as ingênuas, as puras, as dolorosas e as alegres nos ajudem a ressignificar nossa vida. O hoje se alimenta do ontem e nos ajuda a escrever o amanhã.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/06/2015