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Chaplin, o musical, a inspiração, o talento

Estreou, no Theatro Net São Paulo, “Chaplin, o musical”.  Só essa notícia já mereceria uma comemoração. Musicais ajudam a cidade a solidificar, cada vez mais, sua vocação como Capital da Cultura. São Paulo, que já foi considerada a locomotiva do Brasil pela sua indústria, vai se firmando, hoje, em outras áreas. A cultura é uma delas. Peças de teatro, cinemas, museus, exposições, saraus literários em todos os cantos da cidade, e tantas outras manifestações culturais, agradam os paulistanos e atraem turistas de dentro e fora do Brasil. Mas a estreia de “Chaplin” tem outros ingredientes que merecem ser degustados com prazer.

Chaplin é um dos maiores artistas de todos os tempos. Fazia emocionar sem nada falar. Na delicadeza dos seus gestos, dizia o que era necessário. Brincava com o cotidiano. Cotidiano duro teve o menino que nasceu em Londres, que viu o pai humilhar a mãe, que viu a mãe se acabando, que foi criado em um reformatório, que fugiu da polícia e assim segue o seu doloroso início. Sobrevivente dos solavancos, estreou no cinema e foi construindo uma carreira que conquistou o mundo. Ator, diretor, produtor, homem carente de dizeres que melhorassem o mundo. Errou, certamente, como erramos todos nós. Seus erros, entretanto, exilaram-no, roubaram dele o que o fez ser amado. E todos esses percursos surgem de forma correta neste musical. Em “O Grande Ditador” Chaplin, enfim, fala. O cinema estava mudando. E o seu texto traz para o contexto daqueles tempos um alento de esperança:

“Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objetivo. Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém.

Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos.

O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho. 

A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.

Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados:

As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.

O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos céticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.

Pensamos em demasia e sentimos bem pouco:

Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;

Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.

Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Trecho do filme “O grande ditador”, de Charles Chaplin. Tradução: Fernando Barroso.

A outra notícia boa é que a montagem brasileira de “Chaplin, o musical” é simplesmente genial. Jarbas Homem de Mello é Chaplin. Que perfeição! É o ator se entregando à personagem. E emocionando. O elenco todo está muito bem. Direção, direção musical, coreografia, figurino, cenografia. Enfim, aplausos ao talento do artista brasileiro e à coragem e determinação dos produtores. Este musical é produzido por Claudia Raia e Sandro Chaim.

Quem puder vá ao teatro. Esta peça é uma homenagem não só ao genial Charles Chaplin, mas à genialidade do que somos capazes de fazer por aqui.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/05/2015

 

 

 

É tempo de amizade

Somos produtos do meio. Isso não é novidade. Do idioma que falamos aos gostos culinários, passando por padrões éticos e estéticos, dependemos do aprendizado. Dependemos das influências que recebemos em casa, na escola, na rua, nas múltiplas formas de comunicação, virtuais ou pessoais.

Não somos máquinas. Isso também não é novidade. Chaplin nos ensinou que “Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido”.

A violência, de todas as maneiras, é o fracasso da convivência humana. As agressões ao outro roubam de mim o que tenho de melhor, minha capacidade de amar.  E, aí, entra a amizade. 

Em guarani, a palavra amigo é “chera’à” que significa, parte de mim. Fazer parte de alguém e permitir que esse alguém faça parte de nós é prova de desprendimento e de maturidade. Nos meios em que convivemos, infelizmente, proliferam-se vícios terríveis como a arrogância e a inveja. O arrogante faz um mal imenso a si mesmo e aos outros. Dono da verdade, é incapaz de se abrir à troca, à cumplicidade, aos encontros necessários entre pessoas e sentimentos. O invejoso sofre com o sucesso do outro e, perversamente, fica eufórico pelo seu fracasso. Tempos perdidos. Tempos violentos.

A amizade vai além das competições, vai além dos interesses. O amigo não é um meio, mas um fim. Não é um meio para se atingir alguma coisa, para se alcançar algum poder, mas um fim para experimentar o aroma agradável da generosidade. É desse perfume que carecemos.

Voltamos ao meio. Cuidar das relações humanas nos garante um direito ao futuro. Como colher paz, respeito, dignidade, se o plantio é de ódio, soberba, desonestidade? Pais, professores, líderes precisam refletir sobre o legado que deixarão. Sobre inteligência necessária e sobre “afeição e doçura” imprescindíveis para a construção de uma humanidade melhor. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/5/2014