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Surtos de civilidade

Há sempre, em períodos de verão, uma preocupação maior com possíveis surtos que podem surgir e fazer mal à população.Campanhas tentam impedir, por exemplo, a proliferação do mosquito que gera a dengue, a zika, e a chikungunya. O surto ocorre quando há um aumento repentino do número de casos de uma doença. Apesar do significado da palavra surto não remeter, necessariamente, a algo negativo, costuma-se empregá-la para definir um excesso de fúria, um momento de inlucidez, uma crise. Lembra-me o escritor Machado de Assis, em sua fina ironia, que nos diverte, em sua obra “O alienista”, ao narrar um momento em que o protagonista, o médico Simão Bacamarte, tem um surt o surpreendente e resolve que os honestos e os justos eram também loucos e deveriam ser internados no hospício! Surpreendente e insensato como os surtos parecem ser.

Então, imaginem um surto ao contrário. Um excesso de bom senso, de lucidez, de civilidade. Imaginem um aumento repentino de pessoas que resolveram não mais jogar lixo no chão. Que tiveram uma crise de consciência em saber que o dinheiro público é jogado fora para limpar as sujeiras tantas que se jogam fora por aí. Vejam os rios. O que há neles? Quem os polui? Vejam quanto se joga pelas janelas de um carro. Ou das mãos de alguém que passa pelas ruas. A cidade é do cidadão. Se essa consciência não for atingida, não haverá quem dê jeito na falta de educação das pessoas. Vejam as praias. Plenas de beleza e de lixo. Quem os produziu? Vejam as represas. E os lixos que ficam quando os seres racionais vão em bora . Racionais? Interessante, os irracionais não produzem lixo. Vejam as praças. Os parques. As ruas.

Um surto de civilidade nos faria muito bem. Isso para ficar apenas no exemplo do lixo. Poderíamos falar do trânsito e dos inlúcidos ao dirigirem seus carros. Os que fazem da sua direção um extravasamento de sua fúria. Como seria bom um surto de boas maneiras.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/01/2017

Fazer o possível

Era uma cidade do interior. No interior, é comum as pessoas se conhecerem. Há menos gente. Menos famílias. É comum, inclusive, a pergunta: “Você é filho de quem?”. Nas cidades grandes, dificilmente alguém se arvorará nesse diapasão.

Era uma cidade do interior. No interior das pessoas, sempre há sonhos. E isso é bom.

Foi com um desses sonhos que um homem entrou em um salão de cabeleireiro e foi logo mostrando uma foto. E dizendo sem o menor constrangimento: “Quero que o meu cabelo fique assim”. E deu continuidade ao desejo, “Aliás, quero ficar assim. Igual a esse homem da foto”.

O dono do salão, com a tesoura e o pente na mão, parou o corte que estava fazendo e, gentilmente, pediu a ele que aguardasse. Que já conversariam. O do sonho disse que aguardaria se ele garantisse que ficaria igual ao homem da foto. O dono olhou novamente para a foto e para o jovem e pediu, mais uma vez, que conversassem depois, que estava terminando um corte de cabelo. O jovem, um pouco menos paciente, disse que se não recebesse a resposta imediatamente iria ao concorrente daquele salão.

Era uma cidade pequena do interior. Dois salões apenas disputavam a clientela. O homem que estava tendo o seu cabelo cortado cochichou com o cabeleireiro, “Diga que vai ficar igualzinho”. O cabeleireiro, filho de uma professora conhecida na cidade, um homem reconhecidamente correto, titubeou em dizer o que não acreditava.

O homem que estava tendo o seu cabelo cortado continuou o cochicho, “É melhor você dizer o que ele quer ouvir, não apenas para não perder o cliente, mas para não deixá-lo chateado”. O cabeleireiro, com a tesoura na mão – o pente, ele já havia deixado na mesinha -, ficou ainda mais reflexivo. “Mentir, iludir, para não deixar alguém chateado”- falou consigo mesmo.

O jovem não entendeu a demora: “Vamos, trata-se de uma pergunta objetiva. Você me deixa com a cara dele ou não?”. “Claro que deixa. Ele faz coisas impossíveis. Pode sentar-se aí e esperar. Você vai ficar igualzinho ao galã da foto”. O cabeleireiro, que era de pouca prosa, pensava com ele mesmo, “Só posso fazer o possível”. “Então, está bem”, disse o jovem, “Vou sentar e esperar”. E sorrindo prosseguiu: “Estou muito satisfeito, queria ficar igual a ele e vou ficar”. “Vai, sim. Certamente!”, disse, entre sorrisos, o que estava tendo o cabelo cortado.

O cabeleireiro ficou pensando na frase: “Estou muito satisfeito”. O que é a satisfação? Era evidente que ali só havia mentiras. Do que queria ficar igual e do que dizia que ele ficaria igual. Mas o cabeleireiro não era mentiroso. Não poderia compactuar com aquele jogo. Mas o jovem estava sorridente. Sem a apreensão inicial. É melhor permitir que a mentira persista? Persistirá pouco, entretanto. A não ser que o jovem esteja tão desfigurado das suas sensações que seja capaz de acreditar que, depois de qualquer corte, ficará com uma cara que não tem.

Pensou o cabeleireiro no tanto que sua vida o ensinara sobre os “sim” e os “não”. Em como é melhor abraçar a verdade a permitir que a mentira abale as nossas relações. O mentiroso sempre tem que mudar de rua. Porque no interior se percebe logo quem mente, e ele tem que fugir o tempo todo. Não. Ele não haveria de mentir. É bom as pessoas sonharem. Mas há limites. Ter uma cara que não se tem não é um sonho. É uma obsessão. É um desvio. Não, o filho da professora não poderia deixar essa história ir adiante.

O jovem, então, se levantou, enquanto o cabeleireiro terminava o corte do cabelo do que tanto disse naquela tarde.

O jovem olhou. Olhou novamente. De um lado. De outro lado. E decidiu. “Mudei de ideia. Quero ficar com a cara dele”. Dá para cortar o meu cabelo igual ao dele?”. Antes de qualquer intervenção, o cabeleireiro soltou: “Vou fazer o possível”. “Vai fazer o possível? Ele disse que você faria o impossível. Não. Eu vou ao outro salão. Não fico aqui nem mais um minuto”.

O cabeleireiro suspirou aliviado. O que estava tendo o cabelo cortado o repreendeu: “Era tão simples, ele só queria que você falasse o que ele queria ouvir”.

Nisso, entrou a mãe do cabeleireiro com duas amigas. Deu um beijo no filho. Cheia de orgulho. O filho olhou para a mãe, para as amigas, para o homem que o repreendeu e agora estava saindo, para os outros clientes que estavam ali e agradeceu de viver no interior e de ouvir o seu interior. Sonhos quase sempre fazem bem. Quase sempre.

A tarde já ia embora. Ele teve tempo de olhar o sol se despedindo. Sempre gostou de ver as montanhas do seu vale. Tenta aprender com a natureza para compreender as pessoas. Faz o possível.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 08/01/2017

Massacres sem fim

O massacre ocorrido no Amazonas é mais uma demonstração da falência do sistema penitenciário. Há quem não se preocupe tanto com isso, haja vista o massacre do Carandiru e outros fatos frequentes de mortes em penitenciárias, cadeias e delegacias país afora. Os que não se preocupam têm a infeliz conclusão de que lá não há nenhum santo. Podem não ser santos. Como nós, aliás. Mas são cidadãos. Como nós. Com os direitos dos cidadãos, exceto aquele, o de ir e vir, retirado pela supressão momentânea da liberdade. Suprime-se a liberdade, mas não a dignidade. Mas é digno estarem amontoados? Sem condições mínimas de recuperação? Há uma enorme hipocrisia no discurso de que o sistema penitenciário é, antes de tudo, uma possibilidade de reinserção social. Aquele que cometeu um crime cumpre a pena e se põe a progredir para que possa sair melhor do que entrou. Melhor? Como? Com quais atividades? E quando de lá saem? Quem vai querer abrir os braços e receber alguém que passou parte de sua vida na prisão? Então, a condenação é perpétua? Um tempo preso e outro tempo aprisionado no mal que fez.

Qual a solução para o problema, então? Há quem diga que o correto é investir na prevenção. Que, se educarmos hoje, não precisaremos punir amanhã. Concordo. Mas e os que já erraram? O que fazer? Não há uma resposta mágica. É preciso cuidar da entrada e da saída do infrator. Se ele souber que terá outra chance, seu comportamento será diferente no sistema. Há uma luz. Um caminho. Se ele imaginar que todas as portas estarão fechadas, o que lhe restará? O país não pode debruçar-se sobre esses assuntos somente diante de tragédias. Sabe-se o caos que é o sistema e finge-se que, aos poucos, as coisas se arrumam. Não, as coisas só se arrumam quando há líderes que querem arrumá-las. E líderes que acreditam nisso. Mas carecemos de líderes. Enquanto isso, os massacres continuam. Em espaços que poderiam gerar cidadãos que jamais compactuassem com o crime. Não por medo. Mas por acreditarem que a convivência humana depende de regras que existem para serem cumpridas.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 06/01/2016

Esperança

Esperança era seu nome.

O segundo nome. O primeiro era Maria. Maria Esperança. E, depois, o nome de família.

Qual teria sido a intenção dos seus pais de chamá-la assim?

Quiseram dar a ela uma responsabilidade desde sempre? Um encargo? Um peso?

Ou vaticinaram que, ali, naquela nova vida, nasceria, como em todas as novas vidas, uma possibilidade de um mundo melhor.

Qual seria sua profissão? Teriam seus pais debatido sobre isso antes da escolha do nome? Certamente, não. Mas quem carrega no nome o nome de

Esperança fará a diferença em qualquer profissão.

E seus irmãos? E seus filhos? Como se chamariam os filhos da Esperança?

Moraria ela em uma grande cidade ou em uma pequena vila do interior? Como seria o seu interior?

Pensaram sobre isso os seus pais? Tiveram tempo de olhar para os amanhãs?

Ou escolheram o nome apenas por uma inspiração.

Quem os teria inspirado?

Quem inspira a escolha da Esperança?

O que vem antes? O que virá depois?

Antes, sofrimentos e prazeres, certamente, alternaram-se. Antes, dúvidas preencheram os que haveriam de decidir se a Esperança mereceria nascer. Ouviram opiniões decisivas contra o que sonhavam. É comum encontrar quem desencoraje. Por tantas razões que não caberiam aqui. Por inveja. Por medo. Por não terem tido possibilidades. Por não suportarem ver os outros decididos a gerar a Esperança.

Os que desacreditam de vidas novas partem a tentar convencer os outros. Querem sepultar pensamentos diferentes. Chamam-nos de utópicos, lunáticos. Mas sabem eles a delícia de um contemplar diante da lua. Lua nova. Lua cheia. Lua crescendo ou diminuindo. Sempre lua.

Os que decidiram gerar a Esperança tiveram que pensar.

Não o pensar que atrasa o agir. Mas o pensar que o valoriza. Que o protege. Que o envia.

O envio é uma decisão dos sábios.

Dos que acreditam que há, em todas as partes, seres sedentos por ação nascida de pensamento.

É assim em um novo ano.

Há guerras em tantos lugares. Inclusive aqui. Guerras horrendas que destroem vidas e espaços. Guerras perversas nos esconderijos de vidas sem vida, de infâncias sem infância, de mulheres sem paz. Quanto ódio em agressores incorrigíveis! Mortes lá. Mortes aqui.

A que se chama Esperança não compactua com essas perversidades. E não fica esperando. Não. Ela age. A Esperança sabe da importância do agir. Do agir nascido do pensamento. Seus pais pensaram antes de decidir. Por isso, ela vive. E tem esse nome.

Quem a encontra se encontra.

Quem a encontra se encanta com tudo o que poderá surgir desse encontro.

E é bom encontrá-la no início. Ou melhor, nos inícios.

No início de um namoro. No início de uma amizade. No início de um trabalho. No início de um ano.

É bom saber que ela é inspiradora.

A Esperança é mulher. Tem o poder de gestar e de fazer nascer vida, vidas.

Tem o poder da continuidade e da novidade.

Carrega consigo o que já foi. E que permaneceu. E antecipa o que ainda há de ser. E é bom que seja.

Porque as guerras, as de lá e as de cá, têm que cessar.

E, nos inícios, é essencial que ousemos fazer diferente.

Nas canções ou nas orações que nos ensinaram.

Nos trajetos que já percorreram por nós. E nos outros que teremos de desbravar.

A Esperança é mansa e é brava. Não é agressiva. Não é irritadiça. É brava. Brava de valente. Brava de decidida.

Maria Esperança, cujo sobrenome aqui não se faz necessário, é professora.

Professa que as sementes dependem do solo e do cuidado. Não acredita ela que algumas nasçam desprovidas do crescer, do florescer, do abastecer de perfume e beleza o universo.

Dos universos de cada lugar e do lugar comum em que vivemos.

Do universo espaço, onde nascemos, ao universo que compõe o ontem, o hoje e o amanhã. Cada qual pode fazer o que deve ser feito. E ficará. É nisso que acredita a Esperança. É por isso que ela, todos os dias, inspira confiança e prepara o amanhã.

Quem não a conhece aproveite esse início de ano e a procure. Não é difícil encontrá-la. Quem já a encontrou, nem preciso dizer – mas vamos lá!, espalhe a notícia de que ela existe. Que tem um primeiro nome comum. Lindo, mas comum. E que está disposta a esperançar, a explicar que é nos inícios que se aproveita para fazer o certo, o bom, o belo.

Em 2017, muita coisa poderá mudar. E será bom se mudar. Nada de esperar. Esperançar.

Obrigado, Maria Esperança, pelo prazer de conhecê-la.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia (RJ)) | Data: 01/01/2017

Faxina de fim de ano

Antes das festas do reveillon, é prudente que se faxine a casa.

Receber as pessoas com a casa suja é sinal de desleixo.

Não importa que a comida e a bebida estejam boas. Nem que os enfeites colocados, ainda no Natal, sejam de bom gosto. A casa precisa estar limpa. Precisam estar limpos, também, os donos da casa. É desagradável chegar à casa de alguém e perceber que estão sujos. Parece que chegamos antes. Que não demos tempo para se limparem, se prepararem.

É prudente que se limpem os sentimentos e que se limpem também as atitudes. Sentir e agir têm uma conexão necessária.

Há muita coisa sendo limpa em nosso país. E é preciso mais.

Limpar a corrupção e limpar a hipocrisia.

Limpar a injustiça e limpar a mentira.

Limpar as arrogâncias, as avarezas e os outros pecados todos.

Pecar é desconsiderar o outro e nós mesmos. É desperdiçar o bem que é abundante e é limpo e optar pelas sujeiras da maldade.

Não caiamos no erro dos maniqueístas, dos que separam, de um lado, os que julgam bons e, do outro lado, os que julgam maus. Aliás, tomemos cuidado com os julgamentos. Os excessos invariavelmente são injustos.

Limpemos os dissabores rotineiros. Um banho de razoabilidade, de tolerância, de compaixão nos fará muito bem.

Aí sim poderemos convidar os outros para a festa de um novo ano, de um novo ciclo, de uma nova possibilidade que se abre.

Limpos. Os enfeites disfarçam por um tempo a sujeira. Depois se nota. Triste mal da dissimulação.

Que bom seria que limpos fôssemos verdadeiros. Que verdadeiros pudéssemos compreender as escolhas dos outros e respeitá-las. Que respeitosos trabalhássemos por um mundo sem tantas sujeiras.

O mundo nasceu limpo. Acreditar nisso ajuda a fazer o que tem que ser feito.

Boas festas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/12/2016

Canção de Natal

Cantarolava ininterruptamente. Olhava para o seu bichinho, presente de algum outro natal, e cantarolava, Colocava o bichinho de pelúcia em posição de quem adverte que é bom estar atento à canção. E dançava guiado pelo ritmo que emprestava à sua canção. Os outros estavam atarefados. Havia conversa e trabalho na cozinha. Palpites e ação. Mudanças de rumo. Pratos que precisavam estar prontos para que a ceia pudesse agradar. Era mais de uma cozinha. Uma tinha fogão a lenha, e outra, a gás.

Na sala, um presépio. Papel comprado em papelaria. Amassado. Tentando ser uma gruta. As personagens, os animais, cada qual no seu espaço. Deixavam apenas de fora o Menino Jesus. Ele deveria chegar à meia-noite. E a árvore de natal, montada com badulaques de muitos natais. Tudo ia se acumulando. Algumas crianças, as menores, ainda acreditavam em papai noel. Os adultos se dividiam em dizer ou não dizer que quem presenteava eram os pais de verdade.

A verdade é que não paravam. As mulheres ainda tinham horário no salão de beleza. Pés, mãos, cabelo, maquiagem. Os homens cuidavam da bebida. E jogavam prosa, enquanto esperavam. Alguns trabalhavam na véspera. E ficavam afoitos para encerrar logo e estar ali. Em família. E ele era imune a todas essas preocupações. Cuidava apenas de cantarolar. Sons mais altos. Sons mais baixos. Risos entremeando as músicas. Não havia dizeres em suas canções. Desconhecia dizeres o menino cantador. Eram sons apenas. Afinados pelo tempo ou pelo amor de quem os ouvia. Certamente ganharia presente. Mas não havia pedido nada. Não sabia pedir. Apenas olhava. E ria. E cantarolava.

Vez ou outra, algum adulto que recebia um telefonema de cumprimentos de algum parente de alguma outra cidade fazia um barulho sério para que ele diminuísse o som. E ele ria. Não fazia cara de aborrecimentos nem de contrariedade. Não sabia o que era isso. Sabia o que era sorrir. O que era dançar no centro da sala. O que era cantarolar para seu bichinho de pelúcia. O que era abraçar quando quisesse. Ah, abraço ele pedia. Vinha correndo e se jogava. E não era pequeno. Era preciso força para compreender a sinceridade de tanto amor. O riso e o abraço eram fáceis de compreender, mas a dor não. Via-se apenas que a música cessara e que as lágrimas caíam e caíam. Alguma parte estava doendo. Como saber qual? A cabeça? O estômago? As costas? Os dentes? Como saber? O que fazer para curá-lo? O amor conhecia os seus caminhos. E ele, de novo, estava no centro da sala.

Preparavam-se para a missa. Ele não iria. Não ficaria quieto sem as suas canções e sua dança durante tanto tempo. Havia uma Rosa que ficaria com ele. Havia Deus que estaria na missa e também lá naquela sala, contemplando a beleza da Sua criação.

Na hora dos presentes, ele haveria de abri-los e, logo depois, olhar e, logo depois, voltar a cantar.

Comeria o que lhe dessem. Sem reclamações. Comeria tudo. E não pediria por mais nada. Apenas que estivessem por ali. Com ele. Ouvindo sua canção. E rindo quando tivessem vontade de rir. Dormiria quando alguém o levasse. Brincaria um pouco mais em sua cama. Olharia com gratidão por compreenderem o que, talvez, ele não pudesse compreender. Abraçaria algum bichinho, algum travesseiro, algum paninho e sonharia com o que não saberíamos traduzir. E, no dia seguinte, levantaria para viver a alegria, novamente. A singela alegria de uma criança que resolveu se eternizar naquele menino.

Nas brigas entre os outros, apenas olhava. Nos reencontros, olhava também. É como se soubesse, de alguma maneira, que todas aquelas angústias e ansiedades haveriam de ir embora. O seu tempo era todo dedicado à alegria. Nas canções. Nas danças. Na despreocupação com o amanhã.

Amava, do seu jeito. Era amado, do nosso jeito.

Um dia, partiu. Cedo demais. Foi cantar em algum lugar preparado pelo milagre do amor. Deve estar cantando e dançando agora, enquanto escrevo e penso nele. Meu irmão, meu irmão Junior, que não passa mais os natais entre nós. Passa, sim. Em algum lugar, passa, sim.

É quase natal

Todo natal traz um clima diferente para a cidade. Alguns gostam muito. E ficam felizes com os enfeites, as músicas, a correria para as compras. Outros ficam tristes. Lembram-se de outros natais em que a vida era diferente. A vida é sempre diferente. O que pode significar esse clima diferente?

Nos cartões enviados, sempre há alguma frase de esperança. Algum dizer de felicidade. Algum sonho compartilhado de que os valores mais caros à humanidade merecem ser resgatados. E as ações? São as ações que podem fazer com que o natal não seja triste.

O natal é a festa do nascimento do Menino Jesus. O que se pode dar ao aniversariante? Quando crescido, Ele ensinou que toda a Lei e todos os ensinamentos se resumem a este: “Amar a Deus e amar ao próximo”. Quem é o próximo que poderia ser amado neste natal? Pode ser alguém que viva em um asilo ou que viva em um abrigo ou que esteja em algum hospital. Há muitas ações generosas a serem realizadas sempre, mas, em especial, nesse período. Mas o próximo pode ser também quem é da família e com quem se está brigado. Pode ser um vizinho com quem há anos relações foram cortadas. Pode ser um parente distante que aguarda um telefonema.

Uma ação de amor em um natal ganha um significado completamente diferente. Diferente, porque vem carregado de esperança. De novidade. De nova vida. Seja um gesto de ajuda ou de perdão. Um olhar para aquele que estava invisível, um cuidar para aquele que estava abandonado. Uma canção para alegrar corações entristecidos. Ou um gesto delicado de tornar-se um escrevedor de cartões a parentes distantes, ajudando aqueles a quem faltam palavras escritas, mas abundam amor e saudade. O “bom samaritano” pode se multiplicar nas ações mais singelas de cada natal. Aí a manjedoura estará preparada para o Menino que quer chegar. Mas que precisa ser convidado.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 23/12/2016

Escolas e youtubers

Há uma febre entre adolescentes e jovens querendo fazer sucesso nas redes sociais. Tornar-se celebridade na internet parece mais simples, mais barato, mais rápido.

Há youtubers de vários estilos arregimentando milhões de seguidores.

Vídeos com humor. Vídeos que despertam curiosidade. Vídeos com dicas de beleza, saúde, elegância, alimentação etc. Cada um vai construindo o próprio estilo. Há aqueles que promovem suas músicas, sua arte.

E o que isso tem a ver com a educação formal?

Há escolas que já perceberam que o processo de ensino e aprendizagem é facilitado quando o aluno compreende a razão pela qual está aprendendo.

Há uma fase na vida em que a maturidade cognitiva admite diletantismos intelectuais. Abstrações. Elegâncias que fazem bem à alma. Sem essa maturidade, entretanto, é preciso que o aprendiz entenda a razão pela qual ele está aprendendo. Aprender a ser um youtuber envolve vários processos do conhecimento. Aprende-se a falar, a se comunicar com clareza, a ter um estilo. Só aí já vale o longo percurso. Falar corretamente é desafiador. Aprende-se a pesquisar. Quem quer escrever, dirigir ou apresentar vídeos sobre nutrição tem que aprender a escolher onde e como pesquisar, tem que saber relacionar e sintetizar. Aprender a construir um texto. Próprio. Autêntico. Seja no humor ou no jornalismo. Na arte de divertir ou na arte de transformar.

Há uma outra questão fundamental nas escolas que ensinam a ser um youtuber. Os alunos têm um problema para resolver, um vídeo para produzir. E precisam, para isso, percorrer todo o processo de execução. E chegam a um produto final.

Escolas preparam para a vida e se valem da vida para se reinventarem.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/12/2016

Medo de falar em público

Ela voltou para a escola. Para a faculdade. Faculdade de Direito. Na mesma sala em que o filho. No início, teve algum receio. Seria a mais velha da turma? Conseguiria conviver com os demais? E o filho? Acharia estranho ter a mãe na carteira ao lado? Rompeu essas incertezas e iniciou uma nova fase da vida. Filho e mãe iam juntos e estudavam juntos. Ela, viúva, teve de dar conta da criação deste e dos outros três filhos. Não teve como estudar antes. Mas sempre quis fazer faculdade de Direito. Gostava de falar sobre o exercício da cidadania, sobre os direitos e os deveres, sobre a justiça. Sempre teve horror a injustiças. Viveu isso na pele. Sofreu calvários intermináveis com a saúde precária do nosso país. Fez de tudo para que o marido fosse atendido com dignidade, não foi fácil, Teve de brigar com planos de saúde. A família fazia uma economia enorme para pagar, todo mês, o plano. E quando precisaram…mas o marido se foi. A dor da separação era confrontada com a certeza de que havia feito tudo o que estava ao seu alcance e que o marido também tinha o direito de descansar em paz.

E lá estava ela, agora, em uma nova fase da vida. Nas provas, ia muito bem. Estudava mais do que o filho. Tinha receios de, com a idade, ter mais dificuldade para memorizar o necessário. Não era isso que se mostrava, entretanto. Enquanto o filho frequentava algumas festas, ela frequentava o abajur e os óculos grossos para ler e reler a matéria, para estudar, para não ficar sem o conhecimento necessário.

Eis que nos conhecemos. Em uma palestra. Mãe e filho. Eis que ela me contou a sua história e detalhou as suas superações. Mas havia algo que a incomodava muito. O medo de falar em público. “Minhas mãos ficam suadas, eu ensaio uma coisa e sai outra, seguro o microfone longe da boca, coloco um ‘né?’ depois de cada frase, me perco, não sei como terminar e, quando acabo, sinto que não me saí bem”. O filho discorda da mãe. Diz que ela está melhorando, que tem que vencer a insegurança. Ela volta ao tema e diz que, às vezes, sente que não tem o dom de falar em público.

Eu tento jogar alguma luz. “Dom? Falar em público se aprende. O medo é natural. Medos são enfrentados quando há uma causa maior. Fazer justiça é uma causa nobre. É um fim nobilitante. Ter uma causa é ter o conteúdo. Falar é a forma de levar esse conteúdo”.

E prosseguimos na conversa. Ela quis saber da minha história. De como eu havia aprendido a falar. Viajei um pouco no tempo. Contei dos meus medos, das minhas inseguranças, dos meus equívocos. Ela foi prestando atenção a cada detalhe da narrativa. Seus olhos foram ganhando mais brilho. “Então, você também tem medo de falar em público?” Respondi positivamente. Expliquei que, se esse medo não paralisasse, não era ruim. Que o medo nos tornava mais cuidadosos. Que nos dava a humildade e a responsabilidade necessárias para sabermos que era preciso preparar cada fala, inclusive em respeito às pessoas que estavam ali para nos ouvir.

Outros alunos vieram participar da conversa. Ela foi vendo que, de fato, esse é um medo mais comum do que se imagina. Mas é possível conviver com ele. E usar dele para aprimorarmos nosso poder de convencimento. As técnicas ajudam, mas o essencial é a causa que nos move, é a verdade que faz com que queiramos ajudar nossos interlocutores a melhorarem a si mesmos e ao mundo. As utopias sempre foram aliadas dos grandes oradores. Mandela tinha uma causa clara que ultrapassava todo o mal que lhe fizeram. Seu povo, sua pátria, o movia para falar cada vez melhor. Assim foi com Martin Luther King e com Gandhi. Assim a multidão se ajeitava para ouvir as parábolas de Jesus. A mãe me olhava concordando. “Mandela era bem mais velho do que eu e queria mudar o mundo, não é? Eu também posso”. Líderes são inspiradores. Carecemos deles. Ela vai ser a oradora da turma. Tenho certeza de que fará um lindo discurso. E o filho estará lá. E os outros alunos também. Inspirando-se em quem soube recomeçar, em quem luta para transmutar as injustiças sofridas em um sonho de com elas acabar. Oxalá todos os profissionais que atuam com o Direito tivessem esta “causa”. A causa da justiça.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 11/12/2016

Falta “um sonho”

Dia desses, entrei em um táxi e fui em direção a uma palestra em uma universidade de São Paulo. O rádio estava ligado, sintonizado em uma emissora cujos comentaristas tentavam decifrar os imbróglios do momento atual da política. O taxista que já havia me cumprimentado com muita gentileza, ouvia atento aos comentários, e resolveu dar a sua opinião. “Sabe o que está faltando na política? Um sonho. Falta um sonho”, insistiu ele.

Dei margem à conversa. Quis entender melhor. “O que seria um sonho?”. E ele prosseguiu: “Cada um pensa em si. Ninguém se preocupa com ninguém. Um é mais ambicioso do que o outro. Quem é deputado não quer deixar de ser. Não vai apoiar reforma política que coloque em risco a sua reeleição. Então, não vai ter reforma política”. Eu ia concordando e dando espaço para que ele prosseguisse: “O sujeito ganha para prefeito e não está satisfeito. Já quer ser governador. Ganha para governador e só pensa em ser presidente. É muita ambição e nenhum sonho”.

Fiquei refletindo sobre aquelas palavras. Sobre o descrédito da população em relação aos políticos. E concordando com a ausência de sonhos. O que leva alguém a entrar para a política? O que faz com que uma pessoa tenha um discurso antes e tenha outro depois da eleição? O que é o poder? Um projeto pessoal? Uma vaidade? Uma loucura? Uma forma de se dar bem na vida? Ou um sonho de melhorar o mundo? Como fazer com que as pessoas consigam discernir, consigam separar uns dos outros, como se separa o joio do trigo? Há tanta mentira. Há tanta dissimulação. E falta “um sonho”.

Saí do táxi agradecido. Quanta sabedoria havia naquelas palavras. Saí alimentado pela verdade e discernimento da opinião daquele senhor que circula com o seu carro pela cidade, conduzindo as pessoas e acreditando que um sonho muda muita coisa.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/12/2016