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Cinzas

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Quem foi à celebração da quarta-feira de cinzas ouviu essa frase ou uma outra que fala de conversão.

As cinzas têm uma carga de simbolismo desde o Antigo Testamento. Jó, o homem que ousou resistir ao sofrimento, vestiu-se de cinzas. Mardoqueu, no Livro de Ester, veste-se de cinzas, em defesa de seu povo. As cinzas são resultantes do fogo, por exemplo. Ou do que é pelo fogo consumido. Na “fogueira das vaidades”, na Florença dos tempos de Savonarola, depois de tudo o que era queimado, ficavam as cinzas.

A quarta-feira de cinzas marca o início da quaresma. São quarenta dias que preparam a Páscoa, maior festa do cristianismo. A quaresma é um tempo de penitência. Um tempo de pensar no tempo. E as cinzas nos ajudam, também, a pensar no tempo. E no que fazemos com ele.

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Ou, em outras palavras, esqueça a arrogância, as vaidades, a avareza. Nada te pertence. Nem as coisas. Nem as pessoas. Nem o tempo. Tudo tem um curso. Um tempo de existir. Um tombo, apenas. Uma queda. Uma batida. E voltamos a ser pó. Uma doença. Um acidente. Uma disfunção. E voltamos a ser pó.

E, ao voltarmos, o que levamos? Os acúmulos? As glórias? Os aplausos? Os bens que trancafiamos como propriedade eterna? Nada. Absolutamente nada. Mas, então, para que produzirmos? Para que trabalharmos? Para que estudarmos alimentados pelo sonho de vencer na vida? Fernando Pessoa, no início de sua “Tabacaria”, nos dá uma pista. “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.

O início do dizer poético é quase que uma explicação das cinzas, uma lembrança de que somos pó. De que nada somos. A fragilidade da vida atesta sua assertiva. Nada somos. Mas o que vem a seguir é animador. “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. São os meus sonhos que me dão identidade. São os meus sonhos que me retiram da crueza do tempo. Os tempos duros passarão. As mágoas, as paixões, os desejos, passarão. As frustrações de hoje serão esquecidas, certamente. As derrotas de hoje só me incomodarão amanhã se eu permitir. Elas só têm significado quando a elas eu dou significado. Assim, também, um dizer de alguém que me feriu. Posso ampliá-lo ou reduzi-lo. Mudar o meu comportamento pelo comportamento errático de alguém é celebrar o erro. Prosseguir fazendo o certo é compreender o tempo.

Há vitórias que o tempo mostrará que não foram vitórias. Há derrotas que serão, com o tempo, comemoradas. Porque tenho em mim todos os sonhos do mundo. Todos os sonhos do mundo significam que os meus sonhos se agigantam quando sonho coletivamente. Que os meus sonhos para serem sonhos não podem ser mesquinhos. O mundo cabe em mim quando eu sonho em melhorar o mundo. Mas não sou nada. Sou pó. Sou um em bilhões. Mas os meus sonhos são diferentes de todos os outros. Também a minha digital. Também a minha identidade. Mas até a minha digital, que é única, voltará a ser pó. Antes disso, onde ela terá tocado? Midas transformava tudo o que tocava em ouro. Nos meus sonhos, no que gostaria de transformar tudo o que toco? Enquanto puder tocar. Os acúmulos se vão. Mas há algo que permanece. Há algo que permaneceu de muito, gente que já virou pó. Francisco de Assis também voltou a ser pó. Mas o que dele permaneceu? O que permaneceu de Castro Alves? Ou de Irmã Dulce? Ou de alguém que vivia na minha rua e que ninguém ouviu falar, mas que eu sei que melhorou o mundo.

Os sonhos coletivos. As cinzas, a efemeridade das coisas, os ajudaram a compreender onde deveriam deixar a digital, a marca, a vitória. Nos sonhos coletivos. No ajudar como uma escola de humanidades, no acolher como uma pedagogia do encontro, no viver como uma missão que transcende o ter. O que tivermos perecerá. O que deixarmos ficará.

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. Essa oração diz muito. Nada de superioridades ou arrogâncias. Nada de apegos exagerados. Nada de mesquinharias. Tudo passa. O prazer ou a dor. O desejo ou a apatia. Passa.

As cinzas, resultado do que se é queimado, também significa que essas coisas passageiras podem ser queimadas dentro de nós mesmos. Para que caibam todos os sonhos do mundo. Esses não passam porque me fazem ter a certeza de que, embora um em bilhões, faço parte da melhoria desse mundo. Onde nasci. Pó. E de onde um dia vou me despedir. Pó.

Tenho em mim todos os sonhos do mundo. Para quem crê que o que vem é muito melhor, depois que voltarmos ao pó, o sonho coletivo é ainda mais necessário. O amor permanece. O amar nos faz permanecer. Depois da quaresma, a páscoa. O partir é um transformar. O fogo também gera luz. O pó haverá de ser o que nem em todos os sonhos deste mundo cabe. Vida.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O dia – RJ) | Data: 05/03/2017

O dia da alegria

E é de novo carnaval.

E é o dia da alegria. Há sambas e marchas e canções que evocam que é hora da tristeza ir embora e da alegria chegar. A festa foi se agigantando país afora. Ritmos e estilos diferentes foram ganhando adeptos. Escolas de samba, blocos de rua, frevos, axé, clubes, salões, bares, botequins. Cada um encontra o seu jeito de viver a festa.

A festa passa. Como dura pouco, já inventaram antecipações e prorrogações. Já criaram carnaval fora de época. Tudo isso para que a alegria possa reinar? Mas o reino da alegria só se dá no carnaval?

Há alguns que extravasam. Rompem suas durezas e se lançam a alimentar fantasias impróprias para outros dias. Há os que bebem em exaustão. Há os que pedem férias de amores duradouros para aproveitar o reinado de Momo com novos acompanhantes. Há os que se vestem do que gostariam de ser, mas não têm coragem nos dias comuns. E há os que desprezam os dias comuns, porque neles não há carnaval.

As despedidas são sentidas. Agora, só no ano que vem. Agora, vêm os dias comuns.

Nada contra o carnaval. Há espetáculos belíssimos que merecem ser contemplados. Há esforço de comunidades inteiras para contar uma história na avenida. Há amigos que saem para brincar e que brincam com os cuidados necessários de quem sabe que amanhã é um dia comum.

Mas se nada tenho contra o carnaval, nada tenho também contra o dia comum. Pois, durante o ano , tem mais dias comuns do que dias de carnaval. E eleger o dia da alegria, apenas no carnaval, é desperdiçar a alegria que está contida em cada dia comum.

Uma vez ouvi um folião dizer a outro: “Beba, beba para relaxar, beba para ser livre, beba para ser feliz!”. O outro folião, decidido, respondeu: “Já nasci relaxado, livre e feliz.”

Há muitas formas de viver a alegria. O carnaval é uma delas. Ou uma viagem. Há alguns que, nesses tempos de barulho, preferem o silêncio do campo, preferem escalar uma montanha, preferem namorar em casa, um amor romântico ao som de qualquer canção.

Dias de feriado são bons para que pausas necessárias nos recobrem, inclusive, o prazer de estudar, de trabalhar. Dias de feriado nos ajudam a encontrar aqueles que, nos desencontros em que nos metemos, ficam distantes. Dias de feriado são mais escassos do que os dias comuns.

Eleger os dias de feriado como os dias da alegria também não parece ser a melhor escolha.O dia da alegria é, definitivamente, o dia comum. O que acordamos e nos vestimos para viver. E encontramos os mesmos encontros exigindo de nós alguma nova disposição. Amores não envelhecem. Amadurecem. Amizades perdem a curiosidade da novidade e ganham a notoriedade da permanência. Permanecer amigo de alguém é aceitar as misturas que dão sabor ao existir. E a amizade não é assunto apenas de carnaval ou de feriado. É de todo dia.

Quem não encontra a alegria no dia comum não encontrará no carnaval. Quando muito se dopará de uma falsa sensação. E se obrigará a transmitir o que não vive. E se vestirá de uma máscara com tempo curto. Melhor viver o carnaval como se vive um outro dia. Com os cuidados e os desejos necessários. Com os encontros que não causem arrependimentos. Com as danças ousadas e sóbrias. Com explosões que não machuquem ninguém.

O dia comum é um mistério a ser desvendado. A beleza da rotina me faz ver as roupas estendidas no varal e gostar de vê-las. Me faz saborear uma refeição matinal planejando um dia bom que está por vir. Me faz beijar a pessoa que amo amando amar alguém. Como é difícil encontrar um amor! Quem encontrou cuide. Cuidar é um verbo bom de conjugar. No carnaval e nos dias comuns.

O dia comum é um texto leve se o vivo com leveza. Se compreendo que é nessa repetição que a novidade me fascina. Abrir uma porta. Fechá-la. Abrir uma janela. E as cortinas, quando há. Limpar o pó que veio da rua. Ir à rua com o mesmo prazer de chegar em casa. Encontrar na própria casa um canto sagrado, ou mais de um, ou fazer da casa um sagrado aconchego para os dias comuns. Os dias comuns são enfeitados por pessoas comuns. Pessoas comuns são extraordinárias pelo simples fato de serem pessoas. Não se repetem. Nunca. Nem nos dias comuns.

E é de novo carnaval. Que bom! E que bom que, depois do carnaval, vem o dia comum. O dia da alegria.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia) | Data: 26/02/2017

A ‘Pós-verdade’ e a verdade

“Pós-verdade”, como conhecemos hoje, é uma palavra, que foi usada pela primeira vez em 1992, pelo dramaturgo Steve Tesich. De lá para cá, ela ficou restrita a alguns grupos que tentavam compreender o sentido do pouco apreço pela verdade. Ou da “preguiça de pensar” sobre o que se tenta vender como verdade.

Foi no ano passado, entretanto, que a “pós-verdade” ganhou força. Tamanha força que a Oxford Dictionaries a elegeu a palavra do ano de 2016.

Donald Trump vendeu que estava sendo apoiado pelo Papa Francisco, vendeu que Barack Obama era um dos fundadores do Estado Islâmico. Vendeu que, proibindo os estrangeiros, garantiria emprego a todos os americanos. Sem a tal “preguiça de pensar”, esses produtos não seriam comprados. Trump venceu as eleições. Venceu prometendo ser a voz dos americanos, venceu prometendo destruir pontes e criar muros – o oposto de seu antecessor.

A Grã-Bretanha decidiu deixar a União Europeia. A venda deu certo. O discurso de que o custo para os ingleses era exorbitante fez eco.

Por aqui, muitos políticos venderam que não eram políticos e ganharam as eleições em importantes cidades. O eleitor comprou. Os que têm o poder de investigar defendem a ideia de que precisam falar muito sobre suas investigações para que tenham apoio popular. A mídia compra essa ideia. E se apressa em criar mitos e destruir biografias. A “preguiça de pensar” diminuiu a possibilidade de uma reflexão mais profunda sobre o papel de quem tem o poder de investigar. E o povo acompanha o desenrolar de casos e mais casos de corrupção. Não sabe muito bem dos detalhes –”preguiça de pensar”–, mas divulga-se pelos meios disponíveis o que dos meios disponíveis recebe. Combater a corrupção é um dever de governantes e de governados. É lutar contra uma praga que há muito rouba direitos de quem mais precisa. Mas há que se atentar para os que se valem desse discurso com fins pouco corretos. Ou dos que, com “preguiça de pensar”, generalizam o mal feito.

Frequentemente, vejo alguém comentando uma verdade recebida pelo Facebook ou pelo Whatsapp. Frequentemente, vejo a própria pessoa que acabou de comentar a tal da verdade pensando sobre ser a sua verdade inverossímil. Pensou um pouco e percebeu que o que foi vendido como verdade não poderia ser comprado. Mas sem esse pensamento, as máquinas de divulgação vão registrando os compradores desses boatos. As crenças pessoais, os preconceitos, os egoísmos vencem os fatos objetivos.

É certo que as novas formas de comunicação têm sido um canal dessas não-verdades. Mas os meios tradicionais de notícias também vêm sendo pouco criteriosos no trato com a verdade. Justiça seja feita, há excelente jornalistas, mulheres e homens ciosos do seu ofício e do seu poder. Mas há também o outro lado. A busca pelo furo jornalístico, ou outras razões pouco éticas, faz com que a verdade seja menos importante do que alguma fonte que garanta que, pelo menos, há alguma fumaça para que o noticioso fogo ganhe espaço. Se no dia seguinte se descobrir que a fumaça era de pó de estrada e não de lenha de floresta, escreve-se sobre outra coisa. Admitir o erro é exceção no mundo da imprensa.

Mas se é fato que vivemos a “pós-verdade”, o que fazer para virar a página? O que fazer para escrever um outro texto? Mais elaborado. Com mais cuidado. A verdade é uma utopia? A verdade é relativa? É possível se chegar à verdade? Essa discussão não é nova! Desde Sócrates e dos sofistas, trava-se essa batalha. Sócrates queria a verdade. Os sofistas não se preocupavam com ela, mas com a aparência da verdade. Como não acreditavam na verdade, queriam o que parecesse ser a verdade, talvez para agradar, talvez para receber o vaidoso aplauso. Sócrates não se preocupava em agradar. Preocupava-se em chegar até a verdade, demorasse o tempo que fosse necessário. Como dizer isso a um jornal de televisão ou de rádio? Ninguém tem tempo. A notícia vendida por alguém é comprada por outro alguém e vendida para milhares ou milhões de pessoas. Mas e a verdade? E os danos provocados pela ausência da verdade? Ausência que pode vir da pressa ou da má fé. As audiências dos telejornais têm caído. O número de leitores de jornais e revistas, também. Há uma nova geração descrente das informações que a mídia tradicional passa. Mas crentes no que leem em seus círculos digitais. O cenário é bastante estranho. Mas há saída. E a saída é a educação. Do povo e dos jornalistas. Do povo e dos que devem promover a justiça. Do povo e dos marqueteiros das eleições. Do povo e dos políticos. Parece utópico, mas, se combatermos a “preguiça de pensar”, o ciclo da “pós-verdade” pode causar menos estragos e ser menor.

Entre Sócrates e os sofistas, a humanidade optou por Sócrates. Na teoria.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Poder 360) | Data: 22/02/2017

Meus dois mundos

Moram em mim dois mundos.

Um me eleva. O outro, não.

Um me apresenta o dia como um canteiro de felicidades. O outro me faz desconfiar.

Um me traz pessoas e suas histórias para que eu possa compreender. O outro me esconde com medo dessa compreensão.

Um me elege para vencer obstáculos. O outro me coloca uma lente estranha que faz os obstáculos serem maiores do que de fato são.

Um me relembra o ontem para que as emoções me aqueçam. O outro me relembra o ontem para que eu saiba que nunca mais terei a força que tive.

Um me mostra o amanhã repleto de cenários que vão se modificando a cada ação minha. O outro mostra os mesmos cenários, cheios de feiuras, de doenças, de dependências.

Um me faz livre. O outro me escraviza.

Há tempos, convivo com os dois. Não me lembro, aliás, se houve algum tempo em que apenas um deles existisse. Se houve, eu ainda não era eu. Ou, se já era, não sabia. Há circunstâncias que me fazem alimentar o mundo que me alimenta e há outras em que alimento aquele que não me alimenta. Tento compreender as diferenças. As minhas diferenças. De vez em quando, deixo um ou outro mais forte dentro de mim. Nem sempre é simples.

Há momentos em que um vazio me preenche. Vazios não preenchem ninguém. Sim, mas o mundo que me diminui me traz um vazio com o qual fica difícil receber outros visitantes. E eu permito. E me lanço a pensar no que não me faz bem. E o vazio aumenta. E as minhas reações são diferentes daquelas que eu teria se tivesse alimentado o mundo que me alimenta. O que me alimenta me traz a generosidade, a fraternidade, a compreensão. Nada disso convive com o tal do vazio. O mundo que me faz egoísta, se eu pensasse um pouco, não me faria. Se eu pensasse que, depois de uma ação egoísta, nunca vem a felicidade, eu agiria de uma outra maneira. Mas, no vazio, o pensamento fica preguiçoso. E não percebo o que deveria perceber.

O mundo generoso não usa a tal lente estranha. Pelo contrário. Retira-a. Para que eu veja com os meus próprios olhos. Para que os meus olhos alimentem os meus sentimentos. Para que os meus sentimentos não briguem com os meus pensamentos. Para que os meus pensamentos sejam repletos de boas intenções. Para que as minhas boas intenções me levem a ações que me façam generoso.

A carência em demasia me faz exagerar. Exagerar no ciúme, na possessão, na vaidade. Esqueço o outro. E vivo em função das minhas idiossincrasias. Quero o aplauso, o reconhecimento, o elogio. Quero como um ser dependente. Quero como se me frustrasse, definitivamente, por não ser o centro das atenções. E, por isso, me diminuo. Soberbamente, me diminuo.

O mundo que me eleva também sabe das carências. Mas me faz supri-las de outras maneiras. Abraçar-me a mim mesmo nunca me satisfará. É o outro que me completa. Não como resultado da minha projeção. Mas como ouvinte de uma mesma canção que se dá no tempo do encontro. Nossos olhares ora se cruzam, ora contemplam o que o mundo generoso tem a nos oferecer. O mundo mesquinho me faz querer tudo. Ganancioso, vou me perdendo. O mundo generoso me faz encontrar as razões da partilha. Vou compreendendo que nada me pertence. Nem mesmo as pessoas que amo. Elas, um dia, partirão, e eu teria de, depois da despedida, agradecer pelo tempo do convívio. Se imaginar que algo ou alguém me pertence, terei, além de ter cometido um ledo engano, proporcionado a mim mesmo uma imensa frustração.

Os dois mundos moram em mim. Não sei se há como expulsar um dos dois. Se há, ainda não descobri. Mas estou aprendendo como deixar o que me fortifica mais forte, o que me alimenta mais alimentado, o que me eleva, maior.

Acordo pensando nisso. E nos momentos em que terei a oportunidade de fazer o que decidi. Vez ou outra me perco. Por alguma distração. Por algum alimento que dei, sem perceber, para o mundo que me diminui. Quando isso acontece, tento voltar ao que me alimenta, lembrar o que estou perdendo e, novamente, ganhar. Ganhar a luta renhida contra o que me apequena. E crescer. Com a maturidade necessária para escolher a escolha correta. E prosseguir.

Hoje, é domingo. Dia de alimentar o mundo bom. Amanhã, também. E, também, o dia que virá depois de amanhã. A tarefa é diária. Mas com ela se chega ao fim do dia muito melhor. No fim do dia, é o mundo generoso que tem o poder de me conferir um sono bom. O outro mundo me mantém acordado com um barulho incessante de desperdícios. Gosto de dormir bem. E gosto de acordar com vontade de viver!

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 19/02/2017

Mudei de profissão

Dias desses, conheci um cantor. Um cantor que canta com a alma da gente do interior. Que gosta dos compositores que compõem as canções contando uma história. A história “de uma casa no campo” em que eu possa dizer, inclusive, que “eu quero o silêncio das línguas cansadas” e “a esperança de óculos”. Que cada um entenderá do seu jeito. Que desafiará algum pensamento. Um cantor que canta sobre o boi e a boiada. Sobre a palmeira na beira da estrada “onde foi cravado muito coração”.

Pois bem, esse cantor era zootecnista. Trabalhava no campo e admirava as pessoas do campo. E as coisas do campo. Um dia, ele mudou de profissão. Agradeceu o que viveu e partiu em busca do barulho do seu coração. Foi ser cantor. Foi ser cantador. Foi cravar em muitos corações a beleza da sua voz.

Cláudio Lacerda é seu nome. O que viveu serviu de acúmulo e de inspiração. O que deixou serviu de desafio para novas buscas. A vida aprecia quem a aprecia. Quem tem a coragem de mudar. Quem tem o discernimento de saber onde fincar suas bandeiras.

Há que se inspirar novos bandeirantes. Descobridores do que realiza. Do que perfuma a vida. A deles própria e a dos outros. Quem está realizado faz melhor o seu trabalho. Trabalha porque compreende o que pode ser transformado. Uma canção transforma muita gente. Um remédio, também. Um livro. Uma condução. Uma viagem. Uma obra. As profissões se multiplicam. Os lugares em que trabalhamos, também. Os desejos e as necessidades vão se ampliando e lá surgem outras coisas para fazer. O que não se compreende é a aceitação passiva do que não se realiza. Há um dentista que resolveu virar designer de interiores e, hoje, espalha seu bom gosto dando gosto à vida de muita gente. Há um advogado que resolveu montar um restaurante e saborear sua nova função na companhia de gente alimentada pelo seu sabor. Há uma secretária que continuou secretária, porque gosta de ser secretária. Apenas mudou de emprego. No emprego anterior, não havia respeito. Não havia gratidão. E trabalhar onde não se sente bem é um desperdício de tempo e dos próprios talentos. Quantas pessoas se sentem diminuídas, impotentes até. Sentem-se incapazes de executar um bom papel. E mudam. E, miraculosamente, começam a perceber que podem mais. Não. Não é milagre. É coragem. Coragem, como dizia,

Fernando Pessoa, de abandonar as roupas velhas e vestir algo novo. Ouço vozes confusas que lamentam ou a profissão ou o local em que trabalham. Evidentemente, não se pode jogar tudo para o alto sem planejamento. Há degraus a serem vencidos para que se chegue onde se deve chegar. Mas é preciso ir. Mesmo enfrentando o cansaço. Melhor o cansaço do que a paralisia. Melhor o medo do novo do que a apatia do velho. Melhor a mudança do que a inexplicável permanência. Permanecer não é ruim. Explico logo. Desde que se sinta útil. Desde que o acordar seja um prazer pelo prazer de saber que o que se faz dá prazer. Há muitos que, durante anos e anos, realizam as mesmas ações. E são felizes. As mesmas ações são sempre diferentes quando se vive o que se faz. Fazer pelo burocratismo. Fazer pela falta de opção. Fazer para passar o tempo é perder o precioso tempo de compreender que o tempo passa. É melhor renovar as roupas. Mas deixar que outros usem as que, um dia, usamos. Para delas nos despedirmos. O acúmulo de passados não nos faz bem. Há alguns que mudam de emprego, mas que vivem o que já passou. Até com alguma raiva. Até com algum desejo de vingança. Porque foram demitidos. Porque foram substituídos.

Roupas novas. É disso que precisam. Uma postura nova. Uma esquina nova para novas conversas. O cantor que inspirou esta reflexão também canta “Disparada”. A canção que empatou com “A Banda”, naqueles antigos festivais. Jovens apaixonados eram aqueles. Que brigavam pela liberdade e por um lugar no palco da vida. Boa lembrança. Preparemos o nosso coração para as coisas que ainda vão acontecer… se tivermos coragem de mudar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 12/01/2017

Bem-vindo, professor!

As aulas estão recomeçando. Novos alunos. Novos desafios. Novas possibilidades.

Escolas se preparam para esses recomeços. Há eventos de formação de professores. Há reuniões, planejamentos. Há um fazer coletivo na expectativa de que tudo comece bem.

Gosto de viver essas experiências. Há anos tenho o privilégio de exercer o sagrado ofício do magistério. Gosto de conviver com professores. De ouvi-los, de trocar impressões, de – modestamente – motivá-los.

Foi em um desses eventos que ouvi dois relatos elucidativos. “Mais um ano, não é? Nossa, como as férias voaram! Já estou contando os dias para que tudo se acabe. É muito difícil, sabe, enfrentar uma sala de aula. Os alunos estão cada vez piores. Não há respeito algum. Nossa profissão está muito desvalorizada”. A fala prosseguiu nesse tom. O desprazer de entrar em uma sala de aula e de, rotineiramente, fazer a mesma coisa. A falta de conexão com os alunos e com os seus sonhos. “Sonhos? Será? Eles não têm sonho nenhum. Têm é um vazio enorme, um desrespeito. Tenho pena deles. Aliás, tenho pena de mim por ter de enfrentá-los”. Há alguma verdade nessas afirmações. É fato que se percebem alunos despreparados e desrespeitosos. Há muitos que vivem uma profunda alienação. Têm atitudes ora apáticas, ora agressivas. O dia a dia de um professor, certamente, não é tarefa das mais simples.

O outro relato ia na direção oposta. “Que ótimo. Fico sempre ansiosa quando as aulas vão começar. Como serão os alunos desse ano? Eu nasci para isso, sabe? Para estar em uma sala de aula, para organizar as informações desencontradas que eles trazem. Para ajudá-los a perceber o quanto podem, o quão longe podem ir”. E os olhos brilhavam. E a professora prosseguia. E falava de um ou outro aluno. Um professor se mostrou estupefato. “Você lembra o nome deles?”. Ela prosseguiu. “Para falar a verdade, não de todos, foram muitos, mas de muitos deles, lembro, sim. E lembro o que aprontamos juntos”. O mais desanimado perguntou. “Mas você não acha trabalhoso esse ofício?” Ela foi rápida. “Evidentemente. É difícil nos reinventarmos. É difícil conseguirmos a atenção deles, o entusiasmo. Mas é possível. E é mágico quando sabemos que significamos alguma coisa na vida deles. É disso que nos alimentamos. Do bem que fazemos”.

Eu ainda não havia começado a palestra. Apenas observava aqueles diálogos enquanto alguns conversavam comigo.

A professora, que já trabalhava há algum tempo naquela escola, levantava-se cada vez que um professor entrava e dizia: “bem-vindo, professor”. E dizia o nome. E sorria com a certeza de que era bom estar ali.

Dei a palestra inspirado naquelas atitudes. Não usei o exemplo do desanimado. Mas falei sobre superação, sobre reinvenção. E brinquei com aquela dama. Eles concordaram com os meus elogios e disseram que ela era uma inspiração.

Lembrei-lhes uma qualidade essencial que todos nós, educadores, precisamos ter: gostar de viver. Quem não gosta de viver dificilmente conseguirá oferecer a ajuda necessária a um aprendiz. Dificilmente perceberá que o que ensinamos é, antes de tudo, a capacidade de nos percebermos humanos, de nos respeitarmos, de nos amarmos nas nossas diferenças. Os laços de convivência não podem ser substituídos por intransigências, por preconceitos, por violência. Há de se valorizar o que se pereniza: os momentos. Há de se perceber que os momentos podem dar magnitude à vida. Cada momento é sagrado. Há uma pedagogia a ser implementada em todas as salas de aula: a pedagogia do encontro. É preciso que saibamos partir. Partir para encontrar. Repartir para servir. Servir para compreender o amar. Servir a uma causa. Ter uma causa. Servir a um sonho. Ter um sonho. Servir a um tema de vida. Ter um tema para viver. São esses os aprendizados que permanecem. Não se pode negligenciar os conhecimentos, naturalmente. Mas eles virão se soubermos instigar os nossos alunos a buscá-los. Com humildade. Com a responsabilidade necessária de quem tem um caminho a ser percorrido.

No futuro, exercerão sua profissão com os conhecimentos, mas, sobretudo, com atitudes corretas. Como aquela professora. Que há mais de 40 anos reinventa o seu agir no mundo fascinante da educação.

Aos professores que iniciam mais uma jornada: coragem. Lutemos a luta justa pela valorização do nosso ofício. Mas é preciso ir além. Até onde nos levam os sonhos que nos embalaram quando abraçamos essa profissão, e os sonhos que nascem, hoje, de sermos melhores a cada dia, de não desperdiçarmos os sagrados momentos de estarmos em uma sala de aula.

Bendito aquele que semeia valores e que, vez ou outra, tem a possibilidade de contemplar a colheita.

Bem-vindo, professor!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/02/2017

Feliz idade

Uma amiga completou 80 anos. Uma festa agradável. Pessoas das mais diferentes idades circulavam. Entre bebidas e comidas, conversas. Falavam sobre a aniversariante e sobre o seu pacto com a felicidade. Em qualquer idade.

Perdeu ela um filho. Sofreu a inversão da lógica da vida ao ver, sem vida, o fruto do seu amor. Enterrou com dor e tentou compreender a despedida. Fácil não foi, mas ela prosseguiu.

Perdeu o marido. O companheiro que aplainou seus invernos. Que compreendeu suas mudanças. Que acolheu seu estilo livre de ser. Perdeu, certamente, muitos amigos. Alguns mestres que abriram a ela bibliotecas de ensinamentos que a ajudaram a ser quem é. Mas estava ali. Roupa nova. Cabelo feito. Maquiagem adequada. Passeando entre os seus. Dizeres bonitos. De vidas que se encontram e se renovam quando somos fortes.

Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortes. É isso. Para aqueles que compreendem a efemeridade da vida e o devir. O prosseguir. O curso das coisas. Encontros e despedidas. Mudanças. Os passos se tornam mais vagarosos, mas a mente se torna mais profunda. Há algo de nobre na maturidade. As ansiedades se acomodam um pouco. Há que se aprender com as experiências. As dores se repetem, mas já as conhecemos. Quando chegam, nós as recebemos com menos surpresas e aguardamos que partam. Que partam sem nos partir.

Houve um momento de discursos. A aniversariante gosta da palavra. Pediu que alguns amigos falassem. Falaram. Não pouparam elogios. Ela os recebeu com alguma parcimônia. Deu os descontos necessários, mas sobre eles quis discorrer.

Falou da beleza de completar 80 anos. De ter resistido tanto. De ter superado doenças, medos, mortes. De estar ali. Na feliz idade. Falou sobre os que se foram. Rapidamente. Sem ressentimentos. Sem mágoa do destino. Falou apenas celebrando a saudade. Falou dos que estavam ali. Do quanto valorizava os afetos. Os afetos desinteressados que recebem o nome de amizade. A amizade é o melhor alimento para a sobrevivência. São laços protetores que nos envolvem contra as mudanças abruptas de temperatura, de temperamento.

Cantamos celebrando. E partilhamos o doce que havia ali. Sobre ele, as velas que só deveriam ser apagadas ali. A luz da aniversariante prosseguirá. Certamente. Ela não tem pressa alguma de partir.

Saí da festa pensando nas idades. Brigar com elas é prova de pouca sabedoria. Não decidimos a idade que queremos ter. Decidimos ser felizes em cada idade. Decisão árdua, mas necessária. Quero chegar aos 80. Resistir às intempéries que me roubam a paz. Sentimentos teimosos os meus que boicotam momentos felizes. Não sei por que, vez ou outra, opto pelo complicado e abandono o simples. Depois aprendo e tento reescrever o que ficou faltando de mim. Por alguma razão, perco-me apenas para agradar. O tempo me ensina o contrário. Encontrando-me é que compreendo o que devo fazer, inclusive com e para o outro. A amizade, o amor, só robustecem na autenticidade.

Olhava aquelas pessoas e ficava imaginando, principalmente, as que eu não conhecia, o que elas já passaram e como resistiram. Ali, estavam se alimentando do doce. Da doce festa da vida. Ali, rendiam-se ao prazer do estar. Estarão sozinhas depois com os seus sentimentos e as suas lembranças. Mas se compreenderam a magia que há em cada mutante paisagem, compreenderão que prosseguiremos. Sempre.

Não sei quantos anos tinha o mais velho daquela festa. Não sei os remédios que tomam nem os problemas que carregam. Sei que dali saí com vontade de viver mais. Para lembrar. Para sonhar.

A aniversariante encerrou a fala dizendo que não iria falar dos seus sonhos. Porque eram tantos. Que talvez o tempo de que eles ali dispunham não seria suficiente. Brindemos à vida, então.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia- RJ) | Data: 29/01/2017

Onde está Deus?

Era uma criança, apenas. Disse-me, com autoridade, que fará 4 anos. Brevemente.

Estávamos em uma igreja. Missa dominical. Ela, no meu colo. Foi quando ela soltou: “Onde está Deus?”

Eu a abracei forte. Carinhosamente.

Antes da resposta, ela prosseguiu: “Deus está ali. Os homens malvados fizeram isso com ele”. Ela me mostrou uma cruz. E Cristo pregado na cruz.

Eu quis saber quem havia dito isso a ela. Ela disse que o pai explicou e que foi além. Quando os homens são maus, eles continuam pregando Deus na cruz. E prosseguiu me dizendo que agora eu já sabia, já que ela havia me explicado onde estava Deus.

Eu apenas sorri e a abracei. E disse baixinho: “Se, quando os homens são maus, eles continuam pregando o Filho de Deus na cruz, quando eles abraçam – assim como nós -, eles tiram o Filho Dele da cruz”.

“Então vamos ficar sempre abraçados”, ela disse, sem demora. E emendou: “O que mais faz com que Ele fique feliz”?

“O que você acha, já que você que me explicou onde Ele está?”

“Quando a gente ama, ué”, falou a criança como se fosse simples compreender.

A ausência de amor é a responsável por irmãos nossos que continuam sendo crucificados.

A ausência de amor gera a guerra, gera o preconceito, gera a segregação, gera a miséria.

Miseráveis somos nós por não compreendermos a simplicidade da mensagem do Filho de Deus. O amor. O amor incondicional. O amor sem exigências. O amor edificante. Uma criança se comove ao ver Cristo pregado na cruz. Mesmo sendo uma imagem. A insensibilidade humana faz com que não nos comovamos ao ver, nos nossos tempos, os calvários se multiplicando. Descarto o outro como se fosse uma coisa. Um incômodo. Vejo e não vejo o que sofre. Ouço e não ouço o que grita suplicando ajuda. Falo de mim e ouço pouco as vozes que me clamam compaixão.

Olho aquela criança e imagino as crianças órfãs, vítimas de matanças cruéis. As crianças que vivem em região de conflito e que não têm o sono embalado com cantigas de paz. As crianças que ainda não tiveram o privilégio de viver a paz.

Olho aquela criança e imagino as que não têm um pai que lhe explique a bondade, mas – ao contrário – há tantos que, com rudeza de ações, roubam a sua sensibilidade. Os horrores das crianças violentadas sexualmente. Crianças que aprendem a odiar. Desde sempre. O que lhes restará no futuro?

Os homens que mataram o Filho de Deus continuam matando. Ele não desce da cruz para ser um sinal de até onde podemos chegar quando o amor está ausente.

A missa prosseguiu. No momento da consagração, ajoelhei-me. Ela quis saber o porquê. Eu disse que Deus estava naquele pão. Ela confirmou com a cabeça como se tivesse entendido. Eu já imaginava ter que buscar alguma explicação, mas foi ela quem me explicou: “É para nos alimentar de amor”.

O Filho de Deus se faz pão para nos alimentar de amor. E amando é possível que voltemos a ter a limpeza da criança.

Aqueles olhinhos azuis ainda estão em mim com suas teológicas verdades. Quando nos despedimos ela teve tempo de dizer: “Agora que você se alimentou, tudo vai ficar mais fácil, né?”

Onde está Deus? Deus está naquela criança que me faz continuar acreditando…

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 22/01/2017

A voz da Televisão

Apresentador de televisão comete crime ao usar palavras ofensivas contra uma mulher. É demitido. Desta vez. E as outras? E as irresponsabilidades que são ditas por apresentadores que entram na casa das pessoas? E as inverdades? Há uma busca enlouquecida por audiência. E há uma crença de que quanto mais se exibem tragédias mais pessoas ficam presas ao aparelho de TV. Tragédias precisam ser mostradas. Com responsabilidade. Sem exageros. Expor as pessoas é uma forma pouco ética de se apresentar programas ou fazer jornalismo.

Os jornalismos televisivos eram mais cuidadosos. Hoje, além do claro comprometimento ideológico de um ou de outro lado, há o pouco caso com a vida do outro, com a biografia do outro. Coloca-se no ar e depois se confere se é verdade ou não. Respeito com a vida do outro? Imagine! Essa palavra e esse valor andam em desuso. No âmbito da política, é preciso que se mostre o malfeito, a corrupção, a demagogia. Mas com cuidado. Como se coloca todo mundo no mesmo balaio, o resultado é que muitas pessoas que poderiam estar na vida pública, que dariam uma grande contribuição ao país, preferem ficar de fora. Temem a imprensa. Não por fazerem algo de errado. Mas pelos erros que a imprensa comete. Erros que ficam marcados na alma de quem age com seriedade. Generalizações são sempre injustas. Da mesma forma que não se pode colocar todos os políticos no mesmo balaio, também não se pode fazer isso com jornalistas. Há muitos jornalistas sérios, que não se deixam levar pelo “furo” fácil, pelo dito sem compromisso com a verdade, pelo cuidado essencial de quem tem nas mãos um grande poder: o poder de edificar com a verdade ou de destruir com as tantas formas de corrupção.

Voltando ao início. O racismo é um horror. É a prova de que ainda há muito para se evoluir. Os preconceitos pintam a imagem mais feia do ser humano. Prefiro as outras. A da tolerância, a da convivência, a do respeito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/01/2017

Os gestos de Obama

A Casa Branca terá uma nova família.

O casal Obama e suas filhas se despedem da residência oficial de quem preside os EUA.

Chegaram há não muito tempo. O tempo passa soberano. Depois de eleito e antes da posse, Obama fez algumas incursões em alguns países para levar a bandeira que gostaria de ver tremulando nos mastros do mundo. Em uma dessas viagens, falou aos alemães usando uma metáfora que serviria como marca de sua administração. O mundo precisa de pontes, não de muros.

Há muito a se dizer sobre a gestão Obama. Há os que o criticam. Há os que o reconhecem como um grande estadista. Mas vamos aos gestos que ficam desse homem que ousou enfrentar os preconceitos e entrar para a história.

Nos dias finais de Casa Branca, a família Obama serviu os funcionários que durante 8 anos os serviram. Gesto simples de gratidão. Gesto nobre de mostrar que, apesar de desempenharmos papéis diferentes, temos todos a mesma importância. Gesto afetuoso de quem enxerga o outro. De quem sabe seus nomes. De quem interpreta os seus sonhos.

As filhas de Obama sempre fizeram trabalho voluntário.

A mulher de Obama, Michele, abraçou causas sociais de grande envergadura.

A postura do casal foi a de compreender que, em um mundo carente de referenciais, era preciso dizer com gestos o que era necessário resgatar.

Em 8 anos de gestão Obama, nada de escândalos de corrupção. Seu nome se manteve limpo. Mesmo em uma política capaz de chamuscar, inclusive, os corretos. Ele passou ao longe. Não se viram demonstrações de autoritarismos, de ameaças, de exibicionismos de poder. Seus gestos foram de acolhimento. Ações que visavam diminuir os preconceitos – e como eles existem!

A nação americana protagonizou horrores contra os negros. Cenas sangrentas que mancharam um país que gosta de se dizer o mais democrático do mundo. No país de Luther King, coube a Obama assumir o protagonismo de mostrar o que queria o pregador. Que o valor de uma pessoa não viesse da cor de sua pele, mas da nobreza de seu caráter. O olhar aos imigrantes, às minorias, aos discriminados. O dizer ao povo que ficava à margem. O agir criando as tais pontes. Gestos que ficam.

Mas e agora?

Agora, o mundo parece querer outra coisa. O discurso de Donald Trump é o oposto. Insiste no tal muro da fronteira com o México.Faz ouvidos moucos à pregação de um papa conciliador e visionário como Francisco: “Onde há um muro, há fechamento de coração”. O papa tem razão. Mais uma vez. O novo presidente fala dos imigrantes com desdém. Já chegou a diminuir as pessoas com deficiência, já desmereceu as mulheres. E foi eleito.

Não vou além nas reflexões sobre Trump. Permitamos ao tempo que nos mostre quem ele é.

Voltemos a Obama. Seus gestos ultrapassam o hoje. A história dará a ele um papel de destaque. Certamente. E a Michele. E às filhas. E a esse jeito de compreender que o maior poder é o de servir.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 15/01/2017