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A salvadora de vidas

Passaram-se alguns dias. A dor não passou. As famílias de Janaúba ainda perambulam perdidas em pensamentos que não querem acreditar. Os mineiros, tão acostumados a contemplar suas montanhas, tão afeiçoados à prosa mansa, ao convite saboroso para um pão de queijo e um café fumegante, queimam-se de tristeza. O incêndio provocado foi no dia do aniversário do pai do tal fabricador de picolés que já havia denunciado a própria mãe por tentar envenená-lo. Não. Não vou falar sobre ele. Deixo a missão aos que estudam a mente humana e os seus desalinhos. Vou falar dela. A salvadora de vidas.

Quantas vidas salvou naquele dia a professora Heley de Abreu Silva Batista? Quantas vidas salvou em outros dias meneando seu corpo de um lado a outro para dar conta de entreter e acolher aquelas crianças? Quantas vidas iluminando, contando histórias e preparando festejos? Quantas vidas inspirou ao se dedicar a estudar as crianças que tinham alguma deficiência e que mereciam ser tratadas com dignidade e com oportunidades para prosseguir? A salvadora de vidas perdeu um filho em um triste dia de sol naquelas montanhas alterosas. Afogado em uma piscina. Afogou-se ela em lágrimas de uma mãe incrédula no enterro do próprio filho, de uma criança partida prematuramente. Chorou a dor mais doída. Fechou-se no luto dos que parecem desistir da luta. Não desistiu. Renasceu. Foi mãe novamente. Mais de uma vez. Prosseguiu. Sem nunca esquecer do que partiu naquele dia que poderia não ter existido. Quantas brigas com os pensamentos para tentar entender o que poderia ter sido feito.

O tempo passou. As crianças ocuparam o sagrado espaço do seu oráculo. Ser mãe, ser professora, ser salvadora de vidas. Ainda havia muitas ervas daninhas para separar das plantas que, ainda pequenas, deixavam de ser sementes e buscavam algum sol para crescer. A professora sabia disso. Sabia pelo que vivera. Sabia pelo que estudara. Sabia pelo que sentira. Sentia-se bem ali, naquela escola, até o nome lhe agradava: “Gente Inocente”. E estava perto o dia da criança. Todo dia é dia da criança. E estava perto o natal. A professora gostava dos serviços religiosos, da pastoral da família. Há muitas famílias em Janaúba olhando para os quartos vazios dos seus filhos que partiram antes. Há outras que, embora enlutadas também, olham as suas crianças sobreviventes e pensam na professora, na salvadora de vidas.

Quantos mistérios há nesta vida! Quanta dor acumulamos! Afinamos e desafinamos, como gostava de dizer o mineiro Guimarães Rosa ao explicar que vamos mudando, que não estamos prontos, que não somos sempre os mesmos.

Das tragédias também se aprendem lições. Desde o dia do incêndio, tenho pensado naquelas crianças e nas suas famílias. Tenho pensando nas três filhas da professora. Duas adolescentes e uma ainda bebê. Crescerão sem a sombra da mãe. Crescerão, entretanto, com a luz que não cessa mesmo quando quem amamos parte. A cidade mineira está triste, mas não deixa de estar iluminada. São os mistérios. Que não compreendemos. Que arrancam pedaços de nós, mas que, miraculosamente, se refazem aos poucos, com o sagrado tempo, para que consigamos prosseguir. A travessia – viva, Guimarães! -, é necessária. Prossigamos. Chorando os nossos amores, lembrando os nossos heróis.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 15/10/2017

As dores do Reitor

Morreu o Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Luiz Carlos Cancellier de Olivo não resistiu à dor da injustiça, não compreendeu a incompreendida ação contra sua dignidade e decidiu partir.

Morava ao lado da universidade. Vivia a vida da universidade. Foi acusado. Como tantos outros em tantas outras circunstâncias. Preso. Humilhado. Banido. Foi condenado? Não. Não pelo devido processo legal. Foi antecipadamente condenado, prematuramente condenado. Ele e tantos que se tornam vítimas de autoridades sem a maturidade necessária para o exercício do poder.

Há muitas manifestações de dor e de respeito ao reitor que partiu. Inclusive de setores da justiça. Dos que compreendem. Que lições podemos tirar? Os que o condenaram, antecipadamente, responderão por isso?

Há excelentes juízes e promotores e delegados e outras autoridades constituídas para fazer valer a justiça. Mas há tantos que embriagados pelo poder, pela síndrome do pequeno poder, pelos desequilíbrios de um aplauso fácil que não se contêm e se lançam ferozes contra a primeira vítima. E vão se alimentado do seu sangue e da sua dor. Tudo estampado nos jornais. Tudo apresentado pela “verdade fabricada” do noticiário televisivo. A perversa relação entre membros do ministério público e da polícia federal com a imprensa é caminho certo para a injustiça. Porque há excesso de pressa e ausência de cuidados. Por que é necessário dar entrevistas, divulgar fatos, vazar procedimentos no início de um processo investigatório? Onde está a cautela de quem deveria ter a responsabilidade de fazer valer o super princípio constitucional da dignidade da pessoa humana?

Um promotor de justiça que se lança com a fome dos urubus jamais cumprirá o seu dever. Devoradores ávidos, cegos pela própria necessidade de se alimentar do podre poder. Pena. A Constituição Federal de 1988 deu ao Ministério Público responsabilidades imensas. E, talvez, a maioria compreenda e assim aja. Mas os que se desviam causam um mal imenso ao país. Covardemente, sim, porque se escondem nos benefícios da instituição, atacam suas presas. E uma parte do judiciário prefere dar de ombros, lavar as mãos. Alguns por comodismo, outros por medo da imprensa. Triste imprensa que não se preocupa com a verdade, mas com a velocidade do que quer dizer. O fato? Importa menos que a versão, o preconceito.

Lá se foi um reitor, um educador. Foi triste. Prematuro. Viveu dias desnecessariamente amargos. Aprendamos com esse partir. A compaixão é um valor iluminativo ao direito. Compreender a dor do outro melhora a atuação dos profissionais que exercem poder. Se for muito pedir esse valor, ao menos a ética. O não fazer ao outro o que não gostaria que fizessem com você.

Não conheci o Cancellier. Conheci sua história e me entristeci. E me solidarizei e ousei sonhar com novos tempos. Tempos difíceis, hoje, em que os ódios se dissipam muito mais rapidamente que o amor. Que o sangue nos olhos impede a alma de se apresentar, em sua janela. O que se quer é o que queriam os que iam às arenas da Antiguidade ver os homens sendo devorados pelas feras? Então, não evoluímos?

Descanse em paz, reitor. Só me resta uma esperança. As boas sementes, um dia, desabrocharão e trarão novidades. Espero apenas que não demorem, há muita dor desnecessária por aí.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 08/10/2017

Amizade

A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.

Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, “quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”. Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece.

Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios.

O chão da amizade não oferece riscos de cortes, de sequelas. O chão da amizade é terra escolhida para a boa sementeira. O que se colhe de uma amizade? Sombras para os dias quentes, proteção para os dias de chuvas intermitentes, poesia para todos os dias. Mas nada planejado, nada buscado como troca de nada oferecido. Um caminhar, um encontrar, um conversar, um permanecer. A amizade é o antídoto dos tempos descartáveis. Os interesseiros se arvoram para sugar até o ultimo gole das tetas dos abastados. Lançam-se, sem amor próprio, em adjetivos à exaustão, em elogios a rodos, em busca de alguma participação na fortuna. Encolhem-se até para não parecerem famintos. E, se secam as benesses, partem em busca de um outro desavisado. Tristes dias, tristes figuras. Os amigos pouco se importam com o que não se deve importar. Efêmeros poderes, efêmeras posses. O que permanece quando as roupas luxuosas são retiradas é o que interessa aos verdadeiros amigos. Uma mesa, alguma bebida quente, fumegante, quem sabe. Um pão, talvez, Uma água vinda de alguma nascente pura. Puramente, permanecem ali a falar sobre a vida; a vida, esse presente inesgotável de novidades que nos surpreendem na rotina aquecida dos nossos olhares. Falar sobre os outros? Nem sempre é necessário. O calor do encontro amigo já é o bastante para estarmos bem. E quem está bem não carece de diminuir o outro. A amizade me eleva a patamares meritórios. Conquistados pelo simples fato de termos nascidos. Para o lugar do encontro. Sim, porque os desencontros foram invenções nossas. Algum descuidado resolveu competir, resolveu comparar, resolveu destruir, e, assim, os dias perdem os seus contempladores. Ah, os amigos contemplam as cenas comuns e pintam figuras extraordinárias. Viver é extraordinário. Desistir de viver, um desperdício.

A humanidade inventou tantas máquinas, algumas perversas, inclusive. Torturamos gentes e animais. Domesticamos os que viviam livres para nos servimos da sua dor. Por que isso foi acontecer? Quando se iniciou essa decadência? A liberdade é um presente que não se pode desconsiderar. A amizade é livre. Sem esse complemento essencial, ela nada é. Os que aprisionam não são amigos, os que machucam não são amigos, os que desrespeitam não são amigos.

A bebida quente em uma mesa e a ausência da pressa, o tal pão que inspirou uma oração e a gênese da palavra partilhar, a água pura que lava o que precisa ser lavado dentro e fora de nós. Tomar banho sem tampar o ralo para que as imprudências partam. E beber a água com a simplicidade necessária de quem sabe o que nos permite manter vivos, entrando dentro de nós e irrigando cada milagre. E depois nos levantamos, olhamos para o que nos resta da vida e, sem esforço algum, sorrimos o sorriso de quem se alimentou. Amizade é isso. Uma linha invisível aos que têm olhos de ver que nos conduz sem impedir que nos conduzamos para o melhor do que precisamos viver.

Muitos amigos? Não, não há necessidade nem tempo para, de todos eles, cuidar. É melhor que saibamos escolher, compreender. Sentemos, pois, à mesa sincera em que as palavras nascem do não planejado, apenas do esperado, para fazer amar. Amizade é a forma leve de amar. Prosa boa é a que poetiza os nossos dias. E nos deixa com um gosto de querência por outros amanheceres.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 17/09/2017

A chave certa

Vi, um dia desses, um homem com um molho de chaves tentando abrir uma porta. Passaram alguns segundos e ele insistia com a mesma chave. Eu olhava as outras chaves, ali, olhando para ele. Mas ele só via uma chave e só insistia com aquela chave, que, certamente, não era a chave certa para abrir aquela porta.

Lembrei-me de um homem chamado Teodoro,que tinha, também, um molho de chaves e que cuidava de uma Igreja. Cada chave abria uma porta. E ele sabia disso. Quando ele não ia, o molho de chaves ficava com a Sebastiana que também sabia que não adiantava insistir com uma chave que não abria aquela porta. Abria outras, mas não aquela.

Naquela época, também vi gente que, ao tentar com uma chave, desistia quando via que a porta não se abria. E eu ficava me perguntando por que não tentar com as outras chaves se há tantas no molho. Por que desistir na primeira tentativa fracassada? Por que não compreender que formato de fechadura exige uma chave. E que, mesmo que sejam muitas chaves, elas são diferentes e se prestam para abrir diferentes fechaduras. Há outra possibilidade também. Desistir da chave antes de saber se é ou não a chave certa. O que não é bom. Porque a pressa fará com que se tente uma chave após outra, e nenhuma delas abrirá a porta. O problema aí não é a chave, mas o jeito de usá-la. Acontece, muitas vezes, de alguém tentar abrir uma porta com uma chave e não conseguir, julgando ser a chave errada, e outra pessoa, usando a mesma chave, conseguir abrir.

Para se abrir uma porta, é preciso superar a teimosia e a impaciência. O teimoso insiste com a chave errada, e o impaciente não dá o tempo necessário para saber se é a chave certa ou errada.

O fato é que, na vida, haveremos de abrir muitas portas. E, para abri-las, precisaremos de muitas chaves. E de destreza. E de cuidado. Desistir no primeiro obstáculo demonstra pouco conhecimento da importância de abrir a porta. Insistir em demasia com a chave errada pode até prejudicar para sempre a fechadura. E a porta precisará ser arrombada, e arrombamentos podem machucar. E machucados nem sempre são fáceis de serem cicatrizados.

Teodoro e Sebastiana eram pessoas que viveram muito e que foram aprendendo, com o tempo, a colocar a chave certa, do jeito certo, e ver a porta se abrindo. Devem, naturalmente, ter errado muitas vezes. Os erros foram importantes para que percebessem a forma e o jeito certo de abrir a porta. O tempo deu a eles a sabedoria. O cuidado. A necessidade de se sentirem úteis abrindo portas. Quem sabe abrir também sabe fechar. Portas precisam ser fechadas. Ciclos vão se encerrando. A maturidade exige de nós outros posicionamentos. Quando escolhemos passar por uma porta, entramos em um novo cômodo e deixamos outro. Escolhas não são fáceis. Mas vivemos delas. Do que comemos à profissão que abraçamos. Do “sim” ou do “não” a um filho ao “sim” ou ao “não” aos nossos desejos. Teimosias atrapalham as nossas escolhas. Insistimos no erro da chave que não abre e desperdiçamos tempos preciosos. Passamos rapidamente de uma chave à outra sem saber, com certeza, se a que abandonamos não era a certa. E também desperdiçamos, porque o erro não estava na chave e, talvez ,demoremos para descobrir que o erro estava no nosso jeito.

Há muitos açodamentos. E a vida exige perícia, cautela, cuidado. Principalmente, quando lidamos com pessoas. Há muitos que dependem de nós e que esperam que estejamos com a chave certa e que a usemos do jeito certo para que uma nova porta se abra. E, com ela, um outro lugar. Um lugar desejado.

Um dia desses, um jovem, ao final de uma palestra, me disse que não suportava mais o seu trabalho. Mas que isso já havia se passado nos outros dois que ele havia abandonado. Fiquei apenas olhando. E ele prosseguiu tentando encontrar uma resposta se o erro estava no trabalho ou nele mesmo. Quando se tem dúvida já é uma possibilidade de acerto. Quem percebe a chave não abrindo e tem dúvida não abandona na primeira vez. Nem insisti em demasia com a mesma. O erro é da chave ou do meu jeito de abrir? O erro é do lugar em que estou ou é meu, de estar insatisfeito em qualquer espaço. Sabedoria não é privilégio apenas dos que vivem muito, mas é dom dos que querem abrir portas e encontrar o lugar correto.

Espero que o homem com o molho de chaves tenha a vontade de experimentar uma outra.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 06/08/2017

Tempo de brincar

Li a reportagem sobre a reabertura do Hopi Hari. Fiquei feliz em saber que há espaço para matérias sobre parques e sobre brinquedos.

Longe de mim achar que temos de fechar os olhos para as graves crises que nos assolam. Precisamos de informações corretas e de opiniões edificantes. Precisamos de consciência política e de atitude corajosa frente aos erros tantos que maculam a imagem do nosso pais e a esperança que vive acanhada dentro de nós. Mas precisamos, também, de parques e de brinquedos. Precisamos de alegria. A alegria é um bom combustível para a inteligência. A criatividade que brota nas brincadeiras se estende nas várias formas de convivência e de solução de problemas.

Parques de diversão são um convite ao estar junto, ao rir, ao sentir e vencer o medo, ao se emocionar. É bonito de se ver os olhos ávidos de crianças que se lançam em cada atração. E de adultos que se permitem revisitar os melhores sentimentos da criança.

Já fui a muitos parques de diversão. Alguns pequenos, na minha cidade do interior. Ficava vendo a montagem do parque que funcionaria apenas durante a trezena de Santo Antônio, o Santo Padroeiro da cidade. E brincava o quanto podia. E, depois, via tudo sendo desmontado. A alegria partia um pouco e um pouco permanecia. Afinal, temos o humano poder da lembrança.

Menino ainda, fui a excursões nos parques de diversão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os dois, aliás, Playcenter e Tivoli Parque da Lagoa, já não existem mais. Mas me lembro das façanhas, dos medos, do correr cúmplice na chegada aos brinquedos, dos lanches, da ansiedade na ida e do cansaço da volta – éramos promessa, o tempo ainda não nos mostrava a sua face, a sua pressa.

Tínhamos pressa em brincar. Em rir. Em nos soltarmos da realidade para viver a fantasia desses mundos encantados. A volta para casa era cheia de relatos corajosos. Enfrentamos as montanhas russas mais íngremes, entramos na casa dos monstros, no rio cheio de ondas, nos gigantes aparelhos. Sem pestanejar. E falávamos aos nossos pais que vibravam com a nossa alegria.

Fico perplexo em ver a pouca disposição de alguns pais de ouvir os relatos dos filhos. Preocupam-se quando se trata de assunto preocupante como uma doença, mas, quando se trata de ouvir sobre brincadeiras, parece desnecessário. Não é. Cada relato de um filho compõe sua trajetória. E tão importante quanto o conteúdo a ser dito é o som da voz e o encontro do ouvir e o olhar de atenção e o partilhar de vidas que se dão em todo lugar, mas que, na família, precisa ser ainda mais cuidado.

Meu pai ficava em sua cadeira de balanços enquanto eu contava o que havia feito o parque. Do parque, passei a contar tudo o que fazia na vida. Erros e acertos. O que foi um aprendizado para mim. Soube, desde cedo, que não precisava mentir para ser amado. Meu pai me amava não pelas minhas notas altas, não pelas minhas façanhas de super-herói, mas por ser seu filho.

E um gigante parque reabre. Que boa notícia. Quero ir para lembrar o ontem e para viver, na minha idade, a idade que nunca morre quando prestamos atenção. É bom ser novamente criança. É bom deixar as rugas penduradas em algum canto das nossas preocupações e rir o riso livre, solto, generoso. E usar uma outra linguagem. E se permitir as lembranças que alimentam. Há tantas que desnutrem. Comer com os filhos. Abraçá-los. Aliviar os seus medos. Ter medos com eles. Enfrentar o que há por vir. E prestar atenção ao pôr do sol em um parque de diversões. Deixar a roda gigante substituir os gigantes problemas. Por um dia. Quem sabe esse dia tenha um poder milagroso.

Há parques em todos os lados. E, em todos os lados, é possível brincar. Nada contra os jogos tecnológicos, mas precisam as crianças das brincadeiras com gente. Das emoções que as gentes proporcionam.

Dias atrás, fiquei com três lindas crianças toda uma tarde. Contando histórias. Brincando de finais tristes ou felizes. Aqueles olhares ainda estão em mim. Saudade é uma palavra que tem destaque especial no meu dicionário. Saudade do meu pai. Dos parques da minha infância. Daquelas três crianças me pedindo para que eu repetisse, mais uma vez, a mesma história.

Precisamos de informações e de opiniões corretas, mas precisamos de sorrisos. E de brincar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 16/07/2017

Olhares de amor

Era um almoço em um dia comum. Dias comuns se sucedem e nos surpreendem quando permitimos. Sentei-me em uma cadeira confortável junto a uma mesa com alimentos preparados com muito cuidado.

Eles gostam de cuidar. Gostam de receber amigos. Gostam de palavras que unem. Estão unidos há 40 anos.

Carlos teve uma indisposição no dia anterior. Comeu alguns doces que não lhe caíram bem. Tomou algum medicamento e sentou-se para almoçar algo leve.

Beth sabia disso. Beth sabe de tudo o que se passa com o seu amor. Trabalham juntos. Sonham juntos. Vivem juntos uma juventude que desafia o tempo. Ah, eram muito jovens quando se viram pela primeira vez. Nem imaginavam o quanto seriam capazes de construir.

Carlos coloca pouca comida em seu prato. Beth presta atenção. Insiste que coma um pouco mais, mas que prefira o que é mais saudável. Para que melhore. Para que fique bem o quanto antes. Carlos parece estar distraído com a conversa. Ela insiste. Eles se olham. E foi aí que nasceu este artigo. Os olhares se cruzam, olhares de amor. Um amor que cuida, que se preocupa, que compreende que a vida de um e de outro ganha mais significado por estarem juntos.

Conheço outros casais assim. É difícil imaginar um sem o outro. Os tempos das labaredas da paixão dão lugar a uma brisa gostosa do amor. Do amor que respeita. Do amor que compreende. Do amor que se doa.

Não há amor onde não há entrega. Os que se fecham em si mesmos, os que se trancafiam em seus desejos, os que se imaginam o centro de tudo, esses se perdem nos egoísmos comuns dos que não amam. Os que assim agem, quando estão casados, exigem a renúncia do outro, querem o que não dão, acham-se – de alguma maneira – mais merecedores da realização pessoal do que o outro. Podem, inclusive, estar juntos há muitos anos. Mas, perdoe-me, sem amor.

Há histórias de violência e de acomodação. Há histórias de desrespeito e de humilhação. Vidas desperdiçadas. Piadas incômodas. Ditos mal escolhidos. Lembro-me de um marido dizendo, em tom de galhofa, que trocaria a mulher de 50 por duas de 25, que custariam menos e dariam mais prazer. Os filhos à mesa observavam os gestos do pai. Machismos colocam as mulheres como objetos. E não falo do ontem, mas do hoje. Cenas que se sucedem como uma sina triste de incompreensão de uma verdadeira história a dois.

Carlos diz a Beth que está melhor, que ela fique tranquila. Ela sorri. Ele prossegue dizendo: “Minha mulher é linda, não é?”. Eu aceno com a cabeça concordando. Beth diz alguma coisa que está mal arrumada, que trabalhou a manhã toda. E olha novamente para o seu amor. E ele me olha dizendo que é um homem de sorte, em um mundo tão grande, encontrar sua Beth, é bom demais.

Beth é mais tímida do que Carlos. Pega em sua mão. Agradece sorrindo. Ele pede licença e vai pegar alguma coisa. Ela começa a elogiá-lo, a dizer o quanto ele faz para ajudar as pessoas, o quanto ele se desdobra para que todo mundo esteja feliz. Reclama de alguns que não são corretos. Conta uma e outra história. Ele volta. Senta-se novamente. Pega a mãe de sua mulher e beija com carinho. E se olham. E me conta dos anos em que estão juntos. Já me falaram sobre isso outras vezes. Mas é sempre muito bom ouvir. E ver a sinceridade do enredo. As palavras bem colocadas nascidas dos sentimentos.

Chega a sobremesa. Eu lamento que o almoço esteja terminando. Era um dia comum feito extraordinário com aquele amor. Conversamos um pouco mais sobre a vida. Sobre os tempos difíceis que estamos vivendo. Sobre a necessidade de estarmos mais próximos. De nos aquecermos com os nossos afetos.

Chega o café bem quente. E eu conto, a eles, uma história que vivi com uma escritora. Perguntou-me ela se eu gostava de café. Eu disse que “sim”. Ela aumentou o entusiasmo para dizer que gostava muito. E respirou fundo dizendo que já sentia o cheiro. Que já estavam trazendo. Quando chegou o café, ela prosseguiu em seu prazer simples. E confidenciou-me que gostava, também, de mexer o café com o dedo, “esquenta o dedo da gente”.

Carlos e Beth riram, olharam para as suas xícaras, mas não quiseram experimentar a quentura do café no dedo. Preferiram continuar com o prazer do olhar, do sorrir e do me receber ali naquele recanto encantado de um dia comum.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 09/07/2017

A verdade e as suas delicadezas

Paulo é um dos milhões de desempregados que vivem a cotidiana angústia da procura e da espera. Sai cedo. Banho tomado. Cabelo arrumado. Barba feita. Faz as entrevistas que consegue. Fala com algumas pessoas. Envia currículos. Pesquisa aqui e ali.

Paulo decidiu não ficar parado. Conhece alguns que apenas aguardam que a sorte os empurre para outra oportunidade. Conhece outros que despencam em balcão de bar em busca de uma sensação melhor que os alivie da triste realidade. E outros ainda que vivem a ilusão de que tem os mesmos recursos de outros tempos.

Paulo tem dois filhos. Um tem 9 anos e o outro acabou de nascer. Sua mulher ainda goza da licença-maternidade. O que ela ganha mal garante o alimento da casa. Paulo nunca foi perdulário. Sempre guardou algum dinheiro para a eventualidade de dias difíceis. Os dias difíceis de Paulo foram virando semanas e meses. Os recursos findando. As esperanças lutando contra os tantos nãos que se multiplicaram.

É triste voltar para casa e encontrar o Júnior, seu filho, perguntando: “Então, papai, arrumou alguma coisa”. Como Paulo gostaria de dizer que ´sim´. De abraçar o filho com todo o entusiasmo do mundo e dizer ´sim´. E de sorrir um sorriso demorado. E de brincar de felicidade novamente. Mas esse dia ainda não chegou.

A mulher o incentiva. Há amor na casa de Paulo e de Valéria. Júnior está na escola. Paulo conseguiu algum desconto e alguma dilação de prazo de dívidas acumuladas. O filho quer muito continuar na mesma escola. Foi quando se deu esse diálogo:

“Pai, vai ter a viagem da escola para Foz de Iguaçu. Dizem que é muito lindo, pai. Eu quero muito ir. Toda a minha turma vai. Eu quero ir, pai. Por favor. Por favor”.

Foi um dia difícil. Havia uma possibilidade em uma boa indústria que estava contratando. Ele fez mais de uma entrevista. Animou-se. Teve a certeza de que daria certo. Não deu. A resposta veio exatamente no dia em que o filho falava da excursão.

Como seria bom dizer que ´sim´. Como seria bom compartilhar a efusividade do filho. “Claro, meu filho. As Cataras do Iguaçu são lindas. Você merece. Você é um filho maravilhoso. Um filho amado”. Não. Não podia dizer isso. Não teria como pagar. Já estava devendo a escola. Já havia vendido o carro. Já comiam com menos fartura. Já reduziram o plano de saúde.

A mãe estava na sala amamentando Leandro, o segundo filho. Ela olhou para o marido. Abaixou a cabeça. Escondeu alguma expressão de tristeza e se concentrou no que estava fazendo. Paulo pediu ao filho que se sentasse mais perto. Deu um sorriso lindo. Disse que faria qualquer coisa para fazê-lo feliz. Que o amava muito. O filho começou a pular de alegria. Pressentia o ´sim´. Paulo pediu que ele se acalmasse. E, delicadamente, prosseguiu: “Filho, tenho que ser verdadeiro com você. Você merece essa viagem. Mas eu não tenho dinheiro para pagar. Gostaria de ter. Mas não tenho. Não sei quando vou arrumar um outro emprego”. Júnior insistiu um pouco, argumentando que todos os seus colegas iam. O que ele iria dizer para se justificar? O pai prosseguiu: “A verdade, filho, a verdade”. O filho ficou olhando: “Diga que seu pai perdeu o emprego, que está buscando outro e que, nesses tempos difíceis, não dá para gastar o que não se tem”. Paulo abraçou o filho. Choraram juntos. Paulo não estava chorando apenas pela excursão. Aproveitou para chorar as tantas negativas. Os que o abandonaram. Os ventos amargos das portas que se fecharam.

“Filho, eu tenho uma ideia. Durante os dias em que eles estiverem viajando, vamos ficar mais juntos. Vamos pesquisar histórias bem legais. Sua mãe e eu vamos contar para você. E vamos ter paciência. As coisas vão melhorar. E nós iremos juntos para muitas viagens”. E contou do avô de Júnior. De tempos também difíceis e de como foi importante ter um pai que sempre falou a verdade. Lembrou-se de outros que buscavam aparentar o que não tinham. De um que dava tudo ao filho, que queria a aparência de riqueza e que acabaram todos sem nada. Na simplicidade, Paulo aprendeu com o pai o que era essencial. E o essencial tentava passar ao filho.

A mãe terminou de amamentar e olhou para os seus homens. Sorriu. Orgulhosa. Feliz pela escolha que teve. As tempestades independem dos marinheiros. Mas bons marinheiros conduzem as embarcações com muito mais segurança. Leandro ainda não entendia o que se passava, mas se entregava em confiança depois do peito generoso. E sorria prenunciando dias bons para aquela família.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 25/06/2017

A despedida do meu filho

Era um velório. Um velório de um jovem. De um jovem negro. Numa região pobre de uma grande cidade.

O mapa da violência no Brasil é estarrecedor. Desperdiçamos vidas. O número de mortos é superior a regiões de guerra. Entre 2011 e 2015, a sangrenta batalha na Síria levou 256.124 vidas. No Brasil, no mesmo período, a sangrenta batalha do dia a dia levou 278.839 vidas. 1 pessoa é assassinada no Brasil a cada 9 minutos. São 160 mortos por dia.

Era o velório do filho de Aurora. Aurora é um lindo nome. Significa amanhecer. Mas o amanhecer daquele dia foi doloroso. Tão doloroso quanto o amanhecer de tantas mães que veem seus filhos prematuramente partindo.

Aurora é professora. Paulo era o seu único filho. Aurora teve uma vida sofrida. Não conheceu o pai. A mãe, entre bebidas e lucidez, criou-a com algum cuidado. Com o que conseguiu. Ela teve garra. Ousou enfrentar o destino e se destinou a uma vida melhor. Estudou com afinco. Mulher, negra, pobre, a salvação estava no livro. Decidiu ela. Formou-se professora. Professa todos os dias a crença de que há de salvar, do fim antecipado, os seus alunos. Entristece-se quando vai ao cemitério do seu bairro. Quando lê nas lápides dos túmulos a data de nascimento e a de falecimento dos que ali foram deixados. Jovens.

Aurora sempre teve a consciência de que não se combate violência com violência. Mas com inteligência. Não acredita em fórmulas mágicas, em promessas de políticos inconsistentes. Acredita no trabalho. E no amor. É com amor que ela vai todos os dias para a sua escola e olha para aqueles moços cheios de certeza de que ela pode fazer a diferença em suas vidas.

Mas, hoje, Aurora está triste. O filho foi vítima de uma das tantas balas perdidas que encontram pessoas. E lá está em um caixão o filho de Aurora.

Ele sonhava ser engenheiro. Sempre gostou de matemática. Gostava de ver as construções. Dizia que gostaria de construir casas populares. Casas para quem não tem. Para quem sonha. Era um sonhador o filho de Aurora.

A mãe olha para o filho e nem tenta entender. Apenas sentir. Aperta o peito com as mãos. Chora silenciosamente. Pensa no depois. Na casa vazia. Nos livros com as anotações dos estudos. Nas fotos. No quarto com suas lembranças. Nas promessas de que seria ele a cuidar dela quando ela envelhecesse. Na injusta vida que inverteu a ordem de tudo. Quem é responsável por essa dor? Não. Ela não está pensando apenas no que disparou o tiro. Está pensando em todos que fazem isso. Está pensando nas mães dos outros que, naquele dia, também estão chorando. O que o homem está fazendo com o homem? O que a humanidade está fazendo com a humanidade. Como se combater o foco que gera a violência?

Ensina ela literatura. Gosta de falar das personagens que amam e que sofrem. Explica que a literatura é a história dos sentimentos. E que os sentimentos, geralmente, são bons. Que há muitos que sofrem por uma fotografia no passado. E o passado é filme e não fotografia.

Quando se olha o todo, há mais para celebrar do que para lamentar. Mas e agora? A foto diante do caixão vai transformar o filme da sua vida? Como voltar a sorrir? Como sair de casa normalmente e ir trabalhar? Como voltar depois? Como esperar os fins de semana com algum bom programa com o filho? É dor doída demais.

Aurora é guerreira. A tristeza não será fácil de ser superada. Mas haverá outros amanheceres. Outras famílias precisando de quem não desista. De exemplos de superação. De dedicação.

Amanhã, será um outro dia triste para Aurora. Para outras mães. Para outras famílias. A guerra continua. A violência desafiando os que sonham com a paz. Com a paz no mundo. Com a paz nas mentes. Inclusive daqueles que não pegam em arma, mas se armam para odiar.

Amanhã, será um outro dia para Aurora se lembrar, chorar e levantar. Em decisão de melhorar o mundo. É isso que ela pensa. O seu filho se foi. Os filhos dos outros ainda precisam dela.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 11/06/2017

A vida de nós dois

Ela estava chegando. Eles estavam chegando. Foi o que ele me disse.

Ela é a mulher. Eles, a mulher e o filho que vai se formando dia a dia dentro dela.

Ele, o que me disse, é o pai. Um pai feliz.

Estão juntos há alguns anos. Ela já tem uma filha, fruto de uma outra história. Ele a cria, como se filha fosse. São felizes os três. E os gatos que vivem no apartamento deles. E, depois de muitos anos, vem ela com a notícia de que terão um filho.

A mãe dele já começou a costurar o que haverá de agasalhar o menino. Sim, já sabem que é um menino. Ele, que é flamenguista, está grávido das histórias que haverão de viver juntos. Dos jogos de futebol. Das corridas na praia. Dos passeios em família. Fala com os olhos acompanhando a voz. Fala da mulher que está chegando e me diz, com romantismos aos montes, que ela é linda, muito linda. Ela chega e nos cumprimenta. Disse que engordou muito. Ele sorri. Fica quase sem texto de tanta paixão. Não sei se é invenção minha, mas percebi os seus olhos marejados. Ela disse quanto engordou. Disse que não estava enjoando mais. Disse que a filha é quem havia decidido o nome do irmão. José Pedro. Disse que passou alguns dias em repouso. Ela foi dizendo e dizendo. E ele, com aqueles olhos, fitando a amada. Grávidos os dois, certamente. Ela voltou a falar em gordura. Foi quando ele protestou com delicadeza. Confessou ali que ela era a mulher mais linda do mundo. E que “a vida de nós dois” estava fazendo dos dois o casal mais feliz do mundo. Ela sorriu. Ele abaixou e acariciou a barriga. Conversou com o filho. Teve a certeza de que ele estava ouvindo. Ela acariciou o cabelo do marido, enquanto olhava para baixo e contemplava a conversa entre seus dois amores. Explicou que agora serão quatro. E mais os gatos.

Disse ele que tiveram tempos difíceis. A crise financeira é grave. Contas não esperam a maré baixar. Desânimos de negócios que não se concretizam. “Mas tudo mudou”, explicou o pai. Para nós. Para os meus pais. “Você não sabe quanto estamos trabalhando a mais”, falou ele. “Quanto queremos melhorar este mundo para esse menino que está chegando”. Abraçaram-se os dois. Beijaram-se com delicadeza. Ela se foi. E ele continuou falando de suas histórias.

Fiquei ouvindo. Fiquei comungando daquele sagrado enlace. Fiquei sonhando com que outras histórias pudessem ser assim.

As vidas em formação no ventre de uma mulher sentem as ausências e as ternuras, a violência e os beijos, os gritos e as palavras de boas-vindas. As mulheres grávidas vivem as carências naturais de um corpo em transformação. Mas quando encontram companheirismo, permanência, amor, as carências compreendem que há algo mais profundo pedindo para nascer. Monteiro Lobato, em determinado momento da vida, cansado dos cansaços provocados pela perversidade dos homens, resolveu escrever para as crianças.

Os homens agridem, insultam, mentem, violentam a própria essência. O que os leva a isso? O que os leva a dessacralizar o sagrado sentimento do amor? Mulheres grávidas também são espancadas ou esquecidas. Crianças recebem os ódios dos adultos. Desperdiçam os adultos a suavidade de um beijo em uma barriga que cresce e cresce, com uma vida que trará a outras vidas, vida. É do poeta indiano Tagore a mensagem de que “cada criança que nasce nos traz a mensagem de que Deus não perdeu a esperança nos homens”.

Despedimo-nos. Ele ainda teve tempo de dizer que faria, naquela noite, uma surpresa para sua mulher. Surpreendemo-nos com essas histórias, recheadas de humanidade. É isso o que somos. A perversidade não faz parte de nós. Chega por alguma razão. Fica. E espanta o que de fato somos.

Qual o surpresa que ele fará para sua mulher? Pouco importa. O que importa é o sorriso nos olhos, quando ele diz isso, e pensa que a noite será deles.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 04/06/2017

Na simplicidade, Deus

Seu João vive no interior. E gosta de viver no interior. Não conhece as grandes cidades. Mas não sente falta. Gosta do lugar em que nasceu. Das montanhas que protegem seu vale. Dos riachos. Dos cantos que inauguram seus amanheceres. Identifica os pássaros. Os de canto curto. Os de canto prolongado. Os mais barulhentos. Os mais afinados. E não se incomoda com os galos madrugadores.

Gosta do mexer sem pressa a xícara de café, enquanto olha pela janela. A paisagem é sempre a mesma. Nunca é a mesma. Nos dias frios, aconchega-se em um velho cobertor de lã. Velho, mas valioso. Para ele. Pelos dias que foram aquecidos. Pela mulher que já partira.

Doente. Valente. Morreu Adélia no inverno. Fazia frio quando o sino da cidadezinha chorou as badaladas tristes. Os amigos foram. O padre lembrou as caridades que Adélia fazia. Era cantora, também. Cantora de Igreja. Afinadíssima como alguns passarinhos, na opinião de João. Por que morrera antes dele? Porque é assim. Preferiria que partissem juntos. Mas não dependeu dele. O que dependeu ele fez. Amou. Cuidou. Tomou os cafés sem pressa reparando na sua mulher. Que era sempre a mesma. Que era sempre diferente.

Conheceu Adélia ainda menina. Gostou do nome e do jeito. Tímida. Recatada. Ensaiou alguma aproximação. Foi feliz. Foram felizes. Os dias que viveram juntos anteciparam o que acredita João ser o Céu. Amor em abundância. O pouco que tinham, dividiam. Nada de trancafiamentos. Nada de mesquinharias. Nem nos sentimentos. Nem nas posses. Poucas posses tinham os dois. Não tiveram filhos. Tiveram momentos regados por dizeres e pausas. Juntos.

Seu João lembra da amada todos os dias. Sem as dores dos primeiros dias sem ela. Lembra até com alguma alegria. Das coisas engraçadas. Dos erros que cometeram. Dos acanhamentos. Em dias de festa, quando havia gente de fora da cidade, Adélia tinha vergonha de cantar na Igreja. João sabia disso e, por isso, ficava mais junto dela.

Há crianças na rua em que Seu João mora. Ele é aposentado. Tem tempo para contar histórias. E gosta de fazê-lo. No passado, trabalhou na estrada de ferro. Gosta de falar sobre o trajeto dos trens. Sobre a época em que havia passageiros. Sobre as mulheres que chegavam com vestido gordo e chapéu elegante. Sobre os homens que achavam a cidade muito pequena.

Conta histórias que contaram para ele. Sempre dá um jeito de falar de Adélia, da cantora que canta no Céu. Foi quando Felipe quis saber onde ficava o Céu. Seu João olhou para o alto. Abaixou o olhar. Colocou a mão no coração. Apertou. Fechou os olhos. Abriu os olhos. Respirou profundo. Deu um sorriso. E respondeu: “Quem sabe?”. Sorriu novamente e certificou: “Que existe, existe”.

Leninha pediu outra história. Felipe insistiu nos questionamentos: “E Deus?”. “O que é que tem”?, devolveu Seu João. “Onde mora Deus?”

Seu João aproveitou a pergunta e perguntou para as crianças. Cada uma respondeu o que quis. “No Céu”, “Em todo lugar”, “Na Igreja”, “No coração da gente”. E a cena seguia naquele interior. Seu João sorria e agradecia por viver ali. Pensava ele, consigo mesmo, numa frase que alguém um dia falou: “Na simplicidade, Deus”.

Contou a história, para aquelas crianças, de uma mulher que chegou à estação e não sabia para onde ir. Bonita, mas sem destino. E, na estação, encontrou um homem meio desanimado da vida. Alguma nuvem se apressou e o sol pôde iluminá-los. E, juntos, mudaram um ao outro. E foram felizes. O amor faz essas gracinhas.

Levantou-se e foi até a velha cozinha. Tirou a tampa de um pote de vidro alto e retirou os biscoitos de polvilho. Ajeitou tudo em uma tigela e levou para as crianças. Sentou-se novamente e foi servindo uma a uma. Esqueceu-se do suco. Disse que já pegaria. Enquanto mordia aquele biscoito, fechava os olhos e se lembrava do quanto era boa a vida.

Felipe se ofereceu para pegar o suco. Ele agradeceu. As crianças queriam mais histórias. Ele queria contá-las. Vez ou outra, ele se interrompia para explicar o pio de algum passarinho. O entardecer já chegava. Foi quando Seu João pediu algum silêncio para que vissem juntos mais um pôr do sol. Enquanto via, ele pensava nas perguntas. “Onde fica o Céu?”. “Onde mora Deus?”.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 28/05/2017