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Um dia bom

“Que dia é hoje?” – perguntou Eliane para sua nora. “Dia 17”. Eliane deu um sorriso. O sorriso de Eliane sempre foi muito bonito. “Dia 17”, repetiu ela e prosseguiu: “Um dia bom para morrer”.

Eliane lutava contra um câncer há algum tempo. O marido se foi assim. Vencido pela doença. Ela sabia que os dias por aqui estavam terminando. Mas continuou brindando a vida. Pediu ao filho uma viagem de navio. Lá foram eles e a cadeira de rodas, e as dores e o sorriso de Eliane. Pediu para sair do hospital para comprar um presente especial para a única neta. Sabia que não a veria crescer. E comprou uma jóia, um colar com um coração.

Eliane, no hospital, pediu à nora que ligasse para algumas amigas. Com as poucas forças que restavam, agradeceu uma a uma. E se despediu. Esperou os filhos chegarem. E, também, o único irmão. E sorrindo agradeceu. Depois adormeceu.

O dia estava realmente lindo. O sol aquecia a terra sem preguiça. A família, naquela cama de hospital, e a despedida. Os dois filhos de mãos dadas com a mãe. Cada um viajava pelo passado. Conversaram um pouco. Ela ainda respondia. Falaram de comida, de viagem. Brincaram lembrando estripulias de um e do outro. Ela os olhava com orgulho. Mãe é mãe.

O sorriso de Eliane continuará a existir na memória deles. Mas existirá muito mais lindamente no que não conseguimos compreender. O Colo do Pai é infinito. E amoroso.

Depois do hospital, a nora foi explicar à filha pequena que a vovó havia partido para ficar no Céu junto com o vovô. Foi dizendo com os cuidados necessários. Com a ajuda dos filhos de Eliane. A menina, Mariana, com a sabedoria dos seus 4 anos, não demorou a responder. “Entendi. Agora ela foi viver mais perto de Deus”. Disse e saiu correndo para o quarto. Pensaram que ela fosse chorar. Não. Foi pegar o colar, presente da avó, o que tem o coração. Aquele que ela foi comprar, usando uma peruca e sentada em uma cadeira de rodas, enganando a dor com seu sorriso.

A criança, Mariana, talvez compreenda o que muitos adultos esquecem. Sobre o colo de Deus. Sobre a vida que não se encerra por aqui. Sobre o sorriso que fica ainda mais lindo quando compreende, enfim, que a vida é mais forte do que a morte.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 21/01/2018

Cacos de Vidro

Ao longe, Talita viu um brilho diferente vindo do chão. Do mesmo chão que sustentava o engatinhar de seu primeiro filho, André. Olhou, novamente, e, de pronto, levantou-se. O menino já estava se aproximando do que brilhava.

“Cacos de vidro, são cacos de vidro!”, disse e repetiu Talita para Vinicius, seu esposo.

“O que foi, meu amor?”, perguntou ele da cozinha.

“Cacos de vidro. Ele podia ter se cortado. É muito perigoso!”.

A mãe de Talita estava com o marido na cozinha. Ouviu a gritaria e veio acudir.

“Mãe, alguém quebrou alguma coisa aqui. Imagine o André todo machucado, todo cortado. Imagine se ele tivesse colocado na boca, se estivesse engolido”.

“Calma, minha filha, não aconteceu nada! Você conseguiu protegê-lo”.

“É, mas há alguém descuidado nesta casa”.

A mãe de Talita pegou o neto no colo e começou a brincar com ele. “André, na sua vida, muitos cacos de vidro estarão no seu caminho. Nem sempre sua mãe estará por perto. Algumas vezes você poderá se cortar”. “Não diga isso, mãe, vai traumatizar o meu filho!”.

A avó continuou a brincadeira. Teve ela quatro filhos, Também se assustou com as primeiras quedas. Também se agitou querendo estancar cada dor. Mas, aos poucos, foi compreendendo que os cacos de vidro se multiplicam com o passar dos tempos. Há algumas vacinas para dores mais agudas. Há ensinamentos que nos trazem precaução, proteção e ação. Isto porque mesmo os precavidos e protegidos se cortam. E, cortados, precisam agir. Ou isso ou o sangue jorrado ganhará gosto, e uma vida será esvaziada. Ou isso ou a entrega pálida diante da primeira dor. De qualquer dor.

A mãe de Talita, avó de André, quis aproveitar a ocasião para trazer algum frescor em vidas ainda frescas. É bom ver pais se preocupando com filhos. É bom que se debrucem sobre o que faz bem e sobre o que faz mal. É esta a arte da educação, ensinar desde cedo a gostar das coisas corretas e a desgostar do que é errado. E, além disso, despertar o indispensável sentimento da bravura. Não da rabugice. Não da violência. A bravura que desenha na mente dos Andrés a necessidade de ficar em pé e de, se cortado, prosseguir, sem se entregar ao sangue ou à dor.

A mãe de Talita acompanhou as dores dos seus filhos. Com eles, falou muitas vezes sobre dignidade, sobre amor próprio, sobre confiança nos dias que se seguem, Cortes, tiveram eles. De amores não realizados, de trabalhos equivocados, de amizades interesseiras. Cortes, tiveram eles de dores que pessoas causam em pessoas. Mas resistiram bravamente. O pai morreu cedo. Doença apressada. Doença insensível que não respeita a harmonia de uma família. Choraram juntos. Cortaram-se nesses cacos que o destino permite. No vidro da casa, viam os dias de chuva e se lembravam do que não tinham mais.

André, o primeiro neto. Nome do avô. Uma homenagem de Talita. Os filhos foram se ajeitando na vida, cumprindo cada um o chamar da vocação. De obstáculos em obstáculos, foram mesclando dias de proteção com dias de malabaristas. A mãe nem sempre pode estar por perto. Mas seus hábitos os habituaram a prosseguir. Era este o mantra: “Prossigamos. Caídos ou levantados, prossigamos. Cortados ou inteiros, prossigamos”. Cria ela no poder de cicatrização que o tempo oferecia. As dores de ontem, ela guardava em uma penteadeira ao lado do coração. Sim, porque, se ficassem todas no coração, não sobraria espaço para canções mais felizes.

Vinicius pega o filho no colo, sorri de gratidão por ser pai e cantarola uma cantiga que o seu pai cantarolava. Talita olha para o filho e o marido e chora. A mãe sorridente conclui: “Como é gostoso chorar de emoção”.

O sol atravessa a janela. É verão. E um novo ano ainda engatinha e avista cacos de vidro pelo caminho.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 07/01/2018

Gratidão

Gratidão ao ano que se despede.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as águas e suas espumas sobem até as areias e limpam e refrescam e anunciam que, em instantes, voltarão. É o mar e o seu ir-e-vir. É o mar e os seus trazidos, deixando e apagando marcas.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as montanhas percebem a chegada do novo. O sol vai se espreguiçando e ganhando forças. A luz do que esverdeia desenha a esperança que inspirará os novos poetas. Há animais que barulham aqui e acolá. Cada um fazendo o som que sabe.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as grandes cidades, que não dormiram, acordam. Há movimentos ininterruptos de gentes e de ruídos. Há luzes que se acendem e há luzes que se apagam como nos vagalumes lá no campo, como nos brilhos que se vê nos clarões de sol e mar.

Uma mãe ensina ao filho que é preciso agradecer. Diz isso com a responsabilidade de quem amansa os erráticos que estão por perto para ferir. Agradecer ao que recebeu de presente, agradecer à passagem que foi dada, agradecer ao alimento que faz crescer.

Um paciente, que teve uma mãe que o ensinou a agradecer, agradece ao médico o alívio da dor, o cuidado generoso, o conhecimento despejado como forma de ação. Ora um padre na Igreja. Fala da gratidão como um valor dos que sabem que a vida é dom, que dom é presente, que presente se recebe e se agradece e se cuida. Cuida da vida de tantos a professora que agradece aos alunos pelo privilégio da troca, dos encontros, dos crescimentos comuns. Ensinar a aprender é um dos ramos mais bonitos que brotam na árvore da vida.

Agradece o agricultor que faz dos seus dias um semear. O entregador de cartas que gasta dias e dias a procurar, a encontrar. O que coze os alimentos também agradece. Olha cada prato e imagina os que hão de estar satisfeitos. E quem come agradece. O comum e o diferente. O que vem sempre e o que surpreende. Surpreendidos, agradecem aqueles que em meio ao medo recebem um salvador de vidas. Nas águas ou nas estradas que assistem acidentes. Nas casas ou nos perigos que queimam.

Agradecem os que vendem aos que vêm para comprar e os que compram aos que têm para vender. Os que precisam ir agradecem aos condutores, os que precisam permanecer agradecem aos compreensivos. Agradece o que dedica a vida ao direito, pela compreensão de que a liberdade é mais nobre do que a vingança e de que o poder é um sopro para espantar as sujeiras e não para se enlamear de vaidades.

O pai que perde o filho agradece o tempo da convivência. O que não perde agradece o tempo da responsabilidade. Terá de acompanhá-lo nas trilhas necessárias do viver.

Agradece o atleta pela chegada ao topo. Agradece o topo pela visão do que se supera. As quedas também agradecem. Cicatrizes vão compondo o mapa da nossa alma. Lágrimas aliviam delicadamente os impulsos do sentir. Os olhos agradecem às pálpebras como as palpitações agradecem ao sono. Pausas são necessárias na vida e nas partituras. Agradece o músico pela elevação que proporciona a sua profissão. O mesmo faz o artista que diz textos e que abre portas.

Portas serão abertas no ano que está pronto para chegar. Agradecem os que enxergam com os olhos ou com a alma. Onde há mar ou montanha, onde há barulho de bichos ou de gente, onde há frio ou calor, é bom agradecer. O luar presencia todos esses movimentos. Tão diferentes e tão iguais. Histórias se repetem e se renovam. Sempre há, entretanto, novidade.

Ainda no meio dos festejos de mais um ano, uma criança estará nascendo. Uma porção de crianças. Totalmente diferentes. Com uma possibilidade comum, viver, agradecer. E, no mundo animal, há mães se mexendo para abrir o mundo aos seus filhotes. E flores desmaiando seu romantismo para que o dom de surpreender também mereça agradecimento.

Olhe, ali na esquina, 2018 está chegando. Agradeça por estar vivo e por poder começar tudo de novo.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 31/12/2017

O nascer da esperança

Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. É sempre assim. Depois do que se vive hoje, há um amanhã.

Um certo João explicou sobre ser uma voz que clamava no deserto. Naquele tempo. Nos tempos de hoje. O deserto das ausências. O egoísmo nos toma de assalto e fica. E é sobre nós e apenas sobre nós que nos debruçamos. O outro é apenas um dispensável a mais. O deserto das presenças erráticas. O outro me interessa quando interessa. Nada de amizades, mas de adulações e de descartes. Nada de amores, mas de expectativas. Nada de liberdade, mas de trancafiamentos.

O deserto de João se repete hoje. Mas, amanhã, é Natal. E o Menino vem novamente. Sem pretensões de imediatismos. A manjedoura é o coração humano. Metáfora dos sentimentos que nos acolhem. Pulsante coração. Capaz de irrigar desertos e afinar vozes para tempos mais plenos.

Sim, na plenitude dos tempos, nasceu o Menino. Assim está escrito nas Escrituras Sagradas. No tempo certo, para que os homens pudessem perceber os encontros e celebrar a permanência. O Menino nasceu e foi esperançar na carpintaria de José. Foi crescendo e fazendo crescer. Foi amando e ensinando a amar. Foi olhando e desconsertando os que se achavam consertados mesmo vivendo no deserto. Os pretensiosos sempre tiveram dificuldade de compreender a simplicidade do Menino.

O natal nos traz todos esses ingredientes. A fartura das mesas deveria vir depois. É de fartura de afetos que carecemos. De olhares que impeçam a invisibilidade, de ouvidos que espantem a surdez. Há gritos implorando por justiça, há gritos pedindo apenas atenção.

Desatentos, comemos e bebemos sem economia. E cobramos presentes. Presenças reais ficam para os que aprenderam a compreender, a sentir, a ver a estrela que continua a nos guiar para que saiamos do deserto.

Amanhã é Natal. Há os que viverão o passado, lamuriosos dos que se foram, olhando os álbuns de fotografias e percebendo os que faltam. Há os que se embriagarão, aproveitando os festejos. Há os que ficarão sem comer, porque não terão o que comer, porque é assim o mundo dos desertos. Mas por que foi mesmo que o Menino veio? Era preciso uma ponte que nos permitisse chegar à outra margem. Onde há água pura, onde há rodas de conversa, onde há crianças que brincam sem medo, onde há mulheres e homens construindo alicerces comuns, comunhão. No outro lado, a felicidade é permanência e não visitante apressada. No outro lado, o riso não é nervoso nem forçado. No outro lado, a primavera reina absoluta explicando que o nascimento de uma flor não é obra do acaso.

Todos são convidados, mesmo os que não acreditam muito. Há uma exigência apenas. O Menino não arromba corações. Chega com leveza naquele que quer experimentar o seu nascimento. Para isso, é preciso de limpeza. E de abertura. Corações abertos pulsam um mundo melhor. E é isso que quer o Menino.

Brincar de eternidade nos momentos que eternizamos enquanto estamos por aqui. Momentos simples. Limpos, porém. As sujeiras nos impedem de receber o Menino e nos impedem de ver a outra margem.

Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. Feliz Natal.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 24/10/2017

Melancolia

A melancolia é um estado da alma. Muito aberta essa definição? Há uma outra, de Victor Hugo, que diz que “a melancolia é a felicidade de estar triste”. A felicidade de estar triste? Como é possível? É possível.

A melancolia é amiga da memória. Estou falando de uma melancolia que vive na casa dos românticos, não da melancolia estudo dos psiquiatras e outros pesquisadores da depressão e da mente humana.

A melancolia do coração viaja para o ontem e se apega ao que passou. Gostaria, talvez, de recuperar o que já não tem. Não tem. Fazemos suposições. Imaginamos verdades. Corroemo-nos em brigas refletindo sobre nossas escolhas.

A vida poderia ter sido diferente, se tivéssemos regado outras plantas? Quem sabe? As que temos são trabalhosas, mas são nossas. As que imaginamos talvez nunca tenham sido. Na imaginação, as flores não têm espinhos. Na imaginação, os jardins não têm pragas.

O passado não acontecido pode nos enganar. Na linda história de amor entre Dante e Beatriz, o imaginado é mais forte do que o realizado. Penélope esperou durante anos e anos pela volta de Ulisses, o seu grande amor. Valeu a pena? O desfecho é sublime, mas é um mito, apenas.

Histórias reais são mais complexas. Mas os mitos têm uma finalidade. Certamente. A melancolia, também. Envoltos em sentimentos queremos entender os sentimentos do outro. Houve amor ou apenas empolgação? Houve amor ou era uma estranha teimosia que nos preenchia? Será mesmo necessário saber o que o outro sentia?

Desprezamos as evidências e nos lambuzamos de suposições. Vez em quando, faz bem esse revisitar. Até para prosseguir. Até para compreender que o passado já está incorporado e que o amor amado, correspondido ou não, já cumpriu sua finalidade.

Em uma palestra, um jovem me perguntou se eu acreditava em amor único. Eu quis entender a razão da pergunta. Ele logo explicou que, se existisse, seria uma injustiça. “Pois, se eu amo alguém que não me ama, estou fadado ao fracasso”. Certamente, ele estava amando e, certamente, a dor do amor estava ali. Amores jovens. Amores de todas as idades. Amores capazes de nos provar que estamos vivos.

Não respondi. Lancei outras perguntas e outras possibilidades. É preciso experimentar para compreender. Ou ao menos para sentir. Os sentimentos de amor ultrapassam as compreensões. O tempo tem o seu senhorio. Uma mulher que muito viveu falava do filho que não teve. Se tivesse experimentado a maternidade, a vida teria sido mais feliz? Quem sabe? Mães também perdem filhos. Mães também se entristecem com eles. Como seria o que não foi? Como saber? Não é possível voltar no tempo e escolher o que não se escolheu. Mas é possível voltar no tempo e celebrar o que se conquistou. Se conseguirmos esse feito, a melancolia vai partindo.

Os anos acumulados nos trouxeram momentos mágicos, não ver a felicidade nos enternecendo em dias calmos é negar à memória o direito de reconhecer. A melancolia se recolhe quando o futuro começa a exigir atenção. Não importa o tempo que ainda temos para viver. Certamente, outras escolhas nos desafiarão. Certamente, outros amores nos provarão que não há idade para entender o que Penélope entendeu ao tecer durante o dia e desfazer o seu tecido durante a noite para que sua coberta só estivesse pronta para um amor que merece toda a sua entrega. Existe amor único? Não sei. Só sei que essa vida é única e merece, entre melancolias e futuros, um presente de celebrações.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 17/12/2017

A valentia de Eduardo

Eduardo acabou de completar 7 anos. Com direito a festa, a música, a voluntários vestidos de personagens para entreter e dar alguma alegria ao menino.

Tudo em um hospital. Eduardo tem câncer e luta para reequilibrar o seu organismo e os seus pensamentos. A mãe, sempre presente, exerce a nobilíssima profissão de disfarçar a dor. Sorri o sorriso que encontra em algum esconderijo valente dentro dela e fala sobre o futuro como quem acredita nele. Acompanhados.

Há muitas crianças que conseguem vencer o embate e prosseguir. Eduardo tem um câncer mais agressivo. Não falam muito sobre isso. Não gastam tempo imaginando o tempo que resta. Apenas usufruir o tempo para viver, é isso o que combinaram sem precisar combinar.

Eduardo percebe as pausas da mãe. Por mais que uma cortina de esperança tente desfalcar a verdade, há algo que entra naquele quarto e que os põe a chorar. Algum dito mais carinhoso, algum incômodo na posição devido ao fato de o menino ficar deitado por muito tempo, alguma lembrança do que nunca aconteceu, não tiveram tempo para isso.

Dia desses, Eduardo soltou uma frase ao ser perguntado pela enfermeira se estava doendo, depois de tentativas tantas para encontrar uma veia na tão perfurada pele. Apesar da expressão dizer o contrário, ele foi enfático: “Os valentes suportam a dor”. E sorriu o que pôde. E respirou fundo suportando tudo. A mãe também sorriu. E se levantou. E saiu do quarto como quem pede um vento milagroso, um solavanco em um sono, talvez. Poderia ser tudo um sonho, pensa ela com ela mesma. “Poderia acordar e ver o meu filho correndo e brincando e caindo e se lambuzando de alegria. Poderia fazer as contas para as formaturas, as festas, os centímetros de acréscimo a altura de um corpo menino. Poderia ser tudo isso”.

Enquanto Fernanda, a mãe, chora no corredor, Eduardo explica para enfermeira: “Tenho que ser forte por causa dela, ela não está aguentando, coitada”. Alcançada a veia, a enfermeira o acaricia. Quantas histórias parecidas ela presencia! Quantas orações ela faz pedindo a cura, pedindo o direito de ampliação da jornada de vidas que começaram a desabrochar. Lembra que ouviu alguma vez que as borboletas vivem apenas um dia. Não tem certeza. Mas não sabe por que vem essa imagem. As asas. O voo. O enfeitar. E o partir.

As crianças enfeitam a vida da enfermeira. E partem. Ela olha o menino que continua a falar sobre a mãe: “Ela precisa se cuidar, está muito fraquinha”. Eduardo está sem cabelos, a pele embranquecida, os olhos fundos, mas há algo que o faz, de fato, valente. Gosta de ouvir histórias e, quando está bem, gosta de contá-las. A avó de Eduardo, que faleceu o ano passado. passava as noites contando histórias ao menino. Ele viajava com os cenários que imaginava, agarrava o que lhe davam para permanecer com as personagens nascidas na sonoridade daquela voz. O menino, já doente, deu forças à mãe: “A vovó foi para um lugar lindo, mamãe. Cheio de vida. Cheio de contadores de histórias. Para onde, um dia, iremos também”.

Talvez não tarde para Eduardo partir, talvez algo mude, talvez ele corra as maratonas sonhadas pela mãe… quem sabe o certo sobre o amanhã? O que se sabe é que hoje o menino é um valente, enfrentando a dor e cuidando da mãe, que já perdeu tanto e que teme perder o que de mais valioso tem, seu único filho.

Em uma casa, perto do hospital, um casal briga na decisão de onde passar as festas do fim de ano. Cada um quer uma coisa. O barulho das vozes espanta o som bonito do amor. Criar problemas onde problemas não há é uma das especialidades dos humanos.

A mãe de Eduardo volta ao quarto, encontra o menino com os olhos fechados. Não sabe se está dormindo ou sonhando com as histórias que gosta de ouvir e de viver. O que sabe é que há algo bom no sorriso discreto daquele valente.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 03/12/2017

O relógio

“Sempre há um relógio”, foi a frase que Lucas ouviu quando visitara uma tia, que vivia em um asilo.

Lucas andava envolto em pensamentos pouco felizes. Vivia às turras com o tempo. Parece que a beleza ia se despedindo dia a dia. Sempre fora muito vaidoso. Corpo perfeito. Cabelos impecavelmente arranjados. Olhos pidonhos de reciprocidade. Era um sedutor o tal do Lucas. Bastava se interessar e ajustava o olhar e o exibir e o dizer galante na ânsia da conquista. Obtido o sucesso, vinha o cansaço. Era preciso novamente buscar outra presa. E, de sedução em sedução, o jovem ia usando seus dias. E as pessoas pelas quais se interessava.

Amores duradouros não o animavam. Relações sempre efêmeras. Ria quando um amigo dizia que ele era campeão de 100m. Prostrava-se, se necessário fosse, para envolver. Depois abria uma gaveta de dizeres prontos para justificar sua partida. Enganava. Mentia. Dizia “eu te amo” como quem diz “bom dia”. Um “bom dia” não causa danos; um “eu te amo” pode ser demolidor. Preocupava-se pouco com o outro e o seus sentimentos. Era sobre ele mesmo o seu repertório escolhido. Mesmo em conversas, preferia fitar-se em algum espelho. Sua imagem o agradava. Ou não. Havia tanta necessidade de conquistar, de seduzir, de se compreender belo que a beleza não parecia suficiente para o seu próprio contentamento.

“Sempre há um relógio”, dizia Eunice, a tia.

“Estou ouvindo o barulho”, concordava Lucas, olhando em um espelho e reparando no cabelo que já ia se rarefazendo.

“Você gosta de espelho, não é?”.

Lucas fingiu não ouvir a frase da tia.

“Eu também gostava”.

O silêncio entre eles deu espaço a pensamentos.

“Perdi a única coisa que eu tinha, a juventude”.

“Todos perderemos”. Concordou Lucas.

“Não. Há outras conquistas. Conquistas que permanecem. Vidas significativas. Ah, não me esforcei para construir nada”.

Lucas apenas pensava. Olhava para a tia. E olhava novamente para o espelho. Estava preocupado com os cabelos. E reparava que algumas rugas começavam a se engraçar.

“Pense nisso, Lucas. Você ainda tem tempo de ir além da sua beleza”. “Imagine, tia. Eu nunca fui bonito”, disse sem acreditar no que dizia e sabendo que ela também não acreditaria.

Sua vida de sedutor, de pescador errático de histórias que nada representariam, de dispensador de vidas, que depois de conquistadas passavam a ser invisíveis não o realizava.

Olhava para o irmão, cioso de sua escolha amorosa e profissional e o reprovava. Considerava-o fraco. Sempre com o mesmo amor. Rotina que ele não tolerava. Se se cansava de alguém, que culpa tinha? Que culpa tinha se as pessoas deixavam de ser interessantes? Que culpa tinha se outras histórias surgiam em seu caminho?

“Sempre há um relógio”, disse a tia mais uma vez. E seguiu explicando que o tempo não nos dá ouvidos. Que podemos pedir e até implorar para que nos deixe sorver com mais vagar nossa juventude. Um novo silêncio e novos pensamentos.

Perto do espelho que tanto recebia o olhar de Lucas, uma senhora lia, com olhos de entusiasmo, um romance. Vez ou outra trazia o livro ao peito e abraçava as suas memórias. Eunice a conhecia bem. Dona de uma sabedoria invejável, cultivava as belezas da alma. Era o outro a sua preocupação, o seu cuidado. Dos tempos das enfermarias, guardava lindas memórias. Conta como foi trabalhar em hospitais em regiões de guerra. Lembra de nomes e de despedidas. Uma vida intensa oferecida ao outro. Não tem o costume de se olhar no espelho, prefere ler livros ou prestar atenção às pessoas. O tictac do relógio não a incomoda. Sabe que ele está lá. Sempre estará, mas prefere apenas viver.

Lucas se despede da tia e nem repara na senhora ao lado. Tem um encontro logo depois. Faz um esforço para se lembrar do nome do novo amor. Mentalmente, vai dizendo alguns. Não. Esses já passaram.

Não tardaria para chegar o anoitecer.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 25/11/2017

A filha perfeita

A aluna pediu ao professor que revisasse sua prova. O professor o fez. Sentou-se com ela e foi explicando a razão de uma nota que não era, de fato, desprezível. Com os erros devidamente apontados, a menina, aluna universitária, olhos lacrimejantes, começou a manear a cabeça, reprovando a si mesma. O professor quis entender a razão daquela dor: “Oito é uma boa nota. E as notas são instrumentos que nos ajudam a perceber erros e acertos, evoluções. É um diagnóstico, apenas. O que houve? Por que essa angústia?”

A jovem sentiu confiança. Era a primeira prova daquele professor que ela admirava. Com a manga da blusa, enxugou os olhos. Claudicante nos termos, explicou sem explicar: “Meu pai”.

O professor esperou algum complemento. Depois de uma pausa mais prolongada do que o necessário, insistiu: “O que tem o seu pai?”

A menina olhou para algum lugar que, certamente, seria o lugar do desconforto e voltou a lacrimejar. O professor esperou. Não perguntaria mais. Era preciso respeitar os sigilos daquele sentimento.

Ela, entretanto, prosseguiu: “Meu pai diz a todo mundo que eu tiro 10 em todas as provas, foi sempre assim, ele vai ficar decepcionado”.

Ela parecia que queria desenhar mais detalhes daquela relação, mas o choro agora veio sem economias.

O professor aguardou, olhou-a com ternura matinal. Havia disposição e experiência para ajudá-la a encontrar-se naqueles desencontros comuns em relações comuns dentro de casa.” Quer que eu aumente sua nota para você ficar tranquila e poder exibir um 10 para o seu pai? Acha que isso será bom para você?”.

A menina surpreendeu-se com a oferta do professor. Ficou em conversa interna querendo pescar alguma resposta.

O professor prosseguiu: “Não acha que tenha chegado a hora de você ajudar o seu pai a perceber que erros e acertos nos compõem. Que você é maior do que as notas que tira?”

A menina soltou quase que um murmúrio: “Ele me julga perfeita”.

A conversa estendeu-se um pouco mais. Para agradar o pai, ela mentira muitas vezes. Desde sempre, ele a exibiu para os amigos. Dizia ela os poemas que decorava. Ensaiava fingir-se de doente para não ter que se expor a isso. Dizia o pai que ela era a melhor aluna da sala. Que nunca havia tirado nota diferente de 10. E, agora, ela chegara à universidade e como iria exibir algo diferente na primeira prova?

O professor tentava imaginar aquele pai. Lembrou-se de tantos outros que cobravam dos filhos o que nunca foram. De mentiras em mentiras, fingiam todos uma perfeição que não se encontra nem nos tratados que se espreguiçam nas bibliotecas.

A consciência da falibilidade nos faz mais humanos. O que significa ser o melhor de todos os alunos? Ser tratado pela pecha de genial não ajuda os que têm de aprender a comandar seus destinos. Responsabilidade por nunca errar é um erro. Erramos como necessidade vital. Caímos como consequência de cansaços e escolhas pouca refletidas. E aprendemos. E escolhemos melhor. E prosseguimos em busca de alguma aspiração. Isso, sim, é necessário. Ter uma aspiração, um tema para viver.

O pai não faz o que faz por desgostar da filha. Mas os desgostos que causa são desnecessários. Talvez devesse ele compartilhar as experiências pouco exitosas, as falências tantas que o ensinaram a arte inspiradora dos ressignificados. Lembrou-se aquele professor de um outro pai que exigia que fosse a filha uma juíza de direito. Sonho que ele nunca conseguira realizar. A filha fracassou, segundo ela mesma. A cobrança era tão grande que os concursos se transformaram em tortura, e ela os repetia, um a um, com a imagem do sonho do pai em sua dolorida mente.

O amor não se esgota nas conquistas, mas na existência. A filha precisa sentir-se amada apenas por ser filha e não pelo imaginário colar com pérolas dos sucessos que o pai projetara. Projetar no outro a própria realização é um erro. O amor aprecia as imperfeições e as acaricia. E as unge com óleos corretos para os preparos necessários nos dias que antecedem aos outros que se sucederão em ganhos e perdas.

Pedras há em toda jornada, mas cabe aos pais refletirem sobre as próprias exigências e imperfeições para não atingir, com dor irreparável, os seus filhos. Erros por amor também doem.

Aluna e professor se despediram. A nota permaneceria. Anotou ele um sopro de vontade na atitude daquela jovem de começar a se libertar das teias que não eram dela. Fácil, não seria e sabia disso o professor, mas exatamente para esses desentraves que um dia ele sonhou em dedicar os dias a professar, nas salas de aula, sua inegociável crença no ser humano. Com todas as suas imperfeições.

O sol desmaiava, enquanto ele reparava alguma sombra na aluna que seguia em frente. Era perfeito aquele cenário.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 19/11/2017

Sobre feridas e cicatrizes

A conversa se deu entre uma mãe e uma filha.

A filha, jovem ainda, ardia em uma paixão teimosa. Havia feito todas as tentativas possíveis para estar ao lado de seu amado. Humilhou-se diversas vezes. Perdoou seus deslizes. Chorou um futuro que parecia decidido a não enlaçá-los. Ele parecia estar bem ao lado de uma outra. Ela imaginava os ditos que, da boca de seu amado, flechavam outro ouvido. Seria ele criativo e despejaria outras falas ou estaria repetindo o que um dia tanto a elevou? Estaria ele sentindo a sua falta ou a outra o preenchia plenamente? Enjoaria dela e voltaria para os seus braços, seu abraço, ou o melhor era não esperar nada disso e prosseguir? Cartas já foram enviadas. Mensagens também. Encontros com cheiro de acaso, muito bem planejados, deram em nada. Apenas um sorriso gentil e um “Como vão as coisas”? E nada mais. Mas, ontem ainda, havia fervura. Teria sido tudo um impulso, um desejo apenas? A efemeridade dos sentimentos é inaceitável para quem ainda os tem. Ele, definitivamente, havia esquecido as promessas de eternidade, os tantos “eu te amo” que tantas consequências trouxeram.

A mãe ouvia as dores e os argumentos da filha. Ouvia, apenas. Era disso que a filha precisava. Mas chegara a hora de algum remédio. As feridas estavam por demais doloridas. E incomodativas. Foi quando surgiu a pergunta: “Mãe, você já sofreu assim?”. A mãe olhou para trás e sorriu para dentro. “Diga, mãe. Você já se sentiu um nada, um troço qualquer, uma mulher trocada?”. Depois de uma pausa, não muito longa, vem a resposta. “Filha, é evidente que sim. Mais de uma vez. Eu sei como dói. Um buraco se abre. E quem nos ensina como remendá-lo?”

“Quem, mãe?” E foi quando a mãe, com a delicadeza que o momento exigia, lançou sua homenagem ao tempo. O tempo é senhor dessas circunstâncias. E é um senhor que não obedece aos nossos apelos. A dor não se vai no dia que decidimos.

“Mãe, um dia passa e a gente nunca mais lembra?”. Era a pergunta de quem ainda estava debutando no sofrer.

“Não digo que nunca mais a gente lembre, filha. Mas é uma lembrança diferente”. A filha quis saber, quis entender melhor.

“As feridas doem. As cicatrizes, não”.

A mãe foi acariciando a filha e dizendo que a sua alma era cheia de cicatrizes. Algumas de paixões que se foram, outras de amizades arruinadas, outras de dissabores da profissão, da lida. Outras de despedidas forçadas. Estavam todas ali enfeitando a sua alma. “Enfeitando, mãe?”.

“Sim, filha, o sofrer nos enfeita com uma magia própria. Quando mexemos nas feridas, a dor é horrível e elas demoram mais para cicatrizar. Mas quando viram cicatrizes – e delas nos lembramos -, lembramos mais da beleza dos sentimentos do que dos abandonos. Não se lamente por sentir o que você está sentindo. Você está viva. Apaixonada, ardente. O tempo fará você se lembrar desse tempo de uma outra maneira”.

“Aí será cicatriz e não ferida, né, mãe?”.

“Acho que já estou melhor, acho que já virou cicatriz”.

“Calma, minha filha, não é tão rápido assim. Mas um dia você abrirá a janela e respirará um outro ar e, subitamente, perceberá que está pronta para outras paisagens”.

Era um dia se despedindo quando se deu aquela conversa. E a janela estava aberta. Mãe e filha viram o pôr do sol. Quantos amantes, naquele mesmo instante, viam o mesmo pôr do sol sem saber se estarão juntos no amanhã? Quantos, de olhos fechados, impedem-se de assistir a essas fascinantes despedidas.

“Vou preparar uma comida gostosa para você. Se precisar chorar mais, chore. E não se envergonhe disso. É por amor e não por ódio que você está chorando”.

A filha olhou para a mãe e deu um sorriso há muito escondido. “Mãe, um dia eu vou ser igualzinha a você”.

“Cheia de cicatrizes, filha?” Riram juntas e se alimentaram uma da outra antes do jantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 29/10/2017

Francisco

“Que nome você quer dar a ele?” – era a pergunta que a mãe fazia ao filho.

“Francisco”.

“Francisco é nome de santo e não de cachorro”.

O filho ficou prestando atenção à resposta da mãe, enquanto olhava o olhar do cãozinho que acabara de chegar em casa para viver com eles.

Luciano, do alto dos seus 7 anos, explicou à mãe:

“Francisco é o santo que sempre gostou dos animais. Então, ele não vai ficar ofendido. Vai gostar. Pode ter certeza disso. Eu mesmo já expliquei para ele”.

“Explicou para ele como, menino?”

“Engraçado, né, mãe? Tem um monte de imagem de santo, aqui em casa, e a senhora não conversa com ninguém. Eu converso, uai”.

A mãe ficou perplexa diante do filho: “Nossa, nunca imaginei”.

“Eu vi o filme da vida de São Francisco, mãe. É muito lindo. Eu disse para ele que nós iríamos adotar um cachorrinho. E eu quase o vi sorrindo. É isso. E aí eu expliquei que o nome seria Francisco, embora eu vá chamá-lo de Chico”.

“Oh, meu filho. Acho que você tem razão”.

“Mãe, a gente aprende muito com os animais. Lembra do Spiff? Ele fazia festa toda vez que a gente chegava, ficava feliz quando saíamos com ele para passear, agradecia o menor carinho” – disse o garoto choramingando.

“Chora não, meu filho. O Spiff está no céu dos cachorrinhos”.

“Mãe, eu não sei se tem céu dos cachorrinhos. Eu sei que ele fez da nossa vida um céu. E agora é a vez do Francisco”.

“Olha aí Luciano! Ele acaba de fazer xixi”.

“Calma mãe. Ele aprende. Cachorro aprende mais fácil que gente”.

“Por que você diz isso, meu filho?”

“Já viu cachorro fazendo maldade mãe? Já viu cachorro com preconceito? Já viu cachorro exigindo alguma coisa para dar amor?”.

A mãe, que sempre se surpreendeu com Luciano, seu único filho, estava radiante de felicidade. Ela sempre teve medo das suas ausências. Viviam apenas os dois. O marido a deixara pouco tempo depois do nascimento do filho. Ela trabalhava duramente para manter a casa e dar o melhor ao menino. Invariavelmente, liam juntos à noite. Gostavam das histórias que nasciam das experiências de amor.

Durante o dia, pouco se viam. Vanessa tinha para si que, se ela falhava na quantidade, não podia falhar na qualidade. Os finais de semana eram lindos. Programas simples, mas juntos. O cachorro que morreu vivera com eles momentos preciosos de aconchego. Enquanto ela lia ou contava histórias ao filho, observava o menino deitado com o cachorro deitado nele, possivelmente, também atento à história. A despedida de um cachorro é sempre dolorosa. Depois de algum tempo, Luciano pediu um outro. A mãe concordou. E assim chegou Francisco que, por enquanto, olha assustado e faz xixi no lugar errado. Isso é pouco pelo muito de prazer que ele será capaz de proporcionar. Sem muito esforço. Apenas vivendo. Apenas festejando o estar vivo.

Pronto. O xixi já está limpo, e Francisco se espreguiça no colo de Luciano. E respira fundo como que sentindo as batidas de um coração menino. Viverão juntos por um tempo. Será um tempo bom. Um tempo de delicadezas e aprendizagens.

O Santo, cuja festa se deu no início deste mês, vê a cena e aprova. O nome e os afetos. É nessa fotografia que ele quer estar. O essencial está ali. Vanessa, Luciano, Francisco e uma arquitetura propícia para o alicerce da bondade. Se algo falta, o que está presente basta. Pelo menos é o que diz o rabinho acelerado do novo habitante daquela casa.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 22/10/2017