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O futuro de meu filho

Uma amiga me convidou para um jantar filosófico que, mensalmente, faz em sua casa. Convidou-me para falar sobre Kant e a ética dos costumes para cerca de 30 pessoas que haviam lido alguns textos do filósofo. A conversa foi agradável e as perguntas iam desde os temas da metafísica, das críticas da razão pura, até o dia a dia das famílias. Foi quando o assunto chegou à educação dos filhos. Um pai quis saber se era correto escolher a profissão dos filhos. Perguntou, já argumentando que era natural que um pai médico quisesse ter o filho médico, trabalhando com ele. Que o mesmo poderia ocorrer com uma família dona de uma empresa. Tudo seria mais fácil se os filhos dessem continuidade ao legado dos pais. Alguns concordaram; outros, não. Falamos como a teoria de Kant poderia nos inspirar: “Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal.” Age de tal modo que seu agir, se visto por outros, não lhe cause constrangimento. Isto é, faça o correto mesmo que ninguém esteja olhando.

A filosofia preocupa-se mais com perguntas do que com respostas. Uma das mães tentou ajudar. “Não tenho o direito de decidir o futuro de meus filhos. Já decidi o meu. Quero que eles tenham consciência para decidir o deles. Se forem médicos como nós, os pais, será ótimo. Se não forem, será ótimo também. O que quero, inclusive inspirada na teoria de Kant, é que sejam bons. Isso é o mais importante”. Que os filhos sejam bons. Inspirados em Kant ou, melhor ainda, nos pais. Os exemplos são combustíveis de vida. Garantem o mínimo para o percurso que teremos de cumprir. O resto fica para a nossa liberdade. Há muitos caminhos, há muitas possibilidades de exercitar o talento no mundo do trabalho. O mais importante é ser bom.

Na sobremesa daquele jantar, senti um gosto de esperança. Pais preocupados com filhos. Amigos exercendo a prosa filosófica para conviver com leveza. Retratos de um mundo que pode ser melhor. Se exercitarmos a bondade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/02/2015

Ode a Mário de Andrade

“São glórias desta cidade

Ver a arte contando história…” (Mário de Andrade)

Sem a beleza da senhora Palavra, as tardes de quinta-feira não seriam tão generosas comigo. Há uma década, tenho a honra de desfrutar, na Academia Paulista de Letras, espetáculos grandiosos de sabedoria. No tradicional encontro dos Acadêmicos, a prosa faz reverências às nossas origens com reflexões que resgatam o sentido primeiro das palavras, as vozes poetizam as verdades, as memórias são desveladas, ora com dor ora com amor, e a sabedoria faz-se dona dos momentos de leveza. Das horas de descuido, como diria Guimarães Rosa. Enlevo-me. Admiro. Aprendo. Ensino. A Academia vive, e seus moradores são artífices engenhosos e brilhantes de sua majestade, a Palavra. Representantes das Letras. Gigantes da generosidade. 

Neste enredo, como uma grande família, em nossa casa do Largo do Arouche, respiramos diversidade e convergência. Em cada cadeira que ocupamos, resgata-se uma história eternizada por enlaces culturais. Das diferenças, nasce o aprendizado. Aquele que permanece em nosso olhar. Filho mais novo, sinto-me privilegiado por renascer nessa fonte. Tão fecunda. E desafiado na função de gerenciar os sonhos dessa família. Ilustre. Digna. Amorosa.

Inicio essa jornada como presidente da Academia Paulista de Letras como intuito de multiplicar o que resgatamos desse convívio. Abrir as portas da Academia, do espaço que herdamos dos antigos confrades, das histórias vistas e vividas ali, tesouros à espera de curiosidades. A Academia dos paulistas, de todos os paulistas, inaugura o novo ano, em prosa e em poesia, para que todos possam vivenciar o que, há mais de 100 anos, nós, Acadêmicos, compartilhamos: cultura, conhecimento, amizade, encantamento. 

2015, um ano em homenagem a Mário de Andrade

Na próxima quinta-feira, dia 05 de fevereiro, inauguraremos o Ano Literário 2015. Para esse encontro, convidaremos para a prosa o Acadêmico Mário de Andrade e sua eterna vanguarda. Mário, nosso confrade, deixou-nos há 70 anos, mas a audácia e o espírito renovador de sua arte permanecem em seus livros, em sua história, em sua vida. Vida que Mário amava viver, conforme confessou a Drummond, “Tudo está em gostar da vida e saber vivê-la. Só há um jeito feliz de viver a vida: é ter espírito religioso. Explico melhor: trata-se de ter espírito religioso pra com a vida, isto é, viver com religião a vida. Eu sempre gostei muito de viver, de maneira que nenhuma manifestação da vida me é indiferente.” 

Mário que já havia se imortalizado nas linhas das Pauliceias Desvairadas e nas geniais desventuras de Macunaíma passou a ocupar a cadeira no3 da Academia Paulista de Letras, em 1934. São inúmeros os artigos, nas edições da “Revista da Academia Paulista de Letras”, que delineiam as características desse homem audacioso, artista de muitas artes. Em uma dessas páginas, sua pluralidade. Em uma carta escrita em 1944, Mário revela ao confrade René Thiollier:” (…) você deve estar lembrado que já uma vez eu quis me retirar da Academia por me reconhecer incapaz dela. Eu não tomo posse. Por que não tomo? Porque não tomo. Não tenho jeito, sou infenso a academias, e cada vez estou mais bicho do mato, malcriado, aceitando mil convites e faltando a todos. Eu gosto da “nossa” Academia, isso gosto. Mas sou assim, me xingo, mas fico assim.” 

É esse nosso Mário de Andrade. Homem de genialidades, que ousa imaginar-se incapaz de ser acadêmico. Que rompe barreiras narrativas e lexicais. Que norteia, ainda, os que vivem da literatura. Professor a que tantos de nossos escritores submetiam seus fazeres literários: “É preciso colocar responsabilidade humana nos escritos”, alertava. Coerente na irreverência. O paulista e paulistano que distribuiu, em vida e em versos, partes de seu corpo a cada canto desta imensa e arlequinal cidade. São Paulo, comoção de sua vida. É esse Mário que estará presente em nossos encontros. Nos encontros dos Acadêmicos e nos encontros que a “casa” dos paulistas no Largo do Arouche, proporcionará a todos que se alimentam de cultura. Sigamos com seu espírito, Mário. Contestador. Transgressor do trânsito pacífico das artes. Das letras. Da vida. 

 

”Minha casa…

Tudo caiado de novo!

É tão grande a manhã!

É tão bom respirar!

É tão gostoso gostar da vida!…”

(Mário de Andrade)

 

Academia Paulista de Letras

Largo do Arouche, 312/ 324

República, São Paulo

Telefone: 3331.7222

www.academiapaulistadeletras.org.br

 

Principais obras de Mário de Andrade

Pauliceia Desvairada

Lira Paulistana

Amar, Verbo Intransitivo

Macunaíma

Contos Novos

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | 01/02/2015 | Foto: Jorge de Castro (divulgação)

Ele disse bom-dia

Frequento, há algum tempo, uma academia de ginástica  do meu bairro. As pessoas que lá trabalham são extremamente competentes e simpáticas. Nesta semana, quando cheguei, bem cedo, os funcionários da portaria diziam: “Ele disse bom-dia”. E repetiam quase que atônitos: “Ele disse bom-dia”. Entrei na sala de musculação, e os comentários de alguns professores iam na mesma direção: “Que estranho. Ele disse bom-dia”. Gosto da prosa, mas não dedico muito tempo a investigar vidas alheias; entretanto, curioso, quis saber. Contaram-me que um homem, que nunca cumprimentava ninguém, entrou na academia dizendo bom-dia. Apenas uma vez. Mas pegou todos de surpresa. Uma funcionária havia dito que, no início, todos diziam bom-dia a ele. Depois, acharam deselegante incomodá-lo, já que ele não respondia. E, naquele dia, ele, enfim, dissera bom-dia.

Parece estranho um simples dizer causar tanto movimento nos movimentos cotidianos. A ausência de polidez é um desperdício na arte do convívio. As pessoas não fazem parte da paisagem. Elas existem. Gostam de ser acolhidas. O que leva alguém a não retribuir um simples “bom-dia”? Superioridade? Timidez? Contenção de sentimentos?

Ao sair da academia, parei para conversar com os atendentes. Todos muito simpáticos, como já disse. Foi justamente quando o homem estava indo embora. Um atendente lhe disse, “Tenha um bom-dia”. Ele não respondeu. Não olhou para trás. E saiu decidido a viver sem essas interferências desnecessárias. Um olhou para o outro e tentaram entender o que acontecera. “Será que ele não disse e nós pensamos ouvir? Será que ele ganhou na Mega-Sena e resolveu, então, dar bom-dia? Mas foi apenas um! Não, o ganhador da Mega- Sena desta semana é de Sorocaba. Certamente, essa não foi a razão”. Estranhos comportamentos de quem convive com pessoas. Gestos de gentileza, mesmos os mais singelos, têm muito poder. O poder de nos sabermos frutos da mesma espécie. Da que precisa de afeto.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/01/2015

 

 

São Paulo em palavra, em poesia

“Alguma coisa acontece no meu coração” (Sampa, Caetano Veloso)

Adoniran Barbosa, “dá licença de contá” a sua São Paulo. A nossa São Paulo. A cidade que há 461 anos, numa colina entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, nasceu para ensinar. Antes de ser cidade, São Paulo foi escola. E continua sendo. Não sobrevivemos ilesos aos seus paradoxos, tão cristalizados e dolorosos. Crescemos com eles. São José de Anchieta versificou as marcas de algumas de nossas injustiças em seu nascedouro. As mesmas que, tanto tempo depois, sobrevivem nos livros e nas ruas de Ferréz e seu Capão Redondo, “Capão pecado”.

Ah! São Paulo que desperta paixões. De poesia e poeira. De rimas e desencontros. A “São, São Paulo”, de Tom Zé. A cidade que vem “morrendo a todo vapor” em abismos culturais, econômicos, sociais. Em abismos viscerais. Palco das “Diretas Já” e de tantos desalentos. Da Semana de Arte Moderna e das crianças abandonadas à sorte. Mário de Andrade, escritor que protagonizou o movimento modernista, declara, em diversos fragmentos de sua obra, seu fascínio pela “Pauliceia desvairada”. Cidade colcha de retalhos. Que desperta risos e lágrimas. “Arlequinal”. Mas, em seu “Prefácio Interessantíssimo”, Mário adverte-nos: “versos não se escrevem para leitura de olhos mudos”. Cada nuance de sua musa inspiradora, a cidade de São Paulo, é revelada no dito e no não-dito de sua obra. E sua poesia lapida nosso olhar. Nas ruas e nos livros.

Ah! São Paulo, comoção da vida de Mário de Andrade, comove também o príncipe dos poetas, Paulo Bomfim, que declara: “Pelo crime de seres boa, pelo pecado de tua grandeza, pela loucura de teu progresso, pela chama de tua história – eu te amo, São Paulo!”. Novamente, a dualidade. O sentimento dual é reiteradamente (e encantadoramente) declarado por escritores, músicos e por todos nós que descortinamos sua verdade. Moramos em São Paulo e ela mora dentro de nós. Como canta Tom Zé, “com todo defeito/ Te carrego no meu peito/ São, São Paulo/ Meu amor”.

Fomos forjados pelo sangue de trabalhadores que não temeram nem a garoa nem o futuro. Acolhemos imigrantes, como retrata Alcântara Machado em “Brás, Bexiga e Barra Funda”; e por vezes, nos distanciamos de nós mesmos. São Paulo, uma cidade que não rejeita ninguém. Nesse barro, fomos criados. Com trabalho e lirismo; acolhimento e coragem. Em São Paulo, encontramos os becos do Brasil e as marcas mais valiosas de Milão. A São Paulo que puxa o “r” para explicar o “porquê” de tudo fala também todas as línguas. Aqui, vive um mundo. Pelo caminho, encontram-se os contrastes que compõem o nosso mosaico cotidiano. As histórias que vivem rentes à nossa pele. Como a de Carolina Maria de Jesus. Ela era negra, pobre, mãe solteira, catadora de papel e foi muito discriminada até descobrirem sua palavra, sua confidência. Sua história de vida sai da extinta favela do Canindé, “o quarto de despejo da cidade,” e chega às bibliotecas e estantes de vários países no livro “Quartos de despejo”. Seu calvário, igual ao de tantos outros. 

As astúcias poéticas que permeiam a história de nossa cidade e que cantam os versos do nosso dia a dia são inúmeras. São mais de 10 milhões de histórias que pulsam com encantamento e dor. A São Paulo de Adoniran, São José de Anchieta, Ferréz, Tom Zé, Mário de Andrade, Paulo Bomfim, Alcântara Machado e Carolina Maria de Jesus é tão minha quanto sua. É dos paulistas e de todo o mundo. Parabéns, São Paulo. 461 anos da capital da esperança.

 

Livros e músicas

“Sampa”, de Caetano Veloso

“Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa

“São, São Paulo”, de Tom Zé

“Capão pecado”, de Ferréz

“Pauliceia Desvairada”, Mário de Andrade

“Insólita metrópole”, de Paulo Bomfim 

“Brás, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado

“Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus

 

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/01/2015

 

Ignácio de Loyola Brandão – o interior e seu menino

José Maria Ferreira Brandão foi marceneiro, seleiro, barbeiro e delegado de polícia. Foi, também, avô de um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão. 

Com mais de 40 livros publicados em diversas línguas, Ignácio, saído de sua querida Araraquara, ganhou o mundo. Morou fora do Brasil. E viaja muito. Vive de cidade em cidade cumprindo sua agenda com a palavra. Onde quer que esteja, leva consigo sua história. E ela começa em um lugar de onde ele nunca saiu. De um lugar que vive no tempo. Nas rodas de cadeira e de conversa que se espalhavam pelas calçadas. No cheiro do café e do bolo que se misturava às aventuras da infância na sua terra natal. Época em que via caminhão, casas e chafariz nos pedaços de madeira do barracão do avô, o José de tantos talentos. Pai de seu pai. 

Nesse “lugar mágico que cheirava a madeira”, havia de tudo. Lixas, porcas, lápis quadrado vermelho de marceneiro, alicates, limas, verniz. E lá no fundo, uma caixa vermelha. Vermelha, empoeirada. Coberta pela fuligem e repleta de memórias. Tantas e tão importantes que ninguém podia chegar perto. E isso era o bastante para despertar a curiosidade das crianças. Principalmente a do menino Ignácio, o preferido de seu avô. Em uma manhã, o velho José entrou na oficina, pegou a chave, abriu a caixa vermelha e gritou. A caixa estava vazia. Alguém a abrira e retirara de dentro “os olhos cegos dos cavalos loucos”, os olhos de vidro dos cavalos do carrossel. Um carrossel de madeira que girava pelas cidades e que trouxera alegria à vida de seu José. Das lembranças dos melhores anos vividos pelo avô, sobrara o que estava naquela caixa. Agora, só memórias. Agora, as majestosas memórias. E a vida toda para recordá-las. Memórias registradas nas histórias que Ignácio de Loyola Brandão, o menino e o escritor, compartilha conosco em seu novo livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna, 2014) e em tantos outros. 

O menino e seu interior

A infância é um terreno sempre fértil. Vive para sempre em nossa maneira de ver o mundo.  Em nosso olhar curioso de criança que quer sempre mais do mundo e dos homens. Passa o tempo, mas não se perde o que passou. São as memórias que nos mantêm vivas as sensações, as emoções e aqueles que se vão, sem nunca nos deixar. 

O menino Ignácio perdeu, em um jogo com os amigos, as bolinhas brancas, os olhos dos cavalos do carrossel. Entristeceu seu avô. Mas Ignácio, o escritor, publicou, neste livro, seu pedido de desculpas ao velho José. Mostrou o seu menino. A sua infância. O seu interior. Mundo de menino vivido e revivido pelo homem Ignácio, menino que nasceu com nome de santo.  Santificou e santifica a sua vida rendendo homenagens à sua excelência, como gostava de dizer Tatiana Belinky, a palavra. Sua prosa encanta crianças e adultos. Seu humor tributa a vida. E tudo nasceu no interior. No circo, na cerca, na roda de conversa.  “Do circo de cavalinhos de pau sobraram os olhos. E agora os olhos se foram. Se foram como todos nós vamos.” As memórias ficam. Do avô. De Ignácio. De todos nós.

 

Principais obras de Ignácio de Loyola Brandão

Bebel que a cidade comeu 

Zero 

Dentes ao sol 

Não verás país nenhum 

O verde violentou o muro

O beijo não vem pela boca 

O homem que odiava a segunda-feira

O anônimo célebre 

Veia bailarina

O menino que vendia palavras

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/01/2015 | Foto: André Brandão (divulgação)

 

Gabriel Chalita toma posse como Secretário Municipal de Educação

Novo titular estará à frente de 2.800 escolas, 911 mil alunos e 84 mil servidores, sendo 60 mil professores.

Aconteceu nesta quinta, 15, a solenidade de posse de Gabriel Chalita como titular da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. A cerimônia lotou o auditório da Prefeitura, localizado no Viaduto do Chá, região central da cidade.

Compuseram a mesa o Prefeito Fernando Haddad, a Vice-Prefeita, Nádia Campeão, o Secretário de Coordenação das Subprefeituras, Francisco Macena e o Presidente do Tribunal de Justiça, José Renato Nalini.

Também participaram da cerimônia a primeira-dama da Cidade de São Paulo, Ana Estela Haddad, o Diretor da Divisão de Orientação Técnico-Pegagógica (DOT-P) da Secretaria Municipal de Educação (SME), Fernando Almeida, a escritora Lygia Fagundes Telles, o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, além de familiares e demais amigos do novo Secretário Municipal de Educação.

Por: Assessoria de Imprensa (Secretaria Municipal de Educação de São Paulo) | 15/01/2015

Respeite minha memória

Em um restaurante, uma filha mostrava impaciência com a mãe que repetia as histórias. A filha a interrompia, grosseiramente, dizendo: “Mãe, você já contou isso, você está muito esquecida, você não está bem. Que pena, mas você não está bem!”. 

A mãe, olhar ao longe, ficava em silêncio, parecia triste, mas voltava ao assunto. A filha a interrompia, começava uma história, falava do marido, falava mal do marido. A mãe tentava ajudar, dizendo que tivesse paciência, pois as pessoas eram diferentes. Falava vagarosamente. E a filha a interrompia, mais uma vez, dizendo: “Mãe, você está muito lenta, está sem cabeça, você não é mais a mesma. Que pena, mas você não está bem!” A mãe não retrucava. Calava-se, obediente. Voltava ao seu silêncio, como se buscasse, dentro de si, o conforto da própria companhia.

Como aquela conversa me incomodou! Quantas vezes a filha disse para a mãe que ela estava sem cabeça, que não estava bem! Repetir histórias, todos nós fazemos, independentemente, da idade. Quando percebemos que o outro está esquecido, que o tempo trouxe alguma dificuldade à memória, é preciso respeitar. 

Tratar os pais com respeito. Compreender as limitações que todos nós temos em qualquer idade. Não expor as ausências, não ridicularizar, não diminuir quem nos alimentou de vida nos mais fortes anos de suas vidas e que, agora no entardecer, já não têm o mesmo vigor são formas de fortalecer os laços de família, de amor, de acolhimento. Laços que lhes parecem tão fragilizados nessa etapa da vida. 

Ao final, a filha, impaciente, não esperou a mãe terminar de comer. “Vamos, tenho que ir embora, você está comendo muito devagar. Também, você não faz nada. Vamos, eu cuido de você”. Cuidar não é isso. Nas palavras, estão instrumentos poderosos de diminuir ou elevar as pessoas. Há gestos que fazemos sem refletir. Tempos que perdemos por não compreender. Pessoas que machucamos por não respeitar. Que pena. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/01/2015

 

“A Família Bélier” e os sons do silêncio

O filme “A família Bélier”, que estreou no final de 2014, é uma comédia francesa ambientada na zona rural de uma pequena cidade. O lugarejo tem todas as características da vida no campo. Há, entretanto, um toque a mais do diretor francês Eric Lartigau. O núcleo central é formado por uma família de surdos, com exceção de um dos membros. Na época do lançamento, os deficientes auditivos franceses protestaram por não terem contratado atores surdos para representar as personagens da trama: o pai, a mãe e um dos filhos. Alguns insistiram que os exageros do núcleo de atores deram uma cor depreciativa à questão e que, para roubar risos, fizeram coisas que eles, os surdos, não fazem. De outro lado, parte dos deficientes auditivos franceses discordou desse posicionamento e elogiou a temática e a abordagem.

Polêmicas à parte, o filme é sensível e emocionante. Os atores têm atuação irretocável. O pai, Rodolphe Bélier (François Damiens), abusa de expressões incríveis para demonstrar os seus sentimentos. A mãe Gigi Bélier (Karin Viard) e o filho Quentin (Luca Gelberg) estão muito bem. O pai resolve ser candidato a prefeito de sua cidade depois de ficar enojado com as demagogias do atual prefeito, candidato à reeleição. Conhecidos tentam demovê-lo da ideia. Como um homem surdo poderia ser prefeito? Os diálogos são muito interessantes e reforçam a verdade de que os deficientes auditivos têm capacidade para fazer o que desejarem, como todas as pessoas; e podem, inclusive, exercer o cargo de prefeito. Sua mulher fala de outros desafios que superaram juntos, como a chácara que cuidam, quando as pessoas diziam que era impossível um casal com essa deficiência se virar sozinho com plantação, gado, coleta do leite, feitio do queijo, venda dos produtos, etc.

A filha, Paula Bélier (Louane Emera), adolescente com a instabilidade emocional própria da idade, ajuda os pais e o irmão. Interpreta a linguagem deles. Torna-se a voz de toda a família. Faz isso com prazer, embora não deixe de repreendê-los pelos exageros. Afinal, “ser surdo não é desculpa”, insiste ela. O filme não é pretensioso. Não repete palavras de ordem na defesa das pessoas com deficiência. É leve. É belo. Mas trata da inclusão de forma correta. E dos desafios de toda a família, com ou sem deficiência, de conviver e de se alimentar de futuro.

A certa altura, a filha Paula se inscreve no coral da escola por estar apaixonada por um colega, Gabriel (Ilian Bergala). No início, sua atenção se resume a ele, nada quer com a música nem com as canções. Mesmo assim, o professor, o maestro (Eric Elmosnino), fica fascinado pela beleza de sua voz. E a faz descobrir a emoção de cantar a paixão. A menina vai se superando, e o professor a incentiva, então, a participar de um concurso da Radio France, em Paris. Aqui, entra a trama central da história. Como a menina abandonaria os pais e o irmão para se mudar para Paris? Quem iria servir de intérprete? Quem ajudaria nos negócios da pequena fazenda? Os pais, sabedores da notícia, são contrários à mudança. Há um belo diálogo entre eles, na linguagem de sinais, a Libras, sobre deixá-la ou não seguir o seu sonho. A mãe diz que a filha é seu bebê, que não saberá se virar sozinha em Paris, que tem medo. O pai, entretanto, assume que o medo da mãe é ficar sem a proteção da filha e não o contrário.

Os três, o casal e o filho, vão assistir à apresentação do coral na escola. E o diretor resolve muito bem os sons do silêncio. É linda a cena do dueto entre os dois jovens, Paula e Gabriel, cantando Je Vais t’Aimer, de Michel Sardou. 

O filme segue seu curso. Um lindo final mostra a beleza da superação sem exageros nem apelos desnecessários. Apenas apresentando a vida que segue “quebrando pedras e plantando flores” – como ensinava Cora Coralina. A canção, também de Michel Sardou, Je Vole, coroa o conceito de família que o diretor quer apresentar. O voo dos filhos que saem de casa e vão viver a sua vida. Não por ausência de amor, mas por necessidade de vida.

É de Gibran Khalil Gibran o lindo poema para pais e filhos, com ou sem deficiência:

Vossos filhos não são vossos filhos. 

São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 

Vêm através de vós, mas não de vós. 

E embora vivam convosco, não vos pertencem. 

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, 

Porque eles têm seus próprios pensamentos. 

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 

Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 

Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, 

Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. 

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 

O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força 

Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. 

Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: 

Pois assim como ele ama a flecha que voa, 

Ama também o arco que permanece estável.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/01/2015

 

 

A idade de aprender

Encontrei, no final do ano, uma senhora sorridente em uma das calçadas de São Paulo. Apresentou-se, desejou-me boas festas e falou de seu orgulho de ser recém-formada. Julia, é esse o seu nome, formou-se aos 72 anos de idade. É, agora, nutricionista. Falou-me de alimentação, de cuidados que precisamos ter para que as crianças adquiram bons hábitos, do comer apressado, da falta de tempo para prestar atenção às coisas e às pessoas. Disse-me que quer muito escrever um livro. Um livro simples sobre o que aprendera. Foi além, afirmando ser o escritor um generoso em essência. Porque partilha o que sabe. Porque permite que outras pessoas participem de suas ideias e de seus conceitos.

Eu a incentivei. E quis saber o que a levara a cursar a faculdade. Ela falou-me de um programa de rádio em que uma senhora que havia se formado aos 90 anos estava dando uma entrevista, contando da sua emoção e dizendo que a idade de aprender, para ela, era qualquer idade. Julia, na época com sessenta e poucos anos, sentiu-se uma menina e decidiu concluir o ensino médio e cursar a faculdade. “Gostaria de um dia encontrar essa senhora para lhe agradecer. Ela mudou minha vida com seu depoimento”. Conversamos mais um pouco. Ela falou, novamente, sobre o primeiro livro que não quer demorar a escrever e a lançar. Porque quer publicar outros. Tem muitos planos. Muita vontade de viver. Falou-me do marido que morreu cedo. Da ausência de filhos, mas da presença de tantos amigos que ela fizera na faculdade, que ela faz na vida. Conversamos mais um pouco, caminhando. Fui bebendo de sua alegria e ouvindo seus tantos projetos que faziam seus olhos de menina, de menina de 72 anos, brilhar.

Convidou-me para uma festa naquela noite. Agradeci. “Festa”, repetiu ela, pronunciando sorridente e com vagar essa palavra cheia de significados. E concluiu: “A vida é uma festa”. Concordei. Depende da nossa disposição. E, para isso, não há idade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/01/2015

Compaixão e generosidade, da literatura para a vida

Compaixão é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro e de sentir a sua paixão, a sua dor. É compreender o estado emocional daquele que padece e, em outras palavras, enxergá-lo.

A generosidade é a virtude de acrescentar algo ao outro, de partilhar, de deixar um pouco de si para preencher o que falta na outra pessoa. São complementares. Filhas do amor. Irmãs da bondade. A literatura é rica em personagens que nos desconcertam pelo onírico concerto de afinar o mundo.

Um dos meus livros preferidos da literatura universal é “Os miseráveis”, de Victor Hugo. Uma obra recheada do melhor fermento de sonhos e canções de vida em um mundo destroçado por guerras, autoritarismos e violência.

A obra, composta de cinco volumes, foi publicada quando Victor Hugo tinha 60 anos, mas o fio da narrativa começa a germinar quando, aos 22 anos, o jovem escritor se incomoda com a situação dos prisioneiros da colônia penal de Toulon, de onde saíam os remadores para os trabalhos forçados nas galés, onde remavam com os pés atados em correntes. Tristes cenas. Restos humanos lambuzados de humilhações e dor.  

O tema social, a miséria dos excluídos, marcou a trajetória política e literária de Victor Hugo. Charles Dickens já havia mostrado uma Inglaterra diferente das cortes. Sua denúncia chegava aos que viviam invisivelmente nos submundos de Londres. 

Victor Hugo faz o mesmo em “Os miseráveis”. Dramas chocantes de mulheres e homens alijados de bens materiais e de amparos humanos.

A personagem central é Jean Valjean, órfão de pai e de mãe, que foi criado por uma irmã mais velha que tinha sete filhos. Quando ela enviuvou, o menino Jean passa a ser o homem da casa. Em um dia, desesperado, sem ter dinheiro para comprar pão para a irmã e para os seus filhos, Jean furta um pão, o que lhe rende dezenove anos de prisão (cinco pelo pão e quatorze por tentar fugir). Jean passa sua juventude na prisão.

Quando, enfim, deixa o cárcere, perambula por vilarejos em busca de trabalho. É humilhado e temido por ser considerado um bandido perigoso. As portas se fecham na frieza de uma sociedade que não tolera erros alheios, embora seja farta de erros próprios, escondidos. Na sarjeta do abandono, um homem o acolhe, o Monsenhor Bienvenu (que significa bem-vindo). Ele o retira das ruas e o traz para casa para que tenha uma refeição decente e uma cama limpa para dormir. Jean come como um bicho esfomeado e fica arredio. Não acredita que alguém pudesse ser, com ele, generoso. Compaixão, ele certamente só conhecera nos idos da infância quando a irmã o acolhera.

Durante a noite, resolve furtar o Monsenhor. Recolhe o que estava à vista e sai pelas ruas frias de uma noite angustiante. É preso e os soldados o trazem para a casa do Monsenhor para que devolva o que ele furtou. Jean sabia que ficaria o resto da sua vida na prisão. Seria agora um reincidente. Se já era considerado um homem perigoso por ter furtado um pão para alimentar os sobrinhos, imagine agora que teve a ousadia de furtar um homem que lhe dera abrigo, que lhe dera alimento e conforto. Um homem importante. 

Jean está apavorado, amarrado, humilhado pelos guardas quando chega a casa do Monsenhor. Percebendo a situação, o Monsenhor agradece o trabalho dos guardas, mas diz que a prataria que o homem carregava não fora objeto de furto, mas de um presente que ele havia lhe dado. Jean arregala os olhos, desconcertado com a bondade do Monsenhor que pega mais algumas peças que, supostamente, Jean havia “esquecido”. “Use a prata para se tornar um homem honesto”, foi o que Jean Valjean ouviu daquele homem e o que remoeu para sempre em sua consciência.

Aqui, nesse ato de compaixão, dá-se a transformação de muitas vidas. A de Jean Valjan e a de todos os que, posteriormente, foram abraçados por sua generosidade. 

 

Da compaixão, nasce uma nova história

 

A compaixão é um sentimento essencial da convivência. Olhos de ver. Paciência. Tempo de silêncio para que a voz do outro tenha alguém onde depositar sua necessidade. Tempo de fala para que o silêncio do outro não se transforme em solidão. Presença que ameniza ausências. É como estar no deserto da dor e ver surgir o cortejo da esperança.  

Foi assim que floresceu um novo homem. Quem é Jean Valjan? Depois de conhecer o Monsenhor, é um homem sempre pronto para revelar a nobreza dos sentimentos.

Há muitas outras personagens e tramas nesse enredo fantástico de Victor Hugo. E a generosidade de Jean permeia todos os núcleos dessa narrativa. Há uma mãe solteira, Fantine, que fora abandonada pelo homem que tanto amou e que confia a criação de sua filha a um casal que, aparentemente, proporcionaria mais conforto em sua criação. Ela trabalha para pagar esse casal. Para que cuidem bem de sua filha. Somente para isso. Imaginem o que era ser mãe solteira naquela época. A filha, Cosette, na verdade, vive frágil e assustada, porque é maltratada.  Mesmo assim, canta ela a canção da esperança. Quando Fantine morre, Cosette é criada por Jean Valjan até se casar com o idealista Marius Pontmercy, um jovem que sobrevive ao sonho e à utopia de destronar o rei. Aliás, a narrativa de “Os miseráveis” ocorre entre dois episódios históricos: a batalha de Waterloo e os motins de junho de 1832, em que jovens morreram sonhando com um mundo sem privilégios nem preconceitos.

A obra é extensa, mas há um filme recente, de 2012, dirigido por Tom Hooper, que é fiel a essa linda história. Um elenco de peso com atuação irretocável: Hugh Jackman, Russell Crowe, Amanda Seyfried, Samantha Barks, Anne Hathaway, Eddie Redmayne, entre outros. 

Outros filmes e peças de teatro no mundo inteiro mostraram a ousadia de Victor Hugo em revelar a miséria humana, o abandono, a saga dos invisíveis e, mesmo assim, alimentar-nos de esperança. No final, a canção de uma vitória que não cabe nesse mundo. 

Jean Valjan aprende com o lindo gesto do Monsenhor e transforma sua vida em uma vida capaz de cuidar de outras vidas. Até mesmo diante de seu maior perseguidor, o inspetor Javert, consegue ser generoso, compreende as amarras que o impedem de entender o verdadeiro sentido da justiça. Javert se desconcerta frente ao olhar compassivo do homem que ele perseguiu a vida toda. “Ninguém pode ser tão bom quanto Jean Valjan”, rumina ele. Pode sim, especialmente se tiver em seu caminho um Monsenhor Bienvenu.

Bem-vindas a compaixão e a generosidade neste início de mais um ano. Incomodemo-nos com o aprendizado que a literatura nos proporciona. E que mais livros nos aqueçam e ampliem o nosso repertório e a nossa capacidade de contemplar e de transformar o mundo. Feliz 2015.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 04/01/2015