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A força do bem

Tenho vivido momentos de profunda beleza na minha vida de educador. Em cada creche que tenho a oportunidade de inaugurar, ao lado do prefeito Fernando Haddad, vejo os olhos de esperança e a gratidão de pais que sabem que os seus filhos terão as oportunidades essenciais para o desenvolvimento de suas habilidades. Vejo as crianças sorrindo ainda surpresas com as novas descobertas. E vejo os professores ávidos por exercerem o ofício da generosidade. 

Professores ciosos da responsabilidade com a vida e com a história dessas crianças. Professores que se multiplicam para cuidar, para apresentar a novidade do aprender, para estimular, para caminhar juntos. Que bela profissão! Que escolha feliz!

Convivo, também, como todas as pessoas, com algumas que amanhecem aborrecidas pela vida sem significados. Detestam a felicidade dos outros. Praguejam contra o sucesso. E agem como seres venenosos, prontos para encontrar vítimas inocentes. São violentos com armas ou com palavras. São covardes que pensam em alimentar-se com a dor alheia. Mas não percamos muito tempo com esses seres infelizes. Não podem ter eles autorização para destruir nossa paz.

É preciso acreditar na força do bem. É preciso ter olhos de ver a bondade que nos surpreende a cada dia. Se há médicos insensíveis, há outros que fazem da sua profissão um permanente alívio na dor e na insegurança de tantos. Se há passageiros deselegantes nos ônibus e nos metrôs, há aqueles que cedem o seu lugar aos mais velhos, que se preocupam com as pessoas com deficiência, que cuidam para que ninguém seja atropelado em momentos de mais movimento. Se há injustiça na justiça, há operadores do direito que jamais negligenciam do poder e da responsabilidade que têm com a história de vida dos que a eles se achegam. Se há filhos que abandonam os pais, há outros que deles cuidam sem pestanejar. Ao contrário, amam sem economias aos que, sem economias, os amaram. 

Fala-se muito de policiais truculentos. E há. Mas é preciso reconhecer o caráter de tantos que não negligenciam os valores básicos do respeito e da retidão na profissão de cuidar da segurança de seus concidadãos. E assim acontece em outras áreas. Em outras profissões. Em outras relações.

Como é bom encontrar pessoas boas! Como é bom com elas conviver. É um combustível de esperança que nos recarrega para prosseguir. Gentis criaturas que nos sinalizam que, se há escuridão, no caminho logo à frente há luz. E é por isso que não se pode parar.

Dia desses, conversando com uma mulher que trabalha em uma escola, contou-me de sua alegria em preparar a refeição para as crianças. Disse do prazer em ver aquelas meninas e meninos se juntando, felizes, para comer. O prazer em alimentar os afetos dos filhos dos outros, já que o seu único filho ela perdera, vítima de uma doença que chegou e que nem deu tempo para despedidas. Com lágrimas nos olhos, ela me disse que era preciso prosseguir. 

Outro dia, uma professora que colocava os seus alunos pequeninos para dormir, um a um, contou-me da emoção que sente ao saber que, ali, eles estavam protegidos. Lamentou sobre crianças espancadas em lares doentes. E disse querer dedicar a vida às crianças porque já havia se desiludido demais com os adultos. 

Viveu a violência na própria casa e em casas alheias.

Aprendemos com os exemplos de bondade, mas também aprendemos com os perversos. Nas cenas cotidianas, se prestarmos atenção, recolheremos histórias que poderão iluminar as nossas.

Gosto de observar as pessoas e de me permitir o poder do encantamento.  Desde criança, a violência sempre me horrorizou. A falta de educação, de gentileza, as palavras ditas em tom errado, a mentira, o engodo. Cuidei para que esses não fossem os meus referenciais e para me convencer que ser bom é o melhor caminho para se chegar à felicidade. 

Sou grato aos professores que tive nas escolas em que estudei e aos professores da vida que me abrem os olhos, quando esses se cansam. Que me mostram as mãos enrugadas, mas valentes. Que me provam que o amor existe. Em cada canto. E que resistem aos que querem emudecer a bondade. Não conseguirão jamais. Basta olhar para o passado. De quem a humanidade se orgulha? Dos jogadores de pedra ou dos construtores do templo precioso que é o ser humano?

Fazer o bem vale a pena. O bem é durável, frutifica. O bem é amoroso, alimenta. Uma vida inteira. Várias vidas. Ensinou-nos Francisco de Assis, o que jamais deixou de acreditar no Amor, o que iluminou e ilumina as manhãs mais cinzentas desta nossa casa maior: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”. Que o Irmão Sol nos aqueça!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/06/2015

 

Sobre a paciência

Uma das frases que ficaram na minha caixa de memórias dentre tantas outras ditas pelo meu saudoso pai é: “Tenha paciência, meu filho”. Meu pai era um homem paciente. Era um homem generoso. O tempo foi seu bom companheiro. Ele envelheceu com sabedoria. E fez de tudo para que nós pudéssemos compreender que a paciência nos ajudaria a navegar, com mais leveza, a nossa nau.

Vejo com perplexidade o tanto de irritação que assalta as pessoas. De coisas corriqueiras a ações covardes. Da buzina desnecessária ao desrespeito com a demora de alguém. Da tentativa de levar vantagem furando a fila ao ataque nada correto nas redes sociais. O outro me irrita por alguma razão. Será que a irritação vem do outro ou das ausências de pensamento, de reflexão, de enredo da minha própria vida? A incapacidade de conviver com pessoas diferentes me torna um ser violento. Assistimos, recentemente, a cenas bárbaras de pedras jogadas em seres humanos. Irmãos nossos. Até onde vai a nossa intolerância! A que ponto chegamos! Nos tempos de absolutismos, senhores podiam valer-se da vida de seus servos. O ódio religioso, social, político, entre outros, já martirizou mulheres e homens bons. Não tiveram a paciência sequer de tentar entender as razões das acusações. Lançaram ao fogo ou pregaram na cruz ou lançaram fora a cabeça ou apenas fizeram desaparecer os que pareciam representar algum perigo.

Falamos, hoje, em dignidade da pessoa humana, em evolução, em respeito ao outro, em convivência pacífica. E, na prática, reproduzimos erros do passado. Meu pai nunca perdeu a fé. Era simples e grande. Foi se fazendo aos poucos. Foi construindo sua trajetória em cima do solo da dor e do afeto. Bebo dessa água e partilho da sua fé. Apesar de, muitas vezes, ficar impressionado com os estranhamentos que nos fazem tão pouco humanos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2015

 

Deus e a ciência

Certa vez, uma jovem estudante enviou uma questão para um dos mais famosos cientistas de todos os tempos, Albert Einstein. A pergunta era direta: “Cientistas rezam”? E ela explicava que se tratava de uma curiosidade que os instigava, ela e o grupo de estudantes do qual fazia parte. Queriam saber se é possível, ao mesmo tempo, acreditar na ciência e na religião.

Einstein respondeu, também diretamente, sem rodeios. Explicou que os cientistas acreditam que tudo o que ocorre no que nós conhecemos, incluindo os fatos da vida humana, deve-se às leis da natureza. Os nossos sentidos são capazes de apreender sobre esses fatos. Entretanto, admite Einstein, o nosso conhecimento dessas forças é imperfeito. Por mais que a ciência evolua, ou quanto mais ela assim o faz, os cientistas que se dedicam seriamente ao seu estudo acabam se convencendo de que um Espírito infinitamente superior se manifesta nas leis do universo. O trabalho científico, conclui ele na carta, leva a um tipo especial de sentimento religioso. Que nada tem de ingênuo.

Com alguma frequência, vejo alguns intelectuais tentando demonstrar que a crença em Deus significa a ausência da real inteligência do homem. Que se trata de uma necessidade de criar Deus para justificar o injustificável e que, com todo o conhecimento disponível, com tudo o que a evolução foi capaz de nos trazer, torna-se desnecessária a existência de Deus.

O papa Francisco, recentemente, falou sobre a convivência entre as teorias científicas e a fé. Buscar explicações para a evolução do mundo não significa desacreditar em uma Força Superior capaz de originar e de gerar a vida. Até hoje, a ciência não conseguiu chegar às razões primeiras de todas as coisas. Há um aspecto a ser considerado entre os ativistas ateus. O tanto que eles falam sobre Deus tentando fazer com que as pessoas deixem de acreditar. Se para eles, Deus não existe, por que gastar tanto tempo com Ele, então? Se alguns ateus criticam os fundamentalistas religiosos – e talvez tenham razão em fazê-lo –, precisam refletir se não estão se tornando fundamentalistas do ateísmo. Os radicalismos, os desrespeitos às crenças diferentes nos separam desnecessariamente. É possível e necessário conviver com as diferenças e aprender com esses convívios.

Desde muito cedo, afeiçoei-me às ciências sociais. Sou um leitor compulsivo. Gosto de estudar os clássicos e de reler teorias sobre temas que me instigam. A fé é um deles. Por um lado, há um caminho interessante a ser percorrido pelos filósofos e teólogos que gastaram a vida para nos dar explicações sobre a nossa presença no mundo. De onde viemos? O que fazemos por aqui? E para onde vamos? Por outro lado, enche-nos de esperança olharmos a fé das outras pessoas. A fé nascida na simplicidade e na experiência com a Bondade Infinita que nos ouve as dores e nos surpreende com milagres cotidianos. A experiência do homem com a natureza, a observação da vida nas suas mais variadas formas, o belo se manifestando em amanheceres e entardeceres frios ou quentes. E o agir humano. A manifesta caridade em mulheres e homens que, alimentados de fé, alimentam os seus irmãos.

É fato que há pessoas que não frequentam nenhuma religião e que praticam a caridade. Mas é fato, também, que a inspiração do que vem de Deus independe das religiões. As religiões deveriam nos religar ao Sagrado. Deveriam nos ajudar na ressignificação do que somos. A nossa relação com Deus repercute na nossa relação com os irmãos nossos.

Quão linda a prática e a oração de Madre Tereza de Calcutá. A mulher que nos ensinou que “quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Ou Francisco de Assis que assim orou: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”.

Os livros nos abrem horizontes, a ciência nos garante mais segurança, autonomia. Retira-nos véus de ignorância sobre os mais variados temas. E é bom saber que os estudos nos trazem novidades constantes. E, ratificando ou retificando verdades, a ciência vai evoluindo. 

Mas, voltando a Einstein, o nosso conhecimento é pequeno demais para compreender a grandeza do universo e de tudo o que existe além do que conhecemos. É preciso humildade para ser cientista e para se ter fé.

Acreditar em Deus não é desacreditar no homem, é – ao contrário – valorizá-lo como a inteligência criada pelo Artista para dar continuidade à obra, livremente, respeitando apenas os limites do amor, como nos ensina Agostinho de Hipona.

Ciência e religião podem, sim, conviver, caminhar em harmonia. Uma ou outra despertam, invariavelmente, em nós, a esperança. O prazer da descoberta. A importância da busca. Einstein, cientista e homem comum, fez das pesquisas e das descobertas a sua fé: “Quando abro a porta de uma nova descoberta já encontro Deus lá dentro.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/06/2015

Inveja

Tenho um programa de televisão, todas as quintas-feiras, na Rede Vida. Chama-se “Caminhos” e vai ao ar às 23h. O tema desta semana foi “inveja”. Parte do programa é feito com os comentários, acerca do tema escolhido, de meus seguidores no Facebook. As participações são sempre muitas. Mas fiquei impressionado ao ler, em minha fan page, a quantidade de depoimentos sobre este horrendo vício que é a inveja. Pessoas que tiveram suas vidas destruídas. Perderam emprego. Adoeceram. Viram a família sendo arruinada por atitudes inexplicáveis de quem se dizia próximo, amigo.

Gostei de uma mulher, em especial, que deu uma explicação interessante sobre a diferença entre a inveja e a cobiça. A inveja, disse ela, é ainda pior do que a cobiça. A cobiça é desejar algo do outro para mim. A inveja é desejar destruir algo do outro. Ou destruir o outro. Na cobiça, eu quero o lugar dele, o que já não é correto. Na inveja, eu quero acabar com ele, mesmo que eu não possa ter o seu lugar. O que me incomoda é vê-lo feliz. Costumo dizer que o amigo verdadeiro não é apenas aquele que o ajuda nos momentos em que você mais precisa. Talvez isso seja fácil. O amigo verdadeiro é aquele que vibra com suas vitórias, porque não as inveja. A inveja é um caso sério de desamor, por si mesmo e pelos outros. O invejoso é, sem dúvida, atormentado. É mal resolvido. É ausente dos melhores sentimentos. Quem é generoso, paciente, bondoso, definitivamente, não é invejoso.

Diz São Paulo sobre o amor a que ele chama de caridade:  “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade”. Evidentemente a inveja dos outros nos incomoda, mas vale a pena refletir, se, vez ou outra, esse mal sentimento não nos toma de surpresa. Errar é parte da caminhada. Corrigir e prosseguir, também.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/06/2015

 

O menino da porteira

Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.

Eu era menino ainda quando fui assistir ao filme “O menino da porteira”. Morávamos em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, e lá não havia cinema. Tínhamos uma casa em Caraguatatuba. Íamos nas férias. Era uma casa simples que tinha apenas um quarto grande, uma cozinha, uma varanda e dois banheiros. Dormíamos todos juntos. Meus pais, eu, meus três irmãos e a Rosa, uma mulher que ajudou a nos criar. Algumas vezes, iam também meus avós e tia Leila. Não sei como cabia todo mundo. Sei que era uma festa, desde os preparos para pegar a estrada até a chegada à praia. Minha mãe passava a noite cozinhando. Levávamos comida na praia. Eu nem dormia na véspera da viagem. Empolgação de criança. A casa ficava na rua do cinema. E foi a primeira vez que fui assistir a um filme.

Assisti a “O menino da porteira”, um dos maiores sucessos da bilheteria da época. Um filme baseado em uma canção. Uma linda canção de Tedy Vieira:
 
Toda vez que eu viajava pela estrada de ouro fino


De longe eu avistava a figura de um menino


Que corria abrir a porteira depois vinha me pedindo


“toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo


Quando a boiada passava e a poeira ia baixando


Eu jogava uma moeda e ele saía pulando

”

obrigado boiadeiro que Deus vá lhe acompanhando”


Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando (….)

Olhos fitos na tela, vivi profundas emoções. A beleza da tela grande. Do som. Das personagens. Da canção. Da história daquele boiadeiro. Tudo aquilo foi tomando conta de mim. Até o final do filme. Voltei para casa triste. Chorei. Fiquei deitado pensando nas despedidas. Não me lembro muito bem dos detalhes do que pensei, lembro que fiquei triste. E resolvi ir novamente ao cinema no dia seguinte e no outro e também no outro. Fui ver seguidas vezes o mesmo filme. E voltava chorando. Era um menino, já disse.

Quando minha mãe quis entender por que eu ia todos os dias, já que todos os dias eu voltava chorando, respondi algo de que me lembro bem: “Será que sempre o menino morre no final”? Minha mãe ainda se lembra dessa história. E de tentar me explicar que era apenas um filme. E que os filmes tinham sempre o mesmo final, independentemente da nossa vontade. A canção que inspirou o filme determinou este desfecho:

Pros caminhos desta vida muito espinho eu encontrei


Mas nenhum calor mais fundo do que isto que eu passei


Na minha viagem de volta, qualquer coisa eu cismei


Vendo a porteira fechada o menino não avistei



Apeei do meu cavalo num ranchinho à beira chão


Vi uma mulher chorando quis saber qual é a razão
”boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão


Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”

Revisitando esses tempos de inocência, penso em quanto é importante para as crianças os cenários imaginativos das várias linguagens da arte. O cinema, a contação de histórias, as conversas, o território sagrado do brincar e do conviver. Os espinhos todos, nós encontramos e encontraremos na vida. Eles nos causam emoções doídas. Mas se tivermos a oportunidade de uma educação que nos ajude a compreender nossa trajetória e nos ajude a sermos dela protagonistas essas dores nos farão mais bem do que mal. Conhecermos o sofrimento nos ajuda a compreender o sofrimento dos outros e a termos compaixão. Vez ou outra, lembro as dores que já me incomodaram. Irmãos meus que morreram. Meu pai. Amigos que se foram. Dores da injustiça – como doem as injustiças! E me lembro desse filme e daquele menino que eu gostaria que tivesse sobrevivido àquela boiada. A homenagem do boiadeiro ao amigo que partiu, prematuramente, foi o respeito em não mais tocar o berrante naquelas bandas:

Lá pras banda de ouro fino levando gado selvagem


Quando passo na porteira até vejo a sua imagem


O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem


Daquele rosto trigueiro desejando-me “boa viagem!”



A cruzinha no estradão do pensamento não sai


Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais


Nem que o meu gado estoure que eu precise ir atrás


Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais.

A homenagem que tento fazer aos sofrimentos que vivi é tentar compreender os sofrimentos do outro e ajudar o outro a prosseguir. Em outras palavras, é combater, a todo custo, a indiferença. Sou profundamente grato à família que tive e tenho. Aos amigos que fui acumulando. Aos que me estenderam a mão e compreenderam minhas imperfeições. E assim tento agir com os outros que encontro por aí e que de mim precisam. Que as nossas emoções infantis, as ingênuas, as puras, as dolorosas e as alegres nos ajudem a ressignificar nossa vida. O hoje se alimenta do ontem e nos ajuda a escrever o amanhã.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/06/2015

O hábito de ser cidadão

Uma senhora de 89 anos está no metrô. Em pé. Segura-se com dificuldade. Há espaço reservado para idosos. A lei garante e a placa sinaliza. Dois jovens estão sentados nesses espaços e fingem estar dormindo. Assim, a consciência pesa menos. Um homem abre o vidro de seu carro, em uma grande avenida, e joga na rua algum lixo que o incomoda. Fecha o vidro e prossegue.  E o pior. Há uma criança no carro. Sentada no banco da frente. Tudo errado. Um casal chega a um restaurante onde há uma fila de espera. O homem saca, discretamente, uma nota de vinte reais do bolso e entrega ao maitre para que providencie rapidamente uma mesa. Não gostam de esperar. Nem de respeitar os outros. Uma mãe para o carro em fila dupla esperando o filho sair da escola. Fala ao celular enquanto disfarça o estrago que faz no trânsito. Ignora as buzinas e o olhar atravessado dos outros motoristas. Um motorista fecha o cruzamento atrapalhando uma fila de carros. Buzinam de raiva. Ele finge que não é com ele. Tem pressa. E é folgado.

Quantos outros fatos do cotidiano poderíamos citar que demonstram o quanto estamos longe de exercer o hábito de ser cidadão? Cidadania não é um conceito distante. É prático. Trata de direitos e deveres. Trata do sagrado direito de ser respeitado e de respeitar. Com alguma frequência, lascamos frases como “Este país não tem jeito”, “Eita povo mal educado”, “O que falta é ética, é vergonha na cara”. Frases que dizem alguma coisa quando são coerentes com quem as diz.

Há um ditado antigo que reza: “As palavras comovem, mas os exemplos arrastam”. A construção da cidadania depende do exemplo cotidiano. De todos. Ou isso ou seremos uma sociedade hipócrita que exige do outro o que não é capaz de fazer. E mais ainda, será difícil formar uma geração cidadã com exemplos tão erráticos. Não se colhe laranjas de um abacateiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/06/2015

O amor na Festa de São Vito

No domingo passado, fui à festa de São Vito. A festa, já tradicional no calendário da cidade de São Paulo, acontece no bairro do Brás.

Músicas incríveis: cantores se revezam no palco, com canções conhecidas do repertório italiano. Temos muito em comum com a Itália. Nossos gestos durante a fala, nossa irreverência nos comentários, nosso jeito brincalhão de viver a vida. Bailarinos também se apresentam. E muita, mas muita comida.

Comi um macarrão delicioso. E uma Ficazza de entrada. E uma outra entrada com berinjelas e cebolas muito bem temperadas. E também uma deliciosa Ficazzella. Ah, ia me esquecendo de que comi, ainda, polenta com queijo. Vou deixar a sobremesa para contar em uma outra ocasião. Mas não foram poucos os deliciosos doces que ornaram nossa mesa.

Andei um pouco pela festa e conversei com muitas pessoas que estavam ali, em família, para aproveitar a alegria, o prazer da convivência. Conheci muitos voluntários que todos os finais de semana deixam seus afazeres para trabalhar na festa que tem, também, como finalidade ajudar uma creche cuidada com muito carinho por professores e voluntários da comunidade.

Dentre as tantas histórias que lá ouvi, uma foi especial pelo tempo de um amor que foi se transformando e permanecendo. É a história da Neide e do Modesto. Casados há 56 anos, namoraram outros seis. E continuam contando histórias um sobre o outro. Em um determinado momento, ele me disse de uma viagem que fizeram à cidade de Polignano, na Itália. Contou da emoção, das lágrimas que brotaram dos olhos em um amanhecer repleto de gratidão de sua amada. Ela contou histórias sobre ele e sobre o quanto ele gosta de contar histórias. Um falava delicadamente do outro. Quase que em segredo. “É a melhor companheira que a vida podia ter me dado”, “É um homem bom, maravilhoso”. Perguntei sobre brigas. Disfarçaram quase que me explicando que essas coisas não contam. Ficaram no tempo os estranhamentos. Sobreviveram a eles. E chegaram aos tempos da cumplicidade. Fiquei fascinado com os dois. Quanta história! Quantas lágrimas regando cicatrizes e acalmando os dias que ainda viriam! E vieram. E os afetos foram amadurecendo e decidindo que o melhor era permanecer.

Casais assim servem de exemplo em tempos em que o descarte parece mais fácil do que os encaixes. Pessoas perfeitas não existem. Existe a complementaridade. O respeito. Os dois, Neide e Modesto, mais de uma vez, falaram em respeito. E muitas vezes em amor.

Esqueci-me de dizer que comi um delicioso Riccitelli. Saí de lá bem alimentado. De deliciosas iguarias. De histórias de amor.

Fica a sugestão para visitar a festa de São Vito que vai até o dia 5 de julho. Há 97 anos, nossos irmãos italianos reúnem-se em torno da Paróquia de São Vito, santo de muitos devotos na Itália, protetor dos jovens, dos artistas e daqueles que, por um acidente de percurso, tornaram-se dependentes de droga. Santo conhecido por acudir aqueles que padecem de doenças nervosas. Tradição trazida pela comunidade italiana de nossa cidade que se mobiliza todos os anos para a grande festa. Festa alegre! Colorida!

Vale a pena saborear as comidas preparadas pelas “mammas” de São Vito, senhoras de cabelos brancos e largo sorriso, que comandam as enormes panelas fumegantes. Mulheres incríveis que sorvem o prazer do cozer, do fazer, do conviver.

E quem sabe você consiga encontrar o adorável casal de que falei ou algum outro ou ouvir alguma história de uma das “mammas”.

No dia seguinte, tive que dobrar o tempo da corrida para gastar as calorias. Mas o melhor é que, até hoje, estou revivendo o que vivi. Viva São Vito! 

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97ª Festa de São Vito

Quando: De 23 de maio até 5 de julho de 2015.

Todos os sábados e domingos, a partir das 19h

Onde: Praça de alimentação – Rua Polignano A Mare, 255, Brás

Cantina – Rua Fernandes Silva, 96, Brás

Quanto: Praça de alimentação – R$ 5 couvert artístico

Cantina – Sábado R$ 65; Domingo R$ 30

Mais informações: www.associacaosaovito.com.br

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/05/2015

 

Lembra de mim?

Ouço com alguma frequência esta pergunta: “Lembra de mim?”.  Às vezes, lembro. Às vezes, não, como todo mundo. Fico um pouco preocupado em responder que não lembro. Acho deselegante, afinal, a pessoa vem com tanta expectativa que não me parece correto desapontá-la. Mas também não gosto de mentir. Então, fico revirando minha caixa de memórias para tentar identificar o meu interlocutor. Exatamente como na divertida crônica de Luis Fernando Veríssimo: O grande Edgar. Só que, nessa história, a confusão era ainda maior, pois o interpelado não era quem o interpelador pensava que fosse.

De qualquer forma, quando sou surpreendido com a fatal pergunta, costumo sorrir, esperando  que a pessoa diga, naturalmente, de onde nos conhecemos. Algumas me salvam nessas embaraçosas situações, dizendo: “Lembra de mim? Fui seu aluno na PUC!”.  Ufa, fica mais fácil.

Dia desses, um homem me abordou e demorou a dizer de onde nos conhecíamos. Ele falou: “Professor, não tem como o senhor se lembrar de mim. Fui seu aluno no Colégio Friburgo, em Santo Amaro, há mais de 20 anos. Eu era um adolescente e nunca mais me esqueci de suas aulas”. Contou-me algumas histórias que eu contava, lembrou-me de alguns projetos. Fiquei comovido. Disse-me ele que tinha muitos medos e que eu fui significativo em sua transformação.

Sou muito grato por esse ofício de ser professor. Não sei com quantos alunos, em todos esses anos, tive a honra de conviver. Sei do poder que temos quando entramos em uma sala de aula e nos deparamos com mulheres e homens carentes de espaços e de orientação para que protagonizem a própria história. Lembro-me de professores inesquecíveis que me alimentaram de futuro e que me ajudaram a compreender que eu poderia fazer escolhas corretas. Ao final da conversa, agradeci o carinho e disse-lhe que, agora, seria eu a não me esquecer de sua gratidão. Coisas da vida. Como diria Guimarães Rosa, “Mestre não é aquele que ensina, mas quem de repente aprende”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/05/2015

Bom domingo

Desde criança, ouço histórias de que o domingo, no final do dia, é sempre um pouco melancólico. “É um entardecer estranho!”, dizia uma jovem que sonhava com casamento e que morava na minha cidade. “É solitário, é como se a semana estivesse acabando e, com ela, acabassem as chances de algumas coisas novas acontecerem”, lamentava ela. Eu argumentava, dizendo que a semana acabava no sábado. Domingo era o início. E todo início nasce com alguma possibilidade. Lembro-me de um padre que falava sobre isso. Que dizia que era bom, depois da missa, ter retreta para alegrar a noite de domingo. Coisas do interior.

Ouvi gente dizendo que a melancolia do domingo vem da consciência de que o fim de semana acabou e de que tudo recomeça na segunda-feira. Ficava pensando eu, “Mas quando se trabalha no que se gosta, isso não é um problema”. O tempo foi passando, e eu fiquei com a impressão de que essa melancolia era coisa do interior. E de que, nas grandes cidades, com mais opções, o domingo era uma festa. Teatro, cinema, shopping, shows musicais, encontros interessantes. Foi quando, numa roda de amigos, ouvi alguns desabafos semelhantes àqueles da cidade de onde vim. Final de domingo é melancólico, final de domingo é quase uma dor.

“Dor”?! Perguntei um pouco chocado. “Dor do quê? Dor, por quê?” Ficaram se entreolhando e talvez imaginando que a minha pergunta não fizesse muito sentido. Que era óbvio que essa tristeza do crepúsculo dominical vinha sem ser convidada. Insisti. E eles ainda em silêncio. Então, uma amiga disse: “Vamos fazer compras?”, e outra retrucou: “Prefiro um cinema, o tempo passa mais rapidamente”.

Querer que o tempo passe mais rapidamente é não compreender sua grandeza. Cada tempo é tempo de existir sem descrenças, sem desistências. Sejam domingos sem luar ou quintas-feiras promissoras. Não importa. Reinventar as ações é prova de compreensão da vida. Cada dia tem o seu tempero.

Fiquei lembrando quantas pessoas que conheço e que aproveitam o domingo para fazer algum trabalho voluntário. Visitas a hospitais, asilos, abrigos, comunidades carentes. Contadores de histórias, fazedores de bolos ou de outras comidas. Operários das boas ações. Boas ações fazem aqueles que visitam amigos que, por alguma razão, sentem fome de gente e para quem só a solidão é presença frequente.

Para muitos, o domingo é um dia santo. Rezar nos preenche dos melhores sentimentos. Ajuda-nos a refletir sobre o que fizemos e sobre o que necessitamos para que nossa ventura na vida tenha um sentido. Muitos sentidos. Rezar ajuda-nos a ficar um pouco com as nossas feridas e com as lembranças de futuros com que sonhamos. 

Não é proibido sonhar aos domingos. Nem nos outros dias.

Fernando Pessoa, sob o heterônimo Álvaro de Campos, no início de seu poema “Tabacaria” surpreende-nos com dizeres benditos:

Não sou nada. Nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

À primeira vista, lendo esses versos, invade-nos uma sensação de vazio, de angústia, de descrença. Mais atentamente, percebemos que o eu poético confessa que pode não ser nada, mas pode ter sonhos. Só o que possui são muitos sonhos. Todos os sonhos do mundo! Que grandeza! Que bênção poder sonhar! É a presença que supre todas as ausências. É um mistério que o domingo ou qualquer outro dia pode não ver, se não desejar ver.

Que os pensamentos que vestem de tédio alguns domingos arrisquem momentos ricos de reflexão. A reflexão que agrega e não a que deprime. A reflexão de que a vida é útil, de que cada instante é precioso e de que os futuros são sempre bem-vindos. E nos desperte, também, “a sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro”. Quem sonha tudo pode. Até mesmo colorir de alegria todos os momentos de todos os dias. Não desperdicemos a vida, não apressemos o tempo, com lamúrias e queixumes. 

Bom domingo a todos! Recebamos felizes a chance de mais um início.

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Domingo

Veja, meu bem

Que hoje é domingo

Domingo eu não choro

Domingo eu não sofro

Domingo eu sou de paz

E alegria

Tristeza, hoje eu não estou

Saudade, volte outro dia

Domingo eu não sou boa

Companhia

(…)

Domingo a minha vida é o circo 

Eu sou a trapezista 

Alguém avise à dor 

Que não insista 

Tristeza, hoje eu não estou 

Saudade, volte outro dia. 

(Maria Bethânia/ Roque Ferreira)

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/05/2015

 

Mulheres fortes

“Meu marido teve que escolher: a bebida ou eu”, disse-me uma mulher em um evento na periferia de São Paulo. “Expliquei para ele: Deus te deu uma mulher maravilhosa. Eu sou maravilhosa, mas se você acha que vou de bar em bar para te buscar, esqueça”. Tudo isso ao lado do marido, que concordava mexendo a cabeça. A mulher prosseguia explicando que, quando namoravam, já suspeitava que ele tinha umas atitudes inadequadas. Ela ameaçou não casar. Ele melhorou. Depois do casamento, voltou ao erro. “Comigo não pode sair da linha”. E o marido olhava com olhos apaixonados para a mulher que falava pelos dois. 

Uma outra senhora explicou que não tinha mais filhos nem netos na creche, mas como gostava muito do bairro, passava de vez em quando nas creches para ver se algo estava fora do lugar. “Está tudo em ordem. Se não tivesse, eu falaria. Eu tomaria providências”. Uma outra falou sobre o sistema de saúde. Disse o que funcionava e o que faltava. E assim, as líderes comunitárias foram desfilando suas opiniões, com uma autoridade impressionante. Havia homens na conversa, mas eram elas, as mulheres fortes da periferia, que falavam mais, que apontavam problemas e apresentavam soluções. Soluções de quem ama o lugar em que vive, de quem não admite violência, de quem busca fazer de cada canto da cidade um canto bom para se viver. Bem informadas. Guerreiras. Cientes de que o mundo mudou. São elas que chefiam as famílias e que protagonizam as mudanças necessárias para que a cidade não deixe ninguém para trás. Confiam na educação como o caminho mais eficaz para que os filhos tenham uma vida digna. Enfrentam as adversidades com valentia. Não querem ser Amélias. São as mulheres de verdade que assumem o comando da própria vida e avisam ao medo que “sexo frágil” é um termo que não existe em seus dicionários. 

Saio revigorado desses encontros. Aprendo muito. Admiro quem não se entrega. Quem luta por suas convicções e faz história. Fiquei imaginando a luta daquele homem para não perder seu grande amor. Como diz a canção: “Aquilo sim é que era mulher”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/05/2015