Hoje é o dia da consciência negra. Data escolhida em memória de Zumbi dos Palmares. Tem gente que acha desnecessário esse tipo de comemoração. Afinal, os negros não são uma pequena minoria. Será?
Numericamente, certamente, não são. Mas o são nos cargos de comando, nos poderes constituídos, nas direções de empresas e organizações. E por quê? São os negros menos competentes do que os brancos? Certamente que não. Não querem eles assumir também o comando? Seria ingênuo imaginar isso.
Mas o que há, então, se nossa constituição e nossas legislações infraconstitucionais são abundantes na proibição dos preconceitos e de toda forma de racismo?
As leis vieram para corrigir um erro histórico, mas as mentalidades ainda demoram a mudar. Foi ontem que vieram esses nossos irmãos em porões de navios. Castro Alves põe sua alma para denunciar a ausência de alma com que foram tratados mulheres e homens, feitos escravos, arrancados de suas terras, e que atravessam os mares com esperanças nenhumas.
Como eram aqueles porões? Quanta dor presenciaram? Quantas lágrimas incontidas? Porões do horror e da ausência de humanidade.
Transcorridos tantos anos, ainda há porões de preconceitos nas mentes de nossa gente. Piadas desnecessárias, comentários chulos, atitudes incorretas; já poderíamos ter superado esses erros. Mas os porões do racismo persistem. Vez ou outra, aparecem, nas mídias sociais, criminosos querendo lançar achincalhes. Elegem negras e negros que têm visibilidade, que romperam grilhões para viver a esperança e saem em decisão de ataque. Feias posturas de quem pouco entende das belezas da convivência, da pluralidade, do respeito, do amor.
Um dia, talvez, a data da consciência negra seja apenas um registro de feitos heroicos do passado. Hoje, ainda temos muito trabalho. Muitas limpezas nesses porões da consciência que persistem nos erros de ontem. Humanos é que somos. E então?
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/11/2015

Lygia Fagundes Telles foi homenageada, na última quinta-feira, na Academia Paulista de Letras, dentro da programação do EMIL – Encontro Mundial da Invenção Literária. Mais de 120 autores dos quatro cantos da Terra e de todos os cantos de nosso país participam desse evento que termina hoje. Conferências, diálogos, debates, saraus, contação de histórias trazendo o universo do livro e dos autores. A obra e os criadores. Sentimentos que nascem das tramas da vida e percorrem as páginas dos livros. E o caminho inverso, também.
Crianças não deveriam ser tristes. Não deveriam experimentar a dor antes de criarem anticorpos na alma para isso. Com o tempo, vamos criando esses anticorpos. Combatemos os vírus da frustração, da desilusão, da traição e tantos outros com o tempo e com as experiências acumuladas de uma vida dual. Dual: bem e mal, bondade e perversidade, verdade e mentira, humanidade e sua ausência.
Já sofri a dor da perda. Já enterrei amores. Já chorei as ausências. E não foram poucas. Partes nossas se vão. Difícil recompô-las. Elas se vão sofridas acompanhar os que gostaríamos que, por aqui, permanecessem. Encontrar palavras para o consolo não é fácil. Talvez não seja possível. Racionalizar o que acontece com os nossos mortos é quase ingenuidade. Como saber? As religiões não dão detalhes. Nem poderiam. Ou se tem fé ou não se tem. E, mesmo tendo, não tem a fé o poder da cicatrização imediata. Não estanca a saudade que barulhenta nos lembra, o tempo todo, do que perdemos. É uma perda, sim. Não há como negar. Perdemos a presença, o colo, o abraço, as histórias. Perdemos e é assim que é. Guardamos, entretanto, o que vivemos. O passado não nos pode ser roubado. Mas, no momento da separação, o passado parece até atrapalhar. Cada foto, cada filme, cada viagem no caldeirão da memória nos queima. E voltamos ao choro. E voltamos à consciência de que os momentos de amor precisam encontrar outra canção. Quando a morte vem, com ou sem despedidas, a dor que permanece é aguda. Voltar para a casa, depois de um enterro, é quase que um corte no que somos e no que gostaríamos de continuar a ser.
Cássia é uma contadora de histórias. Professora dedicada, encontrou nas histórias um caminho para despertar sentimentos e atitudes. Muitas histórias começam com “Era uma vez”. Há, na esfera dos afetos, espaços para acolher essas histórias. Lembranças de embalos infantis ou adultos. De marcas que foram ficando. De pessoas, talvez, que nos surpreenderam com seus ditos fabulares ou reais. “Era uma vez” poderia, vez ou outra, não ser. Como é o caso da história contada por Cássia dia desses. Éramos um grupo de educadores sentados, atentos ao seu enredo. E ela começou. Poeticamente, entoou seu canto de misericórdia, lembrando a dor de um índio Pataxó que foi morto em Brasília.
No dia 12 último, celebramos a festa da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Romeiros de cantos diversos foram à casa da Mãe para cantar a simplicidade e sonhar com dias melhores. Festa da fé. No dia anterior, em Belém do Pará, uma multidão veio de cantos diversos para caminhar com a imagem da Virgem de Nazaré. Não há competição entre uma ou outra. Trata-se da mesma Maria, da mãe de Jesus, que é lembrada com nomes diversos por razões diversas. Nossa Senhora de Fátima ou de Lourdes ou da Piedade ou de Guadalupe ou da Glória é a mesma que a de Aparecida ou Nazaré. É a mãe do Filho de Deus. É a intercessora junto ao Mediador.