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Minha Mãe é Uma Estrela

Tenho 6 anos.

Meu nome é Gabriel. Minha mãe dizia que me deu esse nome para que eu fosse um anjo. Minha mãe morreu faz pouco tempo. Quando nasci, ela já estava com câncer. Antes de mim, veio uma irmãzinha que viveu quase nada. Logo depois, minha mãe foi percebendo um caroço no seio. O médico, que talvez não tivesse tido a devida atenção, disse que era por causa do leite que endurecera por causa da morte da minha irmã. Ela aceitou a explicação e prosseguiu.

Ficou grávida de mim. Agradeceu a Deus. Eu nasci. Um outro médico logo percebeu que o antigo caroço não era leite endurecido, mas um tumor maligno. Ela teve que tirar o seio. Eu começava a entender a dor, quando o câncer começou, tempos depois, a ocupar-se do seu pulmão.

Eu ficava triste com suas crises. Aprendi o que era balão de oxigênio. Aprendi a chorar contido para não incomodar ainda mais e para estar pronto para ajudá-la. Meu pai sempre foi muito nervoso. Agora, piorou.

Minha mãe morreu. E no dia do meu aniversário. Um mês depois, meu pai já estava namorando. Fiquei muito triste, mas não pude dizer nada. Tenho 6 anos. Ele diz que nada entendo da vida dos adultos. Que tenho que lhe obedecer. A namorada do meu pai também é nervosa. Fala pouco comigo. Às vezes, grita. Diz que eu não paro quieto. Ela desarrumou toda a casa. Mexeu até nas santas da minha mãe. Até na imagem do Anjo Gabriel. Não sei onde ela colocou. Perguntei e ela gritou alguma coisa que eu não entendi. Meu pai brigou comigo, quando chegou. Disse que eu não podia ficar maltratando a sua namorada. Eu não sei que história ela contou. Mas fui eu que fui maltratado. Fiquei quieto. Ou melhor, queria ter ficado quieto. Mas não aguentei e comecei a chorar. Ele ralhou comigo. Disse que homem não chora. Que estava na hora de eu deixar de ser criança. Tenho 6 anos, repito.

Enquanto meu pai falava, ela olhava com olhos de vitoriosa. Fiquei pensando comigo mesmo que quem quer ser vitorioso de verdade não pode mentir. Meu pai gosta de ficar beijando a namorada o tempo todo. Não se incomoda se eu estou por perto. Acho que ele poderia ter esperado um pouco. Talvez minha mãe esteja vendo. Depois ela vai se ocupar de outras coisas lá no céu e aí ele namora como quiser.

Ontem à noite, fiquei olhando para o Céu. Estava tão bonito. Fiquei olhando e pensando na minha mãe. Foi quando vi uma estrela muito, mas muito brilhante. Eu não tive dúvidas. Era minha mãe. Ela estava olhando para mim. E lá ela não tem crises, não vomita, não têm dores. Minha mãe é uma estrela. E ela vai me levar para morar com ela.

Ela me deu um nome de anjo, mas não me deu asas. Não foi por mal. Esse poder, ela não tinha. Nem o poder de me ver crescer. Ela me beijou muitas vezes e disse que não tinha medo de morrer, só tinha pena de não poder ficar comigo.

Não tenho raiva do meu pai. Só fico triste por ele não respeitar a minha dor. Minha avó chama isso de luto. Minha avó diz, também, que as pessoas apaixonadas fazem coisas que não devem. Depois a paixão passa e o que foi feito já foi. Não quero julgar meu pai. Só não gosto de ficar perto dele. Talvez ele também esteja sofrendo pela morte da minha mãe. Talvez. Cada um sofre de um jeito. Hoje, estou mais calmo. Depois de ontem, quando a vi no Céu. Brilhando. Foi o jeito que ela encontrou de sorrir para mim. Ela vem me buscar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: O Dia e Diário de S. Paulo) | Data: 25/09/2016

O Amor e as Imperfeições

Era um dia qualquer. Hora do jantar. A filha, quase adolescente, tinha os olhos marejados. Chorara solitária lamentando algum erro.

A mãe e o pai, atentos, perceberam logo. A mãe disse à filha que depois conversariam. O pai quis saber o que ocorrera. Entre eles havia diálogo. E ternura.

O irmão mais velho estava apressado. Mas guardou sua pressa e permitiu que a irmã dissesse algo. Ela não quis dizer. Pediu desculpas, mas preferia o silêncio e, se possível, ir para o quarto. O pai lhe disse que poderia ir, mas, se ela não dissesse o que estava acontecendo, ele ficaria muito triste. Ela era sua filha, o seu amor. E ele estava ali para emprestar a sua ternura, qualquer que fosse o ocorrido.

A filha chorou e, entre soluços, soltou: “Eu errei”. E não conseguiu prosseguir. O pai a abraçou e emendou: “Eu também”. A filha olhou para o pai e quis saber quando. O pai prosseguiu: “Hoje”. Deu uma pausa e seguiu: “Ah, ontem, também”. E mais um silêncio e uma troca de olhares: “E, também, antes de ontem”. A filha sorriu. “Pai, estou falando sério. Tirei nota baixa. Isso nunca tinha acontecido. Fiquei nervosa. Não sei o que aconteceu. Era prova oral. Eu…”. O pai interrompeu a filha e levantou o copo com suco. “Vamos brindar”. “Brindar?!”, estranhou a esposa. “Brindar a imperfeição da nossa filha. Ela é como nós. Ela erra. Que bom. Ela é humana”. A filha abraçou o pai, sorrindo.

Cena do cotidiano de uma família. Poderia ter tido outro desfecho. Há pais que projetam nos filhos o sucesso que não obtiveram na vida. Há pais que sonham com filhos perfeitos. Que não erram jamais. Que não demonstram nenhuma fragilidade. Que sejam heróis. Os heróis de verdade não são os que não cometem erros. Os heróis de verdade são os que se preocupam com os erros dos outros e com os próprios e que se põem a caminhar fraternalmente. Nas quedas, é bom encontrar uma mão que nos ajude a levantar e um abraço que nos ajude a perceber que não estamos sós. Nas quedas, é bom saber que a vida prossegue. E que os instantes se sucedem nos explicando que o tempo do amor tem o poder de cicatrizar a dor.

O problema da menina pode parecer simples. Uma nota baixa. Mas um vulcão de medo a tomou desprevenida. Medo de não dar certo na vida. Medo do erro. Medo de não ser amada por isso. O pai mostrou o cenário correto. Todos nós erramos. E os erros nos humanizam! Os erros nos aproximam. Os erros nos preparam para o acerto maior. Ter um norte na vida. Um tema. Uma disposição para cuidar e ser cuidado. Amar e ser amado. Generosamente. Brindemos a família, então. A que erra. A que ama.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 11/09/2016.

Saudade de mim

Assim ela me disse em uma manhã ensolarada:
“Saudade de mim…”. “Tenho saudade de mim”.

E relatou a sua história. :
Depois de alguns anos de namoro, apaixonou-se por outro. Ficou em dúvida se prosseguia a sua relação ou se buscava viver o que acabara de aparecer.

Quem chegou chegou dizendo palavras de amor. Fez promessas de tempos únicos para os dois. Alimentou-a do que ela sentia falta. O outro namorado já estava acomodado com o tempo de convivência. Parecia uma relação boa, mas sem a quentura que é tão atraente quando se fala de amor.

Entre os dois, ela ficou. O primeiro trazia estabilidade. Ela o amava. Definitivamente, amava-o. Gostava de estar com ele. Gostava de sua disponibilidade em dela cuidar. Mas o segundo era como um furacão. Os dizeres. Os toques. Os olhares. Sentia-se mal. Não queria enganar alguém com quem dividira tantos momentos de encantamento. Mas como desperdiçar alguém que chega assim com tanta fome de paixão?

Ao segundo, explicou que tinha o primeiro. O segundo disse que esperaria algum tempo, mas que se sentia mal em saber que “o amor da sua vida” ainda tinha outro. Ela falava que não sentia nada pelo outro, mas que não era fácil terminar uma relação em que não havia brigas, não havia desrespeitos, havia apenas a ausência do que hoje ela sente pelo que chegou. O que chegou gosta do que ela fala. O amado é ele. O outro é apenas uma acomodação, e o tempo vai fazê-lo partir.

O tempo, em vez de trazer alívio, trouxe angústia. Como atender ao telefone do que chegou se, o que estava, estava perto? Buscava ficar sozinha para falar com o outro.

O outro não gostava de ligar e de demorar para ser atendido. O outro era mais exigente. Ela tinha que decidir.

Resolveu dizer ao amor que chegou primeiro que não mais o amava. Não foi fácil a preparação. Chorou sozinha imaginando a dor que poderia causar a alguém que a fizera tão feliz. Mas era preciso ser sincera com ela e com eles. Falou, então. Fez uma introdução permeada de choros e de dizeres desnecessários e falou. Disse que havia se apaixonado por outro. Que o que eles viveram foi lindo, mas era preciso mudar a página. O que ouviu fez-se de compreensivo. Disse que jamais queria vê-la infeliz. Que o amor é assim. Ela achou que ele aceitou muito passivamente a despedida. Sentiu-se confusa. Um pouco aliviada e um pouco desprezada. Imaginou que haveria muito choro. Só ela chorou. Imaginou que ele dissesse que faria qualquer coisa para não perdê-la. Não foi isso o que ele fez.

Com a cabeça inquieta, foi encontrar o que chegou e contou a história à sua maneira. Disse que foi difícil. Que ele prometeu jamais esquecê-la. Que chorou muito. Que imaginava que envelheceriam juntos. E continuou com sua narrativa inventiva e dramática. O que chegou ouviu e sugeriu a ela que não deixasse o outro. Que ele estava inseguro em entrar em uma relação assim. Que havia pensado melhor e que, talvez, não fosse justo desmoronar uma casa que, há muito, já os aquecia. Ela ouviu estupefata e começou a cobrar as palavras de antes. As exigências de que ela fosse apenas dele. O amor que ele jurara ter por ela. Ele foi carinhoso, mas não como antes. Ficaram juntos algumas semanas. Foi quando ele resolveu terminar. Subitamente. Juntos, não eram como ele tinha imaginado.

Ela não sabia o que fazer. Chorou muito. Viveu tempos inseguros. As semanas com o novo amor não foram leves. O peso de aguardar sua ligação. O incômodo de ligar e se sentir incomodando. A vontade de ligar o tempo todo. Por que ele mudou?

Ligou para o outro. Que a atendeu carinhosamente. Disse com docilidade que tinha saudade. Ele falou que seria bom se um dia saíssem todos juntos. Os dois casais. Falou que estava namorando.

Ela ouviu com dor esse relato. Não disse que havia terminado com o tal amor da sua vida que chegou fazendo tanto barulho e se foi deixando nada. Disse que sim. Que, certamente, marcariam para saírem juntos.

Desligou o telefone e ficou envolta em dúvidas. Ele já estava com outra antes de eles terminarem? Por isso ele aceitou sem reação alguma? Conheceu depois? Tão rapidamente? Pensou em ligar para o outro. Não. Não faria isso.

Fez. Ligou. E o outro atendeu friamente. Estava ocupado. Ocupou-se tanto dela antes. E, agora, ela era um estorvo, apenas.

Foi quando a encontrei em um dia ensolarado. Contou-me e esperou resposta. Disse que tinha certeza de que o amor verdadeiro era o primeiro. Mas que, agora, parecia não ter conserto. Depois, confessou que quem ainda ocupava seus pensamentos era o segundo. Por fim, confessou. Gostaria de, pelo menos por um tempo, não pensar nem no primeiro nem no segundo. O que achei bom, mas difícil. Em matérias de paixão, os pensamentos não permitem que decidamos nós em quem pensar.

O dia estava ensolarado. Bom sinal. Em um outro dia assim, ela vai abrir a janela e perceber que passou. Talvez passe pela sua cabeça ter feito a escolha errada. Talvez, não.

Escolhas são sempre desafiadoras. O amanhã nasce hoje. Parece desnecessário lembrar. Não é. Não temos a máquina que nos faz voltar no tempo para arrumar as coisas nem a máquina que nos permite ver o que será o futuro.

É um aprendizado separar a serenidade de um amor dos solavancos de uma promessa de amor. Espero que ela se encontre. Sentir saudade de si mesma foi um bom começo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2016

Ele é importante?

Foi essa a pergunta que um conhecido fez a mim sobre uma pessoa que acabara de entrar em um evento: “Ele é importante?”. “Como assim?”, perguntei. Meu interlocutor disse que costuma ir a eventos para conhecer pessoas importantes. Que isso é muito importante. Há pessoas que importam e outras que não importam, pensa ele. Fiquei estarrecido. Sei que há muitos que assim agem, mas disfarçam. Esse foi direto. Queria apenas conhecer pessoas importantes.

Não sei o que significa uma “pessoa importante”. Para mim, todas as pessoas o são pelo simples fato de serem pessoas. De existirem. De fazerem parte de um mundo em construção. Construir relações baseadas em algum interesse é sempre frustrante.

E pobres daqueles que, ao serem incensados por terem um cargo de destaque, por terem dinheiro, por serem considerados uma celebridade, mudam o comportamento e se alimentam desses aduladores. Ser importante é circunstancial. Ser amigo é essencial. Os que se iludem com as circunstâncias, certamente, conhecerão o abandono. Os que buscam “pessoas importantes” mudam sua busca de acordo com o momento. Se alguém se fascina com o importante que chegou, seu fascínio mudará quando outro importante chegar. O fato é que os verdadeiros amigos se revelam nos momentos de infelicidade, nos momentos em que a vida nos faz experimentar as quedas, nos momentos em que, mesmo não sendo “importantes”, temos importância. Relações descartáveis não prestam para nada

O importante é construir laços de amizade. É sentar com um amigo que não tenha nada para oferecer além do tudo que representa uma amizade. Conversar pelo prazer da prosa. Encontrar-se pela poética do encontro. Sentir o calor que o outro pode me proporcionar, porque está vivo e, se está vivo, é capaz de aquecer. Apenas isso. Nada mais triste do que não ter amigos. Ao final do evento, fui para casa pensando nisso. E agradecendo a Deus pelos mestres que tive e tenho na vida e que me ajudam a ter sempre os pés no chão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/06/2016

Aos que aqui ficaram

O desamor matou mais uma vez. O ódio pareceu vitorioso no triste fim de vidas que buscavam alguma alegria. Era uma boate.

Poderia ser um clube. Uma escola. Um cinema. Um prédio de trabalho. Uma praça. Uma rua em que atletas corriam. Esses lugares também foram manchados por radicalismos criminosos.

Como virar a página? Como chorar a dor das famílias buscando algumas ações que garantam que outras famílias não enterrem seus mortos, vítimas desses horrores?

A palavra do Papa Francisco é sábia. Mais uma vez. A de Barack Obama, também. Já a de Donald Trump, lamentável. O discurso do ódio nunca conseguirá combater o ódio. Violência não se combate com violência.

As superficialidades só interessam aos demagogos. Precisamos de um aprofundamento nas causas que geram esses monstruosos crimes. Educamos para o respeito ou para o escárnio? Buscamos uma convivência harmoniosa ou uma disputa desenfreada por saber quem é o melhor? Damos o exemplo da tolerância ou nos julgamos acima dos que imaginamos diferentes de nós? E falo da tolerância no seu sentido mais pleno. A tolerância que significa respeito à riqueza do outro, daquele cuja diferença me ensina, me complementa, me faz melhor. Não é a tolerância em estado dicionário que denota suportar, aturar aquele que pensa, vive e ama diferente de mim. Esse é o significado da tolerância que alimenta o falso sentimento de superioridade em relação ao outro. Não há pessoas de primeira ou segunda categoria. É preciso educar para que se entenda que a diferença é a base da essência humana. Não há duas pessoas iguais no mundo. E a riqueza do homem reside nisso.

É preciso, portanto, cuidar da semeadura. Qual é a semente que se planta em casa e na escola? Pais que se agridem plantam qual semente? Pais que agem e falam com preconceito sobre o que veem nas mídias ou nas ruas plantam qual semente? Professores que desconhecem o significado da cooperação em uma sociedade baseada na competição plantam qual semente? Jornalistas ávidos por informações pouco cuidadosas, desconectadas da verdade, capazes de destruir vidas alheias, plantam qual semente? Programas de rádio e televisão cujo ódio pulula na boca de apresentadores que não têm nenhum compromisso com a verdade e com a ética plantam qual semente? Líderes religiosos que propagam o ódio a quem eles consideram pecadores plantam qual semente?

Quem mais nos influencia? Redes sociais? Clubes? Shoppings? Parques? Como se comportam as pessoas nesses espaços? Que semente estão plantando?

Há uma comoção mundial em tragédias como a de Orlando. E é preciso que haja. A dor do outro deveria doer na gente.

Mas, aos que aqui ficaram, é preciso ação. No combate ao terrorismo e a toda forma de violência. Ações de governos e de organismos internacionais.

Mas é preciso ir além. É preciso pensar na floresta que queremos amanhã. Ela começa nas sementes que plantamos hoje.

Preocupa-me o ódio cotidiano. Os ditos incorretos revestidos, às vezes, de algum humor. O descontrole diante do que pensa diferente de mim. Os ataques de moralidade frente ao outro que julgo ser imoral. Preocupe-me a ausência do amor na convivência.

Eu não mato uma namorada por ela ter decidido que não é comigo que ela quer viver. Eu não agrido quem vota em um partido diferente do que eu voto. Eu não espanco o que torce para um time rival ao meu. Não. Essas falsas valentias só nos mostram a covarde face de quem semeia o mal.

“Quero cumprir o meu papel, semeando a correta semente “, esse seria um bom começo para os que querem um mundo melhor. Amanhã. E hoje.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2016

Namorar, verbo bom de conjugar

Namorar é conhecer, é cortejar, galantear.

Namorar é celebrar a presença mesmo quando a presença está ausente. É lembrar que se tem alguém para amar. É elevar.

No início de um namoro, há o desejo e o medo. O desejo de que seja real o que parece onírico. O desejo de que seja eterno o pulsar mais valente do coração. O desejo de que seja correspondido. E aí vem o medo. O medo de que seja ilusão, apenas. O medo de que os defeitos do outro sejam impossíveis de serem tolerados. O medo de que os meus defeitos afastem a pessoa amada. Desejo e medo causam bagunça. Mas os inícios de namoro sempre trazem alguma bagunça. Bagunça o pensamento, o cotidiano, as escolhas. Uma bagunça boa, talvez. Lembrar as frases ditas. Lembrar os olhares. Lembrar os primeiros afagos. Mesmo a quem não assume, o romantismo faz um bem enorme. Há quem comece um regime, há quem se matricule em uma academia de ginástica, há quem compre roupas novas, cuide melhor do cabelo, da pele. Afinal, há alguém com quem dividir os dias.

O tempo pode ser aliado ou não do namoro. A rotina pode ser deliciosa ou corrosiva. As palavras de delicadeza pronunciadas nos inícios não podem se esconder nos dicionários. Mesmo que o namoro não esteja no início, sempre haverá um início. O início de um ano, o início das férias, o início da primavera, o início de um dia. Há sentimentos que combinam com esses inícios. E, também, com as partidas. No início, quando um dos dois viaja ou quando apenas vai para casa, há despedidas carinhosas. Há um secreto desejo de que o tempo em que estarão separados passe rapidamente, e o tempo em que estão juntos não passe.

Passados alguns anos, depois de muitas despedidas, depois de alguma segurança de que as despedidas são provisórias, as despedidas perdem o seu encantamento. Ou não. Há namoros que perfumam o cotidiano com os mais tenros dizeres. Independentemente se tudo começou ontem ou há 50 anos. Namoros em que um boa-noite é sempre colocado com a intenção de que quem eu amo tenha a melhor noite do mundo. E que um bom-dia seja a frase ideal para esclarecer que o meu dia é bom porque o outro existe dentro dele.

Há quem esteja sem namorar há algum tempo. E há aquele que desacredita no amor. Talvez por incursões fracassadas em namoros insinceros. Talvez por abandonos ou por paixões que não foram correspondidas. Dor de amor é dor doída demais. Mas passa. Um dia, o dia diz que é hora de viver novamente sem a onipresença do amor que não me amou no meu pensamento. E outras possibilidades surgirão. Certamente, surgirão. Há ainda as teimosias do amor. Há gente que vê amor onde não há. Pessoas que projetam um amor em quem já tem o seu amor ou não demonstra nenhum desejo de reciprocidade. Namorar alguém e ser correspondido é elevação. Namorar alguém e não ser correspondido é desperdício. Não sei se há um amor à primeira vista ou se há desejo que vai se transformando em amor com o namoro, com o conhecimento. Não sei se há um amor maior, um namoro que foi muito melhor do que os outros ou se as comparações já são, em si, ruins. Não sei o que faz com que o cupido fleche alguém e determine que esse alguém terá algum senhorio sobre mim. Só sei que viver sem amor é viver sem o tempero mais saboroso que já se inventou. Amor est vitae essentia

Uma visita indesejada

Ruth tem marido e quatro filhos. Todos trabalham. Exceto os dois menores que vão à escola. À noite, todos se encontram em casa. Jantam juntos. Conversam sobre o dia. Entrementes os problemas de toda família, são o que se pode chamar de pessoas felizes. Em alguns finais de semana, viajam. Quando os filhos eram pequenos, viajavam com mais frequência. Agora, precisam entrar em acordo. Há algumas festas em São Paulo e os mais velhos gostam de frequentá-las. A casa de praia guarda muitas histórias, histórias boas do passado.

Ruth tem uma conhecida que, ao menos uma vez por semana, aparece para visitá-los. Quando ela chega, os que estão em casa se acomodam na cadeira e respiram fundo. A visita é sempre portadora de notícia ruim. Dela mesma ou dos outros: o marido é uma peste. A filha arruma um namorado pior que o outro. A vizinha, que enviuvou faz pouco tempo, tem levado gente estranha para casa. A rua está suja. A política vai de mal a pior. As novelas não prestam. Médico é tudo a mesma coisa. O tempo está maluco, o tal do efeito estufa está acabando com nossa paz etc. Enquanto fala, um filho levanta, depois o outro, depois o marido e, na sala, ficam apenas ela e Ruth. Não há economia nas reclamações. Ruth tenta animá-la contando alguma coisa boa. Ela, imediatamente, consegue ver algo ruim na notícia boa. “A filha do Alceu está namorando”, diz Ruth. “Muito difícil durar esse namoro, muito difícil”, conclui ela. “Nós vamos à praia no próximo final de semana”. “A dengue está correndo solta por lá e a previsão é de chuva, muita chuva”. Ruth, vez ou outra, pergunta a si mesma por que aceita aquela visita. Por que não se recusa a recebê-la? Quando ela se vai, há um cansaço que demora algum tempo para ir. A família se recompõe. E tudo volta ao normal.

Ruth agradece pela família que tem e dá uma desculpa para si mesma. “É melhor que ela venha, que eu preste bastante atenção no quanto ela é chata para nunca ficar assim”.

4 faces do amor

Esse é o título de um musical que está em cartaz, em São Paulo, no Teatro Nair Belo. O autor é um jovem dramaturgo, talentoso escritor, Eduardo Bakr. A trama se passa em histórias cruzadas de dois homens e duas mulheres. Os nomes já surpreendem e apresentam uma semântica própria para estabelecer que, o que ocorre, ocorre entre as mais diversas relações de amor. Os atores, Amanda Acosta, André Dias, Jarbas Homem de Mello e Sabrina Korgut estão impecáveis. A direção de Tadeu Aguiar é muito cuidadosa para um texto e uma encenação tão cheios de pequenos “não-ditos”. A música de Ivan Lins se encaixa muito bem com a trama. Enfim, está feita a sugestão: o espetáculo é imperdível.

Quero, agora, me aprofundar no texto de Eduardo Bakr. Já li outros textos dele. Já li alguns de seus livros infantis. Eduardo é um talento. A temática do amor é necessária; porém, sempre perigosa. Amar, aliás, exige coragem. Falar de amor, também.

O amor tem uma face? Qual seria a face do amor?

No alto do prédio, alguém pensa em desistir da vida. Ou não. No alto do prédio, alguém lá está por alguma intuição de conhecer um amor. Desistir da vida pela ausência de amor? Não, a personagem não queria cair, queria flutuar. Mas esses descuidos podem ser fatais. Não quando surge um amor. Será?

Passado o susto do primeiro encontro, a surpresa das diferenças, nasce a rotina. Os dizeres que ora aquecem, ora esfriam, uma história de amor. A ausência de cuidado é sempre um perigo. Mas o amor tem 4 faces?

Os gregos usavam o número 4 para falar de completude. Os primeiros filósofos das províncias jonicas da Grécia ousaram sua explicação para o princípio de tudo a partir de 4 elementos: terra, água, ar e fogo. Aristóteles falava em uma vida correta, tetragonalmente correta, isto é, correta em todos os lados, perfeita, portanto.

O amor é perfeito? Refaço a pergunta. O amor real é perfeito? Ou apenas o ideal? Ou a perfeição estaria apenas no Amor Maior? Os amantes, certamente, não são perfeitos. E isso fica claro no texto de Eduardo Bakr e na vida. São as imperfeições que nos arregimentam para vivermos juntos. E por que, então, temos medo de falar em complementariedade? O final da peça é feliz. Justificadamente feliz. Como as lindas histórias de príncipes e princesas que nos acalmavam nos nossos inícios. Éramos pequenos quando ouvíamos essas histórias, sofríamos nas tramas que uniam o início explicativo ao final apoteótico. Sempre há algo de incômodo a invadir os nossos cômodos. Éramos pequenos. Em matéria de amor, seremos sempre pequenos. E, paradoxalmente, grandes. Magias do amor. Elevamo-nos como a personagem que queria flutuar. Elevamo-nos ao pensarmos no outro. E nos apequenamos com pequenezas que não deveriam existir.

Nas 4 faces do amor, há um momento em que parece que as despedidas são necessárias. Até são. Há muitas partidas nas nossas travessias. Mas o autor é generoso e o espectador sai com vontade de amar. Com esperança de, enfim, ver o sonho do amor alcançado.

Amanda Acosta, André Dias,Jarbas Homem de Mello e Sabrina Korgut em

4 FACES DO AMOR, o musical
De Eduardo Bakr
Músicas de Ivan Lins
Direção musical de Liliane Secco
Direção de Tadeu Aguiar
Sexta a domingo no Teatro Nair Bello

Sobre a hipocrisia e outras maldades

Tenho desprezo pela hipocrisia. Prefiro os que, olhos nos olhos, abrem as comportas dos sentimentos e revelam apoio ou reprovação aos que se vestem de afáveis e espalham maldades.

Piores ainda são aqueles que, nas doces palavras, tentam convencer o interlocutor de que só dizem o que dizem por amizade. Por preocupação.

Dia desses, um amigo revelou sua decepção com um outro amigo. Contou-me ele que esse falso amigo falou para uma, duas, três, quatro ou mais pessoas sobre um erro que ele achava que o amigo havia cometido. “Oras, por que não disse diretamente a mim?” -bradou, desconfiado do amigo.

Concordei com ele. Amigos falam aos amigos. Amigos não espalham o que nem sabem. Os hipócritas fazem isso. Jesus não tolerava os hipócritas. E há tantos hipócritas que usam o nome de Jesus. E ganham notoriedade, inclusive, por isso. Mas continuo convicto de que essas pessoas não são felizes. Nunca conheci um atirador de pedras feliz. São atormentados que fingem boas maneiras. Ou, nas palavras de Jesus, são sepulcros caiados, raça de víboras, hipócritas. Jesus não se irritou com os pecadores. Pelo contrário. Veio amenizar suas dores. Irritou-se com os religiosos que, embora tivessem o título, nada entendiam da verdade, da religião.

Há outras maldades que também perturbam a vida. Nas esferas das amizades, vale lembrar a ingratidão. O que se faz a um amigo se faz por convicção, não por esperar reconhecimento. Mas, certamente, na ciranda dos afetos, é preciso que se aprenda a agradecer. E a se lembrar do que foi feito. Gratidão é um sentimento que não prescreve.

Àqueles que já viveram essas decepções uma singela sugestão: prossigam acreditando nas amizades. Há hipócritas por toda a parte, mas há os generosos, os verdadeiros, os amantes das pessoas e dos instantes. Aqueles que não desperdiçam esses instantes para destruir pessoa nenhuma quanto mais um amigo.

Uma carta de Maria

Recebi uma carta. Letra elegante. A remetente chamava-se Maria. E, depois, vinha o sobrenome. Não posso dizer, pois não pedi sua autorização.

Maria é professora em uma cidade pequena do interior de Minas Gerais. Justificou o envio da carta, e não de um e-mail, porque gosta das esperas. Parei nesse ponto da leitura e fiquei lembrando quantas cartas eu escrevi e recebi. Como era bom, na minha pequena Cachoeira Paulista, ver o carteiro chegar. Lia uma, duas, três ou mais vezes a mesma carta. E não respondia com atropelos. Dormia com os ditos da carta. Refletia. E, no outro dia, tecia o enredo da resposta. Sem pressa.

Continuei lendo o relato de Maria. Partilhava comigo o prazer de lecionar. Leu alguns livros meus e queria testemunhar o que eles significaram no sagrado chão da escola. Contou-me do que é viver onde vive, lecionar onde leciona, morar onde mora. Falou das montanhas da sua Minas Gerais. Viajou pouco, mas por onde andou levou com ela o desejo de voltar. Nada é melhor do que estar onde se deve estar. Parei novamente e fiquei imaginando a sua volta para casa. Alguns dias de férias, algumas experiências em outros cantos e o canto da gratidão ao rever, na estrada, o nome da cidade em que nasceu. A sinalização dá conta de que falta pouco para beber da sagrada água. Água de bica. Pote de cerâmica que mantém o frescor da temperatura. Goles vagarosos para se sentir o prazer que um copo de água é capaz de proporcionar.

É professora há muito tempo. Já tem tempo para requerer a merecida aposentadoria. Mas prefere postergar. É bom estar com os alunos. Filhos de outros alunos. Talvez netos. O tempo e os seus caprichos. Fiquei curioso para ver sua imagem. Imaginei, então. Nem muito alta nem muito baixa. Cabelos elegantemente arrumados. Maquiagem leve. Roupas adequadas. Salto alto não tão alto. Alguma joia delicada, herança de família. E a casa? Com pomar, com horta, com fogão a lenha. Talvez não. Poucos resistiram.

Continuo a leitura. Diz ela que ficou feliz quando eu disse, em uma entrevista, que meu pai nasceu em Belo Horizonte; é mineiro, portanto. Fiquei tentando imaginar o seu sotaque. Gosto do sotaque de Minas. Há vários. Gosto da musicalidade, da cadência, das junções de palavras.

Maria não falou de marido ou filhos. Será que é solteira? Será que é viúva? Será que revelará esses outros detalhes em uma outra carta? Em um ou outro trecho brincou com dizeres de outros escritores. Falou da poesia do cotidiano e dos sonhos que ainda movem seus afazeres. Prefere a leitura aos programas de televisão. Prefere os clássicos aos jornais ou revistas. Ouve música e imagina. Da música, disse apenas isso. Imagina o quê? Que tipo de música? Há excelentes cantores mineiros. Falou sobre sua mãe que, também, era professora. E sobre alguns outros assuntos. Ao final, as despedidas.

Vou responder sua carta. A mão. Vou fazer algumas perguntas que a minha curiosidade exige. Gostei de Maria. A começar do nome. Depois da profissão. Depois da composição correta de seu arranjo. Quem sabe um dia eu a encontre? Ou não. Quem sabe? O que sei é que sua carta me trouxe uma certa nostalgia. Recuperei por algum tempo o valor das esperas. Não terei pressa em responder. Farei com vagar. Costurarei o manto com o qual gostaria de aquecê-la, nas terras onde meu pai nasceu.

Quantas cartas eu escrevi ao meu pai? Muitas. Tenho algumas comigo. Em cada viagem, eu aquecia a saudade escrevendo para ele. E para minha mãe. Isso não faz muito tempo.

O tempo, hoje, é outro.
Tempo bom o de lembrar.
Saudade do meu pai. Da minha mãe, ligo ou escrevo hoje ainda.
E Maria. Bom domingo, Maria.
Até breve.