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Gabriel Chalita recebe o título de Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro

Prezado vereador Willian Coelho, que preside esta sessão.

Agradeço a generosidade de Vossa Excelência e de seus pares em me conferir este título:

Cidadão carioca.

Cidadão é aquele que convive em sociedade e que tem consciência de seus direitos e deveres. Cidadão é o que cultiva as relações recíprocas como necessidade vital. Somos quem somos, porque outros preencheram nossas incompletudes ou, pelo menos, amenizaram-nas. Precisar do outro não diminui nossa liberdade. Amplia. O outro me eleva para que eu compreenda até onde posso chegar. Sozinho não enxergaria o longe, nem o alto, nem sequer o outro, irmão meu de espaço e tempo. O espaço é território, é a cidade. O tempo é senhor indomável. Pudéramos nós deter alguns instantes e apressar outros. Não temos esse poder. O poder que temos é o de dignificá-lo. O tempo. E de, no tempo que temos, construir espaços corretos, nascentes humanas de cachoeiras volumosas de amanhãs.

Construir cidades requer esforço coletivo. Escolhas. Renúncias. Coragem. Por isso cada cidade tem seu jeito de ser, de falar, de lidar com seus destroços e de reconstruir suas esperanças. 

Cidadão carioca, é esse o título que, honrosamente, hoje, recebo.

Carioca.

A semântica é generosa ao dar diversas explicações a essa palavra. E mais diversas ainda são as razões para amar esta cidade.

Minhas primeiras lembranças, por aqui, são da Tijuca e de Vila Isabel. São dos acordes de uma tia que tocava violino e das cordas vocais de um tio que me explicava o significado do nome das ruas do Rio de Janeiro. Tempos que o tempo roubou mais apressadamente do que gostaríamos. Saíamos da terra onde nasci, Cachoeira Paulista, do Vale do Paraíba banhado por duas serras encantadas, a da Mantiqueira e a do Mar, e vínhamos para a cidade grande, para a Cidade Maravilhosa, maravilharmo-nos com os cantos delicadamente perfeitos que serviram e ainda servem de inspiração para os poetas, amantes das gentes e das paisagens. 

Era menino ainda quando me banhava nos mares daqui e imaginava o amanhã sem afogadilhos. 

Família unida, aconchegávamo-nos ora aqui, ora em São Paulo. Cachoeira Paulista fica praticamente no meio do caminho. Apaixonei-me de forma diferente pelas duas. São Paulo, hoje, me acolhe tão generosamente que a ela sou grato todos os dias. E quanto ao Rio. Ah, o Rio de Janeiro!

Era ainda adolescente quando, destemido, avistei a cidade de uma asa delta. Perfeição demais. A Pedra da Gávea. O Morro da Urca. Os dois Irmãos. A Floresta da Tijuca. O Jardim Botânico. Fui crescendo e tecendo minha admiração, e dizendo sem economias:

“Rio de Janeiro, gosto de você

Gosto de quem gosta

Deste céu, desse mar,

Dessa gente feliz”

Assim compôs Antônio Maria, o pernambucano amigo de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que o Brasil aprendeu a amar a partir desta cidade. 

Aqui, escrevi e escrevo boa parte de meus livros. Inspiro-me na Lagoa Rodrigo de Freitas e na mata do Corte do Cantagalo. Inspiro-me nas andanças pelas praias de Ipanema, do Leblon, de Copacabana. Nos teatros, nas livrarias, nas conversas na Academia Brasileira de Educação, da qual tenho a honra de ser membro.

Inspiro-me nas gentes desta terra, na “carioquice”, na alegria contagiante de quem se permite agradecer por ter nascido aqui ou por aqui viver. 

Quantas palestras proferi nesta cidade e em outras do chão fluminense! Quantas alegrias vivi ao conviver com professoras e professores que, ciosos do mister magistral de professar a crença no ser humano, alimentam de futuro os seus alunos!

Sou professor por decisão de vida. Por jamais, nem por distração, deixar de acreditar no ser humano. E sou escritor porque reverencio sua excelência “a palavra”. É ela quem nos proporciona privilégios, inclusive o de fazer declarações de amor. Como fez o incansável amante Vinícius de Moraes que não temeu o tempo ao esclarecer um jeito de amar: 

“Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

E que Tom Jobim disse de um outro jeito. De um gostar eterno que, independentemente de outras paixões, dá saudade, porque aguarda o nosso voltar, sempre.

“Cristo Redentor,

Braços abertos sobre a Guanabara.

Este samba é só porque,

Rio, eu gosto de você.”   

Compositores, sambistas, geniais arquitetos de gingados que encantam o mundo. E as Escolas de Samba capazes de popularizar, na Marquês de Sapucaí, temas que vão das óperas aos operários, de outras cidades e estados, de outros países e culturas, ao próprio Rio que, sem preguiça, acolhe a todas elas. 

Rio de Janeiro do genial Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras. Menino pobre de nascimento e rico nos nascimentos que deu a personagens e ideias que ultrapassaram nossas fronteiras e fizeram o mundo reverenciar sua genial escrita. Rio de Cecília Meireles, a professora que fundou a primeira biblioteca infantil da cidade. A escritora que louvou a liberdade: 

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Para ser cidadão, tem de ser livre. Para ser cidadão carioca, tem de ser romanticamente livre, apaixonadamente livre. 

No quarto centenário desta cidade, Manuel Bandeira rezou:

“Louvo o Padre, louvo o Filho

E louvo o Espírito Santo.

Louvado Deus, louvo o santo

De quem este Rio é filho.

Louvo o santo padroeiro

Bravo São Sebastião.

Que num dia de janeiro

Lhe deu santa defensão.

Louvo a cidade nascida

No morro Cara de Cão,

Logo depois transferida

Para o Castelo, de então

Descendo as faldas do outeiro,

Avultando em arredores,

Subindo a morros maiores,

Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora

De quatrocentos janeiros…

Ó Rio de meus primeiros

Sonhos! (A última hora

De minha vida oxalá

Venha sob teus céus serenos,

Porque assim sentirei menos

O meu despejo de cá!)” 

É de cá que estamos falando. Da cidade que, agora, celebra não 400, mas 450 anos.  E de novo o tempo nos alertando de que prossegue, atropelando os espaços de nossa juventude. Mas gastar a vida por aqui tem mais sabor. Velhice? Não. Pôr do sol no Arpoador ou na Princesinha do mar ou no Vidigal. Ou emaranhado por algum amor que resolveu nos surpreender em qualquer estação de nossa vida.  

Já recebi, nesta terra, a Comenda Pedro Ernesto. O que já me fez sentir profundamente grato. Mas, hoje, posso dizer: “Sou cidadão carioca”. 

Livremente carioca. Agradecido pelo que já vivi e pronto para o que vem pela frente.

A arquitetura nascida do Criador foi um presente e a construída pelos homens também. O Rio continua em construção. Cidade dinâmica que desafia os seus governantes a dar a esta gente o que esta gente merece. O Centro renasce com obras que devolvem a esta cidade o coração pulsante que encanta quem por aqui quer fazer o seu canto. 

Um título de cidadania é um dizer carinhoso: “Venha fazer parte do que temos de melhor. Venha ser filho desta cidade”. E eu, humildemente, digo ‘sim’. Quero continuar a caminhar e a descobrir, na prosa despretensiosa, razões para dar as mãos. Do alto de Santa Teresa ou da Igreja de Nossa Senhora da Penha, digo “obrigado”. Obrigado, Nossa Senhora. Agradeço ao Seu Filho, o  Cristo Redentor, por ter me dado, nesta vida, mais do que eu fiz por merecer.

Nasci em uma família amorosa. Meu pai. Minha mãe. Meus irmãos. Fomos alimentados pela delicadeza do interior. E trago, em meu interior, esses ensinamentos de cultivar os afetos como uma doce obrigação, como uma servidão voluntária. Quero servir a esta cidade como servi e sirvo à cidade de São Paulo. Não há paradoxos nesses dois amores. Gigantes. Acolhedoras. Desafiadoras. Como disse, nasci no meio do caminho. Caminhos há para que as mãos dadas não estejam apenas no belo poema de Drummond, o mineiro apaixonado pelo Rio de Janeiro. 

“O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. 

Um cidadão preocupa-se com o outro cidadão. Assim como há a São Paulo pobre, também há um Rio de Janeiro pobre. Mulheres e homens invisíveis habitam nossas cidades. Nosso dever é olhar e enxergar o que ainda precisa ser feito. Cidadãos, somos todos. E nenhum fosso pode nos separar. É por isso que sou educador. Porque acredito no talento do ser humano e na partilha necessária de vidas e saberes para que cada um chegue onde precisa chegar. Não se trata de bens materiais. Trata-se de vocação. De um impulso vital que nos faz ir até onde nos levam nossos melhores intentos. Mas, para isso, precisamos que nos abram as portas das possibilidades. Ou que nos acendam a luz. Ou que nos retirem da multidão e nos digam: “Você também é um cidadão”.

Cidadãos cariocas e cidadãos de outras cidades que, hoje, aqui se achegam para esta prosa entre amigos. Desafiemos os descrentes da esperança. E os que têm preguiça de continuar a construção. A correta. A que não deixa ninguém para trás. A do caminhar de mãos dadas.

Esta cidade é mais do que um “espetáculo da natureza”, é a cidade “de uma gente de encantos mil”.

“Jardim florido de amor e saudade

Terra que a todos seduz

Que Deus te cubra de felicidade

Ninho de sonho e de luz”. 

“Ninho de sonho e de luz”.

Voemos, então, sonhadores iluminados, exercendo o nosso ofício, cumprindo nossa vocação! Cidadãos! Livres! Responsáveis por aspergir em todos os cantos o canto da alegria; cariocas, enfim. 

É de Chico Buarque, o paulista-carioca, a confissão:

“Nas ondas do mar

Cidade maravilhosa

És minha.

O poente na espinha

Das tuas montanhas

Quase arromba a retina

De quem vê.

Cidade maravilhosa

És minha”

Obrigado!

Discurso proferido no Rio de Janeiro | 08/05/2015