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Sinfonia do encontro

Um olhar. Apenas um olhar e a quietude. E o coral de vozes não mais a amedrontou.

Era uma menina. Ainda nos tempos da infância. E era tímida. E tinha os medos todos comuns à infância e a todas as idades.

Os pais moravam longe um do outro. Optaram por tentar outras escolhas. Filha única a menina. Era a mãe quem a preparava para ir à escola. O pai a visitava quando podia. Sentia falta do pai a menina, mas ressentia não conseguir dizer o que sentia. Ensaiava pedir alguma atenção. Chegava a pronunciar para si mesma o que haveria de dizer. Não dizia.

A mãe estava sempre em busca de algo que a menina não compreendia. Sobressaltada com a vida. Com as buscas. Com os fracassos.

A menina tinha medo do fracasso. Alguém disse que ela não cantava bem. Brincadeira estúpida, talvez. Mas a incomodou. E como! Quis sair do coral, mas não conseguiu dizer. E por lá ficou. O medo, nesse caso, foi-lhe companheiro.

Era o dia da apresentação. Mulheres e homens estavam no teatro. Entraram as crianças. A menina tinha o coração acelerado. Resolveu cantar baixo para não incomodar. Talvez assim não percebessem os erros da sua voz. Temia esquecer a canção. Temia ter alguma tontura. E o medo roubava dela o prazer de estar ali. Resolveu ficar um pouco escondida. Melhor que não a vissem. Com olhos baixos, teve um súbito de coragem e olhou. Um olhar. Depois de tantos que nada viram. Um olhar e o encontro com os olhos da mãe. Um sorriso. Um alívio. E mais um desejo.

O pai estava entrando. Ela viu ao longe. E não precisou de mais nada. Esqueceu-se de tudo. E cantou. E participou daquela sinfonia. Naquele tempo em que o tempo ainda não dizia quanto é apressado.

A menina cresceu. Os pais se foram. Amores vieram para participar da sua vida. Os medos ainda a incomodam. Ora fazem mal, ora fazem bem. Fazem mal quando retiram dela possibilidades incríveis. Fazem bem quando a ajudam a permanecer atenta para, na vida, não desafinar.

A menina virou cantora. Canta como necessidade vital. Canta e permanece nos que a ouvem. Ganhou confiança. Sabe que saem de casa para vê-la. Sabe que silenciam os murmúrios para ouvi-la. Vez em quando, lembra-se de como tudo começou. Naqueles desencontros, encontrou, mesmo que distantes um do outro, os olhares de que necessitava. Estavam ali a dizer algo. E a sinfonia iniciou a sua jornada.

Encontros. Cantores ou construtores. Julgadores ou auxiliares. Motoristas ou doutores. Professores ou professadores de qualquer crença. Estão todos tentando encontrar o tom da própria vida. Nos inícios, a dificuldade é talvez maior. A menina, feita mulher, ainda é tímida. Ainda economiza nos ditos. Gosta do palco porque se sente segura. No canto, encontrou o segredo de dizer o que não conseguia dizer, o que talvez ainda não consiga. Sofreu de amores que se foram, mas prosseguiu cantando. Entusiasmou-se com outros que ofereciam eternidades, mas não deixou de cantar.

Na sinfonia da vida, foi percebendo que é preciso ser forte. Que a dependência de olhares não faz bem. Naquele dia, os pais foram. Poderiam não ter ido. Poderia ter sido tudo mais difícil. Mas eles foram. Alquebrados de necessidades, ansiosos por outros encontros, frios um com o outro, mas, com tudo isso, foram. Algum Maestro os inspirou a perceber que a menina era maior do que as suas pausas, que a menina iniciava na sinfonia da vida os seus primeiros acordes. E precisava deles. Indubitavelmente, precisava deles. Se soubessem o poder que têm sobre o amanhã dos seus filhos, os pais seriam um pouco mais atenciosos. Venceriam, certamente, outros certames, para estar onde devem estar. Entrecruzando olhares, expulsando medos, sorrindo.

A menina-mulher hoje canta o amor. Acredita no amor. Fala dos pais com os olhos marejados. Eles se foram tão cedo. Os mesmos olhos que os viram. Uma, um pouco à frente; o outro, chegando apressado. Mas estavam ali. Antes de partirem, puderam vê-la consagrada. Tiveram orgulho da menina tímida. Cantaram as suas canções. Encontraram-se muitas vezes. Sem os ressentimentos do início da separação. Maduros compreenderam que o tempo do amor foi capaz de gerar amor. E que melhor do que lamentar pelo que poderia ter sido era celebrar o que foi. Também eles, um dia, fizeram parte de uma mesma sinfonia que, como toda sinfonia, um dia chega ao fim. Acabou antes de terminar? Talvez, sim. Mas existiu. E a menina continua existindo. Seus olhos olham outros olhos. Mas aqueles continuam vivendo na menina e a fazendo cantar.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 26/03/2017

Amanhã, é dia da Pátria

Amanhã, é dia 7 de setembro. Dia da pátria. Dia da independência. Dia da liberdade. E o que mais? E por que amanhã? A resposta rápida é porque, em 1822, Dom Pedro I proclamou nossa Independência. E isso merece comemoração. Mas insistamos um pouco mais: por que amanhã? Amanhã, eu começo a me esforçar para ser livre. Amanhã, eu vou parar de mentir. Amanhã, eu vou fazer o que já decidi: mudar de vida, mudar de humor, mudar de atitude, mudar qualquer coisa que hoje me incomoda. Mas o incômodo não é hoje? Por que esperar amanhã?

Que pátria queremos? A que abraça todos os seus filhos ou a que privilegia alguns? A que reduz as desigualdades ou a que deixa para amanhã a edificação de um país mais justo? A que combate todas as formas de discriminação ou a que não enxerga uma parte dos seus negligenciando ajuda aos que mais precisam? A pátria dos perversos ou dos cordiais? Amanhã, é o dia de uma boa lembrança de um dia importante de nossa história. Mas o hoje existe. E é no hoje que devemos fazer o que deve ser feito para que a “casa” onde nascemos seja a pátria que sonhamos.

 

Sonhamos quando? Ontem ou hoje? Quais foram os sonhos que embalaram os nossos dias de preparação para o hoje? O que aprendemos nas escolas em que frequentamos? Somos “um povo heroico” capaz de um “brado retumbante”?

Nos meus tempos de escola, quando ainda não havia decorado o Hino Nacional, criei uma forma de não confundir a primeira com a segunda parte. A confusão vinha depois de “O pátria amada, idolatrada, salve! salve”! Fiz a seguinte relação. Primeiramente, vem o sonho. “Brasil, um sonho intenso…”. Depois vem o amor. “Brasil, de amor eterno…”. Primeiro vem o sonho de uma gente que se prepara para assumir o comando. Depois vem o amor que é o sonho em ação. O amor pela pátria e por todas as pessoas que nela habitam. Conceitualmente, é isso. O amor é responsável, não é excludente, não tem preconceito, não desiste de ninguém. É livre. E nasce de algum sonho bom. E, sem sonho, é difícil que o amor venha. É o sonho que alimenta o amor. O amor pelo amado, amada ou por um tema. A pátria.

Amanhã, é o dia da pátria. Mas hoje também. Amanhã, é apenas uma comemoração. Hoje, é ação. É sonho que se faz amor quando não nos acomodamos à espera de um amanhã. O amanhã existe, e essa certeza nos é muito cara. Saber que o tempo prossegue. Que as paisagens mudam. Que as pessoas amadurecem. Mas, hoje, quero falar do hoje. A pátria que queremos depende dos que estão no comando dos poderes constituídos, mas depende, também, dos comandantes das próprias vidas. Vidas que se somam; afinal, estamos falando de pátria. Pátria é coletivo. É somatório de forças individuais em busca do bem comum. Isso é também a ética. E a ética não é obrigação apenas dos que têm alguma visibilidade. A ética é barro que nos molda no cotidiano de nossas construções. Vamos nos fazendo dia a dia. E nos refazendo quando necessário. É desse barro que nascem os políticos, os magistrados, os pensadores. Não caem de outro planeta. Nascem das gentes. Da nossa gente. É por isso que temos que nos educar. Hoje. Não apenas amanhã. É hoje o dia de optarmos pela verdade, pelo correto, pelo decente, pelo digno, pelo amoroso. É hoje que temos de decidir pela coerência. Cobrar do outro quando erra e esconder o nosso erro em algum canto é não compreender o canto coletivo do hino que diz: “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante”. O instante da liberdade é amanhã? Também. Mas é hoje. É hoje que, para sermos livres, temos de ser verdadeiros. A hipocrisia é uma praga que destrói as pátrias. A incoerência também. Cobremos a honestidade, temos esse direito. Sejamos honestos, temos esse dever. Hoje.

Diante de tantos pessimismos, não nos iludamos, não será fácil combater o erro e prosseguir. Não há ingenuidade em falar de sonho e de amor. Há esperança. Não do verbo “esperar”, mas esperançar. Esperar fica para amanhã. Esperançar é hoje. É agora. Quando temos forças para corrigir rotas e comandar a embarcação da qual todos nós fazemos parte. E temos o direito e o dever de sermos protagonistas. Cada qual em sua posição. Fazendo o que precisa ser feito todo dia. Das pequenas rotinas às grandes decisões. É assim que se constrói uma pátria – território e povo – espaço e valentia.

 Sejamos valentes para que nosso brado retumbe de fato. Não pela altura da voz, pelo grito, mas pelo som contagiante de quem sonha e ama, de quem é justo, enfim. Comemoremos amanhã, façamos hoje e amanhã e depois de amanhã o que precisa ser feito para que a pátria seja nossa. Livremente nossa. De todos os que aqui têm o privilégio de viver. Conviver. Brasil!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/09/2015

Brasileiros na Feira do Livro de Frankfurt

Fui convidado para dar uma palestra na Feira de Frankfurt, a maior feira literária do mundo. Foram convidados pelos organizadores da Feira, apenas três brasileiros: Paulo Coelho, Walcyr Carrasco e eu.

Paulo Coelho ponderou sobre o futuro do livro e sobre a necessidade de o mercado editorial compreender melhor o mundo tecnológico e as novas possibilidades de leitura: os tabletes, os celulares, o livro em meio digital. Falou com a autoridade de um autor que já vendeu 165 milhões de exemplares em todo o mundo.

Walcyr Carrasco falou sobre a mente criativa do ficcionista. Discorreu sobre a gênese da personagem. Com muito humor, trouxe histórias do cotidiano que inspiram o escritor de ontem e de hoje. Trouxe Flaubert e Machado de Assis para explicar como os temas que agradam ao leitor se repetem e como a vida e a arte se misturam.

Eu palestrei sobre a semiótica na sala de aula e a formação dos novos leitores. Acredito, profundamente, que, apesar de todo o aparato tecnológico que nossos tempos oferecem, o livro sobreviva, assim como  a milenar arte da contação de histórias. Sobrevive o professor. Máquinas não têm alma. Professores têm. Alunos precisam de alma. De cumplicidade.

Falei de muitos autores brasileiros, mas aproveitei a oportunidade para usar Goethe, o gênio da literatura alemã, como exemplo. Goethe tinha uma mãe que lhe contava histórias antes de dormir. E que dele omitia os finais, deixando-o curioso para o dia seguinte. Como Sherazade fazia para amolecer o coração cheio de ódio de seu marido, o Sultão. Com um repertório incrível, durante mil e uma noites, ela emendava uma história na outra para prender a atenção de seu interlocutor e se manter viva.

Contadores de histórias alimentam almas e mentes. Os pais deveriam ser os primeiros contadores de histórias. De histórias nascidas da literatura universal e de histórias de suas próprias famílias. A voz da mãe, a voz do pai, enchem de futuro os seus filhos.

Preocupo-me com o excesso de tecnologia no processo educativo. Tudo o que é em excesso faz mal. O meio-termo aristotélico é sempre um bom aprendizado. Se os aprendizes têm novas possibilidades de pesquisa com a internet, têm, igualmente, necessidade de diálogos parecidos com o que o Sócrates tinha com seus discípulos, em épocas que nem lousas ou cadeiras faziam parte da relação de ensino-aprendizagem, quanto mais os computadores.

Sócrates contava histórias. Jesus Cristo contava histórias. Shakespeare contava histórias. Mandela, para convencer o seu povo a trocar a luta da segregação pela edificação do oráculo da paz, contava histórias.

Por que alguém compra um livro? “Para o entretenimento e para o conhecimento”, respondeu Paulo Coelho na Feira de Frankfurt. Entreter, conhecer, verbos que condizem com o nossa trajetória. Educar, também. Tudo educa. Até os exemplos ruins nos educam quando temos capacidade de discernir.

Há alguns que se preocupam muito com uma literatura que venha a agredir o que é considerado “politicamente correto”. É preciso ter prudência. O “politicamente correto” muda muito. A literatura, não. O que é descartável são os livros que têm por objetivo ajudar a resolver problemas pontuais. Os clássicos ficam. Quando Monteiro Lobato cria a sua “Negrinha”, não o faz para ajudar a propagar o preconceito, ao contrário, coloca-se como uma voz capaz de revelar o sofrimento dos negros, o horror do racismo que, muitas vezes, tenta se disfarçar de bondade, da mesma forma que Machado de Assis faz em “Pai contra mãe”.

Livros semeiam ideias, ampliam horizontes, fazem nascer desejos, acalentam solidões.

A Feira de Frankfurt é um mundo complexo e gigante. Países de todos os cantos do planeta mostram a face iluminada de sua literatura. Escritores, editores, ilustradores, livreiros, artistas de um fascinante universo conversam sobre o presente e o futuro do livro. Milhares de palestras e de eventos nos abrem a mente para o que cada um, em sua língua, em sua cultura, faz para que o livro tenha o destaque que merece.

Walcyr Carrasco, autor de dezenas de livros, mas também de novelas marcantes que quebraram tabus e abriram possibilidades de um mundo menos perverso com os diferentes (somos todos diferentes), insistiu na ficção que nasce da intenção amorosa de melhorar o mundo.

O Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt de 2013. Este ano, foi a Finlândia, país modelo em educação. Revelam eles, com orgulho, o quanto seus professores e alunos leem. O quanto a arte desenvolve a sensibilidade e a capacidade pessoal e profissional. Na educação, formamos o nosso futuro. Que seja menos violento, menos preconceituoso, menos injusto. Que os livros ajudem as pessoas a conviverem melhor. Essa é a verdade que tenho como escritor. Escrevo para revelar minha opção pela esperança. Escrevo porque acredito no ser humano. Quando um livro é lido, uma janela se abre. Vamos abrir as janelas da liberdade. Vamos abrir as janelas da generosidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/10/2014

O Brasil de todas as gentilezas

Em tempos de Copa do Mundo e de estrangeiros no Brasil, presenciei cenas que merecem ser compartilhadas.

Em São Paulo, uma senhora tentava, em português pausado, explicar onde ficava uma estação de metrô. O turista olhava sem entender, mostrava um papel com o nome da estação e perguntava em inglês. A senhora respondia com gestos. E sorria. Sorriso de quem desconhece o outro idioma, mas sabe das lições mais nobres da civilidade, da gentileza.

Vi, também, um taxista atendendo um visitante com um dicionário na mão e com uma impressionante disposição em atendê-lo. No aeroporto em Brasília, um jovem brasileiro, em bom inglês, dando sugestões de lugares para visitar.

Gente perguntando e gente ajudando a encontrar respostas. Convívio. Acolhimento. Somos marcados por problemas sociais, desigualdades gritantes, ações políticas que desconsideram sonhos e necessidades de nossa gente. Mas, ao mesmo tempo, somos um país marcado pela alegria, pelo respeito ao diferente. Formamo-nos a partir de tantos que aqui chegaram. Imigrantes corajosos, desafiadores do medo, construtores de futuro.

Este Brasil, com tantas contradições, é apaixonante. Bom seria que estivéssemos mais preparados para receber o estrangeiro. O turismo gera emprego, renda e é essencial para nosso reconhecimento internacional. Mas, se ainda nos falta muito, temos o essencial. A marca da cordialidade. O sentimento de ajudar.

Não há ingenuidade nesses relatos. Temos as chagas da violência. Nossas cidades carecem de infraestrutura. A desordem dos espaços urbanos gera mais violência e abandono. Mas essa é uma longa estrada que precisamos percorrer. Esses problemas não se resolvem com mágica, mas com competência e trabalho.

No entanto, a Copa está aí. Façamos o melhor. Independentemente de colorações partidárias, mostremos o Brasil de todas as gentilezas. Um país que não aprecia a guerra. Que não discrimina. Que recebeu de Deus uma natureza privilegiada. E gente. Gente que gosta de gente.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 13/6/2014

Liberdade

Há um poema de Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência, que diz: “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

Nascemos para a liberdade, mas permitimos, conscientes ou não, que correntes nos aprisionem. Correntes do preconceito, do medo, das escolhas erradas. Correntes do amor sem amor, da ausência de ideais, da vida sem vida.

No próximo dia 21 de abril, lembramos de Tiradentes e, com ele, dos inconfidentes. Homens que ousaram sonhar com a liberdade. Com uma nação em que cada um fosse respeitado. Com um Brasil para todos os brasileiros. Foram descobertos. Sofreram os horrores da tortura e da morte. Mas o ideal permaneceu. Não escolheram uma vida apática. Escolheram um tema para viver. O tema da liberdade.

Hoje, celebra-se a paixão de Cristo. Sua morte como uma prova de um amor pleno para que, no seu sacrifício, recuperássemos a capacidade de amar. Ele pediu ao Pai: “Se for possível, afaste de mim esse cálice (esse sofrimento), mas que seja feita a Tua vontade”. Ele sofreu a dor do abandono. Além de ter sido traído por um de seus discípulos, foi abandonado pelos outros. Mesmo Pedro chega a negá-lo três vezes antes do galo cantar.

Mas Jesus fez o que fez por amor. E a morte não foi capaz de vencê-lo. No domingo de Páscoa, celebra-se a ressurreição de Cristo. Páscoa significa passagem. Passagem da morte para a vida, passagem da escravidão para a liberdade.

Que esses mistérios sagrados nos ajudem a ter atitudes de quem, mesmo não sabendo explicar a liberdade, não deixa de entendê-la. E de lutar por ela.

A luta é o motor da vida. É o combustível da juventude. Envelhece quem não tem um projeto, um sonho. Envelhece quem se deixa diminuir pelos preconceitos e pelos ódios tantos que vão se acumulando.

Quem quer, de fato, ser livre precisa compreender as lições do Amor, as lições do amar.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/4/2014

Desafios do ensino de matemática

O relatório divulgado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes – PISA, em dezembro de 2013, apontou que o Brasil deu alguns passos adiante em relação ao ensino de matemática, ainda que tenha ocupado a 58ª posição entre 65 países. O problema, no entanto, está longe de ser a falta de talento para a matéria.

O matemático César Camacho, diretor do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada – IMPA, vê nos estudantes brasileiros enorme potencial, que passa despercebido por não haver métodos para a identificação de talentos. A observação é fruto de dez anos de realização da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – OBMEP, que permitiu, segundo Camacho, traçar um retrato bastante fiel da realidade do ensino de matemática no Brasil.

“Temos tido enorme satisfação em verificar que nos lugares mais afastados do país existem estudantes brilhantes, que respondem aos desafios que colocamos na olimpíada de uma maneira extremamente rica”, afirmou o diretor do IMPA ao explicar que a olimpíada mede não o conhecimento, mas a capacidade de raciocínio e a criatividade para a solução de problemas. “Apesar de todas as deficiências que a escola tem, é possível verificar que o talento está uniformemente espalhado pelo país”, acrescentou. A OBMEP seleciona, todos os anos, seis mil medalhistas provenientes de mais de 800 municípios brasileiros. Diversas iniciativas de sucesso vêm estimulando o desempenho dos alunos em matemática.

Projeto Brincando de Matemática (RO)

Na Escola Estadual de Ensino Fundamental Padre Alexandre de Gusmão, do município de Nova Brasilândia, em Rondônia, encontramos uma dessas boas práticas “que deveriam ser replicadas”, como observou Camacho. Trata-se do Projeto Brincando de Matemática, realizado pela professora Amanda Sousa com alunos do quinto ano.

“O projeto foi pensado para os alunos com muita dificuldade em matemática. Para facilitar o aprendizado, trabalhamos a matéria de uma forma mais lúdica”, explica a professora. Os jogos, criados pelos alunos ou propostos pela professora, são confeccionados em sala, sempre em grupos, utilizando material de sucata.

Programa de Educação Matemática (BA)

Na Bahia, a capacitação continuada do professor se dá por meio do Programa de Educação Matemática, iniciativa da Secretaria de Educação do estado realizada pelo Instituto Anísio Teixeira – IAT. No programa, os professores são reunidos no IAT para planejar o período letivo e os formadores vão às escolas para visitas de acompanhamento pedagógico. “Falamos com os professores e fazemos o planejamento das aulas de matemática do sexto ao nono ano. Trabalhamos como os professores podem transmitir os conteúdos de matemática em sala de aula de forma mais contextualizada”, explicou Jorilene da Silva, formadora do programa. A partir desses encontros, o professor é estimulado a produzir um objeto ou conhecimento novo para levar à Feira Baiana de Matemática.

O objetivo, segundo Silva, é gerar um conhecimento que ultrapasse as paredes da escola. “Não basta fazer o cálculo, é preciso interpretar, desenvolver o raciocínio lógico, a criatividade; realizar atividades que levem não apenas a resolver contas, mas também a entender o significado dessas contas. O aluno deve entender como a matemática pode melhorar o dia a dia e de que forma ele pode aplicar esse conhecimento para que não seja dominado pelos números”, disse.

Silva conta, ainda, que muitos professores resistem às mudanças no método de ensino da matemática que ainda parte da memorização de regras. “A educação matemática trabalha não só com algoritmos, mas também com a construção de conceitos. Por isso, é importante discutir o currículo da educação matemática como ponto de partida para a formação da cidadania”.

Centro Educacional Municipal de Apoio e Atendimento Especializado – CEMAEE (SP)

O Centro Educacional Municipal de Apoio e Atendimento Especializado – CEMAEE, de Mogi Mirim, no interior de São Paulo, atende em contraturno alunos com necessidades educativas especiais. A unidade, que deu início a suas atividades em 2012, integra a rede de ensino público do município.

“Nossa proposta é promover atividades que desenvolvam o raciocínio lógico matemático. As professoras exploram o conhecimento já construído e desafiam o ‘pensar’ das crianças, por meio de jogos, de exploração corporal e de atividades de arte visual e tecnológica. As intervenções facilitam o processo de aprendizagem, com o benefício de ser possível identificar a forma de pensar do aluno, facilitando o planejamento das próximas atividades, respeitando o estágio de desenvolvimento e o nível intelectual de cada um”, explicou a diretora do CEMAEE, Mara Ortiz.

Para Ortiz, que é também pesquisadora no Laboratório de Psicologia Genética da Unicamp, é necessário que o Estado fomente políticas públicas que delineiem o fazer pedagógico e promovam a formação continuada dos professores a partir de experiências colaborativas entre a universidade e a escola. Da mesma forma, que garantam condições que possam contribuir para a organização dos espaços de aprendizagem de matemática, possibilitando aos professores a fundamentação de suas práticas.

Matemática Rio (RJ)

No Rio de Janeiro, o professor Rafael Procópio, da Escola Municipal Rosa da Fonseca, encontrou nas novas mídias uma forma de atrair a atenção de seus alunos. A princípio, o objetivo era guardar uma cópia online dos vídeos usados em sala de aula. Conforme o canal Matemática Rio foi ganhando público e visualizações, Procópio passou a se dedicar mais à produção das videoaulas e a preocupar-se com a qualidade estética das filmagens.

“No geral, percebo que o rendimento dos meus alunos aumentou sensivelmente. Ainda há muito o que aperfeiçoar nas aulas presenciais que dou na rede pública municipal, mas o potencial é enorme”, afirmou o professor, que considera importante o apoio que recebeu de colegas e da coordenação pedagógica da escola em que leciona. “Os professores, quando valorizados e capacitados, podem, sim, transformar a atual situação precária do ensino da disciplina em nosso país, por meio da inovação. Aliás, já temos várias frentes que estimulam isso”, disse.

Fonte: (adaptado) Blog Educação | Escrito por Bernardo Vianna

 

Uma verdadeira lição de amor

Há alguns dias, o Brasil se despediu, com dor, de um de seus mais notáveis atores e homens de bem, Paulo Goulart. Por todo lado, a tristeza de não se poder mais desfrutar de sua presença nos palcos e na televisão. Foi como se perdêssemos alguém de nossa própria família. E Paulo não deixava de nos ser tão familiar. Sempre. Ele partiu, mas ficaram seus exemplos de simplicidade, de amor, de humanidade e a arte de seus personagens memoráveis.

Paulo nos deu grande lição de amor. Até o último instante. E foram 62 anos de muito amor. Paulo e Nicete. Que difícil a missão da despedida! Cada um sabe o quanto é penoso o momento de dizer adeus a um ente querido. E ter de dizer adeus por amor. Nicete o fez. Com força. Despediu-se, serenamente, das emoções terrenas, prometendo a Paulo a perenidade do reencontro: “Vá em paz! Nosso amor é eterno”.

Conheceram-se muito jovens. Vieram ambos, de diferentes caminhos, com muita paixão. Pelo teatro. Pela arte de representar. Estrearam juntos. Nasciam para o palco. Nasciam para viver um grande amor. Companheirismo, cumplicidade, respeito, admiração, os mesmos valores, o mesmo momento de vida. Ingredientes presentes e bem dosados ao longo de seis décadas de convívio. “Estou te namorando”, Paulo dizia sempre a Nicete. E ela só pensava em agradá-lo: “Nunca apareci desarrumada para ele. Nenhum bobe no cabelo. Nenhum creme na cara”. Mantiveram o encantamento da estreia. Uma flor inesperada, um bilhete escondido, um sorriso apaixonado. Souberam cultivar e fortalecer os laços. Semearam os afetos e tiveram o cuidado de esperar o tempo da colheita. E os frutos: Beth Goulart, Bárbara Bruno e Paulo Goulart Filho. A família era a grande paixão de Paulo. No momento de ir, todos estavam juntos. Tristes, mas serenos. Exatamente como ele gostaria que fosse, confessa a atriz. Uma lição de amor. De vida.

Nesses tempos de banalização da vida, de relações descartáveis, de fragilidade dos vínculos humanos, um amor assim, intenso, verdadeiro, que transcende o mundo físico, chama-nos a atenção. Tempos de amores líquidos, nas palavras do sociólogo Bauman. Aprendemos, certamente, com essa lição de amor. Com a história de Paulo e Nicete. Uma história que cada vez mais nos falta.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/3/2014