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Mulheres fortes

“Meu marido teve que escolher: a bebida ou eu”, disse-me uma mulher em um evento na periferia de São Paulo. “Expliquei para ele: Deus te deu uma mulher maravilhosa. Eu sou maravilhosa, mas se você acha que vou de bar em bar para te buscar, esqueça”. Tudo isso ao lado do marido, que concordava mexendo a cabeça. A mulher prosseguia explicando que, quando namoravam, já suspeitava que ele tinha umas atitudes inadequadas. Ela ameaçou não casar. Ele melhorou. Depois do casamento, voltou ao erro. “Comigo não pode sair da linha”. E o marido olhava com olhos apaixonados para a mulher que falava pelos dois. 

Uma outra senhora explicou que não tinha mais filhos nem netos na creche, mas como gostava muito do bairro, passava de vez em quando nas creches para ver se algo estava fora do lugar. “Está tudo em ordem. Se não tivesse, eu falaria. Eu tomaria providências”. Uma outra falou sobre o sistema de saúde. Disse o que funcionava e o que faltava. E assim, as líderes comunitárias foram desfilando suas opiniões, com uma autoridade impressionante. Havia homens na conversa, mas eram elas, as mulheres fortes da periferia, que falavam mais, que apontavam problemas e apresentavam soluções. Soluções de quem ama o lugar em que vive, de quem não admite violência, de quem busca fazer de cada canto da cidade um canto bom para se viver. Bem informadas. Guerreiras. Cientes de que o mundo mudou. São elas que chefiam as famílias e que protagonizam as mudanças necessárias para que a cidade não deixe ninguém para trás. Confiam na educação como o caminho mais eficaz para que os filhos tenham uma vida digna. Enfrentam as adversidades com valentia. Não querem ser Amélias. São as mulheres de verdade que assumem o comando da própria vida e avisam ao medo que “sexo frágil” é um termo que não existe em seus dicionários. 

Saio revigorado desses encontros. Aprendo muito. Admiro quem não se entrega. Quem luta por suas convicções e faz história. Fiquei imaginando a luta daquele homem para não perder seu grande amor. Como diz a canção: “Aquilo sim é que era mulher”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/05/2015

 

Dia do trabalho

Uma mulher me respondeu com um sorriso contagiante quando eu lhe dei um simples “tudo bem?”. A resposta foi intensa: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Ela trabalha na limpeza da escola. Não mora tão perto. Acorda bem cedo. Pega mais de uma condução. Quando chega em casa, tem outra jornada com o marido e os filhos. E é feliz.

Tenho muito respeito pelos funcionários das escolas. Os que limpam os espaços em que educamos, os que preparam o alimento das crianças, os que cuidam para que tudo esteja em ordem para nós, professores, realizarmos nosso ofício. Sou muito feliz por ser professor. E escritor. E sempre que converso com jovens sobre profissões, tento ajudá-los a perceber que a melhor escolha é fazer aquilo que nos realize, que nos faça perceber que podemos ser úteis à sociedade. Não há profissões superiores ou inferiores. Todo trabalho é digno, quando feito honestamente. Mas é preciso ir além. É preciso ter o entusiasmo daquela mulher que encontrou naquela escola o seu canto de realização. Podemos lutar por nossos direitos, buscar melhores condições de trabalho. O papa Francisco disse, nesta semana, que é escandaloso mulheres ganharem menos que homens para exercer a mesma função.

Há ainda um longo caminho para valorizar as pessoas e as profissões, para dar dignidade a todos e acabar com preconceitos. Mas há um outro fator, de extrema importância, também, que é o encontro com nossa própria vocação, com o que, de fato, nos diga se estamos ou não no lugar certo. Como é ruim encontrar pessoas que detestam o próprio trabalho, que detestam o que fazem e que não encontram disposição para buscar novos caminhos. Vidas desperdiçadas. Sem sermos felizes naquilo que fazemos, dificilmente faremos algo de bom para outras pessoas. Com gestos amargurados, contaminamos o ambiente e a nós mesmos. Sempre é tempo de ressignificar nosso trabalho, de redescobrir a chama que nos faz iluminar pessoas com simples respostas como esta: “Graças a Deus! Sou muito feliz por trabalhar nesta escola”. Feliz dia do trabalho.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/05/2015

Tempos estranhos

Vivemos tempos estranhos. Essa frase talvez tenha sido dita, inclusive, em outros tempos, quando também houve estranhamentos na ação humana. Mas é sobre os tempos de hoje que escrevo, que lamento, que me preocupo.

Tempos descartáveis. Jogamos fora pessoas e suas biografias. Descompromissados com a verdade, buscamos o poder a qualquer custo. Atacamos o outro, desprovidos de um dos mais nobres sentimentos, a compaixão.

Tempos violentos. As mortes de cristãos na Líbia representam os horrores dos fanatismos religiosos que se sucedem em tantas outras partes do planeta.

A violência também está dentro das casas. Violência simbólica e física. Mulheres continuam sendo espancadas, violentadas, agredidas em sua dignidade. Assim também as crianças que têm a inocência roubada por usurpadores de futuro.

Tempos barulhentos. Gostamos dos mais diversos sons, menos do som do pensamento. Ouvimos barulhos de todos os lados. Desligamo-nos da realidade. Ligamos ou nos comunicamos com os outros pelas mais distintas maneiras e não nos comunicamos com nós mesmos. A ausência de pensamento nos leva a errar muito mais.

Zygmunt Bauman, contemporâneo sociólogo polonês, alerta-nos sobre os laços humanos que se deterioram em função das novas tecnologias: preferimos investir nossas esperanças em ‘redes’ em vez de parcerias, esperando que em uma rede sempre haja celulares disponíveis para enviar e receber mensagens de lealdade.

Tempos hipócritas. Representamos papéis. Fingimos ser o que não somos para angariar alguma simpatia. Usamos máscaras para que outras pessoas nos aplaudam. Fazemos não o que é correto, mas o que parece agradar mais gente. Mudamos de discurso de acordo com a plateia. Alteramos o tom de voz dependendo de quem está por perto.

Tempos interesseiros. Aproximamo-nos das pessoas quando elas têm algo a nos oferecer. Adulamos, se necessário for, para ganhar o que almejamos. Nada desperdiçamos com quem nada tem a nos oferecer.

Tempos egoicos. Pensamos pouco ou quase nada nos outros. Mergulhamos em nossos desejos mais primitivos e nos esquecemos de que somos seres de convivência, animais sociais, de que dependemos uns dos outros. A avareza é um dos piores vícios que pode ter um ser humano. Trancafiarmo-nos em nós mesmos com receio de que levem algo de nós é um desperdício de tempo e de intenção.

“O direito do Outro à sua estranheza é a única maneira pela qual meu próprio direito pode expressar-se, estabelecer-se e defender-se. É pelo direito do Outro que meu direito se coloca. “Ser responsável pelo outro” e “ser responsável por si mesmo” vêm a ser a mesma coisa.” (Bauman)

Em outros tempos, constatações como essas devem ter sido feitas, mas nos nossos tempos há um agravante, a sociedade do espetáculo tem um ampliador de resultados. Comunicamo-nos com maior facilidade e, com maior facilidade, somos capazes de espalhar mentira, de arruinar pessoas e pensamentos.

Se as brincadeiras toscas contra crianças inocentes já eram danosas, imagine o que acontece com o cyberbulying? Se as fofocas de antigamente causavam dor, o que não causam os milhares ou milhões de acessos de vídeos ou textos produzidos para destruir alguém?

A inteligência nos levou a atingir patamares inimagináveis. E o que fazemos com essas conquistas?

Tempos de respeito é o que precisamos. De compreensão do nosso poder de construir ou de destruir. 

Tempos de delicadeza, de cordialidade, de convivência pacífica com os nossos desejos e com as nossas ações.

O que nos faz bem? A perversidade ou a generosidade? O ódio ou o amor?

Prefiro o sabor das utopias ao amargor de conspirações contra o outro. Ninguém sai dessas ações impunemente.

“As relações humanas não são mais espaços de certeza, tranquilidade e conforto espiritual. Em vez disso, transformaram-se numa fonte prolífica de ansiedade. Em lugar de oferecerem o ambicionado repouso, prometem uma ansiedade perpétua e uma vida em estado de alerta. Os sinais de aflição nunca vão parar de piscar, os toques de alarme nunca vão parar de soar.” (Bauman)

Tempos de reflexão. É o que precisamos. Ou tempos de inquietação diante do quanto teremos que fazer para construir os tempos de paz.

Tempos de paz. Não podemos desistir nunca. Mesmo que pareçamos ir na direção contrária. Os tempos de amanhã dependem dos resistentes, dos apaixonados, de nós.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/04/2015 

 

Liberdade, profissão inegociável

Em uma roda de jovens, a discussão sobre o mercado de trabalho e as novas profissões tomou um rumo muito interessante. As incertezas sobre que caminho seguir na vida sempre povoaram a mente daqueles que, ávidos por um futuro, têm a preocupação de não errar nas escolhas. Antigamente, parecia mais definitivo. Cursar uma faculdade era renunciar a qualquer outra possibilidade. Parecia ser aquela a profissão que exerceria a vida toda. Hoje, há maior flexibilidade. Cursar mais de uma faculdade é possível, há cursos de pós-graduação para áreas tão distintas. Há graduações à distância. Mudar de emprego e de área também não é mais incomum. Em outros tempos, os sonhos das famílias para o destino dos seus filhos eram restritos a áreas como medicina, direito, engenharia e algumas poucas outras. Ser doutor era quase uma exigência. Hoje, há incerteza nos pais até na compreensão do que faz o profissional de áreas como mecatrônica, medicina nuclear, ecogastronomia, entre outros. Os cursos de gastronomia, turismo, hotelaria vão ganhando mais adeptos. As áreas todas de tecnologia mostram-se como caminhos interessantes de sucesso profissional. A criatividade, o design, a moda ganham mais força.

Falavam sobre essas questões aqueles estudantes, quando um disse da preocupação com outros jovens que não tinham qualquer preocupação. Daqueles que trilhavam caminhos sem volta. Comentavam sobre os tantos tipos de vícios. Dos amigos que se perdem. Foi quando um deles ensinou: “Ainda não sei que vestibular prestar. Tenho muitas dúvidas. Gosto de muitas coisas. Agora, de uma coisa, eu não abro mão. Da minha liberdade. Liberdade é uma profissão inegociável. O resto, a gente ajeita”.

É isso. Às vezes, há excesso de preocupação com profissões que remuneram mais ou menos e há falta de cuidado com a essência da realização humana. É preciso educar nossos jovens para que saibam dizer “não” a tudo o que retira deles o que de mais precioso eles têm: a liberdade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/03/2015

De mãos dadas

“O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. (Mãos Dadas – Carlos Drummond de Andrade)

Relacionamentos são a base da vida em sociedade. Relacionamo-nos o tempo todo, em todos os ambientes que frequentamos. Como somos diferentes, temos reações diferentes nos diferentes momentos da nossa vida. Não somos previsíveis. Mesmo quando repetimos alguns comportamentos, estamos expostos a surpresas e não imaginamos como vamos agir. Nos momentos em que os problemas não parecem tão significativos, conseguimos caminhar sem grandes percalços. Mas quando surgem as adversidades, somos, muitas vezes, vítimas de desejos que não controlamos com tanta facilidade.

Muitos pais se preocupam com a inteligência dos seus filhos. Alguns têm conclusões apressadas, comparando irmãos. Julgando que um filho é mais inteligente do que o outro, porque tem mais facilidade para essa ou para aquela matéria, ou porque é capaz de memorizar textos, ou números, ou dados. Estudos recentes descartam essa métrica de definição de quem é mais ou menos inteligente. As inteligências são múltiplas. E os múltiplos momentos da vida é que oportunizam suas manifestações.

Há uma base de conteúdos que se imagina necessária com a qual cada aluno, em cada etapa da vida, deve trabalhar. Nas diversas profissões também é assim. Há instrumentos que nos permitem trabalhar nesse ou naquele campo. Um médico precisa desenvolver habilidades e competências que nos deem segurança para uma intervenção cirúrgica, por exemplo. E, para isso, estuda com esse foco. Um engenheiro dialoga com números e projetos, e plantas, e possibilidades, cotidianamente. Um artista estuda escolas de dramaturgia para que sua intuição se una a tantas técnicas no ofício de fazer nascer personagens e momentos. E assim se multiplicam as profissões e as suas exigências. Avalia-se o preparo para o trabalho. Mas há algo comum e necessário a qualquer atividade profissional e pessoal, a necessidade de nos relacionarmos.

Valores desenham a face humana que enxerga e é enxergada. Que fala e ouve. Que diz “sim” ou “não”; que escolhe, portanto. Que é capaz de gestos de generosidade e compreensão. No desenvolvimento do trabalho, o jogo da convivência é essencial. Um precisa do outro. Um precisa ouvir o outro – talento difícil em tempos tão apressados e egoicos. Parece que o que outro vai dizer nada tem a acrescentar em meu repertório. Ledo engano. Aprendemos o tempo todo com outras pessoas.

Em uma peça de teatro, cada personagem é fundamental para que a arte cumpra o seu papel. Em um jogo de basquete, também. Em uma agência de viagens ou em um banco ou em uma construção, cada um tem sua função.

Deve nos preocupar o excesso de diálogo com os meios tecnológicos e a ausência das prosas nas relações humanas. Tempos sombrios estes em que nos silenciamos diante do outro. Não praticamos o silêncio da atenção, da escuta, mas o silêncio do aborrecimento, da impaciência, da arrogância. 

O escritor Carlos Drummond de Andrade narra a história de um jardineiro, muito amável, que cuidava com amor e extrema dedicação das flores. Conversava com elas, contava história, ouvia lamúrias de algumas, guardava confidências de outras. Mas tinha problemas com o girassol, que não ia muito com a cara do jardineiro. Mas mesmo assim, ele não deixava de regá-lo e de afofar-lhe a terra. O patrão, incomodado com o longo tempo que o funcionário dedicava às plantas, resolveu demiti-lo. Moral da história:

Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava”. (Maneira de Amar – C.D. de Andrade)

A delicada metáfora drummondiana robustece nossa certeza de que as relações ficam muito mais saudáveis quando estamos dispostos a conviver sem a petulância de saber mais que o outro. É com o outro que tenho a nobre missão de caminhar de mãos dadas para não me perder neste mundo tão grande. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/03/2015

E nasceu a mulher

No livro do Gênesis, há o relato da criação da mulher. Nos mitos antigos, também. Deusas e mulheres ocupando espaços. A bela Afrodite que emergiu das espumas das águas do mar. Psiquê que foi se apaixonar pelo homem errado. Ou não. Eros era um deus eternamente menino ou eternamente belo. Adoecido, fez com que o amor desistisse de habitar os homens. E, sem amor, o que somos?

A mulher nasceu muitas vezes. Nas histórias tantas que nos contaram, a mulher teve diferentes papéis. Sofreu as dores de parir e de ser parida em uma sociedade falocrática. O homem era quem saía para a caça e, portanto, tinha a mulher como um objeto seu. Houve sociedades matriarcais, mas em menor escala. As mulheres de Atenas pouco participavam do berço da democracia. Eram os homens que divagavam em elucubrações filosóficas e decidiam nos negócios do Estado. Mulheres medievais, mortas acusadas de feitiçaria. Mulheres escravas, vítimas das dores horrendas e dos flagelos que vinham de todos os lados. De outras mulheres, inclusive. Das sinhás que odiavam as mais belas – cenas de arcadas dentárias arrancadas para que morressem de hemorragia. Tristes marcas de tempos não tão distantes. Sofrem, ainda hoje, as mulheres. Vítimas de estupros em cantos diversos desse planeta. Vítimas de companheiros violentos. Vítimas de condições desiguais no mercado de trabalho. Vítimas, enfim, de preconceitos de uma sociedade que se acostumou a privilegiar o homem.

As leis trouxeram significativo avanço, mas a prática ainda é perversa. Comportamentos inadequados demonstram uma ignorância na relação entre homens e mulheres. Discursos aparentemente generosos colocam a razão no universo masculino e a emoção no feminino. Por quê? Os homens não têm o direito de se emocionar? As mulheres não têm a capacidade de serem racionais? Tratadas como frágeis e necessitadas de cuidados são as mulheres objetos de seus “protetores”. Frágeis, somos todos nós, os viventes. E necessitamos também de cuidados, mulheres e homens. Sem que isso signifique que tenhamos um dono.

Mulheres nasceram e nascem, também, na literatura, na música, nas artes. Protagonistas de dores e amores. De odiosidades e invejas. São Capitus, Dorotéias, Marias, Macabéas, Lucíolas, Beatrizes, Cinderelas, Teresas, Gabrielas. E muitas, muitas outras. Patroas. Amantes. Amadas. Ousadas. Dissimuladas. Musas. Amaldiçoadas. Vítimas ou algozes das paixões. Ditas em versos, em verbos e palavras. “Mulher é desdobrável. Eu sou”, proclama a poeta Adélia Prado. A mulher nasceu para gerar ideias, conceitos, relações, pessoas. Mãe de seus filhos e de seus temas. Sonhadora romântica com companheiros que compreendem o chorar e o sorrir e que, também, expressem sem receios de interpretações apressadas suas dores e utopias. Na literatura de Clarice Lispector, “O destino de uma mulher é ser mulher”, vencendo os obstáculos e a complexidade de ser. Apenas ser. 

Seja o que você quer ser,

porque você possui apenas uma vida

e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. 

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte. 

Tristeza para fazê-la humana. 

E esperança suficiente para fazê-la feliz. 

Clarice Lispector

As mulheres nascem todos os dias. Ou, no dizer de Simone de Beauvoir, “tornam-se”. Mulheres nascem quando assumem o comando da própria história com a liberdade de trilhar os tantos caminhos que a conduzem ao templo da felicidade. Acompanhadas ou não. Solitárias por decisão. Mães por escolha. Livres para esculpir a profissão que lhes convém sem necessidade de autorização. A não ser aquela consentida de partilhar um projeto comum.

As mulheres nascem quando rompem os grilhões do medo de assumir o leme. De levar a nau para onde decidirem. De alcançarem patamares que, até ontem, eram de exclusividade masculina. Chegaram ao mercado de trabalho por luta e por merecimento. Tiveram que provar que são competentes. Provas tidas como desnecessárias aos homens. Mas não se importaram com isso e nasceram para um novo tempo.

Nascerão ainda, sonhamos todos, para tempos que hoje parecem frequentar as utopias, tempos de igualdade real, tempos de respeito, tempos de paz.

Que pretendes, mulher?

Independência, igualdade de condições…

Empregos fora do lar?

És superior àqueles

que procuras imitar.

Tens o dom divino

de ser mãe

Em ti está presente a humanidade.

 

Mulher, não te deixes castrar.

Serás um animal somente de prazer

e às vezes nem mais isso.

Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.

Tumultuada, fingindo ser o que não és.

Roendo o teu osso negro da amargura. 

Cora Coralina

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/03/2015 

 

Um punhado de atenção

Tenho percorrido as diversas regiões da cidade de São Paulo, visitando escolas. Em cada uma delas, tenho conversado com professores, alunos, pais, diretores e com todos os outros colaboradores do universo escolar. Em uma das minhas visitas, ouvi esta história de uma funcionária. Muito sorridente, ela se aproximou e foi se apresentando. Disse que trabalha em escolas há mais de 30 anos. E que é feliz com o que faz. Que, assim como eu, ela também gosta de conversar com as crianças, com os professores, com as famílias. Falou que se acostumou com alguns que reclamam muito e com outros que estão sempre dispostos a ajudar. E foi me ensinando que ajudar alguém é a melhor coisa que se pode fazer na vida. Disse que não teve muita oportunidade de estudo. Que fez o básico. Mas que aprendeu com a vida e com a mãe, que criou onze filhos sozinha, depois que o marido faleceu.

Contou-me uma história do tempo em que ainda vivia em Minas Gerais, onde nasceu. Certo dia, um vizinho veio pedir um punhado de feijão. Coisa comum em cidade pequena. Vizinhos se ajudando. Disse ela que estava ajudando a mãe na cozinha. Apressada. Com vontade de terminar logo para passear. O vizinho bateu palmas, era assim que se fazia antes de criarem a campainha, e trouxe uma vasilha na mão. Ela logo abriu o recipiente e colocou o feijão, com rapidez, para se ver livre e voltar ao que estava fazendo. A mãe quis saber quem era e qual o motivo de sua pressa. Ela explicou, e a mãe a repreendeu: “Todas as vezes que damos um punhado de alguma coisa para alguém saiba que, junto, temos que dar um punhado de atenção”.

“Aprendi”, disse-me a funcionária, “e nunca mais esqueci”, completou. Agradeci a boa prosa, concordando. Nos dias corridos, nas tarefas em excesso, na impaciência, desperdiçamos belas oportunidades. Encontros valorosos estão à nossa espera. É preciso prestar atenção.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/02/2015

 

 

Para que servem as cinzas?

O pó futuro, em que nos havemos de converter é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade?   (Padre Antônio Vieira)

Na quarta-feira de cinzas, fui à missa e observei uma conversa entre uma criança e sua mãe. A criança, cheia de curiosidade, quis saber o significado das cinzas. E se poderia tirar as cinzas com um papel e, caso não pudesse, como deveria fazer durante o banho. A mãe explicou que não havia problema de tirar as cinzas. Que era apenas um símbolo. A criança não entendeu. A mãe tentou usar a explicação do padre de que todos nós somos pó e, ao pó, voltaremos. Piorou. A criança mexia a cabeça de um lado para o outro, expressando sua mais absoluta incompreensão. A mãe disse que isso nos faz lembrar que vamos morrer. A criança ficou quieta, pensativa e voltou a perguntar. “E por que devemos lembrar que vamos morrer”? A mãe fez um sinal de que era preciso ficar em silêncio e acompanhar a missa. Achei a última resposta da mãe simples de se compreender. E creio que a criança havia começado a entender, mas ainda ficou com gosto de “quero mais”.

Lembrar que vamos morrer. Como isso é fundamental! Quantas descomplicações ganharíamos com essa reflexão. Quantas agressões a nós mesmos e aos outros seriam evitadas. Bastam alguns sinais de nossa vulnerabilidade para mudarmos o comportamento. Gostamos de abrir os exames médicos e observar que nossa saúde está ótima. Mas nem sempre é assim. E, quando percebemos que estamos doentes e que podemos morrer, nossa atitude muda. Sobreviventes de um acidente também tendem a mudar. Pessoas que perdem entes que amaram profundamente ficam tempos tentando entender as razões da finitude. Nossa passagem por aqui é temporária. Não há dinheiro ou poder que nos garanta permanecer. A medicina pode nos garantir alguns anos a mais, mas não pode impedir que viremos pó.

Um dia chega o dia de partir. Pensar sobre isso, certamente, nos ajuda. Somos frágeis, incapazes de dominar nossos sentimentos, vulneráveis a tantos desejos que surgem, sem que saibamos de onde, e que permanecem por mais tempo do que gostaríamos. Talvez o importante não seja impedir o desejo, mas saber o que fazer com ele. Do desejo das paixões que parecem não ter saída aos ódios que nos fazem desperdiçar instantes preciosos na busca pela vingança. Bobagens de teimosias insanas. Há tanto a ser vivido, a ser contemplado, a ser sentido. Se um amor findou, outros poderão surgir. Se um amor morreu, choremos o tempo certo, mas com a consciência de que morreremos também. Certamente, não terminamos aqui. Há muitas moradas que nos aguardam na Casa de Deus, ensinou-nos Jesus. Também Ele chorou. Também Ele sofreu a proximidade do sofrimento. Mas sabia Ele da vitória da vida sobre a morte.

A quarta-feira de cinzas marca o início da quaresma. Um tempo de reflexão sobre a morte e sobre a vida. Sobre o fato de sermos pó e, ao mesmo tempo, complexos seres humanos capazes de lindos gestos de generosidade. 

Somos filhos da terra e também do céu. Somos do barro e das utopias. Viver, sabendo que iremos morrer, talvez nos ajude a compreender o que fazer com o tempo. Tempos de gentileza nos alimentam mais do que tempos de violência. O barro do qual viemos não nos moldou para a destruição. Há alguma perversão nossa que nos leva aonde não deveríamos ir, distantes de nós mesmos. Pensar na morte nos ajuda a voltar para o lugar de onde nunca deveríamos ter saído, o solo sagrado da humildade, o húmus que nos originou, a terra, os pés no chão, sangrando ou não, que nos levam aonde nossa liberdade decidir. A jornada não é tão longa. É preciso aproveitar. Viver cada instante como se fosse o último, porque pode, de fato, ser. Quem sabe a hora em que voltaremos a ser pó?

                                                                                        Somos Pó

                                              Esta nossa chamada vida, não é mais do que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno outros   mínimo: De  utero translatus ad tumulum: Mas ou o caminho seja largo, ou breve, ou brevíssimo; como é círculo de pó a pó sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele, tanto mais se chega para ele: e quem, quanto mais se aparta, mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo e não outro é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele: o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz; e como esta roda que anda e desanda juntamente, sempre nos vai moendo, sempre somos pó. 

(Padre Antônio Vieira)

A mãe, a que estava na missa com a filha, poderia ter completado a explicação. Lembrar que vamos morrer nos faz mais humildes, mais compreensivos com o outro, menos arrogantes, menos pretensiosos. O padre, nessa missa, falou em acolhimento. Disse que a Igreja não é juíza. É mãe. Que está aberta para todos os que erram, porque todos erram, mas como mãe, educa, ensina o caminho, e compreende que a decisão é do filho. A de recobrar o sentido da vida ou a de continuar errante, desperdiçando o tempo da felicidade.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/02/2015

Domingo no táxi

Tem gente que não gosta de domingo. Tem gente que atribui ao domingo certa melancolia. Eu gosto de domingo. E, vez em quando, também gosto, não de melancolia, mas de alguma nostalgia. Baús, acolhedores do tempo, que continuam em nós e que visitamos e dos quais nos alimentamos. Alimento do passado que nos fortalece para o futuro.

Domingo passado, depois de uma longa caminhada a pé por São Paulo, peguei um táxi para voltar para casa. Quando entrei, o taxista gentilmente me cumprimentou e perguntou se eu me importava com a música. Eu disse que não. E que, aliás, gostava muito da música que estava tocando.

 

Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou 

Com uma carta na mão 

Ante surpresa tão rude, nem sei como pude 

Chegar ao portão

Lendo o envelope bonito e no seu sobrescrito

Eu reconheci 

A mesma caligrafia, que disse-me um dia 

Estou farto de ti 

Porém não tive coragem de abrir a mensagem 

Porque na incerteza 

Eu meditava e dizia: 

Será de alegria? 

Será de tristeza? 

Quanta verdade tristonha ou mentira risonha 

Uma carta nos traz 

E assim pensando rasguei tua carta e queimei 

Para não sofrer mais

O taxista cantarolava junto com Isaurinha Garcia. E comentava os trechos da música. Dizia da beleza das letras de antigamente.  Em cada música, uma história. Parece que o romantismo não tinha timidez e nos surpreendia. Imagine não abrir a carta? Não saber do conteúdo da sua mensagem. Mas havia uma razão, justificava o taxista, as histórias de dor causadas pelo remetente. Abrir para quê? Para sofrer mais?

Eu fiquei impressionado com a juventude do taxista e o seu tempero musical. Disse-me ele que o pai é cantador. Assim mesmo. Que canta o que aprendeu com o avô. Apenas em casa. Moram na Zona Sul de São Paulo. E ainda têm o hábito dos almoços de domingo em que a família se reúne e, sem televisão ligada, conversam e depois cantam.

Na sequência musical do taxista, uma outra canção. Dessa vez, na voz de Linda Batista:

 

Eu gostei tanto,

Tanto quando me contaram

Que lhe encontraram

Bebendo e chorando

Na mesa de um bar,

E que quando os amigos do peito

Por mim perguntaram

Um soluço cortou sua voz,

Não lhe deixou falar.

Eu gostei tanto,

Tanto, quando me contaram

Que tive mesmo de fazer esforço

Pra ninguém notar.

O remorso talvez seja a causa

Do seu desespero

Ela deve estar bem consciente

Do que praticou,

Me fazer passar tanta vergonha

Com um companheiro

E a vergonha

É a herança maior que meu pai me deixou;

Mas, enquanto houver força em meu peito,

Eu não quero mais nada

Só vingança, vingança, vingança

Aos santos clamar

Ela há de rolar como as pedras

Que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu

Pra poder descansar.

Disse ele que essa música já o acalentou em momentos de fossa. Dor de paixão. Eu quis saber se era bom nos alimentarmos de vingança, como diz a canção. Ele sorriu. E confessou que vez ou outra, sim. Dói demais saber que a mulher que nos amou está feliz nos braços de outro. E a prosa prosseguia entre as canções de outros tempos. Dos nossos tempos. Dos tempos de delicadeza. Quando desci do táxi, era essa a música que tocava, na voz de Chico Buarque:

Prometo te querer

Até o amor cair

Doente, doente

Prefiro, então, partir

A tempo de poder

A gente se desvencilhar da gente

Depois de te perder

Te encontro, com certeza

Talvez num tempo da delicadeza

Onde não diremos nada

Nada aconteceu

Apenas seguirei

Como encantado ao lado teu

Disse o taxista que sua mulher está esperando o primeiro filho. E que ele gosta de cantar para a criança que ainda não nasceu. Canta encostado na barriga da amada. E sente que o filho gosta. Delicadezas de cantos desta grande cidade. Achei que deveria pagar um pouco mais a corrida. Mas tive receio de ofendê-lo. Elogiei a leveza e a alegria com que ele exercia seu ofício. E desci. 

Fiquei pensando em quantas histórias instigantes partem com os taxistas no momento em que seus passageiros descem. Conversas nervosas, conversas engraçadas, conversas de dor, conversas do dia a dia. Lembrei-me da coluna chamada “Táxi”, no Diário Nacional, em que Mário de Andrade, de 1929 a 1932, publicava suas crônicas. Não eram histórias como essa que conto aqui, mas igualmente prosaicas, sobre as acontecências do dia a dia das gentes de uma cidade que já se anunciava metrópole. Caleidoscópica. Aquecida pelos encontros inusitados de cada uma de suas esquinas. De cada uma de nossas corridas de táxi.

Tempos de delicadeza assim, num domingo ou em qualquer outro dia, embalam-nos canções mais sensíveis em tempos de pouca prosa.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/02/2015

 

O futuro de meu filho

Uma amiga me convidou para um jantar filosófico que, mensalmente, faz em sua casa. Convidou-me para falar sobre Kant e a ética dos costumes para cerca de 30 pessoas que haviam lido alguns textos do filósofo. A conversa foi agradável e as perguntas iam desde os temas da metafísica, das críticas da razão pura, até o dia a dia das famílias. Foi quando o assunto chegou à educação dos filhos. Um pai quis saber se era correto escolher a profissão dos filhos. Perguntou, já argumentando que era natural que um pai médico quisesse ter o filho médico, trabalhando com ele. Que o mesmo poderia ocorrer com uma família dona de uma empresa. Tudo seria mais fácil se os filhos dessem continuidade ao legado dos pais. Alguns concordaram; outros, não. Falamos como a teoria de Kant poderia nos inspirar: “Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal.” Age de tal modo que seu agir, se visto por outros, não lhe cause constrangimento. Isto é, faça o correto mesmo que ninguém esteja olhando.

A filosofia preocupa-se mais com perguntas do que com respostas. Uma das mães tentou ajudar. “Não tenho o direito de decidir o futuro de meus filhos. Já decidi o meu. Quero que eles tenham consciência para decidir o deles. Se forem médicos como nós, os pais, será ótimo. Se não forem, será ótimo também. O que quero, inclusive inspirada na teoria de Kant, é que sejam bons. Isso é o mais importante”. Que os filhos sejam bons. Inspirados em Kant ou, melhor ainda, nos pais. Os exemplos são combustíveis de vida. Garantem o mínimo para o percurso que teremos de cumprir. O resto fica para a nossa liberdade. Há muitos caminhos, há muitas possibilidades de exercitar o talento no mundo do trabalho. O mais importante é ser bom.

Na sobremesa daquele jantar, senti um gosto de esperança. Pais preocupados com filhos. Amigos exercendo a prosa filosófica para conviver com leveza. Retratos de um mundo que pode ser melhor. Se exercitarmos a bondade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/02/2015