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Aprendendo com o futebol

O futebol é uma paixão nacional. Isso já foi dito muitas vezes. Muitas vezes também já se falou da violência nas arquibancadas, das brigas de torcida, atitudes lastimáveis que enfeiam o espetáculo. O bonito é ver as famílias nos estádios, as crianças torcendo. Em clima de festa.

Um fato interessante merece reflexão. O Corinthians, que possui uma das maiores torcidas do mundo, foi eliminado da Copa Libertadores da América, em pleno Estádio do Pacaembu, pelos argentinos do Boca Juniors. Eliminação semelhante à de 2006, no mesmo Pacaembu e também pelas oitavas de final do torneio. Na época, o embate foi contra outro time argentino, o River Plate; o fato ocasionou cenas de violência, de selvageria.

Desta vez, a história foi diferente, e a postura dos que assistiam ao jogo no estádio, no último dia 15, foi muito mais nobre. Os fiéis torcedores levantaram-se para aplaudir a equipe que dava adeus à competição e ao sonho do bicampeonato. Uma cena que impressionou, inclusive, os experientes comentaristas de futebol. Uma cena que emocionou os jogadores.

Apenas quatro dias depois, o esforço da equipe foi retribuído com a conquista do título do Campeonato Paulista, o 27º do clube, sobre o Santos, na Vila Belmiro.

Assim como no futebol e nos esportes em geral, também acumulamos vitórias e derrotas na vida. E, para todos esses casos, vale o ensinamento de Antoine de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe: “Há vitórias que exaltam, outras que corrompem; derrotas que matam, outras que despertam”.

Por isso, nestes tempos, em que muitos buscam a vitória a qualquer preço, a inesperada lição que veio das arquibancadas do Pacaembu é tão bonita e significativa. Ganhar ou perder faz parte da vida, mas é a forma como reagimos que nos torna vitoriosos de verdade.

Que, no futebol e na vida, empenhemo-nos por uma cultura de paz. A violência revela o que de pior há nas relações humanas, e todo tipo de violência deve ser combatido.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)

Esperança na vida

Há pessoas que nos elevam e há pessoas que nos diminuem, ensinou o filósofo Immanuel Kant. Há pessoas que vivem da crítica fácil, do pessimismo, do derrotismo. Que veem o que de pior há nos outros e nas paisagens. É do genial escritor Leon Tolstói esta citação: “Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira”. E há quem veja o que de belo há no bosque. Inclusive, as sementes. E saiba que o inverno é apenas uma estação. E que passa.

Conheci, nesta semana, Dona Djanira. Setenta e sete anos. Voluntária em um hospital que cuida de crianças com câncer. Conta histórias. Algumas, tiradas da literatura universal; outras, da vida. E que rica vida. Lembra-se de algumas crianças que morreram, mas que, antes, riram muito e se emocionaram com suas narrativas. Lembra-se de outras que, curadas, seguiram a vida, com direito a um futuro.

Dona Djanira teve um filho que morreu de câncer. Ela também teve câncer. Venceu uma vez. A doença voltou. Venceu outra vez. E, mais uma vez, adoeceu. Agora, está bem. E não tem medo da morte. Tem medo de perder a esperança na vida. De, talvez, fazer o que disse Tolstói: perder a capacidade de ver o que de belo a vida oferece. Dona Djanira transformou dor em amor e tem um sorriso capaz de envolver qualquer interlocutor. Problemas, todos nós temos – uns, maiores; outros, menores. A questão é prosseguir. Com fibra. Com dignidade e com capacidade de ver.

Dona Djanira é uma dessas pessoas que nos elevam. Um modelo de bravura, de otimismo, de fé. Uma contadora de histórias que fez de sua própria existência uma narrativa inspiradora. Essa senhora-menina, de olhar doce e sábio – que enternece e, ao mesmo tempo, encoraja –, mostra-nos a importância de seguir, ainda que o caminho seja longo e tortuoso. Afinal, sem esperança, não há aprendizado. E, sem aprendizado, a vida fenece. Que, a exemplo de Dona Djanira, não nos permitamos desistir.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)