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Ignácio de Loyola Brandão – o interior e seu menino

José Maria Ferreira Brandão foi marceneiro, seleiro, barbeiro e delegado de polícia. Foi, também, avô de um dos maiores nomes da literatura contemporânea, Ignácio de Loyola Brandão. 

Com mais de 40 livros publicados em diversas línguas, Ignácio, saído de sua querida Araraquara, ganhou o mundo. Morou fora do Brasil. E viaja muito. Vive de cidade em cidade cumprindo sua agenda com a palavra. Onde quer que esteja, leva consigo sua história. E ela começa em um lugar de onde ele nunca saiu. De um lugar que vive no tempo. Nas rodas de cadeira e de conversa que se espalhavam pelas calçadas. No cheiro do café e do bolo que se misturava às aventuras da infância na sua terra natal. Época em que via caminhão, casas e chafariz nos pedaços de madeira do barracão do avô, o José de tantos talentos. Pai de seu pai. 

Nesse “lugar mágico que cheirava a madeira”, havia de tudo. Lixas, porcas, lápis quadrado vermelho de marceneiro, alicates, limas, verniz. E lá no fundo, uma caixa vermelha. Vermelha, empoeirada. Coberta pela fuligem e repleta de memórias. Tantas e tão importantes que ninguém podia chegar perto. E isso era o bastante para despertar a curiosidade das crianças. Principalmente a do menino Ignácio, o preferido de seu avô. Em uma manhã, o velho José entrou na oficina, pegou a chave, abriu a caixa vermelha e gritou. A caixa estava vazia. Alguém a abrira e retirara de dentro “os olhos cegos dos cavalos loucos”, os olhos de vidro dos cavalos do carrossel. Um carrossel de madeira que girava pelas cidades e que trouxera alegria à vida de seu José. Das lembranças dos melhores anos vividos pelo avô, sobrara o que estava naquela caixa. Agora, só memórias. Agora, as majestosas memórias. E a vida toda para recordá-las. Memórias registradas nas histórias que Ignácio de Loyola Brandão, o menino e o escritor, compartilha conosco em seu novo livro “Os olhos cegos dos cavalos loucos” (Moderna, 2014) e em tantos outros. 

O menino e seu interior

A infância é um terreno sempre fértil. Vive para sempre em nossa maneira de ver o mundo.  Em nosso olhar curioso de criança que quer sempre mais do mundo e dos homens. Passa o tempo, mas não se perde o que passou. São as memórias que nos mantêm vivas as sensações, as emoções e aqueles que se vão, sem nunca nos deixar. 

O menino Ignácio perdeu, em um jogo com os amigos, as bolinhas brancas, os olhos dos cavalos do carrossel. Entristeceu seu avô. Mas Ignácio, o escritor, publicou, neste livro, seu pedido de desculpas ao velho José. Mostrou o seu menino. A sua infância. O seu interior. Mundo de menino vivido e revivido pelo homem Ignácio, menino que nasceu com nome de santo.  Santificou e santifica a sua vida rendendo homenagens à sua excelência, como gostava de dizer Tatiana Belinky, a palavra. Sua prosa encanta crianças e adultos. Seu humor tributa a vida. E tudo nasceu no interior. No circo, na cerca, na roda de conversa.  “Do circo de cavalinhos de pau sobraram os olhos. E agora os olhos se foram. Se foram como todos nós vamos.” As memórias ficam. Do avô. De Ignácio. De todos nós.

 

Principais obras de Ignácio de Loyola Brandão

Bebel que a cidade comeu 

Zero 

Dentes ao sol 

Não verás país nenhum 

O verde violentou o muro

O beijo não vem pela boca 

O homem que odiava a segunda-feira

O anônimo célebre 

Veia bailarina

O menino que vendia palavras

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/01/2015 | Foto: André Brandão (divulgação)