Desde cedo, estuda-se, na escola, que o ser humano é um animal racional, porque dotado de razão, porque capaz de fazer escolhas que vão além dos instintos. Já os animais são limitados, sob esses aspectos. Acontece que algumas cenas nos fazem refletir sobre a realidade dessas afirmações.
Recentemente, a mídia mostrou uma mulher “jogando fora” um cachorro. A expressão é dolorosa, mas é exatamente esta: “jogando fora” um cachorro de dentro do carro, em uma rua movimentada, debaixo de chuva.
A mulher, animal racional, abriu a porta do carro e jogou o cachorro. O cachorro, animal irracional, por nutrir sentimento pela sua dona, correu, desesperadamente, atrás do carro, tentando voltar, imaginando que, talvez, tivesse sido um engano o que sua dona tinha feito. Afinal, ela é humana, tem sentimentos, não faria isso. Fez.
O cachorro poderia ter sido atropelado. Havia muitos carros. Mas uma outra mulher, vendo o desespero do animalzinho, conseguiu salvá-lo. O carinho dessa mulher, também racional, minimiza essa história que poderia ter tido um final ainda mais trágico.
Essa atitude desumana provocou uma comoção geral nas pessoas que clamam pela imposição de uma pena à ex-dona do animal que, inclusive, ao ser questionada, disse que poderia ter matado o animal e o atirado em um córrego, mas preferiu abandoná-lo na rua.
Fico tentando imaginar as razões de alguém jogar um cachorro fora. Talvez ela não tivesse mais condições de cuidar do seu animal. Por que não deu para alguém? Por que não entregou para alguma entidade para adoção? Mas abandoná-lo daquela forma, no meio do trânsito, não tem justificativa. Aliás, não é a primeira vez que crueldades contra os animais são reveladas pela mídia. Triste. Um ser humano que não tem sensibilidade com os animais também não tem com outros seres humanos iguais a ele.
Vale a reflexão de Guimarães Rosa: “Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?”
Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 6/12/2013
