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Coragem para amar

Diz Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”. O filósofo escreveu sobre a conduta humana, sobre os erros e os acertos que cometemos em nossa trajetória. Confessou ele os dissabores que viveu. Falou de escolhas equivocadas. Dos males que a ausência de amor é capaz de causar. E nos iluminou com a esperança.

O olhar atento ao mundo talvez seja motivo para desacreditarmos do ser humano. As misérias humanas não nos surpreendem mais. Acostumamo-nos com a maldade, com a mentira, com a injustiça, o que é triste e demonstra que estamos negando nossa própria essência. Perdemos nossa capacidade de indignação. Acovardamo-nos diante da vida. Cada vez menos falamos de valores como generosidade,companheirismo, respeito e compaixão. Interesses pouco humanos estão transformando as nossas relações em palcos de guerra. Guerreamos contra o diferente ou contra o semelhante que pode ocupar o nosso espaço – tosca impressão, porque nada nos pertence. Partiremos, um dia, como chegamos: carregando apenas uma chama inapagável que se chama amor. É o amor que nos identifica, que nos retira da multidão, que nos faz únicos. Entretanto, com essas turbulências todas, é preciso coragem para amar, para não se deixar levar pelos equívocos de um aplauso rápido por ter atingido alguém com a pedra da crueldade. A vítima é um irmão meu. Um irmão é como uma parte de um mesmo corpo. Quando atingido, o corpo todo dói. Talvez por isso uma dor comum nos adoeça. Doentes ficamos todos quando não nos indignamos ao ver as injustiças contra o nosso irmão. Fechar os olhos não resolve a dor alheia nem a nossa.

Coragem. Se não temos o poder de mudar o mundo, mudemos o mundo que nos cerca. Comecemos uma silenciosa revolução no nosso entorno, mostrando que somos capazes de fazer as escolhas corretas. Com aquilo que fica para sempre: Amor, amar. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/07/2015

 

Urgente é amar

Uma mulher me disse de sua tristeza ao saber que estava com câncer no seio. Entre lágrimas, explicou-me: “Como é bom abrir um exame e ver que a gente não tem nada. Que temos saúde de ferro! Terei que operar com urgência. O caroço não é tão pequeno”. Ouvi e tentei ajudá-la. Disse-lhe que as possibilidades de cura, hoje, são muito grandes. A medicina evoluiu. As cirurgias são menos invasivas. E lhe contei o caso de minha tia. Ela também soube que estava com câncer e que teria que operar o seio direito. O médico disse que era um tumor maligno que deveria ser retirado imediatamente. Ela me ligou chorando. Reclamou do médico, pois ele nem a examinara. Apenas olhara os exames. A consulta foi rapidíssima, e o doloroso diagnóstico foi dado friamente. Fomos a outro médico. Ela tremia de medo e tristeza. Mas ele logo a acalmou. “É um pequeno tumor! Não se preocupe. A cirurgia será simples e, quem sabe, a senhora até encontre algum enfermeiro bonitão, já que é viúva?”, brincou. Ela sorriu, disse que não queria saber de homem e contou a história do falecido marido. Queria apenas saber se a cirurgia era urgente. O médico disse que não. Que poderia ser quando ela quisesse. E continuou a conversa sem pressa. Aos poucos, sugeriu: “Hoje é segunda, a senhora já fez os exames, que tal operarmos na quarta? Assim, no domingo, a senhora já estará em casa, poderá fazer um delicioso almoço árabe e me convidar. E já tira isso da cabeça!”. Ela me olhou e disse: “Embora não seja urgente, é melhor fazer logo, você não acha”?

Hoje, ela está bem. Isso foi há alguns anos e, quando me lembro de que os dois médicos disseram a mesma coisa de formas diferentes, entendo que, em qualquer circunstância, o urgente é amar. Mulheres com câncer de mama, há todos os dias. O ofício da medicina exige conhecimento e amor. As dores na alma também nos fazem mal. Abracei a mulher com carinho. Ela sorriu com um olhar de esperança. Essas pedras que surgem em nossa travessia nos machucam muito. Mas elas existem. O importante é prosseguir.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/04/2015