“Tenho vergonha de confessar que meu marido bate em mim”, disse-me uma mulher. “Vergonha do meu casamento fracassado. Vergonha de criar justificativas para as marcas que ele deixa no meu rosto e no meu corpo”.
Palavras fortes de um forte calvário. Vergonha, fracasso, violência. Será que é ela quem deve se envergonhar? Por que é tão difícil denunciar um companheiro?
Continuei ouvindo-a. Há duas crianças no enredo. O desfecho, diz ela, não é tão simples. Não quer que os filhos tenham um pai preso. Não quer que saibam do que ele é capaz, embora desconfiem. Certamente sabem, pensei eu. Sabem e também se incomodam, mas são muito pequenos para agir. Tentou conversar com a sogra que disse que também apanhou e que, agora, o marido já idoso não encosta mais nela. Aconselhou-a a ter paciência, um dia, ele também deixaria de agredi-la. Perguntei se gostaria de passar a vida apanhando à espera do envelhecimento. Ela chorou. Disse que fez promessas. Que orou. E que não adiantava. Falamos sobre oração e sobre ação humana. Difícil invadir o outro e decidir por ele. Mas impossível ficar passivo diante de um ato covarde, criminoso. Entre convicções e dúvidas, ora parecia decidida, ora apequenada em carências. Foi textual sua colocação: “Ele bate em mim, mas pelo menos me toca”. E prosseguiu falando de conhecidas que foram abandonadas por maridos que sequer as tocavam. Contei histórias de despedidas antecipadas, de mulheres assassinadas pelos companheiros, de vidas reduzidas a nada. E ainda há os filhos. Filhos do medo ou da esperança?
Essa é uma entre tantas mulheres que demoram a tomar consciência de que nenhum homem tem o direito de humilhá-las, agredi-las, violentá-las. Algumas decisões são dolorosas, mas as dores são necessárias à vida que virá depois. É assim no parto. E nos tumores que precisam ser arrancados para evitar a morte. Paciência tem limite. Vida também. Por isso, não se pode desperdiçá-la com quem não a dignifica.
Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/08/2015
