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Quem deve se envergonhar?

“Tenho vergonha de confessar que meu marido bate em mim”, disse-me uma mulher. “Vergonha do meu casamento fracassado. Vergonha de criar justificativas para as marcas que ele deixa no meu rosto e no meu corpo”.

Palavras fortes de um forte calvário. Vergonha, fracasso, violência. Será que é ela quem deve se envergonhar? Por que é tão difícil denunciar um companheiro?

Continuei ouvindo-a. Há duas crianças no enredo. O desfecho, diz ela, não é tão simples. Não quer que os filhos tenham um pai preso. Não quer que saibam do que ele é capaz, embora desconfiem. Certamente sabem, pensei eu. Sabem e também se incomodam, mas são muito pequenos para agir. Tentou conversar com a sogra que disse que também apanhou e que, agora, o marido já idoso não encosta mais nela. Aconselhou-a a ter paciência, um dia, ele também deixaria de agredi-la. Perguntei se gostaria de passar a vida apanhando à espera do envelhecimento. Ela chorou. Disse que fez promessas. Que orou. E que não adiantava. Falamos sobre oração e sobre ação humana. Difícil invadir o outro e decidir por ele. Mas impossível ficar passivo diante de um ato covarde, criminoso. Entre convicções e dúvidas, ora parecia decidida, ora apequenada em carências. Foi textual sua colocação: “Ele bate em mim, mas pelo menos me toca”. E prosseguiu falando de conhecidas que foram abandonadas por maridos que sequer as tocavam. Contei histórias de despedidas antecipadas, de mulheres assassinadas pelos companheiros, de vidas reduzidas a nada. E ainda há os filhos. Filhos do medo ou da esperança?

Essa é uma entre tantas mulheres que demoram a tomar consciência de que nenhum homem tem o direito de humilhá-las, agredi-las, violentá-las. Algumas decisões são dolorosas, mas as dores são necessárias à vida que virá depois. É assim no parto. E nos tumores que precisam ser arrancados para evitar a morte. Paciência tem limite. Vida também. Por isso, não se pode desperdiçá-la com quem não a dignifica.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/08/2015

 

Tempo de delicadeza x Tempo de horror

De tempos em tempos, surgem pesquisas mostrando dados alarmantes sobre a violência contra a mulher. E, de tempos em tempos, crio a expectativa de que o tempo da delicadeza vença o tempo do horror, da covardia, mas não é isso o que vem ocorrendo. Infelizmente.

Dados recentes da ONU mostram que uma a cada três mulheres no mundo já sofreu violência física ou sexual. Mais de 100 milhões de mulheres e meninas sofreram mutilação genital. No Brasil, segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, a cada 12 segundos, uma mulher sofre violência sexual. Há outro dado, também assustador, que aponta que mais de 70% das agressões contra a mulher ocorrem no domicílio da vítima: pelos pais, irmãos, tios, padrastos etc. Não raro, os abusos desses homens são de conhecimento até mesmo de outra mulher da família que, por medo ou por vergonha, encobre o agressor. Muitos desses homens violentos justificam sua ação perversa e covarde como ato de amor. Amor? Quem ama respeita. Quem ama cuida. 

Quem decide partilhar a vida com alguém precisa compreender que momentos de instabilidade surgirão, mas que não serão resolvidos pela violência. Somos seres inteligentes, capazes de dialogar, aptos a compreender as nossas diferenças. É preciso acabar com essa história de maldade, de dor, de desrespeito. E as mulheres também têm um papel fundamental nessa batalha. Tolerar qualquer gesto de violência, por menor que ele pareça ser, é abrir as portas para agressões mais sérias. Brincadeiras em que o outro se torna o brinquedo não devem frequentar o convívio humano. É bom ver ONGs se mobilizando, a mídia alertando, a sociedade compreendendo e agindo.

Toda atitude machista é vergonhosa. Uma atitude violenta, além de criminosa, é horrenda. Mostremos a nossa melhor face. A face dos que caminham de mãos dadas, sem tempo nem disposição para atirar pedras.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/11/2014