Tag: Aedes Aegypti

Cecília e a arte de ser bondosa

Cecília quer ser cantora. É o que ela mesma me disse. Cantora e defensora das crianças. Ela conhece muitas que sofrem muito. Cecília tem 4 anos de idade.

Era um evento em uma escola para falar do combate ao mosquito Aedes aegypti.  Houve apresentação de teatro para explicar os riscos de não combater possíveis criadouros. Houve distribuição de cartilhas. Muitas explicações foram dadas sobre o que cada um pode fazer para proteger a vida, a saúde das pessoas. Mas foi Cecília quem mais me chamou a atenção.

Disse ela: “Eu nasci bonita, feliz e com saúde. Meu irmão também tem esse direito”. Com a voz decidida prosseguiu: “Água parada não pode. Não pode”, insistiu.

As atividades prosseguiam e eu fiquei reparando em Cecília. Ela conversou comigo, falou dos problemas do mundo. Explicou que as crianças não podem apanhar dos pais. E que os pais que bebem são os que mais batem. E que bebida não é coisa boa. Falou dos alunos que não obedecem aos professores. E explicou que faltou a eles a educação de casa. Ela ia dizendo e dizendo e a professora ao lado olhava com orgulho para a aluna. Eu queria saber mais. Perguntei sobre os seus pais. Ela disse que a mãe estava chegando e que o pai não vivia com elas. “Fez a sua escolha”, ela disse. E não faz tanto tempo assim. Mas ela compreende. Quem precisa da sua força é a mãe, que é linda, fez questão de frisar.

 E a mãe chegou e Cecília foi correndo ao seu encontro. E a trouxe para me conhecer. A mãe espera um filho. Está quase chegando. Cecília beija a barriga grande e me explica que também nasceu dali. E que por isso ela está preocupada com as famílias que não tomam conta do próprio quintal. O irmão tem que nascer com saúde. Perguntei sobre o nome e ela mesma respondeu: “Francisco”. E me explicou que gosta muito do santo que gostava dos animais.

Enquanto falava, ficava abraçada à perna da mãe. A mãe a acariciava nos cabelos. Olhei aquela fotografia. Fiquei imaginando a partida do pai. Elas pouco falaram sobre isso a não ser a explicação de Cecília, “ele fez a sua escolha”.

A mãe me disse que o filho deve nascer em alguns dias. E que está muito feliz apesar dos problemas. “Quem não tem problemas?”, completou Cecília.

Eu elogiei a menina e a mãe me disse que ela educava a filha com uma única preocupação, “que ela seja bondosa”. E continuou dizendo que o resto era mais fácil. As conquistas na vida dependem de esforço, de compreensão, de pessoas que aparecem e nos ajudam porque são boas. A mãe elogiou a escola e a professora. A professora falou do prazer de ter alunos e alunas como a Cecília.

Essa narrativa pode até parecer ingênua. Todo mundo feliz com o que faz. Não. A vida é dura e nos deparamos com pessoas ruins o tempo todo. Há muita mentira, agressividade, violência. Não é à toa que Cecília disse que crianças não podem apanhar dos pais. Ela deve saber de histórias assim e conviver com crianças que, desde cedo, tropeçam nos tropeços dos adultos. Ela já sabe dos riscos das drogas. Tudo isso aos 4 anos. Porque tem uma mãe ciosa de suas responsabilidades. Que também experimentou a partida de um amor. Mas nem por isso fechou as janelas da alegria. Cecília, Francisco e Maria. Maria é a mãe. “E que mãe!”, explicou a professora.

Cecília,  na sua tenra idade, deu a bonita explicação para cuidar dos quintais. As crianças têm direito à beleza, à saúde, à felicidade. Nos nossos quintais não deve haver agua parada por causa do mosquito, mas nos nossos quintais também não deve haver lixos que colocam em risco o nosso futuro. Lixos produzidos pelo nosso comportamento e pelo nosso pouco apreço pela vida. Limpemos os nossos quintais, e os jardins da entrada serão mais acolhedores para pessoas boas que ainda existem por aí.  

Quem sabe um dia encontremos Cecília cantando nos palcos da vida. Cantando e defendendo o direito das crianças.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/02/2016