“Leo leva o nome do tio que se foi sem quase ter chegado. Quem decide isso? Tem dia de morrer? Ou os atropelamentos antecipam a partida? Sou engenheiro de profissão. Gosto de consertar. Se eu pudesse, seria consertador de destinos.”
Meu filho caiu. Crianças caem com alguma frequência. E choram. E se levantam. E se esquecem da queda. E riem. E algazarram o dia. Mas a queda foi maior e mais dolorida do que as quedas da rotina. Sua expressão de dor doeu em mim. Seu choro calou forte em mim. Dirão alguns que é por ser meu primeiro filho. Meu único filho. Dirão que eu exagero nos cuidados que organizo. Não importa. O que import a é que o bracinho sem movimento, o olhar buscando alívio, o choro incontinente exigiam de mim ação.
Fui com ele ao hospital. Um braço quebrado e nada mais. Nada que não possa ser consertado. Pessoas gentis espantaram a minha aflição. Dá gosto ver médico que gosta de ser médico, enfermeiro que gosta de ser enfermeiro. Dá gosto ver gente que gosta de ser gente e que gosta de gente. Nos tumultos do hospital, encontrei alívio.
Leo, meu filho, tem apenas 2 anos. Minha mulher viajou a trabalho. Estávamos apenas nós dois, quando ele caiu. Meus pais moram longe.
Enquanto Leo chorava, um futuro passou por mim. Não sei por que fiquei imaginando os crescimentos necessários, as despedidas, as quedas de corpo e de alma, as cicatrizes. Ser pai é um ato de coragem. Há muitos amigos que resolveram não ter filhos. Por medo, talvez. Por apreensão com o amanhã. Mara e eu planejamos 3 filhos. Há ainda 2 para chegar. Sou filho único, aliás, deveríamos ser 2. Meu irmão morreu aos 2 anos. Atropelado. O dia se ajoelhou junto com os meus pais e chorou. Não foi justo. Não é justo. Se meu irmão ainda estivesse vivo,…
Leo leva o nome do tio que se foi sem quase ter chegado. Quem decide isso? Tem dia de morrer? Ou os atropelamentos antecipam a partida? Sou engenheiro de profissão. Gosto de consertar. Se eu pudesse, seria consertador de destinos.
Minha mulher diz que eu sofro muito com o sofrimento dos outros. Conheci o sofrimento e dele me tornei amigo, quando ainda nem entendia das amizades. O choro da minha mãe antecipava a chegada do dia. Foram anos de desconsolo. Meu pai espantava a dor para ser o seu apoio. História linda a dos dois. O tempo foi nos convencendo a prosseguir. E a saudade se colocou no lugar do desespero.
Quando meu filho nasceu, minha mãe brincou com a noite. E brindou a vida de um jeito tão delicado. Quando soube do nome do meu filho, me deu o abraço dos agradecidos. Partidas e chegadas. Foi dizendo que demorou a compreender que a morte não era mais forte do que o amor, que o seu filho prosseguiria com ela para sempre. Olhou ao longe e depois voltou. E rimos do que ainda iríamos viver.
Demorei a falar sobre o atropelamento, porque eu estava junto. Ele me seguiu. Eu, dois anos mais velho. Quando vi, não vi mais. Só o barulho e o silêncio.
Meu filho silenciou do choro. E dorme com um bracinho inerte e outro me tocando o peito. A confiança ilumina a vida. Observo o seu sono e imagino o seu sonho. Com o que sonham as crianças? Os pensamentos da noite se escondem de mim. É o sono chegando. É o respirar em paz do meu filho que me convida a desligar o dia. Tudo está bem. Tudo acaba ficando bem, quando compreendemos. O tempo é um bom professor. A memória nos cumula de aprendizados, de lembranças que embalam o futuro. Aprendemos com o ontem para acender o amanhã.
Amanhã, meu filho vai acordar bem. Vai reclamar do braço imobilizado, vai chorar algum choro e vai querer brincar comigo.
Amanhã, minha mulher volta de viagem. Gosto da saudade. A despedida incomoda, mas a chegada compensa.
Amanhã, vou pensar melhor nesta história, consertador de destinos. E vou fazer o que é possível dentro da engenharia da vida. Boa noite.
Publicado no dia 23 de junho de 2019, no jornal O Dia (RJ).
“Já me cobrei por ausências, já me ausentei de mim mesma querendo fazer parte. A parte que me cabe nem sempre é compreendida. Por isso gosto de música. Porque me conduz a um espaço de paz. No caos, existe paz. No barulho, encontro silêncio em mim.”
Eu havia acabado de sair da fisioterapia. Angélica pediu que eu contasse tudo, queria me conhecer melhor, queria que eu falasse da dor, do cansaço, da minha história.
Olhei para ela e ensaiei um resumo. Que não fosse ríspido, mas que não se estendesse além do meu desejo de guardar segredos.
Tenho 80 anos, me chamo Vitória. Tenho rugas. Tenho dores. Tenho incômodos. Minha história é um sopro, ora quente, ora suavizante.
Tenho família, naturalmente. Alguns já se foram. Os que permanecem têm os seus cansaços. O tempo foi me dando lições. Já não tenho o vigor de esculpir pessoas. E, quando tinha, não consegui. Meu pai dizia uma frase que demorou anos para encontrar aconchego em mim: “Ninguém muda ninguém”. Ou aceitamos as pessoas como elas são, ou mudamos de calçada.
Meus filhos gostam das cobranças. Há uma ânsia por saber quem é o mais amado. Sigo brincando em não me enraizar em perguntas sem importância. Já me cobrei por ausências, já me ausentei de mim mesma querendo fazer parte. A parte que me cabe nem sempre é compreendida. Por isso gosto de música. Porque me conduz a um espaço de paz. No caos, existe paz. No barulho, encontro silêncio em mim.
Angélica, a fisioterapeuta, prosseguia movimentando minhas mãos. Olho para as minhas mãos e já não consigo compreender. Estão tão diferentes. A juventude é uma dança curta. Traz medo, traz emoção, traz promessas. E acaba. Minhas mãos envelhecidas.
Digo o que consigo e agradeço. Saio da clínica e respiro o ar de um dia frio com sol. Um dia bonito. Na calçada, dou meus passos sem pressa. Sempre gostei de caminhar.
Súbito, um atropelamento. Uma queda. Uma escuridão. Abro os olhos e vejo um jovem que me vê com amor. Nada mais belo que o belo sentimento do cuidar. Sinto sua preocupação. Tudo calmo. Chegam os que me levam a um hospital. Ele vai junto. Segura, com sua firme mão, minhas mãos despreocupadas. Deitada, eu o vejo e me vejo. Ele fala dos meus olhos azuis e eu nada digo.
O tombo não trouxe maiores consequências. Meus filhos não demoraram a chegar. São amorosos. Afoitos, mas amorosos. E, como disse, “Ninguém muda ninguém”. É o que eu tenho.
Túlio, o jovem que me resgatou do atropelamento, não teve um dia fácil. Dias fáceis são raridade. Quem controla as nuvens? Fiz o convite, e ele, timidamente, aceitou. Quero todos na minha casa. Sou uma mulher de silêncios, mas também de celebrações. Gosto das histórias que leio nos livros, meus companheiros, e das histórias que leio nas pessoas, meus acompanhantes de jornada. E gosto de festa. Carpe diem.
O dia vai se despedindo. Não pensem que eu desejo algo de Túlio que ele não queira me dar. Quero apenas aquele olhar que me olhou com compaixão. E que deixou de lado o que era essencial para me fazer essencial naquele instante. Sou uma mulher que valoriza os instantes. E que valoriza os que moram nos instantes. Moramos juntos naquela rua, naquela queda, naquele reerguer. Por que, então, prosseguirmos agora de mãos separadas? As minhas mãos velhas escondem histórias que não revelei a Angélica. As mãos apressadas de Túlio me aquecem nesse dia frio. Há sol.
Meus filhos exercem a profissão de disputar quem fala mais. Ouço os planos de me levarem a vários médicos. Discordam dessa ou daquela opinião. Já Túlio parece perscrutar minha alma. Almas não envelhecem. Enternecem.
O tempo levou muito de mim, mas me deu de presente a sabedoria. Ou a loucura, não sei. Sei que estou em paz.
Publicado no dia 16 de junho, no jornal O Dia (RJ).
“Não sei o que vai acontecer depois. Só sei que não consigo. Sou um homem de paz. Mas ainda não aprendi a ter paz no caos.”
Eu acordei bem. Tenho certeza disso. Acordei e fui viver. Não que não se viva dormindo. Uma noite de sono, sem intranquilidades, é um perfume na alma. Que deixa um cheiro bom no desenrolar do dia.
Acordei e percebi que não havia pagado uma conta que me olhava da cabeceira. Esquecimentos que antes eu não tinha. E justo agora que tudo está tão contado. Faço os cálculos da multa e dos juros. Tenho uma raiva leve. Olho para os desatinos do celular. Algumas mensagens vão se avolumando. Começo a tentar desfazer o novelo. Um amigo pergunta se já acordei. Não respondo. Estou preocupado com outra mensagem que me cobra uma resposta que ainda não tenho. O amigo insiste e diz que está vendo que estou online. Eu tento não me aborrecer e sigo no que faço ou no que deixei de fazer. Outro esquecimento.
O amigo me liga. Atendo e explico que estou preocupado com uma mensagem e que, em pouco tempo, retorno. Tempo é o que me falta. Ele diz compreender e fala compulsivamente para explicar que aguarda o meu retorno. Tento desligar algumas vezes, mas ele prossegue em sua ânsia interminável de dizer.
Olho o horário e me vejo atrasado. O banho terá que ser rápido. Não consigo responder nada. Visto a roupa que consigo e parto cheio de cobranças. Resolvo ir caminhando e lendo e respondendo as mensagens. Súbito, um furto. Alguém de bicicleta piora o meu dia. E lá se vai o meu celular. Estava na segunda prestação de 12. E lá vou eu buscar ajuda para bloquear o celular. E o atraso aumenta. E meu chefe não é dos mais compreensivos.
Vou à loja da operadora. Fila. Explico a mesma história várias vezes. Perco a manhã. Compro o mais básico dos celulares. As mensagens não respondidas não estão chegando. Ué, estava tudo nas nuvens. Quisera eu estar nas nuvens dormindo um sono sem solavancos. No celular novo, o amigo da manhã me liga e diz alguns impropérios, porque eu havia dito que ligaria logo em seguida. Resolvo nada explicar e desligar o telefone. Meu chefe me olha. Eu não me olho. A frase que ele consegue dizer é: “Preciso dizer mais alguma coisa?”. E eu olho ao longe, exaurido. O telefone toca. Ele acena com a cabeça querendo que eu me lembre de que ele tem pavor de toques de celular. Que é preciso deixar no silencioso.
Preciso de silêncio. No celular, o número da minha mãe. Saio de perto dele e atendo. E ela me cobra. No dia anterior, foi aniversário de um tio e eu me esqueci. E ela me pede um favor. Minha mãe demora a concluir uma narrativa. Me perco em outros pensamentos. E, desatento, digo que já ligo. Liga, novamente, o amigo. Não atendo.
Na minha mesa, os papéis se engalfinham. Prometi à minha namorada que sairia mais cedo. Como? Se eu ligar para contar tudo, o tudo que tenho para fazer não será feito.
Sento diante do meu computador. Tento me concentrar. O computador trava. Peço para que alguém da manutenção me ajude. Não há ninguém. Foram fazer um curso. O curso do dia está indigesto. Nada comi e, mesmo assim, não paro de ir ao banheiro. Uma certa tontura me atormenta. Não posso nem pensar em ir para casa.
Mensagem da minha namorada, ligação da minha mãe, mensagem do meu amigo aborrecido. Resolvo não ler nada. Resolvo fechar os olhos para respirar sem incômodos. “Está dormindo?”, é a voz do meu chefe. Apenas abro os olhos. Olho para ele. Abro a gaveta. Pego a chave de casa. E parto.
Não sei o que vai acontecer depois. Só sei que não consigo. Sou um homem de paz. Mas ainda não aprendi a ter paz no caos.
Na rua, um atropelamento. Uma senhora caída. Tudo em mim se transforma. Eu me transformo e saio em seu socorro. Paro o trânsito. Ligo para o resgate. Acaricio sua face. Impeço que ela se mova. Converso com ela. Devolvo a paz que algum apressado dela retirou. E nos tornamos cúmplices em sorrisos. Os seus olhinhos azuis me trazem o céu limpo em um dia tão sombrio. Suas rugas me despertam respeito. Quanta história há por ali.
Vou junto com o resgate até o hospital. Esqueço o resto e fico feliz em poder cuidar. O telefone vibra no meu bolso sem descanso. E eu já não me importo. Depois eu vejo. Quando os filhos chegam, ela me agradece com os olhos marejados. Dona Vitória é o seu nome. Ela pede que eu fique um pouco mais. E que a acompanhe em sua casa. Quer me agradecer de alguma maneira. Mal sabe ela o bem que me fez.
Já ouviram falar em dores que ganham asas e voam pra longe? A experiência do cuidar é reveladora. Com a compaixão, a paz.
Publicado no dia 09 de junho, no jornal O Dia (RJ).
“Cheguei a essa conclusão. Sozinha.”
Era sozinha, até Glauco aparecer. Fiquei viúva cedo e nunca mais quis saber de divisões na minha alma. Meu marido havia sido um homem bom. Calado, mas bom. Morreu de acidente, pouco depois de nos casarmos. Não tivemos filhos. Fiquei derrotada, no início, e depois fui me reerguendo com meu trabalho. Sozinha. Com amigos, mas sozinha.
E o tempo foi escapulindo e, no meu aniversário de 50 anos, conheci Glauco. Em uma praça aqui perto. Na fila da pipoca. Eu, distraída, o atropelei. Ele sorriu e me deu lugar na fila. Eu, constrangida, me desculpei. Ele sorriu. E fez um gesto galanteador. E, quando fui pagar a pipoca, ele não permitiu. E eu permiti que ele fosse chegando.
Em pouco mais de seis meses, nos casamos. O luar varria a entrada da Igreja, e as flores nos perfumavam. Dançamos com a leveza necessária, naquela noite, e fomos amar. E decidimos que viveríamos na minha casa. Glauco era, também, viúvo. Os cinco filhos já viviam livremente, dependendo, apenas, dos afetos do pai e nada mais.
Acontece que minha casa é organizada. Exageradamente organizada. Tenho as minhas manias. Quem não as tem? E Glauco não sabe. E não precisa saber. Ele abre o espelho do banheiro para pegar a escova de dente e deixa a marca do dedo como lembrança. Eu limpo, claro. E, no dia seguinte, a marca está lá, me olhando desafiadora. Suas roupas ficam em exposição. Eu recolho discretamente. Quando acorda à noite, vai ao banheiro do nosso quarto. E faz barulho. Eu, quando acordo, vou ao outro banheiro que há na casa para não causar nenhum incômodo. Já pensei em explicar isso a ele. Desisti.
Vez em quando, ele resolve me ajudar na cozinha. Não gosto, mas permito. Ele é pouco cuidadoso. Ontem, ele derrubou leite na gaveta de talheres. Eu olhei, queimei por dentro, e disse que tudo bem, entre sorrisos. Não quis limpar, enlouquecidamente, para não parecer que sou assim. Mas sou. Não consigo sair de casa sem deixar tudo limpo e organizado. E é melhor que eu faça. Embora eu já tenha explicado que há uma esponja para copos e taças, e outra para o resto, ele confunde. E eu tenho que desinfetar depois. Eu pedi para mudar de horário. Para chegar um pouco mais tarde ao trabalho para lavar a louça do café. E para limpar o espelho. E para ajeitar as coisas dele. Se eu saio antes, fica tudo em desarmonia.
Sim, estou gostando da vida ao lado dele. É bom ter alguém. Gosto de dormir abraçada, embora fique tentando me convencer de que ele lava a mão, quando vai ao banheiro durante a noite.
Há um quadro que ele me trouxe de presente, mas que não combina com os quadros que tenho. Ele sugeriu pendurar em desalinho. Brincou, dizendo que um pouco de assimetria faz bem. Eu concordei sorrindo e escondi o quadro. Os homens costumam se esquecer dessas coisas.
Os filhos gostam de mim. Dizem que é bom ver o pai novamente acompanhado. Acompanho cada passo dele na casa e vou arrumando o que sai do lugar. Às vezes, acho que ele percebe e pensa que é melhor olhar pela janela e lascar um comentário ou outro, que não nos ofenda. E falar sobre o tempo. Ou sobre o frio que não demora a vir.
No último inverno, eu estava sozinha. Era bom. Era eu mesma. Com outras manias, inclusive, que não revelo. Agora, ele está. Antes tinha medo de ocuparem o que era meu, hoje tenho medo de que ele parta. Que não consiga conviver, que eu suje suas intenções futuras de permanecer. Justo eu que sou tão limpa.
Tenho medo de mim. De uma reação mais áspera a uma ação qualquer, que pareça inocente, mas que me roube a tranquilidade. Com o meu primeiro marido, morávamos sozinhos. Hoje, os deixados do tempo moram conosco. Gosto de deixar o lençol cuidadosamente enfiado no colchão. Ele deita e tira. Disse, em voz alta, que não gosta de sentir os pés presos. É tão bom quando ele esfrega os seus pés nos meus e sussurra delícias com que eu já havia me desacostumado.
Hoje, vou fazer uma massa para jantarmos. Vou preparar tudo antes que ele chegue e se proponha a me ajudar. Vou fazer uma torta de maçã, que ele adora. Eu também. Servida quente, com um pouco de sorvete. Antes que o inverno chegue.
Publicado no dia 02 de junho, no jornal O Dia (RJ).
“Outras histórias surgiram na minha vida, naturalmente. Nunca fui de soprar querosene em fogo, sou do aconchego. Sou respeitador do tempo e amigo das calmarias. Elas chegam, é só ter paciência.”
Faz tempo que aconteceu. Mas até mesmo o tempo fica, quando o que fica faz tão bem.
Faz bem lembrar, revisitar o que fiz de bem. E o que ficou por fazer. Longe de mim a miragem da perfeição. O barro de que sou feito tem saliências, tem quebraduras, tem remendos. Mas está em pé, como deve ser. E caminha. Sempre caminhou.
Eram dois irmãos. Eu os conhecia. A cidade era pequena. Os nomes e apelidos estavam em nós. E os cumprimentos. E os encontros. Um bar ali, uma feira com o seu vendedor de pastel, uma partida de futebol em um dos dois times da cidade, um mergulho de rio.
Havia um beco que guardava mistérios. Não sei por que me lembrei disso agora. Mas, na infância, eu tinha medo. Diziam que os mortos se encontravam ali. Eu, que sempre gostei de cemitério, evitava o beco.
O tempo foi golpeando e vencendo e voltei à cidade, depois de me formar em Direito. Era um jovem advogado em busca de seus primeiros consertos. Queria consertar o mundo!
Jerônimo foi preso. Não importam aqui as razões. Foi preso. E, na prisão, foi convencido de que seu irmão, José, era o responsável. Fui estar com ele. Abraçou-me entre grades. Chorou o choro dos injustificados. Jurou vingança. Ouvi. Prometi defendê-lo. Falou-me da vergonha e do irmão que o vendeu como traficante. Ouvi novamente. E, novamente, me fiz compreensivo.
Saí e voltei outro dia com os argumentos que usaria. Entregou-me ele uma carta, fechada, para o irmão. Chorava de ódio. Pediu que eu lesse, se quisesse. Nada disse. Mas quando saí, li a carta. Era um desabafo de ódios e acusações. Resolvi guardar a carta. Rompantes precisam ser depurados.
Dois dias depois, ele estava solto. E o irmão foi abraçá-lo. Choraram juntos o choro do amor. Não havia culpados. Havia uma praga chamada injustiça que vem e atrapalha. Jerônimo me olhava com curiosidade. Esperou o irmão sair de perto e quis saber. Eu disse que não havia entregado a carta. Que achei melhor esperar. Ele repousou e, em um abraço agradecido, suspirou aliviado. Pediu que eu a rasgasse, que a queimasse. E disse algo como que “injustiças geram injustiças”. Cegou-se ele na prisão e deixou de ver o quanto o irmão era bom.
Outras histórias surgiram na minha vida, naturalmente. Nunca fui de soprar querosene em fogo, sou do aconchego. Sou respeitador do tempo e amigo das calmarias. Elas chegam, é só ter paciência.
Nunca mais os vi. Mudei-me para a grande cidade e, aqui, permaneci. Mas, em mim, permanecem essas histórias. Ainda me comovem. Lembro-me dos erros, certamente. E tento aprender. Mas o que emociona são histórias que a minha história ajudou a amar.
Jerônimo. José. Nomes sagrados. Os segredos são importantes. Há muita pressa em revelações. Nunca disse nada a ninguém. Queimei a carta. Guardei o ensinamento. Aumentar a dor não é meu ofício. Nunca. Nasci para os alívios, por isso gosto de envelhecer. O passado não me atormenta e o futuro ainda existe.
Publicado no dia 26 de maio de 2019, no jornal O Dia (RJ).
“Não sou de ficar choramingando pelos cantos. O passado foi lindo, mas passou. O tempo já escorregou de meus desejos muitas vezes. E eu não pude segurar.”
Quando o Nelson era vivo, era fácil. O primeiro pedaço era sempre para ele. E ele fingia surpresa. E ria o sorriso mais lindo que havia no mundo. E me beijava com os lábios lambuzados de bolo. E eu gostava.
O Nelson se foi. E deixou um buraco em mim. Os meus filhos diziam que eu era uma viúva inteira, que logo estaria ocupada com outro amor. Acho até que diziam para ver minha reação. São muito ciumentos os meninos. Mas eu não quis outra experiência. Não. Preferi viver os filhos e os netos. Gosto até de dançar, de vez em quando, mas nada de começar tudo de novo. Dá muito trabalho, penso eu.
O fato é que, toda vez que faço aniversário, é esta cobrança: quem vai ganhar o primeiro pedaço do bolo? Para filho, não posso dar. São três. Para as noras, também não. Os netos são sete. Uma amiga deixaria a outra enciumada. Que difícil. Já pensei em dar para a pessoa mais velha ou para a mais jovem, para ter um critério. Já pensei em cortar vários pedaços ao mesmo tempo.
Sou eu mesma quem faz o bolo. Da família toda. Eu gosto da cozinha. Não me importo de alimentar muita gente. Vez ou outra, eles querem comprar em alguma doceria. Eu não deixo. Se quiserem comer na minha casa, vão comer do meu bolo.
Sabe que sempre fui boa em decidir? O Nelson deixava tudo nas minhas mãos. A comida. A roupa que melhor lhe cabia. O dinheiro. As contas que deveriam ser pagas. A última palavra do pedido de um filho. É claro que conversávamos, mas ele me olhava com tamanha docilidade e só queria que eu me sentisse dona da situação. E era visível que ele gostava disso. “Sua mãe resolve”, “É ela que sabe”, “Meu amor, o que você decidir está bom”.
Não sou de ficar choramingando pelos cantos. O passado foi lindo, mas passou. O tempo já escorregou de meus desejos muitas vezes. E eu não pude segurar. O Nelson tinha o costume de caminhar comigo segurando no meu braço. Eu gostava. Era como se eu fosse o seu suporte. Nos últimos dias, seu caminhar era vagaroso. Ele pressentia que o último caminhar se aproximava. Mas não reclamava. Apenas olhava agradecido por ter tanto amor por perto.
Não poucas vezes, consolava amigos em luto lembrando que a morte é uma certeza indiscutível. Sobre o que viria depois, ele pouco falava, apenas confiava. Meu marido sempre foi um homem de muita fé.
Lá estou eu no passado novamente. Mas como não manusear as fotos mais lindas da minha vida? Estão em mim. Inteiras. Ontem mesmo, fiquei deitada em uma almofada que ele me deu com um escrito de amor. Gostaria de estar deitada no colo dele, como tantas vezes.
E o bolo? Ofereço a quem o primeiro pedaço? Não gosto de rasurar afetos. Sempre cuidei para que os três filhos se sentissem amados. Exatamente isso, não basta aos pais que amem os seus filhos, é preciso que eles sintam esse amor, senão correrão o risco de mendigar amor pela vida. Em casa, nos meus erros e acertos, amor nunca faltou.
Talvez dê o primeiro pedaço para a Carminha que perdeu o marido há pouco. Exatamente. Um pedaço de ternura para aquecer a falta que ele vai fazer. Nos inícios, é muito difícil. Depois também. Mas a gente se acostuma e prossegue. Consolei Carminha como pude. Do meu jeito. De falar pouco e abraçar o necessário. Era de presença que ela precisava. Disse que ainda não estava em clima de festa, mas que viria ao meu aniversário, que iria fazer bem. As outras vão entender.
Vou usar um vestido azul que o Nelson me deu. Ainda lembro suas palavras na loja, ainda lembro seu olhar. E eu, timidamente, experimentando para ele decidir. “Você é a mulher mais linda do mundo, qualquer vestido fica bom”. Na época, ralhei com ele. E decidi que ele havia decidido. O azul.
O céu está lindo hoje. Como é bom viver. Se eu pudesse, começaria tudo de novo, mas, como disse, o tempo é arredio e não volta. Fazer o quê?
Publicado no dia 19 de maio de 2019, no jornal O Dia (RJ).
“Você escolheu ser mãe. Você escolhe ser mãe todo dia. Todo dia você compreende as minhas imperfeições e prossegue me amando.”
Mãe, é seu dia.
Todo dia é seu.
Há um cordão que jamais foi cortado. Um cordão que liga os tempos da existência. E que se alimenta na energia do amor.
O amor vive em mim como um candelabro de alma. É possível iluminar se eu estiver disposto. Não poucas vezes me canso. E me prendo em outros fios. E não acendo a vela. E me perco nos escuros. E aí me lembro de você. Do seu colo incandescente de força. E me levanto e recomeço.
Você foi mudando, mãe. E permanecendo. Os anos vão trazendo despedidas. A infância se vai com uma pressa que impressiona. E, assim, as adolescências, os desabrochares, os encantamentos efêmeros. Sua força física também se despede, mãe. Os passos são mais vagarosos. O vigor mora mais na sabedoria que nos braços. E você me abraça. Quanta coisa cabe em um abraço! E você me beija como sempre. E falamos algumas falas antigas e outras que descobrimos recentemente. Tentamos dar um ar de novo ao que novo não mais é. E brincamos de futuros, juntos, permanecidos de afetos.
Você escolheu ser mãe. Você escolhe ser mãe todo dia. Todo dia você compreende as minhas imperfeições e prossegue me amando. E me alivia cansaços. E me lança pensamentos para que eu reconstrua o que se quebrou.
Não há quebraduras em nossa história.
Desde o tempo que me lembro, você celebrou a maternidade. A minha e a dos meus irmãos. Você reclamou a reclamação certa. Sem exageros. Seus cansaços eram espantados com um sorriso nosso. E aí você sorria o sorriso do amor mais puro. Amor de mãe.
Do seio ao colo. Do colo ao engatinhar. Do engatinhar ao caminhar. Do caminhar ao voo solo. E você acenando com lágrimas de entendimento. Cada filho tem o dever de descortinar o próprio mundo. De preencher a humanidade com sua humana vocação. De cantar o canto que você ensinou.
Sair de casa não é fácil. O ninho é tão bom. Os alimentos que nos robusteceram foram escolhidos um a um por você. E por meu pai. Gratidão à família que me gerou. Saudade do tempo, de todos os tempos vividos. Gratidão, mais uma vez.
O amanhã está batendo à nossa porta, mãe. Só peço que você permaneça comigo para que possamos receber juntos o que vem. Assim fico mais seguro. Assim respiro a felicidade com mais garantia.
Mãe, é seu dia.
Todo dia é seu.
É demais repetir “eu te amo”?
“Eu te amo, mãe”, com todas as experiências do passado, com toda a certeza do presente, com os medos e as esperanças pelo que virá.
Eu te amo, mãe.
Publicado no dia 12 de maio de 2019, no jornal O Dia (RJ).
“Para mim, é isso a amizade. Um estar desinteressado. Um dividir que multiplica. Um sentimento bom.”
É noite. Gosto de tomar um chá antes de dormir. Costume antigo de família. Chá de erva doce. Parece que faz bem.
O sono, hoje, será tinhoso, eu sei. É sempre assim, basta uma tristeza aguda e fico eu a dançar pela cama. Viro de um lado, viro de outro e peço ao meu pensamento que não pense em mais nada. Mas ele não obedece. Nem o chá doce, desta noite, conseguirá aplacar essas imagens que perambulam em mim.
Não fui o primeiro nem serei o último a experimentar o amargor da ingratidão. Uma vez, li, em algum lugar, uma frase que ficou gravada em mim, “Gratidão é um sentimento que não prescreve”. Gostei tanto que repeti para muitos amigos. E foi, justamente, de um amigo que veio a tal ingratidão. Um amigo que me parecia perfeito. Erro meu. Amigos também têm o direito sagrado da imperfeição. Mas, imperfeito que sou, não consigo entender o que fez ele.
No dia que antecedeu a sua atitude deselegante, jantamos juntos. E rimos. E falamos sobre o prazer da convivência. Havia música e outros amigos. Estávamos em paz.
Sei que há pessoas que roubam a nossa paz. Que chegam sorrateiras e desfilam presença. E, presentes, afastam os que verdadeiramente nos amam. Sei que isso acontece. Mas esse meu amigo é um homem maduro, vivido, de uma inteligência que inspira. Teria ele se deixado levar por influências tão toscas? Teria ele se esquecido de medir com a régua do amor o seu caminhar?
Caminhamos tantas vezes juntos. E tantas vezes partilhamos nossos calvários. Ajudamo-nos, mutuamente, a levantar. Vez ou outra, sentávamos em uma beira do tempo e ríamos das nossas estranhices.
Para mim, é isso a amizade. Um estar desinteressado. Um dividir que multiplica. Um sentimento bom. O oposto da amizade é a inveja, é a intriga, é a traição.
Pois bem, enquanto sinto o cheiro do chá fumegante, balanço a cabeça contrariado. Gostaria de ter a capacidade instantânea de perdoar, mas não tenho. Será uma noite difícil. Serão dias difíceis. Sentirei a sua falta. É o preço que terei de pagar por minha autenticidade. Fingir que o que ele fez foi correto não está em mim.
Se fizeram sua cabeça contra mim, bastaria um olhar e uma pergunta. E eu responderia. Talvez eu ficasse chateado, mas não a ponto de um encerramento. Há entreatos nas relações, pausas que podem fazer bem. Pontos finais finalizam.
Meu pai me ensinou, desde sempre, a conjugar o verbo escolher. Escolhi beber essa xícara de chá. Escolheu ele oferecer a mim a erva amarga da ingratidão. E não me digam que foi impulso. Não. Eu dei a ele a oportunidade de me dizer que foi tudo um mal entendido. Ele se manteve firme. Orgulhoso de ter se vingado de algo que eu nunca fiz.
Na janela da casa onde moro, cantam alguns passarinhos. Só quando amanhece. Nas noites indormidas, é esse som que me avisa que o dia me aguarda.
Minha mulher volta amanhã de viagem. Eu viajo pouco. Gosto do meu bairro, da minha praça, dos meus amigos. São poucos. Agora, menos. Mas é assim. Só peço a Deus que um ou outro não me convença de que o melhor é viver sem ninguém. Isso, não. Desistir da humanidade, nunca.
Hoje mesmo, vou encontrar um velho amigo que veio de Minas só para me ver. Gosta de me presentear com doces e com esperança. Dormindo ou não, amanhã, é um outro dia.
Publicado no dia 05 de maio, no jornal O Dia (RJ).
“ Antigamente, era comum aguardarem. O tempo da escrita. A correção das rasuras. O tempo da entrega. E a leitura era mais vagarosa, penso eu. Hoje é tudo muito rápido. Por isso não se presta atenção ”.
Carteiro é minha profissão. Entrego cartas. Entrego envelopes. Entrego sentimentos.
Há muita gente que ainda envia cartas. Não me chamem de velho, de ultrapassado, mas prefiro as cartas às mensagens rápidas, que nascem sem estarem prontas. É assim que fazem os apressados, no calor das perturbações escrevem e mandam e ferem. Já os que escrevem cartas ouvem a canção demorada do pensamento. Viajam viagens imaginárias, frequentam lugares, relembram momentos. Nada de pressa.
Antigamente, era comum aguardarem. O tempo da escrita. A correção das rasuras. O tempo da entrega. E a leitura era mais vagarosa, penso eu. Hoje é tudo muito rápido. Por isso não se presta atenção.
Dia desses, surpreendi meu filho irritado com uma mensagem que recebeu. Na tentativa de acalmá-lo, li com ele. Até o final. Ele olhou-me em silêncio. Não havia razões para irritação. A pressa fez com que ele não entendesse a mensagem. Irritou-se com o início, e o resto não pôde dizer o que queria. É assim que é. Parece que acenderam o fogo da intriga. E que o alimentam com a ausência de paciência. É o reino dos perturbados.
Gosto da volta para casa, depois do trabalho. Do anoitecer com a minha mulher. Uma música ao fundo e a conversa. Ela me conta o que fez na farmácia e eu ouço. Ouvir é amar! E eu conto o que fiz e o que imaginei.
Quando entrego os envelopes, fico desejando que sejam boas notícias. Exames de laboratório sempre são aguardados com alguma apreensão. Que sejam surpreendidos com boas notícias os que recebem. É o que desejo sempre. Entrego contas também, claro. Que tenham como pagar. Que estejam trabalhando. Por que viver desejando o mal ao outro ou sendo indiferente ao outro? Os sentimentos bons que enviamos, recebemos. Tenho crido nisso toda a minha vida. E é por isso que tenho paz. Gostaria de ter mais coisas do que tenho? Certamente. Os desejos vêm. Mas vão. Minha mulher fala muito do que permanece. Ela estudou mais do que eu. Gosta de ler.
Preocupa-se com cada informação que passa adiante. É responsável. Eu entrei o ano passado na faculdade. Sou o mais velho da turma, mas não me importo. Desafios novos nos rejuvenescem. Meu filho já é formado. Talvez seja meu professor em um dos semestres. Imaginem que privilégio ser aluno do próprio filho. Ele tem as agitações próprias da idade, mas é muito talentoso e tem o que é o mais importante, na minha opinião, para o ser humano: bons sentimentos. O resto se ajeita. Ele é bom, graças a Deus.
Semana que vem é meu aniversário. Eles sempre me surpreendem com algum gesto de amor. Minha mulher e meu filho. Como não ser feliz? Há tantos que buscam uma história de amor, que sonham em ter uma família, que engatinham em busca de atenção. Eu tenho tudo isso. Com todas as imperfeições. Com todas as dores que já nos visitaram. Mas, em nossa casa, as cartas que guardamos são aquelas que nos elevam. Não gostamos de colecionar notícias ruins. Damos a elas a pouco atenção que elas merecem. O tempo precioso é reservado para o que nos une.
Que presente quero de aniversário?
Não vou dizer assim rapidamente, vou escrever uma carta e enviar para que eu mesmo possa recebê-la. Vou escrever com a calma necessária para errar menos. Vou escrever para compreender melhor o que é essencial. E, quando lê-la, vou prestar atenção para que nada se perca. Para que eu não me perca. Mesmo estando tudo bem, é preciso ser cuidadoso. Sentimentos ruins também são entregues. E chegam quando se menos espera. É preciso estar alimentado para enfrentá-los.
É isso que tento fazer todos os dias. Alimento-me, entregando amor.
Publicado no dia 28 de abril, no jornal O Dia (RJ).
“Justo na semana da Páscoa, o fogo na Catedral. Fiquei triste, sim. E, depois, fiquei feliz. Era muita gente na rua cantando cânticos de oração. Diante do fogo, a fé. “
Eu vi as imagens. Fiquei triste. Nunca saí do Brasil. Não conheço Paris. Mas, de longe, imagino como deve ser a Catedral que pegou fogo.
Trabalho em uma Igreja. Cuido de tudo. Já convivi com todo tipo de padre. Uns mais santos; outros menos gentis. São humanos, oras!
Nos dias da semana santa, fico mais feliz em fazer o que eu faço. Limpo as imagens. Coloco as velas nos castiçais. Cubro de roxo o altar nos dias que antecedem a Páscoa. E, depois, enfeito de flores a Igreja. Ah, e toco os sinos, também.
Gosto do anoitecer na Igreja. Fecho as portas e, antes de ir embora, fico olhando para as imagens e imaginando. Penso em quem fez. Penso se sentiu a dor que a imagem passa. Penso nas injustiças que sofreram os que estão ali retratados. A imagem que mais me dói é a da Mãe de Jesus com Ele no colo. A mãe e o corpo do filho sem vida.
Desde criança, eu perturbava meu pai querendo saber por que O maltrataram daquele jeito. E meu pai dizia que Ele venceu. E que isso era a Páscoa. A morte que vence a vida, a liberdade que vence a escravidão, o amor que vence as perversidades.
Justo na semana da Páscoa, o fogo na Catedral. Fiquei triste, sim. E, depois, fiquei feliz. Era muita gente na rua cantando cânticos de oração. Diante do fogo, a fé. Diante do fogo, a humildade de saber que tudo vira cinza. Mas a canção sobe aos céus e a tristeza fica bonita. Fiquei parado olhando aqueles olhares. Cada um parou o que estava fazendo para sentir a dor de todo mundo. No mundo todo, há gente sentindo dor. Mesmo na Páscoa. Há fogo que queima dentro da gente. E que nos consome. O fogo da amargura. O fogo do desprezo. O fogo da arrogância. O fogo da insensibilidade.
As labaredas sobem aos céus e muita gente nem vê. Por distração, talvez. Não sei muito bem. Só sei que, desde cedo, aprendi a gostar da Páscoa e a conviver com a esperança. Se a vida venceu a morte, há esperança. Meu pai nos explicava sobre o ovo, símbolo da vida, da vida que persiste, da vida que surpreende.
O fogo tem muito poder. O poder de transformar. O poder de iluminar. As escuridões vão se multiplicando e vamos nos acostumando com elas. E nada de luz. Nem de aconchego. Mesmo na Igreja em que trabalho, vejo essas ausências. Joelhos que beijam os chãos automaticamente e que, depois, se levantam e se apressam para nada fazer quando há alguém caído. Tudo diferente do que Ele ensinou. E as mentiras que fizeram com que o povo desejasse Sua morte continuam hoje. E continuam matando. As traições também prosseguem e, também, a falta de solidariedade. Até os mais próximos se fizeram distantes. Mas Ele os perdoou. Ele compreendeu os seus medos. Ele orou ao Pai dizendo que eles não sabiam o que estavam fazendo. Quanta injustiça a ignorância é capaz de trazer!
Se parássemos um pouco para pensar… Por isso sento e olho a Igreja, antes de ir para a casa. E rezo do meu jeito. Às vezes, sem nada dizer. Só olhando. Às vezes, dizendo e pedindo e agradecendo. E depois ando pelas ruas como que alimentado de amor. E aí sou capaz de ver Deus nos caminhantes que cruzam o meu caminho, como Ele ensinou. O próximo. Aquele por quem eu devo ter compaixão e cuidar.
Eu vejo imagens e fico triste. Fico triste, às vezes, comigo mesmo. Porque aprendi e não faço. Porque me acomodo. Porque olho o fogo e não me transformo. Mas hoje é Páscoa. É passagem. Avisto não tão longe a felicidade. Foi por isso que tudo aconteceu. Seu sangue derramado. Sua entrega amorosa. E tem gente que não acredita e que se tranca no frio.
Estou aquecido. Hoje, vou contar história para os meus netos. Logo depois de nos alimentarmos. O mais velho tem o meu nome. Pedro. Mesmo ele que era tão forte teve medo e negou o amor mais de uma vez. Santa imperfeição. Somos todos pedra e nada. Força e fraqueza. Então, nada de julgamentos nem de acusações. É dia de celebrar a liberdade. Mesmo com as chamas. Mesmo com a dor.
Feliz Páscoa!
Publicado no dia 21 de abril, no jornal O Dia (RJ).
