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AMAMENTAR, VERBO INSPIRADOR

“Há muitos emaranhados de nada. De gente que não se revela e que apenas acusa sobre o que não sabe.”  

Tenho aptidão para o silêncio. As quietudes não me incomodam. Gosto, também, da conversa. Quando se destravam os medos e se fala do que importa. 
 
Há muitos emaranhados de nada. De gente que não se revela e que apenas acusa sobre o que não sabe. Disso, não gosto. Quem do outro fala, de mim, há de falar. Quem fala de bondades revela uma face melhor. 
 
Estava sozinho, ao lado de muitas pessoas, na espera da minha vez. O sol arrebentava lá fora. O dia estava agitado, como sempre, com vozes em todos os tons. Por que algumas pessoas falam tão alto? Gritarias sujam o dia. 
Foi quando, em uma cadeira, uma mulher pôs os seios à disposição e alimentou seu filho. A cena me trouxe silêncio. Duas faces, a da mãe e a do bebê. Duas faces na fotografia do amor. Ela, o amor entrega. Ele, o amor necessidade. Ela, a compreensão do significado daquele instante. Ele, o instante. Sentimentos não precisam de explicação para quem os sente. Mas é bonito de se ver. O bebê quase que, animalescamente, sugando a vida. E a mãe quase que, divinamente, oferecendo sua vida para uma outra vida. 
 
É comum que mulheres sintam dor ao amamentar. Que sofram. E que esqueçam o sofrimento. Os dias vão dando tamanho ao filho. Os barulhos deixam de ser de choro e passam a ser de canção. 
 
Enquanto esperamos, há uma música que acalma as pessoas. Os nossos nomes vão sendo chamados um a um. É uma repartição em que se aguardam documentos. Ouço o meu nome e me levanto com calma, enquanto contemplo um pouco mais aquela mãe e seu filho. Ele acabou e agora descansa. Ela o balança com dengo e ele gosta. O que pensa o pensamento de um bebê? Está tudo nos inícios. Ele ri do movimento. E ela prossegue. E prosseguirá para sempre sendo mãe. Uma mulher é outra depois dos filhos. As noites nunca serão como antes. As preocupações ocupam outros espaços. É assim que é. 
 
Chamam meu nome mais uma vez. Preciso ir. Precisava dizer àquela mulher o quanto aquela cena era linda. Talvez diga, depois de ser atendido. 
 
Sentado à mesa, conferem o meu nome. O nome do meu pai. O nome da minha mãe. Enquanto buscam algo, penetro no tempo e brinco de imaginar como eu era enquanto amamentava. Que canções minha mãe cantava. Eu fui o filho mais novo de vários. Ela já havia experimentado a generosidade muitas vezes. 
 
Minha mãe dizia que eu era uma criança calma. Mães dizem docilidades. Nasci grande. Nosso cordão umbilical nunca se cortou. Do leite ao colo. Do colo às mãos dadas. Das mãos dadas ao abraço da chegada depois de alguma partida. Das partidas aos aplausos e silêncios nas glórias e nas tristezas. 
 
No silêncio de minha mãe, alimento minha esperança. De prosseguir. Somos esses punhados de vida. De alimentos em alimentos crescemos. Vez em quando, escorregamos. Vez em quando, barulhos nos atormentam e cenas nos acalmam. 
 
Volta o homem com o documento. Está tudo certo. Agradeço. E volto para a sala de espera. Vou falar com aquela mulher e dizer a ela sobre a fotografia que ficou na minha alma. Procuro e não vejo. Há muitos outros rostos com luzes e rugas naquele espaço, como em todos os espaços. Uma senhora bem idosa, daquelas que são idosas há muito tempo, me sorri e me deseja um bom dia. 
 
Será um dia bom. 
 
Publicado no dia 01 de setembro, no jornal O Dia (RJ). 

OS DIAS FRIOS E OS DIAS QUENTES

“Em casa, falamos nada do ocorrido. Fiquei no meu quarto imaginando a mulher embaixo da terra. E as coisas dela que ficaram na casa. Não eram mais dela. Ela não voltaria mais.” 

 
Acordei, hoje, de conversa com a saudade. É um dia frio. Um dia estranhamente frio para essa época do ano. As temperaturas estão cada vez mais imprevisíveis. Dizem que há excesso de ação humana no curso da natureza. 
 
As feridas, se lhes mexem muito, também ficam imprevisíveis. E ficam nos lembrando do que nos falta. 
 
Pessoas nos faltam. 
 
Um dia, morreu uma senhora na rua da minha casa. É o primeiro velório de que me lembro. Curioso, quis ir. Meus pais permitiram. E lá fomos nós. Havia choro intercalado com conversas alegres. Quando um parente que morava distante chegava, todo mundo chorava. Depois, o curso dos minutos com um café e algum biscoito. 
 
Meus pais não estavam chorando. Em silêncio, rezavam. Resolvi que eu deveria chorar para representar a família. Fechei os olhos e comecei a imaginar alguma dor. Não me lembro das dores fortes que eu imaginei. Das feridas que surgiram na minha mente. Eu era criança. Só me lembro de que chorei um choro tão doído que virei o centro daquela despedida. As frases para mim eram todas reconfortantes: “Que menino lindo!”, “Nossa, quanta emoção!”, “Como pode uma criança sentir tanto?”. Minha mãe chorou junto. Meu pai, também. Fiquei um pouco arrependido depois. Na época, pensava que o choro enterrava a felicidade. E lá se foi o corpo da mulher. 
 
Em casa, falamos nada do ocorrido. Fiquei no meu quarto imaginando a mulher embaixo da terra. E as coisas dela que ficaram na casa. Não eram mais dela. Ela não voltaria mais. 
 
Tive muitas machucaduras na minha vida. Algumas, até desejei. Achava bonito ver gente com o braço ou a perna engessada. Queria ter dentes tortos para usar aparelho. Ficava desiludido quando o médico da escola dizia que eu não precisava de óculos. Doente, me davam mais atenção. Então, não era tão ruim. Feridas no corpo de uma criança cicatri 
 
Fui a muitos velórios. E chorei sem fazer esforço. Quando meu avô morreu, eu, já adolescente, ficava deitado em sua cama imaginando se um dia o reencontraria. É disso que me lembro nesse dia frio. Talvez porque a alma sinta alguma dor. Como se faz com as feridas da alma? Como se apressa sua cicatrização? 
 
Tenho tudo o que preciso e tenho sempre alguma dor. Pelo que me falta? Por que penso no que me falta? Penso ou desejo? Quando tenho, não sinto que tenho. E depois choro. É assim com todo mundo? Percebi que amava depois da partida. Mais de uma vez. Desejava o fim e, quando o fim chegava, lamentava a falta. E a ferida. E o tempo da cicatrização. Foi assim com a morte de pessoas que amei. Foi assim com a morte do amor de pessoas que não sabia que amei. 
 
O choro faz bem. Aprendi com o tempo. Chorar e agradecer pelo tempo. Onde estivemos juntos. Onde deixaremos de sofrer. O passado foi lindo, pena que demorei a compreender. O futuro existe, quero acreditar nisso. Mas é hoje que vivo. Nesse dia frio. Dias frios também passam. Dias frios talvez existam para que celebremos a chegada do calor. Feridas talvez existam para que nossa alma se enfeite de cicatrizes. É como um mapa dos sentimentos que, se soubermos compreender, nos ensinará como um guardador de saudades. 
 
Acordei, hoje, de conversa com a saudade. Foi o que eu disse quando comecei. Sempre começo e sempre persigo o que falta sabendo que tenho o que tenho. Eu tinha pais que me amavam e perseguia as atenções. Carências de criança. De toda criança. Amadureci, mas permaneci carente. Como toda gente. Compreendi que o choro não enterra a felicidade. Faz parte dela. 
 
Daqui a pouco, meus filhos acordam e vêm brincar comigo. E a conversa muda. A saudade compreende a alegria e parte. E depois volta. Como os dias frios e os dias quentes. 
 
Publicado no dia 25 de agosto, no jornal O Dia (RJ). 
 

DIFÍCIL RECOMEÇO

“Tem gente que diz que o aluno faz a escola. Não sou sabido para dizer o certo, mas gosto das matérias dos professores que gostam da gente.” 

 
Não é fácil. Na minha idade, não é fácil. Fiquei muito tempo usando o tempo para outro fazer. O trabalho exigiu de mim, meus filhos, também, e minha mulher. Não lamento. As páginas vão sendo viradas. E o que se viu, de alguma forma, fica. E o que se fez devia ter sido feito, é o que eu penso. 
 
Cresceram eles. Cumpri o meu paternal destino. Fiei os meus dias costurando futuros, com eles. Com minha mulher. 
 
Amanda nunca reclamou de meu pouco estudo. Quando nos casamos, ela já era formada, já administrava companhias, já liderava. 
 
E eu dirigia, levando pessoas de um lado a outro. Foi assim que nos conhecemos. Em um dia em que o céu inteiro se derramava em água. Para fugir da chuva, ela acenou. Entrou no meu carro, disse o destino e nos olhamos. Eu cedi um lenço para que se secasse. Ela agradeceu. Falamos nada no início, mas nos olhamos. O espelho do carro me revelava os olhos que me acenderiam os dias. E assim nos amamos até hoje. 
 
Quando disse que voltaria a estudar, ela apenas ofereceu o sorriso rotineiro e fez um comentário elogioso. E me beijou com sabor de novidade. O tempo não nos esfriou. Gostamos de nos sentir e nos sentimos dispostos a permanecer. 
 
Não tenho apreço pelas mentiras. Já tivemos que limpar muita história. Já nos estranhamos em nossas diferenças. Mas o tempo foi nos convencendo de que era bobagem deixar a mesa posta e tentar outro lugar. Nos alimentamos até das dores e aqui estamos nós. Inteiros. 
 
No primeiro dia de aula, entendi nada. Sou lento para a escrita, embora seja atento para a escuta. Sou o mais velho da turma. Isso não me incomoda. Chego cedo e me preparo para o novo. 
 
Entra e sai professor. Matérias diferentes vão forçando o meu cérebro a se exercitar. Às vezes, me canso. Meu pensamento viaja a lugares outros que a sala de aula. Às vezes, me boicoto. Digo para mim mesmo que é bobagem tudo aquilo. Às vezes, me elevo e fico em êxtase por aprender o que não imaginava. 
 
Tem gente que diz que o aluno faz a escola. Não sou sabido para dizer o certo, mas gosto das matérias dos professores que gostam da gente. 
 
Amauri é um professor que nos enxergou, desde o início. Quis saber o nosso nome e outras coisas. Sua conversa já era um ensino. Gostei quando disse que o que mais gostava na vida era de estar ali. Com a gente. Falou de umas teorias textuais e nos pediu que escrevêssemos uma carta. Linguagem epistolar. Eu nem sabia o que era. Ele explicou. Escrevi uma carta para Amanda. Ele gostou, sentou comigo e foi sugerindo consertos. Disse que o mais importante eu tinha, os sentimentos. O resto se aprende. 
 
Julia é professora de matemática. Disse que os números são mais fáceis que as pessoas. E riu. Gosto de quem gosta de sorrir. Vou anotando como posso e, no tempo que posso, estudo. 
 
Vou me formar aos 60 anos. Não sei se vou mudar de trabalho. Gosto de dirigir. E de imaginar a vida dos outros. Sem inveja alguma. Só curiosidade e admiração. Quando vejo dois velhinhos de mãos dadas no meu carro, penso em Amanda. Quando vejo dois jovens começando, penso em Amanda. Quando chove, me lembro do primeiro dia com ela. E, quando não chove, me lembro dos outros dias. Com ela. Foi mais ou menos isso que escrevi. Que vivi. Ele quis que eu lesse alto. Corei. Tenho uma certa timidez. Li. Gostei de enfrentar os meus medos. Outro havia lido uma carta de pedido. Outro, de despedida. Quando li a minha, alguns pediram para refazer as próprias. Falar de amor contagia. 
 
Meus filhos brincam comigo. Dizem que fico bobo quando olho para a mãe deles. Pode ser. Ontem, disse a ela sobre o poema de Drummond. “No meio do caminho havia uma pedra”. Ela continuou. E falou das flores. E me declamou Cora Coralina. Enquanto falávamos, os nossos dedos brincavam de amar. E, depois, prosseguimos sem as palavras… 
 
Publicado no dia 18 de agosto, no jornal O Dia (RJ). 

BRIGA DE IRMÃO

“Eu disse que, além do doce, conhecemos o resto. E o resto também faz parte da vida. E o resto desvaloriza a vida.” 

 
Minha mãe tinha o talento de amaciar as conversas, e meu pai era um escultor de gentilezas. Dizem que são os opostos que se atraem, mas, em casa, eu via o contrário. Na docilidade dos que me trouxeram ao mundo, fui crescendo e conhecendo o doce e o resto. 
 
O doce estava, também, nas compotas que minha mãe fazia. Meu pai chegava em casa e comia com os olhos o prazer que ela havia preparado. E, depois, se alimentava de tudo. E, antes de se despedir do dia, tomava-a em seus braços para o principal alimento, o amor. 
 
Foi assim que meu irmão e eu passamos as etapas da vida. Até que, um dia, saímos de casa. Ele se casou primeiro. Depois, eu. Depois, meus pais se foram. Em menos de um mês, nos despedimos dos dois. 
No velório de minha mãe, meu pai se benzia com a serenidade dos que sabiam que o reencontro não seria demorado. 
 
Eu disse que, além do doce, conhecemos o resto. E o resto também faz parte da vida. E o resto desvaloriza a vida. 
 
Alguns anos se passaram depois da orfandade. Deixamos de ser filhos para sermos pais. E irmãos é o que seremos sempre. Até o dia da despedida. 
 
 
O resto azeda a vida. E foi assim, em uma tarde boba, em uma briga de futebol, em um dissenso, que nos olhamos enfurecidos e nos prometemos distância. Para sempre. 
 
Torcemos para times diferentes que, naquela tarde boba, jogavam. E a falta que houve ou não foi o motivo da falta que até hoje ele me faz. Não me lembro de quem gritou primeiro. Havia outras pessoas. Exaltamo-nos nas ofensas. E eu saí da casa dele trazendo meu filho comigo. Que me olhava em silêncio. Saí falando impropérios contra o tio. Justo eu que fitava com admiração a serenidade dos meus pais. 
 
Dias depois, eu já havia percebido a desnecessidade da separação. Esperei que meu irmão pensasse o mesmo e que me procurasse. Talvez ele também tenha esperado. Só vou saber hoje. Os dias chegam e partem como uma sinfonia perfeita. Nas pausas, nos desapercebemos do tempo. E o tempo traz acordes que nos acordam para continuar a canção. 
 
A canção sem meu irmão virou solo. Minha mulher ensaiou algum dizer e desistiu. Meu único irmão tão perto e tão longe. Cheguei a passar pela rua dele, próxima à minha, numerosas vezes, para que nos encontrássemos por acaso e para que tudo voltasse a ser como nos dias em que as compotas de doce de abóbora e de coco e de figo e de leite adoçavam nossa conversa na mesa da cozinha. 
 
Dizem que palavras convencem e que exemplos arrastam. Os exemplos dos nossos pais deveriam nos arrastar para o abraço. Quanta coisa cabe em um abraço! 
 
Ontem, quando um novo dia veio me despertar, fiz as contas. Cinco anos de ausência. Nesse tempo, eu o visitei apenas nas ideias, nos pensamentos. Enriqueci-me de tristezas. E tudo pelo amargor da soberba. Julgava eu que era ele quem deveria me procurar. E me pedir desculpas de uma briga que nem lembro como começou. 
 
Antes do dia de ontem, sonhei com os meus pais. Meu pai preparava um chá para aquecer o dia frio. Minha mãe soletrava dizeres com o prazer dos que sabem comer os cheiros. No sonho, eles estavam felizes. E, súbito, entrava meu irmão e sorria para mim. E foi assim que acordei e que contei o tempo. Foi assim que telefonei e foi assim que ele atendeu. Antes do medo do desprezo tomar conta de mim, ele disse que iria me ligar naquele dia. Que a saudade era tanta que era preciso me ver. 
 
Será que ele sonhou também o sonho bonito dos nossos pais? Quem nos acordou desse incômodo? 
 
E marcamos o encontro. Minha mulher ouviu o meu relato e, com algumas lágrimas, enfeitou o seu sentimento. Por que demorei tanto? 
Daqui a pouco vamos almoçar. Só nós dois. Nós dois e as lembranças do doce e do resto. E, depois, tudo voltará ao normal. Como deve ser. E, depois, eu quero sonhar de novo e, de novo, revisitar o quentume dos dias em que crescemos. 
 
Na casa dos meus pais, havia fogão a lenha. O fogo demorava para aquecer. Mas, aquecido, nos aquecia com aquelas brasas que brincavam de cantar barulhos. Meu irmão é o que me resta daquele tempo. E, depois do encontro, vou explicar ao meu filho que eu errei. E pedir desculpas por ter me esquecido de viver. 
 
Publicado no dia 11 de Agosto, no jornal O Dia (RJ). 

FORMATURA DO MEU FILHO

“As amizades escancaram os mais belos sentimentos. Leves. Profundos.” 

 
Chegou hoje o convite. Acabei de abrir. O papel, cuidadosamente escolhido, traz nomes e outros dizeres. 
 
Meus olhos olharam como quiseram. Sem obedecer a um roteiro. 
 
Os nomes foram saindo do papel e sentando ao meu lado. Um a um. 
 
As amizades escancaram os mais belos sentimentos. Leves. Profundos. 
 
Meu filho foi crescendo nos enroscos desses enlaces. O físico e o interno. Internaram-se eles na minha casa tantas vezes. Nos inícios, para brincar, para se alimentar do riso dos que ainda têm muito pela frente. Os jovens pouco falam da morte. O que veem é vida. É eternidade. Depois, continuaram a vir para cuidar de roubar sorrisos do Serginho. Ele foi um resistente, um bravo. Enfrentou as cirurgias. Comemorou as curas. Sorriu nas recaídas. 
 
O câncer foi comendo seu corpo jovem. Se eu pudesse, entregaria o meu para deixar que ele prosseguisse. Nos últimos dias, falava pouco. Seus olhos percorriam cada veia da minha dor. Eu sei disso. E, aí, vinha o pouco de palavra : “Mãe, eu estou bem, eu vou ficar bem”. E adormecia aquecido na fé. 
 
 
Eu sei que ele está comigo olhando o convite. Seu nome está em lugar de destaque. Corro novamente os olhos. E choro o choro legítimo da mãe que se vê obrigada a enterrar o seu filho, 
 
Tenho outros dois. Mais velhos. O Serginho era o caçula. Faz só três meses. Ainda não tive forças para arrumar tudo. Arrumei nada. Nem dentro de mim. 
 
Sou forte para os outros, talvez, por uma necessidade de não partilhar tanto a minha dor. Quem gerou fui eu. Quem enterrou também fui eu. 
 
Meu marido chora nos cantos para que eu não perceba. Tenta ser forte. Nem toda força do mundo seria capaz de resolver. Sei que não somos melhores do que ninguém. Tantas famílias se ajoelham diante da mesma dor. 
 
Mas meu filho não estará na formatura. Ele sonhava ser engenheiro. 
Quisera eu ter o poder da engenharia do mundo e quisera eu consertar as doenças que maltratam tantas histórias. Não sei se vou à formatura. Eles querem que eu receba flores. Que eu diga algumas palavras. Me chamam de tia. 
 
As flores no meu filho apenas acentuaram sua beleza. Foi embora sorrindo. Foi triste. É lindo ver os amigos cantando na despedida. 
Sinto todos eles comigo. Mas não há mais abraços, nem dedos se encontrando na brincadeira de embaralhar os cabelos. 
 
Serginho gostava que eu fingisse procurar alegria em sua cabeça, enquanto ele descansava sua pouca idade em meu colo. Depois, pegava o violão e tocava para mim. Seus dedos iam dizendo, em notas, o significado do nosso cordão. E ele cantava. E me fazia cantar com ele. E, assim, o dia se despedia e íamos dormir sabendo que, no outro dia, estaríamos juntos. 
 
Justa a vida não é. Não vou disfarçar e dizer que está tudo bem. 
Mas quem sabe ele tenha sido inspirado por algo maior quando me disse: “Mãe, eu estou bem, eu vou ficar bem”. 
 
Nos dias que ainda me restam, não quero viver de lamúrias, mas hoje quero chorar sem pressa. Olhar esse convite quantas vezes quiser. Ficar no esconderijo de mim mesma, visitando os dias em que estavam todos aqui. 
 
Publicado no dia 04 de agosto, no jornal O Dia (RJ). 

O SORRISO DA SOLIDÃO

“O meu silêncio o incomoda. Mas, se eu falar, impulsiva que sou, será pior.” 

 
Mirtes é afeita aos temas da alma. Não teve a oportunidade de estudar, mas teve a de sofrer. E, de sofrimento em sofrimento, foi se fazendo conhecedora das feridas e dos jeitos de se seguir em frente. 
 
De ferimentos, também entendo, mas não de seguir em frente. Primeiro, porque tenho dificuldade em rasgar o que me vincula. E, depois, porque fico esperando que alguma coisa aconteça para que o que venha seja melhor. 
 
Meu marido é ríspido. Sempre foi assim. Minha mãe, desconfiada dos presentes adiantados, quis que eu pensasse melhor. Nunca fui de pensar muito. Mirtes diz que sou impulsiva. O fato é que me casei. E que, desde os inícios, ele me trata com destrato. 
 
Acordo com receio. O dia pode ser bom ou pode ser como geralmente é. Meço a temperatura do seu humor pelos ditos iniciais. Sou sempre a errada. O pão nunca está aquecido corretamente. O cheiro do café comprova que está fraco. Eu engordei. Fala aos outros que me trocaria por duas mais jovens e mais magras. E eu digo nada. Ele ri de boca aberta das coisas que diz e, se não rio, se zanga. Então, eu rio o riso triste dos que têm medo de partir. 
 
Os seus afagos são raros. Apenas, quando me quer. E, quando resolve, reclama que não falo. O meu silêncio o incomoda. Mas, se eu falar, impulsiva que sou, será pior. 
 
Mirtes diz que estou errada. Que ainda morro de alguma doença provocada pela dor. Que Deus me perdoe, mas eu rezo para que, um dia, eu acorde, e ele tenha morrido. Aí, sim. Tudo estaria resolvido. 
 
Se ele viaja, penso em algum acidente. Acidentes acontecem. Não seria nada de extraordinário. Já fingi doença muitas vezes. Nesses dias, ele declina de maldizeres e oferece algum cuidado. Mas tenho medo das desconfianças. Um dia, chamou um médico e ficaram sussurrando hipóteses. Temi pelo retorno. Dormiu sem cerimônia. E roncou como de costume. 
 
Quando ele viaja, durmo a paz dos livres. Enfeito-me de desejos. E abraço a noite feliz. Não tivemos filhos. Fiz, a seu mando, todos os exames. Ele credita a mim a infertilidade. Eu credito a ele a infelicidade. 
 
Mirtes diz que estamos errados. Os dois. E quem tem coragem para corrigir erros? Vai que a vida resolve? Ele não gosta de Mirtes. Ela sugeriu que ele fizesse exames para ver se haveria algum tratamento. Ele sorveu o ódio, balançou o silêncio e descontou em mim. Jamais admitiria ser infértil. 
 
Os erros são meus. Todos. Sempre. 
 
Não faz muito tempo que me trouxeram a notícia de uma suposta amante. Ri por dentro. Pensei nos seus dizeres, despedindo-se de mim e partindo para uma outra história. Ensaiei o que diria. Teria que, primeiro, me fazer de sofrida, chorar um pouco talvez, lamentar que tudo tenha terminado. E, depois das roupas saídas, usaria meu mais lindo vestir e experimentaria a cor da liberdade. 
 
A cada noite que ele chegava, aguardava a notícia. Por enquanto, nada. Só o mesmo queixume, o mesmo permanecer me negando a mim mesma. 
 
Queria ser como a Mirtes. Com a coragem de sorrir o sorriso da solidão. 
 
Publicado no domingo, dia 28 de julho, no jornal O Dia (RJ). 

MORREU UM POETA

“Eu o conheci dizendo temas que abriam espaços e que deixavam ver o que, sem ele, seria difícil. Em sua fala, cabiam todas as belezas do mundo. “ 

 
Morreu um poeta. Um poeta que viveu derrubando os estreitamentos da vida. Um poeta amigo meu. 
 
Eu o conheci dizendo temas que abriam espaços e que deixavam ver o que, sem ele, seria difícil. Em sua fala, cabiam todas as belezas do mundo. 
 
O poeta ria o riso elegante. Ouvia os nossos dizeres como quem ouve uma canção bonita. Sentava em uma poltrona de saudades e ia destecendo as histórias que, nas gentes e nos livros, serviram para aquecê-lo. 
 
Era altivo e elegante. Conhecedor da alma da mulher, fez poemas inspirados e inspiradores. Eu o conheci em uma tarde de um dia feliz. Foi me dizendo histórias. Foi me ouvindo sem pressa. E foi assim que nos demos as mãos. Eu e o príncipe dos poetas. Eu e o Paulo da São Paulo que ele tanto amou. Eu e o brasileiro cheio de certezas de um dia bom que pedia autorização para chegar. Eu e o autorizador de afetos. E demos as mãos para nunca mais soltar. Nem agora quando ele já não mais está. 
 
Abro um livro com sua dedicatória e soletro letras que me dizem muito, que me dizem tudo. Era ele um entusiasta das qualidades humanas. Nada de observações menores, nada de lamúrias sobre o que falta. Paulo Bomfim era um homem de celebrações. Celebra a eternidade a sua chegada. É sempre assim, quando morre um poeta. Basta ter olhos de ver os luares. Não são iguais aos de todo dia. Tem um sopro que atinge quem não tem medo do amor. De qualquer amor. Basta abrir a janela, quando um sol se põe a fazer anúncios. 
 
Anunciava ele que era preciso, a cada um, encontrar um tema para viver. Sem um tema, quem somos nós? Empurradores do tempo? Aguardadores do fim? Viver é transgredir. É dizer às convenções que só permaneçam se se explicarem. Obedecer aos que se acham mandadores do destino não cabe na alma de um poeta. Destino, escrevemos nós, com as tintas que tivermos, com a caligrafia que conseguirmos, com sangue e amor. 
 
Queria eu que ele ficasse para celebrar mais alguns aniversários. Ele gostava de ir. E gostava de sair. O poeta era inquieto. Só se acalmava para receber amor. E para distribuir amor. 
 
É assim que o vejo. É assim que o convido a permanecer em mim. Lendo os seus dizeres. Guardando os nossos sagrados encontros. 
As cenas de trocas de olhares entre ele e Lygia, a escritora, me faziam compreender a palavra cumplicidade. Em quase cem anos. 
 
Ah, tempo caprichoso. Tudo passou tão rápido. O quarto do poeta já não guarda mais o seu corpo. A velha cama teve que se despedir dos seus cansaços. A torneira, de onde a água pedia autorização para banhar o corpo do poeta, também está silenciosa. 
 
Seus velhos amigos se debruçam na palavra ‘saudade’. E, do alto, ele nos sorri delicadezas explicando, do seu jeito, que foi preciso partir para viver, finalmente, a pura poesia, sem necessidades nem obrigações. A poesia da alma, da alma livre, que se corporifica nas memórias dos que continuam a tentar viver o amor, 
 
Obrigado, poeta. 
 
Publicado no domingo, dia 21 de julho, no jornal O Dia (RJ). 

MINHAS DUAS MÃES

“Já doeu, algumas vezes, pensar que ela criou os outros três filhos. Não faz tempo que sei dessa história. Sabia que era adotado. E adorado.” 

 
Os relógios são muito intrigantes. Quando querem, se lançam sem ninguém para segurá-los. Não é o caso agora. Eles estão tímidos. Brincando de demorar. 
 
O dia de amanhã está aguardando o dia de hoje ir embora. Para que venha, enfim. Amanhã, vamos para o interior. Minha mãe e eu. Vamos encontrar a minha mãe. A que me gerou. A que me doou. 
 
Já doeu, algumas vezes, pensar que ela criou os outros três filhos. Não faz tempo que sei dessa história. Sabia que era adotado. E adorado. 
 
Minha mãe sempre soube permanecer nos meus vazios. E sempre se esmerou em me fazer compreender que era eu quem devia preenchê-los. A tristeza já me acordou muitas vezes. Hoje, nos fazemos companhia. 
 
Minha mãe me adotou por decisão de vida. Ela quis ser minha mãe. Ela me gerou em seus sentimentos, me gerou em seus sonhos de generosidade. E o tempo foi nos costurando. Somos mãe e filho. Sei disso e disso jamais duvidei. 
 
Soube ela que a mãe que me gerou está de partida. Um irmão meu a encontrou. E conversaram sobre despedidas. Doente, ela sabe do amanhã. Vamos nos ver depois de trinta anos. 
 
Quando minha mãe foi descosturando seus dizeres, eu logo entendi. Por alguns instantes, tive dúvidas . Por que só agora? Por que não convivemos antes? Por que não pode remos conviver por muitos depois? O que ela quer me dizer? Pedidos de desculpas serão desnecessários. Aprendi a não cobrar explicações. As narrativas são tantas. Quem sabe o que acontece quando algo não acontece? Eu fui o primeiro filho que ela teve. Meu pai não quis ser meu pai. Nem pai de ninguém, pelo que me disseram há pouco. E ela deve ter chorado o desfecho. Certamente. Não sei se saberei os atos e os entreatos. Se compreenderei os ditos e os silêncios. Não sei se se trata de compreender ou de sentir. Houve um outro homem e aí vieram os outros filhos. Então, se já estava normalizado, por que só agora essa procura? Não. Nada de julgamentos. 
 
Choramos juntos, minh a mãe e eu. Decidimos juntos conhecer o ontem. Que sentimentos ela teria tido qu ando soube que eu estava dentro dela? Que dúvidas teve? Houve vozes que aconselharam a desistir? Vozes que se incumbiram de desencorajar a procura? Vozes e mais vozes nos fundem ou nos confundem. Difícil distinguir. 
 
O vento lá f ora assobia frio. Olho o anoitecer e penso nas despedidas. Um dia se despede. Um dia, ela se despediu de mim. Um dia, ela vai se despedir daqui. E também eu. E, antes disso, nos encontraremos e nos despediremos. Ou nos encontraremos outras vezes. Não sei dizer. 
 
A noite está chegando. O escurecer vai dando calmaria ao dia. Não à minha alma. Estou eufórico e temeroso. Queria ter a reação correta. Nada de julgamentos. Queria olhar nos olhos dela e dizer que continuo seu filho. Que ela tenha paz. Queria não chorar. Ou talvez fosse melhorar chorar, não sei. Não chorar pode parecer pouca atenção ao encontro. Pouco derramar de sentimentos. 
 
Minha mãe vai comigo. Também ela deve ter suas questões. Nunca se conheceram. E estão unidas por uma vida. A minha vida. Toda vida importa. Um sopro e estamos aqui preenchendo com o nosso jeito o universo. Um sopro e partimos. 
 
O vento já não se deixa ouvir. O relógio continua caprichoso. Lento como não se deve em dias como os de hoje. E eu não durmo. 
 
Não quis ver a foto de minha mãe. Não fará diferença. É minha mãe. São minhas duas mães. Cada uma com suas cicatrizes. Cada uma me gerando em um lugar seu, muito seu. Cada uma querendo, no seu tempo, me encontrar. 
 
Amanhã, espero que o dia não seja implicante comigo e não compense a lentidão de hoje. Que seja tudo muito demorado. E que possamos colocar, nos instantes que tivermos, todos os outros tempos que já se foram. 
 
Publicado no dia 14 de julho, no jornal O Dia (RJ). 

Sobre meu filho

Ele foi chegando como quem chega sabendo o quer. E foi dizendo dizeres que se atropelavam de tanta alegria. Eu desconfio da alegria. Sou precavido. Mas amo meu filho com a determinação de vasculhar em mim qualquer sentimento que, por ventura, esteja faltando. No silêncio do mundo, me aquietei para contemplar aqueles olhos pidonchos. 

E lá vem a descrição de algum paraíso da natureza. De onde o sol se comove com os que o abraçam e fica até quando o dia avisa que tem que partir. Falou das águas e dos seus banhos. Do ir e vir de seus sons. De pássaros que rasgam os céus explicando para onde se deve olhar. E disse dos amigos que já emaranhavam desejos com planejamentos. 

“Eu quero ir, pai. Todo mundo da minha classe vai”. 
Parei. Pensei. E disse nada. 

Ele insistiu. Eu insisti comigo para ver onde arrumaria dinheiro antes de qualquer resposta. 
Ele voltou ao que havia dito com ainda mais expressão, 
Como dizer “não” a um filho tão bom? 
Como dizer “sim”, se não há de onde fazer brotar os recursos? 

Meu filho estuda em uma escola de endinheirados. Tem bolsa. Jamais poderia pagar. Faço o que nem posso para que ele festeje o conhecimento. O seu nascer já foi um milagre. A mãe era doente. Mas Deus decidiu nos presentear com um dos enfeites que Ele esparrama pelo mundo a cada criança que nasce. Ele veio, e a mãe, depois de poucos meses, se foi. Jovem se foi a mulher que tanto amei. 

Não tenho outros filhos. Não tive o estudo necessário para decidir por mim mesmo. Dependo dos trabalhos que andam escassos. Sei bem o que é sair todo dia em busca de algo melhor. Sei bem o que é chegar em casa e ouvir as perguntas, da minha mãe e do meu filho, se deu certo a entrevista de emprego. Não deu. O que me falta eu tenho. Mas eles não veem. Choro sozinho no invisível do quarto. 

Ouço, daqui e dali, que quem quer melhora de vida. Eu quero. E não sou dos que espanam a esperança. Vou adiante. 

Recentemente, arrumei uma colocação em uma construtora. Ergo paredes e imagino histórias. Gosto do que faço, mas não ganho para excursões em paraísos. Comida não nos falta. Nem o básico de um crescer na simplicidade. 

Os que estudam onde meu filho estuda têm o excesso. Nem sei se é bom. Dou um ou dois presentes para o Lucas, meu filho, por ano. É o que consigo. No mais, conto histórias e brinco com ele de enfeitar o mundo de bondades. E ele foi aprendendo a não exigir mais. E a sorrir com nossas pequenas incursões. Os passeios são no parque, na praça, no campo de futebol, na casa da minha tia, na quermesse. E é isso. Mas a escola resolveu viajar. Posso fazer um empréstimo, talvez? Mas é certo? O certo é dizer a verdade. Dizer o que ele sabe, que somos pobres, que plantamos para um dia colher. Que cultivamos os mais lindos sentimentos, que vivem onde estamos. Não precisamos de paraíso e temos o sol por aqui também, mesmo que parta mais cedo. E também água, mesmo que não sejam banhos perfeitos. E também pássaros que voam e nos fazem olhar para o alto. 

Vou escolher o jeito de dizer. Vou olhar para dentro dele e buscar aceitação. Ficaremos por aqui, no quintal das nossas precariedades, com um pomar cheio de presenças. Há muitos que resolvem as ausências com presentes. Prefiro estar perto. Sempre. Contando quanto falta para o plantio florescer. Arrancando as pragas que aparecem e celebrando a estação das chuvas. E rindo das histórias engraçadas das gentes que moram por aqui. Nós dois gostamos de observar. É um jeito amoroso de saber que cada um tem o seu quinhão de presença no mundo. 

No dia em que eu for me encontrar com a mãe dele, histórias de mãos juntas não faltarão. 

As lembranças moram nos sentimentos, não nas coisas. Encoste a sua cabeça no meu ombro, meu filho. Vou te contar uma história… 

 
Publicado no dia 07 de julho, no jornal O Dia (RJ). 

Em uma festa de São João

Vim do Nordeste. Vim das festas em que mesmo os que padeciam de comum tristeza sorriam. Foi assim com minha mãe e minha madrinha. Ambas viúvas. Ambas dançando a alegria em uma festa de São João. 

Se eu soubesse, não teria ido. Se eu soubesse, teria feito nada no dia de São João. 

Vim do Nordeste. Vim das festas em que mesmo os que padeciam de comum tristeza sorriam. Foi assim com minha mãe e minha madrinha. Ambas viúvas. Ambas dançando a alegria em uma festa de São João. 

Os tempos são outros. Cansei de ficar em casa. Embotada. Varrendo sem parar como se tivesse o poder de varrer toda a tristeza do mundo. Jânio me deixou. Sem muitos dizeres, porque ele nunca foi amigo das palavras. Encontrou outra. Quando ele anunciou a partida, partida ouvi. Não chorei na hora. Decidi que choraria em segredo, depois. 

Ainda amo Jânio. Amo-o com todas as forças que nem tenho. Nunca imaginei minha vida sem ele. Eu o chamava de “meu pequeno”, e é ele um homem enorme. Eu olhava para o futuro, e ele morava comigo em todos os anos que ainda viriam. Mas o fato é que ele conheceu Janaína. Mais jovem do que eu. Mais bela, talvez. Não sei dizer. Não quero me diminuir ainda mais. 

Nunca mais o vi desde que ele se foi. E foi justamente na festa de São João. Ele e ela. Os fogos pularam do centro da terra e queimaram alguma coisa em mim. Não havia como disfarçar. Os dois me olharam. E eu já não me via. Sorri desajeitada. Os acenos foram rápidos. A dor, não. 

Quis ir embora. Quis pedir ao tempo que fizesse alguma coisa. Estava farta da lentidão dos dias. Farta de ouvir dos meus amigos que o tempo cura a dor. Quanto tempo ainda vai demorar? Já faz um ano que ele se foi. O “meu pequeno”. Como será que Janaína o chama? 

Ele me chamava de “princesinha do norte” e eu gostava. Nem do norte eu sou, mas eu gostava. Janaína é do Rio. Será que ele a chama de “princesa do rio”? 

O que me importa? Deveria ter sido um dia de alívios. Depois de Jânio, eu havia decidido que não mais usaria o coração para o amor. Que seria apenas para a alegria. E é de alegria que é desenhada a festa de São João. Os doces, as músicas, as brincadeiras, o frio. Nem o inverno quis vir este ano. O calor que eu sentia, depois de ter visto o que não deveria, atrapalhou minha compreensão. 

Fui tonta para casa. Disse nada a ninguém. Havia acabado de chegar. Jânio viveu seis anos comigo. Passou tão rápido. Diferente de hoje que a noite não desiste de continuar. Quero que o sono chegue logo para que eu mude logo para o dia seguinte. E para o outro. E para o outro. Até chegar o dia do esquecimento. O dia em que eu abra a janela e veja sem pensar. O pensamento é que me consome a alegria. 

Quando eu era criança, sonhava com casamento. Sonhava com uma família cheia de crianças me chamando de mãe. Hoje, eu sonho com uma noite sem sonho. Porque, se sonho, ainda é com ele. Parei de esperar pela sua volta. Parei de desejar que se desentendessem. 

Minha mãe e minha madrinha perderam os seus amores. Mas para a morte. É diferente. O luto é outro. O meu está vivo e está dizendo o que antes dizia para mim para outra mulher. E a outra mulher está ainda mais viva porque pode ouvir o que antes eu ouvia. 

Sei que eu deveria agradecer o tempo do amor e prosseguir. E encontrar outro amor. É assim com tanta gente. Ainda não consigo. Ainda não sinto o perfume impossível das flores que brotam em minha janela. Por isso tanta gente tem medo de amar. O fim é muito doído. Passei dias esquecendo de sorrir. Melhorei há pouco. E, justo agora, na festa que lembra os meus sonhos, eu o vejo e ele não me vê. Eu, para ele, sou o ontem. Ou nem isso. Ele, para mim, é o sempre. Não. Vai passar. Eu sei. Um dia, cicatriza. E aí eu vou dançar de novo a quadrilha dos que amam a vida. 

Ué! Quem está batendo na porta a essas horas? 

Publicado no dia 30 de junho de 2019, no jornal O Dia (RJ).