Segundo Chalita, Campinas tem um poeta da educação, referindo-se a Rubem Alves, “ele que escreve, inclusive, no Correio Popular”. “Só o Rubem Alves, que é um dos maiores educadores de Campinas, já dá uma possibilidade literária imensa para estes alunos.” O secretário afirma ainda que “o aluno que consegue ler um texto de jornal e interpretá-lo, não tem problema de analfabetismo funcional”. E, rebatendo as críticas de muitos pais de que a progressão continuada gera analfabetos funcionais, diz que os estados brasileiros que adotam o método estão mais bem avaliados.
A importância do uso de jornal em sala de aula e a progressão continuada foram alguns assuntos abordados por ele nesta entrevista, concedida meia hora antes de lançar o seu mais recente livro A Ética do Rei Menino em Campinas, na última terça-feira. Agência Anhangüera de Notícias – No momento em que há grande investimento em programas de leitura no Estado, como a Hora da Leitura e Tecendo Leitura, qual a opinião do senhor a respeito do uso do jornal em sala de aula, como é feito pelo projeto Correio Escola? Gabriel Chalita – O Correio Escola é um projeto pioneiro, inclusive neste trabalho de relação da escola com o jornal. Ele faz com que o aluno tenha uma visão atual do processo de leitura. É muito legal porque o Correio Escola traz este conceito de pegar coisas do dia-a-dia.
Cada vez mais o processo educativo precisa ser contextualizado. O jornal se transforma em ferramenta pedagógica. O aluno reclama muito quando estuda coisas ou quando não sabe por que está aprendendo determinados assuntos. E, quando você consegue pegar um jornal, que, de certa forma, não trabalha só a leitura, mas com uma série de questões interdisciplinares, o ajuda a perceber que tudo que estuda tem uma finalidade.
Este era grande sonho do Paulo Freire, fazer com que a educação pudesse ser contextualizada. O que levou o Estado a fazer a parceria em 2002 com o Correio Escola? O fato de acreditarmos muito nesta relação da escola com o jornal, com a sua redação e com a disponibilidade de exemplares dentro de salas de aulas. O Correio tem uma coisa mais legal, que é a formação de professores. Em outros lugares existe a parceria do jornal com a escola, mas não são todos os jornais que se colocam à disposição para formar estes professores e para mostrar a eles como é desenvolvido um projeto de redação. É por isto que o Estado assinou a parceria. Eu vim a Campinas conhecer melhor este projeto. Gosto muito dele. Qual a importância do professor-leitor ter conhecimento das informações locais? O professor é a alma da educação. Aliás, em políticas públicas, as pessoas erram muito investindo em perfumaria e não investindo no essencial, que é o professor.
Então, tudo aquilo que você faz para que o professor se sinta mais acolhido, melhor preparado e envolvido no processo educativo, o resultado sempre é muito bom. O fato dele ser valorizado, de ir à redação de um jornal e de ter um programa de formação que ele optou, o ajuda a perceber a importância desta contextualização. Eu digo sempre que não adianta os alunos decorarem os nomes dos rios da Rússia se não conhecerem os de sua cidade, no caso Campinas. Não existe educação sem identidade. O curso é para o professor, mas quem ganha é o aluno e a comunidade na qual ele está inserido. Há verbas para o suporte de assinaturas de jornais e revistas para as escolas do Estado? Pergunto isto porque existe um projeto de lei, tramitando no Congresso Nacional, que obriga a leitura de jornais e revistas em salas de aula a partir da 5 série do Ensino Fundamental. Não há verbas para isto. Na verdade, temos verba para livros. Tem um programa nacional e alguns estaduais para isto. Temos programas mais para revistas técnicas de educação, formando a biblioteca do professor.
Este é um sonho meu. Tentei, desde o ano retrasado, conseguir algumas parcerias com bancos que ajudassem a financiar isto. O meu sonho era ter um jornal para cada aluno, mesmo que fosse uma vez por semana. Que ele pudesse ler o jornal e levar para a sua casa. A gente não conseguiu porque são cerca de 5 milhões de alunos. Todos os jornais de São Paulo não têm esta tiragem. De repente, aparece algum parceiro que diga: eu banco o começo de um projeto. Seria bom para todos os lados: para o jornal que formaria mais leitores e para o aluno porque desenvolveria nele esta reflexão crítica. Hoje, existe a presença de textos jornalísticos no Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo).
O senhor acha que a introdução de notícias, reportagens e debates na sala de aula, mediados pelo professor, contribuem para o preparo do aluno na rede estadual, bem como nos vestibulares? É muito interessante o aluno ler Fernando Pessoa, Machado de Assis, Cecília Meireles e ler um trecho de uma reportagem de jornal. É legal ele perceber, na verdade, que todo conhecimento que tem dos livros que lê é importante para a compreensão da realidade na cidade em que vive. Eu falei de vários escritores, mas é preciso lembrar que tem um poeta da educação em Campinas, que é o Rubem Alves, que escreve, inclusive, no Correio. Só o Rubem Alves, que é um dos maiores educadores de Campinas, já dá uma possibilidade literária imensa para estes alunos. Além de cronistas que escrevem no jornal, as reportagens do cotidiano ajudam a perceber se este aluno tem capacidade de interpretação da realidade. Hoje, quando se fala em letramento, fala-se em compreensão de texto.
O aluno que consegue ler um texto de jornal e interpretá-lo, não tem problema de analfabetismo funcional. Por isso, o Saresp, o Saeb e os vestibulares se utilizam de textos de jornais. É bom mesclar um texto de um poeta com o do jornal. Como estamos falando em leitura, gostaria de abordar a progressão continuada. Muitos pais são contra o método e dizem que seus filhos são analfabetos funcionais. O que acontece, já que o método deu certo em muitos lugares? Trabalhamos com dados científicos. Hoje, há muitas avaliações, como o Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e o Saresp. E, o Saeb mostra que os estados com progressão continuada são melhores avaliados na educação brasileira. E os estados sem progressão são os piores. Você pega lá na ponta está Piauí, Rio de Janeiro e Pernambuco, por exemplo.
Você pega na ponta de cima, os melhores estados vem, em primeiro lugar, São Paulo, depois, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Santa Catarina. Estes têm progressão continuada. É um equívoco. Na verdade, as pessoas usam isto muito num discurso partidário. E aí o pai pegou a história de que o aluno analfabeto passa de ano. A questão é: por que o aluno está analfabeto? Se ele vai na escola tem de aprender. A educação não é milagre, mas é processo. Hoje, São Paulo tem uma evasão escolar de 0,7%. Se o pai acha que seu filho não está indo bem, tem de ajudá-lo a ir melhor. Todos os dados de análise de universidades mostram que o alunos aprendem melhor quando o pai e a mãe participam da vida dele. Até mesmo quando pais analfabetos tomam a lição do aluno. Isto o ajuda a ter um novo horizonte.
A entidade sindical Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) se queixa de salas superlotadas e pleiteia o máximo de 35 alunos por sala. O que pode ser feito? Quando você fala que uma sala com 40 alunos é superlotada, é uma insanidade. Eu não conheço as escolas particulares de Campinas, mas, se você for ao Porto Seguro, Colégio Bandeirantes, Fundação Bradesco e ao Santa Cruz, todos em São Paulo, vai ver sala do Ensino Médio com 40 alunos ou 55 alunos. O Estado nem tem isto. A gente tem, no máximo, 40 alunos.
Não acho que seja superlotação. Fábula destaca o respeito às diferenças pessoais e sociais Um lugar encantado chamado Reino Mágico da Consciência é o cenário escolhido pelo filósofo e secretário estadual de Educação, Gabriel Chalita, para transmitir às crianças as noções de ética e boa convivência dentro dos preceitos de cidadania e humanismo. “Optei em criar a história dos habitantes do Reino Mágico da Consciência, cheio de seres imaginários, como o Rei Menino, o Potro Selvagem, o Bezerrinho e a Figueira contadora de história, mas com o objetivo de levar a criança a perceber que vale a pena ser bom”, diz Chalita. O livro se chama A Ética do Rei Menino (Rocco Jovens Leitores). Nesta fábula, ilustrada com os desenhos de Graça Lima, animais, flores e frutos discutem o respeito às diferenças pessoais e sociais, a necessidade de agir com moderação e usar a razão para fazer escolhas que levem ao bem. Chalita retoma nesta obra um dos temas recorrentes em suas obras, que é o fortalecimento da sociedade por meio da educação que privilegia a convivência respeitosa e o carinho pelo próximo.
Os leitores também poderão ouvir a história na voz do próprio Gabriel Chalita, em três CDs, produzidos por Guto Graça Mello, que acompanham o volume. O prefácio do livro é assinado pelo padre Marcelo Rossi. “O meu desejo é que os pais leiam para os filhos”, almeja Chalita. “Isto é uma coisa antiga que se perdeu um pouco, mas é muito importante nas relações afetivas familiares.” Segundo ele, o livro foi para as bancas há cerca de um mês e já vendeu aproximadamente 40 mil exemplares. “O retorno é legal”, afirma, referindo-se ao fato de que, em cada município lançado, a renda da venda do livro foi destinada a uma entidade. Em Campinas, foi escolhido o Círculo de Amigos do Menor Patrulheiro.