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Aprender para ensinar

Gabriel Chalita foi o palestrante escolhido para encerrar a Conferência Nacional de Ensino CNA/2008. O evento está programado, neste ano, em sua oitava edição, para abordar como tema principal “Aprender para Ensinar, Ensinar para Aprender”.

A conferência também debate questões de responsabilidade social e ambiental. Chalita dirige sua palestra a 500 professores de inglês, professores de espanhol, coordenadores pedagógicos e franqueados da rede CNA de ensino de línguas, falando sobre este tema: “Educação: construindo relações de essência e convivência”. O evento é no Hotel Crowne Plaza, em São Paulo. A CNA, uma das mais importantes redes de ensino de idiomas do Brasil, prevê, neste ano de 2008, uma expansão de 40 novas franquias, que devem resultar em pelo menos 480 empregos diretos. A CNA estima fechar o ano de 2008 com 512 escolas e 550 mil alunos em todo o País.

”Saber e sabor: palavras da mesma origem”

Por Sílvia Bella (Showroom)

Ele ainda não tem 40 anos e já acumula uma porção de títulos. Tem dois mestrados e dois doutorados – em Comunicação e Semiótica e em Direito -, é professor na pós-graduação em duas das melhores universidades do país e foi secretário da Educação do Estado de São Paulo no governo Alckmin quando tinha apenas 33 anos. Com o mérito de ter implantado programas de educação premiados pela ONU como exemplos de inclusão social, Gabriel Chalita é um educador nato.

Defende o despertar da auto-estima dos alunos, através da música, arte e esportes como instrumento indispensável para a fixação do aprendizado e acredita que o professor é “a alma do processo educativo”. São dele frases como “o professor precisa compreender o sonho de seus alunos e respeitá-lo” e “falta continuidade nas políticas públicas de educação no Brasil”. Declarações que demonstram determinação e coragem, mas as qualidades de Chalita são muitas mais. Ele é mesmo muito inteligente, extremamente dinâmico, é competitivo e muito versátil. Além de filósofo, educador e escritor – tem já 45 livros publicados, entre obras didáticas, tratados sobre ética e filosofia e ficção e mais de seis milhões de exemplares vendidos – é pianista (e dos bons), concilia várias atividades, entre elas o comando de programas de rádio e TV, pela emissora Canção Nova, e é uma das jovens promessas políticas do Brasil. Para completar, Chalita é uma pessoa adorável, amorosa e um homem muito atraente. Um gentleman.

Showroom – É inegável que houve uma melhora na Educação do brasileiro nas últimas décadas, se considerarmos a queda substancial no analfabetismo, mas ainda temos os chamados analfabetos funcionais, o que nos deixa com uma massa de pessoas tecnicamente despreparadas para qualquer trabalho. Como, o mais rapidamente possível, dar um ofício a essas pessoas e integrá-las ao mercado?

Gabriel Chalita – O analfabetismo funcional é de fato um sério problema. Pessoas que não entendem o que lêem acabam ficando mais distantes de um mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo. A longo prazo, a solução está em uma escola que de fato eduque, que tenha qualidade, que envolva o aluno e o ajude a entender a importância do conhecimento para a vida. Está também em uma família que valorize coisas simples como o ato de contar histórias ou de ler para os filhos. E ainda de uma família que participe da vida escolar. A curto prazo, um investimento maciço na formação de professores para que consigam trabalhar com esses adolescentes ou adultos que tiveram uma alfabetização comprometida. De qualquer forma, o segredo está em uma educação levada a sério.

Showroom – Há colegas seus (educadores, professores) e analistas estrangeiros ligados a organismos como ONU e UNESCO que dizem que o problema crucial da Educação no Brasil não é a falta de recursos, já que o País gasta em torno de 5,5% do PIB na área – mais do que o Japão e a Itália – por exemplo, mas que ele gasta errado. Segundo eles, o dinheiro empregado na Educação ainda acaba favorecendo aqueles que não precisam; a elite. O Sr.concorda?

Gabriel Chalita – De fato há uma inversão de valores na aplicação dos recursos em educação. Enquanto Chile, Coréia, Irlanda, Espanha privilegiam a escola básica o Brasil gasta muito mais com ensino universitário. Para falar apenas de universidades públicas, os gastos do governo passaram de R$ 7 bilhões, em 1997, para R$ 9,9 bilhões de reais em 2006. Um gasto que cobre apenas 1,4 milhão de alunos matriculados em cursos de graduação (600.000 deles em universidades federais). Ou seja, cada aluno de universidade pública, no Brasil, custa algo como R$ 9.000 por ano. Comparativamente, o governo federal gasta por ano, com 600.000 alunos, o que o governo do Estado de São Paulo gasta com 6 milhões de alunos. Como o número de vagas em universidades públicas é reduzido, a competição é enorme, e saem na frente os jovens que podem pagar cursinhos preparatórios. Isso acaba fazendo com que a criança que estuda em uma escola pública, que carece de recursos, não consiga ingressar em uma universidade pública. Entretanto, além disso, o dinheiro investido em educação é pouco. O sistema japonês, ou italiano ou Inglês já atingiu um patamar em que os recursos investidos vão mais para manutenção de um patamar de qualidade. O Brasil tem de gastar mais porque ainda está longe desse patamar.

Showroom – Ainda os críticos – e são muitos – da Educação no Brasil, dizem que nossos educadores deveriam ensinar mais “português e matemática” ao invés de ficar discutindo métodos pedagógicos de vanguarda e teses como “a escola deve formar cidadãos engajados”, porque ainda estamos muito atrasados. Essa discussão filosófica deveria acontecer depois da erradicação dos analfabetos funcionais…

Gabriel Chalita – Esta é uma afirmação de quem não entende nada de educação. Se o ser humano fosse máquina, talvez pudéssemos ensinar apenas uma coisa ou outra. Apenas português e matemática, por exemplo. Mas o ser humano não é máquina. O ser humano tem emoções. E são as habilidades emocionais que bloqueiam ou impulsionam o processo de aprendizagem. Se um aluno se apaixonar pelo teatro, ou pela poesia, ou pela história, ou pelos mosaicos que recuperam os muros de uma escola pública ele vai aprender a pesquisar mais, a falar melhor e, portanto, vai aprender português e matemática. As áreas estão ligadas porque o conhecimento não é compartimentalizado. O desafio é fazer com que o aluno goste da escola, goste de pesquisar, goste do saber. A Constituição Federal, em seu artigo 205, reza que a educação deve formar a pessoa, o cidadão e prepará-lo para o mercado de trabalho. Não diz “deve ensinar português e matemática e ponto”. A educação tem de ser integral, para que as múltiplas inteligências se desenvolvam.

Showroom – O senhor acredita, sinceramente, que é possível “treinar, reeducar, reensinar” professores do ensino fundamental – se é que podem ser considerados professores – que estão lá, nos sertões dos sertões?

Gabriel Chalita – Acredito que sim. Precisamos partir da premissa de que o professor é a alma do processo educativo. Mesmo em tempos tecnológicos e de múltiplas aprendizagens, o aluno precisa do professor. Evidentemente o perfil do professor tem de ser diferente. Ele passa a ser um problematizador, um instigador. E para isso ele tem de ser formado o tempo todo. A formação inicial não é boa, infelizmente. Cabe às organizações de ensino, sejam públicas ou privadas, entender o quanto é importante ajudar esse professor a ser melhor. Conheci experiências incríveis nos sertões dos sertões. Professores apaixonados que, com poucos recursos, conseguiam educar. É possível e é preciso replicar essas boas experiências. Acho inclusive que o problema maior da educação brasileira não são os professores, são as práticas políticas eleitoreiras que buscam mais bandeiras egóicas do que educação. E só analisar a troca de governos ou de dirigentes educacionais nos três níveis: federal, estadual e municipal. Diferentemente do que acontece em países mais evoluídos politicamente, no Brasil é comum o sucessor parar com todos os projetos do antecessor. E isso é uma tragédia para a educação.

Showroom – Mesmo no Sudeste, onde todas as crianças estão na escola – quero dizer, num primeiro momento, todas elas são matriculadas – mas o que se sabe é que há uma grande evasão delas porque o ensino é chato, é falho, os professores faltam, não há material. Enfim, de que adianta ter esse índice de 100% de crianças nas escolas se logo depois elas (com o aval dos pais, certamente) preferem sair dela para ganhar (sabemos como) alguns trocados nas ruas? Não seriam os “maus professores” os principais responsáveis por isso?

Gabriel Chalita – Em São Paulo conseguimos reverter um pouco esse quadro. Assumi em 2002 a Secretaria de Educação, no governo de Geraldo Alckmin, para dar prosseguimento a um esforço iniciado em 1995 por Mário Covas.

Tínhamos, em São Paulo, de 1ª a 4ª série, uma evasão escolar de 5,6% em 95. Conseguimos baixar, ano a ano, para 4,3%, 3,3%, 2,1%, 1,8%, 2,0%, 1,2%, 1,1%, 1,1%, 0,7% até 0,6% em 2005.

De 5ª a 8ª série, reduzimos de um patamar inicial de 13,1% de evasão em 95 para 2,5% em 2005 (as reduções, ano a ano, foram as seguintes: 11,2% em 96, 8,1% em 97, 6,5% em 98, 6,3% em 99, 6,3% em 2000, 4,2% em 2001, 4,0% em 2002, 3,7% em 2003, 2,8% em 2004).

E, no ensino médio, obtivemos a redução mais significativa: de 21,2% de evasão em 95 para 7,0% em 2005.

E isso aconteceu porque investimos na formação dos professores, na participação dos pais, na abertura das escolas em finais de semana e no conceito de uma educação que fosse, de fato, participativa, democrática. Se o professor se sente desmotivado, despreparado, sua aula vai ficando chata e o aluno não quer mais voltar. Se o diretor tem uma postura autoritária a mesma coisa acontece. E como reverter isso? Envolvendo diretores, professores, funcionários. Todo profissional tem que estudar a vida toda, senão embolora, imagine então os educadores. É preciso que os governos gastem menos em construção de escolas caras e com cara manutenção e invistam mais nas pessoas.

Showroom – Gostaria que o senhor falasse um pouco (em números, se os tiver atualizados) sobre os fabulosos e premiados (por organismos internacionais) projetos “Escola em Tempo Integral” e “Escola de Família” que implantou durante sua permanência como Secretário da Educação no Governo do Estado de São Paulo.

Gabriel Chalita – A escola da família foi um programa de grande impacto na educação de São Paulo. Tínhamos muitos problemas com a violência escolar, a destruição de prédios públicos e a pouca participação dos pais nas escolas. Resolvemos abrir todas as escolas de São Paulo em finais de semana com atividades de esporte, cultura, saúde e geração de renda. Para isso o estado pagou para educadores profissionais além de dar, em parceria com instituições privadas de ensino, 50 mil bolsas de estudos para jovens carentes. O jovem estuda de graça e trabalha em uma escola no final de semana. Com isso reduzimos, em até 81%, o número de furtos, depredações, agressões físicas e tráfico de drogas nos arredores das escolas. Ou seja, baixamos o índice de violência escolar apenas por levarmos a família a participar da escola. Foram mais de 200 milhões de participações nos primeiros dois anos e meio do programa. Trata-se de um novo conceito de educação – o pertencimento. A escola deixa de ser agredida para fazer parte do cotidiano da comunidade que começa a cuidar da escola.

A escola de tempo integral é um modelo que vem dando certo em vários países do mundo. A criança que fica mais tempo na escola aprende mais porque os pais infelizmente não têm tempo de estudar com os filhos. Em São Paulo começamos com 500 escolas, onde os alunos do Ensino Fundamental entram às 7h e ficam até as 16h. Isso possibilita um currículo mais flexível, e permite que sejam privilegiadas duas áreas que precisam ser cada vez mais desenvolvidas nas escolas: o ensino das artes e educação física. Além de outra coisa que não podemos considerar secundária: o aluno pode fazer três refeições na escola – o que, em um país com os problemas sociais do Brasil, se torna essencial.

Showroom – Sei que há outros programas e projetos de Educação muito interessantes acontecendo hoje no Brasil, como os que prevêem bolsas para alunos “pobres talentosos” em escolas de elite como Bandeirantes, São Luiz, Objetivo etc. Sei que cabe aos pais dos “alunos pobres com talento” ou a “professores sensíveis” descobrir essas qualidades nesses alunos e encaminhá-los às “Escolas Top” para que tenham uma “boa formação” e assim possam acessar universidades igualmente boas. É um belíssimo trabalho de igualdade de oportunidades e que pode revelar muitos “gênios” em um país grande como o nosso. Como alargar a eficiência desses projetos?

Gabriel Chalita – Acho que a consciência de responsabilidade social vem crescendo muito no Brasil e é impressionante o quanto empresas e organizações estão investindo nisso. Meio ambiente, criança e adolescente, inclusão de pessoas com deficiência, projetos de respeito ao idoso, educação, entre outros. Esse é um movimento que mostra o quanto a sociedade organizada tem poder de resolver ou, pelo menos, amenizar problemas sociais. Há muitas escolas particulares de alto nível acolhendo alunos. Agora, é importante não radicalizar achando que as escolas particulares são boas e as públicas ruins. Há excelentes escolas públicas também, como há escolas particulares muito ruins.

Showroom – Temos ainda outro grave problema que é a violência nas escolas – violência com palavras e desrespeito ao professor – algo inconcebível para quem tem mais de 30 anos hoje! O que aconteceu? Foi o excesso de liberalismo?

Gabriel Chalita – Talvez. Talvez seja a criação inadequada, a falta de limites. Acho, entretanto, que não se combate a violência com violência. O professor tem que ser, inclusive, capacitado para trabalhar na adversidade. Já demos o exemplo da Escola da Família. Atitudes educativas são essenciais para prevenir a violência. É claro que há aspectos que envolvem segurança pública. Mas isso é apenas uma parte do processo.

O senhor concorda com a tese de que o ensino superior “pode esperar” até o que o fundamental e o médio tenham alcançado níveis dignos de ensino? Mas se assim for feito, não corremos o risco de “limitar” a pesquisa no País?

Gabriel Chalita – Acho que o ensino superior não pode esperar não. Pode ter mais criatividade. Buscar outras formas de recursos além do Orçamento Público. Não pode, entretanto, ser o prioritário em termos de orçamento. Hoje, o gasto por aluno, nas primeiras séries do ensino fundamental, no Brasil, é de US$ 1.105 por ano (a média do gasto nos países industrializados é de US$ 6.560). Mas o Brasil gasta, em compensação, US$ 10.000 por aluno de universidade, por ano. Quase nove vezes mais.

Um estudo da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), divulgado em meados de setembro, registrou que o Brasil é o país que menos gasta com educação, dentre 34 países analisados. O estudo identificou que o Brasil apresenta o menor investimento por estudante (do primário até a universidade), gastando US$ 1.303 por ano (cerca de R$ 2.488). Os 30 países da OCDE gastam, em média, US$ 7.527 (R$ 14.376 ). No país que mais gasta em educação, Luxemburgo, o valor chega a US$ 13.458 (R$ 25.705 ). Já no Chile, o outro país sul-americano estudado, o gasto é de US$ 2.864 (R$ 5.470), mais que o dobro do investimento brasileiro.

Showroom – Ainda nesse raciocínio de privilegiar a educação técnica/média e termos um Ensino Superior mais equânime, o que o Sr. acha da tese que propõe cobrar mensalidades nas universidade públicas, à exceção, evidentemente, dos alunos comprovadamente pobres. Estes “pagariam” seus cursos depois de formados, através de mecanismos como o Imposto de Renda, como existe na Austrália (me parece) ou de outras formas?

Gabriel Chalita – A escola técnica de rápida empregabilidade vem crescendo em muitos países, inclusive no Brasil. As Fatecs (Faculdades de Tecnologia) por exemplo, em São Paulo, conseguiram se adequar aos clusters produtivos, os arranjos produtivos locais. A região de Franca, que é uma região forte em indústria de calçado masculino, Birigüi, de calçado infantil, e Jaú, de calçado feminino, tem uma demanda de mão-de-obra nessa área. São José dos Campos, que é um centro de tecnológico de grande importância, com uma indústria de aeronaves, que movimenta milhões com valor agregado significativo, também precisa de mão-de-obra qualificada. É uma questão de empregabilidade. É preciso quebrar um pouco o mito do anel de doutor. Há outras profissões novas de que o mercado precisa, principalmente na área de tecnologia da informação e organização de dados.

Quanto ao mito da universidade pública gratuita para todos, acho que o Brasil deveria olhar outros modelos internacionais e repensar o seu. No Chile, por exemplo, com a revolução educacional iniciada pela reforma promovida pelo presidente Ricardo Lagos, em 1990, o ensino público é obrigatório e gratuito por um período de 12 anos. Depois disso, as escolas são pagas. Na Espanha, o investimento público em ensino universitário não passa de 21,4% – todo o restante é tarefa do setor privado.

Showroom – Como é possível, à exceção de alguns cursos em algumas universidades, nós, brasileiros, sairmos tão malformados das faculdades? Há 20 anos, fiz uma pós-graduação na Europa junto com outros jornalistas latino-americanos, e o nível técnico-cultural dos brasileiros (que éramos a elite da elite do País!) era muito mais baixo que o deles. O que nós tínhamos – e isso era confirmado e enaltecido pelo professores de lá – era um aprendizado prático (nas redações) muito bom. Isto é, mais uma vez foi elogiada a criatividade, o jogo-de-cintura do brasileiro. Mas acredito que o mercado de hoje exige muito mais do que isso. O que falta?

Gabriel Chalita – A criatividade é essencial. O jeitinho brasileiro no bom sentido é muito importante em um mercado de trabalho que exige velocidade e mudança o tempo todo. Antigamente um profissional trabalhava a vida toda em uma organização. Atualmente ele muda de emprego e de área. Por isso sua formação não pode ser bitolada. É preciso que o profissional tenha algumas qualidades essenciais, dentre elas destaco três: competência, coragem, amor.

Coragem para transformar a sua forma de atuar, reinventar seus métodos. Não se fala mais em professor facilitador – o professor hoje tem que assumir a postura do instigador, do problematizador, aquele que debate, ouve, incentiva o pensamento crítico, a tomada de posições, a independência de pensamento.

Competência para entender que o aluno precisa de mais do que apenas decorar fórmulas e conceitos, nestes tempos em que a informação circula por diferentes meios de comunicação. O professor precisa ser competente para auxiliar o aluno nesse desafio de transformar informações em conhecimento. A utilização das novas tecnologias facilita o conceito de aluno pesquisador. Entretanto, o computador nunca vai substituir o professor. Computador não tem alma. O aluno precisa de alma, de vínculo.

É aí que entra o amor. Sob a forma de respeito, por exemplo. O professor precisa compreender os sonhos dos seus alunos, e respeitá-lo como pessoa. Uma pessoa que necessita de desenvolvimento integral, nos aspectos cognitivos, social e emocional.

Showroom – O que houve, afinal, com o “Provão”? Há críticas ao sistema alegando que ele não fomenta a eficiência na área da Educação por terem deixado de ser anuais e de conseqüência limitado a ação da iniciativa privada em contratar pessoal egresso das “boas escolas”.

Gabriel Chalita – Não gostei da mudança por vários motivos, mas o mais importante deles é o seguinte: todo processo de avaliação precisa de um tempo para ser aferido, e é preciso que sejam acumuladas informações para que se compare como se deu a evolução. O provão era recente demais para ser substituído. O que aconteceu foi que jogaram fora todos aqueles dados, para criar novos. É o que eu já disse sobre a falta de continuidade de políticas públicas em educação.

Showroom – Há também críticas ao corporativismo das universidades como causa desse ensino precário. Os “defensores” da idéia de que os dirigentes (reitores etc) das universidades públicas não podem ser eleitos pelos professores, alunos e funcionários – mantendo, por assim dizer, a “turma” – dizem que o melhor exemplo de que “essa democracia” não funciona está nas melhores universidades do mundo, que não escolhem seus reitores dessa maneira. Nessas universidades, os professores que têm “melhor desempenho”, a “melhor produtividade” são premiados, algo similar ao que ocorre nas empresas comerciais… Por outro lado, os pouco produtivos ou pedagogicamente considerados “fracos” são demitidos. O que o Sr. acha a respeito?

Gabriel Chalita – Os reitores eleitos não representam risco para a qualidade do ensino. Por exemplo, a USP, que é considerada a melhor universidade do Brasil e que figura no quadro entre as duzentas melhores do mundo, tem o seu reitor eleito. Talvez o que falte realmente para as universidades é repensar o seu papel de formação humana. A universidade forma quem, para o quê, em quanto tempo? Isso precisa ser respondido.

Showroom – E finalmente, gostaria que comentasse um pouco mais a importância de disciplinas paralelas como música, filosofia e esporte – como bem o senhor diz – “O que os gregos faziam” – como ferramentas promotoras do aprendizado.

Gabriel Chalita – A filosofia ajuda a entender melhor a pessoa humana e o mundo. Todo mundo passa pelos problemas das perdas, dos medos, dos traumas, dos desafios e a filosofia trabalha com todos esses conceitos. Hannah Arendt escreveu sobre o amor pela humanidade, Rousseau trabalhou os conceitos de competição e cooperação, Sartre da existência responsável, da condenação à liberdade, Aristóteles já falava de justiça e felicidade na Grécia. Como privar o aluno de conhecer essas preciosidades? Se formos pra música ou para qualquer tipo de arte é a mesma coisa. O aluno tem de ser seduzido para o processo educativo. Eu defendo a tese de que saber e sabor são duas palavras da mesma origem.

 

Moda e cultura juntas

Boa convivência e educação foram os temas da palestra ministrada, nesta terça-feira, dia 6 de novembro, pelo professor Gabriel Chalita, no II Encontro de Moda e Cultura. O evento de dois dias, realizado na Livraria Cultura, foi aberto no dia 5 com uma mesa redonda sobre “O sentido estético da moda”, com Karina Szervinsky e Marli Lima, ambas da Jukaf, e Márcia Rocha, representando a Faculdade AD1, seguido de desfile da loja Jukaf.

O dia seguinte foi aberto com o desfile de Stefania Rosa, da faculdade AD1 e finalizado com a palestra de Chalita.

A palestra “Transformação pela gentileza” abordou situações do cotidiano e como atitudes simples e calmas podem reverter um momento constrangedor. Ex-secretário de Educação de São Paulo, Chalita ilustrou seus conceitos de educação e gentileza, através de situações vividas por ele. “Muita coisa é conquistada por meio de ações gentis”, falou. Após a palestras ocorreu o lançamento e autógrafos dos livros Sol depois da chuva e Gentileza. Em entrevista aol Grupo Comunidade de Comunicação, Chalita falou sobre hábitos simples que podem modificar situações e pessoas.

1. Qual é a relação entre modos e a moda que conhecemos?

A moda é um conceito interessante que faz com que as pessoas queiram evoluir sob o ponto de vista do que usam e como usam. O “como usam” é fundamental porque moda é também um estilo. Não adianta alguém se vestir com roupas de grife e ser inconsistente no que diz ou, pior ainda, ser deselegante no como diz.

2. Como a transformação pela gentileza influencia no cotidiano das pessoas?

Acredito que as pessoas gentis são mais felizes porque mais leves, mais generosas. A gentileza é um processo interno e externo. É preciso que a pessoa seja gentil com ela mesma e o caminho é a serenidade, a aceitação, a inteligência. Pessoas muito alteradas fazem mal a si mesmas e aos outros. E a gentileza se dá na relação com o outro. E aí vai uma dica que reside no universo da ética:  não faça ao outro o que você não gostaria que fizessem a você.

3. É possível aliar educação (bons modos) a um estilo (no caso o estilo refere-se aos personagens que montamos, por exemplo: a patricinha ou o punk)?

Machado de Assis falava da nossa alma exterior. Nós buscamos apresentar aos outros uma imagem do que consideramos que somos. É claro que a composição desse “personagem social”, como dizia Jung, depende da nossa estrutura emocional, que por sua vez depende da nossa estrutura educacional. Uma pessoa bem resolvida, que teve bons exemplos, que aprendeu a respeitar, que adquiriu valores, será uma pessoa do seu tempo e uma pessoa do mundo, não importa que roupa vista ou por qual estilo de moda ela opte. O que fará a diferença vai ser a maneira como trata as pessoas. O estilo passa. O que permanecerá, para sempre, é o conjunto de valores que a pessoa assimilou e distribui.    

4. O que determina uma pessoa estar ou não em conexão com a moda (seja em hábitos, costumes ou figurino)?

Moda, por definição, é algo passageiro. Além disso, a moda é uma manifestação social. Evidentemente, uma pessoa quer estar em sintonia com o seu grupo, mantendo uma forma de vestir que não a afaste do modo como o seu grupo se comporta. Mas a alma importa mais do que a roupa. O ideal é quando a pessoa consegue manifestar, nas vestimentas, as suas qualidades interiores, de moderação, equilíbrio, respeito.

5. Educação segue alguma tendência?

Há coisas que não podem mudar nunca em termos de educação. São coisas que permanecem desde as primeiras escolas. Educar para os valores, por exemplo, e fazê-lo com vínculo. Desde Sócrates se afirma que é possível passar informações de muitas maneiras, mas educar, só com afeto. E aí vai uma grande questão para a educação contemporânea tão recheada de tecnologia (o que, aliás, é muito bom): por melhor e mais potente que sejam as máquinas, o computador nunca vai substituir o professor, porque o a computador não tem alma e o aluno precisa de alma, de referenciais. Há outras coisas que seguem a moda e isso não é ruim, desde que se perceba que a educação precisa de continuidade. Mas, de repente, uma escola começa com o trabalho de projetos, isto é hoje uma moda, e outras vão replicando essas experiências bem sucedidas. Enfim, na essência não pode mudar; na didática cotidiana, deve, porque o aluno muda o tempo todo.

6. O que pode originar a falta de gentileza?

Ir contra a natureza. Há pensadores importantes da história do Brasil, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Darcy Ribeiro e Miguel Reale, que trataram do brasileiro como um  povo cordial, gentil. E de fato é. O brasileiro é um povo acolhedor. Entretanto, os problemas contemporâneos, a vida agitada, as cobranças cotidianas fazem com que gestos simples de gentileza sejam negligenciados. Não há tempo para dizer “por favor”, “muito obrigado” , “por gentileza”;  quanto ao cavalheirismo, nem se fale, parece que caiu de moda. Temos que resgatar o valor da gentileza. Pensar mais nos outros. Isso faz bem pra gente.

7. Existe remédio para a falta dela?

Bons exemplos em casa. Bons exemplos de delicadeza, de respeito, de gestos de elegância. Assim também na escola, que não deve passar somente conhecimentos, mas atitudes. E como o exemplo é essencial! Na nossa vida, temos que cuidar para que a quantidade de atividades e problemas que têm de ser administrados todos os dias não retire o aprendizado da gentileza. Quando as pessoas se tratam bem, o mundo fica melhor.

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Gentileza, ato de amor

Por Revista Siciliano

A origem da palavra gentileza, segundo o dicionário Houaiss, é latina. Vem do radical gens (gentis, no genitivo), que significava o grupamento familial composto de indivíduos livres de nascimento, com um antepassado comum. Não vamos nos estender nessa definição, porque uma frase já bastou para entendermos a importância da palavra: “indivíduos livres de nascimento”!

Pensem na beleza desta idéia. A pessoa nascida livre não tem maus hábitos, não tem preconceitos, não tem barreiras, não se entrega a pressões sociais. Ela é livre, e isto é o que mais importa no caráter de alguém.

Ser livre não significa estar isolado. Ao contrário, viver em grupo demanda uma docilidade de alma que os mais velhos chamavam de boa-vontade. No fundo, demanda que as pessoas manifestem ações na direção da felicidade do outro, como amizade, solidariedade, acolhimento, companheirismo. São ações que eu prefiro chamar de gentileza. Uma qualidade do espírito refinado pela educação, e especialmente pelo exemplo. Uma qualidade baseada no mais primário de todos os valores: o respeito. Saber ouvir, saber dividir, saber reconhecer que há pluralidade do mundo e que todos podem viver em harmonia. Ser gentil é saber sonhar. Em resumo, uma forma de amar.

A gentileza está na raiz do inglês gentleman (cavalheiro, homem gentil), e na evolução da noção latina da palavra gentilis (aquele que pertence a uma família). Ser gentil, portanto, surge de um movimento interno, essa liberdade atávica e essa predisposição para o bem, e de uma influência externa, em geral oferecida pela família. Ser gentil depende do conhecimento, por meio da educação que causa uma constante transformação interior. Uma transformação mais fácil ainda quando a pessoa já nasce livre.

Foi pensando na importância da delicadeza nos relacionamentos, e em como essa postura estimula o bem-viver e a felicidade entre as pessoas, que acabo de escrever dois livros. Um deles é um romance (O sol depois da chuva) que explora as possibilidades de transformação de pessoas e de suas histórias por meio de gestos gentis. O segundo (Gentileza) é um livro de bolso, em que discorro, em pensamentos breves e concisos, sobre atitudes de gentileza, no dia-a-dia, nas coisas que imaginamos não ter grande importância, mas que fazem toda a diferença.

Pense em como o mundo pode ficar melhor, se as pessoas praticarem mais a gentileza. E, neste fim de ano, experimente a sensação maravilhosa de renascer, como fez o Cristo entre os homens. Seja gentil. E tenha um feliz Natal.

Recurso irrisório para educação

O governo federal promete destinar R$ 41 bilhões, até 2010, em educação, ciência e tecnologia. Este investimento, esperado com ceticismo, faz parte integrante do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). É a mesma expectativa que o governo criou com a promessa, que até agora não cumpriu, de dar para todos os alunos das escolas públicas um laptop (computador pequeno de colo) e também de vendê-lo no mercado a um preço acessível.

A universalização da informática nas escolas públicas, que todos aprovaram, é um projeto ambicioso, se considerarmos que nas áreas rurais existem milhares de escolas que não têm eletricidade. O uso deste equipamento eletrônico por milhões de crianças brasileiras é de um valor incomparável, capaz de elevar rapidamente o nível de aproveitamento do ensino.

Atualmente, a média nacional do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) estabelecido pelo governo é de 3,8 no primeiro ciclo e de 3,5 no segundo. No sertão, que vai do Norte de Minas até o interior do Nordeste, este índice cai para 2,7 nos dois ciclos.

O Brasil é, ainda, um país pobre. Com enormes disparidades regionais e grandes contingentes de pobreza e de miséria. Essas desigualdades econômicas refletem na qualidade do ensino e no grau de acesso das crianças às escolas.

As grandes diferenças de renda produzem ou acentuam as distâncias sociais, principalmente na educação que recebem os estudantes filhos de famílias abastadas e os filhos de famílias pobres. Os ricos cursam as melhores escolas, dedicam-se ao estudo em tempo integral e têm acesso aos livros e outros instrumentos de ensino. Os pobres, principalmente os jovens que estudam e freqüentam os cursos noturnos, sofrem todas as dificuldades, principalmente as de ordem material.

A experiência internacional ensina que sem investimento em educação não há possibilidade de um país se desenvolver. O professor Arnaldo Niskier, especialista emérito em educação, afirma que “a virada do Japão começou em 1868, quando o imperador Meiji assumiu o poder e passou a aplicar mais de 50% do orçamento em educação”.

Os salários dos professores primários no Japão são superiores a US$ 3 mil; os professores do ensino médio ganham US$ 4.500 por mês. No Rio de Janeiro, o piso salarial é menos de US$ 250 e há 11 anos não se dá aumento aos professores. Os recursos que o governo anuncia que vai aplicar (R$ 41 bilhões) estão, ainda, muito aquém das nossas necessidades.

Nenhum país chegou ao “primeiro mundo” ou se destacou dos demais sem ter investido em larga escala na educação, na ciência e na tecnologia.

Na Inglaterra, a Universidade de Cambridge é, até hoje, a que mais produziu prêmios Nobel: 83 laureados. Nos Estados Unidos, a universidade de Harvard tem 20 mil alunos; a quarta maior biblioteca do planeta e foi considerada, pelo quarto ano consecutivo, pelo Academic Ranking of World Universities, a melhor universidade do mundo. Em 2007, já recebeu US$ 34,9 bilhões em doações e outros ativos financeiros. A Universidade de Stanford, uma das cinco mais importantes dos EUA, tem um estacionamento privativo para prêmios Nobel… Os americanos foram os que mais ganharam prêmios Nobel: 305.

A nós, resta a esperança de que, um dia, o governo compreenda a importância da educação e ajude o Brasil a encontrar o seu destino

Mestres em falta

Os sindicatos de professores se contorcem diante da questão, talvez por não ter satisfação adequada para dar a alunos e pais diante do descalabro instalado: só na rede estadual paulista de ensino ausentam-se das salas de aula, a cada dia, 29,4 mil dos 230 mil mestres. Uma taxa de absenteísmo de 12,8%, contra menos de 1% em escolas privadas. O dado, noticiado domingo nesta Folha, documenta distorção disseminada por sistemas públicos de ensino do Brasil.

A Apeoesp (sindicato dos professores) oferece racionalização automática para o sumiço de seus representados: salários baixos, longas jornadas, salas superlotadas e violência na escola. Embora o argumento possa explicar em parte a atitude, jamais terá o poder de justificá-la. A depreciação do magistério alcança patamares incompatíveis com a meta do governo federal de elevar o ensino básico, até 2022, ao nível de países da OCDE (clube das nações mais ricas). O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) contemplou isso ao propor um piso nacional de R$ 850 para professores. O projeto de lei correspondente (nº 619/2007) foi aprovado em duas comissões da Câmara dos Deputados (faltam outras duas); na de Educação e Cultura, o valor subiu para R$ 950. Essa política horizontal de recuperação de salários é necessária, mas não resolve a questão. Ganhar um pouco mais não levará professores a tornar-se assíduos -a média dos proventos de mestres paulistas, por exemplo, é 53% superior ao valor proposto como piso para o país. Aumento salarial não garante melhora automática do ensino. É preciso exigir contrapartida dos professores. Reservar uma parte relevante do orçamento para premiar as escolas que mais reduzirem as faltas -e mais melhorarem o desempenho dos alunos- é um meio inteligente de perseguir esse objetivo. A via do estímulo, porém, não basta. Não há como conciliar o interesse público com a pletora de 19 dispositivos que facultam ao professor paulista ausentar-se do trabalho sem desconto no salário. Tampouco cabe aguardar condições perfeitas de trabalho para que se aceite, enfim, reduzir a absurda média de 32 faltas anuais por docente. Regras permissivas de aposentadoria também requerem revisão. Não é razoável que inativos consumam 1/3 da folha de pagamento do professorado paulista. Verbas de educação precisam ser canalizadas, com prioridade, para a melhoria do ensino. Tal é o espírito do PDE federal. O MEC anunciou que investirá, ainda em 2007, R$ 1 bilhão em apoio técnico e financeiro a municípios que adotarem metas de desempenho (medido pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, Ideb). Uma legião de 3.487 municípios e 17 Estados já formalizou adesão; das 1.242 cidades prioritárias, com Ideb muito baixo, 985 aderiram. Segundo o MEC, os primeiros desembolsos começam em dez dias. Seria útil que, entre os critérios de avaliação, figurassem também metas ambiciosas de redução do absenteísmo docente.

Por uma terceirização decente

Por José Pastore (O Estado de S. Paulo)

No Brasil, a terceirização é foco de grande polêmica. Os que são contra argumentam que esse processo desrespeita os direitos dos trabalhadores terceirizados. Os que são a favor defendem que a terceirização pode ser praticada com pleno respeito àqueles direitos.

Na prática, há terceirizações que desrespeitam e outras que respeitam. Para mudar esse quadro, o Brasil precisa de uma lei que induza ao respeito.

Apesar de reconhecer que a legislação, sozinha, não garante a boa terceirização, este artigo apresenta duas sugestões para se cunhar uma lei que dê segurança jurídica às empresas e proteções aos trabalhadores.

Atualmente, o único expediente sobre o assunto é a Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho, que autoriza a terceirização de atividades-meio e proíbe a terceirização de atividades-fim.

E aqui começa a confusão. O que é meio e o que é fim? Na prática, é impossível fazer essa distinção. Por isso alguns juízes acham que a atividade “A” é meio, enquanto outros acham que é fim, o que gera insegurança jurídica.

Por exemplo, em junho de 2007 a Justiça do Trabalho condenou a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) a incorporar a seu quadro de pessoal os terceirizados que trabalhavam em empresas contratadas para realizar obras de extensão de rede elétrica, manutenção de iluminação pública, instalação de medidores e outras atividades consideradas como fim, o que, na prática, acabará com a terceirização naquela empresa.

O que interessa na terceirização não é a esgrima entre meio e fim, e sim a proteção de todos os que participam da produção como empregados da contratante e das contratadas ou como profissionais autônomos, cooperados, teletrabalhadores, etc.

Teoricamente, a terceirização gera ganhos de especialização, qualidade, agilidade, simplificação, desburocratização, avanço tecnológico, uso racional do tempo, rateio de riscos, redução de custos e tudo o que contribui para a produtividade, o lucro, os investimentos e os empregos.

Mas nem sempre é assim. Por isso há empresas que terceirizam; há as que não terceirizam; e há as que desterceirizam. Essa decisão é das empresas. Trata-se de uma decisão complexa e que não pode ser administrada por juízes que, por estarem longe do mundo da produção, ora julgam de um jeito, ora de outro. O que interessa, repetindo, não é autorizar esta e proibir aquela atividade, mas sim garantir proteções para todos os que integram a produção.

O primeiro passo para se chegar a uma lei de boa qualidade é acabar com a divisão artificial entre meio e fim. O segundo é criar um mecanismo que leve as contratantes a ajudar a assegurar o cumprimento das leis de proteção.

Um dos modos de fazer isso é responsabilizar as empresas contratantes pela contratação de empresas idôneas e pelo acompanhamento de suas condutas ao longo do contrato de terceirização. Como fazer esse tipo de monitoramento sem criar muita burocracia? Aqui vai uma sugestão.

Para as contratantes que seguirem as regras do referido monitoramento, a sua responsabilidade seria subsidiária. Caso contrário, seria solidária. Como subsidiárias, elas responderiam por eventuais desvios no caso de fracasso das contratadas. Como solidárias, elas responderiam sempre pelos desvios, independentemente do que ocorre com as contratadas. Trata-se de uma forte elevação do risco para quem optar pelo comodismo.

Vejamos um exemplo. Hoje em dia, as grandes grifes de confecções (Giorgio Armani, Lacoste ou Hugo Boss) se concentram na atividade de criação e subcontratam todas as demais atividades com empresas e autônomos que executam o corte, a costura, o acabamento, a embalagem e a entrega do produto final nas lojas. Trata-se de uma verdadeira constelação de contratos e relacionamentos que englobam vários tipos de atividades. O mesmo ocorre com os que, como contratados, executam a soldagem, a pintura, a eletricidade e o estofamento nas montadoras de automóveis.

Nessa cadeia de contratantes e contratadas, as que seguirem as regras acima teriam responsabilidade subsidiária. As demais cairiam na solidária. Com essa elevação do risco de punição, as contratantes seriam induzidas a fazer o necessário monitoramento, transformando-se em verdadeiros fiscais na supervisão do cumprimento das proteções dos trabalhadores. É apenas um exemplo de medida que pode nos levar a uma terceirização decente, simples e eficaz.

Desinteresse pela inovação

Por Editoria Estado de S.Paulo

Enquanto nos países desenvolvidos as atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico são cada vez mais impulsionadas pela iniciativa privada, no Brasil elas continuam se circunscrevendo predominantemente ao setor público. Na França, por exemplo, 53% dos cientistas trabalham para empresas particulares. Nos Estados Unidos e na Coréia do Sul, esse porcentual já está próximo dos 80%.

Entre nós, porém, apenas 16% dos pesquisadores atuam na iniciativa privada. Os 84% restantes trabalham em universidades públicas ou em órgãos governamentais, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica e o Centro de Energia Nuclear na Agricultura.

O resultado acaba sendo paradoxal: apesar do aumento dos investimentos do País em pesquisa e desenvolvimento, que pode ser constatado pela ampliação do número de doutores formados por universidades de ponta e pela elevação do número de artigos publicados por cientistas brasileiros em conceituadas revistas especializadas internacionais, as empresas nacionais continuam enfrentando dificuldades para incorporar as inovações científicas aos seus negócios e, com isso, ganhar produtividade, lançar novos produtos e conquistar novos mercados.

Trocando em miúdos, embora a ciência avance, “ela não vira Produto Interno Bruto”, como afirma o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), uma das mais importantes agências de fomento ao desenvolvimento tecnológico do País. Isso acontece, diz ele em importante estudo recentemente divulgado pelo Estado, por causa da incapacidade de governos e empresários de construírem “pontes” entre o mundo da ciência e a realidade dos mercados.

Os cientistas fazem pesquisa de ponta, mas as empresas não sabem utilizar o potencial de inovação propiciado pelos institutos do setor público. E, como são elas que geram riquezas, o avanço da ciência não tem os efeitos que poderia ter no aumento da produção e na criação de novos postos de trabalho.

Segundo Brito Cruz, só quando o setor produtivo passar a registrar aproveitamentos significativos da inovação científica é que a economia brasileira reunirá condições para crescer num ritmo mais acelerado do que o atual. Para isso é indispensável a contratação de maior número de cientistas e pesquisadores e a presença de empresários nos principais órgãos deliberativos das universidades de ponta, assim como a modernização da legislação. Sancionada há dois anos com o objetivo de incentivar as empresas particulares a investirem em ciência e tecnologia, a Lei da Inovação Tecnológica foi o primeiro passo nesse sentido.

Mas, como lembra o diretor-científico da Fapesp, ainda há muitos desafios pela frente e a expansão da ciência e da tecnologia não pode ficar na dependência de financiamento direto do poder público. Para vencer esses desafios, uma saída seria adotar medidas inspiradas na bem-sucedida política posta em prática pela Finlândia e pela Suécia. Nas últimas décadas, indústrias desses países se tornaram líderes mundiais nas áreas em que as inovações são quase diárias, tais como a informática e a telefonia.

Graças a um engenhoso sistema de estímulos fiscais, à criação de comitês científicos, constituídos por professores universitários, pesquisadores e executivos de grandes empresas, e ao compromisso dos governantes de manter intocadas as “regras do jogo”, nos dois países a iniciativa privada pôde aumentar significativamente os investimentos em tecnologia. E, à medida que se converteram nos principais empregadores de cientistas e pesquisadores, as empresas finlandesas e suecas em pouco tempo se tornaram grandes conglomerados mundiais.

No Brasil, conforme reportagem recentemente publicada no Estado, muitas empresas têm interesse em firmar acordos com universidades públicas, mas esbarram em problemas que vão da falta de comunicação ao anacronismo da legislação. Nas agências públicas de fomento à pesquisa já não predomina o preconceito ideológico que condena parcerias com a iniciativa privada, mas elas reivindicam leis mais modernas para poderem formalizar acordos. E falta, enfim, um marco regulatório que encoraje o setor produtivo nacional a aumentar seu peso relativo em matéria de inovação tecnológica.

O pior apagão

O Brasil de tantos apagões anunciados acaba de trombar no que talvez seja o mais paradoxal deles: apesar da elevada taxa de desemprego, falta mão-de-obra qualificada. O tamanho desse preocupante entrave ao crescimento ganhou maior visibilidade com a divulgação, quarta-feira, de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que quantifica o problema.

Enquanto um contingente superior a 9 milhões de pessoas busca vaga no mercado de trabalho, só 1,67 milhão, ou 18,3% do total, estão aptas a preencher um dos postos disponíveis. Observe-se que o nó não está no nível superior, que responde por apenas 7% das vagas abertas, mas no médio e técnico.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que, entre junho e julho, pesquisou 1.714 empresas, a falta de capacitação afeta sobretudo a área de produção. Perde-se produtividade e competitividade. Também é prejudicada a inovação tecnológica. Ou seja, o país vai ficando para trás – e não é de hoje. Compare-se, por exemplo, a evolução da Coréia do Sul, que, há cerca de 40 anos, estava em patamar de subdesenvolvimento e analfabetismo semelhante ao brasileiro e hoje é um dos maiores exportadores mundiais de tecnologia, com 82% dos jovens na faculdade e vigor econômico que a fez despontar no cenário internacional como Tigre Asiático.

A diferença é que lá houve forte investimento em escolas públicas de ensino médio e fundamental. Aqui, mesmo quando as empresas investem em treinamento ou não exigem grau de capacitação tão elevado, há dificuldades devido à baixíssima qualidade da educação. O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que testa o conhecimento de estudantes em português e matemática, é revelador: alunos chegam ao 3º ano do ensino médio com nível de conhecimento que deveriam ter alcançado na 8ª série do ensino fundamental.

Nesse cenário, até os cursos técnicos e profissionalizantes mantidos pela iniciativa privada para suprir as necessidades próprias de pessoal são prejudicados, tornando-se mais demorados e onerosos. Nem as grandes estatais escapam. A Petrobras, para amenizar as restrições à expansão de suas atividades em território nacional, vê-se obrigada a fornecer cursos inclusive para a rede de fornecedores da empresa.

É o custo Brasil elevado à máxima potência pela histórica vesgueira dos governantes na elaboração da lista de prioridades nacionais. A educação fica aquém das políticas assistencialistas, embora sejam os investimentos no setor a única alavanca capaz de resgatar socialmente as camadas menos favorecidas e inserir o país no mundo desenvolvido. Como conseqüência, não estamos preparados nem para crescer nem para a modernização. Esse nó somente será desatado com ensino público, inclusive técnico e profissionalizante, de qualidade e em quantidade suficiente para atender as necessidades nacionais.

O governo tem instrumentos – como o Saeb – para medir a deficiência, mas não ousa corrigi-la. Acabar com o atraso é tarefa que demanda tempo, já perdido de sobra pelo Brasil. Sem ação efetiva imediata, com planejamento para atender primeiro os setores mais carentes de qualificação de mão-de-obra da economia, o bonde do Primeiro Mundo passará diante do país em velocidade supersônica, deixando a nação na poeira, sem chance de embarcar.

Gentiliza é o tema dos novos livros de Gabriel Chalita

– Como o senhor teve a idéia de tratar do tema gentileza?

Acredito que seja um tema profundamente atual. Há pensadores importantes da história do Brasil, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Darcy Ribeiro e Miguel Reale, que trataram do brasileiro como um  povo cordial, gentil. E de fato é. O brasileiro é um povo acolhedor.

Entretanto, os problemas contemporâneos, a vida agitada, as cobranças cotidianas fazem com que gestos simples de gentileza sejam negligenciados. Não há tempo para dizer “por favor” , “muito obrigado” , “por gentileza”;  quanto ao cavalheirismo, nem se fale, parece que caiu de moda. E é sobre isso, sobre o valor da gentileza, que me propus tratar nesses dois livros. 

– Os livros falam como atitudes positivas geram conseqüências positivas, como o senhor vive isto em seu dia-a-dia e qual a importância da gentileza em sua vida?

Acho que tive bons exemplos em casa. Meu pai era um homem extremamente gentil e romântico. Eu via com entusiasmo o amor e a delicadeza com que ele tratava minha mãe. Até hoje, quando vou a Cachoeira Paulista, ouço histórias de algum gesto elegante dele. Tive professores incríveis também, pessoas que além do conhecimento ensinavam atitudes. E como o exemplo é essencial! Na minha vida, eu procuro cuidar para que a quantidade de atividades e problemas que têm de ser administrados todos os dias não retire esse aprendizado que tive. E acho que vem dando certo.

– O senhor recebeu algum gesto de gentileza que considere um agente transformador de algum momento de sua vida?

Muitos, muitos mesmo. Eu só tenho que agradecer a Deus, por tantas pessoas que tiveram a generosidade de me acolher e ajudar. Pessoas como Franco Montoro, que me ensinaram a valorizar cada vez mais o ser humano. O próprio Geraldo Alckmin com sua elegância competente. Ele é um grande professor de ética, de retidão. E ninguém é gentil se não é ético. Quando fui para a Academia Paulista de Letras, fiquei ainda mais próximo de escritores gentis: Lygia Fagundes Telles, Paulo Bomfim, Esther de Figueiredo Ferraz, Antonio Ermírio de Moraes, José Renato Nalini e tantos outros. E além desses, há pessoas anônimas que nos surpreendem pela gentileza. Na época em que era secretário de Educação, pude conviver com professores maravilhosos e com serventes profundamente gentis. Ainda há os alunos que nos surpreendem com as cartas ou e-mails ou apenas olhares de gratidão.

– Como surgiu a idéia de tratar do tema gentileza por meio de um romance?

Um romance é um espaço rico para que os sentimentos apareçam. Eu queria tratar da dor, do abandono, da paixão, da solidão. Ao mesmo tempo tratar da esperança, do sonho, do amor – mesmo que fosse um amor não correspondido.  E a trama do romance permite que virtudes e vícios sejam percebidos em pessoas imaginárias e que sejam aproximados de pessoas do cotidiano.

– Em que se inspirou para contar a história de Francisco e seus conhecidos?

A idéia inicial era a de escrever um livro chamado “Pedagogia da gentileza” que desse continuidade ao “Pedagogia do amor”, que é um livro de bastante sucesso no Brasil e no exterior. Pesquisei muitos filmes porque queria tratar o tema por meio de cenas de gentileza em filmes de culturas e momentos diferentes. De início, pretendia que cada filme simbolizasse um dos grandes valores sociais que nos acostumamos a colocar dentro da categoria da gentileza. Busquei filmes comoventes, como Cinema Paradiso, O Rei e eu, O Balão branco, Vozes do Coração, O carteiro e o poeta, Central do Brasil,  My fair lady. Eram produções de épocas diferentes, e de países tão diferentes quanto a França, Itália, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, e o Irã. Pesquisei a analisei cuidadosamente mais de 120 filmes, e relacionei valores como generosidade, solidariedade, tolerância, humildade, confiança, reconhecimento, companheirismo, aceitação, respeito.

O livro estava praticamente pronto quando me hospedei em uma Ilha, na casa de uma amiga. Acordei cedo, e deparei, ao longe, com um menino que estava em uma canoa e o olhar dele me pareceu triste. Vi que os remos estavam na canoa e ele olhava para o horizonte. Fiquei imaginando que ele estava sério porque alguma coisa havia acontecido. Daí foi surgindo a ficção. O menino teria sido criado por uma mãe profundamente amargurada, mulher abandonada que nunca perdoou a sorte. O menino se chamaria Francisco e teria conhecido Mara, uma menina encantadora que lhe contava histórias de filmes. Ele iria se transformando e se apaixonando. O relacionamento dos pais de Mara seria bem diferente da rotina do que ele conhecia como família. Haveria ainda a professora Josefa, dona de uma pousada e outras pessoas que iriam vivendo. É incrível como a história vai surgindo e ganhando vida. Talvez o menino que eu vi na canoa nem fosse triste.

– Por que resolveu ambientar a história em uma ilha? Em que medida ela representa o nosso país?

Há varias ilhas, na filosofia e na literatura. Thomas More, Francis Bacon, José Saramago imaginaram ilhas, talvez para dizer que no meio de continentes poluídos, empobrecidos pela ganância humana, pudessem existir ilhas de excelência em que esses valores existam. Uma ilha é como um sonho ou uma resistência. O Brasil vive um momento triste de sua história. O mau exemplo vem de cima. Uma parte significativa dos políticos brasileiros tem agido de modo lamentável. A corrupção, a falsidade, a demagogia… Enfim, a falta de gentileza.

– O livro está sendo lançado com o pocket “Gentileza”, como surgiu a idéia de escrever um livro de pensamentos? Tem idéias para outros temas no mesmo estilo?

Como disse, havia pesquisado muito para escrever a “Pedagogia da gentileza”. Com a mudança de rumo e o nascimento do romance ” O sol depois da chuva” ainda restou em mim a inquietação de escrever mais objetivamente sobre gentileza. No romance a gentileza está no intertexto. No pocket a gentileza é o texto. Está claro, dito. Ninguém é feliz sem ser gentil.

– Como recomenda a leitura do livro?

Aos poucos. Há frases muito simples e há outras mais elaboradas. Há nelas dois convites:  à reflexão e à ação. A gentileza é um hábito e significa um respeito a si e ao outro.

– Como se inspirou para criar as frases?

No dia-a-dia. Gosto muito de observar o comportamento das pessoas. O ser humano é realmente genial. As pessoas nos surpreendem o tempo todo, infelizmente algumas vezes de maneira negativa. Mas acho que, em tudo, é possível aprender. E quando a gente escreve, vem junto com a magia da palavra o desejo de ensinar.

– Qual é sua a frase preferida do livro?

É difícil escolher uma frase, bem, mas aí vai uma que eu gosto muito:   “Eu te amo. Se tiver dúvida, não diga. Se tiver certeza, não economize”. 

– Quando surgiu a idéia de lançá-los em conjunto?

Por acaso. Eu terminei o “Sol depois da chuva”  e logo em seguida escrevi o “Gentileza”. Os dois estavam prontos, de certa forma têm algo em comum e por isso lançamos juntos. Em Natal, no Rio Grande do Norte, o lançamento foi um sucesso. Mais de mil pessoas foram ao Shopping Natal prestigiar o lançamento. Tive que sair da livraria e ir autografar em um espaço maior. Isso me deixa profundamente emocionado. As pessoas são muito gentis. Antes do lançamento os livros já tinham vendido perto de 30 mil exemplares. Esse é um número fantástico para um país em que se lê tão pouco.

– O senhor tem outros projetos literários em andamento?

Estou escrevendo uma peça de teatro. Já promovi uma leitura dramática do texto, com dois amigos atores, excelentes, que me serviu para ter idéias de como aperfeiçoar o texto. 

– Como consegue manter este ritmo frenético de produção literária e até quando pretende mantê-lo?

Escrever é a minha vida. Eu amo o que faço. Quando não escrevo livros, escrevo artigos, bilhetes, pequenas histórias, letras de música. Escrevo como ofício e como ato de prazer. Rio com algumas histórias, choro com outras. Quando eu era pequeno e freqüentava um asilo, em Cachoeira Paulista, conheci uma professora aposentada que me emprestava livros. Li muito desde cedo. Aos poucos ela foi perdendo a visão e eu lia para ela. Um dia ela me sugeriu que escrevesse um texto para, quem sabe um dia, publicar um livro. Eu escrevi e ela corrigiu. E da sua primeira correção me lembro que ela disse que o texto não era literário porque faltava emoção. Acho que eu nem sabia o que era isso. E ela me explicou assim:  “A literatura é a história dos sentimentos. A vida humana, quando bem contada, faz rir ou chorar;  ensina algo, surpreende.” Eu tinha uns 10 ou 11 anos e já achava surpreendente Machado de Assis criar Capitu e deixar no ar se ela era uma adúltera ou não. Que fique a dúvida, para que a imaginação do leitor seja capaz de concluir. A velha senhora do asilo chamava-se Ermelinda. Até hoje me lembro da sua gentileza em me conduzir pelas sendas encantadas da literatura.

– Que assuntos ainda gostaria de abordar?

A identidade dessa região fantástica que é o Vale do Paraíba. Temos escritores incríveis. Dos imortais Monteiro Lobato, de Taubaté, Malba Tahan (Júlio César de Mello e Souza), de Queluz, Cassiano Ricardo, de São José dos Campos, Valdomiro Silveira, de Cachoeira Paulista, Eugênia Sereno (Benedita de Resende Graciotti, de São Bento do Sapucaí) e Péricles Eugênio da Silva Ramos, de Lorena, aos talentos vivos. Ruth Guimarães é uma grande escritora que vive em uma chácara em Cachoeira Paulista. José Luiz Pasin e sua tenacidade na defesa da riqueza de nossa história. Tom e Thereza Maia, com o bico de pena, a arte dos desenhos e da escrita, Olga de Sá e sua escritura de Clarice Lispector e tantos outros que estão por aí e ainda os que virão.

– No total, quantos livros já escreveu em sua carreira?

45.