Educação em Foco

O texto misterioso

Por Moacyr Scliar

Escritores consagrados repudiam falsos textos que circulam na rede. Pasquale Cipro Neto, colunista da Folha, afirma que sempre recebe elogios por um texto que não escreveu. Informática, 25 de fevereiro de 2009 Enquanto dormia, uma norte-americana de 44 anos, sonâmbula, acessou sua conta de e-mail e enviou a amigos um texto.

Médicos especialistas afirmam que o caso é raro e pode ter sido causado por medicamentos. Informática, 25 de fevereiro de 2009.

COLUNISTA de um pequeno jornal de bairro, ele já estava resignado a uma carreira modesta, sem muita repercussão, sem muitas glórias. Mas um dia teve uma surpresa: um amigo que encontrou na rua cumprimentou-o efusivamente por uma belíssima crônica que, assinada por ele, estava circulando na internet, com o sugestivo título de “O texto misterioso”. A surpresa era mais que explicável: ele simplesmente nunca tinha escrito nada chamado “O texto misterioso”.

Mas o amigo mostrava-se tão entusiasmado que não teve coragem de desfazer aquela ilusão. Aceitou, pois, os cumprimentos e seguiu adiante. Na esquina, encontrou outro amigo que também saudou-o pela crônica. E um terceiro, um quarto. Àquela altura já estava intrigadíssimo. Precisava ir ao jornal, mas em vez disto, voltou para casa e entrou na internet. Lá estava “O texto misterioso”. Ao lê-lo, teve um choque.

O texto era muito bom. E era um texto que ele poderia sim, ter escrito, mas só num momento de inusitada inspiração, uma inspiração que há muito tempo o abandonara. Mas… Será que não tinha mesmo redigido aquele texto? Porque, ainda que remotamente, as palavras pareciam-lhe familiares. Davam-lhe uma sensação de déjà vu, de coisa que tinha visto antes -na tela de seu computador, seria possível aquilo?

Inquieto, tornou a sair, encontrou outros amigos, recebeu mais cumprimentos. O diretor do jornal para o qual escrevia foi muito efusivo, ainda que mostrasse certo ressentimento: para nós você não escreve tão bonito, disse, ressentido.

Àquela altura a angústia se apossara dele. Quem, afinal, teria escrito “O texto misterioso”? Precisava encontrar essa pessoa, descobrir porque usara o nome dele. Mas nada é mais anônimo que um texto de internet. Ele não sabia nem por onde iniciar a busca Foi então que leu a notícia sobre a sonâmbula que, dormindo, enviara um texto a amigos. O que mais lhe chamou a atenção foi o comentário de especialistas segundo o qual a mulher poderia ter feito aquilo sob a ação de medicamentos. Ora, ele também estava tomando um medicamento, um novo sonífero; e a pergunta agora lhe ocorria, insistente: teria sido ele o autor do texto que deliciara tanta gente? Poderia ter o comprimido mobilizado a agora oculta vocação literária?

Essa é a dúvida que o atormenta e que é a causa de uma insônia resistente a qualquer sonífero. Insônia que só lhe aumenta o sofrimento. Teme que um novo texto apareça, com sua assinatura, algo ainda melhor que “O texto misterioso”, mas que definitivamente não terá sido escrito por ele. Isso liquidará suas últimas esperanças de transformar-se num gênio literário.

MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha

O direito de dormir

Por Rubem Alves

Será que não chega o momento em que a vida diz: NÃO EXISTE IMAGEM que mais tranquilize a alma que a imagem de uma criança adormecida. Seus olhinhos fechados dizem que o seu pequeno corpo está fechado dentro de si mesmo, num ninho de silêncio e escuridão. 

Mas é comum que essa tranquilidade seja precedida por uma luta contra o sono: a criança não quer dormir. Ela tem medo da escuridão. E o medo agita a alma.

Foi pensando nisso que os músicos inventaram um tipo de música chamado “berceuse”, que é uma canção doce destinada a ajudar as crianças a dormir. Ah! Como são lindas as “berceuses” de Brahms e de Schumann! Elas acalmam a criança amedrontada que mora em mim, põem os seus medos para dormir. E enquanto seus medos dormem, eu durmo bem longe deles…

Mas isso que os músicos fizeram foi apenas instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem. As “berceuses” acalmam as almas das crianças.

Tudo o que existe precisa dormir. O simples existir cansa. A se acreditar nos poetas e nas crianças, até mesmo as coisas.

Minha filha de quatro anos, olhando os vales e montanhas que se perdiam de vista nos horizontes de Campos de Jordão, fez-me essa pergunta metafísica: “Papai, as coisas não se cansam de serem coisas?”

Fernando Pessoa teve suspeita semelhante e escreveu: “Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, há tanto tempo… Tenho dó delas. Não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas, como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, de ser, só de ser, o ser triste, brilhar ou sorrir…”.

Ele, poeta, estava cansado. Olhava para as estrelas que luziam havia tanto tempo e tinha dó delas. Elas deveriam estar muito cansadas. Suas pálpebras jamais se fechavam. Seus olhos estavam sempre abertos, sem poder dormir jamais…

Pergunto-me então se não haverá um simples cansaço de viver. Será que não chega o momento em que a vida diz, das profundezas do seu ser, como um pedido de socorro aos que entendem a sua fala: “Estou cansada. Quero dormir o grande sono…”?

Os especialistas na arte da tortura descobriram que uma das técnicas mais eficazes e discretas para se obter a confissão de um torturado era a de impedir que ele dormisse. Assentado numa poltrona confortável, o prisioneiro espera. O tempo passa em silêncio, sem interrogatório. Vem o sono. As pálpebras pesam e querem se fechar. Mas alguém que o vigia o sacode para impedir que ele durma. E assim o tempo vai passando. O desejo de dormir vai crescendo, as pálpebras pesam até um ponto insuportável. Nesse momento, a necessidade de dormir é tão terrível que o prisioneiro está pronto para confessar qualquer coisa só para poder dormir.

Foi coisa parecida que fizeram com a Eluana Englaro, mulher italiana com 38 anos de idade, dos quais 17 em vida vegetativa. Seu sono sem despertar dizia que ela desejava dormir. Mas os torturadores, a ciência, as leis e a religião lhe negavam esse direito. Obrigavam-na a continuar viva contra a vontade do seu corpo, que ansiava pelo grande sono. Ligaram seu corpo a máquinas que impediam que ela dormisse. Vivia mecanicamente.

Finalmente o direito de dormir lhe foi concedido. Fantasio que ela dormiu como uma criança, ouvindo a “berceuse” de Brahms.

O Trote e as Cavalgaduras

Por Arnaldo Niskier

Peço licença aos leitores para ter a coragem de discordar de Albert Einstein, o genial criador da teoria da relatividade. Ele dizia que “é na crise que aflora o melhor de cada um.” Nem sempre, caro mestre, nem sempre. Veja-se o que acontece hoje em algumas universidades brasileiras, depois da realização dos vestibulares.

À angústia dos exames, nem sempre bem sucedidos, sobrevém o relaxamento do êxito, o que é perfeitamente compreensível. O que não se admite, em sociedades civilizadas, é a forma de comemoração da vitória nos vestibulares. A violência tornou-se companheira de trotes inconcebíveis, o que, aliás, não é coisa dos tempos presentes. Isso vem de longe.

Há 10 anos, na USP, afogaram um estudante de Medicina. Ele morreu, cortou na raiz uma carreira possivelmente promissora, para tristeza dos seus pais, que até hoje não tiveram o consolo de ver a justiça condenar os culpados. É a maldição dos trotes desarrazoados.

Este ano, a moçada caprichou. Em centros ditos civilizados, sem qualquer reação das autoridades, inclusive universitárias, além do inocente corte de cabelo com máquina zero (homenagem aos estudantes calouros de Medicina), houve de tudo. Ou quase tudo. Por que a agressão a mulheres grávidas? Nossos jovens querem rivalizar com os nefandos skinheads europeus que aprontam à vontade? Lá, como cá, com a desídia da polícia, que é paga para proteger os cidadãos.

Outros veteranos não foram nem originais: pegaram um rapaz que nunca bebeu e encheram o pobre coitado de cachaça, fazendo-o perder os sentidos. Isso se repetiu em lugares distintos, como se uma loucura coletiva tivesse tomado conta dos universitários, que constituem (ou irão constituir) a elite intelectual do país. Isso é orquestrado sob a liderança de recalcados que, em vez de receber os novos colegas de forma suave e solidária, agridem rapazes e moças de forma indesculpável.

Estamos inteiramente de acordo com o Ministério Público, que condenou tais atitudes de barbárie. Tem razão quando cobra das autoridades universitárias uma atitude, dentro ou fora do campus, pois isso ultrapassou os limites do bom senso ou da graça sem graça. Há 50 anos, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que se chamava UEG (Universidade do Estado da Guanabara), as lideranças estudantis, na área de Educação, comemoravam a entrada dos colegas com um simpático “diploma de burro”. Todos riam, ninguém se achava burro, mas a integridade física era plenamente respeitada. Não é como hoje, em que se agride, em cursos de Pedagogia, moças grávidas e é usual queimar as costas dos calouros, como se eles tivessem cometido algum crime de lesa-pátria.

Demos uma olhada no Dicionário Escolar da Academia Brasileira de Letras. Lá está: “Trote – andamento das cavalgaduras ou troça que os veteranos das escolas fazem com os calouros.” Não dá para entender porque alguns universitários preferem a primeira versão. Será que é um problema de identificação?

Sinfonia do Taxista

Por Gilberto Dimenstein

CARLOS ROBERTO Caetano, mais conhecido como Carlinhos, acredita ser diferente dos 35 mil taxistas da cidade de São Paulo. Imagina-se o único motorista de táxi a ouvir, sem parar, música erudita no rádio de seu carro. “Só desligo ou mudo de estação se o passageiro pedir, o que é raro. Geralmente, recebo elogios pelo meu gosto.” Por trás dessa singularidade, existe a história de uma frustração.

Desde menino, Carlinhos tinha o projeto de ser músico. Suas apresentações limitavam-se à pequena orquestra de seu templo, onde aprendeu a tocar saxofone. Por falta de recursos, não conseguiu ir além da 8ª série de uma escola pública. Mais tarde, virou motorista de táxi, com uma meta: todos os seus filhos fariam faculdade.

Mas a vida iria lhe fazer uma surpresa dentro de sua própria casa -uma surpresa musical que, na sua visão religiosa, teria o desígnio divino.

Com seu ponto na frente do fórum de Pinheiros, Carlinhos já conseguiu que, dos seus quatro filhos, dois começassem a cursar faculdade; os outros dois estão no ensino médio. “Mas vão entrar”, orgulha-se.

Para atingir seus objetivos, ele vem trabalhando duro para pagar as mensalidades de escolas privadas. “Fui obrigado a cortar o lazer.” Seu prazer pela música ficou restrito ao rádio e às apresentações semanais no templo.

Um dia, porém, foi à Sala São Paulo para ver um concerto com músicas de Bach e Beethoven. “Não vou exagerar, eu me senti chegando ao paraíso.” Não se deu mais ao direito de repetir a extravagância. Até então, estava acostumado à acústica tumultuada do templo evangélico, com seus músicos quase todos amadores.

Ocorre que todos os seus quatro filhos foram demonstrando não só prazer mas também habilidade musical. Dois aprenderam a tocar órgão e os outros dois, violino e flauta.

Apenas a mulher não se sentia apta a tocar nenhum instrumento. Acabaram criando, dentro de casa, um conjunto, cuja plateia é o templo.

Mas, agora, Carlinhos vai ter o que considera sua recompensa pelo esforço dos últimos anos.

Com os filhos encaminhados, ele se prepara para estudar música pelo resto de sua vida. Sua mulher também está decidida a aprender algum instrumento. “Aí toda a família estará unida na partitura.”

Até lá, a música erudita não lhe faz bem, no táxi, apenas ao espírito, mas também ao bolso -o hábito ajudou-o a fidelizar uma clientela.

[email protected]

Metamorfose

Por Luiz Felipe Pondé (Folha de S.Paulo)

Ao ser indagado se não tinha esperanças, Kafka disse, “esperanças há muitas, mas não para nós”. Janouch narra um dia em que ele, com 20 anos, disse a Kafka, então com 40, “hoje não estou entendendo nada do que você diz”. Kafka respondeu “deve ser a misericórdia de Deus, porque sendo você jovem, e estando eu hoje pessimista, se você me entendesse, você ficaria mal”. Confessa: “o pessimismo é meu pecado”.

Por que os clássicos são tão pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda? Improvável. Na sua coluna de 21 de janeiro, meu colega ilustrado (velha piada entre nós) Marcelo Coelho critica “meu” pessimismo. Colunistas que “matam a esperança” são supérfluos. O bom jornalismo opinativo é pautado pelo conflito de ideias, por isso, agradeço suas críticas. Ele acha que ao duvidar do Iluminismo reforço forças regressivas na experiência humana. Eu penso que o Iluminismo é que é regressivo porque caminha sobre fantasias enquanto os homens caminham sobre tumbas. Nós modernos somos a raça mais covarde que caminhou sobre a Terra. Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só. Quando olho os “avanços” da nossa minúscula história, penso: como nos verão em mil anos? Como a decadência do século 17? Rirão de nós porque demos direitos aos ratos, enquanto fizemos dos bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais? Respondo a pergunta “o que eu acho da Revolução Francesa?” com “ainda é cedo pra dizer qualquer coisa”.

Imaginem dois africanos no século 19. Um vende o outro como escravo (negros vendiam negros). O escravo é levado para os Estados Unidos e lá sofre todo tipo de horror da escravidão. O outro fica livre e feliz na África. Adiantem o filme. O bisneto do escravo mora nos EUA, casa na praia, filhos na faculdade, e a esposa, bisneta de outro escravo, médica de sucesso. Voltem pra África. Muitos bisnetos do que ficou lá continuam a viver em seus buracos, matando-se do mesmo jeito (como acabou a escravidão, perderam a chance de vender seus “irmãos”). Famílias afundam na miséria. Qual é a moral desta história? Que a escravidão foi uma bênção para os afro-americanos porque os levou para os EUA? E a liberdade do outro, a maldição de seus bisnetos? Os afro-americanos, que hoje celebram a vitória do Obama, depois de muito sofrimento, diriam “ainda bem que nossos bisavós foram escravos”? Não! A escravidão é um horror.

A questão é outra: qual o sentido da história humana? Nenhum. A história não é a luta entre a luz e as trevas. Não porque elas não existam, mas porque não sabemos identificar, com o microscópio das ideias claras e distintas de que dispomos, a trama infinita de suas relações. Um homem faz o que pode em meio a opacidade do mundo. Meu pecado é não fazer o marketing da democracia de massa. Falsos sentimentos são comuns nos homens, logo, quanto mais homens, maior a chance de mentira, por isso desconfio de bons sentimentos em grandes quantidades.

Mais? Os índios não vivem em comunhão com a natureza, apenas ficaram na idade da pedra em técnicas de domínio da natureza, como muitos africanos que ficaram na África. A ciência e a política tampouco fazem os homens melhores. O mundo não é dividido entre elite má e pobre bom. Se a elite é cruel, o povo é violento e interesseiro. Os homens não são iguais, alguns são melhores. A igualdade ama o medíocre. É mentira que todo mundo possa julgar as coisas por si só. A propaganda desta mentira gera uma horda de invejosos que sonham em destruir quem eles julgam livres. Supérfluo? Mentira. Num mundo parasitado pelo marketing como forma de vida, ser pessimista é um método. Não se trata de dizer morbidamente “o mundo é mau”, mas reconhecer que no humano a verdade é uma ferida incurável. A esperança que conta é a do animal ferido.

Nada disso implica concordar com crianças mortas. O debate ao redor da esperança não é um problema do quão otimista somos, mas o que em nós nos faria colaborar com nazistas na França ocupada, além do medo. Manter o emprego? A chance de destruir alguém melhor do que eu? Tomar a mulher de alguém? Promoção pessoal? Nada mais banal, nada mais humano. Na “Metamorfose”, Gregor Samsa, agora uma barata, vê a delícia que é caminhar de cabeça pra baixo com suas perninhas coladas ao teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka.

Fonte: Folha de São Paulo – 09/02/2009

”Paulo Freire: a prática à altura do sonho”

Por Moacir Gadotti

No pensamento de Paulo Freire, tanto os alunos quanto o professor são transformados em pesquisadores críticos. Os alunos não são uma lata vazia para ser enchida pelo professor.

Mas Paulo Freire pode ainda ser lido pelo seu gosto pela liberdade. Essa seria uma leitura libertária. Como muitos dos seus intérpretes afirmam, a tese central da sua obra é a tese da liberdade-libertação. A liberdade é o ponto central de sua concepção educativa desde suas primeiras obras. A libertação é o fim da educação. A finalidade da educação é libertar-se da realidade opressiva e da injustiça; tarefa permanente e infindável. Para Paulo Freire a realidade opressiva não é “privilégio” dos países do Terceiro Mundo. Em maior ou menor grau, a opressão e a injustiça existem em todo mundo. Por isso sua pedagogia não é apenas uma pedagogia “terceiro-mundista”.

A educação visa à libertação, à transformação radical da realidade, para melhorá-la, para torná-la mais humana, para permitir que os homens e as mulheres sejam reconhecidos como sujeitos da sua história e não como objetos.

A libertação como objetivo da educação é fundada numa visão utópica da sociedade e do papel da educação. A educação deve permitir uma leitura crítica do mundo. O mundo que nos rodeia é um mundo inacabado e isso implica a denúncia da realidade opressiva, da realidade injusta, inacabada e, conseqüentemente, a crítica transformadora, portanto, o anúncio de outra realidade. O anúncio é a necessidade de criar uma nova realidade. Essa nova realidade é a utopia do educador.

Paulo Freire foi chamado certa vez de andarilho da utopia. A utopia estimula a busca: ao denunciar uma certa realidade, a realidade vivida, temos em mente a conquista de uma outra realidade, uma realidade projetada. Esta outra realidade é a utopia. A utopia situa-se no horizonte da experiência vivida. (…)

Fonte: http://www.paulofreire.org/twiki/pub/Institucional/MoacirGadottiArtigosIt0041/A_pratica_altura_sonho_1996.pdf

A dislexia na sala de aula

Por Maria Ângela Nogueira Nico

A escritora Agatha Christie costumava ditar suas histórias para uma secretária. O físico Albert Einstein só foi alfabetizado aos nove anos. O que eles têm em comum? Ambos sofriam de dislexia, um transtorno de aprendizagem na área de leitura, escrita e soletração. Esse problema atinge entre 5 e 17% da população mundial e é o distúrbio de maior incidência em sala de aula, segundo a Associação Brasileira de Dislexia (ABD).

O disléxico tem dificuldade para fazer a relação entre os sons e sua representação visual, discernindo letras, sílabas e palavras. Com isso, escrever, ler, soletrar e compreender a escrita são tarefas árduas para eles, que acabam muitas vezes sendo tratados como incapazes ou preguiçosos. Trata-se de um grande engano, pois o problema nada tem a ver com má alfabetização, desatenção ou pouca inteligência. Também não é considerado doença, mas um transtorno que necessita de métodos diferentes de aprendizado.

“A dislexia não está relacionada à inteligência. Pelo contrário, os disléxicos apresentam inteligência normal ou, como ocorre muitas vezes, até mesmo acima da média”, explica a fonoaudióloga e coordenadora técnica da ABD, Maria Ângela Nogueira Nico.

Hoje já se sabe que o distúrbio depende de uma condição hereditária, que apresenta alterações genéticas até mesmo no padrão neurológico. Segundo Maria Ângela, pesquisas recentes apontam que o problema estaria ligado a determinados cromossomos, responsáveis pela associação da representação visual das sílabas aos seus sons. “Isso explica também a hereditariedade do problema”, afirma a fonoaudióloga.

O jardim e a torre

Por Carlos Heitor Cony (Folha de S.Paulo)

A marcha da humanidade ao longo da história pode ser interpretada (mas não explicada) por duas metáforas que constam do livro mais importante da cultura ocidental: o Paraíso perdido e a torre de Babel. Todo o resto, guerras, invenções, produções da arte ou do pensamento, tudo é balizado pelos dois episódios lendários do “Gênesis”.

O homem foi criado para ser feliz num jardim onde tinha de tudo e tudo podia, menos conhecer o Bem e o Mal -atributo inalienável do Criador. A maçã não é símbolo do ato sexual, como a maioria pensa. No lance com a serpente, o primeiro-casal já tinha filhos nascidos sem proveta. O castigo para o homem foi o suor do trabalho, e, para a mulher, as dores do parto. Marcou o início do longo exílio no qual a humanidade sofre a nostalgia do Paraíso perdido. Camus fala disso em “O Exílio e o Reino”.

O outro episódio foi a torre de Babel. Em busca do Paraíso do qual foram expulsos, os homens começaram a falar diversas línguas, não mais se entenderam, brigaram e separaram-se em tribos e nações. A obra comum foi abandonada. Que cada um, que cada grupo tratasse de si. Daí em diante, não foi encontrada uma tarefa que pudesse unir e reunir todos os homens.

Inconscientemente, a humanidade tenta reencontrar o caminho anterior à Babel, quando todos tinham a mesma linguagem e o mesmo objetivo: recuperar o Paraíso do qual fora expulsa. Dar fim ao exílio e voltar ao jardim que em algum lugar da história a espera.

Duas buscas improváveis. Apesar das tentativas filosóficas, religiosas ou políticas, das evoluções e revoluções, os homens continuarão a não se entender na construção de um sistema -ou torre- que os leve de volta ao jardim para sempre esperado e jamais alcançado.

Machado de Assis nas Alterosas

Por Arnaldo Niskier (A Gazeta)

Surgiu uma dúvida no plenário da Academia Brasileira de Letras sobre as viagens de Machado de Assis. Conhecido bicho do mato, a sua imaginação viajou muito mais do que o corpo. Ele mesmo, por diversas vezes, perguntado onde teria ido mais longe, invariavelmente, com a ironia de sempre, respondia: “Petrópolis.”

Não era verdade. No Rio, em companhia da sua amada Carolina, foi a Barra do Piraí, Vassouras e duas vezes a Nova Friburgo, seguramente em busca de tratamento. Sabe-se que nunca foi a Itaguaí, onde se passa um dos seus mais emblemáticos contos: “O Alienista”. Ao exterior, que parecia conhecer muito bem, jamais viajou. Cedeu espaço à criatividade.

A dúvida acadêmica desfez-se quando se comprovou a ida do Bruxo a Minas Gerais, para uma tríplice parada em Juiz de Fora, Sítio e Barbacena. Andou de trem, a cavalo e de carruagem. Portanto, as referências a Barbacena, no começo e no fim do clássico “Quincas Borba”, foram produto de experiências vividas.

Para chegar a essa conclusão, vali-me de experimentados pesquisadores. O primeiro deles, R. Magalhães Jr., meu colega de muitos anos da Manchete. Depois, Ubiratan Machado, que fez um trabalho notável para a Academia Brasileira de Letras (“Dicionário Machado de Assis”), e ainda Mauro Rosa, criador do Instituto Machado de Assis, de Belo Horizonte.

Em janeiro de 1890, por estrada de ferro, e na companhia de alguns amigos, Machado visitou fazendas e centros pastoris. Foi recebido com relâmpagos e coriscos que o fizeram descer correndo a ladeira em que se encontrava. Tinha horror a tempestades, que mexiam com o seu sistema nervoso. Como as descargas elétricas continuaram à noite, Machado e Carolina permaneceram no quarto do hotel, cobrindo os ouvidos diante de estampidos apavorantes.

Na manhã seguinte, de trem, foram para Sítio, cidade de clima propício aos tuberculosos, onde a hospedagem numa fazenda foi motivo de encantamento. Na mesa imensa, nenhuma mulher da família sentou e comeu-se fartamente de tudo: assados de farofas, bolos e doces, sem esquecer o leitão com rodelinhas de limão. Em vez de água ou vinho, copos de leite. No dia seguinte, a cavalo, viagem para Três Corações do Rio Verde, mas Machado detestou a aventura, em estrada empoeirada, e voltou do meio do caminho. Mas tarde, convidado a visitar São João del Rei, o autor de D. Casmurro confessou: “Já fui, raro e de corrida, a essa própria Minas Gerais – o bastante para bendizê-la.” Em Quincas Borba, descreveu Machado o que certamente é a experiência por ele vivida: “Súbito, relampejou: as nuvens amontoavam-se depressa. Relampejou mais forte e estalou um trovão. Começou a chuviscar grosso, até que desabou a tempestade. Rubião, que aos primeiros pingos deixara a igreja, foi andando rua abaixo, sempre seguido do cão, faminto e fiel, ambos tontos, debaixo do aguaceiro, sem destino, sem esperanças de pouso ou de comida…”

Tal passagem descrita em A Estação, em setembro de 1891, bem antes do romance que foi publicado em 1886, certamente é a recordação da viagem realizada às Alterosas, onde conheceu as ruas íngremes e pedregosas de Barbacena, e as preciosas obras de arte da sua principal igreja.

O suor e a lágrima

Por Carlos Heitor Cony

Fazia calor no Rio, 40 graus e qualquer coisa, quase 41. No dia seguinte, os jornais diriam que fora o mais quente deste verão que inaugura o século e o milênio. Cheguei ao Santos Dumont, o vôo estava atrasado, decidi engraxar os sapatos. Pelo menos aqui no Rio, são raros esses engraxates, só existem nos aeroportos e em poucos lugares avulsos.

Sentei-me naquela espécie de cadeira canônica, de coro de abadia pobre, que também pode parecer o trono de um rei desolado de um reino desolante.

O engraxate era gordo e estava com calor – o que me pareceu óbvio. Elogiou meus sapatos, cromo italiano, fabricante ilustre, os Rosseti. Uso-o pouco, em parte para poupá-lo, em parte porque quando posso estou sempre de tênis.

Ofereceu-me o jornal que eu já havia lido e começou seu ofício. Meio careca, o suor encharcou-lhe a testa e a calva. Pegou aquele paninho que dá brilho final nos sapatos e com ele enxugou o próprio suor, que era abundante.

Com o mesmo pano, executou com maestria aqueles movimentos rápidos em torno da biqueira, mas a todo instante o usava para enxugar-se – caso contrário, o suor inundaria o meu cromo italiano.

E foi assim que a testa e a calva do valente filho do povo ficaram manchadas de graxa e o meu sapato adquiriu um brilho de espelho à custa do suor alheio. Nunca tive sapatos tão brilhantes, tão dignamente suados.

Na hora de pagar, alegando não ter nota menor, deixei-lhe um troco generoso. Ele me olhou espantado, retribuiu a gorjeta me desejando em dobro tudo o que eu viesse a precisar nos restos dos meus dias.

Saí daquela cadeira com um baita sentimento de culpa. Que diabo, meus sapatos não estavam tão sujos assim, por míseros tostões, fizera um filho do povo suar para ganhar seu pão. Olhei meus sapatos e tive vergonha daquele brilho humano, salgado como lágrima.