Educação em Foco

Estudo associa bullying na adolescência a status social

Cientistas confirmaram um axioma da vida adolescente: rapazes ou moças decididos a subir na escada social na escola são mais propensos a molestar seus colegas estudantes.

A descoberta, relatada na edição mais recente da revista American Sociological Review, sugere que os esforços para combater o bullying em escolas devem se concentrar mais nas hierarquias sociais. “Em geral, o status faz aumentar a agressão”, disse o sociólogo Robert Faris, da Universidade da Califórnia em Davis, que chefiou o estudo.

Faris e um colega estudaram os relacionamentos entre 3.722 alunos do ensino médio e superior ao longo de um ano letivo e descobriram que a propensão de adolescentes à agressão aumentou junto com seu status social.

O auge do comportamento agressivo foi atingido quando alunos chegaram ao 98.º percentil de popularidade, sugerindo que eles estavam se esforçando ao máximo para chegar ao topo.

Os pesquisadores quantificaram isso realizando pesquisas com alunos de 8.ª, 9.ª e 10.ª séries em 19 escolas da Carolina do Norte, no outono de 2004 e de novo na primavera de 2005. Pediu-se para os alunos nomearem até cinco melhores amigos. Pediu-se também que eles nomeassem até cinco alunos que haviam molestado nos três meses anteriores e até cinco alunos que os haviam molestado.

Nos casos em que houvera agressão, os alunos classificaram os fatos como ataques físicos, bullying verbal direto ou ofensas indiretas – como espalhar rumores ou colocar colegas no ostracismo.

As pesquisas também perguntaram sobre as notas dos alunos, participação em equipes esportivas, histórico de encontros amorosos, raça e renda familiar.

Os resultados permitiram a Faris criar “mapas sociais” de cada escola, traçando todas as relações positivas e negativas entre alunos.

Embora o estudo reforce estereótipos populares sobre “panelinhas” sociais em escolas, ele contradiz noções acadêmicas sobre agressão, disse Faris.

“Durante muito tempo houve uma ênfase em ver a agressão como produto do ambiente doméstico”, disse ele. “Aqui estamos obtendo um quadro diferente.”

As descobertas sugerem que os programas contra o bullying precisam focar no papel da maioria não violenta de alunos, disse a psicóloga da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Jaana Juvonen, que estuda o bullying em escolas.

“É realmente decisivo que os espectadores falem”, disse Juvonen, que não esteve envolvida no estudo. “Se há um jovem agressivo a quem todos se dobram, isso envia um sinal ao molestador de que o que ele está fazendo está funcionando.”

Rosalind Wiseman, que tem 17 anos de experiência em educação, disse que o estudo refletia a experiência de muitos educadores. Foi precisamente esse comportamento que a levou a escrever Queen Bees and Wannabes (o livro que inspirou o filme Meninas Malvadas), em que a garota bonita e meio nerd interpretada por Lindsay Lohan vai ficando maldosa à medida que sua popularidade cresce. “É sempre bom ter um reforço”, disse Rosalind.

Fonte: O Estado de S. Paulo/Los Angeles Times

Pedagogia do Amor

Num tempo em que a aparência vale mais do que a essência e a competição impera nos relacionamentos, é imprescindível falar com nossas crianças sobre companheirismo, amizade, amor. Num tempo em que a esperança parece cada vez mais escassa, é fundamental reavivar nossa confiança em dias melhores. Num tempo em que os valores que devem nortear a vida em sociedade são progressivamente esquecidos, é um estímulo encontrar obras como Pedagogia do Amor, de Gabriel Chalita, escritor e professor.

Em seu livro, Chalita buscou mostrar aos pais e professores a contribuição das histórias universais para a formação de valores da nova geração, tão carente de princípios como respeito, solidariedade e idealismo. O autor tenta fazer isso de forma lúdica, querendo, em um primeiro momento, resgatar no leitor adulto esses valores, para que, na seqüência, ele passe isso para seus alunos, seus filhos.

São dez histórias da literatura universal es colhidas por Gabriel pela relevância de seus ensinamentos. O autor diz que pretende resgatar em nós, adultos, a criança que um dia já existiu. Segundo ele, “uma criança que com o passar dos anos – e de todas as exigências que vêm no seu encalço –, vai se tornando cada vez mais reclusa e esquecida dos valores nobres que dão a ela dignidade e fidelidade aos seus princípios mais básicos: ser feliz e fazer o outro feliz.”

Para o escritor, as obras de arte têm como uma de suas características a capacidade de romper a barreira do tempo e do espaço, preservando sua atualidade. Os grandes clássicos da literatura, por exemplo, retratam em suas narrativas as grandes questões universais. Gabriel escolheu, entre esses textos mundialmente conhecidos, histórias como a do Patinho Feio, da Cinderela, de Dom Quixote, de Hércules, e textos da Bíblia, como Davi e o gigante Golias e a história do rei Salomão.


O rei Salomão e o valor da sabedoria

Salomão foi filho de Davi, o grande rei de Israel. Após sua morte, foi Salomão quem o sucedeu. A Bíblia conta que, certa noite, Salomão teve um sonho. Sonhou que Deus dizia: “Pede o que queres que Eu te dê.” Salomão, ainda jovem, com prudência admirável, pediu a Deus que lhe desse sabedoria para governar. Diz a Bíblia que Deus agradou-se tanto do pedido que, além de sabedoria, deu a Salomão tudo mais que um homem pode querer: poder, riqueza, inteligência, glória e muitos anos de vida para poder aproveitar tudo isso.

É bastante conhecida a história que versa sobre a sabedoria de Salomão – a de duas prostitutas que vieram até ele exigindo, ambas, a guarda de uma criança. Uma delas disse que a outra havia dormido em cima de seu verdadeiro filho, matando-o sufocado. Ela então trocou as crianças enquanto a outra dormia com seu bebê saudável. Entretanto as duas diziam ser a mãe do bebê. Salomão mandou que troux essem uma espada para cortar ao meio a criança viva e dar uma metade para cada mulher. A falsa mãe deu de ombros, mas a verdadeira desesperou-se. Salomão então deu o bebê à mulher que nutria verdadeiro amor pelo filho.

“Saber é poder”, diz o dito popular. Isso faz com que pensemos a respeito da importância da sabedoria em nossas vidas e de como ela pode abrir portas para as mais variadas conquistas. O saber é o instrumento que nos garantirá uma vida mais digna e nos proverá o bem-estar essencial para nossa felicidade. E é necessário muita dedicação para conquistá-lo e para torná-lo nosso aliado nas batalhas do dia-a-dia.

Aliás, o que será que pediriam os moços e as moças de nossa geração se lhes fosse dada a mesma oportunidade oferecida ao rei Salomão? O que desejariam receber? O que considerariam mais importante na vida? Felizmente começamos a ver jovens presentes em campanhas fraternas, trabalhos voluntários, projetos v oltados às comunidades carentes. Um indício de sabedoria.

É nosso dever incentivar essa mudança e prosseguir incutindo em nossas crianças e adolescentes lições e exemplos que contribuam à formação de seu caráter para que possamos moldar seres humanos mais sábios, empreendedores e competentes. Seres que tragam em si a prudência e a sensatez do rei.


O Patinho Feio e o valor do respeito

Quem não conhece a história do Patinho Feio? Quem nunca sofreu ou ao menos se comoveu com sua trajetória de sofrimento apenas por ser considerado feio e estranho aos seus? A riqueza da história de Hans Christian Andersen reside na capacidade de nos tocar profundamente, de despertar em nós o sentimento de amor ao próximo, de solidariedade e de respeito às diferenças.

Na história, como na vida real, o preconceito de cor, gênero, credo ou classe social prescinde de lógica e de racionalidade para se estabelecer. Não h á alegação plausível, nem por parte dos intolerantes, a capacidade de refletir sobre a importância do outro como peça fundamental no jogo social. Um jogo que necessita das relações de troca, de amizade e de aprendizado que vêm da convivência pacífica entre todos – independentemente da origem ou da história de cada um.

Seja em casa ou na escola, temos o dever de orientar nossas crianças para a aceitação do outro, para a compreensão de que condutas preconceituosas só colaboram para a degradação das relações e da sociedade com um todo. A mensagem de Andersen é clara: a despeito das experiências dolorosas, temos de continuar acreditando em nós mesmos e também nos outros – mesmo que, a princípio, pareçam tão diferentes. Temos de acordar para o fato de que todos podemos ser como cisnes belíssimos, prontos para aproveitar a primavera e para viver uma vida pacífica e digna.

A responsabilidade é nossa

Diz Gabriel Chalita: “Devemos estar conscientes da importância de nosso papel e amparar, reerguer, reavivar os sentimentos, valores e atitudes que poderão renovar a confiança em dias melhores. Que essa consciência seja uma realidade e um estímulo a vocês, companheiros de jornada, colegas de cena neste teatro fabuloso que é a escola da vida.”

Façamos com amor, sabedoria e respeito a nossa parte!

Para saber mais: Pedagogia do Amor, Gabriel Chalita. Editora Gente.

www.editoragente.com.br

Onde encontrar: www.livrariascuritiba.com.br

Fonte: revista Profissão Mestre (por Valéria Poletti)

Caminho da flexibilidade

Miguel Zabalza, professor da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Santiago de Compostela, é hoje um dos autores espanhóis influentes na educação brasileira. Também doutor em psicologia pela Universidade Complutense de Madri, Zabalza tem dedicado grande parte de seus estudos à questão do currículo escolar.

Com reflexões relevantes sobre diversas etapas da educação, algumas delas materializadas em livros publicados no Brasil – como é o caso de O ensino universitário e seus cenários (2003), Diários de aula (2004) e Qualidade em educação infantil (1998), todos lançados pela Artmed, os dois últimos esgotados -, Zabalza acredita que, face a demandas multivariadas, caminhamos na direção de um currículo mais flexível, de modo a atender mais ao interesse de sujeitos diversos. Leia, a seguir, a entrevista concedida via e-mail ao repórter Paulo de Camargo.

Dentro das preocupações principais da educação contemporânea, que lugar ocupa a discussão sobre o tema do currículo?

Sem dúvida, é um dos temas centrais. A escolha dos conteúdos culturais está se mostrando chave na abordagem das questões educacionais relativas à multiculturalidade, à língua, às culturas indígenas, à incorporação das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) como conteúdo de aprendizagem, à aparição das aprendizagens transversais etc. Isso inclui os debates mais recentes sobre os modelos formativos, como no caso da educação por competências. Os debates sobre currículos referem-se também a questões que afetam a própria liberdade dos indivíduos com respeito à sua formação contra a imposição dos governos de um currículo rígido que todos têm de cursar. Vamos, hoje, no sentido de um currículo flexível, que respeite a diversidade de capacidades e interesses dos sujeitos e responda mais às suas demandas.

Quais são os fatores que exercem maior poder de pressão na definição dos currículos? A avaliação está entre eles?

Sim, o ditado “diz-me como avalias e te direi como ensinas” segue sendo válido. Com muita frequência, confundimos as avaliações com o currículo, ou, para dizer de outra maneira, outorgamos tanta importância às avaliações que acabam se apropriando do currículo, modificando-o, acomodando-o ao objetivo da avaliação. É, portanto, verdade que o vestibular brasileiro, ou o selectividad da Espanha pervertem o currículo do ensino médio. Do mesmo modo, os exames posteriores para as carreiras universitárias pervertem o sentido formativo destas. Ao final, os cursos se convertem em dispositivos para superar as provas, contaminam-se de sua ideia de aprendizagem, quase sempre de forma a enfatizar as operações de memorização e um conhecimento enciclopédico. Para os professores que atendem cursos anteriores a esses exames, a que stão se torna um dilema profissional básico: devem ensinar para que seus alunos se formem ou devem ensiná-los para que superem o exame?

Como deve ser então uma proposta curricular preocupada com a formação?

Deve ser um projeto para durar vários anos, deve ser progressiva e abarcar todas as dimensões dos sujeitos: seus conhecimentos, suas habilidades para o estudo e para a vida, suas atitudes, seus comportamentos. É evidente que esse enfoque é muito mais amplo e poliédrico do que apenas superar um exame. Por isso, falar de currículo tem importantes implicações para a vida escolar: significa trabalhar em equipe (os docentes), pois ninguém pode desenvolver um projeto de ssa natureza por si só; significa enfrentar as disciplinas, mas também as outras dimensões do desenvolvimento pessoal e social dos estudantes (sobretudo na escola secundária, onde estão se elaborando os projetos de vida); significa oferecer aos alunos elemento s que enriqueçam esses projetos de formação e os aproximem da cultura local, que os habilitem a uma vida intelectual, social, de lazer e, inclusive, espiritual adequada a nossos tempos e à sociedade na qual vamos inserir cidadãos competentes. Significa orientar o trabalho educativo para uma aprendizagem a mais personalizada possível, de forma que os estudantes assumam responsabilidade na sua própria formação e se preparem para continuar seu processo de formação ao longo da vida.

Quem decide o que é ou não é relevante que os alunos aprendam? Como é essa discussão hoje no âmbito da Comunidade Europeia?

Pouco a pouco se vai consolidando a ideia de que essa é uma atribuição das federações ou dos estados autônomos que têm competência sobre isso. Nos modelos curriculares centralizados, de origem napoleônica, esta foi sempre uma verdade incontestável. O mesmo ocorre nos antigos países comunistas. Nos países anglo-saxões , com modelos curriculares descentralizados, essa era uma competência que se atribuía aos professores e professoras das escolas. Cada escola possuía sua própria proposta curricular. Mas mesmo em países como a Inglaterra, onde era essa a tônica geral, o modelo desapareceu porque se geravam muitas diferenças entre umas escolas e outras.

Isso é feito por medidas legais obrigatórias?

Hoje em dia se generalizou a ideia de que os conteúdos básicos do ensino são decididos pelo Estado, mediante leis de cumprimento obrigatório. As escolas e mesmo os governos regionais devem obede cer a essas leis. Bom exemplo disso é o que sucedeu nestes anos na Espanha, com a disciplina de educação para a cidadania, estabelecida por lei e contra a qual se opunham os partidos de direita e a própria igreja católica, porque diziam que a educação entrava em valores da vida social (por exemplo, explicava-se o matrimônio entre homossexuais, igualdade de gênero etc.) e isso colidia com valores familiares. A situação mais geral hoje em dia é que o Estado nacional define os conteúdos básicos do ensino que depois são completados e adaptados a cada situação pelos professores. Desta maneira, ambos, governo e escola, se convertem em agentes curriculares. Mais complicado é o papel das famílias, a quem se dá pouca chance de seleção dos conteúdos, salvo os mais sensíveis aos valores pessoais. Por exemplo, os pais podem escolher se seus filhos vão ou não às aulas de religião.

Fonte: revista Educação (por Paulo de Camargo)

Nadando contra a correnteza

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

Experimentamos, na vida, todos os tipos de sensações e provações. Trilhamos caminhos que ora são acolhedores, ora são profundamente dolorosos. Ritualizamos momentos. Celebramos aniversário, formatura, novo emprego, prêmios, aprovações em concursos, defesas de teses, casamento. De outro lado, separações, mortes, demissões, injustiças, inveja, mentiras. O riso ou as lágrimas convivem conosco. A euforia e o desânimo também. E, assim, vamos nos construindo, nos educando.

No processo de crescimento, os exemplos de vida nos ajudam a melhorar a nossa disposição para a própria vida. A vida que passa muito rapidamente, ou não, nos dizeres de Cora Coralina:

Não sei… Se a vida é curta

Ou longa demais pra nós,

Mas sei que nada do que vivemos

Tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.

A educação depende da capacidade que temos de tocar o coração das pessoas. E isso se dá de muitas maneiras. Uma delas ocorre quando apresentamos modelos de vida. Não modelos perfeitos, mas pessoas que se notabilizaram por vencer os obstáculos e perseguir a meta.

A biografia de Gabrielle Chanel ou Coco Chanel mostra a saga de uma menina que tendo a mãe morta é deixada no orfanato pelo pai. Quando este parte, ela olha pela porta semiaberta desejosa de que ele olhe pelo menos mais uma vez para trás. Ele não olha e nunca volta para buscá-la. E ela, ritualmente, se arrumava todos os domingos para a tão esperada visita. Sofreu muito a menina. Sofreu muito a mulher. Sofreu muito a madura Chanel para reerguer-se depois da guerra. Certa vez, ela confessou: “a força se constrói com fracassos, não com sucessos”.

A vida de Nelson Mandela é um tesouro para a educação. Sua fé na justiça, apesar das injustiças. Sua perseverança na liberdade, apesar da prisão. Seu sonho de construir uma nação em que a cor da pele não desse o tom do respeito. Usou de todas as forças possíveis para que o seu povo celebrasse o sonho antevisto por Luther King, outro referencial.

Eu tenho um sonho que um dia minhas quatro crianças viverão em uma nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.

Quando apresentamos biografias aos nossos alunos, permitimos que percebam, com mais cuidado, a riqueza da vida talhada em momentos mais fáceis e em momentos mais difíceis. Mostrar o sucesso apenas é desconsiderar os muitos fracassos que haverão de viver os nossos aprendizes. Preparar para o fracasso parece um paradoxo para quem prepara para a vida. Mas não é. Quantos fracassos viveram Chanel ou Mandela? Mas persistiram porque foram talhados para a luta. Em um mundo cheio de competições, em que as pessoas acabam sendo descartadas sem muita cerimônia, em que os empregos não são definitivos, educar para a adversidade faz parte do escopo essencial da relação de ensino e aprendizagem.

Sempre defendi que humanizássemos os autores para que a literatura fosse mais sedutora. Quem conhece a biografia de Machado de Assis contempla sua obra com mais entusiasmo. Quem sofre com Castro Alves as dores da ausência da liberdade contempla como o mesmo olhar de pássaro a nau composta de escravos e a dor com que o poeta clama aos céus.

A literatura dialoga com a história que dialoga com a vida. As ciências também tratam da vida como a geografia. As novas línguas que aprendemos abrem janelas para outras possibilidades. É tudo real. O conhecimento e a aprendizagem acontecem como a vida acontece. E libertam com o poder de tirar dos porões o oprimido, era esse o sonho de Paulo Freire.

Os educadores têm de ter em mente esse desafio, apresentar vidas para que as vidas dos aprendizes tenham ainda mais significado. Há um filme, recentemente lançado, “Sempre ao seu lado” que começa em uma sala de aula em que os alunos têm de contar a história de um grande herói. E um menino começa a falar do cachorro do seu avô.   E o relato vai emocionando a sala porque há algo de fascinante na fidelidade do cachorro. Sua espera. O dono, um professor de música, nunca mais haveria de voltar. Mas o seu oficio era o de esperar. E as pessoas iam aprendendo com a “sabedoria” canina. E compreendendo o seu desejo de liberdade e de ternura a quem ele escolheu para servir.

Há heróis anônimos. E certamente os alunos conhecem alguns deles. Essa é uma experiência que vale a pena. Misturar biografias conhecidas com histórias do quarteirão. Vidas sempre têm importância. Algumas conseguem notoriedade outras mudam mundos em um cantinho qualquer do mundo.

Esse é o antídoto que temos contra a destruição dos valores humanos. É nadando contra a correnteza que fortalecemos os nossos músculos morais e temperamos nosso caráter com dignidade e ternura. Nós, educadores, podemos fazer a diferença. Vale a pena experimentar…

 

Poesia de concreto

Por Gilberto Dimenstein

“Um dos garotos disse que pensava que poesia era aquilo meloso que se escreve para a namorada”. ATÉ esta semana, aquele grupo de 15 grafiteiros jamais imaginaria que um amontoado de palavras soltas, espalhadas pelo papel, sem formar uma frase, também poderia ser chamado de poesia.

Viram, ali, algo parecido com as letras que desenham nos muros -e, assim, Lúcia Rosa apresentou-lhes o movimento concretista. “Eles estão aprendendo que existem diversas formas de fazer poesia.”

O resultado dessa mistura será apresentado numa biblioteca no próximo sábado, durante a Balada Literária -esse evento se espalha pelos mais diferentes pontos da Vila Madalena, dos botecos, passando por centros culturais, até livrarias. É uma extensão geográfica do que já ocorre quase todas as madrugadas na Mercearia São Pedro.

Os grafiteiros vão exibir na biblioteca Alceu Amoroso Lima, especializada em poesia, livros artesanais com a mescla de objetos, palavras, cores e desenhos, numa experiência que Lúcia Rosa chama de poesia visual. “Um dos garotos disse que pensava q ue poesia era aquilo meloso que se escreve para a namorada.”

A experiência -batizada de poesia visual- é uma espécie de síntese da própria Lúcia, que, aos 9 anos de idade, ganhou um prêmio na escola pública em que estudava e o direito de fazer um curso livre na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado). Começaria aí uma de suas grandes frustrações.

Queria estudar artes plásticas, mas a família não gostou da ideia.

Concedeu e fez Letras na USP. Daí tirou seu sustento, com traduções do inglês.

A união da literatura com as artes plásticas começou a surgir em 2007, quando já estava com 54 anos. Convidou moradores de rua e carroceiros para fazer a capa de livros, a partir dos papelões jogados fora. Lúcia pedia textos exclusivos a escritores -o poeta Manoel de Barros foi um dos que se propuseram a entrar nessa editora, batizada de “Dulcineia Catadora”.

Lúcia montou sua oficina-editora num galpão grudado em um beco, onde grafiteiros expõem suas obras. Seu espaço era todo decorado com as capas dos livros, tão coloridas quanto os muros do lado de fora. A combinação de cores ajudou nos contatos, trazendo, nesse encontro, personagens improváveis como os poetas concretistas, desconhecidos dos grafiteiros, para quem concreto era o muro em que pintavam.

Durante as oficinas, eles foram descobrindo como fazer um livro -e, mais do que isso, aprenderam que seus muros, feitos de concreto, espalhados pelas esquinas da cidade de São Paulo, também são uma forma poética.

Não é por outro motivo que essa forma de arte entrou, nesta semana, pela porta da frente no Masp (Museu de Arte de São Paulo) e está atraindo milhares de pessoas para uma exposição da Faap -onde, aliás, aos 9 anos, Lúcia começou a montar seu projeto de vida. [email protected]

Opinião: vítima e agressor de casos de bullying precisam de ajuda

Por Ana C. Maturano

Na  coluna anterior, falamos sobre a agressividade, o quanto ela está presente e tem se manifestado de maneira intensa e turbulenta em nossas vidas. Sem ser privilégio dos adultos ou adolescentes, também observamos em crianças ações violentas. Elas que geralmente são tidas como criaturas inocentes e sem maldades.

Um caso assim aconteceu no interior de São Paulo, numa escola estadual, em que um aluno de nove anos foi agredido por cinco outros menores de 12 anos na saída , com socos e pontapés, sofrendo uma lesão na coluna e pescoço.

Poderíamos pensar em uma daquelas brigas corriqueiras entre crianças por uma bobagem qualquer. Embora não dê para pensar em algo assim, considerando que foram cinco alunos contra um e envolvendo tamanha violência.

Segundo relatos da família, desde o começo do ano o garoto estava com problemas e sofrendo agressões e humilhações no ambiente escolar devido a um problema de gagueira. Por incrível que pareça, essa é a explicação encontrada até o momento para todo o sofrimento pelo qual o menino passou.

Apesar de inacreditável, é um fenômeno bastante comum e mundial os casos em que um estudante com alguma característica física ou psíquica mais frágil, ou menos comum como a gagueira, sofre de maneira constante e intencional agressões de ordem física e psíquica praticadas por outros colegas. É algo que está nas escolas, mas pouco se vê. Ou se é visto, poucos o enxergam por acharem ser normal atos agressivos entre crianças e adolescentes. Ele é conhecido como bullying, termo que não tem tradução para a nossa língua.

Penso não haver nada de normal em duas crianças ou adolescentes brigarem, se estapearem violentamente ou se humilharem. Se partirmos por esse caminho, não ajudaremos em nada para que amadureçam socialmente e sejam saudáveis psiquicamente. Temos que ver aquilo que está diante de nossos olhos e tomarmos providências. Não dá para fazer de conta que está tudo bem no fato de uma criança humilhar constantemente, sem piedade, a outra que aceita sua conduta de maneira passiva. Algo há de errado.

As vítimas do bullying são, no geral, de personalidade mais frágil e de baixa autoestima. Elas costumam não se defender. Já são assim mesmo, antes de sofrerem as agressões. Provavelmente, já trilharam um caminho em que foram muito desmerecidas, às vezes dentro de casa mesmo, nas pequenas sutilezas da convivência em família, que nem sempre percebe o lugar em que coloca seus membros. Não sentem confiança em pedir ajuda.

São um prato cheio para aqueles que querem se sobressair e se impor como o mais forte. Precisam provar sua superioridade por meio do grito e da força. Não podem ter oponentes. Também não é por acaso que sejam assim. Comumente, são pessoas de lares não muito estruturados e bastante permissivos. A relação que estabelecem com o outro é a de poder, entre o mais forte e o mais fraco.

Ambos necessitam de ajuda. Mas para que isso ocorra, o olhar para eventos assim deve ser de que algo está fora do lugar. Não se deve esperar que os próprios envolvidos resolvam suas diferenças. Eles precisam compreender pelo que estão passando e serem orientados pelos pais e escola. Às vezes, até os pais precisarão de orientação e ajuda. Inclusive, num trabalho preventivo. Preventivo para a não ocorrência na escola e de promoção da saúde mental de seus alunos.

Até porque, esse não é um problema pontual, tem reflexos e consequências pela vida dos envolvidos. Aqueles que sofrem as agressões, tendem a se tornar mais retraídos e prejudicados em sua vida social. E até deprimidos. Os praticantes, tendem a ter problemas sociais e de violência.

Escola e família mais uma vez terão que caminhar juntas, serem parceiras. As escolas vão ter que estar atentas para qualquer manifestação de bullying para uma atuação imediata. Além de terem um trabalho preventivo para evitar o surgimento de casos assim, oferecendo apoio aos envolvidos e suas famílias. E as famílias devem confiar e pedir ajuda à escola, como forma de proteger seus filhos.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)

Sem notas e sem frequência

Por Rubem Alves (Revista Educação)

O ensino de literatura que investe em seu poder encantatório. Havia um sorriso de criança no seu rosto rechonchudo. Olhava-nos com um olhar curioso. Professor novo de literatura. Devia saber que não gostávamos de literatura. Era chato e não servia para nada. Nós, alunos, já havíamos desenvolvido uma capacidade de conhecer o professor a partir dos primeiros dez minutos de sua primeira aula.

Mas aquele professor, Leônidas Sobrinho Porto, era um enigma. E o que disse como início de conversa foi tão inesperado que ficamos sem saber onde enquadrá-lo. Cheguei a pensar que estava se divertindo. Começou a sua aula assim: “Há dois assuntos preliminares que precisamos resolver de início para que possamos nos dedicar ao que importa. O primeiro deles é a presença. Todos vocês já têm cem por cento de presença. E o segundo são as provas e as notas. Todos vocês já passaram. Resolvidas essas questões irrelevantes que perturbam o prazer de aprender, podemos agora nos dedicar ao que interessa: literatura…” E aí começou.

Ele não ensinava literatura. Não discorria sobre escolas literárias. Não prescrevia leituras a serem feitas. Ele se transformava em literatura. Encarnava os personagens. Ria e sofria como um ator. E nós ficávamos em silêncio absoluto, enfeitiçados, como se estivéssemos num teatro. Lembro-me dele possuído, vivendo o amor de Cyrano de Bergerac por Roxana. “Beijo é o ponto róseo no ‘i’ da palavra ‘paixão’…”

E ele explicava que no francês não era “paixão”; era “amar”, “aimer” – impossível em português. Se tivesse nos obrigado a ler dez livros de literatura e a aprender as características das principais correntes literárias, é certo que teríamos colado e, ao final do semestre, estaríamos do mesmo jeito como quando começamos. Mas ele preferiu tomar o atalho secreto dos mágicos, fugiu dos caminhos da burocracia.

Nós o ouvíamos porque sua fala encantava. Hoje, me veio a ideia de que o flautista de Hamelin deveria se parecer com ele. Ele não nos ensinou literatura. Ensinou-nos a amar a literatura. Por isso nunca esqueci.

Foi só um semestre. Nunca mais o vi. É possível que tenha sido mandado embora pela direção do colégio por justa causa: suas cadernetas de presença eram falsas e suas notas também eram falsas. Os mágicos são sempre trocados pelos técnicos e burocratas…

Paul Goodman foi um educador esquecido. Hoje ninguém fala nele. Também ele se horrorizava com aquilo que se fazia nas escolas para ensinar literatura. “Nunca ouvi de qualquer método que pretenda ensinar as humanidades (literatura, artes) que não termine por matá-las”, escreveu. “Lembro-me de que aos doze anos, mexendo nos livros da biblioteca,? descobri o Macbeth e o li com paixão. Mas na sala de aula eu não conseguia entender uma única palavra do Júlio César e o odiava. Parece que a sobrevivência das humanidades depende de milagres aleatórios que estão ficando cada vez menos freqüentes.” (New Reformation: Notes of a Neolithic Conservative, Random House, New York, p. 71 ).

Um bibliotecário de verdade não é um guarda-livros. É alguém que conhece os cenários que os livros desenham para orientar-nos em nossas viagens. Cada professor deveria ser, na sua área, um bibliotecário. Sua função não é caminhar por trilhas batidas olhando para o chão. É mostrar os cenários literários que podem ser vistos da sua trilha, se olharmos para cima… Assim se aprende um mundo.

Rubem Alves é educador e escritor

[email protected]

Os valores da educação árabe

(Blog Pedro Luvizotto)

Os dias contemporâneos assistem a um fascinante diálogo universal. Rompemos as barreiras da distância e do tempo com a tecnologia que disponibiliza a informação e atiça a curiosidade.

Em um passado não muito distante, as notícias vinham a navio, os mitos dificultavam o contato com culturas diferentes. Estávamos em ilhas continentais vencidas por braços imigrantes. Os árabes, quando chegaram por aqui, vieram como tantos outros em busca da terra da esperança. Não conheciam o idioma, a cultura. Não tinham ideia do clima, dos desafios que estavam por vir. Partiam do Porto de Beirute, deixando para trás as raízes e trazendo na bagagem a herança de um povo acostumado a acolher.

As famílias árabes são reconhecidas pela generosidade em alimentar sem economias os

amigos, os conhecidos. A música, a dança, o sorriso, a deliciosa comida fazem com que o sabor da convivência acalante a boa prosa. Os árabes são excelentes contadores de história. Sherazade e suas mil e uma noites atestam o valor da contação para que a inteligência vença a prepotência, e o amor vença o ódio.

Os árabes têm muitos provérbios. Comungam de valores corretos sob a luz de uma cultura

milenar. Aprenderam a conviver com a guerra, a dor, o sofrimento. “Somos todos prisioneiros, mas alguns de nós estão em celas com janelas, e outros sem.” (G.K.Gibran).

São vencedores porque não temem o desafio da reconstrução, das paredes destruídas pelo outro nem a provocação da alma alquebrada pela dor.

A educação árabe traz como paradigma o amor à família. Choram juntos e riem juntos. Respeitam os velhos, ciosos da abnegação de retribuir ao amor partilhado e cientes de que a sabedoria da vida tem tanto ou mais importância que a dos livros. Em geral, trazem a religião como valor inegociável. Evidentemente, há os fundamentalistas extremos, mas são exceção. A regra está na cordialidade de pais que professam a fé e o amor, desfraldando as sombras do medo para o voo necessário da geração que está florindo.

Ontem, a ousadia dos desbravadores; hoje, a paciência dos reconstrutores; amanhã, a bênção dos iluminadores. É de luz que precisa a educação. Luz que ilumina e aquece como um bom abraço árabe.

Gabriel Chalita

A autoridade de dentro

Por Rubem Alves (Revista Educação)

Meu tio Agenor descrevia o que acontecia na sua sala de aula, quando menino. O professor chamava os alunos, que recitavam o “ponto”. O “ponto” era um assunto que o professor ditava e os alunos escreviam e tinham de decorar.

Alguns pontos que tive de decorar: a Proclamação da República, os metais, os afluentes do rio Amazonas…Alguns decoravam o ponto e o repetiam de cabo a rabo. Outros gaguejavam e embaralhavam as coisas…

Terminada a argüição o professor tomava sua caixinha de rapé, inspirava o fumo em ambas as narinas e espirrava (naqueles tempos isso era elegante…).  Satisfeito o seu desejo de orgasmos nasais, passava a chamar aqueles que não haviam decorado o ponto para o castigo de bolos de palmatória. Sua condição de professor lhe dava autoridade para fazer o que fazia.

No ginásio, tinha um professor que, ao entrar em sala, todos deviam ficar de pé, em posição de sentido, uns atrás dos outros, rigorosamente. O professor, então, “passava em revista a tropa”, examinando todas as fileiras para verificar se todas as cabeças estavam umas atrás das outras. Qual era a função educacional desse procedimento? Nenhuma. Mas ele era professor e, dentro da sala de aula, tinha autoridade absoluta. Nenhum aluno jamais se atreveu a contestá-lo. Se o fizesse, sofreria uma punição.

Ele tinha autoridade, exercia sua autoridade, mesmo que nenhum aluno a reconhecesse internamente. Sua autoridade se impunha pelo medo! Assim é a autoridade por decreto: se impõe independentemente das pessoas sobre as quais  é exercida. Mas há um outro sentido de autoridade: um poder interior que se impõe sem necessitar de palmatórias ou ferros, que vem de dentro e é reconhecido pelas pessoas por ele tocadas.

Eu estava no curso científico. Anunciaram que tería­mos um novo professor de literatura. Não gostávamos de literatura. Os professores, valendo-se de sua autoridade, nos obrigavam a coisas que detestávamos: análise sintática, resumos de livros, escolas literárias, provas. O novo professor, Leônidas Sobrinho Porto, entrou na sala sorridente e começou: “Temos dois problemas preliminares para resolver. Primeiro, essa caderneta onde deverei registrar sua presença. Quero dizer que todos vocês já têm 100% de presença. Se não quiserem assistir às minhas aulas, não precisam. Eu lhes darei presença. Segundo: as provas que vocês terão de fazer para passar de ano. Quero dizer que não haverá provas. Todos vocês já passaram de ano. Resolvidas essas duas questões preliminares irrelevantes, podemos nos dedicar ao que importa: literatura…”.

Aí ele começou a falar coisas que nunca tínhamos ouvido. A literatura se encarnou nele. Ele ficou “possuí­do” e começou a viver as grandes obras literárias bem ali, na nossa frente. Não pediu que comprássemos livros ou que lêssemos. Sabia que não sabíamos ler; só sabíamos juntar letras… Não tínhamos o poder para surfar sobre as palavras. Se fôssemos ler, a leitura seria tão mal feita que acabaríamos por detestar o que líamos. E ele, possuído, ia tornando vivas as obras literárias. Ficamos seduzidos. Ninguém faltava às suas aulas. Ninguém falava. Ao ouvi-lo, éramos tocados por sua autoridade mansa e maravilhosa.

Como professor e funcionário de um colégio, tinha autoridade para nos obrigar. Mas sabia que há coisas que não podem ser feitas com a autoridade de fora. As coisas que têm a ver com a alma só podem ser feitas com a autoridade de dentro. Bachelard escreveu em algum lugar que só se convence despertando os sonhos fundamentais. O professor Leônidas nos fazia entrar no mundo dos sonhos. Não precisava valer-se da autoridade exterior. Sua autoridade brotava de dentro e nós a reconhecíamos.

*  *  *

A menina voltava de seu primeiro dia na escola. “Como é a professora?”, perguntaram os pais. Respondeu com a precisão de quem havia percebido essências:  “Ela grita!”.

Rubem Alves é educador e escritor

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A construção da mulher

Por Rosely Sayão (Folha de S.Paulo)

Não sei se os pais têm consciência do quanto influenciam os filhos na construção de sua identidade, especialmente a de gênero, ou seja, a ideia do que é ser mulher ou homem atualmente. Hoje, vamos tratar da identidade feminina, já que acabamos de passar pelo Dia Internacional da Mulher.

Antes mesmo que a filha possa aprender qualquer lição educativa, inclusive as que dizem respeito ao significado de ser mulher em nossa sociedade, seus pais já incluem em sua vida inúmeros componentes relacionados. Na maternidade, muitas recebem um laço de fita nos cabelos e roupas bem femininas, sem falar das orelhas furadas para brincos. Pois bem: tudo isso significa, para esse bebê do sexo feminino, seu introito nos rituais de beleza que deverão fazer parte de sua vida.

E é assim mesmo, muitas vezes sem que os pais se deem conta, que começa a ser forjada a identidade da futura mulher.

Logo mais, outros colaboradores irão interferir decisivamente nessa construção: a escola e, de forma impactante hoje, os meios de comunicação.

O problema maior da educação de meninas é que todos os estereótipos ainda presentes no papel da mulher são transmitidos de maneira sutil e sedutora. Por mais que já se tenha tratado do assunto, na primeira infância a escolha dos brinquedos para as meninas, por exemplo, reflete a maneira como a sociedade responsabiliza a mulher pelas tarefas domésticas.

Enquanto as meninas ganham réplicas de utensílios domésticos, muitas adultas ainda carregam esse estereótipo. Já ouvi, por exemplo, jovens mulheres declararem que seus maridos as ajudam muito nos trabalhos domésticos. Ora, ajudar não é se corresponsabilizar.

A sorte das meninas é que na escola de educação infantil ainda têm mais facilidade para escolher brinquedos e brincadeiras socialmente atribuídas ao outro gênero, mesmo que lá persistam muitos estereótipos e preconceitos de gênero.

Aliás, é na escola de educação infantil que podemos testemunhar que a atribuição social pela educação de crianças pequenas é dada às mulheres. É rara a presença de homens nessa função, não é? E ouvi uma queixa interessante de um pai: quando sai com o filho, tem muita dificuldade de achar um fraldário a que tenha acesso: a maioria está no banheiro feminino!

A questão da aparência tem sido um fator demasiadamente importante na construção da identidade feminina. Desde o nascimento, a menina é submetida a um ideal de beleza: o modo como se veste, os acessórios que usa, o corte de cabelo que adota etc. são itens que apontam que a aparência quase se confunde com quem ela é. A anorexia e a bulimia são doenças que mostram a versão exagerada da busca por um padrão de perfeição de beleza e controle do corpo.

A construção da identidade feminina é um processo social que não podemos naturalizar -ou seja, ninguém nasce mulher, se comporta de tal maneira por ser do sexo feminino. A mulher é construída e, nesse mundo em transformação, os pais precisam saber que é deles grande parte dessa função.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (ed. Publifolha)