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Domingo de carnaval

O dia amanheceu preguiçoso. É domingo. É domingo de carnaval. Em um ponto alto da cidade, uma tal Maria engole o seu café com leite e pensa no desfile da sua escola de samba. Foram meses de preparação. Maria trabalha como costureira. E, desde sempre, desfila usando a fantasia que ela mesma produz. A cada ano sua escola conta uma história. Sua escola e, também, as outras.

Desfilam na avenida personagens, lugares, intenções. A música já está decorada. Sambar, ela sabe muito bem. O carnaval faz reviver, nas memórias de Maria, vidas que se cruzaram com a sua. Amores que já se foram. Decepções. Vibrações. Quanta história o seu barraco já presenciou. No morro, ela canta os sambas antigos.

O marido era baterista. Morreu dessas mortes que ainda existem aos montes. Bala perdida. Perdeu Maria, naquele dia, um pedaço significativo do seu coração. Era cedo demais para despedidas. Morreu ele em um dia ensolarado. Num mês de agosto. Véspera do dia dos pais. As duas filhas de Maria cresceram sem pai. A vida foi e é dura para elas. O tempo foi cimentando ressentimentos. E a alegria voltou a iluminar as manhãs daquele barraco. A memória do pai ainda vive ali. O nome do pai está no filho da filha mais velha de Maria. Ah, Maria tem seis netos. Vão todos juntos desfilar na escola de samba.

Maria gosta de costurar. Fala sozinha enquanto ouve o barulho da máquina quase nova. A velha ainda mora na casa em caso de necessidade ou apenas por uma recordação do tempo dos inícios. A nova, mais moderna, foi presente da segunda filha. As três mulheres viveram sozinhas durante algum tempo. Até que o tempo trouxe os seus maridos. Maria não quis se casar novamente. Teve alguns enredos breves, mas preferiu dormir apenas com suas lembranças. Gosta é de carnaval. Não é dada a bebidas. Não precisa delas para se alegrar. Insiste que gosta de cantar os sambas enredos de outros carnavais. Cada um contando uma história. Explica que acha lindo, em tão pouco tempo, dizer tanta coisa em uma avenida. Suas clientes levam roupas para serem arrumadas e sonhos para serem realizados. Costura Maria vestidos de noiva e rompe rasgos causados por quedas ocasionais. Costura botões e faz bainhas. Inventa modelos e ouve ideias. Fica ali entre panos e linhas se esmerando na arte de embelezar a vida.

Às noites, vai à oração ou aos ensaios de carnaval. Não acha que sejam incompatíveis. Pecado é fazer mal ao outro. E fazer mal se faz em igrejas ou em escolas de samba. O bem, também. Apesar da dor da perda do marido e de tantas outras que foram chacoalhando os seus sentimentos, Maria se alimenta de bondades. Gosta de gostar das pessoas. De surpreendê-las com alguma gentileza. De sorrir um sorriso profético. De dias melhores. De tempos menos duros.

Fez ela o vestido de casamento das duas filhas. Fez as primeiras roupas dos primeiros netos. Fez fantasias de tantos mestres-salas e porta-bandeiras que nem se lembra. E as roupas de comissões de frente. E as dos integrantes da bateria. Bateria. Quando pensa nisso, enxuga uma lágrima teimosa que a faz lembrar do seu marido experimentando, ano a ano, as roupas que usaria para desfilar na avenida.

Na avenida da vida, Maria resolveu nunca deixar de estar. No seu jeito simples de viver os carnavais e todos os outros dias. Enquanto engole o café com leite, Maria olha para o pão com manteiga e se delicia com o prazer de poder se alimentar. Cantarola sozinha o samba-enredo deste ano. Para um pouco, Olha para o dia que está nascendo e agradece a Deus por estar viva. E por viver mais um carnaval. Daqui a pouco a casa estará cheia. As filhas moram perto. E as histórias moram junto.

O dia amanheceu preguiçoso, mas vai demorar para ir embora. É carnaval…

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 11/02/2018

Dia da saudade

O dia 30 de janeiro é o dia da saudade. Assim decidiram. Só não podem decidir que seja este o único dia em que se possa sentir saudade.

Rubem Alves dizia que “a saudade é nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”. Voltar ao tempo da inocência? Voltar ao lugar em que imaginávamos que todos fossem bons? Voltar à antiga fotografia, quando estava ela completa, quando ninguém havia partido? Voltar ao olhar que tínhamos, quando pela primeira vez nos apaixonamos? Voltar aos ditos envergonhados quando queríamos saber o que depois de algum tempo virou rotina?

A saudade tem o poder de perfumar a rotina? Um andar de bicicleta acompanhado. Depois de termos aprendido. Um nadar de rio. Um procurar quem surgiu e desapareceu. Um tentar entender o sentimento que nos assalta e que muda nosso estar no mundo.

Saudade da paixão. Da paixão cortante que nos fazia provar que estávamos vivos. Um banho de mar. Saudade da primeira vez que vimos a imensidão do mar. Suas águas caprichosas. O ir e vir. O trazer e o levar. O apagar. O recomeçar. Saudade do sol se espreguiçando e anunciando novidades ou de sua despedida. Sabe ele a hora de partir. E lá vem a noite e seus mistérios. Saudade dos anoiteceres acompanhados. A foto pode estar com alguma ausência, mas a memória a guarda como se guarda uma preciosidade.

Saudade de acreditar em amor. De acreditar em verdade. As mentiras foram chegando, uma a uma, e desmoronando sonhos e nos apresentando pesadelos. Saudade de uma noite de sono bom. Quando a preocupação que tínhamos era um jeito novo de brincar. Apenas isso. Saudade do colo da mãe. Saudade do choro do filho. Saudade das mãos do pai. Saudade do engatinhar. E os aniversários festivos. E os natais alegres. E as comidas feitas com temperos de conversas. Era bom estar na cozinha. Os calores nos aqueciam.

Saudade das músicas de ontem, que nos resgatam tempos, que nos rasgam sentimentos. Até dos choros se pode ter saudade. Bob Marley disse sobre a saudade. que “é um sentimento que, quando não cabe no coração, escorre pelos olhos”. Saudade do tempo que veio antes do endurecimento. Chorar era bom quando ainda não tínhamos vergonha de expressar os sentimentos.

Saudade da liberdade. As amarras foram surgindo e nos prenderam desprevenidos. Onde estão as chaves que abrem as fechaduras para que possamos novamente sorrir? Saudade do sorriso. Do sorriso sincero nascido de um gesto simples de um cotidiano simples repleto de significados. Saudade de não precisar explicar nem entender, apenas viver.

Saudade de dançar sem precisar comparar com outro dançarino para saber quem dança melhor. Apenas se entregar, se divertir. Sem preocupações nem ameaças.

Saudade de mim, antes das tormentas. Tormentas que talvez tenha eu mesmo autorizado.

E, então?

A saudade é sobre o ontem, mas é uma inspiração para o que ainda virá. Sempre vem. Enquanto estamos vivos, sempre vem.

Que o hoje seja como um dia sonhamos. Para que amanhã uma lágrima de emoção nos acompanhe quando olharmos para o que agora estamos decidindo, fazendo.

Hoje também é dia da saudade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 04/02/2018

Estou satisfeito

“Estou satisfeito, muito obrigado”, foi a resposta de Sergio quando insistiram que ele comesse mais um brigadeiro. Fernando, envolto em apetites, brincou, “Eu nunca estou satisfeito, sempre quero mais”.

Falavam eles sobre brigadeiros. Falamos nós sobre a vida. O que significa estar satisfeito? O que significa nunca estar satisfeito?

Há pessoas que se alimentam do que é necessário, inclusive para o seu prazer. Há outras que, insatisfeitas, se lambuzam em desejos intermináveis. E se avolumam de descartáveis.Querem tudo em excesso. Os olhos não cessam de buscar o que falta. Sempre falta para quem não gasta algum tempo educando o olhar.

Há pessoas que vivem uma história de amor, mas não valorizam. O olhar quer uma outra história, mais perfeita talvez. Histórias perfeitas são ilusões dos que, como dissemos, não sabem olhar.

Há os que vivem em um lugar e gostariam de viver em outro. Não estão satisfeitos. Falta alguma coisa. No lugar? Ou em algum lugar dentro deles mesmos?

Há os que trabalham e lamentam pelo trabalho que fazem. Gostariam de outra coisa fazer. E, quando conseguem, prosseguem na trajetória da insatisfação.

Há os que escolhem uma viagem. E, no meio da viagem, conversam com alguém que está em outro lugar e que descreve o outro lugar como um paraíso. Insatisfeitos, lamentam a escolha. Poderiam estar onde não estão.

Há os que olham os amigos dos outros e desejam ter amigos assim. Não estão satisfeitos com os amigos que têm. Volta a tal da imperfeição.

Há os que sonham com o pai que não têm ou com um filho que pudesse ser diferente. Com pessoas ou coisas, estão sempre nos queixumes. ​O quarto poderia ser um pouco maior. O carro poderia ter um som mais potente.

Diante do espelho, as insatisfações prosseguem. Dez centímetros a mais de altura seria o ideal. Seria mesmo? Ou continuaria faltando algo? 5 quilos a menos faria toda a diferença. Faria mesmo? Ou a insatisfação continuaria cobrando outras medidas?

Fernando tinha apelido de “querêncio” quando era criança. Queria tudo. E encontrava alguém para dar. Os pais não gostavam de vê-lo insatisfeito. De satisfação em satisfação, Fernando não aprendeu a sorver o bom de ter o que se tem. O bom de celebrar o que se conquistou. O bom de compreender que o outro é o outro, e as coisas do outro dizem respeito ao outro, e as minhas coisas foram conquistas árduas que aumentam o meu valor.

​Sergio gosta da vida que tem. Com os solavancos que leva. Com as ausências, comuns em todas as vidas. Com o que amealhou de amigos e de bens. É assim que ele é. É assim que ele conseguiu lutar para prosseguir sem exigir mais que o necessário.

​Fernando come sem prestar atenção. E rapidamente engole um, dois, três brigadeiros. E continua a conversa, sem nada dizer. Sergio olha para o brigadeiro, alimenta-se com o que vê, e depois, calmamente, delicia-se com o seu sabor. Histórias banais de cotidianos ajudam a pensar em escolhas maiores, em posturas, em valores.

Antes de olhar para o lado e alimentar de desejos a vida que não temos, vale educar o olhar para as memórias e as possibilidades, para aquecer o presente de gratidões de ontem e de esperanças do amanhã. Sem ilusões. Apenas com sonhos. Com bons sonhos de satisfação.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 28/01/2018

Um dia bom

“Que dia é hoje?” – perguntou Eliane para sua nora. “Dia 17”. Eliane deu um sorriso. O sorriso de Eliane sempre foi muito bonito. “Dia 17”, repetiu ela e prosseguiu: “Um dia bom para morrer”.

Eliane lutava contra um câncer há algum tempo. O marido se foi assim. Vencido pela doença. Ela sabia que os dias por aqui estavam terminando. Mas continuou brindando a vida. Pediu ao filho uma viagem de navio. Lá foram eles e a cadeira de rodas, e as dores e o sorriso de Eliane. Pediu para sair do hospital para comprar um presente especial para a única neta. Sabia que não a veria crescer. E comprou uma jóia, um colar com um coração.

Eliane, no hospital, pediu à nora que ligasse para algumas amigas. Com as poucas forças que restavam, agradeceu uma a uma. E se despediu. Esperou os filhos chegarem. E, também, o único irmão. E sorrindo agradeceu. Depois adormeceu.

O dia estava realmente lindo. O sol aquecia a terra sem preguiça. A família, naquela cama de hospital, e a despedida. Os dois filhos de mãos dadas com a mãe. Cada um viajava pelo passado. Conversaram um pouco. Ela ainda respondia. Falaram de comida, de viagem. Brincaram lembrando estripulias de um e do outro. Ela os olhava com orgulho. Mãe é mãe.

O sorriso de Eliane continuará a existir na memória deles. Mas existirá muito mais lindamente no que não conseguimos compreender. O Colo do Pai é infinito. E amoroso.

Depois do hospital, a nora foi explicar à filha pequena que a vovó havia partido para ficar no Céu junto com o vovô. Foi dizendo com os cuidados necessários. Com a ajuda dos filhos de Eliane. A menina, Mariana, com a sabedoria dos seus 4 anos, não demorou a responder. “Entendi. Agora ela foi viver mais perto de Deus”. Disse e saiu correndo para o quarto. Pensaram que ela fosse chorar. Não. Foi pegar o colar, presente da avó, o que tem o coração. Aquele que ela foi comprar, usando uma peruca e sentada em uma cadeira de rodas, enganando a dor com seu sorriso.

A criança, Mariana, talvez compreenda o que muitos adultos esquecem. Sobre o colo de Deus. Sobre a vida que não se encerra por aqui. Sobre o sorriso que fica ainda mais lindo quando compreende, enfim, que a vida é mais forte do que a morte.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 21/01/2018

Feliz encontro

Era um dos tantos feriados que há pelo ano. Em uma cidade do interior. Uma daquelas antigas, com ladeiras íngremes. Com ruas preenchidas por pesados paralelepípedos. Calçadas cheias de histórias de pés que conduziram encontros e despedidas. Durante décadas. Durante séculos. Viram crianças se tornando adultos. E adultos voltando a ser crianças. Com seus desejos permeados de equívocos. Com seus choros exagerados e, certamente, com muitos acertos.

Erik convidou alguns amigos. O passeio valia. A cidade estaria lotada, mas seria bom sentir o seu aroma. Havia flores, plantadas e regadas, em diferentes circunstâncias. E lá foram eles. Pegaram a estrada e chegaram. E demoraram para conseguir algum lugar para estacionar o carro. Ladeira aqui, ladeira ali. Pararam e, absortos pela beleza da cidade, caminharam sem preocupações de retorno. Tiraram fotos. Tomaram café. Comeram delícias típicas do local. Entraram e saíram de antigas construções. E chegaram ao momento de despedir. Era preciso voltar. E quem se lembrava de onde estava o carro?

Erik deu o seu palpite. Errado. Os outros dois tentaram. Erik mostrava-se arquiteto nos cálculos do espaço e do tempo que os levariam ao destino certo. E nada. E foram de um lado. Pensaram na mão e na contramão, no traçado feito anteriormente. No caminho que não dava opções para paradas. E nada. Um deles mostrou preocupação. O outro aliviou. “É feriado. Não estamos com nenhum compromisso. E estamos felizes”.

Estar feliz faz toda diferença. As angústias incendeiam momentos como esses. Sempre haverá alguém a estampar desespero em sua fronte. Ou a reclamar de descuidos. Ou a praguejar sobre a infeliz ideia de estarem ali. Mas os três estavam felizes. E isso minimizava qualquer outro senão. Um sugeriu que pegassem um táxi e ficassem perambulando pela cidade até encontrar. O outro deu um outro palpite. A caminhada estava boa. Era melhor prosseguir passo a passo. Mesmo em ladeiras desafiadoras. E foram. E tiveram tempo de esquecer um pouco a procura para assistir ao pôr do sol. Que belo! As fotografias não registrariam tudo. Há imagens que só almas felizes são capazes de armazenar.

E viram um banco antigo. E sentaram. E prosseguiram a prosa. E um dos amigos insistiu no primeiro palpite. Voltaram, então. Brincaram de fazer apostas. Do tempo que demorariam para encontrar. Ao longe, estava ele, o carro. Os faróis pareciam sorrisos. A brincadeira havia chegado ao fim. Exaustos nas pernas e leves na alma, foram ao encontro, ao feliz encontro.

Na verdade, o feliz encontro veio antes. Quando se conheceram. Amizades emprestam suavidade ao calor das procuras. Estaremos sempre em busca de algo. Algo sempre será perdido e nos desafiará a ser encontrado. Com amigos, tudo fica mais fácil, mais prazeroso. Erik foi dirigindo e contando as histórias que sabia da velha cidade. Era uma nova amizade se espreguiçando. Que bom estar ali.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 14/01/2018

Cacos de Vidro

Ao longe, Talita viu um brilho diferente vindo do chão. Do mesmo chão que sustentava o engatinhar de seu primeiro filho, André. Olhou, novamente, e, de pronto, levantou-se. O menino já estava se aproximando do que brilhava.

“Cacos de vidro, são cacos de vidro!”, disse e repetiu Talita para Vinicius, seu esposo.

“O que foi, meu amor?”, perguntou ele da cozinha.

“Cacos de vidro. Ele podia ter se cortado. É muito perigoso!”.

A mãe de Talita estava com o marido na cozinha. Ouviu a gritaria e veio acudir.

“Mãe, alguém quebrou alguma coisa aqui. Imagine o André todo machucado, todo cortado. Imagine se ele tivesse colocado na boca, se estivesse engolido”.

“Calma, minha filha, não aconteceu nada! Você conseguiu protegê-lo”.

“É, mas há alguém descuidado nesta casa”.

A mãe de Talita pegou o neto no colo e começou a brincar com ele. “André, na sua vida, muitos cacos de vidro estarão no seu caminho. Nem sempre sua mãe estará por perto. Algumas vezes você poderá se cortar”. “Não diga isso, mãe, vai traumatizar o meu filho!”.

A avó continuou a brincadeira. Teve ela quatro filhos, Também se assustou com as primeiras quedas. Também se agitou querendo estancar cada dor. Mas, aos poucos, foi compreendendo que os cacos de vidro se multiplicam com o passar dos tempos. Há algumas vacinas para dores mais agudas. Há ensinamentos que nos trazem precaução, proteção e ação. Isto porque mesmo os precavidos e protegidos se cortam. E, cortados, precisam agir. Ou isso ou o sangue jorrado ganhará gosto, e uma vida será esvaziada. Ou isso ou a entrega pálida diante da primeira dor. De qualquer dor.

A mãe de Talita, avó de André, quis aproveitar a ocasião para trazer algum frescor em vidas ainda frescas. É bom ver pais se preocupando com filhos. É bom que se debrucem sobre o que faz bem e sobre o que faz mal. É esta a arte da educação, ensinar desde cedo a gostar das coisas corretas e a desgostar do que é errado. E, além disso, despertar o indispensável sentimento da bravura. Não da rabugice. Não da violência. A bravura que desenha na mente dos Andrés a necessidade de ficar em pé e de, se cortado, prosseguir, sem se entregar ao sangue ou à dor.

A mãe de Talita acompanhou as dores dos seus filhos. Com eles, falou muitas vezes sobre dignidade, sobre amor próprio, sobre confiança nos dias que se seguem, Cortes, tiveram eles. De amores não realizados, de trabalhos equivocados, de amizades interesseiras. Cortes, tiveram eles de dores que pessoas causam em pessoas. Mas resistiram bravamente. O pai morreu cedo. Doença apressada. Doença insensível que não respeita a harmonia de uma família. Choraram juntos. Cortaram-se nesses cacos que o destino permite. No vidro da casa, viam os dias de chuva e se lembravam do que não tinham mais.

André, o primeiro neto. Nome do avô. Uma homenagem de Talita. Os filhos foram se ajeitando na vida, cumprindo cada um o chamar da vocação. De obstáculos em obstáculos, foram mesclando dias de proteção com dias de malabaristas. A mãe nem sempre pode estar por perto. Mas seus hábitos os habituaram a prosseguir. Era este o mantra: “Prossigamos. Caídos ou levantados, prossigamos. Cortados ou inteiros, prossigamos”. Cria ela no poder de cicatrização que o tempo oferecia. As dores de ontem, ela guardava em uma penteadeira ao lado do coração. Sim, porque, se ficassem todas no coração, não sobraria espaço para canções mais felizes.

Vinicius pega o filho no colo, sorri de gratidão por ser pai e cantarola uma cantiga que o seu pai cantarolava. Talita olha para o filho e o marido e chora. A mãe sorridente conclui: “Como é gostoso chorar de emoção”.

O sol atravessa a janela. É verão. E um novo ano ainda engatinha e avista cacos de vidro pelo caminho.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 07/01/2018

Gratidão

Gratidão ao ano que se despede.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as águas e suas espumas sobem até as areias e limpam e refrescam e anunciam que, em instantes, voltarão. É o mar e o seu ir-e-vir. É o mar e os seus trazidos, deixando e apagando marcas.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as montanhas percebem a chegada do novo. O sol vai se espreguiçando e ganhando forças. A luz do que esverdeia desenha a esperança que inspirará os novos poetas. Há animais que barulham aqui e acolá. Cada um fazendo o som que sabe.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as grandes cidades, que não dormiram, acordam. Há movimentos ininterruptos de gentes e de ruídos. Há luzes que se acendem e há luzes que se apagam como nos vagalumes lá no campo, como nos brilhos que se vê nos clarões de sol e mar.

Uma mãe ensina ao filho que é preciso agradecer. Diz isso com a responsabilidade de quem amansa os erráticos que estão por perto para ferir. Agradecer ao que recebeu de presente, agradecer à passagem que foi dada, agradecer ao alimento que faz crescer.

Um paciente, que teve uma mãe que o ensinou a agradecer, agradece ao médico o alívio da dor, o cuidado generoso, o conhecimento despejado como forma de ação. Ora um padre na Igreja. Fala da gratidão como um valor dos que sabem que a vida é dom, que dom é presente, que presente se recebe e se agradece e se cuida. Cuida da vida de tantos a professora que agradece aos alunos pelo privilégio da troca, dos encontros, dos crescimentos comuns. Ensinar a aprender é um dos ramos mais bonitos que brotam na árvore da vida.

Agradece o agricultor que faz dos seus dias um semear. O entregador de cartas que gasta dias e dias a procurar, a encontrar. O que coze os alimentos também agradece. Olha cada prato e imagina os que hão de estar satisfeitos. E quem come agradece. O comum e o diferente. O que vem sempre e o que surpreende. Surpreendidos, agradecem aqueles que em meio ao medo recebem um salvador de vidas. Nas águas ou nas estradas que assistem acidentes. Nas casas ou nos perigos que queimam.

Agradecem os que vendem aos que vêm para comprar e os que compram aos que têm para vender. Os que precisam ir agradecem aos condutores, os que precisam permanecer agradecem aos compreensivos. Agradece o que dedica a vida ao direito, pela compreensão de que a liberdade é mais nobre do que a vingança e de que o poder é um sopro para espantar as sujeiras e não para se enlamear de vaidades.

O pai que perde o filho agradece o tempo da convivência. O que não perde agradece o tempo da responsabilidade. Terá de acompanhá-lo nas trilhas necessárias do viver.

Agradece o atleta pela chegada ao topo. Agradece o topo pela visão do que se supera. As quedas também agradecem. Cicatrizes vão compondo o mapa da nossa alma. Lágrimas aliviam delicadamente os impulsos do sentir. Os olhos agradecem às pálpebras como as palpitações agradecem ao sono. Pausas são necessárias na vida e nas partituras. Agradece o músico pela elevação que proporciona a sua profissão. O mesmo faz o artista que diz textos e que abre portas.

Portas serão abertas no ano que está pronto para chegar. Agradecem os que enxergam com os olhos ou com a alma. Onde há mar ou montanha, onde há barulho de bichos ou de gente, onde há frio ou calor, é bom agradecer. O luar presencia todos esses movimentos. Tão diferentes e tão iguais. Histórias se repetem e se renovam. Sempre há, entretanto, novidade.

Ainda no meio dos festejos de mais um ano, uma criança estará nascendo. Uma porção de crianças. Totalmente diferentes. Com uma possibilidade comum, viver, agradecer. E, no mundo animal, há mães se mexendo para abrir o mundo aos seus filhotes. E flores desmaiando seu romantismo para que o dom de surpreender também mereça agradecimento.

Olhe, ali na esquina, 2018 está chegando. Agradeça por estar vivo e por poder começar tudo de novo.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 31/12/2017

O nascer da esperança

Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. É sempre assim. Depois do que se vive hoje, há um amanhã.

Um certo João explicou sobre ser uma voz que clamava no deserto. Naquele tempo. Nos tempos de hoje. O deserto das ausências. O egoísmo nos toma de assalto e fica. E é sobre nós e apenas sobre nós que nos debruçamos. O outro é apenas um dispensável a mais. O deserto das presenças erráticas. O outro me interessa quando interessa. Nada de amizades, mas de adulações e de descartes. Nada de amores, mas de expectativas. Nada de liberdade, mas de trancafiamentos.

O deserto de João se repete hoje. Mas, amanhã, é Natal. E o Menino vem novamente. Sem pretensões de imediatismos. A manjedoura é o coração humano. Metáfora dos sentimentos que nos acolhem. Pulsante coração. Capaz de irrigar desertos e afinar vozes para tempos mais plenos.

Sim, na plenitude dos tempos, nasceu o Menino. Assim está escrito nas Escrituras Sagradas. No tempo certo, para que os homens pudessem perceber os encontros e celebrar a permanência. O Menino nasceu e foi esperançar na carpintaria de José. Foi crescendo e fazendo crescer. Foi amando e ensinando a amar. Foi olhando e desconsertando os que se achavam consertados mesmo vivendo no deserto. Os pretensiosos sempre tiveram dificuldade de compreender a simplicidade do Menino.

O natal nos traz todos esses ingredientes. A fartura das mesas deveria vir depois. É de fartura de afetos que carecemos. De olhares que impeçam a invisibilidade, de ouvidos que espantem a surdez. Há gritos implorando por justiça, há gritos pedindo apenas atenção.

Desatentos, comemos e bebemos sem economia. E cobramos presentes. Presenças reais ficam para os que aprenderam a compreender, a sentir, a ver a estrela que continua a nos guiar para que saiamos do deserto.

Amanhã é Natal. Há os que viverão o passado, lamuriosos dos que se foram, olhando os álbuns de fotografias e percebendo os que faltam. Há os que se embriagarão, aproveitando os festejos. Há os que ficarão sem comer, porque não terão o que comer, porque é assim o mundo dos desertos. Mas por que foi mesmo que o Menino veio? Era preciso uma ponte que nos permitisse chegar à outra margem. Onde há água pura, onde há rodas de conversa, onde há crianças que brincam sem medo, onde há mulheres e homens construindo alicerces comuns, comunhão. No outro lado, a felicidade é permanência e não visitante apressada. No outro lado, o riso não é nervoso nem forçado. No outro lado, a primavera reina absoluta explicando que o nascimento de uma flor não é obra do acaso.

Todos são convidados, mesmo os que não acreditam muito. Há uma exigência apenas. O Menino não arromba corações. Chega com leveza naquele que quer experimentar o seu nascimento. Para isso, é preciso de limpeza. E de abertura. Corações abertos pulsam um mundo melhor. E é isso que quer o Menino.

Brincar de eternidade nos momentos que eternizamos enquanto estamos por aqui. Momentos simples. Limpos, porém. As sujeiras nos impedem de receber o Menino e nos impedem de ver a outra margem.

Amanhã, a esperança há de surpreender mais uma vez. Feliz Natal.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 24/10/2017

Melancolia

A melancolia é um estado da alma. Muito aberta essa definição? Há uma outra, de Victor Hugo, que diz que “a melancolia é a felicidade de estar triste”. A felicidade de estar triste? Como é possível? É possível.

A melancolia é amiga da memória. Estou falando de uma melancolia que vive na casa dos românticos, não da melancolia estudo dos psiquiatras e outros pesquisadores da depressão e da mente humana.

A melancolia do coração viaja para o ontem e se apega ao que passou. Gostaria, talvez, de recuperar o que já não tem. Não tem. Fazemos suposições. Imaginamos verdades. Corroemo-nos em brigas refletindo sobre nossas escolhas.

A vida poderia ter sido diferente, se tivéssemos regado outras plantas? Quem sabe? As que temos são trabalhosas, mas são nossas. As que imaginamos talvez nunca tenham sido. Na imaginação, as flores não têm espinhos. Na imaginação, os jardins não têm pragas.

O passado não acontecido pode nos enganar. Na linda história de amor entre Dante e Beatriz, o imaginado é mais forte do que o realizado. Penélope esperou durante anos e anos pela volta de Ulisses, o seu grande amor. Valeu a pena? O desfecho é sublime, mas é um mito, apenas.

Histórias reais são mais complexas. Mas os mitos têm uma finalidade. Certamente. A melancolia, também. Envoltos em sentimentos queremos entender os sentimentos do outro. Houve amor ou apenas empolgação? Houve amor ou era uma estranha teimosia que nos preenchia? Será mesmo necessário saber o que o outro sentia?

Desprezamos as evidências e nos lambuzamos de suposições. Vez em quando, faz bem esse revisitar. Até para prosseguir. Até para compreender que o passado já está incorporado e que o amor amado, correspondido ou não, já cumpriu sua finalidade.

Em uma palestra, um jovem me perguntou se eu acreditava em amor único. Eu quis entender a razão da pergunta. Ele logo explicou que, se existisse, seria uma injustiça. “Pois, se eu amo alguém que não me ama, estou fadado ao fracasso”. Certamente, ele estava amando e, certamente, a dor do amor estava ali. Amores jovens. Amores de todas as idades. Amores capazes de nos provar que estamos vivos.

Não respondi. Lancei outras perguntas e outras possibilidades. É preciso experimentar para compreender. Ou ao menos para sentir. Os sentimentos de amor ultrapassam as compreensões. O tempo tem o seu senhorio. Uma mulher que muito viveu falava do filho que não teve. Se tivesse experimentado a maternidade, a vida teria sido mais feliz? Quem sabe? Mães também perdem filhos. Mães também se entristecem com eles. Como seria o que não foi? Como saber? Não é possível voltar no tempo e escolher o que não se escolheu. Mas é possível voltar no tempo e celebrar o que se conquistou. Se conseguirmos esse feito, a melancolia vai partindo.

Os anos acumulados nos trouxeram momentos mágicos, não ver a felicidade nos enternecendo em dias calmos é negar à memória o direito de reconhecer. A melancolia se recolhe quando o futuro começa a exigir atenção. Não importa o tempo que ainda temos para viver. Certamente, outras escolhas nos desafiarão. Certamente, outros amores nos provarão que não há idade para entender o que Penélope entendeu ao tecer durante o dia e desfazer o seu tecido durante a noite para que sua coberta só estivesse pronta para um amor que merece toda a sua entrega. Existe amor único? Não sei. Só sei que essa vida é única e merece, entre melancolias e futuros, um presente de celebrações.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 17/12/2017

A valentia de Eduardo

Eduardo acabou de completar 7 anos. Com direito a festa, a música, a voluntários vestidos de personagens para entreter e dar alguma alegria ao menino.

Tudo em um hospital. Eduardo tem câncer e luta para reequilibrar o seu organismo e os seus pensamentos. A mãe, sempre presente, exerce a nobilíssima profissão de disfarçar a dor. Sorri o sorriso que encontra em algum esconderijo valente dentro dela e fala sobre o futuro como quem acredita nele. Acompanhados.

Há muitas crianças que conseguem vencer o embate e prosseguir. Eduardo tem um câncer mais agressivo. Não falam muito sobre isso. Não gastam tempo imaginando o tempo que resta. Apenas usufruir o tempo para viver, é isso o que combinaram sem precisar combinar.

Eduardo percebe as pausas da mãe. Por mais que uma cortina de esperança tente desfalcar a verdade, há algo que entra naquele quarto e que os põe a chorar. Algum dito mais carinhoso, algum incômodo na posição devido ao fato de o menino ficar deitado por muito tempo, alguma lembrança do que nunca aconteceu, não tiveram tempo para isso.

Dia desses, Eduardo soltou uma frase ao ser perguntado pela enfermeira se estava doendo, depois de tentativas tantas para encontrar uma veia na tão perfurada pele. Apesar da expressão dizer o contrário, ele foi enfático: “Os valentes suportam a dor”. E sorriu o que pôde. E respirou fundo suportando tudo. A mãe também sorriu. E se levantou. E saiu do quarto como quem pede um vento milagroso, um solavanco em um sono, talvez. Poderia ser tudo um sonho, pensa ela com ela mesma. “Poderia acordar e ver o meu filho correndo e brincando e caindo e se lambuzando de alegria. Poderia fazer as contas para as formaturas, as festas, os centímetros de acréscimo a altura de um corpo menino. Poderia ser tudo isso”.

Enquanto Fernanda, a mãe, chora no corredor, Eduardo explica para enfermeira: “Tenho que ser forte por causa dela, ela não está aguentando, coitada”. Alcançada a veia, a enfermeira o acaricia. Quantas histórias parecidas ela presencia! Quantas orações ela faz pedindo a cura, pedindo o direito de ampliação da jornada de vidas que começaram a desabrochar. Lembra que ouviu alguma vez que as borboletas vivem apenas um dia. Não tem certeza. Mas não sabe por que vem essa imagem. As asas. O voo. O enfeitar. E o partir.

As crianças enfeitam a vida da enfermeira. E partem. Ela olha o menino que continua a falar sobre a mãe: “Ela precisa se cuidar, está muito fraquinha”. Eduardo está sem cabelos, a pele embranquecida, os olhos fundos, mas há algo que o faz, de fato, valente. Gosta de ouvir histórias e, quando está bem, gosta de contá-las. A avó de Eduardo, que faleceu o ano passado. passava as noites contando histórias ao menino. Ele viajava com os cenários que imaginava, agarrava o que lhe davam para permanecer com as personagens nascidas na sonoridade daquela voz. O menino, já doente, deu forças à mãe: “A vovó foi para um lugar lindo, mamãe. Cheio de vida. Cheio de contadores de histórias. Para onde, um dia, iremos também”.

Talvez não tarde para Eduardo partir, talvez algo mude, talvez ele corra as maratonas sonhadas pela mãe… quem sabe o certo sobre o amanhã? O que se sabe é que hoje o menino é um valente, enfrentando a dor e cuidando da mãe, que já perdeu tanto e que teme perder o que de mais valioso tem, seu único filho.

Em uma casa, perto do hospital, um casal briga na decisão de onde passar as festas do fim de ano. Cada um quer uma coisa. O barulho das vozes espanta o som bonito do amor. Criar problemas onde problemas não há é uma das especialidades dos humanos.

A mãe de Eduardo volta ao quarto, encontra o menino com os olhos fechados. Não sabe se está dormindo ou sonhando com as histórias que gosta de ouvir e de viver. O que sabe é que há algo bom no sorriso discreto daquele valente.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia – RJ) | Data: 03/12/2017