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Prevenção também se ensina

Por Gabriel Chalita

Os alunos estão ansiosos. Está quase na hora de apresentar o espetáculo. A platéia é composta por amigos, funcionários, pais, professores e todos os componentes da comunidade escolar. A peça relatará os infortúnios vivenciados por adolescentes envolvidos com drogas. Durante o decorrer da trama, os atores transmitirão aos espectadores conceitos relativos à importância do cultivo de hábitos saudáveis e à aquisição e exercício pleno da cidadania. 

A mensagem final é explícita: os jovens – revestidos por seus sonhos e ideais – são uma peça-chave na construção de uma sociedade melhor. E as drogas – vilãs dessa história – representam um empecilho dramático e, muitas vezes, fatal à concretização dessa realidade tão necessária ao Brasil e ao mundo. Essa cena se repete com enorme freqüência, em épocas diversas do ano, em milhares de escolas da rede estadual de ensino. Muitos alunos, entretanto, preferem expor seus trabalhos sobre prevenção antidrogas por meio da dança, da música ou mesmo por intermédio de exposições de pintura, desenho e textos. O fato é que, desde 1997, essa temática é recorrente nas salas de aula da rede devido à implementação do projeto Prevenção também se ensina, desenvolvido pela Secretaria de Estado da Educação em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde. O projeto foi implantado nas 89 diretorias regionais de ensino e visa à promoção da saúde e à melhoria da qualidade de vida da população escolar. A iniciativa abrange atualmente 2.755 escolas estaduais de 5ª a 8ª séries e Ensino Médio, 8.550 educadores e, aproximadamente, 2.700.000 alunos. O projeto tem o objetivo de instrumentalizar as escolas em relação ao uso abusivo de drogas e a prevenção às DST/Aids, utilizando cursos de capacitação dos educadores e enviando materiais didáticos específicos, para que esta temática seja incorporada no Plano Escolar de cada unidade educacional. Combater as drogas e vencê-las demanda uma luta árdua que vem sendo travada por numerosos países do mundo. Pesquisa realizada em 1997 pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID – com estudantes de dez capitais do país (incluindo São Paulo) informa que 87% dos estudantes com menos de 18 anos já consumiram álcool. Por tudo isso, o papel da escola e de seus educadores na luta contra as drogas é imprescindível, na medida em que a instituição é o palco onde atuam e são formados os novos agentes de transformação social. É o local mais adequado e acessível ao debate, à discussão, à reflexão e à propagação de idéias e conhecimentos que propiciem uma sociedade mais capacitada, menos violenta e mais justa para as novas gerações. Nos relatos apresentados pelos estabelecimentos de ensino, observamos que as atividades mais eficazes no combate às drogas têm sido aquelas que possibilitam a participação ativa dos alunos na busca e análise de informações, envolvendo o uso de outras linguagens e recursos (artes, informática, expressão corporal e outros). As palestras e aulas expositivas não estão descartadas, desde que vinculadas ao projeto em andamento, não se constituindo em atividades isoladas. Nesse sentido, a Secretaria de Estado da Educação tem desenvolvido – em paralelo com o projeto Prevenção também se ensina – numerosos programas e ações que promovem a interação dos estudantes e, conseqüentemente, a potencialização de seus talentos nas mais variadas áreas, sejam elas profissionais, sejam esportivas, artísticas culturais ou sociais. É o caso do Programa Profissão, do Parceiros do Futuro, do Projeto Sinfonia, do Teatro vai à escola, do Mutirão da Cidadania, do Protagonismo Juvenil e do Escola de Cara Nova na Era da Informática. Juntos, esses projetos contribuem para que os 6 milhões de alunos da rede tenham sua atenção voltada para o empreendedorismo e para o fortalecimento de valores fundamentais à vida em sociedade. Acreditamos que a educação é o único caminho capaz de reverter o quadro dantesco provocado pela inversão desses valores e por conflitos generalizados de cor, credo e classe social. Cabe ao educador ter a certeza de que pode, por meio do seu trabalho, transformar o mundo. Essa é a nossa filosofia e no que depender de nós, continuaremos a praticá-la. Lembremos que o futuro está em nossas mãos e é por ele que continuaremos semeando sonhos, sempre na ânsia de colher novas realidades.

Pessoas mais do que especiais

Por Gabriel Chalita

O filme Meu Pé Esquerdo, de 1989, retratou magistralmente a infância e a adolescência do jovem Christy Brown, talentoso e perseverante artista irlandês, portador de paralisia cerebral. Em decorrência da doença, a única parte do corpo que ele podia controlar com precisão era, justamente, o seu pé esquerdo. Com uma interpretação magnífica de Daniel Day-Lewis – vencedor do Oscar de melhor ator pela sua atuação como Brown – a trama conseguiu adentrar no universo grandioso desse homem brilhante que se tornou pintor, escritor e poeta de sucesso, a despeito de suas limitações motoras e de sua origem humilde.

Exemplos como esse não são raros, mas, infelizmente, nem todos rendem filmes, documentários, reportagens e outras formas de divulgação de massa. No Brasil e no mundo, milhões de portadores de necessidades especiais constantemente nos surpreendem com seu talento, sua criatividade e sua determinação em superar obstáculos de graus e naturezas as mais diversas, conquistando o sucesso, o respeito e a admiração de todos. No esporte, nas artes e nas mais variadas áreas de atuação, temos representantes dessa comunidade especial que, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde, somam 10% da população do globo. Desde sempre, seus representantes fizeram história ao provar ao mundo sua competência e imensa capacidade. Basta lembrarmos do gênio da música clássica Ludwig van Beethoven que, mesmo perdendo gradualmente sua acuidade auditiva até a surdez, prosseguiu sua bem-sucedida carreira como compositor, deixando uma obra grandiosa, em todos os sentidos. Atualmente, temos no cenário mais popular, exemplos como o de Ray Charles e Steve Wonder, compositores e intérpretes que superaram a ausência total de visão e tornaram-se astros da música devido a uma mistura imbatível de talento, garra e sensibilidade. No Brasil, um dos mais conhecidos fenômenos de expressão artística ocorreu no século XVIII, época que teve o privilégio de ver nascer o escultor Antonio Francisco Lisboa. O artista – expoente maior do barraco mineiro – foi acometido, aos 47 anos, por uma doença que o privou de grande parte de seus movimentos, deformando-lhe os pés e as mãos. O fato serviu como inspiração para que o povo criasse o triste apelido com que Lisboa passou à história: Aleijadinho. Hoje, se pensarmos no contingente habitacional do Planeta Terra, calculado em 6 bilhões de habitantes, temos então 10% dessa população caracterizada como portadora de algum tipo de necessidade especial. São cidadãos que, como todos os outros, merecem respeito e igualdade de oportunidades. No Brasil, a Constituição Federal, em seu capítulo I – que discorre sobre os direitos e deveres individuais e coletivos – mais precisamente no artigo 5º, determina: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza (…)”. Nesse sentido, cabe à sociedade civil organizada, por meio de suas instituições nas esferas municipal, estadual e federal, bem como as demais entidades representativas que a compõem, trabalhar para fazer valer essa garantia constitucional e que é, também, um direito universal das pessoas. Um direito que deve começar a vigorar no momento de seu nascimento e prosseguir por toda a sua vida, com ênfase ainda mais especial durante a infância – período em que somos mais vulneráveis. Por isso, é nosso dever proporcionar às crianças as condições necessárias ao seu pleno desenvolvimento físico, emocional e intelectual – sejam elas portadoras de necessidades especiais ou não. Essa filosofia pauta nosso trabalho na Secretaria de Estado da Educação e nos faz buscar e/ou criar mecanismos que possibilitem sua execução. Um exemplo disso é o Centro de Apoio Pedagógico Especial (Cape), inaugurado em novembro do ano passado. O Centro, que gerencia as ações especiais da Secretaria Estadual de Educação, realiza o treinamento e a capacitação dos professores da rede para o atendimento ao aluno portador de necessidades educacionais especiais e a produção de material didático-pedagógico para esses estudantes. As atividades do Centro se concentram em três eixos principais: pesquisa, produção de recursos e formação continuada dos professores da rede. O objetivo principal do Cape é proporcionar a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no ensino regular. A igualdade de condições começa no próprio prédio do Centro, que foi completamente reformado para garantir a acessibilidade aos portadores de necessidades especiais. Temos certeza de que ações dessa natureza capacitam as novas gerações, a partir do momento em que ajudam a desenvolver, hoje, o seu enorme potencial. A humanidade, sem dúvida, agradecerá a colaboração desses novos artesãos da vida. Pessoas que, freqüentemente, ignoram todos os tipos de limitações e moldam com maestria suas próprias vitórias e conquistas.

Matrícula antecipada

Por Gabriel Chalita

O que tiveram em comum Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto, além, é claro, de formarem uma tríade de escritores fundamentais da literatura brasileira? A resposta está na situação financeira precária de suas famílias. O acesso à educação e à cultura deveu-se, nos três casos, à sorte – essa estrela travestida de mil faces – que, infelizmente, não brilha para todos. Há poucas décadas, nascer sob essas condições implicava, quase sempre, exclusão educacional.

No caso desses escritores ilustres, as dificuldades foram vencidas à custa de autodidatismo, professores informais – como padres e amigos da família – e, ainda, o auxílio financeiro proveniente de padrinhos ou pais adotivos com melhores condições econômicas que as famílias de origem. Hoje, o Brasil vive uma realidade muito mais positiva em relação ao acesso das comunidades carentes à escola. Os números divulgados pelo último censo comprovam: os avanços relativos à universalização da educação em nosso país destacam a evolução de toda a rede pública brasileira. Atualmente, 95% das crianças de 7 a 14 anos estão na escola. Já a taxa de escolarização entre os jovens de 15 a 17 anos passou de 55,3% para 78,8%. Em São Paulo, isso fica ainda mais evidente: 99% das crianças com idades entre 7 e 14 anos estão na escola. Os números deixam claro: a escola é, agora, uma possibilidade acessível à maioria esmagadora de nossas crianças, independentemente de cor, gênero, credo ou classe social. É certo que ainda há muito a ser conquistado, mas o primeiro passo já foi dado: a garantia constitucional do direito à educação para todos. Nesse sentido, no mês de setembro, iniciaremos uma nova etapa na luta contra a exclusão educacional: A matrícula antecipada 2003. A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, em parceria com as 645 prefeituras do Estado, estará recebendo, de 2 a 27 de setembro, inscrições à matrícula antecipada para o próximo ano letivo. O objetivo é promover a universalização da matrícula no Ensino Fundamental, por meio da garantia de vagas na rede pública para toda a população na faixa etária de 7 a 18 anos. Se a escola onde o aluno se cadastrar estiver conectada ao Sistema de Cadastro de Alunos do Estado de São Paulo, o registro será “on-line”, com a emissão automática de um comprovante para o responsável. No caso das escolas não conectadas, será preenchida uma ficha cadastral, posteriormente digitada no Departamento de Educação Municipal ou em escola estadual próxima. O responsável pelo aluno deverá retornar ao local da inscrição para receber o comprovante. Encerrada esta etapa de cadastramento, forma-se um banco de dados com todos os inscritos na 1ª série do Ensino Fundamental público e nas demais séries (os que estão retornando à escola), e também um banco de vagas disponíveis, por escola, em todo o Estado de São Paulo. Depois, a Secretaria de Estado da Educação, por intermédio de suas Diretorias de Ensino, analisa, juntamente com as prefeituras, o atendimento da demanda para o ano letivo de 2003 e distribui os alunos, efetivando a matrícula no sistema. A partir do dia 11 de novembro, os pais ou responsáveis receberão, via correio, o comprovante de matrícula do aluno com a indicação da escola que ele deverá freqüentar. Além disso, as unidades de ensino municipais e estaduais – que funcionaram como postos de cadastramento – irão afixar a lista dos alunos cadastrados, contendo o nome da escola em que deverão estudar. Todo esse trabalho visa conceder à população a garantia de uma educação regulamentada e que colabore, cada dia mais, para o desenvolvimento emocional e intelectual de crianças e jovens. Uma educação destinada a capacitá-los para o mercado de trabalho, para o exercício da cidadania e para a vida em sociedade.

A importância do professor

Por Gabriel Chalita

Valorizar o professor. Capacitá-lo para o exercício pleno de suas atividades como educador. Proporcionar-lhe os instrumentos necessários à sua função primordial: lapidar diamantes. Hoje, esses são os objetivos principais da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Em outras palavras: entendemos o professor como a figura mais importante do processo educativo, em todas as suas esferas.

Cabe ao mestre a incumbência de ensinar, orientar, estimular e incentivar crianças e jovens a descobrir suas potencialidades. É uma tarefa nobre e gratificante, mas que exige um esforço e um empenho ininterruptos. Sem o educador seria impossível conceber a sociedade e sua contínua evolução cultural e científica. Afinal, todas as áreas do conhecimento humano dependem do professor para serem apreendidas com eficácia e colocadas em prática com competência e habilidade. A palavra professor vem do latim professore, cujo significado é: aquele que professa ou ensina uma ciência, uma arte, uma técnica, uma disciplina. Mas para que isso aconteça, o professor deve instigar o aluno. Levá-lo à dúvida, à inquietação, à contestação, ao questionamento. A transmissão do saber precisa ser estimulante e prazerosa. Há que se estabelecer entre os mestres e seus aprendizes uma relação de troca porque ensinar também é, antes de tudo, aprender. Educar é um missão que guarda em si um mundo repleto de possibilidades. Entre elas, a capacidade de despertar no outro um sem-número de qualidades adormecidas. Na Grécia Antiga, Sócrates já nos mostrou o caminho com a sua maiêutica. Sem a provocação, sem o questionamento, sem a inquietação, sem as perguntas incessantes do mestre não ocorrerá esse processo pedagógico socrático em que se multiplicam as perguntas a fim de obter um conceito a respeito do objeto em questão. Sem a maiêutica não é possível haver a parturição das idéias. Não se adquire o conhecimento, a sabedoria. Machado de Assis, no clássico Dom Casmurro, mais precisamente no Capítulo 9, nos brinda com sua poesia, ironia e irreverência quando compara a vida e os personagens que a compõem a uma ópera. Vamos pedir licença ao grande gênio da nossa Literatura para utilizar essa metáfora no universo específico da sala de aula. Quem dentre os alunos será o maestro que irá reger os personagens do espetáculo da existência? Quem será barítono, soprano, contralto, tenor? Quem irá optar por conceber a cenografia? Quem será o diretor? Quem será o figurinista? Quem irá compor o coro? Quem serão os bailarinos? Bem, o professor pode até imaginar os rumos que serão seguidos pelos seus alunos, mas isso não é sua tarefa principal. Cabe aos educadores conceder às crianças e jovens o direito de escolha, a partir do momento em que aprenderão sobre a importância de todos os personagens da ópera, inclusive os que optam por ficar nos bastidores. A nobreza do magistério reside justamente na capacidade de transmitir aos aprendizes a beleza e a grandiosidade dessa magnífica experiência que é a vida. Temos por meta preparar o professor para o exercício de uma profissão cada vez mais essencial à formação do ser humano. Por isso estamos realizando capacitações, palestras, teleconferências e seminários. No último mês de maio, por exemplo, reunimos cerca de mil educadores das 89 regionais de ensino do Estado em capacitação realizada no Interior de São Paulo. A idéia é transformá-los em multiplicadores de informação em suas localidades de origem. Acreditamos ser possível conceder ao educador o que lhe é de direito: o respeito de todos e o orgulho por ser quem traz à tona o que as pessoas têm de mais sublime. O professor, para nós, é a alma da educação e a espinha dorsal da sociedade. Sem ela, torna-se impossível adquirir o equilíbrio, a força e a vitalidade necessária para fazer do Brasil um país comprometido com a formação de seus cidadãos. Um país cuja nação será consciente e intelectualmente capaz de construir as bases sólidas que sustentarão os sonhos das novas gerações.

Incentivar a leitura

Por Gabriel Chalita

“O maior acontecimento de minha vida foi, sem sombra de dúvida, a biblioteca de meu pai”. A frase impactante e, ao mesmo tempo, grandiosa, por tudo o que traz implícita, foi proferida pelo escritor argentino Jorge Luis Borges. Sua paixão pelos livros seguiu avassaladora até o final de sua vida, quando já estava cego e dependente de amigos ou familiares que liam para ele todos os dias. Borges sofria de um problema congênito na visão, proveniente de seus ascendentes paternos.

Mesmo assim, isso não foi empecilho para que ele se tornasse um dos maiores escritores de todos os tempos, autor de preciosidades como “Ficções” e “O Aleph”. Todavia, sua história poderia ter sido outra se, desde menino, não tivesse tido acesso ao maravilhoso e encantado mundo dos livros. Clássicos como “As mil e uma noites” ajudaram a fazer com que o menino tímido e retraído da Buenos Aires romântica do início do século 20 pudesse dar asas a uma imaginação já privilegiada, originando o escritor fenomenal em que se transformaria mais tarde. Mudemos, agora, de cenário. Brasil. Recife. No conto “Felicidade Clandestina”, Clarice Lispector narra, de forma primorosa, o sofrimento de uma menina pobre cujo sonho era ler “Reinações de Narizinho”, clássico de Monteiro Lobato. No final da narrativa, após ter conseguido seu tão desejado exemplar, a menina permanece abraçada ao livro, em êxtase, sem abri-lo por um bom tempo, tamanho é o seu respeito e admiração pelo tesouro recém-adquirido. Entre os grandes escritores, o que não faltam são histórias relatando o amor que devotavam aos livros, ao conhecimento, ao aprendizado… O que seria desses homens e mulheres das letras não fosse o contato precoce com a literatura? Teriam eles seguido rumos diferentes? Teriam se tornado os grandes mestres que conhecemos? Possivelmente, não. Daí a importância crucial de as escolas incentivarem a leitura e a familiarização dos estudantes com o espaço fantástico que são as bibliotecas. Cabe aos diretores e professores organizarem visitas das classes a esses centros do saber em suas escolas. A prática, com certeza, fará toda a diferença na vida das crianças e adolescentes. Para os mais novos, podem ser organizados leituras de histórias em rodas, com direito a interatividade e atividades que, já em sala de aula, complementem o trabalho iniciado na biblioteca. Quando o assunto é o estímulo à leitura, a criação de programas de incentivo é fundamental. Programas como o “Leia Mais” e campanhas como Tempo de Leitura são exemplos bem-sucedidos. Só o “Leia Mais” atendeu mais de 2 milhões de alunos do ensino médio com 3 milhões de livros de literatura. Foram investidos 20 milhões de reais com o envolvimento de 1.245 escritores e 1.934 títulos diferentes para a escolha das próprias escolas. Já a campanha “Tempo de Leitura” teve como palavra-chave o compartilhamento. Mais de 8,5 milhões de alunos do Brasil inteiro, de 4ª e 5ª séries do Ensino Fundamental, levaram para casa uma das seis coleções compostas de cinco volumes do projeto “Literatura em Minha Casa”, do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). O PNBE está disponibilizando 30 títulos literários diferentes, contabilizando um total de 12,18 milhões de coleções. Livros de Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ângela Lago. Luís Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Oscar Wilde, Mark Twain, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e outros escritores e poetas nacionais e internacionais vão fazer parte da biblioteca particular dos alunos. Parafraseando Monteiro Lobato: um país se faz com homens e com livros. É assim que se constrói o futuro e se garante às novas gerações, uma sociedade e um mundo mais condizente com o sonho de todos os grandes escritores e poetas. O verdadeiro educador deve trabalhar em seus aprendizes o desenvolvimento desses valores. Este texto tem como objetivo ser um convite para que reflitamos sobre livros, bibliotecas, sonhos e o quanto eles podem ser fundamentais na vida de todos nós. E para salientar esse conceito, nada mais adequado do que lembrar um trecho do poema O Livro e a América, de Castro Alves: “Oh, Bendito o que semeia/Livros… livros à mão cheia…/E mando o povo pensar!/O livro caindo n alma/É gérmen que faz a palma,/É chuva que faz o mar”.

Escola para todos

Por Gabriel Chalita

Ele era negro, epiléptico e pobre. Para complicar ainda mais sua trajetória de vida, nasceu no século XIX, em meio à sociedade marcadamente preconceituosa da época. Filho de uma lavadeira açoriana e de um pintor mulato, passou a infância no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Órfão, foi criado pela madrasta. Frequentou o curso primário numa escola pública e aprendeu Francês e Latim com amigos da família e com um padre. O mais impressionante nessa história é que, mesmo sob o signo de tamanha dificuldade, reluziu a estrela maior de nossa literatura. 

Falamos do escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Como vimos, o grande mestre das letras nacionais, autor de clássicos como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, cursou apenas o primário. Na verdade, até bem pouco tempo, era essa a realidade da maioria das crianças nascidas nas classes menos favorecidas economicamente. A história já nos provou que, em nosso país, muitas vezes, a conquista do aprendizado entre nossos escritores geralmente se deveu à figura de um padre ou de um fidalgo que vinham em socorro dos grandes artistas de origem humilde. Foi assim não só com Machado de Assis, mas com outros grandiosos representantes da literatura, para ficarmos apenas na seara das letras. O poeta Cruz e Sousa, filho de escravos, foi acolhido por uma família rica que resolveu educá-lo. Foi quando encontrou os conhecimentos necessários à expressão de sua arte. Lima Barreto, por sua vez, teve auxílio de seu padrinho – um visconde – que o ajudou a concluir o segundo grau. Hoje, o Brasil vive uma outra realidade, muito mais positiva em relação ao acesso das comunidades carentes à escola. Os números divulgados pelo último censo comprovam: os avanços relativos à universalização da educação em nosso país destacam a evolução de toda a rede pública do Brasil. Atualmente, 95% das crianças de 7 a 14 anos estão na escola, diferentemente do que tínhamos em 1991, quando uma em cada quatro crianças pobres estava fora dos estabelecimentos de ensino. Já a taxa de escolarização entre os jovens de 15 a 17 anos passou de 55,3% para 78,8%. Em São Paulo, isso fica ainda mais evidente: 99% das crianças entre 7 e 14 anos de idade estão na escola e o índice de evasão caiu diminuiu brutalmente, permitindo que as crianças e jovens permaneçam nas escolas. Em 1994 a evasão paulista era de 9% para o ensino fundamental e 19% para o médio. Em 2000 caiu para 4,5% e 12% respectivamente, os índices mais baixos do país. De acordo com o CENSO MEC 2001, a evasão caiu ainda mais, isto é, 3,1% para o ensino fundamental e 8,9% para o ensino médio. Os números deixam claro: a escola é, agora, uma possibilidade acessível à maioria esmagadora de nossas crianças, independentemente de cor, gênero, raça, credo ou classe social. É certo que ainda há muito a ser conquistado, mas o primeiro passo já foi dado: a garantia constitucional do direito à educação para todos. Uma das nossas metas é, justamente, seguir à risca o texto que compõe o artigo 205 da Constituição Federal: . A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A seqüência de nosso projeto educacional será, cada vez mais, aliar quantidade à qualidade, proporcionando a todas as crianças da rede pública de ensino a capacidade necessária ao pleno sucesso de sua vida pessoal e profissional. Temos certeza de que esse é o sonho de todos nós, educadores. Mas, para realizá-lo, é importante lembrarmos que ele se constrói um pouco a cada dia, em cada nova aula, em cada pequeno gesto de respeito e consideração aos educandos. O amor ao que fazemos, seja qual for nossa área de atuação, é o grande responsável pela grandeza de nossa obra e pela beleza de nossa história. O entusiasmo é essencial, sempre. Recordemos as palavras sábias de Balzac, outro mestre da literatura: “O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo”. Boa semana a todos!

Educação cidadã

Por Gabriel Chalita

Com o tempo, percebemos que a memória é extremamente seletiva. Só guardamos os fatos realmente relevantes para nossas vidas. É mais um sábio mecanismo utilizado pela natureza humana para que possamos evoluir de forma mais harmoniosa e organizada, sem tantos “arquivos” dispensáveis para atrapalhar a vivacidade das recordações fundamentais à construção de nossa história pessoal.

O assunto é pertinente porque, no último dia 28 de junho, centenas de profissionais da educação vivenciaram coletivamente um desses momentos mágicos cujo registro permanecerá, certamente, na memória e no coração de todos. Juntos, uma grande quantidade de professores, dirigentes, funcionários de escolas e mais representantes da imprensa e da sociedade civil organizada, presenciaram O Concerto pela Paz na Escola. O evento marcou o lançamento do projeto Mutirão da Cidadania, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. Um acontecimento especial uma vez que reuniu cerca de 10 mil estudantes da rede estadual de ensino. Todos proporcionaram um espetáculo inesquecível, tamanha a energia, a vibração e o entusiasmo que emanavam em uníssono durante a festa. O comportamento alegre e a atitude de interesse demonstrada ao ouvir as palavras de diversos esportistas, artistas, autoridades e líderes religiosos – que deram seu depoimento sobre cidadania, paz e solidariedade – já foram prenúncios significativos do sucesso desse projeto, a ser iniciado em todas as escolas da rede. O que presenciamos no Ginásio do Ibirapuera pode ser definido como um verdadeiro ato em defesa da cidadania. Os alunos, em total sintonia com as diretrizes do projeto, deram um show à parte, a começar pelo colorido verde, amarelo, azul e branco de suas camisetas. Os jovens formaram um painel humano gigantesco e que lembrava a imensidão de significados que compõem as cores de nossa Bandeira.A seqüência do espetáculo aconteceu quando da execução do Hino Nacional Brasileiro. Foi inesquecível ver e ouvir um coral fenomenal composto por 10 mil vozes confiantes e comprometidas com o Brasil. Vozes que ditarão o texto e o compasso de um futuro fundamentado sobre as bases dos valores indispensáveis à vida em sociedade. Vozes que, sem dúvida, irão entoar um cântico marcado pela ética, pela dignidade, pela honestidade, pelo respeito e pela solidariedade provenientes do exercício pleno da cidadania.Estava nítido para cada uma das autoridades e convidados presentes que aqueles 10 mil alunos que aplaudiam e vibravam a cada pronunciamento relativo à prática da cidadania, estavam ali porque realmente acreditavam na sua capacidade infinita de trazer a renovação e de dar a sua máxima contribuição para um mundo melhor. Numa tarde e começo de noite repletos de momentos emocionantes, os jovens ainda encontraram formas peculiares de contagiar a todos com provas de sua confiança e amor pelo seu país. Nos intervalos entre os depoimentos, todos os adolescentes – embalados, também, pelo sentimento de amor ao esporte, em plena semana de decisão de Copa do Mundo – cantaram, a uma só voz, a canção símbolo da participação brasileira nos estádios de futebol e que, independentemente do esporte, reflete em seus versos o amor ao Brasil: “Eu sou brasileiro/Com muito orgulho/Com muito amor…”. Versos que explodiam entre 10 mil jovens vozes sintonizadas por uma mesma esperança. Uma esperança que transcendia a vitória do pentacampeonato e que representava, naquela ocasião, a vitória da nação brasileira frente a todas as adversidades existentes. O melhor de tudo é saber que esse evento grandioso foi apenas o começo e que, agora, efetivamente, todos os educadores poderão dar continuidade a ele, diariamente, por meio de seus aprendizes. Para isso, a Secretaria de Estado da Educação, em parceria com várias outras secretarias e instituições sociais, fornecerá as ferramentas necessárias para fortalecer e/ou resgatar a cidadania desses estudantes. Estamos propondo, ao todo, 10 iniciativas que capacitarão os educandos a exercer sua cidadania e, ainda, atuar como agentes multiplicadores desse conceito na família e na comunidade onde vivem. Entre as ações previstas no Mutirão estão: hasteamento da Bandeira e execução do Hino Nacional, incentivo ao voluntariado, coleta seletiva de lixo, valorização do ambiente escolar, toda escola com grêmio, consumidor consciente, bandas da juventude, concertos para a juventude nas escolas, cinema na escola e escola cidadã. Por meio de todas essas ações, estamos, na verdade, plantando uma semente. Mas, para que as futuras gerações possam colher os frutos, será preciso o empenho, a dedicação e a união dos esforços de todos. Por tudo isso, meu muito obrigado aos milhares de profissionais que contribuirão, com seu trabalho, para a construção dessa nova história.

Educação para trabalho

Por Gabriel Chalita

A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Esse é o texto que compõe o artigo 205 da Constituição Federal. Lembrá-lo, divulgá-lo e incentivar sua aplicação prática é sempre necessário e essa necessidade torna-se ainda mais pertinente no mês em que se comemora o Dia do Trabalho.

Hoje, ser considerado um bom profissional requer habilidades múltiplas que, até pouco tempo atrás, eram vistas como secundárias para os milhões de candidatos que, ano após ano, se aventuram em busca de uma vaga no competitivo e seleto mercado de trabalho. A excelência na comunicação, a capacidade de adaptar-se rapidamente às mudanças e de tomar decisões sob pressão, a agilidade para absorver novas informações, a criatividade e a fluência em idiomas são apenas alguns dos requisitos básicos para quem sonha ingressar e, de preferência, deslanchar em uma carreira de sucesso. Vários mitos caíram por terra nas últimas décadas. Entre eles, a antiga estabilidade almejada e cultuada pelas gerações que nos antecederam. Ela cedeu espaço à intensa rotatividade proveniente, em grande parte, das inovações praticamente diárias do século XXI. Terceirizações, informalidade, o boom do setor de serviços, as novas profissões surgidas após a explosão da informatização dos processos e da Internet e as novas tendências da economia e dos negócios. Muitas profissões foram devidamente valorizadas em detrimento de outras praticamente extintas. As mudanças atingiram também os patamares salariais e a disposição inversa entre níveis hierárquicos/faixa etária. Em muitas empresas, jovens com menos de 30 anos ocupam posições de destaque nos mais variados ramos de atividades. São novos tempos. Com tudo isso, é preciso questionarmos e repensarmos a forma como a escola vem atuando na formação de cidadãos que enfrentarão a dura realidade imposta pelo mercado. Como é possível preparar os educandos para essa sociedade mutante e para a Era da Informação e do Conhecimento? O Governo do Estado de São Paulo acredita ser a educação de qualidade o caminho mais seguro e mais eficaz para formar cidadãos capacitados e preparados para enfrentar os desafios da vida pessoal e profissional. Estamos atentos no sentido de criar e desenvolver projetos e ações que ultrapassem as fronteiras da educação regulamentada. Queremos ir além. Educar para o trabalho é fomentar em cada aluno o desenvolvimento da visão crítica, da ética, do gosto pela discussão, pelo debate, pela reflexão, pela arte, pela cultura e sua propagação. É fornecer-lhe uma percepção ampla do mundo, com suas realidades diversas, enriquecedoras e complementares. Educar para o trabalho também é abrir as portas para crescimento intelectual e para ascensão social. A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo acredita na viabilidade de políticas direcionadas à inserção do jovem no mercado de trabalho. Prova disso é o sucesso do Programa Profissão, que teve início em 2001, e hoje é realizado em parceria com as melhores instituições de ensino profissionalizante da América Latina: Senac – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Centro de Educação Tecnológica Paula Souza e Escola Técnica Federal. Ao todo, são 94 cursos profissionalizantes disponibilizando 40 mil vagas em 212 cidades de todo o Estado. O objetivo do programa é proporcionar aos jovens formados pelo Ensino Médio da rede estadual melhores condições de acesso ao primeiro emprego. É o que o governador Geraldo Alckmin tem salientado: educação para o trabalho. Em Presidente Prudente, por exemplo, cerca de 80 alunos de seis cursos do Programa Profissão decidiram fundar a Cooperativa Ricosul – Rede de Cooperação Técnica do Mercosul – distribuídos em 15 cidades da Região Oeste do Estado. Os alunos do curso de informática dedicaram-se à criação de softwares para a área rural; já o grupo do curso de Monitor de Lazer e Recreação desenvolveu atividades de recreação e lazer para as cooperativas agropecuárias; os alunos do curso de Teatro realizaram a montagem de peças para serem apresentadas nas empresas da região abordando temas como Aids e amamentação. Como vimos, é uma experiência bem-sucedida que demonstra ser viável transformar a realidade que nos cerca por meio da união de esforços e do trabalho sério. Esses são os princípios norteadores desse Governo. Cremos ser possível educar partindo do particular para o universal, do individual para o coletivo. Sabemos que educar para o trabalho também é qualificar para a aventura da vida.

Muito além do ensino tradicional

Por Gabriel Chalita

Construção, resgate, amor. Palavras fortes, mágicas e repletas de significados. Juntas, elas compõem o roteiro que norteia a multiplicidade de trabalhos que envolve o setor educacional em toda a sua extensão. A sala de aula funciona como a mola propulsora dessa engrenagem complexa e fascinante que é o ato de ensinar, de transmitir o saber. O conceito de educar é muito maior do que simplesmente ministrar as disciplinas tradicionais do currículo escolar. Educar é preparar para a vida, para o trabalho e para os inúmeros desafios que compõem a trajetória humana, incluída nesse processo a transmissão das disciplinas tradicionais.

Por isso, não estamos dizendo que a aplicação das disciplinas existentes no currículo deva ser negligenciada. Pelo contrário, elas são parte integrante do processo de aprendizado e extremamente necessárias à vida do aprendiz. Apenas alertamos para o modo como esse conhecimento precisa ser conduzido na escola. A missão do professor é instigar a curiosidade e a sede de saber de seus alunos. Nesse sentido, tem de tecer correlações entre essas disciplinas e a realidade do estudante. Tem de levá-los ao questionamento, à dúvida, à reflexão. De nada adianta o aluno decorar fórmulas e datas. É necessário ensinar de forma sedutora. Em vez de exigir um conhecimento memorizado e vazio, por que não propiciar ao educando a possibilidade de fazer uma análise viva dos fatos? Por que não usar mais os jornais diários em sala de aula? Por que não visitar mais os museus e os centros-históricos das cidades? Por que não inovar dando uma aula no pátio ou nas redondezas da escola? Por que não visitar os parques e observar a manifestação da natureza in loco, como faziam os filósofos gregos? Por que não usar sucata para falar de física e química? Por que não ir ao teatro ou mesmo incentivar a encenação de peças na própria escola? São atividades simples e que garantem a aprendizagem significativa, ou seja, aquela que o aluno entende o motivo pelo qual está aprendendo determinado tema. Além disso, o trabalho com os temas transversais, “ética”, “meio ambiente”, “saúde”, “orientação sexual”, “pluralidade cultural” e “trabalho e consumo”, deve correr paralelamente à aplicação das disciplinas ditas tradicionais. Juntos, eles têm a função de formar cidadãos dotados de senso crítico e mais preparados intelectual e emocionalmente. Com isso, certamente teremos menos problemas relacionados à violência, à agressividade, à corrupção e às drogas, para citar apenas algumas das mazelas que atingem a sociedade nos dias de hoje. A missão do educador é edificar em seus aprendizes os princípios morais, que, infelizmente, têm sido relegados e esquecidos. Dignidade, fraternidade, amor ao próximo, honestidade e toda uma série de outros valores nobres responsáveis pela harmonia da vida em sociedade. Por isso, nosso objetivo maior é capacitar os professores de modo que possam preparar seus alunos não apenas para o vestibular, mas para uma vida cada vez mais repleta de desafios. Estamos vivendo um momento singular. O século XXI representa a Era da Informação e do Conhecimento. Conduzir as novas gerações rumo a essa magnífica aventura é uma tarefa difícil, mas não impossível. Não podemos nos deixar guiar pelo comodismo de um sistema de ensino arcaico, fundamentado na imposição autoritária de conceitos e de regras obsoletas que, durante anos, impediram a criação de uma escola mais democrática e verdadeira. Não podemos nos considerar mestres se agimos com preguiça e irresponsabilidade. Parafraseando William Shakespeare: “A nossa vida é o mesmo que uma comédia: o que importa não é ser longa, é se foi bem representada”. Então, tenhamos em mente que educar é abrir caminhos, ultrapassar fronteiras, desbravar trilhas rumo aos novos horizontes. Educar é uma via de mão dupla: tanto ensinamos quanto aprendemos. Tanto doamos quanto recebemos. Essa é a magia essencial que concede ao homem a sabedoria e a capacidade de superar-se a cada amanhã.

A progressão continuada e autoconfiança do aprendiz

Por Gabriel Chalita

Os modelos ultrapassados de ensino não têm mais lugar na sociedade competitiva e individualista do século XXI. A Era da Informação e do Conhecimento não condiz com a massacrante e antiquada educação elitista que promovia alunos “intelectualmente mais capazes” e excluía estudantes tachados como “problemáticos” por meio das repetências contínuas. Era um sistema castrador que eximia de si a responsabilidade de formar indivíduos de forma igualitária e condizente com a realidade democrática vigente.

O acesso à educação é um direito constitucional e vinha sendo negado e negligenciado por meio da evasão escolar provocada pela multirrepetência existente no país até há poucos anos. Paulo Freire já dizia uma verdade na qual também nos pautamos em nosso trabalho: “Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo. Por isso, aprendemos sempre.” A instituição do Sistema de Progressão Continuada prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB-1996) objetiva justamente a aplicação de metodologias diferenciadas que garantam ao aluno o direito ao aprendizado, a construção de sua auto-estima e o respeito pela sua maneira peculiar de assimilação de conteúdos. Por intermédio da implementação dessa mudança, alunos e professores tornaram-se as figuras centrais do processo educativo. Agora, o sucesso de ambos é interdependente. As formas de aplicação dessa nova iniciativa de maneira bem-sucedida também estão presentes no texto da nova LDB. São elas: ampliação da jornada escolar, a recuperação paralela e contínua dos alunos com dificuldades de aprendizagem, as horas de trabalho coletivo remunerado do professor para avaliação e capacitação; a proposta de esquemas de aceleração de aprendizagem para alunos multirrepetentes com grande defasagem idade/série; além do direito à reclassificação de estudos para todos aqueles que conseguiram aprender, independentemente da freqüência às escolas. É uma proposta revolucionária uma vez que implica a atuação comprometida do corpo docente em relação aos estudantes, por meio de um sistema de avaliação detalhado e criterioso. Hoje, professores, diretores e coordenadores pedagógicos assumem uma postura responsável em relação ao sucesso ou fracasso do aluno. O acompanhamento é realizado durante todo o ano, evitando que a evolução do aprendiz seja prejudicada. Antes, apenas o aluno sofria a cobrança pelo seu mau desempenho nos bancos escolares. As avaliações eram deficientes. Muitas vezes, a criança chegava a ser penalizada com a repetência por conta de um décimo em determinada disciplina. Cabia ao estudante refazer a série novamente, mesmo que tivesse se saído bem em todas as outras matérias. Hoje a situação é outra. A criação das medidas decorrentes da progressão continuada já provocou uma mudança significativa no tangente à redução das taxas de evasão escolar. Desde a década de 50, os índices de desistência chegavam a atingir 50% da população escolar. Um número absurdo mas, ao mesmo tempo, ignorado pelas autoridades, que nada faziam para reverter o quadro. O abandono acontecia após anos de permanência da criança na mesma série. Ninguém parecia importar-se com esses alunos. Qual era a lógica dessa sistemática? A resposta possivelmente estava em uma palavra: comodismo. Um comodismo oneroso que levou ao desperdício de milhões para os cofres públicos uma vez que produziu gerações despreparadas para o mercado de trabalho e para a vida em sociedade de maneira geral. Há tempos o sistema educacional brasileiro carecia ser revisto. A proposta de democratização do saber ganhou força desde a Revolução Francesa e a partir das mudanças ocorridas no século XX fez-se ainda mais necessária e urgente. A pedagogia moderna deve assegurar, em primeira instância, a formação de cidadãos dotados de visão crítica, de criatividade, de capacidade de contestação e argumentação. Pessoas intelectual e emocionalmente capazes de atuarem como agentes sociais competentes e participantes. Não podemos retroceder. Na maioria dos países tidos como desenvolvidos, a escola já abandonou o velho ranço autoritário desde os anos 50, após o advento da Segunda Guerra Mundial. Nesse período, a progressão continuada já era aplicada objetivando respeitar uma característica natural do ser humano: desenvolver-se no seu tempo e ritmo próprios. Sabemos que ainda há ajustes a serem feitos. Grandes mudanças e transições não se dão de um dia para o outro. Mas temos certeza de que estamos trilhando o caminho certo: o caminho da educação como condição primordial para o desenvolvimento do ser humano. Passo a passo construiremos uma nova história. Temos o aval de Clarice Lispector quando disse: “Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.”