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Cantares de perda e predileção

Por Gabriel Chalita

“Quero demais morrer segurando a mão de Lygia (Fagundes Telles), porque sei que ela vai entender tudo nessa hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fique calma e tal que é assim mesmo’”. Esse depoimento tocante, concedido pela poeta Hilda de Almeida Prado Hilst aos editores do Cadernos de Literatura Brasileira nº 8, publicado em 1999, expõe, mais do que um desejo, a certeza de uma amizade eterna.

De um sentimento abençoado pelos laços do amor fraterno, da prosa e da poesia. Infelizmente, a vontade manifestada por Hilda não chegou a ser concretizada. A autora, de 73 anos, faleceu na madrugada da última quarta-feira, no Hospital da Universidade de Campinas, vítima de falência múltipla dos órgãos, decorrente de seu estado de saúde há muito debilitado. Foram 41 livros publicados, alguns deles vencedores dos prêmios literários mais importantes do País. A literatura está de luto, como deveria estar todo o Brasil. Perdemos uma das personalidades mais fantásticas e fascinantes de nossas letras. Uma sedutora em potencial, que nos arrebatava pela sua palavra sempre visceral, originalíssima, fruto de seu espírito inquieto. Seus textos obedeciam, na maioria das vezes, apenas ao mundo sem leis do fluxo de consciência, resultando em uma experiência que explodia em páginas surpreendentes. O sagrado, o profano, o erótico, o metafísico, o religioso… Tudo era matéria para a nossa verdadeira “Hilda furacão”. Personagem real que transbordava inteira nas entrelinhas de seus textos. Ela era, com freqüência, a representação da fúria da natureza, mas também poderia representar, paradoxalmente, algumas de suas manifestações mais delicadas, como a “pluma” e a “flor” – feliz definição usada pelo historiador Jorge Coli, ou uma “Estrela Aldebarã”, como a chamou Carlos Drummond de Andrade em soneto dedicado a ela. O que nos consola é a certeza de que essa artífice das letras tenha seguido a profecia drummondiana, partindo para constelações acostumadas com a intensidade de seu brilho. Esperamos que, depois de tanta luta, Hilda esteja finalmente habitando esferas e dimensões povoadas por seres superiores, mais preparados para receber sua arte inovadora, radical, repleta de invocações ao divino e de questionamentos sobre a vida, a morte e a natureza das coisas. Até porque, por essas bandas da Terra, ainda causa tristeza saber que depois de uma existência inteira dedicada à literatura, nossa “Estrela Aldebarã”, já no fim da vida, tivesse de suportar o peso do rótulo de autora “hermética”. Embora tenha sido traduzida para o francês e para o italiano, a extensa obra de Hilda não encontrava, em seu próprio País, o reconhecimento merecido. Por esse motivo, nos anos 90, a poeta resolveu radicalizar em tom irônico e polêmico, escrevendo sua trilogia considerada pornográfica, composta pelos livros O caderno rosa de Lori Lamby, Contos d’ Escárnio/Textos Grotescos e Cartas de um sedutor. Independentemente do estilo que seguia, a formação religiosa – Hilda estudou em colégio de freiras na infância – influenciou, segundo a própria autora, toda a sua obra. “A minha literatura fala basicamente desse inefável, o tempo todo. Mesmo na pornografia, eu insisto nisso. Posso blasfemar muito, mas o meu negócio é o sagrado. É Deus mesmo, meu negócio é com Deus”, afirmou. Por isso mesmo, imaginamos que a esta altura, a irreverente autora de obras-primas como Roteiro do Silêncio, Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, Ficções, Cantares de perda e predileção, A obscena Senhora D, entre outras, certamente já está mais próxima de Deus, que tanto buscava, ao mesmo tempo em que declama versos para o amigo Caio Fernando Abreu, escritor, morto em 1996. Ou, quem sabe, já esteja debatendo filosofia e literatura com o pai, Apolonio de Almeida Prado Hilst – figura emblemática que povoou o imaginário de Hilda durante toda a sua vida e a quem a autora dedicou a íntegra de seu trabalho. Que a morte de Hilda nos faça olhar com mais atenção as pratas de nossa casa. E que seu tão alardeado “hermetismo” possa ser quebrado pela curiosidade de novos leitores dispostos a se debruçar sobre sua intertextualidade e sobre seu vocabulário singular e ousado, como o de Guimarães Rosa. Que possamos, enfim, amenizar a dor de perdê-la lendo e relendo a sua obra, que traz preciosidades como estas, publicados em Roteiro do Silêncio, de 1959: “Não há silêncio bastante / para o meu silêncio./ Nas prisões e nos conventos / Nas igrejas e na noite/ Não há silêncio bastante / Para o meu silêncio. (…) / O não dizer é o que inflama. / E a boca sem movimento / É o que torna o pensamento / Lume / Cardume / Chama”.

Navegar é preciso

Por Gabriel Chalita

O poeta português Fernando Pessoa era um visionário. Um mestre devotado à missão de traduzir o mundo por meio de versos. Com a sensibilidade peculiar à sua pena, utilizou uma frase “gloriosa” – como ele mesmo descreveu – e freqüentemente mencionada pelos antigos navegadores para sintetizar a grandeza de seu espírito e a de todos os gênios da humanidade: “Navegar é preciso; viver não é preciso”.

Esse lema serviu de inspiração para um dos versos mais belos e contundentes do artista lusitano: “Viver não é necessário; o que é necessário é criar”. Talvez sem se dar conta, Pessoa presenteou os educadores com um texto que resume, de forma brilhante, a verdadeira missão de quem ensina. Educar é isso. É criar de maneira ininterrupta. É inventar novas e melhores fórmulas de propagar saberes e conhecimentos vários. Educar é, ainda, navegar, cruzar veredas, desbravar fronteiras. Nesse sentido, as novas ferramentas tecnológicas são como bússolas que possibilitam aos viajantes desvendar novos caminhos e seguir em frente. Seguir por trajetos que facilitam e democratizam a transmissão de informações e conteúdos. Assim, a abertura do portal NetSer – voltado para professores – vem corroborar nossas hipóteses de que o processo ensino-aprendizagem tem na tecnologia mais do que um forte aliado. Tem um apoio essencial à arte de criar, idealizar e produzir mutuamente… À arte de revelar talentos, fazer germinar idéias e competências. É a poesia de Fernando Pessoa nos mostrando os rumos do século XXI Nesse contexto, esse novo portal dedicado à temática educacional configura uma enorme conquista a ser comemorada por educadores e educandos, mestres e aprendizes, que têm à sua disposição mais um veículo que contribui sobremaneira para o seu desenvolvimento e para a execução eficiente de suas inúmeras atividades. A elaboração de planos de aula, as pesquisas, o acesso ao banco de artigos, as sugestões de exercícios, os fóruns de discussão, os blogs e tantos outros serviços propiciados pelo portal irão oferecer aos professores os mecanismos mais velozes e modernos para enriquecer suas aulas. Com isso, os alunos poderão assimilar as disciplinas do currículo tradicional e as novidades trazidas pelos temas transversais de uma forma mais prazerosa, lúdica e dinâmica A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo acredita que o advento da tecnologia na sala de aula será um auxílio precioso para o educador – este sim o grande artífice que sustenta o processo ensino-aprendizagem. Compreendemos que essas novas ferramentas podem exercer um papel essencial à implementação de uma educação de excelência aos alunos da rede estadual. Por esse motivo, estamos trabalhando de forma incansável para atingir a universalização da informática pedagógica em nossas escolas. Os projetos em andamento sinalizam no sentido de que todas as unidades que atendem o Ciclo II do Ensino Fundamental e o Ensino Médio tenham sua sala-ambiente de informática ainda este ano. Atualmente, 3 mil dentre 4 mil dessas escolas já possuem essas salas. Nessas instituições estão cerca de 3 milhões de alunos, ou seja, 80% dos matriculados no Ciclo II e no Ensino Médio. Em 2004, as mil escolas restantes deverão receber seus equipamentos, o que permitirá que 100% dos alunos e dos professores que atuam nessas unidades participem da chamada “inclusão digital”. Para isso, estamos capacitando os educadores, de maneira que aprendam a utilizar os softwares e demais produtos que incrementem a ação pedagógica. O projeto global permitirá que a totalidade dos alunos e professores dos ensinos Fundamental e Médio tenha acesso à internet. Além disso, estamos implantando uma rede de banda larga nas escolas, visando integrar todos os órgãos da Secretaria numa única rede, conhecida no meio governamental como “INTRAGOV”. Nesta fase, que tem finalização prevista para março de 2004, estão sendo conectados 1200 prédios, entre escolas e Diretorias de Ensino. Até o final deste ano serão contempladas mais 1200 localidades. Como vimos, estamos atentos aos novos caminhos que nos levarão a uma sociedade mais informada, mais crítica, mais consciente. É, portanto, com imensa alegria que saudamos nossos parceiros nesta jornada rumo ao conhecimento. Que este novo portal mantenha conexão freqüente com a nova história da Educação paulista. Uma história mais bonita e, por que não dizer, mais poética – como são todas as grandes navegações.

Nova Febem: educação, recuperação e liberdade

Por Gabriel Chalita

”(…) Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta:/que não há ninguém que explique,/ e ninguém que não entenda!/”. Esses belíssimos versos extraídos do Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, são perfeitos para ilustrar o novo conceito de recuperação de adolescentes em conflito com a lei atendidos pela Febem. Trata-se de uma proposta ousada, moderna, fundamentada na expansão de unidades de semiliberdade, administradas pelo Governo do Estado, em parceria com entidades não-governamentais, dando início a um sistema de co-gestão.

Um exemplo disso é a recente inauguração do Espaço Educacional Profissionalizante da Febem, que já está funcionando desde o último dia 15, no prédio do antigo presídio do Hipódromo. Nessa unidade caberão à Febem as atribuições pertinentes ao Estado: dirigir e supervisionar todo o funcionamento de contenção dos adolescentes. Já a organização parceira da entidade, o Instituto Mamãe – Associação de Assistência à Criança Santamarense, contará com o apoio de um conselho gestor e irá desenvolver as atividades pedagógicas voltadas à ressocialização do jovem. O novo prédio tem capacidade para atender, inicialmente, 200 alunos. Para o segundo semestre, a previsão é ampliar esse número, de modo que 400 adolescentes tenham acesso aos benefícios do Espaço Educacional. É preciso ressaltar que os primeiros 40 aprendizes serão escolhidos dentro da Unidade de Semiliberdade Inicial, que abriga adolescentes que nunca haviam passado pela Febem e que receberam a semiliberdade como primeira medida determinada pelo Judiciário. A principal diferença entre essa unidade e as demais é que o adolescente receberá um atendimento ainda mais completo, sob a forma de aulas do ensino regulamentar (Fundamental e Médio) e também dos cursos profissionalizantes – panificação, estética, manutenção de computadores, gráfica -, perfazendo oito horas de estudos, no período diurno. Ao final do dia, os estudantes devem retornar para casa. Nas outras unidades de semiliberdade, o processo ocorre de forma inversa. Os jovens ficam fora o dia todo para trabalhar e estudar e retornam para a Febem à noite. Outra novidade capaz de revolucionar positivamente a vida desses jovens diz respeito à Orientação do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), instituição que irá propiciar aos adolescentes ensinamentos e informações indispensáveis sobre empreendedorismo e visão de negócios, qualificações oportunas à juventude do século XXI. O projeto encerra, ainda, outro aspecto inovador e essencial à ressocialização desses meninos: todos poderão prestar serviços à comunidade local, vendendo pães e consertando aparelhos eletrônicos a um custo bem menor do que aquele oferecido pelo mercado. Estamos convictos de que os adolescentes podem ser totalmente recuperados, desde que recebam oportunidades concretas de aprendizado, crescimento e desenvolvimento de seus talentos, habilidades e competências. A cada dia, os profissionais da Secretaria de Estado da Educação e das unidades da Febem se surpreendem com a determinação e a vontade de superar limites demonstradas por esses adolescentes nas oficinas pedagógicas, profissionalizantes e culturais que acontecem de forma simultânea em todas as nossas unidades. Que esses jovens do Espaço Educacional e Profissionalizante também nos surpreendam, da mesma forma que as moças e rapazes de outras unidades da Febem. Adolescentes que mudaram o rumo da sua história e que, por isso mesmo, já têm emprego garantido em grandes empresas e instituições como o Empório Ravioli, o Mc Donald’s, o Mister Sheik, o COC e a própria Secretaria de Estado da Educação. Jovens que despertaram para a arte e que nos comovem em suas apresentações de canto, teatro e música instrumental Nossa proposta inovadora tem o aval do mestre Anísio Teixeira, que em seu texto Por Que Escola Nova? sabiamente afirmou: “À medida que formos mais livres, que abrangermos em nosso coração e em nossa inteligência mais coisas, que ganharmos critérios mais finos de compreensão, nessa medida nos sentiremos maiores e mais felizes. A finalidade da educação se confunde com a finalidade da vida”. Esse é o lema que norteia o novo conceito da Febem. E você é nosso convidado para conhecer as unidades, assistir às apresentações dos aprendizes e, principalmente, compartilhar do sonho de construir, pedra por pedra, as bases da fundação dessa nova geração. Uma geração composta por seres humanos que, um dia, erraram – como todos nós erramos -, mas que souberam fazer disso uma grande lição e uma ponte para a conquista da dignidade.

São Paulo: poesia concreta

Por Gabriel Chalita

São Paulo. 450 anos. Pintura paradoxal que reflete o moderno e o tradicional em linhas complexas, amplas, pungentes. Linhas traçadas por mais de dez milhões de artistas que habitam esta metrópole e desenham, juntos, uma das paisagens mais fascinantes e dinâmicas do planeta. Não é exagero dizer que a “terra da garoa” dá frutos singulares, uma gente que, por sua vez, tem em suas raízes ingredientes diversos que provêm do caldeirão miscigenado que compõe o Brasil.

São Paulo é, na verdade, um grande coração. Supermãe cujos braços abertos se estendem para quantos filhos desejarem vir. Nesta metrópole, diferentemente do que acontece em outras grandes cidades do mundo, é possível conviver com pessoas das mais variadas origens, religiões, raças e classes sociais. Aqui não há guerras nem disputas ideológicas sangrentas. Existe – verdade seja dita – a desigualdade social… Mas, há, sobretudo, a esperança, o trabalho e a dedicação de milhões de pessoas que lutam para reverter esse quadro, numa batalha cotidiana pela igualdade, pelo compartilhar das tantas riquezas que fazem de São Paulo a locomotiva veloz que conduz o desenvolvimento nacional, desde há muito tempo. Já no século XIX, a história da maioria dos paulistas foi iniciada pelas linhas sinuosas e belas do Porto de Santos – onde desembarcaram milhares de italianos, árabes, japoneses, alemães e tantos povos que vieram juntar-se aos portugueses na busca de uma nova terra prometida. Terra descrita como fantástica, dadivosa, repleta de oportunidades. Os imigrantes subiram a Serra do Mar movidos pelo impulso do sonho e do trabalho abundante capaz de concretizar os projetos e os ideais desses viajantes que descortinavam novos horizontes. E São Paulo acolheu a todos, sem distinção. O resultado dessa recepção fraterna e calorosa está na extrema riqueza cultural advinda dessa mistura forte, temperada, privilegiada que produziu um povo criativo, corajoso, apto a construir, empreender, transformar. Esta cidade reflete, em essência, o que é o Brasil. Somente São Paulo, com sua extensão territorial gigantesca, é capaz de sintetizar esse País original, místico, sincrético. Quebra-cabeças que abriga peças provenientes dos mais variados rincões. Trata-se de uma metrópole que pulsa, vibra e se mantém desperta. É a efervescência que se antecipou ao século XXI. São Paulo não pára. Não dorme. Não reconhece a apatia, a falta de estímulo. Pelo contrário, é uma eterna festa de cores, sons, sabores, imagens. Cenas que encantam, seduzem, instigam e também transtornam e surpreendem, às vezes, negativamente… Mas essa é apenas uma parte do seu todo formidável. Devemos agradecer a oportunidade de fazer parte dessa lenda urbana que une doses maciças de caos e de ordem, de singeleza e de luxo, de simplicidade e sofisticação. Nesse sentido, neste aniversário histórico, que todos possamos olhar à nossa volta e enxergar os contornos concretos dessa obra que constantemente se renova e que já indica novos e melhores tempos. Por tudo isso: parabéns São Paulo. Parabéns Brasil! Gabriel Chalita Secretário de Estado da Educação

Um aprendizado contínuo

Por Gabriel Chalita

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. A frase magistral, extraída da obra Grande Sertão: Veredas, do mestre João Guimarães Rosa, encerra uma série de conceitos, idéias e sugestões capazes de nos arrebatar por dias seguidos, tamanho o seu impacto e a sua densidade. Como quase tudo que o autor de Sagarana escreveu, ela exerce nos leitores um fascínio quase hipnótico, justamente porque representa uma síntese rara que une poesia e filosofia, convidando-nos à reflexão e também à apreciação estética.

Ela nos leva a pensar sobre as experiências que vamos acumulando durante a vida e o modo como elas ajudam a moldar nosso caráter, nossa personalidade, nosso jeito singular de ser, de existir no mundo. Nossa convergência ou divergência dos valores, da ética, da moral. Guimarães Rosa parecia mesmo possuir a chave que abre a porta dos mais diversos mistérios que regem a aventura humana. Não foi à toa que, quando de sua morte, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu para ele o poema “Um chamado João”, em que, de forma sábia, questionava a melhor maneira de definir o criador de Riobaldo e Diadorim: “Embaixador do reino/ que há por trás dos reinos,/dos poderes, das/ supostas fórmulas/ do abracadabra, sésamo?/”. O poeta de Itabira acertara mais uma vez. Assim como ele próprio o era, há artistas, escritores e pensadores que nos instigam, com suas obras, a encontrar o caminho do meio-termo, do equilíbrio entre a razão e a emoção. Um caminho que nos leva a apreender a magia do real. Um real muitas vezes invadido, enriquecido e incrementado pelas vias do imaginário. Esse imaginário tomado pela percepção aguçada que adquirimos por intermédio de suas histórias, de sua lógica primorosa, de seus sentimentos, de suas emoções. A leitura e o conhecimento são, por assim dizer, as pedras fundamentais das construções que originamos em nossa passagem na Terra. Ambos nos possibilitam, ainda, integrar os mais variados rincões espácio-temporais. Sentimos, por exemplo, um gosto doce de eternidade quando lemos estes versos de “Evocação ao Recife”, de Manuel Bandeira: “Recife… /Rua da União…/ A casa de meu avô…/ Nunca pensei que ela acabasse!/Tudo lá parecia impregnado de eternidade/ Recife…/. Rosa, Drummond e Bandeira nos mostram que os grandes artistas e pensadores nos capacitam para uma jornada que mescla as lembranças do passado e a compreensão do presente, perfazendo vias que, comumente, podem nos transportar às paisagens tão sonhadas para o nosso futuro. Três tempos que, juntos, propiciam descobertas fantásticas. O conhecimento que transmitem por intermédio de seus textos e de sua arte nos impulsiona a seguir veredas especiais e a sair das cavernas escuras da ignorância. Foi assim, também, com os filósofos gregos, dentre eles, Aristóteles, que no livro Ética a Nicômaco desenvolveu um verdadeiro tratado sobre a arte do bem-viver. A obra do preceptor de Alexandre, o Grande, foi escrita especialmente para mostrar a Nicômaco, filho de Aristóteles, as direções mais adequadas a tomar para uma vida pautada pela ética, sustentada pela tolerância, pelo respeito aos seus semelhantes, pelo cultivo da amizade e do amor. Escrito há mais de dois mil anos, o texto é cada vez mais atual e necessário. Neste início de século XXI, seria maravilhoso se todos tivessem a oportunidade de se debruçar sobre essa obra magnânima. Foi pensando nisso que apostamos na idéia de realizar trabalhos que divulguem e propaguem idéias fundamentadas nesse livro de Aristóteles, utilizando, no entanto, linguagens e exemplos mais próximos da nossa realidade. É nossa esperança contribuir para que todos, principalmente os mais jovens, despertem para a apreciação de textos mais reflexivos e para a leitura de temas relevantes. Trata-se de uma tentativa de traduzir de forma mais contemporânea os caminhos inicialmente indicados por Aristóteles para a felicidade, para a prática do bem, para o apego à justiça e à sua propagação, para as atitudes moderadas, para a sapiência em concretizar as melhores escolhas, em conhecer e praticar as virtudes mais nobres, em valer-se da razão e do coração, em cultivar o amor e, principalmente, ser feliz. Sabemos que não existem fórmulas prontas ou tampouco mapas que apontem o passo a passo para a edificação de uma vida digna e honrada. Entretanto, temos convicção de que o conhecimento é o único passaporte capaz de levar as pessoas a uma postura verdadeiramente ética e a atitudes condizentes com as sugestões do filósofo grego, que dizia: “Toda a arte e toda a indagação, assim como toda ação e todo o propósito, visam a algum bem”. Esse é o nosso maior desejo: fazer o bem para os que buscam compreender um pouco mais sobre o seu norte e sobre as bússolas que podem conduzi-los pelo grande Sertão que é a vida. Acreditamos na grandeza dessa jornada, sobretudo porque temos o respaldo do mestre Rosa, embaixador de todos os reinos, quando afirmou, pela boca da personagem Riobaldo: “Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar (…) O sertão é do tamanho do mundo”. Que o nosso mundo e as nossas fronteiras possam se expandir, sempre, pela estrada verdejante da ética.

À rainha de Rachel de Queiroz

Por Gabriel Chalita

“O inimigo do meu texto sou eu. Quem não é exigente e cai na complacência está perdido. Quem achar que o texto está bonito, está perdido… Entrego o livro para o editor morrendo de medo”. Por meio desses dizeres contundentes e confessionais, proferidos pela escritora Rachel de Queiroz em entrevista à Bia Corrêa do Lago, no programa Umas palavras, do Canal Futura, é possível vislumbrarmos a dimensão da mulher extraordinária que foi a autora do romance O quinze, escrito na época em que era uma jovem professora de 19 anos.

A obra aborda o flagelo da seca que atingiu o Nordeste brasileiro em 1915. O livro, elogiado por Mário de Andrade e Augusto Frederico Schmidt causou forte impressão no meio literário, a ponto de o escritor Graciliano Ramos duvidar da autoria do texto de Rachel: “Durante muito tempo, ficou-me a ideia idiota de que ela era homem, tão forte estava em mim o preconceito que excluía as mulheres da literatura”, confessou o autor de Vidas Secas. Mas o processo de criação de O quinze já oferecia pistas sobre a genialidade da autora. “Eu era uma moça magrinha. Minha mãe tinha muito medo de que eu ficasse tísica e me proibia de dormir tarde. Assim, escrevi O quinze às escondidas, depois que todos dormiam, de barriga no assoalho, em caderno de escola, à luz de lampião”, revelou em depoimento ao jornalista Roberto D’Avila. Mesmo sendo autocrítica, modesta, incapaz de enxergar o verdadeiro valor de sua literatura, Rachel de Queiroz tornou-se uma das personalidades mais representativas do cenário nacional. Sua prosa concisa, direta e impactante trouxe à baila uma nova perspectiva literária para o Brasil do início do século XX. Assim como a maioria das mulheres nordestinas, suas personagens eram fortes, decididas, partidárias de lutas incomensuráveis. Lutas contra a pobreza, a seca e as injustiças sociais que recaíam com maior intensidade sobre as representantes do sexo feminino. Injustiças que emolduravam um país tradicionalista, conservador, patriarcal. Pioneira, Rachel de Queiroz quebrou paradigmas durante toda a vida. Sua precocidade era, sem dúvida, um dos pilares que sustentavam sua postura singular. Rachel escreveu suas primeiras histórias aos 11 anos. Textos de terror que qualificava em suas entrevistas como “ruins demais”. Mas seu talento, comumente, extrapolava suas considerações a respeito do seu trabalho. Ainda adolescente, a professorinha causou espanto ao assinar artigos nos jornais do Ceará sob o pseudônimo de Rita de Queluz. Décadas depois, em 1977, foi a primeira mulher a entrar na hermética Academia Brasileira de Letras. Já sua paradoxal trajetória política – Rachel passou de comunista à defensora da direita no período pré-64 – é mais um traço marcante capaz de expor sua natureza firme, coerente, sobretudo, com as suas próprias idéias e a independência de mudá-las sempre que achasse necessário. Rachel nunca se deixou abater pelo medo ou pela covardia. “Sou uma mulher prática. Como boa cearense, arredondo o lombo e aguento a pancada”, afirmou à Bia Corrêa do Lago. Sua autenticidade era admirada por todos. Essa qualidade, somada às outras incontáveis virtudes que possuía, certamente contribuiu para que o acadêmico Arnaldo Niskier a comparasse a uma rainha. “Temos muitas princesas, mas… rainha, só Rachel de Queiroz”. A escritora, entretanto, pensava diferente e elegeu outra mulher para o alto posto monárquico das letras nacionais: “Clarice (Lispector). Ela foi a maior de todas nós”, declarou, em 1997, aos editores do Cadernos de Literatura Brasileira. Rachel era mesmo surpreendente. Divorciou-se numa época em que poucas mulheres tinham coragem de fazê-lo. Não é à toa que saíram de sua pena personagens como a professora Conceição, de O quinze, Dôra, Doralina, do romance homônimo, As três Marias, do livro do mesmo nome e, é claro, a protagonista de Memorial de Maria Moura. Na complexa escola da vida, nossos jovens precisam alimentar-se da prosa de Rachel, precisam aprender a amá-la e a louvá-la, como fez o poeta Manuel Bandeira quando escreveu: “Louvo o Padre, louvo o Filho, o Espírito Santo louvo. Louvo Rachel, minha amiga, nata e flor do nosso povo. (…) brasílica, brasiliense, brasiliana, brasileira.(…). Louvo a sua inteligência, e louvo o seu coração. Qual maior? Sinceramente, meus amigos, não sei não (…)”. Nesse momento em que a presença física de Rachel não mais existe entre nós, temos, mais do que nunca, de celebrá-la. Temos de apresentar suas histórias, suas mulheres e seu sertão às novas gerações que desconhecem a delícia de saciar a sede de bons textos na sua prosa. E para quem já desfruta de seus escritos, resta apertar um livro de Rachel no peito, imaginando a frase simbólica e bela que dá nome à fazenda da autora, em Quixadá, no Ceará: “Não me deixes”. É isso. Que a obra de Rachel sempre nos acompanhe. E louvado seja.

Respeito e admiração

Por Gabriel Chalita

Professor, professora. Educadores. Todo dia é dia do mestre! De quem ensina e de quem aprende. De quem entende o sublime destino de caminhar ao lado das sendas do conhecimento, do aprendizado, do encontro com o novo, com o recontado. Histórias do cotidiano de milhares de professores e professoras que nos mais diversos rincões exercitam essa magnífica expressão de amor: partilhar sonhos, medos, angústias, dúvidas, projetos, vida.

Agostinho de Hipona, famoso pregador medieval, ensinava por meio de sermões. Dizia que o sermão era uma dívida de amor que deveria ser paga sempre. O amor que transbordava, conhecimento vivo, vivificador. Palavra poderosa que animava, isso é, dava alma aos fiéis ouvintes. Rousseau, em Emílio, obra clássica da educação, clamava: “(…) uero ensinar o mais importante: quero ensinar-lhe a viver”. É o amor que ensina a viver. E isso não é utopia. É o cotidiano dos nossos mestres nas salas de aulas. Regentes de instrumentos diversos. Uns mais afinados, outros mais arredios. Mas todos com sua beleza. É preciso talento: saber ouvir, puxar a corda até o ponto certo para que não fique frouxa nem arrebente. Entender o tom e o modo de misturar tantas e tão diversas habilidades. O resultado é a sinfonia que se nota nas salas de aula, lugar sagrado em que mestres e aprendizes vivem a poesia da vida. Nietzsche falava dessa poesia nas menores coisas. O olhar no olhar, por vezes distante e entristecido do aluno. Por vezes agressivo, não por essência, mas por ausência. Ausência de afeto, de projetos, de futuro. Basta dar perspectiva aos jovens e eles se tornam gigantes. E isso nós também percebemos em nossas escolas. Dia do mestre. O governador Geraldo Alckmin conta com entusiasmo sobre seus tempos de professor. Histórias do curso de madureza. Histórias da química orgânica, matéria que regia magistralmente como mestre que já antecipava o carinho e o respeito que tem pelas pessoas. E é esse respeito que faz com que ele coloque a educação como a grande prioridade de seu governo. E nesse diapasão multiplicam-se os projetos e as ações. A Escola da Família e o desafio de levar 6 milhões de famílias às escolas, nos finais de semana, para a difícil arte da convivência. Aprendizado conjunto, eficaz. 25 mil bolsas de estudos para jovens carentes egressos de escolas públicas. É praticamente uma nova universidade. Além disso, a implantação da USP, na Zona Leste, e a ampliação da UNESP. O crescimento das Faculdades de Tecnologia. É o governo educador. Sério. Transparente. Sabe que ainda falta muito, mas tem consciência de que educação é processo e não demagogia. São Paulo tem os melhores índices de informatização escolar. Enquanto no Ensino Médio temos 95% das escolas com computadores, a média nacional é de 38%. É ainda o único Estado que garantiu o curso de graduação aos professores e agora lança o programa Bolsa-mestrado para que o mestre que ensina possa aprender cada vez mais. O investimento em formação continuada não pára por aí: o programa de inclusão digital possibilitou que 60 mil professores pudessem ter computador em casa. Além disso, criamos programas como Teia do saber e Rede do saber. A maior rede de videoconferência do País e uma das maiores do mundo com mais de 100 pólos de alta geração, utilizando a tecnologia para desenvolver a sensibilidade. Dia do mestre. Tarefa árdua e gratificante. O que pensa o alfabetizador quando percebe os rabiscos se transformando em letras, palavras, pensamento? O que sente o professor de matemática com as primeiras operações que se transformam em equações e demonstram a força do raciocínio? E os primeiros estudos de ciências? A curiosidade fremente nas descobertas do corpo humano. Edificadores de uma história em construção perene. Guerreiros medievais, artistas renascentistas. A arte. A magia da arte que leva ao palco, aos muros das escolas, aos corais que multiplicam essa sensibilidade que não pode ficar adormecida. E a literatura? A história dos sentimentos. História contada por filigranas de quem enxerga um pouco mais e transforma o cotidiano em uma inesquecível narrativa. E assim sucessivamente. O conhecimento se avolumando e dando maturidade aos navegadores que ainda temem deixar o porto-seguro. É preciso pensar com liberdade. Aluno não é receptáculo de conhecimento. É águia ensaiando vôo. Respeitar e valorizar o mestre é tarefa de todos. Governo e sociedade. Se há professores que não ensinam e que não têm o grande compromisso de educar, essa minoria não pode tirar o brilho da grande plêiade de mestres que dedicam a vida à arte de fazer pessoas felizes. Arte de amor… Como os sermões de Agostinho de Hipona, a educação cotidiana de Rousseau e a poesia da simplicidade de Nietzsche.

Reverência aos poetas do magistério

Por Gabriel Chalita

Neste dia 15 de Outubro, como acontece todos os anos, há algo diferente no ar. Uma força e uma beleza incomensuráveis se desprendem do cerne do universo educacional e contagiam ambientes variados. Contagiam todas as pessoas que, por um segundo, param para refletir sobre a importância dos professores. Sobre a contribuição efetiva que têm para a formação de gerações sucessivas. Sobre o modo apaixonado com que se entregam ao exercício cotidiano do magistério.

Reside aí a sua imensa força: na paixão. No jeito singular e quase heróico com que enfrentam e superam desafios diversos. Hoje, de forma especial, os ideais de Anísio Teixeira, Paulo Freire, Maria Montessori, Jean Piaget, Vigotsky, Darcy Ribeiro e tantos outros educadores que fizeram história certamente pulsam com mais intensidade nos corações de todos os seus discípulos. Mestres espalhados pelos quatro cantos do mundo. Cavaleiros e amazonas incansáveis, movidos por sonhos, projetos, idéias e, sobretudo, por coragem. Coragem para enfrentar e vencer as lutas diárias dessa saga sublime que é ensinar, transmitir saberes, propiciar cidadania, despertar talentos, desenvolver habilidades. Todos esses desafios instigantes norteiam o destino dos componentes desse verdadeiro exército do bem. Soldados que empunham livros em vez de armas. Poetas vivíssimos que declamam a própria grandeza da vida nas salas de aula do mundo. Declamam, portanto, possibilidades de futuro para seus numerosos aprendizes. Declamam seus versos livres, suas prosas impregnadas de amor pela arte de educar, seu esforço ininterrupto em compartilhar informações e conhecimentos… Tudo converge para que mereçam nossa absoluta reverência. E é esse o nosso objetivo maior neste Dia dos Professores. A Secretaria de Estado da Educação se orgulha de possuir em seu quadro de funcionários 230 mil educadores. Homens e mulheres comprometidos – de corpo e alma – com as exigências, alegrias e lutas pertinentes ao exercício do binômio ensino-aprendizagem. Profissionais dedicados que trabalham dia a dia pela implementação de uma educação de excelência. Uma educação capaz de oferecer aos estudantes uma aprendizagem integral, humanista, voltada ao crescimento pessoal/profissional e emocional/intelectual de crianças e jovens e adultos. Nosso projeto educacional para São Paulo jamais seria possível sem o auxílio precioso desses parceiros magníficos. Verdadeiros companheiros de jornada que estudam, planejam, experimentam, discutem, debatem, refletem e proporcionam o surgimento de consciências críticas em seres humanos capacitados não só para o trabalho mas para a real e complexa aventura que é a vida no século XXI. São eles os guardiões de meninos e meninas, moças e rapazes que configuram a esperança em tempos melhores. Eles, os professores, assumem para si a responsabilidade inenarrável de ser, a um só tempo, misto de educadores, tutores, pais, mães, amigos, irmãos mais velhos, psicólogos, médicos, enfermeiros… Ser educador é conjugar o mundo no plural. É acreditar na robustez e na intensidade do “nós” em detrimento da fragilidade solitária do “eu”. Sobre essa união mágica de “eus”, no poema “A escola”, Paulo Freire nos revela: “Escola é, sobretudo, gente,/ gente que trabalha, que estuda,/ que se alegra, se conhece, se estima./ O diretor é gente,/O coordenador é gente,/ o aluno é gente,/cada funcionário é gente. E a escola será, cada vez melhor/na medida em que cada um/se comporte como colega, amigo, irmão./ Nada de “ilha cercada de gente por todos os lados (…)”/. É isso. Sabemos que nossos educadores acreditam e trabalham por essa educação “plural”, guiada e orientada para o coletivo e para a felicidade. Vocês, mestres, estão contribuindo para a escritura de uma nova história da educação. E, para isso, esperamos que o espírito inquieto, dinâmico e idealista de todos vocês prossiga contaminando cada vez mais corações e mentes. Seres em formação que – em um futuro breve – serão homens e mulheres aptos a imprimir suas marcas na História. Indivíduos dotados de consciência crítica, talentos e habilidades necessárias à evolução e ao progresso responsável. Por tudo isso, recebam, neste Dia dos Professores, nossas mais sinceras reverências. Parabéns hoje e sempre! E, mais do que nunca: obrigado.

A ciranda de uma estrela

Por Gabriel Chalita

A literatura é uma espécie de passaporte mágico. Um bilhete singular que nos permite cruzar as fronteiras do tempo e do espaço, da luz e das trevas, do real e do imaginário, do particular e do universal. Uma vez viajantes, somos conduzidos por enredos, tramas e personagens que comumente nos transportam para dimensões paralelas. Universos capazes de mesclar passado, presente e futuro, terra e céu, tristeza e alegria, grito e silêncio, medo e coragem, desejo e repulsa, configurando uma confluência tão inusitada quanto sedutora. Livros e histórias preservam em seu gene elementos surpreendentes e sensações indescritíveis.

A nós, leitores, cabe embarcar nas aventuras criadas pelos escritores – homens e mulheres que descendem da linhagem onírica do mago Merlin. Bruxos do bem que detêm uma sabedoria especial. Alquimistas especializados em misturas e poções poderosas. Juntos, compartilham entre si o dom da criação: “inaugurando linhagens e fundando reinos”, como já disse a poeta Adélia Prado certa vez… Escritores são como divindades capazes de dar um sentido ainda maior à vida de todos nós, que pertencemos ao rol de personagens da existência real. Esse poder possivelmente determina a essência da escritora paulista Lygia Fagundes Telles, homenageada na Sala São Paulo, neste dia 29 de setembro, para marcar o Lançamento do “I Prêmio de Literatura Lygia Fagundes Telles”. Durante todo o mês, as escolas da rede estadual de ensino organizaram eventos e realizaram estudos relativos à obra da autora. Lygia é misto de mulher e de deusa, que nos arrebata pela palavra e nos domina pelo verbo. Artífice do texto, Lygia nos concede, com suas histórias, os instrumentos necessários para transitar entre a seara do concreto e do abstrato, do possível e do impossível, da sanidade e da loucura, do bem e do mal, do sagrado e do profano – numa dialética de diversidade fascinante. Dialética que nos desperta para a importância dos ensinamentos conquistados por meio da esfera da fantasia. “A criação literária é um mistério”, disse Lygia certa feita. Talvez seja por isso que não saibamos explicar racionalmente como os seus personagens, sejam eles homens ou mulheres, meninos ou meninas, formigas ou anões, podem, a despeito das diferenças que os regem, ser frutos de uma mesma pena e nos mostrar visões e percepções tão distintas dos seres e das coisas. Construtora de emoções, Lygia acredita que o escritor é uma “testemunha do seu tempo” e que o “duro ofício de escrever é uma ponte que se estende tentando alcançar o próximo”. E nós sabemos que fomos, sim, alcançados. Prova disso é que seus textos nos transformam, nos atormentam, nos expõem às dores e às delícias da condição humana. Seus escritos nos fazem mergulhar para dentro de nós mesmos, desvendando novos caminhos e possibilidades para o existir. A literatura de Lygia nos impulsiona para o questionamento e para a reflexão. Todas essas viagens ao centro de nós mesmos – verdadeiras imersões literárias e humanas propiciadas pelos grandes autores – nos concedem um certo grau de divindade também. Assim como eles, parece que dispomos de onisciência e de onipresença. São viagens que nos fazem transcender na medida em que nos permitem o encontro com nossos outros eus… Heterônimos geniais que habitavam em nosso íntimo sem que, no entanto, pudéssemos ter acesso a eles sem o auxílio precioso da literatura. Descobrimos, encantados, que podemos ser heróis e vilões das mais variadas estirpes e nuances… Podemos também voltar à infância e, novamente, ser criança. Podemos, enfim, ser qualquer coisa e experimentar qualquer sentimento que compõe um romance, uma história, um conto. A literatura nos multiplica, nos transforma, nos desperta para outras realidades. A literatura nos faz sonhar, nos redime, nos escandaliza, nos provoca a catarse muitas vezes necessária para que nos reconheçamos em essência. Por isso estamos aqui para fazer reverência à Lygia Fagundes Teles, uma mulher iluminada cuja trajetória poética se confunde com a própria poesia de São Paulo. Poesia de uma cidade contraditória, paradoxal, pulsante… Metrópole que assusta e, ao mesmo tempo, seduz, assim como a obra de Lygia. Vemos essa característica com nitidez em seu belíssimo conto Venha ver o Pôr-do-Sol, quando a escritora revela, por meio da personagem Ricardo, todo o seu fascínio pela multiplicidade das coisas: “(..) a beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa ambigüidade”. É isso. A obra de Lygia é grande de mais para que a classifiquemos apenas como o dia ou como a noite. É preferível visualizá-la como uma linha tênue entre os dois tempos. É a lembrança do sol, mas é também a promessa das estrelas. A obra de Lygia exerce sobre os leitores um encanto vigoroso como aquele vivenciado pelo protagonista do seu conto “A caçada”. Um homem que, após ver uma cena de caça bordada num tapete, vai-se deixando absorver pela representação do desenho, a ponto de se fundir com a imagem e perder sua própria identidade nas tramas simbólicas da figura. O homem não sabe se é a caça ou o caçador mas, mesmo assim, se entrega de forma impulsiva e passional, passando a integrar o desenho. É mais ou menos esse sentimento inexplicável que nos puxa para os textos dessa grande autora. Lygia nos preenche e nos fascina. Lygia habita em nós. Não é à toa que um dos grandes mestres da poesia brasileira, o poeta Carlos Drummond de Andrade, escreveu para ela os seguintes versos: Procuro Lygia em São Paulo, Rua da Consolação? Na fazenda da Palmeira Ou em Campos do Jordão? Procuro Lygia no mapa do mundo aberto em clarão? Em Paris, Tegucigalpa Moscou, Irã, Hindustão? Não procuro Lygia: encontro-a dentro do meu coração. Drummond sintetiza, nesse poema, a força fenomenal de Lygia e o modo como, sem muitas vezes nos dar conta, somos seduzidos por ela, presenteando-a com um lugar de destaque em nossas vidas. Seus amigos mais próximos, poetas sensíveis que puderam desfrutar tanto da beleza de sua obra quanto da beleza de sua vida, não escondem o poder de Lygia e a influência impressionante de sua presença ao longo dos anos. Em meio às Invenções e memórias e às numerosas Histórias de desencontro que marcam nossa jornada neste mundo, Lygia consegue exercer, verdadeiramente, uma eficiente Disciplina do amor, que se estende dos seus amigos próximos aos leitores mais longínquos e desconhecidos. Estamos aqui para provar o nosso amor por essa autora magnífica e para dizer que compreendemos a vontade maior da escritora Hilda Hilst, amiga íntima de Lygia desde a juventude e que, numa entrevista, confessou: “Quero demais morrer segurando a mão de Lygia, porque sei que ela vai entender tudo nessa hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fique calma e tal que é assim mesmo’.” Sábia Lygia Fagundes Telles… Mulher altruísta que se doa por meio da literatura e que acredita no poder renovador e revelador da palavra. Finalizamos nossa fala lembrando sua maravilhosa resposta quando questionada sobre se a literatura pode melhorar as pessoas: “Pode melhorar, sim. Pode desviar do vício, da loucura. Pode estancar a loucura através do sonho. Eu tenho um impulso que talvez seja um impulso cristão, pelo próximo. (…) E a literatura me proporciona isso. (…) É uma forma de amor. Acho que é isso. No fundo a literatura é uma forma de amor”. Receba, Lygia, o nosso carinho. E o nosso amor.

Por uma educação poética

Por Gabriel Chalita

Em seu poema “Belo Belo”, publicado na obra Lira dos cinquenta anos, o poeta Manuel Bandeira dispara: “Não quero amar,/Não quero ser amado./Não quero combater,/Não quero ser soldado/. – Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples/. Por meio do discurso dessa autoridade incontestável da seara das letras, impregnado de uma sabedoria que a maioria de nós busca alcançar, nos sentimos propensos a refletir sobre a grandeza existente nas coisas singelas e a forma como elas conduzem nossos corações e mentes para o caminho do que é realmente importante à existência humana.

Possibilitar essa visão apurada da vida é contribuir para o entendimento de que a felicidade é composta pelas ações e sensações presentes nas coisas mais corriqueiras. Esse aprendizado deve ser, ou pelo menos deveria, um dos objetivos primeiros da educação. Nas disciplinas do currículo regular, na abordagem dos temas transversais, nas numerosas atividades que devem configurar o ano letivo das escolas – semanas culturais, gincanas, passeios, comemorações cívicas -, é necessário que os educadores propiciem aos seus aprendizes a consciência do que é o bem, o bom e o belo. Até porque essa tríade, capaz de dotar o espírito e a mente humana do viço e da energia essenciais à edificação de ideais nobres, cria um círculo virtuoso fundamental à convivência social pacífica, ao desenvolvimento do caráter ético e ao fortalecimento de valores como: honestidade, lealdade, respeito, civilidade, fraternidade, solidariedade e senso de justiça. Essas e tantas outras percepções e virtudes provêm do aprendizado adquirido na família e também das influências recebidas pelo meio. É aí que entra o papel da escola e o trabalho sensível dos educadores. Mestres são também maestros. Regentes cuja missão é ensinar aos músicos/aprendizes a ler as partituras da vida equilibrando razão e emoção, competência técnica e amor. Para isso, há que se despertar os educandos para o singelo, para a verdade e para a beleza essencial de todas as coisas. Em seus versos irretocáveis, Manuel Bandeira sintetiza parte dos conceitos filosóficos descritos por Platão a respeito do belo, tanto em seu texto Fedro, quanto em República. No primeiro, o filósofo nos diz: ” (…) na beleza e no amor que ela suscita, o homem encontra o ponto de partida para a recordação ou a contemplação das substâncias ideais”. Já em sua República, Platão compara o bem ao Sol, que dá aos objetos não apenas a possibilidade de serem vistos, como também a de serem gerados, de crescerem e de nutrir-se. O pensamento filosófico e a poesia não oferecem mapas ou guias para a felicidade. Muito melhor do que isso, apontam caminhos para que possamos ter o prazer de encontrá-la pelos nossos próprios esforços. Assim deve ocorrer também com a educação, cujo compromisso maior precisa ser o de proporcionar escolhas, opções de rota, além de fornecer aos seres em formação os instrumentos básicos para as suas jornadas pessoais. Mestres e aprendizes têm de compartilhar a fascinante aventura da troca e da descoberta, de modo que, juntos, ampliem a capacidade de olhar as paisagens da vida com os olhos de ver… Carlos Drummond de Andrade – outro mestre sagrado da poesia – já falava sobre isso em seu belíssimo poema “A flor e a náusea”, do livro A rosa do povo: “Uma flor nasceu na rua!/(…)Uma flor ainda desbotada/ilude a polícia, rompe o asfalto./Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/garanto que uma flor nasceu./(…)É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio/.” Essa visão privilegiada dos poeta, dos grandes visionários e filósofos tem de estar no cerne das propostas educacionais. Seja nas instituições de ensino superior, seja nas escolas da rede pública ou privada, nos colégios da periferia, quiosques, cabanas e ocas em que a educação transcende as carências de infra-estrutura física e material e se dá por meio do altruísmo de milhares de mestres que habitam os mais variados rincões do País…. É preciso utilizar uma pedagogia que revele o bom, o bem e o belo em sua essência primeva. No ensaio “Inquietudes na poesia de Drummond”, do livro Vários Escritos, o professor Antonio Candido discorre sobre o que chama de “função redentora da poesia”. É esse o alerta e o norte necessário à educação de excelência. No dia-a-dia da sala de aula, no vaivém do processo ensino-aprendizagem, no ritmo alucinante da busca pelo saber, é necessário encontrar um tempo para ler, reler e resgatar, enfim, os dizeres dos grandes filósofos e poetas, de modo que possamos nos educar e educar aos demais para olhar o asfalto e, ainda assim, poder enxergar a flor.