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Discurso de Posse na APL

Por Gabriel Chalita

Senhor Presidente
Senhoras e senhores acadêmicos
Ilustres convidados

Quero compartilhar com os presentes, nesta ocasião ao mesmo tempo solene e festiva, uma visão, uma imagem, que me ocorreu ao pensar nesta augusta Academia Paulista de Letras — palco iluminado, em que atores da palavra representam espetáculos grandiosos, cenário de mares revoltos em que navegadores benfazejos dominam múltiplas naus. As naus da poesia, da prosa, da filosofia, da história, do teatro, dos signos e linguagens.

Ainda nesse mesmo cenário, sobre as mesmas ondas revoltas, essa frota de arte e criatividade acaba, diante dos olhos da imaginação, se condensando num único navio, talvez uma antiga caravela daquelas que há alguns séculos iniciaram o processo, tão moderno, tão contemporâneo, da globalização. É exatamente nesta nau que estou prestes a embarcar. Por generosidade dos meus futuros pares, eis-me aqui, sobre as tábuas do cais, aguardando o discurso de boas vindas que me fará o acadêmico Paulo Bomfim, decano desta Academia, príncipe dos poetas, para subir a bordo. Enquanto isso vou pensando na diferença que há entre nós e aqueles antigos navegadores, que saíam a desvendar os caminhos aquáticos “Em perigos e guerras esforçados / Mais do que prometia a força humana” para que, como sonhava Camões, as agruras não suplantassem a valentia. Mulheres choravam à beira do cais. Mas era preciso descortinar outros horizontes. Era o cheiro do novo que os hipnotizava.
Aqueles navegadores iam descobrindo e unindo as terras, as ilhas e os continentes. Estes navegadores, desta nau em que vou embarcar, embora viajem juntos, fazem, cada um, suas próprias e particulares descobertas. Abrem campos e desvendam territórios do imaginário. Criam mundos e personagens e situações que só fazem enriquecer nossa convivência. Se aqueles navegadores tinham o globo terrestre como limite, a navegação, nesta nau em que me inicio, por trilhar terras e mares de encanto e maravilha, não encontra nunca fronteiras e segue sempre aumentando as possibilidades do humano. Trata-se de perseguir a luz, a luz que desafia, demiurgo no universo platônico a trazer mais próximo o hiper-urânico, o supra-sensível, do mundo que se vê. Sem a beleza dessa senhora, a Palavra, a caverna ficaria mais escura, mais sem gosto.
A esta nau quero dar um nome particular, Esperança. E aos seus tripulantes, manejadores da Esperança. Esperança.
Ao lado da fé, que tem por símbolo a cruz, e da caridade, que tem por símbolo o cálice, a partilha, a esperança compõe o trio das virtudes teologais e tem por símbolo um objeto náutico: a âncora.
Lembremos por um instante o que nos dizia Santo Agostinho, nas Confissões: “é impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras.”
Para o Bispo de Hipona, a esperança é o futuro. É a certeza de que a escultura será moldada a partir dela, esperança, porque o Artista não vive do improviso. Prepara e se prepara para o futuro. É o brilho dos astros que servia para orientar os antigos navegantes. É a certeza do Sol porque a aurora já faz parte do poético repertório dos contempladores e ao mesmo tempo assusta os desalmados, aqueles que nunca aguardaram amanheceres com cheiro de estrelas preguiçosas.
Diante disso devemos enlevar-nos! É entusiasmo o que nos pede o futuro feito de esperança!
Mas se a esperança é a matéria-prima de que o futuro é feito, também devemos ter em mente que ela não destrói o passado. O passado constitui nossa herança fundadora, e pode ser vivificado pela identidade e pelo conhecimento.
Esta cadeira, a de número cinco, que me foi dado ocupar, este posto que me foi destinado aqui dentro da Esperança, tem história e tem identidade. Outros manejadores ocuparam-na antes de mim, e é deles que passarei a falar agora. Seu patrono, Eduardo Paulo da Silva Prado, mais conhecido nas nossas letras como Eduardo Prado, viveu pouco mais de quarenta e um anos, mas soube deixar como marca permanente seu interesse e seu amor pelas coisas do Brasil, estudando tanto a História, ou seja, o presente das coisas passadas, na figura, entre outras, do Padre Antonio Vieira, esse monumento da língua portuguesa em dois mundos, como também se interessou pelo presente das coisas presentes de seu tempo, discutindo as questões políticas decorrentes da transição do país para o regime republicano. Sua obra Ilusão Americana pode ser considerada um marco na consciência da América Latina. E já que estamos nos valendo da metáfora da nau Esperança, também devemos nos lembrar que Eduardo Prado foi um grande viajante, tendo percorrido boa parte do globo terrestre, escrevendo e deixando-nos suas impressões de viagem, sempre na intenção de melhor entender o Brasil.
Falemos agora daquele que foi um dos fundadores desta Academia e primeiro titular da cadeira número cinco. Tinha nome de viajante e navegador, dos mais ilustres e conhecidos na tradição literária universal. Era paulistano, chamou-se Ulisses de Freitas Paranhos e era médico. Foi um dos fundadores do Instituto Pasteur, até hoje em notável atividade. Chegou a membro desta Academia por seus estudos da arte, da música e de suas respectivas histórias, por sua paixão pelas letras e pela palavra, por seus extraordinários dons oratórios. Combinando ao mesmo tempo o interesse pela medicina e a cultura humanista, constituiu-se em modelo para os que discutem e buscam uma renovação no ensino da Medicina, almejando a formação de profissionais que serão melhores se forem capazes de olhar menos para as doenças e mais para a humanidade. Ao doutor Ulisses Paranhos sucedeu, como segundo titular desta cadeira número cinco, o escritor e farmacêutico Amadeu de Queiroz. Nascido em Pouso Alegre, trouxe uma contribuição das gentes e coisas das Minas Gerais para a cidade de São Paulo, e acrescentou a esta cadeira a tradição da literatura regional. Não foi sem propósito que mencionamos sua condição de farmacêutico. Vejamos como essa condição se combina com as atividades do escritor, num perfil de Amadeu de Queiroz traçado por Silveira Peixoto em 1942:

“É numa farmácia à esquina do Largo da Sé com a Rua Direita — a tortíssima Rua Direita — mais ou menos ali pelo meio-dia, todos os dias, que se reúne o clã chefiado pelo autor de A voz da terra e de Os casos do carimbamba. Edgar Cavalheiro quase sempre é o primeiro a chegar. Daí a pouco surge Mário Donato. Não demora, Fernando Góes e Mário da Silva Brito aparecem. Vêm depois Antonio Constantino, Leão Machado, Rossine Camargo Guarnieri… Silveira Bueno, de vez em quando, também dá um ar de sua graça… Fala-se do último romance posto nas montras das livrarias. Comenta-se um artigo de crítica literária. Proferem-se anátemas contra os medalhões. E a palestra desenvolve-se, pontilhada de ironias, entremeada de perversidades, animada pelo constante bom humor de Amadeu. Depois… O grupo começa a dispersar-se… E há sempre alguém que quer ficar por último, naturalmente com receio da língua dos outros… ”

Essa evocação de uma São Paulo de outros tempos, tempos mais gentis e menos apressados, que traz um certo sabor de nostalgia, fica aqui como uma lembrança deste querido e bem-relacionado antigo ocupante desta cadeira.
Depois dele veio um gigante do trabalho literário, alguém que realizou uma obra colossal e ímpar para a divulgação da literatura universal em nossa terra. Trata-se de Carlos Alberto Nunes, considerado um dos maiores helenistas de seu tempo, tradutor do grego, do inglês e do alemão, responsável por verter para nossa língua os dois grandes poemas homéricos, Ilíada e Odisséia, bem como quatorze volumes de Diálogos de Platão. Isso já seria trabalho suficiente para ocupar toda uma vida intelectual. Mas este maranhense que veio abrilhantar e muito honrou nossa Academia, não satisfeito com essa tarefa, ainda se ocupou em traduzir toda a obra teatral de William Shakespeare, trinta e sete peças ao todo. E traduziu ainda textos teatrais dos alemães Goethe e Hebbel. Isso para não falar de sua obra original, em que se inclui uma epopéia, Os Brasileidas, que ele publicou em 1962, tendo como introdução um longo estudo sobre a poesia épica.
A Carlos Alberto Nunes sucedeu o paulistano Ignácio da Silva Telles, quarto ocupante e meu antecessor neste posto. Tenho muito honra em sucedê-lo, por ele ter sido um homem dedicado em primeiro lugar à tarefa do ensino, atividade a que também me dedico e vejo como uma das mais importantes e fundamentais para a boa navegação desta nau Esperança que é, não nos esqueçamos, um outro nome com que, aproveitando a lição de Santo Agostinho, quisemos cognominar o futuro. Iniciou sua carreira de professor em 1936. Ensinou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na Escola Politécnica da USP, na Escola de Jornalismo Casper Líbero, na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Isso sem falar nos inúmeros cursos livres que organizou e ministrou. Criou ainda, em 1967, o Centro de Estudos Schola, evocando aqueles que ele mesmo define, em seu Andanças pelo sertão grande, como “os centros de estudo e meditação que se tornaram as profundas e luminosas escolas pitagóricas”, tentando recriar no nosso tempo um ambiente voltado para o desenvolvimento espiritual e intelectual do Homem. Seu trabalho de educador ficou consignado na sua atividade acadêmica, em centenas de conferências e palestras que proferiu, além das obras que deixou e das quais registramos aqui só uns poucos títulos, além daquele já mencionado: Pensamento político de Santo Agostinho, Páginas de uma vida, Forjadores espirituais da História.
De seu discurso de posse a esta mesma Academia, gostaria de destacar o seguinte trecho: “E, quanto à sabedoria, em todos o mesmo apelo para o ‘querer-bem’, para o cultivo da bondade, em suma, o cultivo do amor. E, em se cultivando o amor, cultiva-se ao mesmo tempo a sabedoria, porque, como se sabe, não há amor sem sabedoria, nem há sabedoria sem amor.” A razão porque destaco este trecho é muito simples: se Ignácio da Silva Teles não o tivesse escrito, eu gostaria de tê-lo feito. Sabedoria e Amor. O que mais é preciso? E é isso que rogo a Deus nesta noite, em que tomo posse e me tornarei o quinto ocupante da cadeira de número cinco desta Academia Paulista de Letras, que tem como símbolo a Rosa de Cinco Pétalas. É com humildade que me reúno a meus companheiros, passando a fazer parte da tripulação desta nau. Immanuel Kant perguntava e afirmava: “Como então buscar a perfeição? Onde fica a nossa esperança? Na educação e em nada mais.” É por isso que tenho honra em suceder neste posto a um educador. É por isso que agradeço ao Governador Geraldo Alckmin a oportunidade de estar próximo a ele, e nesse tão importante encargo de Secretário da Educação. Trabalhar em sua companhia é um privilégio raro. Que o seu passado de honradez e competência sejam “passaportes” para novos percursos, novas sendas, novos caminhos. Caminhos de futuro, ou seja, caminhos de esperança. E de ternura, também. Obrigado, Dona Lu Alckmin, pela sua ternura, por transbordar amor ao povo deste Estado. Sabedoria e amor.
Marcas de um outro grande educador, Governador Cláudio Lembo. Porque competência não é sinônimo de sisudez. Mestre Cláudio Lembo. Mestre do bom humor e do humanismo. Exemplo de leveza. É uma alegria imensa conviver com o senhor. Esperança. Nome da nossa nau imaginária. Nome da nossa expectativa real. Agradeço à comunidade da esperança Canção Nova e ao seu fundador, Padre Jonas Abib. Agradeço por desde pequeno me alimentar dos valores que tanto melhoram o mundo. Vocês são como o Liceu em que o Estagirita ensinava a seu filho Nicômaco a arte de ser feliz. Filho. Pai. Lembro-me de meu pai, que aqui não está e que aqui está. Mestre do silêncio, da sabedoria, do olhar terno e manso. Meu pai, exemplo de vida. Envolvente, sedutor. Soube viver versos de amor sem ter lido os grandes poetas. Era doutor em gentileza, em romantismo. Cotidianamente conquistava a mesma mulher. Saudade… É o presente das coisas passadas. Saudade, pai… Como eu gostaria que estivesse aqui. O senhor que sonhou tanto em ter um filho com diploma universitário. O senhor que me aplaudiu tantas vezes quando eu, ainda pequeno, fazia discursos meio desconectados. Era só cumplicidade, incentivo. “Continue, meu filho. Um dia você há de tocar na alma das pessoas. Não desanime. Continue meu filho!” Quando cresci um pouco mais o senhor chorava em cada discurso que eu fazia, nas formaturas, nas sessões solenes da Câmara Municipal de Cachoeira Paulista, no teatro, em palestras, na Igreja. Posso ouvir a sua serena voz: “meu filho, tenho tanto orgulho de você. Eu te amo tanto filho”.
Saudade, pai. Das lições aprendidas a mais marcante foi a simplicidade. Simplicidade… Posso dizer que é este o valor que tanto busco. Como o meu agora confrade, um pouco pai, um pouco amigo, Antonio Ermírio de Moraes diz e vive: “O último degrau da sabedoria é a simplicidade.” Minha mãe está aqui. Mulher de dor, perdeu uma pátria, perdeu filhos, perdeu o marido. Mulher de amor. Amou mais do que sofreu. E se chorou, chorou por amor. E no amor me ensinou e me ensina a ter esperança. Minha segunda mãe Leila, a primeira leitora paciente daquele inquieto menino que queria ouvir histórias. Também ela esteve num navio. Também ela esperou um dia por uma nova terra. Queridos confrades e confreiras, queridos colegas acadêmicos, agora que sou mais um tripulante desta nau, quero reafirmar uma minha convicção: tenho esperança. E espero uma nova terra. Esperança de que a autofagia não prevaleça sobre a harmonia. Não há espaço para destruição na Nova Atlântida, na Casa de Salomão, no Harlem de Martin Luther King, na Índia de Ghandi, na escrivaninha de Ada, Anna Maria, Esther, Lygia, Myriam. E dos homens confrades dessa nobre casa da palavra.
Esperança que teve talvez Sócrates diante dos homens que o julgaram naquele tribunal, ou uma outra artífice da palavra, Joana D’Arc, de que não seria abandonada.
Esperança de Quixote em encontrar Dulcinéia, de Sherazade em destronar o ódio de Shariman. Esperança de Penélope em sua eterna tessitura. Esperança de Psique, de Isolda. Esperança de um convite para luzir talentos e eclipsar os embusteiros. Esperança de que as idiossincrasias dos burocratas do horror se deitem em paragens longínquas, por detrás do lugar que não existe. E que aqui, nesta Terra que miraculosamente se renova a cada instante, só haja amor. Amor Ágape ou Fratria ou Eros, não importa. Importa que não seja o amor definido genialmente por Machado de Assis pela boca de Brás Cubas, ao referir-se à sua amante Marcela, de vida desvairada: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. Esperança de que a palavra esteja a serviço do amor.
Porque há palavras de desamor e há palavras de indiferença. Que se prendam lá, onde Rousseau jamais conduziria Emílio. Lá, onde as canções de amor trovadorescas não chegariam. Lá, onde Pessoa Ricardo Reis não convidaria Lídia para enlaçar as mãos e contemplar, nem tampouco Lygia, essa nossa, tão leve e tão faceira, para fitar com suas meninas uma ciranda de pedra. Lá, longe daqui, do Arouche, longe desta navegação. Esperança de que o riso, o riso criado pelo Artista para unir não sirva para escárnio. De que os olhos consigam ver e não temam o êxtase pelo novo ou pelo reinventado. Esperança de que a música, a arte, a literatura acalmem e inquietem ao mesmo tempo os navegantes. Esperança de que cada ser, mesmo sendo pequeno em estatura física diante do Universo, seja um gigante em complexidade de, voltando a Ignácio da Silva Telles, Sabedoria e Amor. E aqui não há nenhuma censura aos letrados do desconcerto. Àqueles que gritaram por aí a exigir que pudessem caminhar com pés-próprios. Que o façam! Amor não é ingenuidade, nem passividade. Amor é ação, revolução! Sem atentar para esta fundamental condição o ser humano há de conhecer todo o macro e o micro cosmos, mas talvez nunca venha a conhecer seu próprio âmago. Esperança de que a palavra não seja usada como instrumento de ódio, que não sirva para erguer barreiras e afastar os seres humanos uns dos outros. Bravura sim. Violência, impetuosidade incontinente, não. Não se deve desacoroçoar. Não se deve aposentar a navalha afiada das palavras que pululam na defesa do que é correto. Eis uma platéia de pessoas corretas! Quem teve acesso à cultura, ao ensino tem ainda maior responsabilidade de fazer prosperar a presença do bom e do belo, ensinava Tomás de Aquino na escolástica. Esperança de que a palavra sirva para abrir os caminhos existentes e criar veredas e paragens por onde possam chegar o entendimento e a harmonia, a fraternidade, a solidariedade, enfim, o Amor.
E de novo o Amor, aquele amor mencionado pelo imortal poeta florentino no fecho da sua Divina Comédia como sendo o “que move o Sol e move estrelas”, ou ainda o que ergue catedrais, como no Poema das grandes catedrais, do querido Paulo Bomfim:

“As grandes catedrais ressurgirão das águas,
E as aves da floresta conhecerão
A linguagem dos peixes noturnos…
As grandes catedrais ressurgirão das ondas,
Trazendo para o mundo das nuvens
As princesas sem reino coroadas de coral…
As grandes catedrais ressurgirão dos tempos,
E os homens serão crianças,
Contemplando o mar pela primeira vez!”

Eis uma visão do futuro! Eis uma visão da esperança!
Esperança de paz!
Será isso uma utopia?
Não sei. Só sei que não fomos criados para a resignação, para nos conformarmos, para permanecermos estáticos, imóveis.
Eis nossa vocação, senhoras e senhores navegantes, devemos estar sempre prontos a segui-la. Ao mar, então!
À esperança! Enfim, ao amor!

Mensagem de Ano Novo

Por Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo
Cor de arco-íris ou da cor da sua paz,
Ano novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido),

Para você ganhar um ano novo não apenas pintado de novo,
Remendado às carreiras, mas novo na sementinha do vir-a-ser,
Novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior) novo espontâneo
Que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come,
Se passeia, se ama, se compreende, se trabalha,
Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita
Não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? Passa telegrama?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
Para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependimento pelas besteiras consumadas
Nem parvamente acreditar que por decreto da esperança
A partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade,
Recompensa, justa entre os homens e as nações,
Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
Direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novo que mereça este nome,
Você, meu caro, tem que merecê-lo,
Tem que fazê-lo novo,
Eu sei que não é fácil, mas tente,
Experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo Cochila e espera desde sempre.

Versos de Natal

Por Manuel Bandeira

“Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,

Os meus olhos míopes e cansados. 
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem, 
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.”

O filho do Homem

Por Vinicius de Moraes

O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua 
Com foice e martelo.


Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

Natal

Por Fernando Pessoa

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante. 

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Poema de Natal

Por Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –

 

Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Missa do Galo

Por Machado de Assis

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

Boa Conceição! Chamavam-lhe a “santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver a missa do galo na Corte. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

– Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou a mãe de Conceição.
– Leio, Dona Inácia.

Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumavam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.

– Ainda não foi? perguntou ela.
– Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
– Que paciência!

Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:

– Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para não me afligir ou aborrecer.

Já disse que ela era boa, muito boa.
– Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
– Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme. E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
– Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
– Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
– Justamente: é muito bonito.
– Gosta de romances?
– Gosto.
– Já leu a Moreninha?
– Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
– Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?

Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los.

Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.

“Talvez esteja aborrecida”, pensei eu. E logo alto:
– D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu…
– Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
– Já tenho feito isso.
– Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
– Que velha o quê, d. Conceição!

Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.

– É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
– Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. São João não digo, nem Santo Antônio…

Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo.

Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
– Mais baixo! Mamãe pode acordar.

E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dous, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas.

Conceição disse baixinho:
– Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
– Eu também sou assim.
– O quê? perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.

Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.

– Há ocasiões em que sou como mamãe; acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo a vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
– Foi o que lhe aconteceu hoje. 
– Não, não, atalhou ela.

Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra.

De quando em quando, reprimia-me:
– Mais baixo, mais baixo…

Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.

– Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.

Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava Cleópatra; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.

– São bonitos, disse eu.
– Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
– De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
– Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.

A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.

Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
– Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo. 

Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.

Chegamos a ficar por algum tempo, – não posso dizer quanto, – inteiramente calados. O rumor único e escasso era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: “Missa do galo! missa do galo!”

– Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
– Já serão horas? perguntei.
– Naturalmente.
– Missa do galo! repetiram de fora, batendo.
– Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus, até amanhã.

E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.

Sobre ética, cultura e política

Por Gabriel Chalita

Guimarães Rosa, em entrevista ao crítico Günter Lorenz, disse que “a política é desumana porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta”. A desumanidade da política extrapola a esfera dos governantes e governados e navega nas várias esferas da vida na pólis, na sociedade. A desumanidade, lembrada pelo escritor Guimarães Rosa, refere-se à falta de compromisso com a verdade, com o conhecimento.

Há por aí filósofos de pára-choque de caminhão. Pessoas que julgam pessoas sem o menor conhecimento de sua obra. Vários pensadores foram vítimas desses semicultos. Colocaram frases jamais proferidas na boca de Maquiavel. Deturparam Marx ou Sartre. Ridicularizaram ideologias. Sobre os semicultos, escreveu Mário de Andrade nos idos de 1927: “A gente pode lutar com a ignorância e vencê-la. Pode lutar com a cultura e ser ao menos compreendido, explicado por ela. Com os preconceitos dos semicultos, não há esperança de vitória ou de compreensão”. Os semicultos estão por aí, escondidos atrás de um pequeno poder. Dizem superficialidades, deixam-se levar por um olhar tacanho do que não conhecem e fingem conhecer. Os semicultos não têm a humildade necessária para a dialética. Não há antítese. Apenas tese. Tosca tese de quem nunca nada defendeu. Apenas destruiu ou tentou destruir. Há de se discutir a ética na política, nas organizações e na mídia. Falta com a ética o político demagogo ou o corrupto, ou o que semeia inverdades em redações de jornais e revistas, ou o que mente à sociedade. Falta com a ética o jornalista que se deixa deslumbrar com o poder de destruir e não investiga, não vai a fundo no que escreve. Falta com a ética quem destrói a gestão do outro, a obra construída solidamente na política ou na empresa. O trabalho sagrado de servir. É tempo de ética. Da ética aristotélica do meio-termo. Da ética do valor, da axiologia preconizada por Miguel Reale. Do conceito correto de política que constrói Estados e pessoas, como sonhava Bobbio. Da ética da linguagem. A palavra a serviço da verdade e do conhecimento. A semiótica de Umberto Eco, que, relembrando Cícero, fala em razão e emoção. Em fragilidade e consistência. Da ética da humildade. Os arrogantes ou semicultos se distanciam muito da verdade, pois só enxergam a si mesmos. Humildade no respeito à diversidade. A intransigência leva ao radicalismo, e este, à tragédia. Franco Montoro dizia que há coisas em que não podemos ceder -valores, ética. Quantos às outras, é preciso ter olhos de ver. Humildade em reconhecer o valor do outro. Não podem interesses levianos de períodos eleitorais jogarem lama em carreiras construídas com afinco. Adélia Prado, poeta da leveza, disse: “Só pessoas equivocadas quanto à natureza do fato literário repudiam um livro por sua casuística religiosa. O enredo ou tema de um livro não é o que o torna bom ou mau. Seu valor e desvalor têm a ver com forma, apenas”. A maturidade literária ou a maturidade crítica exige conhecimento, profundidade. “Não li e não gostei” é coisa de semiculto. Enfim, que neste ano eleitoral haja muito debate, muita investigação e, acima de tudo, compromisso com a verdade. Que a ética permeie o calor do debate, que será mais rico e belo se deixar fluir o passado e o amanhã sem desmerecer a pessoa. Um debate ético lança luzes sobre idéias, não sobre perfumaria. Um debate ético ajuda a consolidar a cultura democrática e respeitosa. O Brasil tem mulheres e homens com essa postura em todos os ambientes profissionais. Que esses sirvam de exemplo aos demais. São profissionais que construíram uma obra. Aliás, o que é muito mais edificante do que destruir obras alheias.

Sobre os semicultos…

Por Gabriel Chalita (Folha de S.Paulo)

“Os semicultos estão por aí, escondidos atrás de um pequeno poder. Dizem superficialidades, deixam-se levar por um olhar tacanho do que não conhecem e fingem conhecer. Os semicultos não têm a humildade necessária para a dialética.”

SOBRE ÉTICA, CULTURA E POLÍTICA

Em ano eleitoral , reacende-se o debate sobre ideologias, posturas, atitudes. É corriqueira a comparação entre eventuais candidatos e seus aliados. O homem público não deve temer que, sobre sua atuação, surjam reflexões ou críticas. Faz parte do processo. Entretanto, há de se refletir sobre os interesses que existem nas opiniões emitidas. Em outras palavras, há de se refletir sobre ética.

Guimarães Rosa, em entrevista ao crítico Günter Lorenz, disse que “a política é desumana porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta”.

A desumanidade da política extrapola a esfera dos governantes e governados e navega nas várias esferas da vida na pólis, na sociedade.

A desumanidade, lembrada pelo escritor Guimarães Rosa, refere-se à falta de compromisso com a verdade, com o conhecimento.

Há por aí filósofos de pára-choque de caminhão. Pessoas que julgam pessoas sem o menor conhecimento de sua obra. Vários pensadores foram vítimas desses semicultos. Colocaram frases jamais proferidas na boca de Maquiavel. Deturparam Marx ou Sartre. Ridicularizaram ideologias.

Sobre os semicultos, escreveu Mário de Andrade nos idos de 1927: “A gente pode lutar com a ignorância e vencê-la. Pode lutar com a cultura e ser ao menos compreendido, explicado por ela. Com os preconceitos dos semicultos, não há esperança de vitória ou de compreensão”. Os semicultos estão por aí, escondidos atrás de um pequeno poder. Dizem superficialidades, deixam-se levar por um olhar tacanho do que não conhecem e fingem conhecer. Os semicultos não têm a humildade necessária para a dialética. Não há antítese. Apenas tese. Tosca tese de quem nunca nada defendeu. Apenas destruiu ou tentou destruir.

Há de se discutir a ética na política, nas organizações e na mídia.

Falta com a ética o político demagogo ou o corrupto, ou o que semeia inverdades em redações de jornais e revistas, ou o que mente à sociedade. Falta com a ética o jornalista que se deixa deslumbrar com o poder de destruir e não investiga, não vai a fundo no que escreve.

Falta com a ética quem destrói a gestão do outro, a obra construída solidamente na política ou na empresa. O trabalho sagrado de servir.

É tempo de ética. Da ética aristotélica do meio-termo. Da ética do valor, da axiologia preconizada por Miguel Reale. Do conceito correto de política que constrói Estados e pessoas, como sonhava Bobbio. Da ética da linguagem. A palavra a serviço da verdade e do conhecimento. A semiótica de Umberto Eco, que, relembrando Cícero, fala em razão e emoção. Em fragilidade e consistência. Da ética da humildade.

Os arrogantes ou semicultos se distanciam muito da verdade, pois só enxergam a si mesmos. Humildade no respeito à diversidade. A intransigência leva ao radicalismo, e este, à tragédia. Franco Montoro dizia que há coisas em que não podemos ceder -valores, ética. Quantos às outras, é preciso ter olhos de ver.

Humildade em reconhecer o valor do outro. Não podem interesses levianos de períodos eleitorais jogarem lama em carreiras construídas com afinco.

Adélia Prado, poeta da leveza, disse: “Só pessoas equivocadas quanto à natureza do fato literário repudiam um livro por sua casuística religiosa. O enredo ou tema de um livro não é o que o torna bom ou mau. Seu valor e desvalor têm a ver com forma, apenas”.

A maturidade literária ou a maturidade crítica exige conhecimento, profundidade. “Não li e não gostei” é coisa de semiculto.

Enfim, que neste ano eleitoral haja muito debate, muita investigação e, acima de tudo, compromisso com a verdade. Que a ética permeie o calor do debate, que será mais rico e belo se deixar fluir o passado e o amanhã sem desmerecer a pessoa.

Um debate ético lança luzes sobre idéias, não sobre perfumaria. Um debate ético ajuda a consolidar a cultura democrática e respeitosa. O Brasil tem mulheres e homens com essa postura em todos os ambientes profissionais. Que esses sirvam de exemplo aos demais. São profissionais que construíram uma obra. Aliás, o que é muito mais edificante do que destruir obras alheias.

O prazer de conhecer…

Por Gabriel Chalita

Um convite ao prazer… ao prazer de conhecer, estudar. Durante 10 minutos, de 2as às 6as feiras , às 20 h, na TV Canção Nova, você está convidado a percorrer caminhos mágicos pela busca do saber, no mundo da Filosofia. “Vivendo a Filosofia”, o novo programa de televisão de Gabriel Chalita, há apenas duas semanas no ar, já é um sucesso de audiência.

Em um cenário suave e singelo, Gabriel Chalita aborda temas da complexidade humana que foram objetos de reflexão de grandes pensadores e que, até hoje, povoam nosso universo interior, nossas dúvidas, nossas angústias.

Partindo de idéias e conceitos a princípio tão abstratos, Chalita nos apresenta a filosofia, de forma agradável e contextualizada, fácil de aprender. O professor explica a história da filosofia, cronologicamente, comentando e analisando os pensamentos dos filósofos mais representativos de cada período.

São pequenos bate-papos sobre o Amor, o Tempo, a Felicidade, o Medo, a Fé, o Bem e o Mal, entre outros. A filosofia nos ajuda a ter uma postura diferente diante da vida, faz com que tenhamos opiniões próprias e questionemos aquelas que nos foram impostas. Torna-nos mais livres.

O conhecimento da filosofia vai nos desvendando – aos poucos – o sentido da vida, trazendo respostas às nossas inquietações.