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Cândida Adélia, prado de poemas

Por Gabriel Chalita

Mestra na sala de aula, mestra em recontar a vida. Adélia Prado escreve como quem fala para a vizinha, numa conversinha mansa, descansada, cheia de vocativos, remetendo a pessoas que espera serem velhas conhecidas do leitor. É a tia Ceição, a lavadeira Tina do Moisés, a Dorita. Mestra na emoção. Não aquela emoção grandiosa das tragédias gregas. Não a emoção espetacular das tragédias das tevês. Não. Descreve e narra as emoções pequeninas, que povoam os corações de todas as pessoas.

Como quando a gente promete visitar alguém e não vai, e fica se sentindo constrangido, depois. Como quando a inquietação atinge um casal, que começa a perceber dificuldades na relação a partir de mínimas evidências – “Abel e eu estamos precisando de férias. Quando começa a perguntar quem tirou de não sei onde a chave de não sei o quê, quando já de manhã espero não fazer comida à noite, estamos a pique de um estúpido enguiço.”

Foi com essa sabedoria que coroou a sua participação na Feira Literária Internacional de Parati, de 9 a 13 de agosto. Disse ela: “poeta é o que consegue perceber o ordinário, qualquer tolo repara o incomum”.

Com essa placidez de rio Itapecerica, que banha a sua mineira Divinópolis natal, Adélia espicaça o leitor e o ouvinte a obter funduras de pensamento. “O transe poético é o experimento de uma realidade anterior a você. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. É seu próprio olhar pondo nas coisas uma claridade inefável. Tentar dizê-la é o labor do poeta.”

Foi exatamente sobre isso que conversou a poeta Adélia Prado, na Festa Literária Internacional de Parati. Disse que a nossa vida ficou “esvaziada de realidade”. Estava numa mesa de debates, apropriadamente denominada Bagagem, título de seu primeiro livro. A pergunta que se fazia era esta: que livro você levaria para uma ilha deserta? Ela escolheu “A transparência do mal” de Jean Baudrillard. E explicou, docemente: “Escolhi esse livro porque ele mostra que o individuo é um ser único. Sem o horror, não há a possibilidade do amor. Sem o mal não existe o bem”.

Arrebatou platéias, em Parati, como arrebatara antes o patrício Carlos Drummond de Andrade, que vaticinava no Jornal do Brasil, em 1975, numa crônica, a senda de sucesso da poeta. Levou muita gente às lágrimas, pela comovente simplicidade com que abordou assuntos tão variados quanto amor e política. Sobre política, lamentou que os brasileiros não tenham um “consciente político coletivo”, arma, segundo ela, “capaz de dar um jeito no País”. Disse mais: “Nem mesmo juventude transviada nós temos, no sentido de que eles não têm uma via para se desviar dela”.

Filosofou: “O que confere dignidade é aquilo que dá sentido à vida.”

Falou de pedagogia: “Liberdade absoluta é liberdade nenhuma. Liberdade é ter compromisso com alguma coisa”.

Falou de caridade: “Você já nasce experimentando uma orfandade. São Francisco fez um texto muito bonito em que diz ‘eu, velhozinho miserável’. Isso é reconhecer a necessidade da ajuda”.

Falou de inspiração: “As paixões humanas são as mesmas em Nova York, em São Paulo e na roça. Não tem importância ficar lá”.

Lá quer dizer Minas Gerais. Lá, lugar do qual dizia Guimarães Rosa: “Minas são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais”.

Adélia Prado conhece. Porque tem alma de poeta, porque faz da poesia o pão espiritual, a fonte vital. Porque é uma mulher que tem inspiração para escrever isto: “Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo.”

Adélia é poeta porque é cândida. A cândida Adélia, prado de poemas.

Você já leu Rachel de Queiroz?

Prestamos homenagens à escritora de O Quinze, um dos grandes romances da literatura brasileira. É um romance profundamente realista, que mostra os desequilíbrios sociais do Nordeste, e da luta incessante de um povo contra a miséria e contra a seca.

Selecionamos uma crônica, a sua primeira crônica, publicada na Revista O Cruzeiro, em 1 de dezembro de 1945.

Crônica nº 1

(Rachel de Queiroz)

Tanto neste nosso jogo de ler e escrever, leitor amigo, como em qualquer outro jogo, o melhor é sempre obedecer às regras. Comecemos portanto obedecendo às da cortesia, que são as primeiras, e nos apresentemos um ao outro. Imagine que pretendendo ser permanente a página que hoje se inaugura, nem eu nem você, – os responsáveis por ela, – nos conhecermos direito. É que os diretores de revista, quando organizam as suas seções, fazem como os chefes de casa real arrumando os casamentos dinásticos: tratam noivado e celebram matrimônio à revelia dos interessados, que só se vão defrontar cara a cara na hora decisiva do “enfim sós”.

Cá estamos também os dois no nosso “enfim sós” – e ambos, como é natural, meio desajeitados, meio carecidos de assunto: Comecemos pois a falar de você, que é tema mais interessante do que eu. Confesso-lhe, leitor que diante da entidade coletiva que você é, o meu primeiro sentimento foi de susto -, sim, susto ante as suas proporções quase imensuráveis. Disseram-me que o leitor de O CRUZEIRO representa pelo barato mais de cem mil leitores, uma vez que a revista põe semanalmente na rua a bagatela de 100.000 exemplares.

Sinto muito, mas francamente lhe devo declarar que não estou de modo nenhum habituada a auditórios de cem mil. Até hoje tenho sido apenas uma autora de romances de modesta tiragem; é verdade que venho há anos freqüentando a minha página de jornal; mas você sabe o que é jornal: metade do público que o compra só lê os telegramas e as notícias de crimes e a outra lê rigorosamente os anúncios. O recheio literário fica em geral piedosamente inédito. E agora, de repente, me atiram pelo Brasil afora em número de 100.000! Não se admire portanto se eu me sinto por ora meio “gôche”.

Dizem-me, também que você costuma dar sua preferência a gravuras com garotas bonitas a contos de amor, a coisas leves e sentimentais. Como, então, se isso não é mentira, conseguirei atrair o seu interesse? Pouco sei falar em coisas delicadas, em coisas amáveis. Sou uma mulher rústica,muito pegada à terra, muito perto dos bichos, dos negros, dos caboclos, das coisas elementares do chão e do céu. Se você entender de sociologia, dirá que sou uma mulher telúrica; mas não creio que entenda. E assim não resta sequer a compensação de me classificar com uma palavra bem soante.

Nasci longe e vivo aqui no Rio, mais ou menos como num exílio. Me consolo um pouco pensando que você, sendo no mínimo cem mil, anda espalhado pelo Brasil todo e há de muitas vezes estar perto de onde estou longe; e o que para mim será saudosa lembrança, é para você o pão de cada dia. Seus olhos muitas vezes ambicionarão isto que me deprime, – paisagem demais, montanha demais, panorama, panorama, panorama. Tem dia em que eu dava dez anos de vida por um pedacinho bem árido de caatinga, um riacho seco, um marmeleiral ralo, uma vereda pedregosa, sem nada de arvoredo luxuriante, nem lindos recantos de mar, nem casinhas pitorescas, sem nada deste insolente e barato cenário tropical. Vivo aqui abafada , enjoada de esplendor, gemendo sob a eterna, a humilhante sensação de que estou servindo sem querer como figurante de um filme colorido. Até me admira todo o mundo do Rio de Janeiro não ser obrigado a andar de “sarong”. Mas, cala-te boca; para que fui lembrar? Capaz de amanhã sair uma lei dando essa ordem.

Apesar entretanto de todas essas dificuldades, tenho a esperança de que nos entenderemos. Voltando à comparação dos casamentos de príncipe, o fato é que as mais das vezes davam certo. Não viu o do nosso Pedro II com a sua Teresa Cristina? Ele quase chorou de raiva quando deu de si casado com aquele rosto sem beleza, com aquela perna claudicante; porém com o tempo se acostumaram, se amaram, foram felizes, e ela ganhou o nome de Mãe dos Brasileiros. Assim há de ser conosco, que eu, se não claudico no andar, claudico na gramática e em outras artes exigentes. Mas sou uma senhora amorável, tal como a finada imperatriz, e de alma muito maternal. A política é que às vezes me azeda mas, segundo o trato feito, não discorreremos aqui de política. Em tudo o mais sempre me revelo uma alma lírica, cheia de boa vontade; eu sou triste um dia ou outro, não sou mal humorada nunca. E tenho sempre casos para contar, caos de minha terra, desta ilha onde moro; mentiras, recordações, mexericos, que talvez divirtam seus tédios.

Você irá desculpando as faltas, que eu por meu lado irei tentando me adaptar aos seus gostos. Quem sabe se apesar de todas as diferenças alegadas temos uma porção de coisas em comum?

Vez por outra hei de lhe desagradar, haveremos de divergir; ninguém é perfeito neste mundo e não sou eu que vá encobrir meus senões. Tenho as minhas opiniões obstinadas – você tem pelo menos cem mil opiniões diferentes – há, pois, muito pé para discordância.

Mas quando isso suceder, seja franco, conte tudo quanto lhe pesa. Ponha o amor próprio de lado, que lhe prometo também não fazer praça do meu. Lembre-se de que há um terreno de pacificação, um recurso extremo, a que sempre poderemos recorrer: fazemos uma trégua no desentendimento, procurando esquecer quem dos dois tinha ou não tinha razão; damos o braço e saímos andando por este mundo, olhando tudo que há nele de bonito ou de comovente: os casais de namorados nos bancos de jardim, o garotinho cacheado que faz bolos na areia da praia, a luz da rua refletida nas águas da baía, ou simplesmente o brilho solitário da estrela da manhã.

Depois disso, não precisaremos sequer de fazer as pazes; nos seus cem mil variadíssimos corações, como no meu coração único só haverá espaço para amizade e silêncio.

Há anos sei que é infalível o resultado da estrela da manhã.

Educação: competição X cooperação

Por Gabriel Chalita

Jean-Jacques Rousseau, na carta a Christophe de Beaumont, escreve que a juventude jamais se ex­travia por sua própria conta, e que todos os seus erros decorrem do fato de ter sido mal conduzida. Em Emílio, o filósofo fala da condução do jovem, ou do adulto, ou da criança – da educação, em suma. Mas educação no sentido de um processo funcional de desenvolvimento de habilidades que proporcionem o conhecimento do que há de melhor no ser humano. Aprender a ser. Rousseau, ao tratar do “bom selva­gem”, chama a atenção para o fato de que, em estado primitivo, o homem tinha um estado de felicidade natural, e até de piedade, como o que se nota nos próprios animais.

Seria como um cantor que, sozinho, canta sua canção, e com ela fica feliz. Ou um dançarino, um es­cultor ou artesão. De repente, surge alguém que faz a mesma coisa. E as pessoas começam a dizer para o primeiro artista: “Esse fulano, que acaba de chegar, canta, dança ou esculpe melhor do que você”. Assim surgem as comparações, que geram competições. E essas competições vão ter como conseqüência uma desenfreada busca pelo poder. Surge um conceito de posse. Surge a coisificação do ser humano.

A competição, sob esse prisma, não leva à evolução, mas ao desejo de destruição. Leva ao esvazia­mento da espontaneidade. Porque tudo o que se quer é conseguir ser melhor do que o outro.

A educação contemporânea trabalha com essa dicotomia entre competir e cooperar. O processo de avaliação leva, muitas vezes, a uma exacerbação da competição, e o vestibular caminha na mesma dire­ção: “Quem é o melhor? Quem sabe mais? Quem consegue vencer?” E a escola, refém desse diapasão, acaba por ensinar com acordes desafinados.

Na vida profissional, quem vale mais não é aquele que decorou mais coisas, mas o que é capaz de partilhar, de trabalhar em equipe, de desenvolver autonomia e criatividade. Quando se tenta homoge­neizar o processo educativo, destrói-se a criatividade. Cada aluno é diferente e isso o torna rico, único.

Suas possibilidades não podem ser reduzidas a uma visão que compara e iguala os diferentes. Porque a simples comparação leva a uma competição desnecessária. Por essas razões é que consideramos que a autonomia deve ser a palavra. Aprender a conviver. Aprender a respeitar as diferenças, e, mais do que isso, aprender com elas. Raça superior não existe, nem gênero superior, nem etnia privilegiada. Não há cidadão de primeira ou de segunda categoria. A cidadania é para todos. Para todos os diferentes, porque iguais não há.

A educação tem de ser reinventada o tempo todo. Mas, em nenhuma hipótese, pode-se jogar fora o que já se construiu. a ceticismo e a visão distante da realidade levam a um certo descrédito da popula­ção com relação às políticas públicas de educação. E há muita coisa séria sendo realizada em diferentes Estados e municípios brasileiros.

Como exemplo, uma das políticas de inclusão social e familiar é a abertura das escolas nos fins de semana. Alunos, professores, funcionários, ex-alunos e pais de alunos se juntam para freqüentar as escolas, que oferecem atividades esportivas, culturais, de saúde e geração de renda. É um espaço de paz. Somente no Estado de São Paulo, mais de 5.800 escolas estão envolvidas no Programa Escola da Família – que, aliás, foi apresentado como modelo em diversos congressos internacionais. Trata-se de uma educação significativa, que gera conhecimento na ação. Aprender a conhecer. Aprender a fazer. O Estado de São Paulo tem sido chamado a levar suas ricas experiências em educação até Paris, Buenos Aires, Madrid, Washington, Londres, entre outros lugares do mundo mais desenvolvido. Muitos Estados brasileiros estão abrindo as escolas nos fins de semana e obtendo, como resultado, a diminuição da violência e a construção de uma escola acolhedora.

A educação é a política pública que sustenta as demais. Tem poder de melhorar a renda e diminuir a violência, de prevenir doenças e construir qualidade, de escrever o presente e preparar para o futuro. Portanto, educação é prioridade. Essa frase é uma constante no discurso de educadores, filósofos, polí­ticos, e não encontramos quem discorde disso. Mas, do discurso à prática, há um percurso necessário a ser feito. Alguns Estados do Brasil estão trilhando esse caminho e avançando da teoria para a realização. São aqueles que investem em educação de excelência, tanto no conceito quanto na gestão.

A melhoria do ensino público está diretamente subordinada a três importantes passos, etapas que precisam ser implementadas com determinação e compromisso político. A primeira delas é universalizar o ensino, ou seja, fazer o necessário para abrir vagas para todas as crianças e jovens em idade escolar (e mesmo elevar o número de alunos inscritos em programas de alfabetização de jovens e adultos). Um grande salto foi dado na universalização da educação básica. Resta garantir a mesma oportunidade aos jovens e crianças de outras etapas do processo educativo. A segunda etapa é reduzir a evasão escolar, hoje na vergonhosa média histórica nacional de quase 20%. Em São Paulo, foi possível chegar a menos de 1 % no ensino fundamental e a menos de 5% no ensino médio, graças principalmente à adoção de uma postura mais afetiva de professores e funcionários para com os alunos. A terceira etapa, afinal, é melhorar a qualidade do ensino, com a capacitação de professores e a implantação de ações como a qualificação do currículo escolar, o aumento da jornada de aulas e, principalmente, o envolvimento da comunidade nas atividades escolares.

Mas não bastam prédios e discursos. As políticas de educação pública precisam do talento das pessoas para funcionar. Por isso os governos estaduais e municipais devem se dedicar também à gestão dos funcionários da educação pública – exigindo a participação do governo federal. Investir na capacitação de docentes, aumentar sempre que possível o número de profissionais, por meio de concursos públicos, para todos os quadros da carreira do magistério, e, antes de tudo, mostrar respeito e afeto pelos educadores e funcionários. Os profissionais respondem e a qualidade do ensino melhora.

A educação, sem dúvida, passa pelo afeto. Um tratamento digno e respeitoso aos funcionários, pro­fessores e alunos repercute de maneira positiva na relação ensino-aprendizagem. A família que se sente acolhida pela escola dos filhos participa mais. E o aluno, quando percebe que a escola é dele, que suas ações podem refletir na melhoria da escola, não abandona os estudos e ajuda a transformar o ambiente escolar. Nessa evolução, é possível construir uma escola mais eficiente, mais democrática, mais acolhedora.

Foi o que conseguimos fazer, por exemplo, em São Paulo. Resultados: nenhuma greve em toda a gestão do governador Geraldo Alckmin; nenhuma das lamentáveis filas que antes se formavam em portas de escola para que os pais conseguissem vagas para os filhos; nenhum livro faltando; nenhum aluno voltando para casa sem aula por falta de professor.

O conceito que sonhamos ver aplicado em todo o país é o da escola inclusiva e democrática, com o currículo ampliado, mantendo a criança mais tempo no ambiente escolar, e com a efetiva participação dos pais e da comunidade. Iniciativas como essas levam à diminuição efetiva no registro de ocorrências de violência em escolas. O mais importante, porém, é o resultado direto dessas iniciativas, que é o crescente número de pessoas que se sentem motivadas a voltar para a escola. E o que se comprova pelo aumento da demanda do Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos. São Paulo registrou um salto impressionante de mais de 20 vezes no número de matrículas, nos últimos quatro anos. Temos hoje 800 mil jovens que voltaram para a escola. Em 1995, tínhamos 30 mil.

Para que se conseguisse a implantação do Programa Escola da Família, houve a participação mais que cidadã de três organizações: a UNESCO, o Faça Parte e o Instituto Ayrton Senna. É, seguramente, o grande modelo de sucesso na educação pública do Brasil, também porque dá oportunidade a mais de 40 mil educadores universitários bolsistas. De um lado, esses estudantes recebem bolsa-auxílio e têm os estudos custeados pelo maior programa de concessão de bolsas de estudo do país, realizado em parceria com 342 instituições particulares de ensino superior; de outro, eles contribuem com a sua comunidade e com a sua própria formação profissional e pessoal, trabalhando aos fins de semana nas escolas públicas.

A educação é processo e, como tal, não se resolve em uma ou duas gestões. A permanência dessa política fará com que esses aprendizes, com o tempo, escrevam uma história melhor. E a torcida é gran­de. Há centenas de ONG’s, empresas privadas, voluntários que acreditam na força da parceria. E que se dispõem a conhecer a escola pública e a trabalhar com ela.

Pequenas, porém grandiosas revoluções como essas respondem à inquietação de Rousseau. Pois não há legado maior que os pais possam deixar aos filhos, e que os governos possam deixar aos cidadãos, do Que uma educação de qualidade.

E é esse fazer político, firme e concreto, que conduzirá a juventude para o caminho do bem. Os países que acreditaram nesse sonho encontram-se hoje em um patamar superior. O Brasil tem um povo criativo e trabalhador, uma marca de gentileza e de generosidade. Oxalá tenhamos, no comando, governantes com princípios e com responsabilidade. E que a memória dos incrédulos leve em conta as realizações de cada dia, de todo dia, que fazem a diferença.

Escolas públicas ou privadas. Educadores de crianças, jovens ou adultos. O caminho é o da coope­ração.

Despertar o aprendiz para a necessidade da convivência, do respeito, da ética. Despertar para o equilíbrio emocional. Precisamos de educadores e educandos educados! Educados para com eles mesmos e para com os outros. Educados para com o meio ambiente, com a pó/is, a cidade em que vivem. E assim que se constrói o respeito e a competência, sem perder de vista que inteligência sem coração, na metáfora da emoção, não leva lugar nenhum.

Desafios da educação

Por Gabriel Chalita

Desafios da educação
É oportuno, neste momento de comemorações do Dia do Professor, compartilhar algumas reflexões sobre a educação. Houve tempo em que estudar era ser posto à prova, era enfrentar vicissitudes para temperar o espírito, segundo os paradigmas da época. Tratava-se de um combate, que evitava o prazer e valorizava o sacrifício. Todos nos lembramos do relato de Raul Pompéia: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” Também nos lembramos do chefe timbira, de Gonçalves Dias, que diz ao filho: “Coragem, meu filho, que a vida, é luta renhida, viver é lutar.”

Provação. Era disto que se tratava a vida e a escola.

Mas a pedagogia avançou. Hoje sabemos que viver é enfrentar, mas não é amargurar; que estudar é buscar, superar, mas não é desesperar. O aprendizado deve ser prazeroso, e este pode ser o desafio mais importante do profissional de educação. Talvez tenha sido Cecília Meirelles quem fez a síntese mais poética do que seja ensinar. Para a doce poeta e educadora, ensinar é “acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética afetuosa e participante.”

E aí está em que se baseia a educação: afeto e solidariedade. E compreensão. Até para o erro. Edgar Morin costuma dizer que todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. Para ele, “o maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão.”

Em meu livro Educação: a solução está no afeto, falo das três habilidades que acredito que precisam ser desenvolvidas no aprendiz: cognitiva, emocional e social. Quando um aluno erra, o professor preparado corrige, mas não censura, disciplina, mas não ridiculariza, repara, mas não condena. O educador não pode mais assumir o papel de detentor absoluto do conhecimento, embora deva se manter em contínua capacitação. Deve ser mais do que apenas o facilitador da busca do conhecimento pelo aprendiz. Deve ser um instigador. O professor que faz jus ao título de educador estimula a cooperação, porque a palavra que sintetiza o conceito da educação contemporânea é a reciprocidade. Estimula a vivência, a comparação, a análise crítica, o intercâmbio de idéias e de experiências. Tem ou desenvolve habilidade para fazer com que os talentos sejam exteriorizados. E desse modo descobre capacidades e orienta realizações.

Triste é o educa­dor que já não acredita mais na capacidade de aprendiza­do, que não se debruça para examinar melhor a peculiaridade de cada aprendiz. Este não ensina nem apren­de. Porque a educação não é pesar, é prazer.

Em resumo: trabalhar em equipe, resolver problemas, saber ensinar e aprender a ser solidário. Eis o que é ensinar! O mundo da competitividade é o mundo da heterogeneidade. Comparar pessoas diferentes – e não há pessoas iguais – é desestimular a criatividade e a autonomia.

“A melhor aprendizagem ocorre quando o aprendiz assume o comando de seu próprio desenvolvimento em atividades que sejam significativas e lhe despertem o prazer”. A frase é do sul-africano Seymour Papert, matemático, professor do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) e pai da Inteligência artificial, um dos maiores visionários do uso da tecnologia na educação. Em 1960 já dizia que toda criança deveria ter um computador em sala de aula. Mas a tecnologia sozinha não representa evolução na forma de educar. O computador é ferramenta, é apoio, é máquina, e máquina alguma substitui o professor – este sim, a alma da educação. O professor não pode ser como um disco de memória de computador, apenas um depósito de informação.

Há muitas formas de desenvolver conhecimento, mas o ato de educar só se dá com afeto, só se completa com amor. E a educação se realiza porque, junto com o amor, surge compromis­so, respeito, a necessidade de continuar a estudar sem­pre, de preparar aulas mais participativas.

A educação é, em todas as suas dimensões, um gran­de desafio. Um desafio que depende em sua maior parte do professor, a quem venho reverenciar nesta data comemorativa. É o professor que fará, com dignidade e respeito – que são, afinal, formas de amor – com que a educação se transforme em puro prazer de viver.

O humor enviesado no nacionalista Monteiro Lobato

Por Gabriel Chalita

Autor de doces páginas como em Reinações de Narizinho, e de tragédias ímpares como em Urupês. Capaz de ternuras como as histórias do Sítio do Pica-pau Amarelo. Escritor que encantava, na literatura infantil, pela imaginação poderosa como a das crianças. E principalmente um inovador, cujo talento não é uma construção literária artificial, mas um tratamento criativo da espontaneidade da língua brasileira. Coloca em imaginativas situações familiares uma boneca de pano, um sabugo científico, um nobre suíno, um burro falante e um rinoceronte boa-praça.

Para equilibrar as relações está uma boa avozinha, uma despachada cozinheira e duas crianças: Lúcia, a menina do nariz arrebitado, e Pedrinho, o aventureiro. Monteiro Lobato é considerado o fundador da literatura infantil brasileira. Foi um educador: nas suas obras, ensinou folclore, brasilidade, gramática, história e mitologia.

Mas era autor de um humor diferente, torto, com o qual evidenciava uma habilidade singular para construir imagens fortes. Tinha prosa pragmática, fixada no grotesco, no incomum. Não foi à toa que tratou com tanto privilégio a sua personagem Emília, uma boneca de pano despachada, desbocada e debochada. Tratava-a bem porque Emília era o seu alter ego, o seu megafone para fustigar os poderes. Numa carta ao amigo Godofredo Rangel (1908), confessa o seu plano editorial: “Os artistas subjetivos que só tiram de si em vez de tirar do mundo que os rodeia, ficam introspectivos em excesso e acabam satisfazendo a um público muito restrito: a si mesmos”. Lobato escrevia para os outros. Ainda que fosse para provocar. Provocar riso ou carranca.

Pessoalmente, ressentia-se do que considerava empreendimentos fracassados. Foi articulista de jornal. Foi conferencista. Foi adido comercial do consulado brasileiro em Nova York. Fundou editora. Foi fazendeiro. Por meio de artigos e livros, condenou a falta de saneamento, as queimadas, a derrocada da cultura do café, a preguiça nacional. E, como símbolo da preguiça tupiniquim, como personagem-tipo, elegeu o caboclo do Vale do Paraíba, a quem apelidou de Jeca-Tatu (1918), e a quem definia assim: sombrio urupê de pau podre, a modorrar silencioso no recesso das grotas. Jeca Tatu incorporava o atraso brasileiro, segundo Lobato, acocorado em frente a uma casa de pau-a-pique, a barriga cheia de vermes, o quintal cheio de filhos. Jeca Tatu era o resultado de “um complexo sistema de parasitismo em repouso”, “cidadão exemplar da Botocúndia”. Aos 25 anos, Lobato já antecipara, com uma frase, a indisposição para com o interior paulista. “Estou nomeado promotor público da comarca de Areias, que deve ser nalgum lugar”, escreveu em 14 de abril de 1907. Em seguida mudava seus haveres para a cidade que ele passaria a chamar de Itaoca ou de Oblivion, no livro Cidades Mortas.

Sérgio Milliet foi quem o enfrentou mais firmemente, nessa questão antropológica: “O Jeca Tatu é quase uma vingança pessoal; é o caboclo visto com o olhar azedo do fazendeiro malogrado”. Crítico literário dos mais importantes, Sérgio Milliet ainda decretou, sobre a obra de Lobato: “O humor, já o disse um conhecedor, jorra da ternura e do pudor dos tímidos. É uma compensação. Ao passo que o sarcasmo é uma transferência do espírito de revolta. É com o sarcasmo que o intelectual se vinga dos outros; é pelo humor que ele se castiga a si próprio”.

Lobato, mais tarde (1927) reconheceu que o retrato do caboclo era injusto, que a culpa não era do Jeca, mas sim daqueles responsáveis pela sua miséria e abandono. Redime-se, no livro “Mr. Slang e o Brasil”, com frases como estas: “Até um cego, um estropiado presta. A questão toda está em proporcionar-lhes condições para prestar.”/ “O Jeca não é assim: está assim”. Monteiro Lobato passou a falar do Jeca como produto do meio físico e social: verminose, subnutrição, analfabetismo e descaso das autoridades. E passou a alertar que as condições de vida do brasileiro, o Jeca Tatu, precisavam ser mudadas com urgência.

Em 1948, muito doente, tentou um último achado do humor canhestro, quando disse a Edgard Cavalheiro: “Estou ansioso por verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final.” Morreria pouco depois, na cidade de São Paulo. Era julho.

Educação não é pesar, é prazer

Por Gabriel Chalita

É oportuno, neste momento de comemorações do Dia do Professor, compartilhar algumas reflexões sobre a educação. Houve tempo em que estudar era ser posto à prova, era enfrentar vicissitudes para temperar o espírito, segundo os paradigmas da época. Tratava-se de um combate, que evitava o prazer e valorizava o sacrifício. Lembremo-nos do relato de Raul Pompéia: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” E também do chefe timbira, de Gonçalves Dias, que diz ao filho:

“Coragem, meu filho, que a vida, é luta renhida, viver é lutar.”

Provação. Era disto que se tratava a vida e a escola.

Mas a pedagogia avançou. Hoje sabemos que viver é enfrentar, mas não é amargurar; que estudar é buscar, superar, mas não é desesperar. O aprendizado deve ser prazeroso, e este pode ser o desafio mais importante do profissional de educação. Talvez tenha sido Cecília Meirelles quem fez a síntese mais poética do que seja ensinar. Para a doce poeta e educadora, ensinar é “acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética afetuosa e participante.”

E aí está em que se baseia a educação: afeto e solidariedade. E compreensão. Até para o erro. Edgar Morin costuma dizer que todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. Para ele, “o maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior ilusão seria subestimar o problema da ilusão.”

Em meu livro Educação: a solução está no afeto, falo das três habilidades que acredito que precisam ser desenvolvidas no aprendiz: cognitiva, emocional e social. Quando um aluno erra, o professor preparado corrige, mas não censura, disciplina, mas não ridiculariza, repara, mas não condena. O educador não pode mais assumir o papel de detentor absoluto do conhecimento, embora deva se manter em contínua capacitação. Deve ser mais do que apenas o facilitador da busca do conhecimento pelo aprendiz. Deve ser um instigador. O professor que faz jus ao título de educador estimula a cooperação, porque a palavra que sintetiza o conceito da educação contemporânea é a reciprocidade. Estimula a vivência, a comparação, a análise crítica, o intercâmbio de idéias e de experiências. Tem ou desenvolve habilidade para fazer com que os talentos sejam exteriorizados. E desse modo descobre capacidades e orienta realizações.

Triste é o educa­dor que já não acredita mais na capacidade de aprendiza­do, que não se debruça para examinar melhor a peculiaridade de cada aprendiz. Este não ensina nem apren­de. Porque a educação não é pesar, é prazer.

Em resumo: trabalhar em equipe, resolver problemas, saber ensinar e aprender a ser solidário. Eis o que é ensinar! O mundo da competitividade é o mundo da heterogeneidade. Comparar pessoas diferentes – e não há pessoas iguais – é desestimular a criatividade e a autonomia.

“A melhor aprendizagem ocorre quando o aprendiz assume o comando de seu próprio desenvolvimento em atividades que sejam significativas e lhe despertem o prazer”. A frase é do sul-africano Seymour Papert, matemático, professor do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT) e pai da Inteligência artificial, um dos maiores visionários do uso da tecnologia na educação. Em 1960 já dizia que toda criança deveria ter um computador em sala de aula. Mas a tecnologia sozinha não representa evolução na forma de educar. O computador é ferramenta, é apoio, é máquina, e máquina alguma substitui o professor – este sim, a alma da educação. O professor não pode ser como um disco de memória de computador, apenas um depósito de informação.

Há muitas formas de desenvolver conhecimento, mas o ato de educar só se dá com afeto, só se completa com amor. E a educação se realiza porque, junto com o amor, surge compromis­so, respeito, a necessidade de continuar a estudar sem­pre, de preparar aulas mais participativas.

A educação é, em todas as suas dimensões, um gran­de desafio. Um desafio que depende em sua maior parte do professor, a quem venho reverenciar nesta data comemorativa. É o professor que fará, com dignidade e respeito – que são, afinal, formas de amor – com que a educação se transforme em puro prazer de viver.

Ensinar a Alegria

Muito se tem falado sobre o sofrimento dos professores. Eu que ando sempre na direção oposta e acredito que a verdade se encontra no avesso das coisas, quero falar sobre o contrário: a alegria de ser professor, pois, o sofrimento de ser um professor é semelhante ao sofrimento das dores de parto: a mãe o aceita e logo dele se esquece, pela alegria de dar à luz um filho. Reli, faz poucos dias, o livro de Hermann Hesse, O jogo das contas de vidro. Bem ao final, à guisa de conclusão e resumo da estória, está este poeminha de Ruckert: 

Nossos dias são preciosos mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma planta rara e exótica, deleite de um coração jardineiro, uma criança que estamos ensinando, um livrinho que estamos escrevendo.

Este poema fala de uma estranha alegria, a alegria que se tem diante da coisa triste que é ver os preciosos dias passando… A alegria está no jardim que se planta, na criança que se ensina, no livrinho que se escreve. Senti que eu mesmo poderia ter escrito essas palavras, pois sou jardineiro, sou professor e escrevo livrinhos. Imagino que o poeta jamais pensaria em se aposentar. Pois quem deseja se aposentar daquilo que lhes traz alegria? Da alegria não se aposenta… Algumas páginas antes o herói da estória havia declarado que, ao final de sua longa caminhada pelas coisas mais altas do espírito, dentre as quais se destacava a familiaridade com a sublime beleza da música e da literatura, descobria que ensinar era algo que lhe dava prazer igual, e que o prazer era tanto maior quanto mais jovens e mais livres das deformações da deseducação fossem os estudantes.

Ao ler o texto de Hesse tive a impressão de que ele estava simplesmente repetindo um tema que se encontra em Nietzsche. O que é bem provável. Fui procurar e encontrei o lugar onde o filósofo (escrevo esta palavra com um pedido de perdão aos filósofos acadêmicos, que nunca o considerariam como tal, porque ele é poeta demais, “tolo” demais…) diz que “a felicidade mais alta é a felicidade da razão, que encontra sua expressão suprema na obra do artista. Pois que coisa mais deliciosa haverá que tornar sensível a beleza? Mas esta felicidade suprema”, ele acrescenta, é ultrapassada na felicidade de gerar um filho ou de educar uma pessoa”.

Passei então ao prólogo de Zaratustra.

Quando Zaratustra tinha 30 anos de idade deixou a sua casa e o lago de sua casa e subiu para a montanha. Ali ele gozou do seu espírito e da sua solidão, e por dez anos não se cansou. Mas, por fim, uma mudança veio ao seu coração e, numa manhã, levantou-se de madrugada, colocou-se diante do sol, e assim lhe falou: Tu, grande estrela, que seria de tua felicidade se não houvesse aqueles para quem brilhar? Por dez anos tu vieste à minha caverna: tu te terias cansado de tua luz e de tua jornada, se eu, minha águia e minha serpente não estivéssemos à tua espera. Mas a cada manhã te esperávamos e tomávamos de ti o teu transbordamento, e te bendizíamos por isso. Eis que estou cansado na minha sabedoria, como uma abelha que ajuntou muito mel; tenho necessidade de mãos estendidas que a recebam. Mas, para isso, eu tenho de descer às profundezas, como tu o fazes na noite e mergulhar no mar… Como tu, eu também, devo descer… Abençoa, pois a taça que deseja esvaziar-se de novo…

Assim se inicia a saga de Zaratustra, com uma meditação sobre a felicidade. A felicidade começa na solidão: uma taça que se deixa encher com a alegria que transborda do sol. Mas vem o tempo quando a taça se enche. Ela não mais pode conter aquilo que recebe. Deseja transbordar. Acontece assim com a abelha que não mais consegue segurar em si o mel que ajuntou; acontece com o seio, túrgido de leite, que precisa da boca da criança que o esvazie. A felicidade solitária é dolorosa Zaratustra percebe então que sua alma passa por uma metamorfose. Chegou a hora de uma alegria maior: a de compartilhar com os homens a felicidade que nele mora. Seus olhos procuram mãos estendidas que possam receber a sua riqueza. Zaratustra, o sábio, transforma-se em mestre. Pois ser mestre é isso: ensinar a felicidade.

“Ah!”, retrucarão os professores, “a felicidade não é a disciplina que ensino. Ensino ciências, ensino literatura, ensino matemática…” Mas será que vocês não percebem que essas coisas que se chamam “disciplina”, e que vocês ensinam não é um deleite para a alma? Se não fosse, vocês não deveriam ensinar. E se é, então é preciso que aqueles que recebem, os seus alunos, sintam prazer igual ao que vocês sentem. Se isso não acontecer, vocês terão fracassado, na sua missão, como a cozinheira que queria oferecer prazer, mas a comida saiu salgada e queimada.

O mestre nasce da exuberância da felicidade. E, por isso mesmo, quando perguntado sobre a sua profissão, os professores deveriam ter coragem para dar a absurda resposta: “Sou um pastor da alegria…” Mas, é claro, somente os seus alunos poderão atestar da verdade da sua declaração…

Por Rubem Alves

Um filme para aprender

Por Gabriel Chalita

Quem é esta mulher? É o que o belíssimo filme de Sérgio Rezende tenta responder. Quem é esta mulher? Em tempos de valores tão desprezados, em que os exemplos que deveriam nortear as pessoas se escondem em interesses egóicos; em tempos de desilusão, surge uma mulher, sua lembrança, sua história. E é por isso que a sétima arte, além de entreter, emocionar, também ensina.

Quem é esta mulher, mineira de nascimento, carioca de história, que abriu caminho para o mercado da moda brasileira nos Estados Unidos destacando a identidade de seu povo? Zuzu Angel, além de outras qualidades, é uma mulher que teve coragem, competência e amor. O filme resgata a consciência de que, apesar de todos os problemas de um regime democrático, a ditadura nunca valerá a pena. Stuart Angel foi um entre tantos que tiveram o sonho prematuramente destruído pela insensibilidade e pelo uso inadequado do poder. Que os jovens de hoje aprendam com a história e abominem qualquer possibilidade de destituição de direitos individuais ou coletivos. No filme, é Chico Buarque quem se encarrega do fecho de ouro, com sua frase político-poética: “amanhã vai ser outro dia…” Hoje é um outro dia graças a Zuzu, a Chico, artistas, intelectuais, políticos, educadores, mulheres e homens que lutaram e lutam pela liberdade. Hildegard demorou 30 anos para autorizar o filme. Queria uma história real, sensível. Conseguiu. À emoção soma-se a certeza de que é possível construir um presente melhor com as lições aprendidas no passado. Quem é essa mulher, Zuzu Angel? Uma mulher que transcende épocas, pois entendeu o seu papel na história.

Juventude: problema ou solução

Por Gabriel Chalita

Essa é uma das características do jovem: a disposição para a mudança. Essa inquietação faz com que sua rebeldia esteja a serviço de causas significativas ou de instrumentos de destruição. O jovem tem potencial para transformar, inovar, ousar. Sua criatividade ainda não mora no mundo dos vícios. É o doce sabor da novidade. Por outro lado, tem o jovem o poder de destruir a si mesmo e ao outro.

O Brasil tem, entre seus 157.447 detentos em presídios, 62% de pessoas com idade entre 18 e 29 anos, segundo dados de maio de 2006, do Departamento Penitenciário Nacional. Agente e vítima da violência, transforma-se o jovem em problema. Transforma-se, porque não é. O jovem é solução. Precisa apenas de espaço, de oportunidade. Precisa de esclarecimento, que o filósofo Immanuel Kant chama de saída do homem de sua minoridade, que é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo, sem dependência, e com autonomia. E, para isso, precisa esse jovem de educação.

A educação está deixando a desejar. O gasto nacional (4,15% do PIB em 2002), perto da imensa demanda de qualidade, acesso e permanência, é pequeno. Segundo dados do IBGE, há 12,3 milhões de jovens entre 14 e 17 anos fora da escola. Como o país demorou a adotar uma política de Estado para a universalização do ensino fundamental, acumulamos esse déficit. Foi só na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso que o esforço foi efetivo: elevamos de 88% (1994) para 97% (2004) o percentual das crianças matriculadas da 1ª até a 8ª séries. Mas restou e resta o desafio do ensino médio. Apenas 30% desses alunos passam do ensino fundamental para o médio. Nos últimos anos, não foram corrigidas essas questões, alegadamente por falta de aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, o Fundeb. A participação do governo federal é muito pequena no financiamento da educação básica. Por isso, estados e municípios têm enormes dificuldades de pagar salário digno aos professores, agentes essenciais do processo educativo. Com um corpo docente mal remunerado, desmotivado e com poucas chances de formação, é difícil percorrer o caminho da qualidade. Embora professoras e professores desse imenso país se desdobrem na nobre arte de educar.

Pesa ainda a pouca consciência da família na relação com os jovens. Pais monossilábicos não conseguem dialogar nem orientar os filhos para a vida. Ouve-se pouco e fala-se o que não encontra eco. Um exemplo de política pública eficiente é a escola da família, experiência do governo Geraldo Alckmin, grande sucesso porque atua na escola e na família. Traz a família para a escola e dá oportunidade a quase 50 mil jovens de ingressarem gratuitamente em uma universidade. Além da impressionante redução da violência causada pela abertura desses espaços públicos para geração de renda, saúde, cultura e esporte. São Paulo tem ainda as melhores universidades públicas do país (USP, Unesp e Unicamp) e 125 Escolas Técnicas Estaduais que atendem mais de 90 mil estudantes – aliás a valorização dos cursos técnicos já é fato em países que conseguiram com seriedade desenvolver políticas educacionais.

O outro desafio ainda não enfrentado nacionalmente é a extensão da média de escolaridade. Dados coletados pela Unesco a cada década, de 1960 a 2000, mostram que todos os países da América Latina tiveram avanço nos níveis de escolaridade da população adulta – os dados descontam a defasagem idade/série. No Brasil, por exemplo, a média de escolaridade em 1960 era de 3,1 anos. Em 1970, subiu para 3,7, em 1980, para 4,3, em 1990, para 6,5 e chegou a 7,5 anos em 2000. Comparativamente, a Argentina, já em 1960, tinha a média de 6,1 anos, praticamente o que o Brasil alcançaria somente 30 anos mais tarde. A Argentina, hoje, chegou à média de 8,3 anos de escolaridade.

A educação é, no médio prazo, a garantia de menores problemas em outras políticas públicas. Uma juventude saudável, com acesso à educação, práticas esportivas e culturais, tem mais preparo e maior equilíbrio para ingressar no mercado de trabalho. Uma juventude com esse perfil será menos refém da violência, da drogadição, e estará pronta para se apresentar como solução para a construção de um país melhor.

Em efeitos secundários, reflete Woody Allen: “Somos um povo que necessita de objetivos definidos. Nunca aprendemos a amar. Precisamos de dirigentes e projetos coerentes.”

Projetos coerentes que ofereçam espaço ao jovem para que ele não seja encarado como um problema, para que tenha conhecimento suficiente para construir a sua história. Projetos possíveis de serem realizados como a universalização do ensino médio, a política de qualidade em toda a educação brasileira e a parceria responsável entre governo federal, estados e municípios juntamente com a sociedade civil para que metas definidas como prioridade nacional em termos educacionais não tenha coloração partidária, mas sejam um projeto de Brasil. Um Brasil cansado de demagogia e factóides. Um Brasil carente de competência e de oportunidades. Essa é nossa linda juventude na poesia do mineiro Flávio Venturini, página de um livro bom. Ajudemos a escrevê-lo.

Filme para ver e aprender

Zuzu Angel mereceu de Chico Buarque uma música que começa assim: Quem é esta mulher, que canta sempre esse estribilho: “Só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar”.
Gabriel Chalita foi ver o filme. Gostou tanto que escreveu o artigo a seguir:

Quem é esta mulher? É o que o belíssimo filme de Sérgio Rezende tenta responder. Quem é esta mulher? Em tempos de valores tão desprezados, em que os exemplos que deveriam nortear as pessoas se escondem em interesses egóicos; em tempos de desilusão, surge uma mulher, sua lembrança, sua história. E é por isso que a sétima arte, além de entreter, emocionar, também ensina. Quem é esta mulher, mineira de nascimento, carioca de história, que abriu caminho para o mercado da moda brasileira nos Estados Unidos destacando a identidade de seu povo? Quem é esta mulher leve e forte, feliz e mergulhada em um pranto sem fim, bela pela estética que criava e pelos sentimentos que vivia? Zuzu Angel, além de outras qualidades, é uma mulher que teve coragem, competência e amor. Coragem. Tal qual Antígona, de Sófocles, lutou contra o sistema, para ter o direito sagrado de enterrar o filho. “Não era uma coragem comum, é uma coragem que só uma mãe ferida pode ter”, afirma Hildegard Angel, filha de Zuzu. Sozinha, sem apoio da imprensa censurada, com poucos amigos, Zuzu gritou para o mundo o que tinha acontecido. Competência. Excelente estilista, usou a arte da costura como protesto. Armada de agulha e linha, lançou uma coleção que denunciava a violência e a tortura. . Amor. Eis aqui o motor que move o mundo dos que teimam em acreditar. Amor que moveu uma mãe inconformada com o destino de seu filho. Queria ela um julgamento digno, o direito à defesa de um filho seu que, em tantas lembranças, a fortalecia para a luta. Lembranças da infância, da ousadia adolescente, do sonho impetuoso do jovem em busca de um mundo melhor. Ingenuidade? Talvez. Amor pela causa da liberdade? Certamente. Coragem, competência e amor. É disso que precisam mulheres e homens de hoje. É disso que precisam as escolas, que devem preparar para a vida, para a coragem de mudar o que deve ser mudado com competência e acima de tudo com amor, porque, sem amor, falta força e aspiração. O filme resgata a consciência de que, apesar de todos os problemas de um regime democrático, a ditadura nunca valerá a pena. Stuart Angel foi um entre tantos que tiveram o sonho prematuramente destruído pela insensibilidade e pelo uso inadequado do poder. A tirania jamais conduzirá à liberdade ou à felicidade. Que os jovens de hoje aprendam com a história e abominem qualquer possibilidade de destituição de direitos individuais ou coletivos. No filme, é o mesmo Chico Buarque quem se encarrega do fecho de ouro, com sua frase político-poética: “amanhã vai ser outro dia…” Hoje é um outro dia graças a Zuzu, a Chico, artistas, jornalistas, intelectuais, políticos, educadores, mulheres e homens que lutaram e lutam pela liberdade. Hildegard demorou 30 anos para autorizar o filme. Queria uma história real, competente, sensível. Conseguiu. À emoção soma-se a certeza de que é possível construir um presente melhor com as lições aprendidas no passado. Quem é essa mulher, Zuzu Angel? Uma mulher que transcende épocas, pois entendeu o seu papel na história.