Gabriel Chalita (Gestão Educacional)
O diretor de escola desempenha um papel essencial na qualidade do ensino. Como líder é o animador. Animar vem de animus, anima – alma. Por isso o diretor é quem dá alma ao grupo. Sua postura deve ser a de um líder democrático que consegue envolver toda a comunidade escolar – professores, funcionários, pais, alunos, bairro, Ongs, empresas, clubes etc. – dentro de um mesmo ideal: formar o cidadão para a vida e para o mercado de trabalho.
Mais do que teorias, vale a prática. Eis a experiência de uma extraordinária diretora da rede pública de São Paulo. Como a mata virgem de Macunaíma, no meio de Itaquera ergue-se a Escola Estadual Profa. Ruth Cabral Troncarelli. O local é de periferia, no extremo leste da Grande São Paulo, no meio de grandes conjuntos habitacionais. Ergue-se a escola, hoje, imponente, limpa, sem pichações, porque a população pediu a sua construção. O bairro, superpopuloso, ganhou o conjunto habitacional José Bonifácio, em 1980, e a comunidade pleiteou – e obteve – a construção da escola, que acabou inaugurada em 1983, para 3.000 alunos. Beatriz Oliveira Silva, moradora da região, foi uma das primeiras professoras da nova escola. Sempre muito ativa e animada, assumiu em pouco tempo a posição de vice-diretora e viu-se a braços com o primeiro desafio: a escola não recebia verbas do governo do Estado, e precisava buscar maneiras de promover a sua própria manutenção. Bia, como é carinhosamente chamada, passou a planejar e a organizar eventos, trazendo para ajudar a escola as pessoas da comunidade, as famílias dos alunos. Em 1988, a diretora titular passou em um concurso de remoção e Bia assumiu como substituta. Tomou quatro providências, logo que recebeu o comando:
1) repensar a estrutura física da escola, para enfrentar a onda de violência de que São Paulo foi vítima, principalmente entre 1988 e 1989;
2) impor-se junto ao alunado, com rigor e firmeza, para obter ordem, disciplina e cooperação;
3) promover eventos para levantar fundos para aperfeiçoar a escola;
4) desenvolver todos os trabalhos de modo conjunto, entre direção e professores.
A partir de 1995, com o início do repasse financeiro para as escolas, no governo Mário Covas, Bia começou a ter mais combustível para as suas idéias. Articulou com seus professores numerosos projetos e tratou de realizá-los. Um deles foi o projeto “Penso, logo escrevo”. Idealizado pelo professor Wagner Garcia Siqueira, foi considerado um dos quatro melhores do país na V Mostra de Inovações Pedagógicas em Língua Portuguesa do Sesc/Minas Gerais. A proposta era melhorar a qualidade dos textos produzidos pelo alunos do Ensino Médio, que apresentavam baixo rendimento nas redações durante o ano letivo de 2003. A prática pedagógica em sala de aula para ensinar a matéria foi modificada para uma maneira mais significativa e prazerosa. Estimulados pela discussão e reflexão sobre temas propostos pelo educador, os alunos começaram a produzir textos mais coesos e coerentes porque passaram a ter o domínio de uma linguagem clara e objetiva. Bons resultados começaram a aparecer já no ano seguinte: em 2004 houve um crescimento de 87% em relação ao rendimento do ano anterior, nas turmas do terceiro ano do Ensino Médio. Cada aluno chega a produzir até oito redações por bimestre. Os alunos são divididos em equipes, fazem leitura, selecionam e digitam os melhores textos. Aí os trabalhos são impressos e encadernados. Em 2004, o total produzido chegou a quatrocentas páginas, batizadas de Coletâneas. O projeto é financiado por uma ONG da Holanda. Beatriz Oliveira Silva, diretora: “Às vezes nós mesmos, educadores, resistimos às mudanças. Mas temos que estar atentos a novas maneiras de educar.” “Se Einstein voltasse para a escola hoje, encontraria as mesmas carteiras, a mesma lousa, o mesmo estilo de aprender? Não podemos ficar na imobilidade. Temos que nos envolver e criar maneiras novas e melhores de educar e de aprender.” Em 1998, aprovada no concurso, Bia poderia ter escolhido uma escola menor para dirigir, também próxima de sua casa, mas preferiu enfrentar o desafio. Com o apoio de todos os professores e da comunidade, desenvolveu outros projetos.
Cursinho
Conseguiu que a escola sediasse o programa Pró-Universitário, um convênio entre o governo de São Paulo e a USP, que ofereceu, durante o ano de 2006, cursinho gratuito na zona leste para 5.000 alunos de baixa renda do terceiro ano do ensino médio na rede estadual. Estudantes da USP foram responsáveis pelas aulas. Os alunos com menor renda tiveram preferência para ocupar as vagas, considerados também o desempenho e a freqüência dos estudantes na escola. Foram cem turmas com 50 alunos cada, com carga horária total de 380 horas.
Informática
Confiando na habilidade de um aluno, montou um site na Internet, que foi escolhido em uma mostra de informática como o melhor site de escola pública. O trabalho chamou a atenção da empresa Intel, que doou 20 computadores para a escola, financiou capacitação de professores, formou monitores e dinamizou as aulas de informática.
Escola Modelo
Um novo projeto, também apoiado pela Intel, é a implantação de uma lousa digital (mais software e capacitação de professores). O envolvimento da escola é tal que, em todos os eventos promovidos pela empresa, professores e alunos são chamados a participar.
Pesquisa infantil
Para desenvolvimento de tese de doutorado, uma médica iniciou uma pesquisa dentro da Escola Ruth Cabral Troncarelli, sobre osteoporose infantil. Os alunos, professores e familiares participam ativamente da pesquisa, e em contrapartida receberão importantes noções de saúde e de nutrição. Os professores de educação física são os responsáveis pelo projeto.
Sexualidade
Já em andamento, um outro projeto da diretora Bia é uma parceria com a empresa Belgo-Mineira, sobre sexualidade, que inclui a capacitação de professores.
Escola do Possível
O mais novo projeto é uma parceria com a USP, aplicado inicialmente, em 2006, para cinco salas de 5ª e 6ª séries. É uma nova forma de ensinar, transformando o aluno em pequeno pesquisador. Embora diminua o poder do professor, que passa a ser coordenador de pesquisa e não mais o detentor exclusivo do conhecimento, o projeto entusiasma os alunos e estimula o seu desenvolvimento.
“O social da região é complexo, mas internamente a escola está preservada.” É o que garante Bia, declarando que a escola tem que estar viva, o que só é conseguido quando a comunidade assume a escola como um todo. “Estamos abertos a parcerias que possam melhorar a área pedagógica. E acho que já superamos a velha mania de culpar alguém pelas dificuldades – o que fazemos é nos envolver e criar maneiras inovadoras de educar. É este o nosso papel.” Aí está o líder significativo. Aquele que faz nascer, mesmo diante da adversidade, uma ilha de excelência. Com apenas algumas ferramentas: compromisso, afeto, dedicação e respeito. Parabéns, Bia, e parabéns aos milhares de diretores de escolas públicas ou privadas desse país, que continuam sonhando e realizando.