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Esporte: a educação pela superação

Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

“Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo./Rumo do céu?/Que importa a rota./Voa e canta enquanto resistirem as asas.” (O vôo – Menotti Del Picchia) Nossa existência é composta de obstáculos, desafios, grandes e pequenas modalidades de lutas que exigem empenho, dedicação, garra e perseverança de seus atletas. Seres humanos que estão em constantes campeonatos, em inúmeros certames, em incontáveis disputas e jogos cujos resultados são, comumente, o reflexo perfeito de nossos esforços.

A verdade é que, nos torneios que compõem nossa história, enfrentamos provas diversas vencidas apenas por aqueles que conseguem superar-se a cada fracasso, a cada derrota, a cada dificuldade experimentada. A vida é mesmo uma escola, uma olimpíada, uma possibilidade de aprender, de evoluir, de enfrentar medos, frustrações e limitações que nos impediriam de ir além se não os enfrentássemos.

Neste mundo cada vez mais competitivo em que vivemos, nesta era em que a conquista do conhecimento representa a medalha de ouro, cabe a nós, educadores, incentivarmos nossos aprendizes a dar o melhor de si. A jamais desistir dessa corrida rumo à descoberta. Rumo à compreensão de que o importante, sobretudo, não é a chegada, mas a beleza do caminho. Um caminho em que obtenham a percepção de que não há troféu, medalha, honra ou glória sem determinação extrema, sem sacrifícios ou lágrimas.

Nossa grande missão é fazer com que meninos e meninas, moças e rapazes que ainda estão no começo dessa fascinante olimpíada que é a vida recebam o estímulo, o apoio e os instrumentos para que suas trajetórias sejam bem-sucedidas. Precisamos atuar como guias, treinadores, mentores que os conduzam pelas veredas da arte, da técnica, da prática, da teoria. Líderes seguros, capazes de despertar nesses atletas iniciantes qualidades e virtudes, competências e habilidades, talentos e criatividade.

Que todos possamos exercer esse ofício com paixão e que sejamos capazes de apontar um norte, uma direção, uma estrada que ofereça aos aprendizes a possibilidade de um futuro digno, de um Brasil e de um mundo melhores. A todos vocês, educadores, mentores, orientadores das novas gerações, verdadeiros campeões da educação, o nosso muito obrigado e toda a nossa admiração e respeito.

Educação – segundo tempo

A mídia tem sido acusada por alguns segmentos partidários de estar dominada pela síndrome da hostilidade ao governo Lula. Para eles, a imprensa estaria sob o controle do “poder econômico”. Queixam-se de que iniciativas governamentais bem-sucedidas têm, supostamente, recebido pouco destaque ou, quando muito, migram para o lusco-fusco das páginas interiores. Essa hipotética tendência, no entanto, acaba de ser derrubada pela força de uma boa notícia: o anúncio pelo presidente Lula do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). A iniciativa, inovadora e consistente, recebeu amplo destaque nos meios de comunicação social.

Passados os quatro anos do primeiro mandato, tempo em que o governo patinou numa agenda excessivamente ideológica e populista, o presidente Lula, finalmente, lançou as bases do Plano de Desenvolvimento da Educação.

O projeto, perfilado com competência pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, pretende estabelecer sistemas de definição de metas, de avaliação e de cobrança de resultados nas escolas de todo o País.

Da Provinha Brasil – uma avaliação que incluirá estudantes a partir dos 6 anos de idade para verificar se estão aprendendo e, afinal, alfabetizados – à ampliação do Bolsa-Família para incluir jovens de 15 a 17 anos, todas as ações passam pela idéia de aumentar o alcance e o resultado do sistema educacional, investindo dinheiro e recursos técnicos para tirar a educação do “pior dos mundos”, conforme definiu o próprio presidente Lula ao apresentar o plano para uma platéia de educadores.

Hoje, os alunos são avaliados em exames nacionais a partir da quarta série do ensino fundamental, quando a maioria já fez 10 anos. O objetivo da Provinha Brasil é ter um diagnóstico mais precoce do processo de alfabetização para corrigir antes os equívocos. O objetivo é enfrentar o principal problema da educação brasileira: os resultados lamentáveis das últimas décadas, que criaram uma legião de crianças e jovens que estudam, mas não aprendem, e engordam as fileiras de adultos com baixíssima escolaridade.

O Ministério da Educação pretende identificar as cidades com pior qualidade de educação e propor a elas um plano de melhoria sob orientação técnica do ministério. Em quatro anos, a meta é investir nos piores municípios 0,4% do PIB, o que, nas contas do ministro Fernando Haddad, representaria R$ 8 bilhões em investimentos até 2010.

Em resumo, caro leitor, o programa, elogiado até por educadores da oposição, prevê o estabelecimento de metas para o ensino fundamental, de responsabilidade basicamente dos municípios; a ação federal não só no acompanhamento, mas na melhoria dos métodos de gestão; melhor remuneração e qualificação dos professores e retomada do conceito de Bolsa-Escola com a extensão do Bolsa-Família para jovens de 15 a 17 anos, onde há grave evasão escolar e existe abundante mão-de-obra à disposição do crime.

O plano ambicioso, mas realizável, é a melhor resposta à violência que atordoa a sociedade brasileira. A miragem do dinheiro fácil, principal ferramenta de aliciamento do crime organizado, prospera nos corações machucados pela falta de educação e pela agonia da esperança. A desestruturação da família, a exclusão social e a crise da educação, fenômenos perversos que costumam caminhar juntos, estão na raiz do problema da delinqüência. Se a crescente falange de adolescentes criminosos deixa claro algo, é o fato de que cada vez mais jovens são órfãos de um sistema educacional falido.

Por isso, um programa que, com seriedade, pretende recolocar a educação na agenda nacional merece o apoio de todos os que têm uma parcela de responsabilidade na formação da opinião pública.

O presidente Lula, ademais, abandonou o discurso da grandiloqüência e adotou um tom admiravelmente realista e humilde. Em improviso a educadores de todo o País, Lula disse que tem “inquietações”, mas nenhuma “solução” para melhorar a qualidade do ensino fundamental do País: “Eu vim aqui apenas para dizer a vocês das minhas inquietações. Não tenho solução. As soluções que eu tenho, possivelmente, algumas são válidas e outras, não. Mas o que eu sei, concretamente, é que estamos em dívida com a educação.” Lula mostrou-se perturbado com a situação da educação. Citou provas de avaliação aplicadas em alunos entre a quarta e a oitava séries. “O resultado não é animador”, sublinhou. A educação, de fato, piorou nos últimos dez anos. “Junto com a universalização do ensino não houve um acompanhamento da melhoria da qualidade da educação. Então nós estamos no pior dos mundos.” Disse ser “o menos qualificado” para discutir o tema: “Esse é um problema em que nós vamos ter que nos debruçar, e eu quero que vocês se debrucem sobre isso porque talvez, de todos aqui, eu seja o menos qualificado para discutir a educação. Aqui, estou apenas representando uma demanda de que eu sinto necessidade, mas quem dará a resposta, certamente, serão vocês, e não eu.” As palavras do presidente da República, simples, despojadas e diretas, tocaram na fibra sensível da cidadania. É óbvio que um improviso não muda nada. É claro que não há dinheiro sobrando. O governo precisa escolher: ou continua despejando rios de recursos no ralo de uma Previdência falida e em gastos de impacto popular imediato, e estará arando no mar; ou investe onde deve – na educação, por exemplo.

Um Plano de Desenvolvimento da Educação sólido, republicano e despido de viés ideológico pode virar o Brasil do avesso. É por aí, presidente!

Professor educador

Por Gabriel Chalita

É comum, no período que antecede o início das aulas, terem as crianças uma certa expectativa, um certo desejo, antecipando o que será a escola. Têm, as crianças, a tendência de gostar do professor. É o gosto da novidade, do que não conhecem – é a aventura do aprendizado. Começam as aulas e algumas expectativas são superadas, outras frustradas. Alguns encontros se revelam marcantes, outros nem tanto. Há alunos que voltam para casa, dos primeiros dias de aula, desejosos de narrar aos pais cada detalhe de seus professores.

Em uma leve viagem ao passado, todos rapidamente nos lembramos de alguns professores. Por que desses e não de outros? Porque alguns marcam mais. E é desses professores que a pessoa se lembrará, ao longo da vida.
Infelizmente, muitos professores se convertem em burocratas da escola. Estão ali exercendo a profissão de estar ali. E nada mais. Sem perfume nem sabor. Sem encontro nem encanto. Apenas ali, munidos de um programa determinado, e sequiosos do fim, já no começo. Tristes mulheres e homens que embarcam na profissão errada e lá permanecem aguardando a miúda aposentadoria. Não são maus. Apenas não são educadores.
Há aqueles que educam desde os primeiros raios da aprendizagem. Preparam-se para a celebração do saber e do sabor – palavras com a mesma origem. Lançam redes em busca de curiosidades, surpreendem e permitem surpreender; ensinam e aprendem com a mesma tenacidade. Estão ali, em uma sala de aula, desnudos de arrogância e ávidos de vida. Não temem a inquietação das crianças e dos jovens. Não negligenciam o conteúdo, mas valorizam os gestos. Gestos – é disso que mais nos lembramos dos nossos mestres que passaram. E que permaneceram.
Lembro-me de alguns, como a Ana Maria, professora de história, que nos instigava a estudar antes da aula o tema que seria trabalhado. Quando chegava a aula, ela propositadamente errava, e nós a corrigíamos. Era um jogo, uma didática simples que empregava. Eu chegava a sonhar com aquelas aulas. Ela despertava o gosto pela pesquisa e destravava os mais tímidos. Todo mundo queria corrigir a professora.
Talvez um exercício interessante para o professor seja o das lembranças. Lembrar, de quando era aluno, daqueles professores que eram educadores, e de repente ter a humildade de imitá-los ou até reinventá-los.
E não há tempo nem idade para fazer diferente. É só ter uma característica que Paulo Freire considerava importante para toda a gente mas essencial para quem educava: gostar de viver. Quem gosta de viver não tem preguiça de reinventar, nem medo de ousar.
Quem gosta de viver não tem medo de ternura, da gentileza, do amor. Quem gosta de viver, educa!

Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre, edição de março de 2007)

O centenário do arquiteto das curvas

Editorial (Jornal do Brasil)

“A gente imagina que, daqui a 300 anos, ainda vão falar de nós”, comentou certa vez o antropólogo Darcy Ribeiro. “Mas é ilusão. Vão lembrar só do Oscar”, reconheceu um dos nossos mais conhecidos educadores, ao sublinhar a relevância do brasileiro Oscar Niemeyer. O exagero retórico, em se tratando de quem é, parece compreensível. As hipérboles, verdadeiras ou não, costumam integrar a galeria de homenagens destinadas ao carioca que, conforme ressaltou o suíço Le Corbusier, num longínquo 1936, tem as montanhas do Rio de Janeiro nos olhos – por seus desenhos terem o encanto e as curvas da paisagem da mais bela cidade do mundo.

Sete décadas depois de o teórico número 1 da arquitetura moderna ter saltado de um zepellin para ajudar a construir o edifício-sede do Ministério da Educação, no Rio, a celebração vai-se ampliar ainda mais. Este é o ano do centenário de Oscar Niemeyer. Alvíssaras: um de nossos gênios da raça e o mais importante arquiteto brasileiro do século 20 chega aos 100 anos de idade, a serem completados em dezembro, com lucidez e vigor. Que as homenagens programadas para 2007 sejam compatíveis com a riqueza da obra do artista. Ele merece.

E merece sem que seja necessário concordar com as premissas de seus projetos, entre as quais a de que a forma não deve ser limitada pela função ou a de que a simplicidade, na arquitetura, é demagogia, e de suas convicções políticas, como ainda manter Marx e Lênin como heróis, admirar o ditador Fidel Castro, encantar-se com o bolivarianismo aventureiro do coronel Hugo Chávez e acreditar que a revolução é a trilha a seguir.

(Decerto Niemeyer já ouviu falar no clássico ditado segundo o qual o jovem que não é de esquerda e o velho que continua a sê-lo ou são tolos ou desonestos – cláusula que o presidente Lula, esquerdista de antanho e amigo do arquiteto comunista, ajudou a renovar ao pregar que, na travessia da juventude para a velhice, só quem tem “algo estranho” permanece de esquerda).

Esqueçamos, porém, os nexos obscuros entre a biologia e a ideologia. O que importa aqui é que, conforme sugeriu Darcy Ribeiro, a obra de Oscar continuará a ser estudada nos próximos séculos – em grande parte por seguir a lição do poeta francês Charles Baudelaire: “O inesperado, a irregularidade e a surpresa são parte essencial e característica da beleza”. Os projetos livres e audaciosos, materializados em décadas, demonstraram que é função da arquitetura emocionar.

Não por outra razão o arquiteto buscou escapar da linha reta e inflexível criada pelo homem e foi atraído pelas curvas – inspiradas, segundo o próprio, nas montanhas brasileiras, no curso sinuoso dos rios, nas ondas do mar. Pois seja. O que dizer da soma de beleza e intervenção arquitetônica inusitada instituída por Oscar mundo afora?

O criador de sólidos flutuantes exibe uma galeria incalculável em Belo Horizonte (o conjunto da Pampulha), São Paulo (Parque do Ibirapuera), Milão (a sede da Editora Mondatori), Paris (a sede do Partido Comunista), Caracas (o Museu de Arte Moderna da capital venezuelana), Nova York (a sede da ONU), Niterói (Museu de Arte Contemporânea) e, claro, Brasília. Incluam-se ainda obras recentes, como o Serpentine Gallery, em Londres, a escultura concebida para os jardins de Bercy, em Paris, e o monumento para Simon Bolívar, em Caracas.

Das obras e espaços criados ao longo de todo esse tempo, lamente-se a pouca presença de Oscar Niemeyer na sua cidade natal. Há a Passarela do Samba, é verdade, mas não basta. Enquanto Niterói tem o MAC, falta aqui uma obra igualmente significativa. Que o prefeito Cesar Maia aproveite o centenário do arquiteto para fazer este favor aos cariocas. O Rio e Oscar merecem.

Reflexões sobre o ensino religioso

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

Uma polêmica se deu em torno do ensino religioso nas escolas públicas com a visita do papa Bento XVI ao Brasil. A vinda do papa teve o objetivo de abrir a Conferência dos Bispos da América Latina e Caribe, na cidade de Aparecida.

Além disso, canonizou o primeiro santo nascido em terras brasileiras: Santo Antonio de Sant’Anna Galvão. Quis o papa encontrar-se com os jovens. Assim falou, no estádio do Pacaembu:

“Diante dos olhos, meus queridos jovens, tendes uma vida que desejamos seja longa; mas é uma só, é única: não a deixeis passar em vão, não a desperdiceis.”

Talvez tenha sido sua extrema preocupação com jovens que o levou a insistir no assunto do ensino religioso. O presidente da República teria respondido ou dito à imprensa que o Estado brasileiro é laico. Parece que o sumo pontífice é suficientemente bem informado para saber que o Estado brasileiro é laico. O que queria o papa, entretanto, era que os dispositivos constitucionais e infraconstitucionais fossem cumpridos.

Reza a Constituição, em seu artigo 210, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no artigo 33, que o ensino religioso deverá ser ministrado nas escolas públicas do ensino fundamental. Evidentemente respeitando-se o pluralismo de conceitos e reflexões religiosas.

Não quis o papa impor o ensino da religião católica nas escolas. Não tratou de aulas de catequese, mas de valores.

Em uma sociedade que clama por valores, parece que o ensino religioso ajudaria e muito a trazer temas universais para o cotidiano dos alunos. Temas como amor, respeito, ética, relações humanas com base na vivência plural, livre de preconceitos e discriminações – tudo isso com a sustentação que o ensino da religião proporciona.

Alguns estados já regulamentaram o ensino religioso a partir de discussões que envolveram líderes das mais diversas religiões. Aliás, o próprio papa fez questão de se encontrar com os líderes das outras religiões.

Há também algumas escolas particulares desenvolvendo um extraordinário trabalho a partir da proposta do ensino religioso. Outras trabalham esses conceitos em disciplinas como ética e cidadania e até mesmo em filosofia.

Enfim, a polêmica é desnecessária. O Estado é laico mas se preocupa com valores humanos que podem ser mais bem desenvolvidos por meio da educação. E cabe à educação uma visão mais ampla sobre o conhecimento. Além das matérias que se julgam imprescindíveis ao conhecimento, há aquelas que são imprescindíveis para a vida.

Em tempo: de que vale o conhecimento, se não se preparou para a vida?

 

Feliz Dia do Professor!

Oração do Professor

 

Por Gabriel Chalita

“Senhor, tu me conheces.

Sabes onde nasci, sabes de onde venho. Sabes quem sou.

Conheces minha profissão: Sou professor.

Desde criança, tinha em mim um imenso desejo de ensinar. Queria partilhar vida, sonhos. Queria brincar de reger. Reger bonecos. Plantas. Reger as águas do mar que desde cedo aprendi a namorar.

A todos ensinava, Senhor. Criava e recriava histórias para senti-las melhor, para reparti-las com quem quisesse ouvir. Eu era um professor.

Fui crescendo e percebi o quanto o sonho era real. Queria ensinar mesmo. Estudei. Conclui o curso universitário.

Hoje sou, de fato, um professor. Com diploma, certificado e emprego estável.

Hoje não são bonecos que me ouvem, são crianças. Dependem tanto de mim. Do meu jeito. Do meu toque. Do meu olhar.

São crianças ávidas de aprender. E de ensinar. Cada uma tem um nome. Uma história. Cada uma tem um ou mais medos. Traumas. Têm sonhos. Todas ela crianças queridas, sonham. E eu. Eu, Senhor, sou um gerenciador de sonhos. Sou um professor.

Respeito todas as profissões. Cada uma tem seu valor, sua formosura. Mas todas elas nascem da minha. Ninguém é médico, advogado, dentista, doutor, sem antes passar pelo carinho, pela atenção, pelo amor de um professor.

Obrigado Senhor.

Escolhi a profissão certa. Escolhi a linda missão de partilhar.

A partilho sonhos. Partilho medos.

Tenho meus problemas. Sofro, choro, desiludo-me. Nem sempre dá certo o que programei. Erro muito. Aprendo errando, também.

Mas de uma coisa estou certo: Sou inteiro. inteiro nas lagrimas e no sorriso. Inteiro no ensinar e no aprender. Sei que meus alunos precisam de mim. E eu preciso deles. E por isso somos tão especiais. E nesta nobre missão de educar, nossa humanidade se enriquece ainda mais.

Sou professor. Com muito orgulho. Com muita humildade. Com muito amor. Sou professor!

Amém!”

O diretor como líder significativo

Gabriel Chalita (Gestão Educacional)

O diretor de escola desempenha um papel essencial na qualidade do ensino. Como líder é o animador. Animar vem de animus, anima – alma. Por isso o diretor é quem dá alma ao grupo. Sua postura deve ser a de um líder democrático que consegue envolver toda a comunidade escolar – professores, funcionários, pais, alunos, bairro, Ongs, empresas, clubes etc. – dentro de um mesmo ideal: formar o cidadão para a vida e para o mercado de trabalho.

Mais do que teorias, vale a prática. Eis a experiência de uma extraordinária diretora da rede pública de São Paulo. Como a mata virgem de Macunaíma, no meio de Itaquera ergue-se a Escola Estadual Profa. Ruth Cabral Troncarelli. O local é de periferia, no extremo leste da Grande São Paulo, no meio de grandes conjuntos habitacionais. Ergue-se a escola, hoje, imponente, limpa, sem pichações, porque a população pediu a sua construção. O bairro, superpopuloso, ganhou o conjunto habitacional José Bonifácio, em 1980, e a comunidade pleiteou – e obteve – a construção da escola, que acabou inaugurada em 1983, para 3.000 alunos. Beatriz Oliveira Silva, moradora da região, foi uma das primeiras professoras da nova escola. Sempre muito ativa e animada, assumiu em pouco tempo a posição de vice-diretora e viu-se a braços com o primeiro desafio: a escola não recebia verbas do governo do Estado, e precisava buscar maneiras de promover a sua própria manutenção. Bia, como é carinhosamente chamada, passou a planejar e a organizar eventos, trazendo para ajudar a escola as pessoas da comunidade, as famílias dos alunos. Em 1988, a diretora titular passou em um concurso de remoção e Bia assumiu como substituta. Tomou quatro providências, logo que recebeu o comando:

1) repensar a estrutura física da escola, para enfrentar a onda de violência de que São Paulo foi vítima, principalmente entre 1988 e 1989;
2) impor-se junto ao alunado, com rigor e firmeza, para obter ordem, disciplina e cooperação;
3) promover eventos para levantar fundos para aperfeiçoar a escola;
4) desenvolver todos os trabalhos de modo conjunto, entre direção e professores.

A partir de 1995, com o início do repasse financeiro para as escolas, no governo Mário Covas, Bia começou a ter mais combustível para as suas idéias. Articulou com seus professores numerosos projetos e tratou de realizá-los. Um deles foi o projeto “Penso, logo escrevo”. Idealizado pelo professor Wagner Garcia Siqueira, foi considerado um dos quatro melhores do país na V Mostra de Inovações Pedagógicas em Língua Portuguesa do Sesc/Minas Gerais. A proposta era melhorar a qualidade dos textos produzidos pelo alunos do Ensino Médio, que apresentavam baixo rendimento nas redações durante o ano letivo de 2003. A prática pedagógica em sala de aula para ensinar a matéria foi modificada para uma maneira mais significativa e prazerosa. Estimulados pela discussão e reflexão sobre temas propostos pelo educador, os alunos começaram a produzir textos mais coesos e coerentes porque passaram a ter o domínio de uma linguagem clara e objetiva. Bons resultados começaram a aparecer já no ano seguinte: em 2004 houve um crescimento de 87% em relação ao rendimento do ano anterior, nas turmas do terceiro ano do Ensino Médio. Cada aluno chega a produzir até oito redações por bimestre. Os alunos são divididos em equipes, fazem leitura, selecionam e digitam os melhores textos. Aí os trabalhos são impressos e encadernados. Em 2004, o total produzido chegou a quatrocentas páginas, batizadas de Coletâneas. O projeto é financiado por uma ONG da Holanda. Beatriz Oliveira Silva, diretora: “Às vezes nós mesmos, educadores, resistimos às mudanças. Mas temos que estar atentos a novas maneiras de educar.” “Se Einstein voltasse para a escola hoje, encontraria as mesmas carteiras, a mesma lousa, o mesmo estilo de aprender? Não podemos ficar na imobilidade. Temos que nos envolver e criar maneiras novas e melhores de educar e de aprender.” Em 1998, aprovada no concurso, Bia poderia ter escolhido uma escola menor para dirigir, também próxima de sua casa, mas preferiu enfrentar o desafio. Com o apoio de todos os professores e da comunidade, desenvolveu outros projetos.

Cursinho
Conseguiu que a escola sediasse o programa Pró-Universitário, um convênio entre o governo de São Paulo e a USP, que ofereceu, durante o ano de 2006, cursinho gratuito na zona leste para 5.000 alunos de baixa renda do terceiro ano do ensino médio na rede estadual. Estudantes da USP foram responsáveis pelas aulas. Os alunos com menor renda tiveram preferência para ocupar as vagas, considerados também o desempenho e a freqüência dos estudantes na escola. Foram cem turmas com 50 alunos cada, com carga horária total de 380 horas.

Informática
Confiando na habilidade de um aluno, montou um site na Internet, que foi escolhido em uma mostra de informática como o melhor site de escola pública. O trabalho chamou a atenção da empresa Intel, que doou 20 computadores para a escola, financiou capacitação de professores, formou monitores e dinamizou as aulas de informática.

Escola Modelo
Um novo projeto, também apoiado pela Intel, é a implantação de uma lousa digital (mais software e capacitação de professores). O envolvimento da escola é tal que, em todos os eventos promovidos pela empresa, professores e alunos são chamados a participar.

Pesquisa infantil
Para desenvolvimento de tese de doutorado, uma médica iniciou uma pesquisa dentro da Escola Ruth Cabral Troncarelli, sobre osteoporose infantil. Os alunos, professores e familiares participam ativamente da pesquisa, e em contrapartida receberão importantes noções de saúde e de nutrição. Os professores de educação física são os responsáveis pelo projeto.

Sexualidade
Já em andamento, um outro projeto da diretora Bia é uma parceria com a empresa Belgo-Mineira, sobre sexualidade, que inclui a capacitação de professores.

Escola do Possível
O mais novo projeto é uma parceria com a USP, aplicado inicialmente, em 2006, para cinco salas de 5ª e 6ª séries. É uma nova forma de ensinar, transformando o aluno em pequeno pesquisador. Embora diminua o poder do professor, que passa a ser coordenador de pesquisa e não mais o detentor exclusivo do conhecimento, o projeto entusiasma os alunos e estimula o seu desenvolvimento.

“O social da região é complexo, mas internamente a escola está preservada.” É o que garante Bia, declarando que a escola tem que estar viva, o que só é conseguido quando a comunidade assume a escola como um todo. “Estamos abertos a parcerias que possam melhorar a área pedagógica. E acho que já superamos a velha mania de culpar alguém pelas dificuldades – o que fazemos é nos envolver e criar maneiras inovadoras de educar. É este o nosso papel.” Aí está o líder significativo. Aquele que faz nascer, mesmo diante da adversidade, uma ilha de excelência. Com apenas algumas ferramentas: compromisso, afeto, dedicação e respeito. Parabéns, Bia, e parabéns aos milhares de diretores de escolas públicas ou privadas desse país, que continuam sonhando e realizando.

Ruth Guimarães, a fada da literatura

Por Gabriel Chalita (Jornal das Letras)

O Vale do Paraíba celebra insuficientemente os seus representantes da literatura. Com algumas exceções, como a inovadora disciplina de Literatura Valeparaibana, criada pelo professor José Luiz Pasin, em Guaratinguetá, e como as honestas iniciativas da Fundação Cultural Cassiano Ricardo de São José dos Campos, os alunos do Vale do Paraíba pouco sabem dos seus escritores.

O justo destaque dado a Monteiro Lobato deixa a impressão injusta de que o taubateano foi o único escritor do Vale do Paraíba. Merecem pouco espaço, até da imprensa regional, o lorenense Péricles Eugênio da Silva Ramos, o joseense Cassiano Ricardo e os cachoeirenses Valdomiro Silveira e Ruth Guimarães.

E é de Ruth que quero falar. A fada da literatura. Quem disse isto foi Guimarães Rosa, em dedicatória que fez a ela, num exemplar de “Corpo de Baile”, quando os dois eram mocinhos, ambos escritores iniciantes, e repartiam uma noitada de autógrafos com Lygia Fagundes Telles e Amadeu Amaral. A dedicatória é assim: “A Ruth Guimarães, minha irmã, parenta minha, que escreve como uma fada escreveria.”

Por essa época, Ruth era muito moça, muito pobre, muito magra, e muito míope, como ela mesma se definia. Trabalhava em dois empregos para criar quatro irmãos menores: datilógrafa à tarde, revisora da Editora Cultrix à noite. De manhã cursava Letras Clássicas na USP. Hoje, aposentada de 35 anos de aulas de português, grego e latim, não abandonou a máquina de escrever. Produz crônicas semanais para o jornal ValeParaibano, traduz obras do francês e do latim. Escreve duas horas por dia, como mandou o seu mestre Mário de Andrade, com quem aprendeu folclore, e sob cuja orientação escreveu “Filhos do Medo”, uma pesquisa sobre o diabo na mitologia valeparaibana.

Ruth nasceu em junho, “junho das noites claras, de céu nítido”, na minha Cachoeira Paulista, no Santo Antonio de 1920.

“Eu quisera escrever em tons suaves, em meios tons que sugerissem preces.” É trecho de um de seus poemas, ainda inéditos.

Conhecia-a quando eu não passava dos 13 anos, e ia à sua chácara, plantada à beira do Rio Paraíba, buscar inspiração na sua sabedoria. Quantos textos não levei para ela avaliar e criticar. Era e é severa. Rabisca, em nome da velha amizade, textos meus, até hoje. E cada traço só faz melhorar o escrito.

Em um de seus livros (“Contos de cidadezinha”), escreveu: “Viu as mãos ávidas de Teresa desfazerem o embrulho, viu o porta-jóias de porcelana azul surgir à luz com alguma coisa de deliqüescente e maculado. Nunca havia notado aquilo que somente as mãos trementes da mulher acusavam. Ah! As mãos de Teresa.” Fala, nesse conto, das mãos de Teresa, mas são as suas que não deixam de produzir páginas e páginas de bela literatura.

Como esta, no romance “Água Funda”: “A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez.”

Ou, como esta, no conto “Francisco de Angola”: “Depois, os dois trabalharam por mais três. E cinco por mais três. E oito por mais cinco, e todos por todos, até que toda a tribo foi alforriada. Livres! Que língua, que pena, que pincel, poderá dar uma idéia de quanto ressoa essa palavra no coração dos escravos?”

Mas também escreve para crianças. Tem um lindo compêndio chamado “Lendas e Fábulas do Brasil”, com uma linguagem gostosa e cristalina.

Ruth Guimarães está lançando mais um livro, no final deste mês de setembro. Mais um, que vai somar 52 publicados. Este “Calidoscópio” é um monumental tratado sobre Pedro Malasartes, o pícaro, o malandro, o nosso herói folclórico sem nenhum caráter. Um trabalho de fôlego que qualquer faculdade de antropologia e de sociologia de primeira linha deveria adotar.

Minha recomendação é esta: leiam Ruth Guimarães, conheçam Ruth Guimarães, ouçam Ruth Guimarães. Ela já contou – e ainda tem muito a contar – sobre o Vale do Paraíba, suas cidades e tipicidades. Sua literatura é nítida, como as noites de junho em Cachoeira Paulista. E ela é uma fada. Uma fada que nestas breves linhas eu quero homenagear.

Cecília, silêncio, solidão e perenidade

Por Gabriel Chalita

Tu o disseste, Cecília. “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.”

Tu o disseste, Cecília: “Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.”

Tu o disseste, Cecília. “Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.”

Pariu poemas. E pariu uma constelação. As três Marias, suas filhas com o pintor português Fernando Correia Dias: Maria Elvira, Maria Mathilde e Maria Fernanda.

Tu o disseste, Paulo Rónai. “Considero o lirismo de Cecília Meireles o mais elevado da moderna poesia de língua portuguesa. Nenhum outro poeta iguala o seu desprendimento, a sua fluidez, o seu poder transfigurador, a sua simplicidade e seu preciosismo, porque Cecília, só ela, se acerca da nossa poesia primitiva e do nosso lirismo espontâneo… A poesia de Cecília Meireles é uma das mais puras, belas e válidas manifestações da literatura contemporânea.”

Tu o disseste, num improviso, Manuel Bandeira: “Cecília, és tão forte e tão frágil. Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga: tu, não, és enxuta.”

Tu o disseste, Mário Faustino, voz dissidente. “D. Cecília publica demais. O melhor que se poderia fazer em prol de sua glória seria preservar o “Romanceiro” completo, fazer uma antologia de seus cinqüenta grandes poemas (“Mar absoluto” seria o maior contribuinte) e queimar o resto. Mas não nos esqueçamos de perguntar; quantos poetas em nossa língua já assinaram cinqüenta grandes poemas? A outra pergunta que nos ocorre: por que D. Cecília publica tanto?”

Mas a academia desmentiu a dissidência. Ainda que in memoriam. Entregou a ela o Prêmio Machado de Assis de 1965, pelo conjunto da obra. Foi a primeira mulher a receber essa láurea da Academia Brasileira de Letras. E foi assim que, depois da morte, deixou de ser sozinha.

Mas outro ramo da intelectualidade lhe prestou homenagem: a principal sala de concertos do Rio de Janeiro, no Largo da Lapa, recebeu a denominação de “Sala Cecília Meireles”. E foi assim que, depois da morte, deixou de ser silêncio.

Cecília Meirelles é estrela de nossa poesia, perene como esta confissão:

Aqui está minha vida./
Esta areia tão clara com desenhos de andar/
dedicados ao vento. Aqui está minha voz,/
esta concha vazia, sombra de som/
curtindo seu próprio lamento. Aqui está minha dor,/
este coral quebrado,/
sobrevivendo ao seu patético momento. Aqui está minha herança,/
este mar solitário/
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Ave, Rosa e o sertão nosso de cada dia

Por Gabriel Chalita

O mês de julho foi testemunha do aniversário de 50 anos do lançamento de Grande Sertão: Veredas. Há 50 anos, portanto, temos a ventura de conviver com uma leitura que encerra um universo aberto, que abre um universo cerrado, numa ambigüidade do mestre que sempre ensina mas que, “de repente, aprende”. Será possível medir o que significou para a literatura brasileira o advento desse alentado deleitado romance, ousado na linguagem, na temática, na abordagem e na construção?

Linha a linha, mestre Rosa constrói no diapasão da metalinguagem uma história de amor, recheada da sabedoria cabocla, com a fina observação do homem, do espaço e de como um vice-versamente interfere sobre o outro. Grande Sertão: Veredas é um inspirado questionamento do íntimo de cada pessoa humana que é toda pessoa humana. Pois se o sertão está dentro de cada um, e se o sertão é o mundo, então o mundo inteiro está dentro de cada pessoa. A universalização das individualidades ganha o seu complementar contrário na individualização dos universos. E aí está a riqueza de Rosa: o sertão é a cidade, a cidade é o sertão, ambos são o mundo, e o homem está em todo lugar. Dúvidas e certezas, conflitos e convergências, ficam mescladas na natureza de cada homem. A sabedoria só era cabocla por causa da intenção de registrar a poética do falar sertanejo, mas pode ser vista como a sabedoria de cada homem que é todo homem, e que cabe em qualquer lugar, não só em Minas Gerais.

Guimarães Rosa construía cada obra de dentro para fora. Era ele assimilando o mundo e devolvendo o que enxergou, sob a forma de narrativas trabalhadas.

Como bom narrador, Guimarães Rosa está, ele mesmo, dentro do romance. Observa, de dentro, no tremer da luta, as situações e as almas. Ele é, por exemplo, o interlocutor de Riobaldo, o misterioso ouvinte, que ouve o relato do guerreiro e a sua travessia pelo caráter do sertanejo.

Como bom narrador, Guimarães Rosa está dentro de outra história, como o menino piticego que ganha óculos e aí sim começa a enxergar o mundo, a vida. Nova travessia.

Como bom narrador, Guimarães Rosa está testemunhando tudo, postado na terceira margem do rio, vendo o viver e o esperar de pai, filho e espírito santo, na trilogia da religiosidade barroca. Travessia, outra vez.

São histórias outras e simultaneamente as mesmas, enredadas como corpos, nos bailes das Gerais. Todas as histórias, seja num livro ou em outros, são veredas que deságuam num mesmo rio grande, em viagem grandota como a de Mário de Andrade.

Conheci pessoas que conheceram o mestre Rosa, e que me falavam do jeito acanhado desse mineiro do burgo do coração. Contavam de como ele, muito míope, apertava bastante os olhos para ver melhor o interlocutor. Querendo ver, “eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente.”

Matéria vertente é a matéria fundamental, a vida, a origem da vida, o bem e o mal, os contrastes do físico e do metafísico. É sobre isso que meditou o Joãozito. Para, depois, dividir conosco, seus leitores, o que resolveu contar. Não sem sofrer, porque a criação é trabalhosa. “Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balance, de se remexerem dos lugares.”

As coisas mudam de lugar na memória da gente. Ganham uma certa névoa de esquecimento, que perturba a limpidez da lembrança. Mas, em nossa memória coletiva, João Guimarães Rosa tem lugar certo, cristalino e bom. Bem no pedestal, onde ficam os melhores.