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O novo rosto do mundo passa pela infância

Por Gabriel Chalita

Guimarães Rosa conta, em “Corpo de Baile”: “Miguilim era piticego, tinha vista curta, e não sabia. E então o senhor (que era doutor) tirou os óculos e deu-os a Miguilim: ‘Olha, agora!’ Miguilim olhou. Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. O Mutum era bonito! – agora Miguilim via claramente.”

Muitas vezes um problema de saúde, não identificado na primeira infância, prejudica o aprendizado. Mas o prejuízo ultrapassa a questão puramente educacional. Criança que não tem a devida atenção, não tem adequado desenvolvimento físico, emocional, social e cognitivo. E a identificação de um problema precisa ser feita pela família. Não há caminho da educação que não envolva a família e a escola. O principal objetivo da escola pública deve ser o bem-estar e o desenvolvimento integral da criança. Para isso, deve cuidar da saúde, da nutrição, da segurança e da aprendizagem. Em segundo lugar, os projetos têm que ter continuidade, e serem bem coordenados.

Esta questão ocupa especialistas no mundo inteiro. A ONU promoveu no Senegal, em 2000, o Fórum Mundial de Educação para Todos. Uma das seis metas de consenso dos 189 países participantes foi a educação e o cuidado na primeira infância. No Brasil, estamos longe de atingir o básico, que é a universalização da educação infantil. Falta investimento e falta vontade política. Os gastos em educação chegam a apenas 4,2% do PIB (a Unesco recomenda 6%). Por exemplo, em educação infantil apenas 6,25% vêm do governo federal. Com relação à educação básica, que deveria ser prioridade absoluta, o governo federal destina parcos 5%. Enquanto isso, aplica 63% da verba no ensino superior. Isto mostra uma inversão de prioridade.

Os pais não têm tempo de acompanhar os filhos na escola, durante os dias úteis. Por isso, em São Paulo, na nossa gestão como secretário de Educação do Estado, implantamos o Programa Escola da Família, em 2003, mantendo abertas as 5.306 escolas estaduais, aos fins de semana, para atividades de esporte, lazer, artes, saúde e geração de renda. Foram mais de 20 milhões de participações por mês. O que demonstra que a família só não participa quando não lhe é facilitado o acesso à escola. Os resultados mais concretos do programa Escola da Família foram a queda dos índices de violência nas escolas e a diminuição da evasão escolar. Mas ainda há um longo caminho para que se consiga fazer com que a educação seja referência em nosso país. É preciso, agora, investir na qualidade dessa educação. Principalmente na educação infantil, investindo na formação continuada do professor, e conscientizando a família de sua fundamental importância no processo ensino-aprendizagem dos filhos. Outro passo importante na educação básica foi a implantação da escola de tempo integral. Nosso sonho é que, no futuro, muito mais do que as 500 escolas iniciais acolham crianças durante o dia todo, em atividades artísticas e esportivas.

Para isso é preciso integração entre governo e comunidade. Alguns países desenvolvidos apostam nesse conceito. Na Nova Zelândia, por exemplo, os jardins de infância são estabelecimentos independentes, gerenciados pela comunidade. E existem centros de lazer em que os educadores e administradores são os próprios pais das crianças matriculadas.

Este é um dos caminhos para que tenhamos cada vez menos Miguilins. Perderíamos contos maravilhosos como esse de Guimarães Rosa, mas ganharíamos em qualidade de vida para as nossas crianças.

Atitude: a lição do exemplo

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

O conhecimento fica registrado na memória. O exemplo fica registrado no coração. Esta é a síntese da pedagogia perfeita: ensinar dando exemplos, ensinando pelo exemplo. Pela atitude o professor ensina posicionamento diante da vida, apóia desejos, estimula sonhos. E o mais poderoso instrumento da atitude é a palavra. É pela palavra que se constrói e se destrói. A palavra é a arma capaz de reduzir o outro a mero espectador da história ou transformá-lo em protagonista. A palavra incentiva ou diminui; alimenta os sonhos ou destrói esperanças; faz viver ou faz morrer. 

Quando a palavra é dita, não há como impedir os seus efeitos. É como a sabedoria chinesa prega: “Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a oportunidade perdida e a palavra pronunciada”. A palavra entra na mente dos ouvintes e, se destrói sentimentos puros que o habitavam, daí vem o preconceito. De uma palavra mal empregada pelo pai ou pela mãe, pelo diretor ou professor, por algum amigo que tem alguma importância e por isso o que ele diz deve ser levado a sério. No reino da infância, as defesas são menores, e por isso o poder de destruição da palavra é muito maior. Isto porque a criança ainda não conseguiu desenvolver defesas. Às vezes essa força destruidora não vem de uma reprimenda ou de uma agressão verbal, mas da sutileza de um ensinamento inadequado. Uma piada preconceituosa, um comentário infeliz em que pais comparam seus filhos, um discurso incorreto frente a uma criança que sente que não tem determinado talento. É necessária muita delicadeza para não ferir os sonhos alheios. É necessário muito cuidado para não traumatizar um ser em formação.

De outro lado a palavra constrói. Pequenas reflexões, se possível recheadas de exemplos, ajudam muito mais do que longos e cansativos conselhos. Cecília Meirelles tem uma frase exemplar: “Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta; não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.” A sutileza é poderosa. Palavras de amor se revestem de impressionante poder, quando são sinceras, quando são, de fato, palavras de amor. Impulsionam a derrubar o que oprime e a perseguir o que vier pela frente. Palavras de amor comovem, movem; palavras de amor transformam, formam; palavras de amor habilitam, habitam. E por que então economizar nessa arte de amar? Por que viver das sombras, se a luz é tão mais significativa? Por que sentir frio se há uma lareira por perto? Basta apenas um pequeno esforço de acendê-la. É por isso que se diz que a felicidade está muito mais próxima do que se possa imaginar. Infelizmente há pessoas que têm preguiça de ser felizes, e assim deixam de cultivar momentos simples, porém intensos.

Utilizar o poder da palavra para realizar o milagre da transformação. A educação decorre de um movimento interno, influenciado por ambientes externos. O aluno instigado externamente se movimenta internamente, e assim se transforma. É assim desde Sócrates, que comparava a educação à arte da parturição. A criança está pronta lá dentro, mas precisa de um impulso para que nasça. Sozinho fica muito mais difícil ou quase impossível. O professor precisa tomar consciência de que as idéias dos alunos estão ali, esperando alguém, cujo poder de conhecimento e cuja experiência sejam capazes de ajudá-los nessa transformação. E com gentileza fica muito mais fácil porque o ser humano torna-se dócil frente à gentileza. Suas resistências caem e seus medos desaparecem, porque do outro lado há alguém que decididamente só quer o bem.

A atitude mais transformadora é a atitude gentil, que alimenta e realimenta a esperança pelo poder da palavra, e impulsionam para o sonho. Cada mulher ou homem tocado pela gentileza seja um pouco melhor. E, sendo um pouco melhor, ajuda a construir um mundo melhor. Mesmo que esse mundo seja apenas a sua casa, a sua escola ou o círculo de pessoas que estão ao lado.

Na poesia, mais uma vez, a inspiração para a vida. Testemunha Adélia Prado: “Uma ocasião, meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante. Por muito tempo moramos numa casa, como ele mesmo dizia, constantemente amanhecendo”. A tranqüila confirmação poética é de Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”

Querer mudar o mundo sem mudar a esquina é coisa de gente que não entende da força do primeiro gesto.

A evolução do conceito de justiça

Por Gabriel Chalita

“Então a justiça neste sentido é a excelência mo­ral perfeita, embora não o seja de modo irrestrito, mas em relação ao próximo. Portanto, a justiça é freqüentemente considerada a mais elevada for­ma de excelência moral, e ‘nem a estrela vesperti­na nem a matutina é tão maravilhosa’; e também se diz proverbialmente que ‘na justiça se resume toda a excelência”.

Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro V

A justiça, o conceito de justiça, o anseio por jus­tiça, é um dos mais antigos e presentes temas a percorrer as instâncias do pensamento humano. Podemos encontrar esse clamor nos grandes épicos, fundadores da literatura ocidental, alguns dos primeiros registros e mapas da alma e dos desejos humanos. É por considerar-se injustiçado que Aquiles se retira da luta em que os pegos se opõem aos troianos. Também é para punir a morte de Pátroclo e, no seu ponto de vista, restaurar a justiça que Aquiles resolve voltar à luta e enfrentar Heitor. É com ânsia justiceira que Ulisses desafia os pretendentes à sua esposa e ao seu trono, assim que retorna a Ítaca, depois de dez anos de combate contra os peri­gos no mar.

O longo caminho entre esse conceito de justiça pessoal, feita com as próprias mãos, os conceitos clássicos e as instituições jurídi­cas da sociedade contemporânea, que buscam garantir uma justiça isenta e cada vez mais abrangente, é o que gostaríamos de esboçar neste artigo. Não pretendemos oferecer novidades revolucionárias sobre o tema, tampouco criar novos conceitos, mas fazer uma sin­tética reflexão sobre as variadas formas com que o pensamento hu­mano, ao longo dos séculos, se debruçou sobre o assunto.

Gostaríamos ainda de lembrar que uma reflexão sobre justiça é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre Direito e poesia, sobre aspira­ções cotidianas e sonhos, sobre doutrina, jurisprudência e utopia. A justiça é uma espécie de caminho permanente para a utopia, que não poderá nunca ser descartada do horizonte dos objetivos huma­nos. O que seria da humanidade se abrisse mão de seus objetivos utópicos?

Já que justiça e Direito são áreas contíguas, associadas, come­cemos pelo Direito as nossas reflexões. O profissional do Direito ganhou um destaque e uma valorização excepcionais nestes nos­sos tempos. Muitos pais aconselham a seus filhos o ingresso nessa área de estudo, pois a partir da formação como advogado abrem-se variadas possibilidades de carreira: juízes, promotores, delegados, diplomatas, procuradores, professores em áreas diversas. Muitos dos representantes legislativos, em suas diversas instâncias, fize­ram da formação em Direito sua base intelectual. É a prática da globalização e da universalidade – Direito civil, penal, trabalhista, previdenciário, constitucional, comercial, tributário, empresarial, ambiental, do consumidor, da informática, da bioética, da criança e do adolescente, da mulher e do homem do século XXI – em uma única profissão. E isso não é o ponto de chegada. O Direito não é uma ciência estática, evolui como evolui a pessoa humana.

Também é preciso mencionar, para que não fique uma impressão de demasiado otimismo, as polêmicas e controvérsias que percor­rem a área. Se há profissionais que se destacam por sua atuação veemente em defesa da justiça, da defesa da dignidade da pessoa humana e do exercício da ética, há outros, maus profissionais, que se corrompem, que usam o diploma, a carteira da OAB, o ingres­so numa carreira pública para cometer atos desprovidos de moral, banalizando seus valores, se distanciando da prática da ética e da justiça. Talvez seja essa espécie de profissionais que levou tantos escritores, de Gil Vicente a Tomás Antonio Gonzaga, de Camilo Castelo Branco a Monteiro Lobato, à sátira e à crítica mordaz da prática judiciária. É o comportamento dual da espécie, para quem acredita em bem e mal, em justo e injusto, em digno e indigno. Ou o comportamento e o anticomportamento para quem acredita que tal postura é mais resultado da ignorância que da escolha conscien­te. Aristóteles, Tomás de Aquino, Rousseau, Jacques Maritain se defrontaram com esses caminhos e conflitos da consciência para deixar aos que viessem depois deles a teoria do bem comum. O ser humano é essencialmente bom, mas às vezes deixa essa essência cair no esquecimento. Perde, por momentos, a consciência de sua bondade essencial e, com isso, parece abandonar suas origens, per­der a humanidade, transformar-se em coisa.

Refletir sobre a evolução do conceito de justiça é de fundamen­tal importância para a compreensão das circunstâncias do mundo contemporâneo, e também para a compreensão dos desafios lança­dos aos que se propõem a construir uma civilização norteada pelos valores de dignidade da pessoa humana, da ética, da responsabili­dade partilhada.

O ser humano é complexo e a História corrobora essa afirmativa na medida em que demonstra as muitas e perceptíveis alterações ocorridas nos desejos, nas disposições e nas expectativas humanas ao longo dos tempos.

Aristóteles sintetizava a temática humana de forma ímpar: o ser humano, assim como os animais, possui desejos; diferencia-se des­tes pela escolha, que já é uma instância superior, pois necessita da reflexão para ser exerci da; além disso, possui expectativa, o que é ainda mais nobre – a expectativa, a aspiração, é o divino no huma­no, o sonho, a utopia, o projeto que faz com que a potencialidade de vida se converta em ação transformadora.

E é a respeito dessa expectativa que se deve falar. É sobre ela que se deve caminhar. Quais são as expectativas do ser humano contemporâneo? Quais são seus sonhos? Seus projetos? Suas dis­posições? Que relação tem a justiça com tudo isso?

A expectativa por justiça talvez seja um elemento natural da espécie humana. Diante da evidência de desmandos, falcatruas, crimes e outras condutas afins, é do senso comum o desejo de res­tabelecer o que foi fraudado, punir o culpado, prender o que aten­tou contra a ordem estabelecida. A justiça, como já vimos, é urna constante aspiração da humanidade. É comum depararmo-nos com o discurso inflamado, veemente, de pessoas que exigem o ressar­cimento moral de uma situação. Moral! Aí está o senso moral clamando por justiça.

Apesar de toda essa inflamada veemência, pode-se observar um comportamento paradoxal desse mesmo senso comum: clama contra toda forma de injustiça, mas admite, em sua prática, muitas vezes, atos de flagrante injustiça. Cobra uma postura ética dos que estão no poder, e se deixa corromper quando esses mesmos ofere­cem alguma espécie menos justa de benefícios. O “é dando que se recebe” – muito longe do sentido inicial que lhe deu São Fran­cisco de Assis – parece se alastrar contagiando toda a população. É um grave erro aceitar insensivelmente a contradição entre o que se diz e o que se faz. Condena-se o político corrupto, mas pede-se a este mesmo político um emprego público (passando por cima dos concursos determinados pela lei), pede-se a interferência para anu­lar uma legítima multa de trânsito, anistia para uma obra irregular, ajuda para internação no hospital do servidor ainda que não se faça parte da categoria, um empréstimo em condições privilegiadas etc. Diante disso como ficam os discursos sobre a necessidade de acabar com a corrupção, com os privilégios, com as benesses infames que tiram de uns para ceder a outros? E a falta de consciência que leva a essa imoral busca de levar vantagem em tudo? Até em furar fila de padaria, ou “pegar”, nas feiras livres, uma ou duas frutas a mais, dizendo a si mesmo que isso não tem nenhuma importância?

Como fica a justiça diante desses “insignificantes” comporta­mentos?

Esse é um dos temas presentes na civilização humana desde seus primórdios. Os estudos da História mostram a passagem de algumas eras nas relações econômicas e nas relações de trabalho. Dos primeiros agrupamentos, depois do período da coleta e do no­madismo da caça, ao surgimento da agricultura, o ser humano foi alterando seus relacionamentos e complicando suas necessidades e problemas. A formação do grupo facilita a caça, a pesca, a seguran­ça, o cultivo. Também propicia a disputa pelo poder, por espaço, pela posse da terra. O conforto da convivência interpessoal traz sua contrapartida. É a passagem do bom selvagem para a civiliza­ção, no entender de Rousseau. O homem, que sempre havia sido livre, absoluto em sua relação com a natureza e consigo mesmo, começa a estabelecer comparações que levam à competição. De­seja possuir mais que o necessário, quer crescer e, para isso, vê no outro um obstáculo, e como obstáculo precisa ser eliminado, tirado do caminho.

Cada povo tratou de maneira diferente tal processo de crescimento social, criando normas de conduta e conceitos de justiça em acordo com suas crenças e valores estabelecidos. Atribuindo a deuses ou a Deus o controle da história e do destino, muitos povos dominados pelo misticismo transformaram sacerdotes, reis, faraós em porta­-vozes dessas instâncias, jamais questionando os ditames prescritos por essas autoridades. Povos que viam relâmpagos, trovões, chu­vas, tempestades como avisos ou castigos das divindades e das for­ças sobrenaturais, e ao ouvirem narrações de mitos se deixavam dominar por aqueles que diziam entender essas forças. Místicos ou míticos, esses povos davam ao poder uma dimensão que correspon­dia ao extraordinário.

A Grécia surge, para o mundo ocidental, como um espaço pri­vilegiado em que essas grandes discussões acabaram, no Ágora, to­mando o rumo da fundação da democracia. É a passagem da aristo­cracia para um novo momento em que o homem grego, em grupo, debateu, discutiu, argumentou, fez escolhas e tirou conclusões.

Por volta do sexto século antes de Cristo alguns estudiosos co­meçaram a buscar explicações racionais para fenômenos que até então eram explicados pelos mitos. De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos fazendo aqui? Qual a razão de tanta diver­sidade nos elementos naturais? Qual é o elemento fundamental na composição do universo? Essas eram algumas das novas questões propostas e geraram a escola Jônica. Entre seus primeiros pensa­dores estavam Tales de Mileto, para quem a água era o princípio de todas as coisas, e Anaximandro de Mileto, que concluiu pela impossibilidade de elementos gerarem elementos, não podendo, portanto, terra, fogo e ar, serem derivados da água. Tudo teria vin­do do Ápeiron, o infinito, foi a conclusão a que ele chegou. Outros pré-socráticos se debruçam sobre o problema. Parmênides de Eleá e Heráclito de Éfeso discutem a questão do uno e do múltiplo, da inação e do movimento, da dóxa (opinião) e da alethéia (verdade). E outros ainda sugerem questões diversas que possam tranqüili­zar os homens quanto à origem e o fim de tudo. A diversidade de pensamentos caracterizou essa era cosmocêntrica, mas a base do pensamento antropocêntrico, em que o homem é o sentido do universo, ainda estava por vir. Como estavam por vir as grandes discussões sobre a justiça e o Direito, que só encontraram seu verdadeiro motivo ao tratar do homem como fundamento de sua existência.

A filosofia vai seguindo seu caminho e encontra em Atenas seus três maiores representantes: Sócrates, Platão e Aristóteles. Sócrates refuta o direito da força, apregoados pelos sofistas como o interesse do mais forte. No belo diálogo com Eutifron, na Re­pública, descarta a afirmação feita por ele: “a justiça é a vontade caprichosa dos deuses”. Sócrates afirma que “as coisas não são justas porque os deuses querem, mas os deuses as querem porque são justas”. Com isso valoriza a justiça como uma forma agradável do homem viver em sociedade, e, além disso, de agradar as outras forças que estão acima da sociedade. Platão, discípulo de Sócrates, é altamente influenciado na sua elaboração do conceito de justiça, por uma espécie de experiência fundadora da injustiça: o julga­mento e a morte de Sócrates. O justo, segundo Platão, se comporta de acordo com a lei. E os acusadores de Sócrates não se compor­taram de acordo com a lei, mesmo porque outras motivações que não as jurídicas deram cabo daquele julgamento. Somente o justo é feliz, “a vida mais justa é a mais bem-aventurada”. E o justo con­trola seus instintos. No mito do cocheiro, ao tratar das partes da alma, Platão afirma que é preciso que a razão controle a paixão e a agressividade. O homem não pode se deixar levar por prazeres efêmeros. Para isso, é preciso sair da caverna, seu outro mito, e enfrentar a realidade com conhecimento. À prática da justiça é imprescindível o conhecimento e a aceitação de que o justo é fe­liz, mesmo que possam existir justos infelizes.

Aristóteles, discípulo de Platão, na Ética a Nicômaco trata exaustivamente da temática da justiça. A justiça é a excelência mo­ral perfeita que advém do hábito de fazer o bem. O homem, quando virtuoso, quando justo, é o mais excelente dos animais; em con­trapartida, separado da lei, separado da justiça, é o pior de todos. Não nos parece que o Estagirita separe justiça de lei, até porque a lei é o resultado a que chega uma comunidade que busca a justiça; sem esta, aquela não teria sentido. Os legisladores são uma espécie de guardiães do bom senso, da construção sistêmica do exercício concreto de valores abstratos. É quase que uma maiêutica socrática, isto é, o que se constrói é resultado do que se é. É a exteriorização do intrínseco. O homem sempre construirá valores de justiça se for capaz de uma reflexão interior, voltada para sua essência. A con­duta tida por má só ocorre por ignorância, por distanciamento do próprio ser. Ninguém opta pelo mal. O mal é o resultado do não conhecimento do bem.

Aristóteles supervaloriza a amizade como excelência moral, afirmando que a amizade é ainda melhor que a justiça, pois mesmo havendo justiça ainda é precisa a amizade, e diante da amizade a justiça se faz desnecessária porque já foi alcançada… os amigos verdadeiros jamais serão injustos!

Durante a Idade Média, período em que dominou o pensamen­to teocêntrico, encontramos filósofos como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. É a volta do platonismo e do aristotelismo. Para Agostinho, principal expoente da patrística, existe uma lei natural, fundada no Autor, no Artífice da natureza. Essa lei é a lei do amor e da bondade, é universal e imutável e todo ser humano deveria conhecê-la e observá-la. O respeito a essa lei constitui a virtude da justiça. Agostinho nega a existência do mal metafísico. Afirma que o homem pode fazer o bem ou deixar de fazê-la. A essa omis­são, convencionou-se chamar de mal; entretanto, em essência, não existe. Com isso quer ratificar o conceito dos gregos de que a não observância da justiça é mais ignorância do que opção. Os homens se distanciam por não conhecerem a verdade e o bem. Realizam práticas nefandas porque não sabem que em essência são imagem e semelhança do Criador e por isso são bons.

Tomás de Aquino vê na lei o caminho para o bem comum e para isso distingue três espécies de lei: a eterna, a natural, a positiva.

A lei eterna é divina. É imutável. É universal. De Aristóteles retoma o conceito de motor imóvel que move os motores móveis. Todo o universo se movimenta graças a esse motor primeiro.

A lei natural é conhecida pela razão humana que participa como centelha da razão divina. É esse conceito de bem e de justiça que não é ensinado; é conhecido racionalmente.

A lei positiva é obra do legislador. É legítima desde que respeite a lei eterna e a lei natural. Quanto à justiça, sua essência, em To­más, consiste em dar a outrem o que lhe é devido, segundo uma igualdade, objetivando sempre o bem comum, que é a justiça social ou geral.

A Idade Moderna encontrou eco em pensadores como Tomás Morus, Francis Bacon, Etienne de Ia Boétie para a continuidade da trajetória e da experiência filosófica do homem. Pensadores utópi­cos – um deles é o próprio criador dessa palavra – que edificaram obras marcadas por um inconformismo com a situação das coisas vigentes em seus estados.

A utopia, escrita por Morus, descrição de uma ilha em que tudo funcionava de maneira absolutamente determinada, parece ser a primeira obra filosófica eminentemente comunista. Tudo era co­mum a todos. Ninguém era detentor de coisa alguma. As pessoas moravam ora na cidade e ora no campo. A cada dez anos muda­vam de casa para que não se apegassem a bens materiais. Todos tinham tudo o que era necessário à sobrevivência e ninguém es­tava excluído. Em relação aos advogados, Morus dispara todo tipo de crítica. A mentira, os desmandos, as tramas eram imperdoáveis. Em A utopia, sociedade perfeita, advogados eram dispensáveis. Era melhor que se falasse diretamente ao juiz, era melhor que se expusesse a questão sem as tortuosas voltas percorridas pelos ad­vogados, que levavam ao engodo. Este era seu conceito de justiça.

Francis Bacon, na Nova Atlântida, faz um esboço de sua socie­dade ideal, constituída a partir do conceito do saber. No centro da ilha ficava a Casa de Salomão, local em que todas as informações necessárias, de todas as partes do mundo, se faziam presentes. E to­das as pessoas tinham acesso a essas informações, condição funda­mental para que o detentor do saber não escravizasse o excluído do saber. Saber é poder, vaticinava Bacon, e para construir uma socie­dade ideal era preciso permitir a todos o acesso ao saber. O medo, a escravidão, a alienação, a apatia, a ingenuidade, tudo decorre do desconhecimento. A edificação da justiça depende da distribuição igualitária do conhecimento.

La Boétie, jovem pensador francês, escreveu sua obra intitula­da O discurso da servidão voluntária para denunciar o estado de injustiça que grassava em seu país. Não é possível, proclamava o filósofo, que um rei imponha tanto medo, tanta tirania contra uma multidão de seres humanos. Seres humanos que nasceram para a liberdade e que se acostumam à servidão ou que até optam pela servidão ou participam dela. Qualquer que seja a razão, costume, medo ou participação na tirania, o homem nega sua essência ao deixar de ser livre, e isso não é justo, e isso não é humano. Negar a liberdade é negar a justiça, é negar a humanidade.

Navegando em outros mares, nesse mesmo período histórico, o florentino Nicolau Maquiavel, em seu O príncipe, traça o perfil do homem no poder e analisa minuciosamente o seu exercício. Des­mitifica e desmistifica o conceito de poder. Tira-o do domínio do divino e o traz para a esfera humana. Trata-o não como coisa, mas como processo e enquanto processo é um toma-lá-dá-cá constante. Ninguém assegura que chegar ao poder significa sua mantença. Para isso é preciso fortuna (sorte) e virtú (mais do que virtude). E para isso é preciso também conhecimento. O florentino, ao tratar de estados com príncipes hereditários, de estados eclesiásticos, de guerras oriundas de decisões equivocadas, de exemplos de governantes que erraram ou que acertaram, mostrou-se um grande observador da ciência política. Sua obra é um marco do conhecimento hu­mano e das relações de poder. Muitos o criticaram achando que seu único objetivo era chegar ao poder e nele se manter. Rousseau resgata Maquiavel, afirmando que o filósofo não escreveu para o príncipe, porque este já dominava os ensinamentos apregoados por Maquiavel. Escreveu para o povo, para que o povo, ao conhe­cer os mecanismos de poder, conseguisse se libertar da escravi­dão e da tirania. Entretanto, como não poderia, naquela época, oferecer a obra ao povo, preferiu oferecê-Ia a Lourenço de Médici. Há outras razões não tão humanistas que levaram Maquiavel a oferecer-lhe a obra. Ele desejava retomar espaço e influência na nova fase política de Florença. Entretanto, o que nos importa aqui observar é a necessidade vital de conhecimento, seja na reflexão utópica, seja no realismo político. Conhecimento é imprescindí­vel para se atingir o poder, para mudar a realidade, para chegar ao Direito, para a justiça.

Montesquieu, já no século XVII, parte do conceito de que “antes que houvesse leis, existiam relações de justiça possíveis”; e conti­nuava: “Dizer que não há nada justo ou injusto, a não ser o que é ordenado ou proibido pelas leis positivas, é o mesmo que afirmar que, antes de traçarmos um círculo, os raios não eram todos iguais”.

Com isso, o pensador quer valorizar essa tendência humana de de­senvolver o que é justo. É a crença de que há uma lei natural que governa os governantes e que governa os povos da terra. Não pode­ríamos, portanto, como já vimos em Tomás de Aquino, afastarmo­-nos desse princípio primeiro que é também o princípio primeiro de justiça, que se faz presente na razão humana.

Em razão da premência de espaço, vamos dar um salto na Histó­ria e tomar algumas considerações feitas por Hans Kelsen logo após o prefácio de sua obra O que é a Justiça:

Quando Jesus de Nazaré, no julgamento perante o pretor romano, ad­mitiu ser rei, disse ele: ‘Nasci e vim a este mundo para dar testemunho da verdade! Ao que Pilatos perguntou: ‘O que é a verdade?’ Cético, o romano obviamente não esperava resposta a essa pergunta, e o Santo também não a deu. Dar testemunho da verdade não era o essencial em sua missão corno rei messiânico. Ele nascera para dar testemunho da justiça, aquela justiça que Ele desejava concretizar no reino de Deus. E, por essa justiça, morreu na cruz.

Dessa forma, emerge da pergunta de Pilatos – o que é a verdade? -, através do sangue do crucificado, urna outra questão, bem mais veemen­te, a eterna questão da humanidade: o que é a justiça?

Nenhuma outra questão foi tão passionalmente discutida; por ne­nhuma outra foram derramadas tantas lágrimas amargas, tanto sangue precioso; sobre nenhuma outra, ainda, as mentes mais ilustres – de Platão a Kant – meditaram tão profundamente. E, no entanto, ela con­tinua até hoje sem resposta. Talvez por se tratar de uma dessas questões para as quais vale o resignado saber de que o homem nunca encontrará uma resposta definitiva; deverá apenas tentar perguntar melhor.

Kelsen prossegue na obra tentando objetivar o conceito de jus­tiça. Trata-se de uma norma jurídica, não de uma norma moral ou religiosa. Não fosse norma jurídica não seria possível mensurá-Ia, exigi-Ia. O ser humano é absolutamente subjetivo e se conceitos de tal importância ficarem apenas no campo das discussões abs­tratas, nada de concreto poderá ser feito para a edificação da jus­tiça. A tese de Kelsen encontra respaldo na própria complexidade e diversidade de explicação a respeito de justiça. Em uma linha liberal, a justiça poderia ser definida como o dar a cada um segun­do seus méritos. Já o socialista, dar a todos de igual ordem o que necessitem, sem exclusão. Então, o mais objetivo é o dar a cada um conforme os seus direitos legais, pensa Kelsen. O que está posto. O que está escrito. Entretanto, a questão não é tão simples assim.

Como vimos, historicamente a questão do acesso ao conhecimento é de fundamental importância para se chegar a um conceito de jus­tiça. Os excluídos, os que não têm consciência do próprio direito, os que não sabem ler ou que não sabem entender o que lêem, os que não têm acesso aos mecanismos que trazem a informação estão também alijados da justiça. Os que têm medo pela própria falta de conhecimento talvez se sintam diminuídos ao buscar uma delega­cia de polícia, um fórum ou um organismo que cuide de seus di­reitos. No caso da Justiça do Trabalho, quantos empregados dizem com orgulho que lá (nesse organismo judiciário) ele é tratado de igual para igual com seu patrão. Imaginem se o juiz utilizar uma linguagem inacessível. Basta isso para fazê-Io sentir-se diminuído. E o espaço democrático acaba se tornando amedrontador. Aliás, não se pode pensar o Direito sem a democracia. E democracia de fato. Ou o povo tem acesso e consciência, ou a assertiva de que to­dos são iguais perante a lei será ineficaz.

O mundo contemporâneo está cheio de tentativas de explicação para esse complexo e abstrato valor. Tão complexo quando a so­ciedade. O direito que se estabeleceu em bases sólidas, segundo o positivismo, começa a repensar sua atuação. Há tantos fenômenos marcando a evolução do ser humano que o Direito não pode ficar à margem. A bioética traz questões fulcrais: a venda de órgãos huma­nos, a venda de óvulos de modelos de beleza para obter a geração de “crianças superiores”. Esse nefando conceito de raça superior, infelizmente, costuma reaparecer, mesmo depois de banido.

As relações de trabalho – o ser humano virando uma empresa, perdendo direitos conquistados a um alto custo em nome do di­reito à sobrevivência. O mundo cibernético, a Internet como livre rede de informações, mas também de crimes, de consultas sérias, mas de exibição de corpos infantis em situação vergonhosa. O Di­reito internacional e suas propostas pluralistas em oposição a uma proposta imperialista, sua defesa da soberania aliada à integração. O Direito público e os intricados mecanismos de burlar a ordem legal para se chegar ao poder e nele, sem prazo, continuar. As ques­tões pertinentes à teoria da pena. O senso comum exigindo, muitas vezes, a volta da vingança privada ou pública como uma forma de resgate da justiça. O direito à informação, mas também o direito à privacidade. O direito de receber, mas o direito de ser deixado em paz quando preferir não receber. As questões ambientais e o direito à vida ameaçado pela insólita falta de água no planeta da água. O direito ao exercício da própria cultura conflitando com o direito ambiental (no caso dos animais) – a Constituição brasileira garante que um animal não deva ser submetido a crueldade, mas a cultura preserva a farra do boi em Santa Catarina.

O poder da mídia que gera opiniões contraditórias, que conduz a massa de um lado a outro, que impõe o domínio da política nefan­da sobre o domínio da técnica, que usa, muitas vezes, um discurso enganador para ludibriar algo ou alguém e se atingir determinado fim. E onde fica a justiça? No plano da abstração ou do concre­to? Nas discussões fechadas ou no cotidiano das ruas? Talvez, nos dois lugares. Não se pode perder de vista que o empobrecimen­to dos valores conceituais construirá uma sociedade ainda mais ignorante e mais distante dos valores universais. De outro lado, não se pode desprezar o emaranhado de coisas acontecendo no dia-a-dia e provando que não há justiça nenhuma neste país ou neste mundo. As filas intermináveis para o atendimento médico, enquanto se prevê o direito universal à saúde; a luta incessante para se conseguir um espaço em alguma escola pública, enquanto a Constituição preceitua o livre acesso de todos à educação. Os mo­tins, as chacinas em locais públicos como a Febem e as penitenci­árias enquanto se trata do dever do Estado dar proteção às pessoas que se encontram sob sua tutela. Sem falar da atuação vergonhosa de vereadores, deputados e outros representantes do povo em suas diversas instâncias. O que estão fazendo? Comprometidos e envol­vidos num mar de corrupção e ainda de falta de identidade. Quan­tos sabem qual o papel de um legislador? E a justiça?

Como podemos invocar esses milênios de conhecimento a res­peito da justiça enquanto, na prática, o povo assiste a um distan­ciamento desses princípios, de tal ordem que seus valores se vão banalizando? É o que Tércio Sampaio Ferraz mostra ao levantar o problema da destruição da justiça enquanto sentido unificador do universo moral do homem. Destruir a justiça é destruir o Direito. A justiça confere ao Direito um significado, uma razão de existir.

E Miguel Reale pontifica, em sua Teoria tridimensional do Direito, que “Direito é a concretização da idéia de justiça na pluridiver­sidade de seu dever-ser histórico, tendo a pessoa como fonte de todos os valores”. E a pluridiversidade é um conceito fundamental. Trabalhar com diversidade religiosa, cultural, ideológica, de raça, de etnia, de gênero, de classe social é trabalhar e conviver em um mundo plural. Respeitando e construindo o conceito de respeito.

O problema da justiça não é exclusividade do Brasil. O mundo todo tem problemas na ordem política, econômica, na violência, na corrupção, na educação e outros. A imagem que internalizamos, de que somos inferiores, não nos eleva a patamar algum. É preciso recuperar a auto-estima cidadã, isto é, o papel que podemos exercer na transformação dessa sociedade em que estamos inseridos. Para­fraseando e recriando Chaplin, precisamos de mais que leis, preci­samos de humanidade. As leis não resolvem todos os problemas e não constroem, somente elas, a justiça. É o hábito da virtude, que defendia Aristóteles, hábito que depende da educação, educação que depende da vontade política dos governantes. Mas, como não podemos viver de lamúrias, é preciso fazer alguma coisa e não ficar apenas esperando soluções que venham de outros lugares. É possí­vel e é preciso lutar pela justiça.

E lutar pela justiça é obrigação de todo ser humano, mas é ainda maior para aquele que optou pela área do Direito. É a prática como juiz, como promotor, como advogado que nos permite restabelecer o que deve ser restabelecido. Apenas com o uso da linguagem o juiz pode fazer com que o cidadão à procura da justiça se sinta valorizado ou inferiorizado. Em seu julgamento, pode restabele­cer a justiça ou negligenciá-Ia. Cada julgamento é uma história. É uma história de vida. E as partes, como dizia o saudoso mestre André Franco Montoro, não são números, fichas, coisas, são seres humanos. O juiz pode pensar que, dependendo de sua decisão, ao conceder ou não a guarda, ao determinar que se reintegre ou não a posse, ao exigir que o patrão pague mais ou menos ao empregado, ao prender ou ao soltar, constrói ou destrói humanidade. Na práti­ca da advocacia, o advogado pode-se mostrar zeloso, preocupado com cada causa ou negligente, distante, despreocupado se o cliente passa na prisão mais tempo do que devia, afinal é apenas mais um.

É na atuação de defensor da sociedade que o promotor encontra espaço para ser minucioso, competente, justo em sua função; e o delegado de polícia que busca a verdade sem se valer de meios ilícitos, sem cometer crime, sem espancar, sem colocar em situação humilhante o preso, também está na luta pela justiça.

O Direito não pode estar à margem das transformações sociais. Não pode viver ensimesmado, sem olhar para o mundo, apenas es­perando que o legislador crie nova lei e que o interessado se dirija às cortes para reclamar seu direito. A democratização do acesso à justiça já é garantia constitucional. A linguagem tem de ser adequa­da ao auditório, que precisa entender os termos técnicos que regem essa área, senão os cidadãos não terão seus direitos garantidos, não terão atendidos os pressupostos mínimos da democracia. Tudo isso está nas nossas mãos. É preciso acreditar, e se acreditarmos as coi­sas começarão a mudar. Senão, o que estaríamos fazendo aqui? Por que escolher essa profissão?

Há uma antiga história que fala de uma comunidade de animais que viviam felizes em seu reino. Todos eram justos uns com os ou­tros e tudo funcionava perfeitamente bem. Havia um lago em que os animais se lavavam, bebiam água, nadavam e alguns até viviam nele. Certa feita apareceu um alce gigante que começou a beber e a beber toda a água do lago. E, além disso, também batia forte com os pés na margem, de modo que a terra ia cedendo e o lago ia ficando mais raso. Os animais começaram a entrar em pânico sem saber o que fazer. Os castores desesperados, os coelhos correndo para lá e para cá sem encontrar a solução. As lontras nervosíssimas, e os peixes nem se fale. Morreriam todos a qualquer momento.

Os animais tentaram de alguma forma espantar o alce. Mas tive­ram muito medo, o alce era gigante e nada podiam fazer. Até que uma mosca se ofereceu para afastar o alce para longe. Os animais, apesar do nervosismo, desataram a rir. Que poder tinha aquela mos­ca pequenina para afastar um alce gigante? A mosca nem se impor­tou com os risos. Disposta a fazer o serviço dela, foi em frente.

Pousou em uma das patas do alce e mordeu com toda força que tinha. O alce batia com a pata para se livrar da mosca. E cada vez que batia a mosca levantava vôo e ia morder outra parte do corpo, zumbindo. De novo mordia e fazia barulho. E assim foi deixando enlouquecido o alce, que se pôs a correr completamente fora de si, e como não conseguia se livrar daquela maldita mosca, fugiu para longe do lago e nunca mais voltou.

A mosca ficou muito feliz com a conquista e gritou para os ou­tros animais: “Mesmo o pequeno pode combater o forte se usar sua cabeça para pensar”.

Esse é o nosso desafio. Se nos sentirmos impotentes e nadando contra a maré, nada poderemos fazer e tudo continuará do jeito que está. Se nos enchermos de força, de garra, de competência e de luta conseguiremos fazer alguma coisa por esse povo que clama e que necessita de justiça. O ideal que motivou pensadores de todos os tempos a refletir e a fazer justiça é o mesmo que nos motiva. Neste milênio que se inicia, o que faremos para dar novas respostas aos mesmos problemas? O humanismo integral de Jacques Maritain, o homem todo e todos os homens. A coragem de Rui Barbosa ao es­crever aos moços, a expectativa de Mário de Andrade: o que farão esses moços? O que farão esses juristas?, perguntamos nós. A since­ridade de Mário Quintana: “e no dia em que tratares a um dragão de Joli, ele te seguirá por toda a parte como se fosse um cachorrinho”. Essa é a sonhada civilização do amor desejada por Aristóteles: onde há amizade, nem a justiça é necessária.

Os numerosos movimentos de solidariedade, as ONGs que tra­balham na recuperação de pessoas no mundo inteiro, o trabalho voluntário de uma legião que entendeu o prazer gratificante da doação voluntária, tudo isso prova que Aristóteles continua cor­reto. É preciso, pois, mudar a mulher e o homem; mudando-os, mudaremos o mundo. É uma utopia? A justiça é uma utopia? Para alguns sim, e nada há para ser feito, já que a utopia é inalcançável. Para nós, a justiça não é uma utopia – é uma realidade que pre­cisa ser construída diariamente. Não podemos cruzar os braços. Os omissos, os covardes, os acomodados deixaram de sonhar e ao deixarem de sonhar, como diria o poeta, deixaram de viver. É claro que só o sonho não resolve. É preciso fazer. É preciso ter alma de poeta e mãos de obreiro. Se não tivermos a alma do poeta, esqueceremos até o motivo que nos levou a optar pela profissão do Direito e da justiça. E se não tivermos mãos de obreiro, ficaremos em belos discursos e belas palavras e bela roupagem. E o resto? Comecemos!

O adeus ao príncipe

Por Gabriel Chalita

Da fazenda Boa Vista tirava inspiração para descrever as belezas físicas e históricas do Vale do Paraíba. Falava de seus expoentes do passado e do presente com a garbosidade de quem se orgulha de viver em boa companhia. Aos amigos tudo. A todos tudo. Vivos ou mortos eram amigos seus que fizeram e fazem a história do Vale. Assim ele ensinava. A História foi sua grande paixão. Passeava pelas cortes de tempos e culturas diferentes, penetrava nos sentimentos de pessoas que fizeram do amor uma opção.

Amante da literatura. Valeparaibana e universal. Foi mecenas de tantos escritores que se valiam de seu “Pátio das Artes” para sair da toca e ir rumo ao mundo. Eu me incluo entre os beneficiados de sua generosidade.

Suas aulas eram espetáculos de amor em que ele instigava seus alunos a irem um pouco além. “Sejam felizes”, dizia Aristóteles. “Sejam felizes” dizia José Luiz Pasin no Liceu Contemporâneo. Era o seu sacerdócio. Incentivar o vôo alheio.

Suas palestras de temas e assuntos diversos despertavam a atenção pelo charme e pela competência do orador.

Pasin era um homem cheio de amigos. Artistas, escritores, intelectuais, políticos, pessoas de todos os tipos se achegavam para o seu castelo. Embora o cenário fosse sempre convidativo – era bom tomar um café da tarde ouvindo musica erudita e contemplando janela afora a velha figueira – o diferencial era ele. Dizendo coisas, antecipando valores.

Essa semana fui visitá-lo. Alguns minutos juntos no Hospital Frei Galvão. Ele relembrou sua visita no meu aniversário do ano passado. Quantos planos ouvi dele naquela noite de festas, quantos sonhos, quanto futuro ali em ebulição naquela cabeça de menino. E faz tão pouco tempo…

Falamos, sem tristeza, da vida e dos seus ciclos. Ele me disse sobre as surpresas, as interrupções, as pausas, o fim. Eu mudava de assunto e ele seguro, com a dignidade que o marcou em toda a vida se preparava para partir.

Era quarta-feira e havia sol do lado de fora daquele quarto. Desculpou-se por não ter feito a barba. O príncipe se preocupa com detalhes; e, me orientou pela última vez: “aproveite a vida – aproveite a chama que Deus te deu meu amigo”.

Conversei com Deus enquanto voltava pra casa. Conversei com a intimidade de quem não entende o porquê da colheita prematura. Conversei dizendo o que eu sentia e o quanto eu sofria por ter de dizer adeus. Chorei também como choram aqueles que têm fé. Fiquei lembrando os momentos ricos de entardecer e discussões filosóficas. Foi como um filme bom. Porque seus exemplos eram sempre bons. Se há uma coisa que dignifica o ser humano é a sua capacidade de amar. E nisso o nosso príncipe era mestre. Dos seus alunos aos funcionários. Dos enfermeiros dos últimos dias aos que tiveram o privilégio do convívio mais próximo.

A fé me faz crer que ele chega elegante ao castelo celestial. O Criador não nos fez com tanta complexidade e beleza para que acabássemos aqui. Há castelos. Há fazendas. Há jardins. Há Amor eterno para acolher os viajantes. 

Boa viagem, meu amigo.

Johnny e a juventude sem limites

Por Gabriel Chalita

Não é à toa que o filme Meu nome não é Johnny já é um grande sucesso. Primeiro porque mostra a qualidade de que é capaz o cinema brasileiro. Depois, pela temática. As famílias estão preocupadas com duas questões centrais abordadas pelo filme do diretor Mauro Lima: as drogas e a necessidade de estabelecer limites para os jovens. Pais atentos sabem que é preciso entender as negativas que o mundo oferece.

Aí está o valor deste filme, ao contar a história real de João Guilherme Estrella, jovem carioca que se acostumou, desde criança, a uma educação permissiva. Sem imposição de limites por parte dos pais, tentou as drogas. De usuário, em pouco tempo passou à posição de um dos traficantes mais importantes do Rio. No papel, Selton Melo é perfeito, sério, competente, arrebatador. E muito bem acompanhado: estão ótimas as atrizes Cleo Pires e Júlia Lemmertez.

Um trecho antecipa o futuro do menino Estrella. Soltou um rojão dentro da casa. Em vez de repreendê-lo, o pai comemorou. A frase predileta de André di Biasi, no papel de pai, é esta: “Aproveite a vida”. (Justo ele que desistiu dela.) Mas o que significa aproveitar a vida? Prazeres são sempre bem-vindos, mas uma vida baseada apenas em prazer tende ao fracasso. E fracassar é perder a alma. Estrella conseguiu se recuperar depois da prisão e do manicômio. Deu valor à vida. E está vivo. Talvez sua história não seja a regra, mas há muitos jovens que degringolam pela falta de limites.

Os pais não se ausentam por maldade. Mas fazem um mal enorme aos filhos quando ficam ausentes. E, na vida, quem só ouviu sim, dirá sim ao traficante, ao corrupto, ao bandido. Os pais têm de ser referência, mesmo com os erros e ausências que a falta de tempo impõe. Mas com a inteireza de quem sabe que o amanhã só existirá se o hoje for bem construído. Há muitos pais que não sabem até onde devem proibir ou podem permitir. É preciso buscar ajuda, ler, pesquisar, entender o que se passa com essa geração. Os pais têm de abordar temas que ontem não eram necessários. Por que eu tenho de falar sobre drogas com meu filho? Porque os tempos mudaram e a juventude também. O jovem não é um problema. Desde que tenha sonhos e limites.

Por isso há um bom programa para ser fazer nesses dias. Pais e filhos deveriam ir, juntos, assistir ao filme Meu nome não é Johnny. É uma oportunidade de as famílias observarem a importância do diálogo – e a tragédia que costuma decorrer da falta dele.

Ações para gostar de ler

Por Gabriel Chalita

Num conto denso, apesar de econômicas duas páginas, Clarice Lispector mostra a expectativa de uma menina que sonha com a leitura de Reinações de Narizinho, que uma colega prometeu emprestar e não emprestava nunca, de pura maldade. O conto se chama Felicidade Clandestina, e sintetiza a paixão pela leitura. A frase que comove pela expressividade é esta: “Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o.”

Foi centrada sobre esta paixão que se desenvolve, a cada ano, em Passo Fundo, a chamada Capital Brasileira da Leitura, a Jornada Nacional de Literatura, que na semana de 27 a 31 de agosto cumpriu a sua 12ª edição. Concebida por Josué Guimarães, o escritor passo fundense autor de “Dona Anja” e de “Camilo Mortágua”, a Jornada Nacional de Literatura é uma das mais louváveis iniciativas que o Brasil encontrou de divulgar este maravilhoso objeto de desejo que é o livro.

Sabemos que o Brasil lê pouco, e não é nossa intenção bater de novo nessa mesma tecla. É melhor saltar a etapa da constatação vazia e passar para soluções. Afora eventos como o de Passo Fundo, belíssimo no seu conceito e na sua forma, há muito mais que é possível fazer, no dia-a-dia, em casa mesmo, com nossos filhos ou com qualquer criança do nosso relacionamento, para desenvolver o hábito da leitura.

A primeira providência é dos pais, ao estabelecer o hábito de ler histórias para os filhos. Nietzsche relatou, em seus “Escritos autobiográficos”, que sua mãe o ensinou a ler e escrever, antes mesmo que ele ingressasse na Escola Primária de Naumburg. E o ensinou tão cedo porque uma das recordações mais vivas de sua primeira infância foi a do escritório onde seu pai preparava suas pregações destinadas à pequena igreja luterana da cidade de Röcken. No escritório, estantes repletas de livros, muitos deles com numerosas ilustrações, as quais faziam daquele lugar o seu preferido na casa.

As escolas devem assumir estratégias de incentivo à leitura, também, como a leitura de contos em voz alta pelas crianças, para incentivar a expressividade e a oralidade. E dramatizações, a cargo de contadores de histórias.

Os professores, por sua vez, devem escolher livros que despertem a atenção das crianças, evitando livros que bloqueiem o desejo da leitura. Todos os autores são fascinantes, mas é necessário planejar o caminho da leitura.

A mídia pode participar ativamente, como fazem Gilberto Braga, Walcyr Carrasco e outros, divulgando em suas novelas autores nacionais e incentivando a leitura. Os programas jornalísticos também podem apoiar, divulgando, por exemplo, iniciativas populares de criação de bibliotecas nas comunidades.

E, ao final, o governo pode e deve executar ações como programas que estimulem a criança a levarem livros para a casa. Desta forma, poderemos ter mais crianças como a personagem de Clarice Lispector, que às vezes se sentava na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.” Este é o tamanho da paixão que a leitura desperta.

Magister in libris

Por Gabriel Chalita

O escritor é, por definição de sua própria ocupação, do seu próprio fazer, um praticante do magistério. Desempenha essas duas ocupações de maneira tão complementar que é comum observar, em obras literárias, a presença de mestres-personagens. De certa maneira, uma espécie de projeção, em muitos casos. Arnaldo Niskier, por exemplo, é um professor na vocação e um escritor na convicção. Um papel que Gabriela Mistral assumiu, na vida e na arte, com maestria – para usar uma licença poética.

Alguns professores são quase icônicos, na literatura. A professora no magistral conto de Lygia Fagundes Telles, em “Papoulas em feltro negro”, por exemplo. Todo o seu caráter e a sua dedicação profissional nos são apresentados pela narradora, perdida nas suas memórias e questionamentos de mocinha insegura. Mas há outra professora, na literatura brasileira, que chama a atenção, principalmente pelo que foi impedida de realizar.

No denso romance “São Bernardo”, Graciliano Ramos põe o personagem Paulo Honório a narrar a sua vida em perspectiva. Começou a vida como guia de cego e, à custa de desonestidade e de uma solidão absoluta, torna-se o dono da Fazenda São Bernardo. A obra trata, por vias tortas, de felicidade. Justamente pelo oposto. Paulo Honório é um homem infeliz. A certa altura da vida ele só queria um herdeiro, e acaba escolhendo, para exercer o papel de mãe, a loura professora Madalena. O fazendeiro sombrio imagina poder subjugar Madalena, mas a moça tem os apanágios da profissão: é solidária, humanitária, e caridosa. Ela não concorda com a exploração a que o marido submete os empregados, humilhando-os pela força e pela opressão financeira. Madalena nunca se rendeu à dominação de Paulo Honório, a tal ponto que prefere a morte a colaborar com a posição desumana do marido. Este, no fim da vida, ao lembrar a perda da mulher que amava, mas que não respeitava, diria: “A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.” E isto era o que Madalena, a professora tinha de sobra: alma.

Madalena viveu como professora. E, a despeito de ter sido uma personagem criada em 1934, traz os fundamentos da pedagogia contemporânea. Ensinou pelo exemplo, estudou, buscou, contestou. Superou as vicissitudes pela transcendência simbólica da morte. E deixou legado, mesmo a pessoas que não foram formalmente aprendizes seus. Tanto que, depois de sua morte, os empregados assumem a sua posição revolucionária e vão abandonar Paulo Honório, que enfim enfrenta a decadência, ele que não aprendeu a viver. Não conheceu o prazer de aprender.

Cecília Meirelles, ela também uma professora nos escritos, sintetizou numa frase o pensamento da moderna pedagogia: “Ensinar é acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética afetuosa e participante.”

E voltamos ao princípio basilar do magistério na literatura. O escritor e o professor trabalham com três premissas: afeto, solidariedade e compreensão. Há muitas formas de desenvolver conhecimento, mas o ato de educar só se dá com afeto, só se completa com amor. A educação se realiza na sala de aula, em casa, na rua, em qualquer lugar onde haja convívio, principalmente quando se consegue fazer a intertextualidade das cenas da vida com as cenas trabalhadas na literatura. Os professores do cotidiano têm desafios enormes. Têm de conhecer a matéria que terão de trabalhar com maestria e inovação. Isto porque o aluno mudou e já não aceita ser a parte passiva da relação ensino-aprendizagem. Os alunos estão mais inquietos e menos concentrados. O desafio, assim, é ser um problematizador, não um facilitador do processo de aprendizagem. Mas, além da nova didática, o professor precisa de outro conhecimento – o conjunto dos sonhos, aspirações, traumas e bloqueios do seu aluno.

O professor disputa com a família desagregada, que não educa e que muitas vezes nem tem essa preocupação. Eis que educar não é fácil; mas é um trabalho que, bem feito, dignifica.

Há premissas indispensáveis que devem ser observadas pelo professor: o aluno não é mau, embora possa ser ou estar disperso ou indisciplinado; o aluno não é uma tábula rasa; o conhecimento é prazeroso. Ele, o professor, é o líder desse processo. Seja nas páginas da literatura, nas ruas ou nas salas de aula deste gigantesco Brasil. Nossa homenagem aos mestres de ontem, de hoje e de sempre. Oxalá o Brasil volte a valorizar seus professores. A geração que virá depois agradece.

Qual é a melhor escola para meu filho?

Por Gabriel Chalita

A educação é o grande legado que os pais deixam para os seus filhos. Foi o que disse, com grande perspicácia, a autora dos sublimes Poemas dos Becos de Goiás, Cora Coralina, numa frase inspirada: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Disse isto, segundo Olympia Salete Rodrigues, uma de suas biógrafas, quando tinha já o rosto enrugado, o corpo alquebrado e maltratado pela vida, mas tinha a alma lisa e pura. Com essa longa experiência, Cora sabia, ao conceber essa frase, que a primeira etapa da educação se dá em casa, e não importa a idade de quem assume a tarefa de educar. E é em casa que os filhos começam a absorver as virtudes e os vícios dos pais ou avós. Porque, mais do que as palavras, as atitudes calam alto na história das crianças.

Depois vem a escola. E nesse momento surgem numerosas dúvidas para que se consiga escolher a melhor escola. Alguns pais não se interessam tanto e relegam essa tarefa para terceiros. Outros até exageram, perguntando a todo tipo de especialista ou a qualquer outra pessoa, em que escola devem matricular os seus filhos.

Hoje, é comum a mídia oferecer, com base em alguma pesquisa ou avaliação, um ranking com as melhores e as piores escolas. Não acho que esse seja um critério interessante para se basear no momento da escolha, até porque esses critérios são muitas vezes duvidosos e nem sempre conseguem mostrar o que é uma escola de qualidade.

Há alguns aspectos, entretanto que podem ser observados e que ajudam na escolha: 

1 – Os pais devem visitar a escola com os filhos e perceberem o seu ambiente. É fundamental que a criança goste da escola em que estuda.
2- O aspecto físico é importante. Salas de aula agradáveis, biblioteca, espaço de cultura, lazer, esporte. Não é necessário que o prédio seja luxuoso, mas que seja limpo e digno de um espaço em que se educa.
3 – É importante avaliar o quanto a escola investe na formação de seus professores, que são a alma da escola. Se o espaço físico for suntuoso, mas o corpo docente despreparado e desmotivado, é preferível procurar outra escola.
4 – Mesmo que os pais você não sejam especialistas em educação, é recomendável saber a linha pedagógica da escola, o seu projeto de ensino-aprendizagem e formas de avaliação.
5 – Deve-se analisar o currículo da escola, cuidadosamente, para verificar se há preocupação com temas do cotidiano como ética, cidadania, respeito ao meio ambiente, diversidade cultural, entre outros. Os pais não devem ter vergonha de perguntar tudo ao orientador que os receberem na escola. E, durante a conversa, é possível reparar no preparo dele, ao dar as respostas.
6 – Os pais devem observar os funcionários, e se possível, o diretor da escola. Uma regra básica é que todo o educador deve ser educado. Uma escola que preza por esse valor investe na capacitação de todas as pessoas que nela trabalham.
7 – Um aspecto essencial a ser observado é se a escola prepara para a cooperação ou apenas para a competição. Cuidado. Pode ser que os pais queiram apenas que o filho ingresse depois em uma faculdade, sendo aprovado no exame vestibular. Isso é importante, mas a escola tem que preparar para a vida toda, e não apenas para um exame.
8 – Uma alternativa interessante é questionar alguns pais que freqüentam a escola para ver se o discurso dos educadores é condizente com a prática.
9 – Os pais devem avaliar se o preço é compatível com o seu salário. A mesma avaliação deve ser feita em relação à localização, para que não vire um transtorno, o caminho de ir e vir.
10 – Os pais devem decidir junto com o seu filho, não importa qual seja a idade dele. É importante que ele sinta que ajudou a escolher a escola em que estuda.
Essas são algumas dicas. Há outras. O mais importante é que o pai, a mãe, o avô ou a avó, levem a sério a educação da criança. Em casa, na escola, na vida.

Outra dica: por melhor que seja uma escola, ela nunca vai suprir a carência de uma família ausente. Portanto, a família deve participar de verdade do processo educativo de seus filhos. Esta nem é uma dica minha. É de Cora Coralina, quando, na sua grande sabedoria, disse isto: Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.

Ética passada a limpo

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

Muito se fala sobre ética nos dias atuais. O tema está na ordem do dia, tanto no meio acadêmico como nas ruas, em que se trata de temas cotidianos como a corrupção na política e a violência. Nas universidades busca-se entender as razões pelas quais o ser humano é correto ou não; busca-se viajar pelas sendas da filosofia, onde pensadores de épocas diferentes tentaram responder se o ser humano é naturalmente bom ou não. Há uma angústia recorrente dos filósofos em construir conceitos que ajudam a sociedade a viver melhor.

Protágoras, pensador grego que viveu entre 487 e 420 antes de Cristo, achava que ética era uma coisa empírica. Cada pessoa, segundo ele, adotaria a conduta mais conveniente à sua própria escala de valores. Para o pensador, o certo e o errado deveriam ser avaliados em função das necessidades do homem, e, portanto, os critérios de avaliação variariam de sujeito para sujeito. Posição parecida, mas ampliada, adotaram dois sociólogos franceses, Durkheim e Bouglé, no século 19, que consideravam que os valores éticos (o certo, bom, justo, verdadeiro) são obtidos por apreciação coletiva, e, portanto, variam conforme o grupo focalizado.

Mas antes deles alguém definiu, com mais precisão, o sentido da palavra ética. Foi Aristóteles, que afirmava existir um valor supremo, que norteia a vida das sociedades. Esse valor é a felicidade. Felicidade, em grego, é a junção de eu (bom) e demonia (espírito). A corrente foi enriquecida, mais tarde, por outros filósofos que consideravam que a felicidade era o fim, o objetivo, e que a virtude era o meio, a ferramenta, para se alcançar a felicidade.

No meu livro Os dez mandamentos da ética, faço uma reflexão sobre a genial obra “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles. Apresento os passos para que a ética seja vivenciada.

O primeiro é fazer o bem.

O segundo é agir com moderação, buscando o equilíbrio, eliminando os excessos.

O terceiro é saber escolher, e aí está implícito o favor de subjetividade que é preciso existir em cada conceito, porque cada ser humano é diferente do outro, e carrega sua experiência, sua cultura, que o torna único. A questão, envolvida na escolha, é que a decisão, para ser boa, precisa levar em conta, necessariamente, os dois passos anteriores: fazer o bem e agir com moderação.

O quarto passo é praticar as virtudes. Uma atitude essencial, porque não basta fazer o bem, agir com moderação e saber escolher, se a pessoa não se dedicar a praticar os valores que adquiriu.

Com isso, o quinto passo é praticamente automático: viver a justiça. Quem segue os quatro primeiros passos aprende, incorpora o sentido de fazer as boas coisas olhando para o outro e para as necessidades do outro, sem esquecer de si mesmo. Isto é a base da justiça.

O sexto passo é valer-se da razão, ou seja, da consciência, do pensamento analítico. Está intimamente ligado ao sétimo passo, que é valer-se do coração. Duas orientações que se complementam: a pessoa deve usar uma balança em que se equilibrem, com peso equivalente, o racional e o emocional. As chances de que as escolhas sejam acertadas, agindo assim, são grandes.

O oitavo passo é ser amigo. Quem é amigo aplica todos os conceitos que acabamos de ver, sem dificuldade.

O nono passo (cultivar o amor) é quase um corolário para o décimo (ser feliz).

Aí está, portanto, um rosário de recomendações que retira o aspecto generalista dos conceitos que historicamente acompanham as discussões sobre ética. Norberto Bobbio, um dos grandes pensadores contemporâneos, por exemplo, aponta a honestidade como uma virtude válida para todos os homens, mas que, ao mesmo tempo, é uma atitude unida à conduta correta de uma pessoa no exercício da sua profissão. Ou seja, o homem tem que ser honesto, mas o médico também tem que ser um profissional honesto. É isso o que se diz nas ruas e em todos os lugares.

Este tema é fundamental na escola. Um dos tantos objetivos da educação é ensinar a conviver. E o convívio significa respeito, cooperação, ternura, enfim. E isso é a ética. A ética se aprende nos livros, nas lições dos grandes mestres. E se aprende no cotidiano, no exercício de ser correto.

Bom seria se os pais dessem o exemplo primeiro. Os filhos precisam de referências. Que os políticos e as pessoas de alguma visibilidade também se preocupassem em viver de maneira correta e que na escola professores e alunos interagissem de modo a construir relações éticas que gerassem um clima de confraternização e cooperação. E esse aluno-cidadão será um profissional-cidadão. E portanto ético e portanto feliz.

Aliás, esse é o conceito já presente em Aristóteles: nascemos para ser felizes e para fazer os outros felizes. Isto é a ética.

O momento da escolha da profissão

Por Gabriel Chalita

Escolhas são caminhos bifurcados que encontramos todos os dias, na nossa vida. As escolhas não precisam ser sempre difíceis, embora a cada uma corresponda uma renúncia. Quando não há dinheiro para tudo, há que decidir por uma ou algumas dentre as várias coisas que se pretenda comprar. Quando se vai a um restaurante, um prato. Quando se sai de casa, um caminho. E assim sucessivamente. 

A dificuldade de fazer escolhas relacionadas à carreira está no fato de que, muitas vezes, os filhos desejam seguir áreas novas que os pais conhecem pouco e por isso temem que não proporcionem solidez, no futuro. Ainda há pais que acreditam, como foi no passado, que os cursos que importam são medicina, direito e engenharia. Os jovens querem ousar. Turismo, publicidade, gestão de pessoas, meio ambiente, tecnologia, design, culinária, artes, são áreas sedutoras e atraem um número cada vez maior de jovens. E por serem novas, não significa que remuneram menos que a advocacia, odontologia ou administração.

A conversa em família, para a decisão do curso, deve levar em conta questões como o prazer, a aptidão e a oportunidade. O prazer é essencial. A profissão será a companheira diuturna, e não se escolhe para viver e conviver algo que não se aprecie. A aptidão é demonstrada em toda a vida escolar. Não basta que os pais queiram que o filho seja médico, piloto de avião ou ator de cinema. É preciso aptidão. E a oportunidade está ligada ao mercado de trabalho. Um pai que tem uma grande organização pode preparar o seu filho para comandá-la. Pais que sejam advogados bem sucedidos terão mais facilidade para abrir o mercado para os filhos. Um dono de jornal já tem espaço para o filho jornalista. Isto não é regra. É oportunidade.

A constatação mais importante: as pessoas não podem mais parar de estudar, senão envelhecem para o mercado, fenecem e morrem. A assertiva do passado, de que bom era ingressar em uma organização e trabalhar nela por toda a vida, não é mais a regra. As pessoas mudam de empresa e de área de atuação e por isso mesmo devem estar preparadas para essas mudanças.

Mesmo escolhas difíceis podem ser prazerosas, quando os atores do processo são respeitados. Os pais não devem assumir a decisão. A carreira é dos filhos, e a decisão tem que ser deles. Isso não significa que não possam orientá-los e até convencê-los do que julgam ser o melhor.

Depois da escolha, o que importa é estudar. E muito – o mercado carece de profissionais competentes, que tenham visão do mundo e da área em que atuam, e para isso a leitura é essencial. A capacidade de trabalhar em grupo e de resolver problemas também. E tudo isso ajuda a chegar ao essencial: um profissional competente e bem sucedido é antes de qualquer coisa um profissional feliz.