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As manifestações populares e o acesso à democracia

As formas de manifestação popular têm se ampliado em tempos de informação rápida. Jovens se unem para derrubar ditadores, unem-se para protestar diante de mazelas políticas, de corrupção, de demagogia, de gestão ineficiente. E isso é bom! A juventude tem esse necessário ímpeto. Tem inquietude e potência acumulada para não se acomodar aos fatos que considera ruins. E há jovens de todas as idades. O medo da mudança é coisa de gente cansada, acomodada. Gente desanimada. Jovem luta por aquilo em que acredita. Do contrário, não é jovem, mesmo que tenha pouca idade. 

Recentemente, jovens manifestaram-se contra uma curiosa e descabida expressão: “gente diferenciada”. Foram às ruas e aos veículos de comunicação protestar contra o aumento abusivo de tarifas de ônibus. Protestaram pela liberdade. Liberdade, esse é o caminho.

Liberdade requer conhecimento. Liberdade exige autonomia. Além da liberdade, os jovens fazem tremular a bandeira da verdade. Preferem os que expressam opiniões, mesmo aquelas que contrariam as suas, à dissimulação dos que tomam decisões solitárias, mascaradas. A imagem é muito mais interessante do que a maquiagem. A maquiagem aos poucos cai, como na cena final do clássico Morte em Veneza. A maquiagem é um desserviço à política. É preciso ver a imagem. Concordar ou discordar dela. Mas a imagem. Bonecos ganham eleições, mas são frágeis para administrar cidades.

A recente marcha da maconha gerou polêmica. A juventude buscou outra alternativa. Alguma que não ferisse a legislação. E isso é fundamental. Quem defende a democracia defende as leis, mesmo que não concorde com algumas delas. Se não há concordância, luta-se para mudá-la, nunca para negligenciá-la. A marcha da maconha foi proibida pela Justiça. A da liberdade, permitida. Se houve excessos na proibição, que sejam aparados. A da liberdade foi pacífica. E é de paz que precisamos.

Há outras formas de manifestação popular igualmente nobres, desde que verdadeiras. As redes sociais estão cheias de possibilidades. Manifestemos, então. Com verdade, com respeito, com educação. Assim, damos o exemplo e determinamos o tom do diálogo necessário.

A participação melhora a democracia e ensina governantes e governados a conviverem pacífica e democraticamente, fundamentados na veridicidade e na justiça, em busca do bem comum.

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

O sonho de Tiradentes

Muitos estudos já foram feitos sobre o mártir da independência. Alguns afirmam que Joaquim José da Silva Xavier, por ser o mais frágil dos inconfidentes, foi vítima de um governo que queria apenas demonstrar seu poder. A Inconfidência Mineira, um dos principais movimentos sociais do Brasil, reuniu muita gente que, insatisfeita por conta da opressão colonizadora, decidiu lutar a favor da liberdade. Mortes descabidas, perseguições desumanas, capturas injustificadas, pela causa libérrima. Ânsia de um povo forte. Liberdade, ainda que tardia. 

Mas o que queria essa brava gente? O que queria o mártir, Tiradentes? O que queria o jovem que não tinha pai nem mãe e que foi tropeiro, mascate e, depois, dentista? O que queria o rapaz influenciado pelo Iluminismo? Queria iluminar. E não se ilumina sem liberdade. E não se tem liberdade sem conhecimento. Desejava ver a pátria não apenas livre de Portugal; desejava, como todos os inconfidentes, um país igualitário, justo. Para todos. O sonho do abolicionismo ocupava ideias e pensamentos desse grupo. Escravidão, nunca mais. Nem social, nem cultural, nem econômica. E com poesia. O grupo inconfidente contava com três grandes poetas: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto.

O sonho de Tiradentes, herói nacional e condutor da conjuração independentista, era o sonho de fazer do Brasil uma nação. “Nação” vem do latim natio. Tem como conceito pessoas nascidas no mesmo local, ou com as mesmas tradições, ou como frutos de uma mesma cultura. O Brasil precisava ser independente para se constituir nação. E essa independência foi conquistada, oficialmente, alguns anos mais tarde. As Gerais, centro das riquezas coloniais do século XVIII, deram o primeiro passo. O Brasil seguiu a determinação de Tiradentes e de outros bravos líderes.

Uma nação dá oportunidade aos “nascidos”. Uma nação não se acomoda diante da dor daqueles que estão à margem. Porque a nação é como um corpo em que cada membro tem importância única.

O Brasil tornou-se uma nação respeitada no mundo. Um país que cresce e que gera empregos. Mas é preciso mais. O sonho ainda não acabou; há muito a ser aspirado e realizado, com fé e coragem. Temos de olhar, em especial, para aqueles que não têm condições de desenvolver seu potencial porque são excluídos, ignorados pela sociedade da qual fazem parte. Pessoas que possuem, constitucionalmente, direitos garantidos, mas que, na prática, não os veem respeitados.

Tiradentes lutou pela liberdade, palavra tantas vezes banalizada, dita em vão. Mas também utilizada, em certas ocasiões, de forma poética, com a força que lhe é de direito. Cecília Meireles homenageou-a. Tomou o líder inconfidente como personagem primeiro e traduziu o sentimento que aquele termo traz em seu bojo. Encantou as palavras, reverenciando o sonho humano, o sonho brasileiro, o sonho do mártir. Seu Romanceiro da Inconfidência é fonte de grandeza e ternura:

“(…) 
Correm avisos nos ares.
Há mistério, em cada encontro.
O Visconde, em seu palácio,
a fazer ouvidos moucos.
Quem sabe o que andam planeando,
pelas Minas, os mazombos?
A palavra Liberdade
vive na boca de todos:
quem não a proclama aos gritos,
murmura-a em tímido sopro.
(…)”

Ao lado dos demais “rebeldes”, Tiradentes foi condenado de forma cruel, covarde. Mas nos deixou a lição de que a liberdade é fundamental para o país que quer ser, de fato, nação. Cabe a nós dar a ela, na prática cotidiana, o sentido transformador que inspirou os inconfidentes. Que as iluminuras daquele tempo continuem a nos incomodar e que, incomodados, saibamos lutar, nos dias de hoje, por esta nação vocacionada a ser gigante. Liberdade. Para todos.

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

A dor e o aprendizado

As cenas dos adolescentes correndo pela escola, o pânico, o medo, a destruição, as mortes. Os velórios foram de grande comoção. É triste ver a partida antecipada de quem estava vocacionado para o futuro. Essas crianças não tinham que morrer, é essa a certeza que ficou em quem acompanhou o desfecho infeliz. Há muitas conclusões apressadas. Muitas tentativas de solucionar o problema. Há aqueles que agora querem transformar as escolas em fortalezas, com policiais armados e detectores de metal. Há outros que querem endurecer a legislação penal. Há os que falam em fundamentalismos religiosos e os seus perigos. Vamos com calma. Antes das certezas, é preciso aprender com as dúvidas. 

Por que Wellington Menezes de Oliveira – além da psicose, da esquizofrenia – entrou na escola em que estudou disposto a matar adolescentes? Por que não matar no ponto de ônibus, no bar, na rua, na praia, no clube? Em todos esses lugares, há grande concentração de pessoas. Não. Wellington escolheu a escola. A escola em que estudou. Evidentemente, Wellington sofria das doenças da mente, mas há algumas pistas para tentarmos aprender com esse episódio.

Há testemunhos de amigos da mesma escola em que o atirador sofreu bullying. Só tinha um amigo, que também sofria. Era discriminado. As meninas não davam a ele a atenção que tão bem faz aos adolescentes. Era muito fechado. Falava pouco. Sofria sozinho. A mãe, a única com quem tinha vínculos maiores, morreu. Perdeu o emprego. Resolveu viver sozinho. Ele e os seus monstros. E decidiu que o último ato de sua vida seria para chamar a atenção. Escreveu detalhes do seu sepultamento para se sentir alguém. Misturou angústias, desprezo pelo ser humano e respeito pelos animais. Esses, sim, valiam a pena.

Claro que nem todas as pessoas que sofrem de bullying entram em escolas atirando. Mas há que se aprender com esse episódio.

As escolas precisam trabalhar com as habilidades sociais e emocionais, além da cognitiva. Não é possível que o espaço sagrado em que se ensina e se aprende seja reduzido a um palco de preconceitos e de chacotas. Há quem diga que sempre foi assim. Há algumas diferenças. A falta de diálogo em casa e o cyberbullying ampliam o problema.

O bullying é uma covardia, uma agressão à alma. Os seus efeitos podem ser amenizados se os pais conversarem mais com os filhos. O grande problema do bullying é o silêncio. A vítima sofre em silêncio, não divide com ninguém a dor pelo sarcasmo de que foi vítima. Bullying é mais do que violência escolar. Bullying é violência continuada, repetida. É a humilhação moral ou física em que os mais “poderosos” subjugam os “diferentes”.

É preciso trabalhar essa temática em sala de aula nas diversas disciplinas. O aluno tem de perceber que as “brincadeiras” agridem, humilham. É a regra de ouro da ética: “Não fazer ao outro o que não gostaríamos que fizessem conosco”.

Escola que apenas ensina a decorar não é escola. Família em que não há conversa não é família. Escola e família precisam estar juntas nesse processo essencial de educar a pessoa humana para o seu equilíbrio e para a convivência harmoniosa com os diferentes. É assim que se previnem essas tragédias. Com inteligência, não com violência nem com soluções mágicas.

Nossa solidariedade às famílias das vítimas e aos educadores de Realengo e de todo este país, tão carente de uma educação que forme a pessoa, que desenvolva a cidadania e que prepare para a vida e para o trabalho.

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

Amor: sepultura ou pôr do sol

Há um belíssimo conto de Lygia Fagundes Telles, “Venha ver o pôr do sol”, que traz uma reflexão sempre atual sobre o significado do amor e da relação entre os amantes. Numerosas pesquisas apontam a covardia dos homens como um importante indicador dos atos de violência contra as mulheres.

Recentemente, a imprensa alardeou um dado assustador: o de que, a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil. Na maioria dos casos, os espancamentos e as mortes ocorrem depois de algum tempo de convivência. São cometidos, com maior frequência, pelos namorados, pelos maridos, pelos amantes – pelos companheiros, enfim. Depois, aparecem os padrastos, os pais, os irmãos e afins como responsáveis. O lar, que deveria ser um espaço de harmonia e de convivência, transforma-se em um palco de guerra.

Na semana passada, emissoras de televisão mostraram imagens de um casal de jovens, ex-namorados, em um elevador. O rapaz tentava matar a moça por não concordar com o fim do namoro. A cena é de uma crueldade chocante. Chutes, socos e um cinto utilizado para enforcá-la. O “valentão” usou o amor para justificar a ação. Não poderia viver sem a ex-namorada. Seu amor era grande demais.

Será isso o amor? O rapaz não poderia viver sem ela ou não poderia tolerar o fato de ser “abandonado”?

No conto de Lygia, a mulher também resolve terminar o relacionamento. E o homem a convida para acompanharem, juntos, um último pôr do sol. Ela aceita, até porque teve uma história com ele e não gostaria de que as coisas acabassem de uma forma desagradável. Ele, estranhamente, marca o encontro em um cemitério, onde seria possível contemplar melhor o pôr do sol. E, lá, os dois caminham, conversando, entre as sepulturas.

O conto é recheado de metáforas. Os personagens estão entre mortos. E, assim, nesse clima, o homem convida a mulher a entrar sozinha em um mausoléu. Ela concorda. Não quer magoá-lo. Vale a pena ler o conto para acompanhar o desfecho da história.

Quem ama não agride e não aceita a agressão. As mulheres vitimadas pela violência têm muita dificuldade, infelizmente, em denunciar seus companheiros. Ficam imaginando quão complicado é ver preso o pai dos próprios filhos, criam desculpas para as ações agressivas; não em poucos casos, assiste-se a um final trágico. Como no conto.

É preciso que as mulheres assumam uma posição firme diante de qualquer tipo de violência praticado por seus companheiros. E denunciem. A violência física pode ser antecedida por uma violência simbólica, moral, que também é dolorosa. O aperitivo do espancamento pode ser um empurrão, um tapa leve. Na origem de tudo, está a ausência de um valor essencial para a convivência humana: o respeito.

O amor, definitivamente, não é um caminho para a sepultura. Pode até contemplar um pôr do sol, mas com esperanças…

Fonte: site Brasil 247 por Gabriel Chalita

O flagelo do crack

Caminhar por certas ruas de São Paulo é doloroso. Vemos jovens perambulando como zumbis pela cracolândia, com suas vidas desperdiçadas. Muitos nem sequer viverão para transmitir a nenhuma criatura o “legado de sua miséria”, como afirmava Brás Cubas. Esse cenário desolador não se resume à capital paulista. Um estudo do psiquiatra Pablo Roig, especialista no tratamento de viciados em crack, revela que há 1,2 milhão de usuários da droga no Brasil. O trabalho mostra que, em média, o consumo começa aos 13 anos.

As sombrias constatações são o resultado de escolhas erradas feitas no passado. O problema não foi diagnosticado a tempo de evitar que ele assumisse tamanha dimensão. Para reverter essa realidade, temos de agir imediatamente.

A presidente Dilma Rousseff, ainda em campanha, anunciou que o combate ao crack seria uma das prioridades de seu governo. No último dia 21, cumprindo a promessa, afirmou que serão inaugurados 49 Centros de Referência em Crack e outras Drogas, os quais formarão 15 mil profissionais de saúde para o atendimento aos usuários.

O consumo de crack se expande em progressão geométrica. Por ser muito barato, é facilmente disseminado entre a população de baixa renda. Pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul indica que 72,5% da população em situação de rua de Porto Alegre usa a droga.

Mas o crack também ganha adeptos em outros extratos sociais. Uma pesquisa feita em 2009 pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo indicou um crescimento anual de quase 140% no consumo entre pessoas com renda superior a 20 salários mínimos.

Os economicamente desfavorecidos embarcam nessa viagem por não terem condições sociais, materiais e psicológicas de enfrentar as adversidades da vida. 

Os demais veem nas drogas uma possibilidade de fugir dos problemas inerentes à condição humana. Buscam o prazer aqui e agora, ilimitadamente. Por caminhos diferentes, uns e outros entram no submundo da criminalidade, destruindo vidas, sonhos e esperanças.

Aterrorizar os jovens com a desculpa de informá-los sobre os perigos das drogas não os afasta delas. Estudos mostram que mais de 90% dos usuários adolescentes conhecem os efeitos e os riscos.

Para prevenir, é fundamental o acesso à educação plena, aos esportes e ao lazer, além de mais e melhores condições de trabalho no futuro. Cabe aos pais dar aos jovens a oportunidade de desenvolver a autoestima, de construir projetos de vida e de estabelecer a percepção de que cada um é responsável pelas suas escolhas e, portanto, pelo próprio destino.

Os jovens necessitam de um tema para viver. Os governos e a sociedade têm a imensa tarefa de tratar aqueles que já estão sob o domínio do vício, reintegrando-os ao convívio social. Prevenir o uso de drogas significa educar e conscientizar. Para cuidar dos jovens viciados, que se tornam verdadeiros farrapos humanos, temos de aliar políticas públicas efetivas a cuidados especiais.

Fazê-los encontrar um sentido para suas vidas vai além da ação pública; é um ato de amor ao próximo. E isso requer “engenho e arte”, como dizia Camões. Ou, nas palavras do psicanalista Erich Fromm, “o amor é uma arte que requer conhecimento e esforço”. Esse é o nosso desafio!

Fonte: jornal Folha de S.Paulo por Gabriel Chalita

Uma cidade educada

Por Gabriel Chalita (Site Brasil 247)

A educação está na base dos comportamentos cotidianos e é no dia a dia que se aplica a teoria da ética e do respeito Invariavelmente, discute-se educação sob o foco da relação de ensino–aprendizagem em salas de aula. Teorias pedagógicas tentam acompanhar as mudanças tecnológicas e comportamentais e as habilidades que precisam ser desenvolvidas. A educação, entretanto, transcende a sala de aula. O desafio é a construção de uma cidade educada.

Não é novidade a assertiva de que a educação começa em casa. Os pais são as referências iniciais de seus filhos, são modelos a serem seguidos. E, como o comportamento provém do hábito, atitudes corretas ou incorretas começam a ser observadas desde a mais tenra idade.

Pais agressivos podem gerar filhos agressivos, pais mal-educados podem gerar filhos mal-educados. Consideremos alguns exemplos cotidianos: um pai que joga papel no chão, uma mãe que fura fila, um pai que trata com arrogância outras pessoas, uma mãe incapaz de cumprimentar o porteiro do edifício em que mora, um pai que não sabe dizer “muito obrigado”, uma mãe que trata preconceituosamente outra pessoa, um pai que tenta sempre levar vantagem. Cenas do dia a dia das cidades que influenciam outras pessoas a agir da mesma maneira.

O Rio de Janeiro fez uma enorme campanha no carnaval para que os foliões não urinassem nas ruas. É necessário fazer uma campanha dessa natureza? As pessoas não sabem o local adequado para urinar? Infelizmente, o que parece óbvio não é. Será que precisamos de outras campanhas que ensinem a dizer “por favor”, “muito obrigado”, “pois não”, “por gentileza”? E de uma campanha para ensinar que o lugar do lixo é no lixo? E de outra para mostrar que o planeta água começa a sofrer com a ausência de água e que, portanto, seu uso deve ser racional? E de outra, ainda, para mostrar que todos devem “tratar o outro como gostariam de ser tratados”?

A educação está na base desses comportamentos cotidianos. Ser elegante melhora o humor, melhora a convivência entre as pessoas. Um líder deve corrigir seus liderados, mas com elegância. Um professor precisa impor limites aos seus alunos, mas com elegância. É assim que se constrói uma cidade educada. A partir de famílias educadas, de escolas educadas, de empresas e organizações educadas. É no dia a dia que se aplica a teoria da ética e do respeito. E sem esperar que a iniciativa seja do outro. Se cada um fizer a sua parte, conviver será uma experiência muito menos penosa. Ou melhor, profundamente agradável.

Carnaval 2011, as lições

Por Gabriel Chalita (Site Brasil 247)

Vai-Vai e Beija-Flor foram campeãs prestando homenagens a exemplos de superação.
O carnaval no Brasil ganhou um contorno que transcende a questão da folia. Tornou-se, além dos dias de festa e de alegria, um negócio lucrativo que atrai turistas de várias partes do mundo. Introduzido no país pelos portugueses, no século 17, essa arte popular aprimorou-se até os nossos dias. Considerada a primeira marcha carnavalesca, Abre-Alas, de Chiquinha Gonzaga, é um marco na música brasileira, já que serviu de incentivo a outros compositores, que passaram a criar canções para a grande festa. Estilos como o samba, a marchinha e o frevo foram ganhando o país.

Em 1929, fundou-se a primeira escola de samba do Brasil, a Deixa Falar. No Rio e em São Paulo, esse tipo de agremiação, cada vez mais técnica e arrojada, tem proporcionado espetáculos grandiosos, cenários de paixão e de alegria que traduzem nossas raízes culturais. Quem acompanhou a festa deste ano fez um passeio pela cultura brasileira.

As duas campeãs de 2011 – Vai-Vai, em São Paulo, e Beija-Flor de Nilópolis, no Rio – prestaram uma homenagem à música. A música que embala nossa alma, que encanta nossos corações, que festeja nossa tradição e que emociona nossa gente. A Vai-Vai celebrou a superação do maestro João Carlos Martins, que teve de reinventar a vida depois de alguns acidentes, os quais interromperam a vitoriosa carreira de um dos melhores intérpretes de Johann Sebastian Bach no mundo. De pianista a maestro (e maestro de crianças carentes, que têm de suplantar a exclusão social para conseguir um lugar ao sol), João Carlos Martins é um exemplo de solidariedade e de respeito ao próximo.

Já a Beija-Flor homenageou um rei, Roberto Carlos, filho ilustre de Cachoeiro de Itapemirim. Não se pode falar na história da música popular brasileira sem reverenciar esse “amante à moda antiga”… que literalmente “manda flores”.

Assim como o maestro, Roberto Carlos também é um exemplo de superação. Superam aqueles que não desistem diante de dificuldades físicas ou emocionais. O rei numerosas vezes assumiu enfermidades e medos, mas nem por isso abandonou seu reinado.

As escolas de samba têm a capacidade de cantar histórias na avenida, de popularizar pessoas e de reverenciar a nossa gente. Gente. Essa é a matéria-prima do carnaval. Gente que teve de superar o incêndio doloroso que fez sofrer barracões inteiros. Que emoção presenciarmos o talento e a garra da nossa gente brasileira, carnavalesca ou não, que se supera ou tenta superar-se, todos os dias. Essa é a nossa vitória.

Incontinência verbal

Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)

Você conhece alguém que fala mais do que deve? Você fala mais do que deve? Já se arrependeu de ter dito alguma coisa? Pois é, sofremos de incontinência verbal. É antigo o ditado que nos lembra de que temos uma boca e dois ouvidos. Que devemos ouvir mais e falar menos. Mas isso não é fácil.

Dia desses, uma amiga da minha mãe ligou para ela e, ao ouvir as reclamações de que a mão estava formigando e avermelhada, disse que era urgente que fosse ao hospital, que poderia ser algo muito grave, que o pai teve que amputar a mão em situação semelhante. A mesma amiga, em outra ocasião, ao perceber que minha mãe estava esquecida, não se conteve em dizer que provavelmente ela estava com Alzheimer. A amiga não é médica. Errou nos dois diagnósticos, mas conseguiu deixar minha mãe profundamente preocupada. Fez por mal? Certamente não. Incontinência verbal.

Tenho um amigo que não perde o costume de estragar surpresas. “Estão preparando uma festa de aniversário para você.” E prossegue: “Finja que não sabe de nada, só falei para não te deixar preocupado”. Preocupado? Com o quê?

Há aqueles que fazem “fofocas cristãs”. “Eu preciso lhe contar uma coisa muita séria (e aí vem a fofoca), só contei para que você reze por ela.”

Em momentos de briga, fala-se muita coisa desnecessariamente. Lembranças ruins do passado. Acusações bobas. “Nunca me esqueço! Faz 40 anos, mas eu nunca me esqueço de quando você me chamou de burra. Estávamos casados há um ano.” Ou ainda: “Eu o avisei, mais uma namorada que abandona você. Eu disse que as mulheres que o conhecem acabam indo embora. Só falo isso porque sou seu amigo”.

Em uma mesa de conversa, sempre há aquele que ouviu alguma história e sem a menor preocupação com a verdade fala: “Eu ouvi dizer que fulano é caloteiro. Não quero ser injusto, não gosto de fofoca, mas me parece que ele não paga ninguém”.

É atribuído a Sócrates um diálogo em que os seus discípulos vieram falar sobre a vida dos outros e ele perguntou, ensinando: “Vocês já passaram pelos três crivos antes de me contar?” Os crivos são verdade, bondade e necessidade. “É verdade? Vocês têm provas? É bom? Não vão magoar ninguém? É necessário? Tem alguma coisa a ver com a vida de vocês ou com o bem público?” E os discípulos se calaram, e Sócrates voltou a falar de filosofia.

A palavra tem poder. Que esse poder seja usado para fazer o bem. Palavras ditas sem amor podem ferir.

Que tal pensarmos antes de falar? Que tal fazermos a experiência do ouvir mais, para aprender, e falar apenas o necessário, para ensinar?

Coração novo

Por Gabriel Chalita (Revista Canção Nova)

Estamos acostumados aos rituais, às comemorações, às celebrações. Quando um ano se encerra e outro se inicia, celebramos o dia da paz, a confraternização entre os povos. Quando um novo ciclo se inicia, somos convidados a renovar algo em nós. Quem sabe, neste novo ano, possamos ter um coração novo.

O coração é a metáfora dos sentimentos, das intenções. Um coração envelhecido é aquele que desistiu de amar, que não acredita na humanidade e que, consequentemente, se fecha. E é, por isso, solitário. A solidão pela ausência do amor envelhece o coração.

As desculpas para um coração envelhecido recaem nas decepções com as pessoas que amamos. Reclamamos dos erros dos outros, lamentamos as atitudes incorretas dos nossos irmãos e, assim, optamos pelo fechamento. Vivemos condenando nossa triste situação. Pais, filhos, amigos, parece que não há ninguém de valor ao nosso lado. Pensamos como seria bom se eles mudassem, se eles melhorassem.

No ano que passou, vivi momentos de muita emoção. Um deles ao lado do meu querido irmão Dunga. Eu fazia uma pregação em um grupo de oração em Presidente Prudente. Enquanto isso, ele compunha o refrão de uma música. A reflexão era sobre as mudanças que temos de fazer para que nosso irmão seja mais feliz.

E o refrão diz exatamente isso: Quem tem que mudar sou eu para que você seja mais feliz.

Eu escrevi o restante da música que fala em aprendizado, em perdão, em saber ouvir, em lembrar que não há ninguém perfeito. E que, talvez, precisemos do tempo da boa ingenuidade de volta, do sorriso leve, dos sonhos dos primeiros encontros.

O tempo pode ser uma boa escola. A tolerância, o respeito às limitações do outro e às nossas próprias limitações, a bondade no julgar. É uma lição de vida a reflexão de Madre Teresa de Calcutá:

Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las.

Às vezes, os pais exigem dos filhos algo que não podem dar. O inverso é verdadeiro. E na relação entre o casal também. Cada ser é único. E talvez grande parte dos erros, dos equívocos, não sejam intencionais.

Meu irmão, não espere que o outro mude. Mude você. Diga à pessoa que você ama:

Quem tem que mudar sou eu para que você seja mais feliz.

E se precisar, complete com Madre Teresa: não vou perder tempo te julgando, quero gastar esse tempo te amando.

E é esse o convite para o novo ano. A consciência de que a sua família será melhor se você for melhor. Que o seu trabalho será melhor se você for melhor. Que o mundo, esse grande coração que pulsa, será renovado se o seu coração for renovado. Feliz ano novo, feliz coração novo.

O exagero que não educa

Por Gabriel Chalita (Revista Profissão Mestre)

As pessoas mais estudadas ou aquelas que não tiveram oportunidade de muito estudo sabem que o exagero não educa. Pais explicam aos filhos que não exagerem na comida. Faz mal. Que não exagerem no banho. É contra o meio ambiente. Que não exagerem no tempo gasto na internet. Precisamos de relações reais. Não somos máquinas. Que não exagerem nas brincadeiras ou na bebida ou nas baladas e assim por diante. 

Filhos poderiam também dizer aos pais que não exagerem nas cobranças. Criança precisa ser criança. Precisa brincar como criança. Correr como criança. Errar como criança. É um exagero exigir que uma criança tenha agenda lotada com todo o tipo de atividade que, muitas vezes, o pai ou a mãe não conseguiram ter.

O pai obeso quer que o filho seja um atleta e lamenta o fato de o seu pai não ter feito o mesmo com ele. Aulas de judô, tênis, natação, alongamento, yoga, musculação adaptada para criança, entre outros.

A mãe com dificuldade em outro idioma quer que o filho aprenda ao mesmo tempo inglês, espanhol, francês e, se possível, alemão e mandarim. E justifica dizendo que nessa fase há mais facilidade para o aprendizado de outro idioma.

O pai quer que o filho aprenda a tocar um ou mais instrumento musical. A arte é muito importante. Piano e violão são o básico. Quem sabe aprenda esses dois e mais violino e harpa. Harpa é bem interessante.

A mãe acha que para o filho se desinibir desde cedo é bom ter aulas de teatro e canto. Isso ajuda a conviver melhor e a conseguir desenvolver a oratória, tão essencial para os nossos dias.

E com todas essas atividades, é preciso encontrar tempo para terapias, as tradicionais e as alternativas para que os filhos vençam o estresse.

Enquanto isso, os pais brigam exageradamente, trabalham exageradamente, reclamam exageradamente da vida, da sorte, da condição de casado, dos filhos que dão trabalho. E o tempo passa.

O tempo da convivência vai se perdendo em exageros tantos. A infância vira uma fase de preparação para o sucesso, a adolescência também, e a juventude nem se fala. As cobranças vão trazendo uma carga absolutamente desnecessária.

E o lazer? E o entretenimento? E as conversas sem finalidade? E as brincadeiras em família? E a contação de histórias?

Brincar o dia inteiro e não estudar é tão exagerado quanto estudar o dia inteiro e não brincar.

Ficar ao computador ou em frente à televisão o dia inteiro comendo é tão exagerado quanto não sair da academia ou do clube.

É preciso encontrar o tão sonhado meio termo ensinado por Aristóteles. Sem exageros, e com serenidade, as escolhas podem ser decididas conjuntamente. As habilidades vão se desenvolvendo a partir de estudos e de brincadeiras, de cursos e de ócio. Tudo em família.

A vida tem que ser vivida intensamente em cada instante. Não viver o hoje porque o hoje é apenas uma preparação para o amanhã, um amanhã que nem sei se vai existir, é um grande exagero!