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A escola de Francisco de Assis

Hoje, dia 4 de outubro, é dia de São Francisco de Assis.

A melhor forma de lembrar Francisco é matricular-se em sua escola. Na escola do “noivo da dona pobreza”, não há ninguém que seja superior ao outro, por nenhuma razão. Todos devem ser tratados como irmãos. Aliás, além das mulheres e dos homens, Francisco cuidava dos animais com imensa ternura.

Na escola de Francisco, a natureza tem espaço privilegiado. Foi ele, talvez, o primeiro a defender o meio ambiente. Irmã lua, irmão sol, irmã natureza, irmãos rios. Eram irmãos todos os espaços criados por Deus para que pudéssemos ser felizes.

Na escola de Francisco, a felicidade é um dom e uma conquista. É feliz aquele que compreende a lição do amor. E, na lição do amor, residem outras tantas lições: perdão, união, fé, verdade, esperança, alegria, luz. “Onde há amor e sabedoria, não tem temor e nem ignorância.” 

O jovem de Assis nos ilumina para mostrar a nobreza do servir. “É dando que se recebe”, é partilhando que se compreende o valor da convivência, é estendendo a mão que a caminhada fica mais bonita.

Em um mundo habitado pelo egoísmo, pela arrogância e pela perversidade, Francisco nos desconcerta com sua sinfonia do amor. Parece sonho. Talvez seja. Talvez não. Mas quem se matricular na escola de Francisco, certamente, vai viver a experiência da alegria cotidiana. É na simplicidade dos encontros com nossos irmãos que nos encontramos. É na grandeza do serviço que compreendemos a razão pela qual nascemos. “A cortesia é irmã da caridade, que apaga o ódio e fomenta o amor”. 

Fazer o bem independe da religião que se pratica. Fazer o bem é nossa maior vocação. Fazer o bem é o nosso passaporte para a felicidade.  

4 de outubro, fica o convite. Viva o menino revolucionário que entrou para a história fazendo o bem. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 4/10/2013

Wagner Moura, orgulho brasileiro

Wagner Moura fez sua estreia, em Hollywood, mostrando o talento e a competência que vêm marcando sua carreira.

O Olavo da novela “Paraíso Tropical”, o Capitão Nascimento do filme “Tropa de Elite”, o Hamlet da complexa peça de Shakespeare, só para citar alguns, foram personagens cuidadosamente construídos e interpretados. Wagner Moura é inteiro em cada papel que representa.

Para quem acompanha a sua carreira, a performance no primeiro filme americano não causa surpresa. Ele não faria feio. E não fez. Contracena de igual para igual com Matt Damon e Jodie Foster. Ao lado da também talentosa Alice Braga.

O filme “Elysium” se passa em 2154, momento em que a humanidade encontra-se dividida. Os ricos habitam uma luxuosa estação espacial, com mansões, serviços médicos de incrível e avançadíssima tecnologia capazes de curar as mais sérias enfermidades. Já os pobres habitam o planeta Terra, uma multidão de mulheres e homens que carecem de todos os serviços essenciais.

Os pobres tentam de toda maneira chegar a “Elysium”. Uma mãe sonha em ver a filha, vítima de leucemia, curada por uma das máquinas reparadoras presentes em qualquer mansão de “Elysium”. A personagem de Matt Damon também quer se curar de uma terrível radiação. Wagner Moura faz o papel de um líder, um misto de chefe criminoso com revolucionário, que tenta conduzir imigrantes ilegais. Repito, atuação impecável.

O enredo não difere das tantas angústias de conviver em cidades separadas pelo muro da desigualdade. De um lado, os ricos que têm toda a sorte de oportunidades; de outro, os pobres que têm, não raro, os seus talentos desperdiçados.

Vale a pena assistir e refletir. Vale a pena indignar-se. Vale a pena aplaudir o talento de mais um ator brasileiro que não se constrangeu de cruzar fronteiras e de mostrar a nossa arte, a arte brasileira.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/9/2013

A nova vida de Alice

Alice é uma mulher feita, dois filhos, faculdade concluída, emprego e sorriso no rosto. Encontrei Alice após uma palestra que ministrei sobre “Direitos humanos – infância e juventude”. E ela me contou a sua história.

Alice viveu na antiga FEBEM. Foi presa por tráfico. Chegou grávida e sem muita esperança. A mãe mandou avisar que jamais a perdoaria. Alice ficou internada em uma unidade criada especialmente para mulheres grávidas, com berçário e tudo. Ali, resolveu estudar e participou de um projeto que coordenei quando era secretário, que dava emprego e bolsa de estudos para jovens egressos da FEBEM.

Demorou um tempo para reconquistar a mãe. Contou-me de sua emoção quando a viu em sua formatura. O pai da criança, o que fazia com que ela levasse droga, acabou assassinado. Mas Alice casou-se com um rapaz que conheceu na faculdade. Tiveram um filho. E ele cuida do primeiro filho de Alice como se fosse seu. Os dois trabalham. E os dois sabem a importância do exemplo para formar filhos saudáveis, equilibrados.

Cada vez que vejo uma história de superação, fico mais convicto de que precisamos cuidar de verdade das crianças e adolescentes. Prevenir é mais fácil e mais barato do que remediar. Daí a importância de investir em uma educação de qualidade que, como diz o artigo 205 da CF, forme a pessoa, o cidadão e prepare para o mercado de trabalho. Mas, nas vidas errantes, precisamos dar uma segunda chance. E essa segunda chance depende da perspectiva que oferecemos a esses jovens. Se, ao sair da Fundação Casa, o adolescente não tiver nenhuma oportunidade, as chances de ele voltar à rota da criminalidade serão muito maiores.

Esse é um tema que diz respeito a toda sociedade. Precisamos de caminhos mais eficazes para o mal que assola nossa sociedade – violência não se combate com violência, mas com inteligência. No país das maravilhas, Alice dizia, “a única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”. Que a nova vida de Alice seja um exemplo a tantos outros que, por alguma razão, caíram, mas gostariam de se levantar.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 20/9/2013

Oração e ação pela paz

O papa Francisco tem falado com insistência sobre o tema da paz. O mundo merece viver em paz. O papa pediu oração e pediu ação pela paz.

E a Síria merece viver em paz, também. Os conflitos no Oriente Médio não são recentes. Brigas religiosas, econômicas, étnicas mostram feridas abertas de uma região que há muito não sabe o que é conviver em paz.

Há acusações de utilização de armas químicas, há imagens de crianças mortas, de feridos sofrendo em hospitais, de civis amedrontados pelos conflitos, de gente fugindo e se refugiando, onde podem, em situações precárias. E há ameaça de guerra.

Será que esse é o único caminho para solucionar conflitos? O sangue derramado e as vidas roubadas, em tantas outras contendas, não servem de exemplo para buscar alternativas?

Na Síria ou nas esquinas de qualquer canto do mundo, é preciso agir pela paz. A paz se conquista na simplicidade do cotidiano e na complexidade das reflexões sobre o sentido da vida. Há guerras entre famílias mortificadas pela agressão contra mulheres e crianças. Há guerras nas mídias sociais com a virulência de ataques contra pessoas ou grupos por razões tolas. O fato é que não há razão para a violência. A violência é a ausência da razão. Se somos seres de convivência, é nela que aprendemos a coexistir com as diferenças e a entender que é a inteligência nossa arma mais poderosa.

Podemos orar pela paz na Síria, mas podemos agir pela paz em nossas casas e nas nossas relações. É esse o desafio. Os pais são as primeiras referências para seus filhos. Pais violentos geram, com maior facilidade, filhos violentos. É a força do exemplo. Pais que dialogam, que exercitam a maturidade dos afetos, provavelmente, gerarão filhos assim, filhos da paz. É claro que há outras influências como a escola, a mídia, os grupos tantos que convivem com as crianças. Mas a família é, sem dúvida, o espaço privilegiado para que a criança aprenda a discernir o certo do errado, a compreender o que faz bem ou o que faz mal.

Viver em paz não pode ser apenas uma utopia.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 13/9/2013

Violência X inteligência

A violência é o fracasso da inteligência, é a negação do que temos de melhor que é a capacidade de conviver.

O ser humano é um animal social. O nosso desenvolvimento depende do grupo, das teias que vão se formando desde sempre. O filho em formação depende da mãe. A criança recebe influências que vão construindo a sua história. Sem o grupo, nem a linguagem desenvolveríamos. Isso é o básico para dizer que precisamos uns dos outros.

Pois bem, se precisamos uns dos outros, somos limitados. Se somos limitados, cometemos erros. Somos cheios de imperfeições e, também por isso, temos o dever de compreender as imperfeições alheias.

A violência mora na casa da incompreensão. Agride-se o outro porque, de alguma forma, o seu comportamento incomoda. Quando possível, chega-se ao ponto de praticar – em ocasiões diversas – a violência física. Quando não se pode – pela distância talvez, ou pelo conforto do anonimato -, utilizam-se as mídias sociais para violentar o outro. É quase que uma catarse. É preciso ser violento com alguém. É preciso descontar o ódio ou a frustração pelo fracasso tentando destruir o sucesso de alguém.

A inteligência navega em mares bem mais tranquilos. Briga-se por boas causas, com elegância. Discute-se sem querer destruir o interlocutor. Ensina-se com competência e delicadeza. Isso vale para as relações entre casais, entre pais e filhos, entre amigos, entre conhecidos ou desconhecidos. Isso vale para quem não abre mão da inteligência nem da paz.

Octavio Paz, escritor mexicano, dizia que se os líderes lessem poesia, seriam mais sábios. Cada ser humano é um líder. Cada ser humano é protagonista de sua história. Cada ser humano é único e responsável pelo que faz a si e ao outro.

Leiamos, pois, poesia, nos livros e nas pessoas.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 6/9/2013

Educação: missão e vida

Professores são multiplicadores de esperanças, de sonhos e de amanhãs. Trabalham com afinco, rompem obstáculos, lançam-se ao horizonte cientes de que podem ajudar a construí-lo. Acreditam na própria luz e, com ela, iluminam o caminho dos aprendizes, formando uma constelação de brilho intenso. Despertam, em si e nos outros, o prazer do conhecimento.

Mas que missão é essa que propaga o saber e gera ideias? Que missão é essa, cujo objetivo é formar pessoas e cultivar sentimentos, expectativas, desejos e quereres de todos os tamanhos, tipos e gêneros? Que missão é essa de ser, ao mesmo tempo, cúmplice e referencial? A resposta para tais questões pulsa com intensidade no coração de milhões de professores de todo o mundo, missionários da Educação, semeadores de um tempo melhor, mais belo, fraterno e igualitário. Em síntese, é a nobre missão do amor.

Tocar, envolver, mover a alma de crianças e de jovens ávidos por um futuro ainda em gestação… Nisso consiste o ofício gratificante de educar, de preparar as novas gerações, de guiá-las rumo a um novo tempo.

Educar é possibilitar ao outro as condições necessárias para a superação de suas limitações, para a concretização de seus ideais, para a realização de seus sonhos. Educar é criar, impulsionar e capacitar para a vida. É conceder ao outro a aquisição de saberes essenciais para uma existência digna e promissora.

Das milenares histórias de amor aos grandes sucessos tecnológicos dos tempos atuais, há sempre a figura do professor. Essas criaturas são fundamentais, e não importa se ganham a fama e o reconhecimento geral ou se permanecem no anonimato da vida, nos rincões afastados; todas praticam a saudável premissa de acreditar na semeadura e na colheita. Mestres que conduzem seus alunos ao voo infinito e instigante do aprendizado, contribuindo para a formação de gente mais propensa a desenvolver valores fundamentados no amor, no afeto e no respeito.

Do contato com o professor, levam-se, vida adiante, sentimentos carregados de alguma negatividade. No entanto, o número de lembranças positivas é expressivamente maior. Recordações de majestosos exemplos, de instantes vívidos de amizade, de sorrisos encorajadores. Sutilezas. Detalhes que incentivam. Atitudes carimbadas na alma dos aprendizes, acompanhando-os, indelevelmente, por toda a vida. A postura que impressiona. O cordial cumprimento. O olhar de cumplicidade, a roupagem que encanta, o timbre de voz…

É preciso homenagear o professor. E é preciso fazer isso todos os dias. O educador alicerça a alma, antecipa a plenitude, prepara para a vida e para os desafios.

Muitos já discorreram magnificamente sobre a arte de educar, mas, certamente, poucos conseguiram descrever o mágico espetáculo do binômio ensino-aprendizado, como fez a poeta Cecília Meireles. Munida da sensibilidade, do talento e do amor imensos que lhe eram peculiares, a autora mostra-nos toda a beleza existente no verbo “educar”, quando afirma que sua meta, como educadora, é “acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética afetuosa e participante”.

A beleza dessa descrição poética encerra em si um mundo repleto de possibilidades. Só mesmo quem educa e faz dessa palavra a sua vida e a sua missão pode compreendê-la plenamente.

Por Gabriel Chalita (fonte: Revista Profissão Mestre)

 

 

Dom Bosco, pai e mestre da juventude

Em agosto, celebra-se o aniversário de Dom Bosco, fundador dos salesianos e um dos maiores educadores de todos os tempos. 

Desde cedo, João Bosco alimentava o sonho de ser padre para cuidar daqueles que mais precisavam, daqueles que ninguém se dispunha a cuidar.

“Quando crescer, quero ser sacerdote para tomar conta dos meninos. Os meninos são bons; se há meninos maus, é porque não há quem cuide deles.”

Seu conceito de cuidar fez com que ele desenvolvesse um sistema preventivo que considerasse um tripé educacional, para que as crianças tivessem um desenvolvimento saudável. Esse tripé é formado por coração, razão e religião. 

O coração é a certeza de que os alunos precisam se sentir amados para que confiem nos educadores e desenvolvam seu potencial. A razão é a transformação do potencial em ato –  todo aluno tem inteligência para aprender; faltam, infelizmente, condições necessárias para tanto. E a religião é o que nos liga com a fonte da vida, com a razão e com o coração da nossa existência; é o que alimenta nosso compromisso com o outro. Afinal, somos todos irmãos. 

João Bosco enfrentou muitas críticas por sua opção pelos abandonados de afetos, pelos que não tinham condições de sonhar com o futuro.

Ele sonhou e fez. A obra está aí. Os salesianos andam pelo mundo ciosos da responsabilidade de manter viva a chama de seu fundador: educar com alegria e com competência.

Voltemos ao conceito extraordinário de Dom Bosco: “Os meninos são bons; se há meninos maus, é porque não há quem cuide deles”.

Muitas cenas de ódio, de violência, de criminalidade seriam evitadas se cuidássemos para que nenhuma criança fosse deixada de lado. Afinal, a educação é a mais importante política pública, porque, quando funciona, alicerça e melhora as demais. E prevenir é bem mais eficaz do que remediar.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 30/8/2013

A generosidade em cena

Miriam Mehler celebra seus 55 anos de carreira com um espetáculo que une emoção e aprendizado. É a história de Oscar e da senhora Rosa. Ele, um menino de dez anos que passa seus últimos dias de vida em um hospital. Ela, uma voluntária que convence o menino de que é possível, em 12 dias, viver a intensidade de uma vida inteira.

Depois dos conselhos da senhora Rosa, o menino começa a escrever cartas a Deus, que se torna seu amigo próximo. Miriam interpreta o menino, a senhora e outros personagens. O espetáculo é leve. A direção impecável de Tadeu Aguiar leva os espectadores a viverem essa trama que fala da vida, dos medos, das despedidas, da coragem. Tudo isso, sem exageros. Mesclando momentos de risos e de lágrimas. 

O espetáculo pode ser visto no Sesc Pinheiros, em São Paulo, às sextas e aos sábados.

Ir ao teatro já é um grande programa. Prestigiar o artista brasileiro. Ampliar o repertório. Ver e reviver histórias. Permitir que a sensibilidade cumpra seu papel. E ainda aprender. 

Essa peça nos leva a refletir sobre a importância do trabalho voluntário. Em um mundo onde, estranhamente, as pessoas só fazem o que traz alguma vantagem, é educativo lembrar que a felicidade se encontra no servir, no cuidar, no ser útil a alguém. Quando fazemos o bem sem querer nada em troca, nossa vida ganha outro significado. Nossos problemas ficam menores, e nossa convivência, mais rica.

A generosidade em cena, nos palcos ou na vida, é um ingrediente que traz mais sabor ao cotidiano. Há voluntários que se vestem de palhaços para fazer crianças sorrirem em hospitais. Há outros que, em asilos, exercem o delicioso ofício de ouvir as tantas histórias de quem ali vive. Há aqueles que saem de suas casas para cuidar dos que moram nas ruas.  É um exército do bem que não perde tempo com superficialidades. Ao contrário, são pessoas que fazem do tempo uma rica experiência de amor. 

Oscar e a senhora Rosa são um incentivo a mais para a emoção e para a boa ação. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 23/8/2013

A arte de trabalhar com alegria

Trabalhar é sentir-se útil. É ajudar alguém. É melhorar o mundo. E isso é possível em qualquer profissão.

Certa vez, observei, no Mercado Municipal de São Paulo, a alegria de uma mulher que fazia pastéis. Ela tinha consciência de que muitos que ali iam saciavam seu desejo com os quitutes que ela preparava. Ouvi de um motorista de táxi que ele nunca escolheria outra profissão e que, dirigindo, conhecia pessoas e, vez ou outra, conseguia roubar o sorriso de alguém que entrava chateado. Um vendedor de automóveis me contou algumas histórias de realização de sonhos na concessionária em que ele trabalhava. Era bonito demais ver um casal realizando o sonho de ter um carro, o pai comprando um automóvel para o filho, escolhendo, em conjunto, o modelo.

Já ouvi lindas histórias de médicos, de enfermeiros. De pessoas que trabalham para amenizar a dor e o sofrimento alheios.

Convivo com padres e pastores que, ciosos da missão de anunciar o Amor, agradecem a Deus a vocação que professam. 

Professores que trabalham com alegria fazem toda a diferença na vida de seus alunos. Agentes de viagem, cabeleireiros, poetas, músicos, artistas. Mulheres e homens que trabalham em casas de família e que respeitam e são respeitados. 

Como é bom saber que a profissão abraçada pode ser exercida com alegria.

Há, infelizmente, aqueles que optam pela perversidade e aproveitam o poder que têm para fazer mal a alguém. São trabalhadores amargurados, incapazes de conviver com a alegria e com o sucesso alheios. Tristes derrotados da vida. 

Ninguém é feliz destruindo o outro. Quem dá dignidade a uma profissão é quem a exerce com dignidade. O jogador é tão importante quanto o gandula ou o juiz. O diretor da empresa é tão necessário quanto o funcionário da faxina. Arquitetos, engenheiros e pedreiros fazem a obra acontecer.

Que obra boa é poder trabalhar e trabalhar sem prejudicar ninguém. Com alegria.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 16/8/2013

A dor da injustiça

Há algum tempo, escrevi um artigo sobre a dor da injustiça. Uma reflexão a respeito de valores éticos fundamentais para a harmonia nas relações humanas. O tema, no entanto, é atual e válido de ser repensado.

Diariamente, aprendemos e ensinamos. Estamos todos matriculados na escola da vida. E, nessa escola, com humildade, amadurecemos. Basta que prestemos atenção no outro, em sua dor e em sua capacidade de superação. E que prestemos atenção em nós mesmos e na necessidade de sermos justos.

Certa vez, ouvi o depoimento de uma cozinheira acusada de ter furtado uma pulseira de ouro. Entre lágrimas, ela tentava convencer a patroa de que jamais havia cometido aquele delito. A mulher, por sua vez, dizia que as lágrimas eram uma forma de esconder o furto.

Em dado momento, a funcionária não mais insistiu. Na solidão da injustiça, entrou no quarto para arrumar suas coisas. Chorou sua história de dor e de necessidade. Enquanto a patroa afirmava que não a denunciaria desde que ela não a atormentasse na Justiça, entrou a filha pedindo um sanduíche. No pulso esquerdo, a pulseira. Foi quando a funcionária chorou ainda mais. Como dói a injustiça! A patroa, rispidamente, disse a ela que parasse com o choro e voltasse ao trabalho. Fora apenas um mal-entendido. Recomposta, a cozinheira agradeceu e disse que nada mais tinha a fazer naquela casa.

Sem muito alarde, ela saiu e, no dia seguinte, arrumou emprego num restaurante. Tudo aconteceu em um grupo de oração. O padre pediu que as pessoas se cumprimentassem e se apresentassem. A senhora ao lado disse que tinha um restaurante, e ela contou que era cozinheira. Uma nova vida começou. 

Assim como ouvi esse testemunho, ouço muitos outros que servem de inspiração para que aprendamos a ser justos. A história dessa mulher nos ensina a ter mais delicadeza nas relações. É triste sofrer a dor da injustiça. Todos nós erramos, mas, se tomarmos um pouco de cuidado, nosso erro não será tão doloroso ao outro nem a nós mesmos.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo)  | Data: 9/8/2013