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Palavra de mulher

Sensibilidade. Chico Buarque é um compositor que sempre navegou com muita leveza pelo oceano de emoções que é o universo feminino. Em suas letras, as dores, a saudade, o tão desejado amor. Mulher dizendo sobre o seu amor e brigando por ele. Mãe embalando filho que já partiu. Uma desatenção aqui e o basta, logo depois, “gota d’água”. Um amor que chega como quem chega do nada e que arromba as portas que trancafiavam a entrega. Entregar-se para viver de amor. É assim que é. Mulheres em busca de vida, ávidas pela intensidade de encontros que permaneçam. Outras fazem da profissão um descarte. Que, aqueles que chegam, ouçam um “sim” e depois partam. Será? Palavras, mesmo ditas em comoção poética, nem sempre revelam o que queremos.

“Palavra de mulher” é um lindo espetáculo que revive as almas femininas delineadas nas canções de Chico Buarque de Hollanda. Direção impecável de Fernando Cardoso, embalada pela suavidade das vozes das cantoras. O cenário nos remete a um cabaré. Espaço em que encontros e desencontros guardam histórias. Entre um olhar e outro, um dançar e um aguardar, a expectativa de ser e de estar. Ser amado por estar com alguém que se importe.

Virgínia Rosa, Lucinha Lins e Tânia Alves vestem bem o figurino. Cantam lindamente. Falam, cantando, de quanto há para ser dito para homens e mulheres que não temem a sensibilidade.

Em tempos de tanta pressa, vale a pena parar e ouvir. E cantar as canções que nos dizem sobre o que verdadeiramente importa na vida. A pressa, por vezes, nos rouba momentos preciosos que nos dão significado.

Afinal, a matéria-prima de que fomos feito é o amor.  E compreender:

                           “Que o amor não é um vício


                                 O amor é sacrifício

                                 
O amor é sacerdócio


                                          Amar

                                  
É iluminar a dor

                              
- como um missionário”.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/2/2014
 

Aprendendo com as crianças

Erra quem imagina que uma criança é uma tábula rasa ou um depositório de verdades construídas pelos adultos. Erra quem julga que uma criança pouco entende. E erra, mais ainda, quem pensa que uma criança nada tem para ensinar.

A criança recebe dos adultos uma série de informações, por isso os afetos, a atenção, os estímulos são tão importantes. Entretanto, esse fluxo de informações vai ganhando significado, a partir das reações que as crianças vão tendo com o mundo.

Um vídeo, publicado no Youtube há alguns meses, já chegou a mais de 3 milhões de visualizações e exemplifica, com propriedade, esse conceito. O garotinho Luiz Antônio, de apenas 4 anos, diz à mãe que não quer que matem os animais. Que precisamos protegê-los. A conversa começa de forma simples, com a mãe falando sobre o nhoque, o arroz e o polvo. A criança quer saber se o polvo que está em seu prato morreu. O vídeo é muito singelo e significativo.

Sem entrar em detalhes sobre a crueldade contra os animais, há algo profundamente relevante que nos deve servir de ensinamento. Por que, com o tempo, vamos perdendo a sensibilidade da infância, vamos perdendo a capacidade de indignação diante do erro, vamos nos acostumando com o malfeito?

Se não tivermos sensibilidade com os animais, não teremos com os nossos irmãos. E é isso o que vem acontecendo. As misérias humanas não nos surpreendem mais. Acostumamo-nos com a maldade, com a mentira, com a injustiça, o que é triste e demonstra que estamos negando nossa própria essência. 

Valores como generosidade, companheirismo, respeito e compaixão é que nos trazem a felicidade. Por que falamos tão pouco sobre eles? Por que nos vestimos de arrogância e saímos a julgar os outros ou, simplesmente, a desprezar aqueles que não nos interessam?

Voltemos à criança. À beleza de ter um mundo de esperança. De confiar. De revelar os sentimentos. De chorar e rir sem o incômodo das máscaras.

Acerta quem quer permanecer com os bons sentimentos de uma criança. Que a inocência, apesar das dores e dos anos vividos, não nos abandone. 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/2/2014

Os acordes da justiça e a canção do povo

Nesta semana, tomou posse o novo presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, desembargador José Renato Nalini.

A cerimônia foi na Sala São Paulo. O mundo jurídico se fez presente para ouvir não os longos discursos, comuns no judiciário, mas uma orquestra sinfônica. Disse o presidente, em memorável pronunciamento, que a música deveria servir de inspiração às mulheres e aos homens que dedicam sua vida à justiça.

Nalini é um poeta, um homem das letras e um dos maiores pensadores do direito no Brasil. Começou inovando, ao clamar aos seus irmãos de ofício, que ouçam a canção do povo. Do povo que ainda acredita na justiça, do povo que tem rosto, que tem nome, que tem dor, que quer ser tratado com dignidade. O povo que quer ter a certeza de que as decisões serão corretas, afinal, isso é a justiça. A arte da harmonia. A harmonia que exige afinação dos instrumentos para que a música cumpra o seu papel.

Juízes são instrumentos dessa orquestra, responsáveis pela beleza do que acalenta  é essa a finalidade da justiça, pacificar os homens na certeza de que se restabeleceu o correto, de que se buscou a verdade, de que ninguém pode levar vantagem sobre seu irmão.

Se a justiça é lenta, é preciso buscar alternativas para acertar o compasso. Se obedece a vozes estranhas, é preciso calar os que tentam usurpar da correta melodia. Se há ritmos diferentes para as mesmas situações, é bom observar e corrigir.

Aristóteles dizia que a justiça é a excelência moral perfeita. Acima dela, só a amizade. Porque é condição primeira da amizade que os amigos sejam justos. Não se pode ser justo consigo mesmo e injusto com o outro.

O juiz não é um ser vazio de afetos. Ao contrário. É ele que afetiva e efetivamente enxerga a dor e o sofrimento dos que clamam por justiça. Um bom juiz tem o poder de pacificar, de acolher, de decidir com correção o destino de muita gente.

Ao novo presidente do tribunal e ao conselho superior da magistratura, nosso respeito e admiração. Que a canção do povo torne os acordes da justiça ainda mais harmoniosos.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 7/2/2014

Os afetos necessários na sala de aula

A escola é um local privilegiado de desenvolvimento da habilidade cognitiva, isto é, da inteligência, da capacidade de compreender e de resolver problemas.

Os alunos vão à escola para aprender. Isso é um fato. Português, matemática, história, geografia, artes, etc. Mas há algo fundamental que dá vida e significado a esse aprendizado. Os alunos não são máquinas em que se programam conteúdos e eles vão repetindo. Os alunos são pessoas, carentes de atenção, de cuidado, de vínculo.

Lembro-me de uma professora que me deu aula, no antigo primário, numa escola estadual. Quando voltamos das férias e as aulas se reiniciaram, ela entrou na sala e nos disse que havia sentido muito a nossa falta. Que estava muito feliz, naquele dia, porque estávamos juntos novamente. Esse sentimento nos envolvia, era, no subtexto, algo dizendo que éramos muito importantes para ela, para o exercício do seu ofício, para sua vida.

Outra vez, fui eu, como professor, que, ouvindo a conversa entre duas alunas, percebi que uma falava sobre um problema de saúde de sua mãe. Na semana seguinte, perguntei se a mãe havia melhorado. Um dia desses, encontrei essa ex-aluna, de tantos anos atrás. Ela se lembrou dessa história (eu não me lembrava) e disse que nunca se esqueceu de um professor que se preocupara com a saúde de sua mãe.

Há algo essencial que nós, professores, temos que ter em mente: o imenso poder de construir ou de destruir os sonhos de nossos alunos. Somos seus referenciais. É preciso que nossa postura de competência, de seriedade, seja iluminada com os afetos necessários nas salas de aula. A atenção, o olhar, o respeito. Sei que há muitos problemas de disciplina, de apatia, vindos – muitas vezes – de famílias que não fazem sua parte na educação de seus filhos. Mas, mesmo diante das dificuldades, podemos realizar, com dignidade, a profissão que abraçamos.

Que nesse início de ano letivo, nós, professores, nos lembremos da nossa aspiração de cuidar das pessoas, abrindo a elas as janelas das oportunidades. Afinal, a educação é o passaporte para a liberdade.

Façamos a nossa parte, com competência, com afeto.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/1/2014

Uma nova chance

A lei existe para ser cumprida. Existe para que a justiça seja feita. E a justiça é o caminho para o bem-viver, para a pacificação das pessoas, para a felicidade – ensinava Aristóteles.

Quando alguém descumpre a lei, deve, segundo a própria lei, responder pelos seus atos. A pena mais grave é a prisão, pois no Brasil não há penas corporais nem pena de morte. Com a prisão, o cidadão perde parte de seus direitos. Como o de ir e vir. Mas não perde, ou não deveria perder, o elemento central de nossa lei maior, a Constituição Federal, que é a dignidade.

Recente relatório da Organização Não-Governamental Human Rights Watch, apontou problemas crônicos nas delegacias e nos presídios do Brasil. Temos, hoje, mais de 500 mil presos que vivem em situação degradante. Superlotação, falta de assistência médica, ausência de atividades educativas, culturais, entre outras. 

Outro grave problema apontado é a barbárie da tortura. Espancamentos e mortes de presos são inadmissíveis. Essa crueldade não combina com a nossa legislação tampouco com a postura que os direitos internacionais vêm assumindo na defesa de um mundo que acredite na força dos acordos internacionais para exigir que os Estados respeitem suas próprias leis e os tratados dos quais são signatários.

Nossa legislação se preocupa com o processo de reeducação do detento, sua reinserção na sociedade e sua recuperação, de fato, para que possa ter uma nova chance. Assim prevê a lei. Por que não cumpri-la? Será que, com todo o dinheiro que se gasta com as penitenciárias, não nos falta competência e criatividade para desenvolver um novo sistema em que o preso cumpra a pena com dignidade? Que estude, trabalhe e não fique na ociosidade. E se prepare para viver novamente na sociedade.

É preciso um pacto entre os governos federal e estaduais para enfrentar, com coragem, a situação dos presídios no Brasil. Não dá para fingir que não há superlotação, que não há maus tratos, que não há tortura. Só se muda uma realidade quando se é capaz de enxergá-la. E, nesse caso, além do problema, enxergar quem errou como alguém que pode ter uma nova chance.

É assim que reza a constituição. É assim que determinam as leis. Basta cumprir.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/01/2014

O Papa e a defesa da vida

O Papa Francisco fez um contundente apelo em defesa da vida. Falou sobre o aborto, o “horror das crianças que nunca poderão ver a luz”. O aborto é um ato criminoso. E de covardia a um ser, em gestação, que, frágil, não tem direito a defesa.

O aborto é um “descarte de ser humano”. Assim como é o tráfico humano, pessoas que vendem pessoas, órgãos comercializados como se algumas vidas tivessem mais importância que outras.

Lembrou o Papa, também, o descarte dos idosos. Usou um conceito de Thomas More. Os idosos e os jovens precisam conviver. “Os idosos trazem a sabedoria, enquanto os jovens nos abrem ao futuro, impedindo de nos fecharmos em nós mesmos”.

Descartar pessoas é desvalorizar a vida. “Jogar fora” uma criança em gestação é tão grave quanto jogar fora um idoso ou um doente. É triste ver idosos abandonados pela própria família. Pais que criaram filhos, que estiveram presentes na chegada dos netos e, de repente, viraram um incômodo. Então, a sociedade do descartável arruma um asilo e, vez ou outra, para aliviar o peso da consciência, faz uma visita.

Triste sociedade que não cultiva o amor nem na família. Tantas histórias, que poderiam se enlaçar para fortalecer a vida e dignificar os encontros necessários da convivência, descartadas por falta de tempo ou de vontade ou de amor.

Não nos cabe julgar as escolhas, mas, sim, fazer esta reflexão iluminados pelo Papa. Por que descartamos pessoas? Infelizmente, é mais fácil descartar mãe, pai ou avós do que um carro ou um apartamento. Ouvi de uma senhora que, para a mãe morar com ela, era preciso mudar de apartamento. O dela já estava todo montado. Um quarto se  transformara em escritório; o outro, em sala de TV. Logo, não cabia a mãe. Então, o melhor a fazer era descartá-la. Evidentemente, ela usou outras palavras: ”a mãe ficaria mais feliz, pois teria o canto dela”. Ora, perdoem-me, mas mãe não foi feita para ser jogada em um canto.

Eis o canto da ingratidão. De quem não consegue cultivar o passado para dele se alimentar, de quem não permite perdoar os erros e prosseguir juntos. Pais erraram, certamente. Filhos, também. Somos todos errantes caminhando pela vida. Talvez uma das razões da doença dos nossos tempos, a depressão, seja a ausência de laços significativos. Quem descarta não cultiva. Quem não cultiva não dignifica a própria vida. Mais uma vez, o Papa, com simplicidade e sabedoria, nos ensina.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/1/2014

Compaixão

Há palavras que nos trazem significados tão essenciais que é preciso, vez ou outra, usar um pouco de nosso tempo para refletir sobre elas. Compaixão é uma dessas palavras. Compaixão significa “sofrer com”. É a capacidade que tem uma pessoa de sofrer com a outra. De se colocar no lugar da outra, consciente de que fazemos parte do mesmo barro, da mesma espécie, da mesma humanidade.

Compaixão não se confunde com pena. Quem tem pena olha de cima para baixo. Quem tem compaixão senta junto. A pena é passiva. A compaixão, não. Ela requer atitude frente ao sofrimento do outro. Uma atitude que vise a minimizar a dor alheia. Para isso, é preciso sensibilidade e generosidade. Há exemplos por todos os lados: gente que sai a cuidar de quem precisa, que usa parte de seu tempo para ajudar os outros a encontrar significado para a própria vida.

Em trabalhos voluntários, é comum ver pessoas se emocionando com a capacidade que tiveram de roubar o sorriso de uma criança que sofre com câncer, de um idoso que não recebia visitas no asilo, de uma mãe que não sabia como cuidar de seu filho e assim por diante. Mas há um desafio que vai além. Usar a compaixão no dia a dia. Em qualquer profissão. Uma palavra, um gesto, uma preocupação do taxista e o passageiro sente-se cuidado. Um sorriso do motorista de ônibus, a paciência com aquele idoso que demora um pouco mais para subir. Um enfermeiro que usa as palavras corretas para que sua profissão não caia na rotina e ele continue enxergando o outro. Um professor que sabe do poder que tem de ajudar os seus alunos a serem protagonistas da própria história, superando dificuldades e seguindo adiante.

Podemos falar de compaixão, também, na família. Um pai que sofre com o sofrimento do filho. Um filho que sofre com o sofrimento do pai. Companheiros que se enxergam e, enxergando-se, sabem que podem amenizar a dor.

Em uma sociedade tão apressada, com relações tão egoístas, desperdiçamos o poder do “enlaçar as mãos”, do sentir, do alimentar de afeto. Mas dá tempo de mudar. O convite é viver compreendendo o sofrimento do outro, ajudando-o e nutrindo-o de esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/1/2014

O sabor da amizade

Quando um ano finda, muitas pessoas gostam de limpar as gavetas. De jogar fora documentos que não mais terão utilidade. Papéis desnecessários.

Há os que arrumam o guarda-roupa. E tiram as roupas que já não servem ou que servem, mas podem servir melhor a outras pessoas que têm menos. Como é bom ser solidário.

Alguns guardam agendas antigas como memória de conquistas e de aborrecimentos. Outros as descartam. Há aqueles que fazem uma limpeza no computador. Programas que não são utilizados e que só ocupam espaço. É sempre bom deixar um lugar para o novo.

Descartar coisas nos faz muito bem. Descartar pessoas, não.

Evidentemente, há algumas que nos pesam e que nunca foram nossas amigas. Surgem para dar notícia ruim. E saem para fazer comentários piores ainda. Essas não contam. Aliás, é bíblica a reflexão de que “são belos os pés do mensageiro que anuncia a boa nova, a boa notícia”. E sempre há uma boa notícia a ser dada, é só ter boas intenções.

Os amigos, os que nos acolhem em qualquer situação, os que dão sabor ao cotidiano, esses não podem ser descartados, sob pena de ficar faltando algo essencial em nossa jornada.

Há contratempos que surgem, pequenas desavenças. Faz parte. Até porque nunca encontraremos um amigo perfeito. E a razão é simples. Não há ninguém perfeito. Nem nós. Os nossos amigos também terão que conviver com os nossos estranhamentos, as nossas manias. Mas é melhor assim do que prosseguir sozinhos.

A amizade tem um sabor especial. Um alimento que faz bem, que nos fortalece, que nos dá significado. É o amor que dá significado à vida. Saber que somos esperados não por aquilo que temos, mas pelo que somos. Porque rimos e choramos. Porque nos cansamos e nos revigoramos. Porque a nossa prosa faz a vida de alguém mais poética. Porque as nossas histórias alimentam outras histórias que nos alimentam também.

Guimarães dizia que  “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. É disso que falo, da travessia fascinante que é a vida, e dos afetos que a tornam mais saborosa.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 3/1/2014

Reinaugurando a vida

O que muda quando muda o ano? O que festejamos? Por que nos reunimos para esperar o momento exato de um novo ano?

Há aqueles que oram, agradecendo a Deus e pedindo bênçãos. Há os que pulam ondas. Há os que oferecem ao mar. Há os que escrevem os desejos em algum papel para que tudo seja diferente. E há os fogos de artifício avisando que mais um ano se foi, enquanto o outro chega. E champagne. E música. E abraços. E a obrigatória demonstração da alegria.

O que muda quando muda o ano?

Depende. Depende da nossa capacidade de reinaugurar a vida. Deixar o velho, o que nos aprisiona, o que nos diminui e nos apropriarmos do novo. Fazer valer o poder que temos de prosseguir. Os problemas, as dores, as ausências continuarão em todos os anos, mas a postura diante deles é que pode ser diferente.

Há sempre uma janela de possibilidade para aquele que não se esconde, para aquele que não se acovarda.

Os rituais fazem parte da vida. Gostamos de celebrar os ciclos, as mudanças. Mas a mudança maior tem que ser interna. No lugar onde moram os pensamentos e as intenções. No lugar em que as emoções chegam a doer e, paradoxalmente, são capazes de nos dar os maiores prazeres.

O que muda quando muda o ano?

Para quem crê em Deus, no homem e na vida, muda o calendário e permanece a esperança.

Esperar do outro e de si mesmo. Esperar não como passividade, mas como virtude. Esperar, agindo. E que a ação nasça da decisão de fazer o bem. Sem concessões. De celebrar a vida, respeitando o outro. De converter a violência em paz. A intolerância em amor. De dentro para fora.

Já ensinava o poeta Drummond: “Para ganhar um Ano Novo / que mereça este nome, / você, meu caro, tem de merecê-lo, / tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, / mas tente, experimente, consciente. / É dentro de você que o Ano Novo / cochila e espera desde sempre.”

Que o ano novo mude, então. Que as notícias tragam estampada a solidariedade. E que as utopias nos frequentem um pouco mais. Feliz 2014!

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/12/2013

Em defesa do professor

Neste ano de 2013, tive a satisfação de presidir a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. Nosso trabalho foi intenso. Criamos, debatemos e aprovamos medidas de capital importância rumo à qualidade da educação. E colocamos essa causa acima de qualquer coloração partidária. Para finalizar essa etapa, redigimos um manifesto em defesa da valorização salarial do professor. Esse documento requer o pleno cumprimento da Lei do Piso Salarial. O salário mínimo fixado ainda não é suficiente, mas é um passo significativo para o alcance de uma remuneração condizente com a responsabilidade de educar.

 

A educação é o bem mais precioso que uma nação pode oferecer aos seus filhos. E para se fazer um país grandioso, é preciso ter um povo educado. Nesse cenário, está o professor, agente crucial nesse processo. Não se faz educação sem professor. Por mais modernos que sejam os aparatos tecnológicos a profetizar evoluções fantásticas, nenhum deles é capaz de substituir a ação humana do educador, que dá afeto, transluz emoção e vibra com a conquista de cada aluno.

Professores são multiplicadores de esperanças, de sonhos e de amanhãs. Trabalham com afinco, rompem obstáculos e iluminam o caminho dos aprendizes. Despertam, em si e nos outros, o prazer do conhecimento.

No entanto, são carentes de devida valorização profissional. Impõe-se, com urgência, um exercício diário de toda a sociedade no reconhecimento de seu valor e na conquista de um salário que corresponda à complexidade e à nobreza de seu ofício.

Valorizar os profissionais da educação compreende, é certo, outros aspectos: formação inicial e continuada, reestruturação da jornada de trabalho e condições adequadas ao exercício docente. Mas já não podemos negligenciar a questão salarial, sob pena de aprofundarmos o desinteresse dos jovens pelos cursos de licenciatura e de fomentar a evasão de profissionais, desesperançados com a carreira.

Nada se sobrepõe, em importância, à causa da educação. É preciso dar destaque ao professor, elevá-lo à posição imperiosa no amadurecimento da nação. Os desafios são imensos, urge obstinação para enfrentá-los.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 20/12/2013