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A perversidade do maldizer

São João Vianney foi um sacerdote do século XVIII conhecido por sua imensa capacidade de ouvir. Pessoas vinham, de todo lugar, ao seu confessionário para falar sobre seus problemas e receber uma palavra de sabedoria e acolhimento.

Conta-se que, certa vez, uma senhora lhe confessou que havia falado mal de sua vizinha. O padre aconselhou-a: “Pegue uma galinha, mate-a e retire todas as penas. Depois, jogue-as de um lugar bem alto”. A mulher obedeceu e voltou à igreja para lhe contar o feito. Foi, então, que o padre lhe disse para que lá voltasse e recolhesse todas as penas. Obviamente, viu que isso era impossível. E assim é a maledicência: uma vez espalhada, não tem volta. E o mal estará feito.

Dois fatos recentes remeteram-me à história de S. João Vianney: o linchamento atroz de uma mulher e a morte de um dos donos da Escola Base. Até onde vai a perversidade humana! As penas espalhadas por pessoas irresponsáveis ceifaram histórias, futuros e vidas. De um lado, a selvageria descabida e infundada que vitimou a mãe de duas meninas, mulher de família humilde, filha de um homem simples que, em sua sabedoria, resumiu a sua dor: “falta amor no coração das pessoas”.

De outro lado, o célebre caso de injustiça difamatória contra os donos da Escola Base, ocorrido em 1994. Duas mães espalharam a notícia de que as filhas sofriam abusos sexuais na escola. A mídia, sem cuidado e disposta a usar o poder da destruição, fez o desserviço. O casal proprietário foi preso; e a escola, fechada. Como a verdade apareceu, foram inocentados. Mas o que lhes restou? A escola e a residência do casal foram depredadas, suas vidas esfaceladas: a mulher morreu de câncer e o homem sofreu dois infartos. No último, veio a falecer.

Que poder é este de destruir biografias que algumas pessoas julgam ter? De difamar pessoas injustamente? De brincar com o futuro de seres humanos? Que perversidade é esta que sufoca o amor que todos deveriam trazer no coração? E que atropela a razão e as leis humanas?

É hora de construirmos muralhas contra esse mal! É dever de todo homem dosar suas palavras, ponderar sobre a responsabilidade e o peso da palavra dita. Pena que se espalha. Flecha lançada.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 16/5/2014 

A melhor profissão

Ontem, foi dia do trabalho. Dia em que se comemoram as conquistas dos trabalhadores.


Trabalhar é transformar. A nós mesmos e aos universos com os quais convivemos. Trabalhar é participar da responsável tarefa de construir o mundo.
 Há muitas profissões. Algumas mais conhecidas; outras, menos. Há aquelas que exigem graduação, mestrado, doutorado. Há outras que não. Há algumas em que se percebe, de imediato, o benefício para a sociedade. Outras, somente se refletirmos muito.


E qual a melhor profissão? Qual a mais importante? Qual a que mais contribui para um mundo melhor?


Lembro-me que minha mãe queria que eu fosse médico. “Um médico”, dizia ela, “melhora a vida das pessoas”. Eu decidi ser professor. Um professor também melhora a vida das pessoas. Um policial. Um engenheiro. Um taxista. Um juiz. Um comerciante. Um enfermeiro. Um artista. Um escritor. Em cada uma dessas e de outras tantas ocupações, temos o poder de melhorar o mundo. Às vezes, os pais se preocupam, demasiadamente, e resolvem decidir qual a melhor profissão para os filhos. Têm os pais o poder e o dever da conversa, dos esclarecimentos, das orientações. Mas o poder da decisão compete a quem há de executar a tarefa. E deve fazê-la com amor e com respeito.


Em todas as profissões, encontramos profissionais que prezam pelas escolhas e escolhem fazer o que é correto. E, em todas elas, deparamo-nos com os que fazem da profissão um tormento para si mesmo e para a sociedade. Imaginem o poder de destruição que tem um jornalista corrupto, um administrador insensível, um promotor de justiça injusto, um motorista irresponsável!


Na arte do trabalho, os artistas precisam estar afinados com suas escolhas e com sua vivência cotidiana. Não existe profissão mais digna ou menos digna. Quem dá dignidade a uma profissão é quem a exerce. Com zelo, com responsabilidade, com consciência de que seu papel no espetáculo da vida é tão importante quanto qualquer outro. Nem mais. Nem menos.


Viva o trabalhador. Viva as mulheres e os homens comprometidos com um mundo melhor.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 2/5/2014

Liberdade

Há um poema de Cecília Meireles, no Romanceiro da Inconfidência, que diz: “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

Nascemos para a liberdade, mas permitimos, conscientes ou não, que correntes nos aprisionem. Correntes do preconceito, do medo, das escolhas erradas. Correntes do amor sem amor, da ausência de ideais, da vida sem vida.

No próximo dia 21 de abril, lembramos de Tiradentes e, com ele, dos inconfidentes. Homens que ousaram sonhar com a liberdade. Com uma nação em que cada um fosse respeitado. Com um Brasil para todos os brasileiros. Foram descobertos. Sofreram os horrores da tortura e da morte. Mas o ideal permaneceu. Não escolheram uma vida apática. Escolheram um tema para viver. O tema da liberdade.

Hoje, celebra-se a paixão de Cristo. Sua morte como uma prova de um amor pleno para que, no seu sacrifício, recuperássemos a capacidade de amar. Ele pediu ao Pai: “Se for possível, afaste de mim esse cálice (esse sofrimento), mas que seja feita a Tua vontade”. Ele sofreu a dor do abandono. Além de ter sido traído por um de seus discípulos, foi abandonado pelos outros. Mesmo Pedro chega a negá-lo três vezes antes do galo cantar.

Mas Jesus fez o que fez por amor. E a morte não foi capaz de vencê-lo. No domingo de Páscoa, celebra-se a ressurreição de Cristo. Páscoa significa passagem. Passagem da morte para a vida, passagem da escravidão para a liberdade.

Que esses mistérios sagrados nos ajudem a ter atitudes de quem, mesmo não sabendo explicar a liberdade, não deixa de entendê-la. E de lutar por ela.

A luta é o motor da vida. É o combustível da juventude. Envelhece quem não tem um projeto, um sonho. Envelhece quem se deixa diminuir pelos preconceitos e pelos ódios tantos que vão se acumulando.

Quem quer, de fato, ser livre precisa compreender as lições do Amor, as lições do amar.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 18/4/2014

Algumas linhas sobre o perdão

Perdoar é dar oportunidade para si mesmo de seguir adiante.

Perdoar é, mesmo diante da lembrança da dor causada, compreender a cicatriz. Não é esquecer. Não temos esse controle sobre nossa memória. Mas é deixar a dor partir.

Não perdoar é condenar-se a carregar o passado nas costas, como um peso que impede a dádiva do recomeço. Não perdoar é não vislumbrar futuros. É escolher o sofrimento. É negar a si mesmo as novas possibilidades. É desprezar a graça do momento presente que nada mais é do que um presente que recebemos todos os dias.

E perdoar não é fácil. Sabemos disso. Na sociedade competitiva em que vivemos, parece que o perdão demonstra fraqueza. Os fortes se vingam. Acabam com o outro. É assim nas lutas. Ganha o mais forte. O outro é o perdedor. É assim nas histórias de supostos vencedores que se gabam ao falar que enganaram, que destruíram, que venceram.

O que é vencer? Destruir o outro é vencer? Passar a vida aquinhoando migalhas de destruição alheia é vencer? Provar que é o mais forte é vencer?

Há formas estranhas de enxergar a trajetória da vida. Talvez tenha faltado educação. Talvez tenham faltado bons exemplos. 

Uma mente atormentada em busca de vitória ou de vingança ou de poder não pode ser considerada uma mente vencedora. Não é para isso que nascemos.

A vida ganha um sentido todo especial quando conseguimos usufruir seus mais modestos momentos. Do dia a dia, das relações de afeto na família, no trabalho, entre os amigos. Simples assim, como diria Mario Quintana, “como a água bebida na concha da mão”. 

Na simplicidade da vida, deparamo-nos com pessoas que, por alguma razão, voluntária ou involuntariamente, nos decepcionaram. Ou tramaram contra nós. Ou traíram a nossa confiança. O que fazer? Vingar-se? Desconfiar de todas as outras amizades que surgirão? Bobagem. A vida é curta demais para ser desperdiçada com o que não nos faz bem.

Façamos o bem. Sem concessões.

Essa é uma forma bonita de olhar para frente e viver. E seguir adiante. De cabeça erguida. Vitorioso.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 11/4/2014

São José de Anchieta

Mais um santo. O que isso significa? Mais alguém para nos inspirar a fazer o correto, a viver uma vida digna, baseada no amor – valor maior do cristianismo.

Padre José de Anchieta, canonizado pelo papa Francisco, é um exemplo que merece ser mais conhecido. É um santo que marcou a cidade de São Paulo e o nosso país.

Espanhol, veio para o Brasil, aos 19 anos, para ser missionário no “novo mundo”. Esteve com padre Manuel da Nóbrega na celebração da missa que deu origem à fundação da cidade de São Paulo.

Ensinou os indígenas e aprendeu com eles. Escreveu a primeira gramática da língua tupi, consagrando o idioma dos nativos. Foi educador, literato, pregador, amigo fiel. Ao lado do padre Nóbrega, lutou pela paz entre os portugueses e os indígenas. Chegou a se entregar como refém vivendo durante meses entre os índios. Nessa ocasião, sem pena e sem papel, escreveu cerca de 5000 versos na areia – uma oração de louvor à Virgem Maria. Decorou um a um.

Tinha alma de poeta, usava seus versos para encantar e educar o povo indígena. Com amor. Com respeito. Defendia os índios dos exageros dos colonizadores. Ensinava-os de todas as formas para envolvê-los. Mestre de muitas artes, despertava nos índios a beleza da pintura, do teatro, da música, da poesia, da fé.

Gostava da natureza. Foi considerado um dos primeiros antropólogos e naturalistas do Brasil. E gostava, sobretudo, das pessoas. Iniciou, dentre tantas outras iniciativas de amor ao próximo, a construção da Santa Casa de Misericórdia, do Rio de Janeiro, preocupado com os doentes, principalmente os mais pobres. Percorria distâncias enormes para visitar os enfermos. Era esta a sua missão, amenizar a dor, o sofrimento, com uma palavra, um gesto de amor.

São José de Anchieta, “o apóstolo dos índios e do Brasil”, é um sinal de bondade, um exemplo para nos iluminar. Um obreiro do amor e da fé. Venerar um santo é inspirar-se em sua vida para ser melhor. Rezar, conversando com um santo, é pedir sua intercessão junto a Deus, Autor da Vida, Essência Primeira do Amor.

Mais um santo? Isso significa que, apesar das perversidades tantas a que assistimos, devemos continuar a ter esperanças e a fazer o bem. Esse é o caminho

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 4/4/2014

Uma verdadeira lição de amor

Há alguns dias, o Brasil se despediu, com dor, de um de seus mais notáveis atores e homens de bem, Paulo Goulart. Por todo lado, a tristeza de não se poder mais desfrutar de sua presença nos palcos e na televisão. Foi como se perdêssemos alguém de nossa própria família. E Paulo não deixava de nos ser tão familiar. Sempre. Ele partiu, mas ficaram seus exemplos de simplicidade, de amor, de humanidade e a arte de seus personagens memoráveis.

Paulo nos deu grande lição de amor. Até o último instante. E foram 62 anos de muito amor. Paulo e Nicete. Que difícil a missão da despedida! Cada um sabe o quanto é penoso o momento de dizer adeus a um ente querido. E ter de dizer adeus por amor. Nicete o fez. Com força. Despediu-se, serenamente, das emoções terrenas, prometendo a Paulo a perenidade do reencontro: “Vá em paz! Nosso amor é eterno”.

Conheceram-se muito jovens. Vieram ambos, de diferentes caminhos, com muita paixão. Pelo teatro. Pela arte de representar. Estrearam juntos. Nasciam para o palco. Nasciam para viver um grande amor. Companheirismo, cumplicidade, respeito, admiração, os mesmos valores, o mesmo momento de vida. Ingredientes presentes e bem dosados ao longo de seis décadas de convívio. “Estou te namorando”, Paulo dizia sempre a Nicete. E ela só pensava em agradá-lo: “Nunca apareci desarrumada para ele. Nenhum bobe no cabelo. Nenhum creme na cara”. Mantiveram o encantamento da estreia. Uma flor inesperada, um bilhete escondido, um sorriso apaixonado. Souberam cultivar e fortalecer os laços. Semearam os afetos e tiveram o cuidado de esperar o tempo da colheita. E os frutos: Beth Goulart, Bárbara Bruno e Paulo Goulart Filho. A família era a grande paixão de Paulo. No momento de ir, todos estavam juntos. Tristes, mas serenos. Exatamente como ele gostaria que fosse, confessa a atriz. Uma lição de amor. De vida.

Nesses tempos de banalização da vida, de relações descartáveis, de fragilidade dos vínculos humanos, um amor assim, intenso, verdadeiro, que transcende o mundo físico, chama-nos a atenção. Tempos de amores líquidos, nas palavras do sociólogo Bauman. Aprendemos, certamente, com essa lição de amor. Com a história de Paulo e Nicete. Uma história que cada vez mais nos falta.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/3/2014

Sonhar é preciso

O educador Paulo Freire, em seu exílio no Chile, em 1964, escreveu: Cheguei ao Chile de corpo inteiro. Paixão, saudade, tristeza, esperança, desejo, sonhos rasgados, mas não desfeitos, […] vontade de viver e de amar. Esperança, sobretudo.  

Freire tinha o sonho de uma educação para a libertação dos oprimidos, que tornasse a realidade mais humana e permitisse aos homens que fossem protagonistas de sua própria história. Visto como subversivo pelo regime militar, foi preso e forçado a deixar o país. Lutou a vida toda pela causa da educação, mesmo quando as circunstâncias tentaram lhe roubar o sonho. Sonho rasgado, mas não desfeito. 

Inspira-nos saber de tantos grandes homens que escolheram não desistir jamais de seus sonhos. Buscaram, alcançaram e nos presentearam com suas obras. Muitos deles foram desestimulados no meio do caminho. Mas persistiram. O poeta Drummond chegou a ser expulso da escola por “insubordinação mental”. Villa Lobos estudava piano escondido da mãe, que tencionava vê-lo médico e não músico, até que ele decidiu fugir em busca da arte musical. Monteiro Lobato, leitor contumaz desde menino, foi reprovado no exame de língua portuguesa, quando tentava a admissão no Instituto de Ciências e Letras. Homens que sonharam. Homens que fizeram suas escolhas. Homens que não se abandonaram frente aos desestímulos.  Surpreendentemente, alguns vindos da escola. 

A mesma escola que ilumina e desenvolve o pensamento, despertando no outro o prazer do conhecimento, é capaz, muitas vezes, de desencorajar a semeadura dos sonhos de seus alunos. Faz mal. Não pode ser incauto o olhar da escola e do professor sobre seu aluno. Professores são gerenciadores dos sonhos das crianças que passam por suas mãos. Precisam tocar, envolver, mover a alma de jovens ávidos por um futuro ainda em gestação. A semente do pensamento é o sonho. Os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor: intérpretes de sonhos – ensinam as palavras do sonhador Rubem Alves.

Sonhar é inerente à essência humana. É a mola que impulsiona o homem à experiência da vida. Não vive aquele que não tem um sonho. E torna-se inacabado o homem que não o persegue, pois realizá-lo é condição de uma vida plena e feliz.

 

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/3/2014

Compaixão e generosidade

Entrevistei para o meu programa de TV, “Mundo Melhor”, na Rede Vida, o médico e cientista Paulo Saldiva. Falamos sobre diversos assuntos, ele é um dos maiores especialistas do mundo em meio ambiente e em doenças advindas da poluição.

Falamos sobre o amor pela cidade de São Paulo e pelas veias de dor que percorrem essa cidade. Da violência à ausência de calçadas. Do pouco verde ao abandono do centro. Da saúde precária. Dos invisíveis. Mas falamos também de esperança.

Quando perguntei a ele quais eram as principais qualidades que um médico deveria ter para realizar com dignidade o seu ofício, ele foi preciso. Um médico precisa ter compaixão e generosidade.

Compaixão é se colocar no lugar do outro. É sofrer o sofrimento do outro. Paixão é sofrimento. Compaixão é compreender, compartir esse sofrimento. Um médico não pode ser insensível. Não pode se tornar distante de seu paciente. Cada paciente é único. Tem uma história, uma família, medos, sonhos, aspirações. E, aí, vem a segunda qualidade, a generosidade. Se um médico tem a compaixão de compreender o que passa o seu paciente, ele deve ter a generosidade de dar o melhor de si para aliviar essa dor. De se fazer inteiro em cada consulta, em cada cirurgia, a cada momento em que tenha o poder de acalmar as angústias de quem sofre.

Dar o melhor de si significa ser competente na ciência e humano na vida. O paciente precisa do remédio certo, da intervenção correta. Mas precisa, também, de afeto, de consolo, de presença. Como é bom ir a um médico que nos olhe nos olhos, que nos ouça com atenção, que nos explique nossos problemas e que nos apresente alternativas. Que gaste tempo conosco. Como é um bom ir a um médico que goste de ser médico e que compreenda a responsabilidade e o poder da sua profissão.

Compaixão e generosidade. Essencial para os médicos. E, também, para os professores. Para os juízes. Para os taxistas. Para os artistas. Para os jornalistas. Para todos nós, os viventes.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/3/2014

 

 

Fraternidade e tráfico humano

Desde 1962, no período da Quaresma, a Igreja Católica realiza a Campanha da Fraternidade para despertar o sentimento de solidariedade entre as pessoas, sensibilizando-as para o enfrentamento e a transformação de um dilema humano. O tempo da Quaresma representa, para a Igreja, o tempo da conversão, da renovação interior, um “itinerário de libertação pessoal, comunitária e social”, nas palavras de Dom Leonardo Steiner, secretário-geral da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A cada ano, um tema e um lema são escolhidos pela CNBB, conclamando a sociedade a buscar, fraternalmente, soluções que promovam a erradicação de injustiças e de males que desconstroem a dignidade humana.

Este ano, Dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB, anunciou “Fraternidade e tráfico humano” como tema. “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1) é o lema que determina a direção para a qual os exercícios de caridade e de conscientização devem se orientar.

É o tempo da fraternidade, de despertar mulheres e homens para o drama humano do tráfico, do ceifar da liberdade, em todas as suas esferas.

É sobre a liberdade que a Campanha da Fraternidade se pronuncia. A liberdade a que cada ser humano tem direito. É para a liberdade que o homem nasceu e qualquer forma de escravidão é condenável. Qualquer tentativa de cerceamento da escolha humana é intolerável. E essa é uma causa de todos, e não apenas dos católicos. É um chamamento à luta contra a insensatez da exploração, da escravidão, da prostituição, do aliciamento, da violência doméstica e de tantas outras formas de violação da dignidade humana.

Em mensagem aos brasileiros, papa Francisco fez um apelo para que ninguém fique impassível diante dessas vidas roubadas em todo o mundo. Vítimas sem direitos e sem voz: “A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando firo a do outro, firo também a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!”.

A liberdade tem mão dupla. Não é livre o homem que rouba a dignidade de um irmão. Escravizar, violentar, fazer do próximo uma mercadoria é aprisionar a si próprio. Não nos habituemos ao sofrimento de um irmão. Não nos acomodemos diante dos abusos cometidos contra as fragilidades humanas. Vamos agir.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 7/3/2014

Dias de alegria

Algumas pessoas esperam as festas chegarem para extravasar toda a alegria que fica escondida durante o duro dia a dia. Trabalham, estudam, convivem em casa e na rua com uma certa desilusão cotidiana. Tudo é muito pesado, sem grandes e boas novidades. O acordar, o conviver com gente desagradável, os transportes desconfortáveis, o trabalho, muitas vezes, indesejado e assim por diante. Dia após dia, vive-se o que não traz alegria.

Quando chegam as festas, muitas pessoas acham que é momento de extrapolar. “De caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento”, como na canção Alegria, alegria, de Caetano. E o carnaval é uma festa assim. Festa da carne. Para muitos, o momento de beber à vontade, de se fantasiar, de beijar todo mundo, de gritar, de desopilar. Alguns se enchem de energético para ficar sem dormir. Para não perder nenhum instante da festa, da alegria. Porque, depois, volta a mesmice, a chateação, a rotina indesejada. Namoros e até casamentos se desfazem. Tive um amigo que terminou com a namorada, na véspera do carnaval, para voltar depois; afinal, não se desperdiça um carnaval.

Não é estranho viver a alegria apenas nas festas? Ou nem isso é alegria? 

O dia da alegria tem que ser todo dia. Nada contra brincar no carnaval ou em outras festas que recheiam o nosso calendário. O que causa espanto é a mudança de comportamento, são os exageros, é o desperdício do prazer diário. A beleza da alegria está em encontrar prazer no que se faz. Acordar com prazer. Agradecer pelo privilégio de viver mais um dia. Desfrutar da convivência familiar. Ir para o trabalho sabendo que ali está um grande desafio. Conviver com os problemas sem se deixar sufocar por eles. 

Carlos Drummond de Andrade escreveu que “há uma pedra no meio do caminho”. Lygia Fagundes Telles, com licença poética, decidiu, “há um caminho no meio da pedra”. 

Aí, mora a alegria. No “sim” que damos à vida, na vontade de viver cada momento com intensidade, sem ingenuidade e com esperança.

Por Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 28/2/2014