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O amor que desafia o tempo

Encontrei, no prédio em que moro, uma senhora sorridente que me disse: “Faça o favor de me dar os parabéns! Completo, hoje, 70 anos”. Eu, imediatamente, cumprimentei-a, dizendo que a vida é um dom de Deus. Ela completou: “A vida e o amor, pois faço, hoje, 70 anos de casada!”. Quando saímos do elevador, seu marido a esperava. Conversamos um pouco. Falaram de tristes momentos da família. De entes queridos que partiram. Das dores da separação. De algum estranhamento. E, de “mãos dadas”, eles se foram. De “mãos dadas”, esse é o segredo para o amor que desafia o tempo.

O amor não exige perfeição, exige apenas o caminhar de “mãos dadas”. No início, no acender da paixão, há o medo do novo, da mudança necessária. Com o tempo, a surpresa se vai,  mas um e outro, inspirados pelo romantismo, aquecem o tempo, surpreendendo. Dizeres de amor nunca fazem mal e mantêm as chamas acesas. Estavam indo à missa, agradecer a Deus por terem se conhecido. E por terem permanecido assim: de “mãos dadas”. Depois, as outras celebrações com tantos que frequentam a sagrada convivência. Filhos crescidos acompanhados de seus filhos que, também, já têm os seus. Inspiradores de outras famílias que descendem dessa escolha de vida. Todos no mesmo vagão. Alguns há mais tempo, e outros que vêm chegando. Com o respeito de quem tem um modelo com que aprender. “Que Deus abençoe minha família, tão grande, tão bonita!”, despediu-se de mim o marido apaixonado há 70 anos.

Permanecer é desafiador. Quantos casais desistem diante da primeira dificuldade! Quantos optam por destruir os enlaces em busca de aventura! Justificam-se pelo prazer. O melhor prazer está no surpreender o amor. O amor que dá significado à vida. O que vale a vitória quando, ao vencedor, falta a cumplicidade do abraço amado? Quando o prêmio carece de alguém para dividir? Há muitas formas de amor. O desperdício é viver sem amar.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/09/2014

 

Quando mudam as estações

Há uma canção de Beto Guedes que fala da chegada do mês de setembro que traz, consigo, a primavera. Fala de perdão. Fala das canções, das vozes que as entoavam e dos seus sonhos. Há aqueles que se perderam no caminho. E choraram. Mas o “sol de primavera” anuncia novos tempos. É que, às vezes, permanecemos com os mesmos erros. “A lição sabemos de cor/Só nos resta aprender”.

Com as estações, mudam algumas características de tempo e temperatura. Mas não é disso que trata a canção. É nela que nos inspiramos para sugerir que os comportamentos evoluam. Quanto desperdício em permanecer nos erros que sufocam. Há colecionadores de malfeitos. Os próprios e os alheios. E não há estação que resolva os problemas dos que estacionam. Dos que não progridem. Dos que não aproveitam “o sol de primavera” para derreter as friezas que os adoeceram. Ódios acumulados, ausência de perdão, estranhamentos por acidentes corriqueiros. Uma vida com esses dissabores perde o sabor. 

Essas lições nós sabemos, porque observamos quanto de dor a história registra de histórias que poderiam ter tido outros enlaces. Lamentamos o próximo que não se aproxima de quem ama. Entristecemo-nos por aqueles que, envoltos em agressividade, entristecem. Marcas que ficam se delas não cuidarmos.

Mas passam as estações. Passa a vida. E talvez mais rapidamente do que gostaríamos. O tempo dos desperdícios cobra seu preço. Na primavera, que chega na próxima semana, ou em qualquer estação, afeiçoemo-nos ao melhor da vida. Não percamos tempo. Abramos, como quer o compositor, “as janelas do nosso peito” e vivamos. Com o sol que nos aquece ou com a chuva que aguardamos tanto para nos alimentar do necessário e para limpar o que chegou a hora de esquecer.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/09/2014

 

Dignidade no lar

Costumo almoçar, aos domingos, na casa do príncipe dos poetas brasileiros, Paulo Bomfim. É um prazer desfrutar de sua prosa leve. Ouço lições do mestre Nalini e histórias de Lygia, a menina dos contos. Sinto-me um aprendiz privilegiado. Quem cozinha é Lúcia. Uma mulher que encanta pela simpatia e pela alegria de viver. Diz o poeta que é ela a luz que ilumina o seu entardecer. 

Num domingo desses, não pude ir. Fui à casa de alguns conhecidos. Era uma reunião de aniversário. A comida era muito boa. Pedi para agradecer a cozinheira. A dona da casa e sua filha pequenina me acompanharam até a cozinha. Agradeci a moça e disse que o risoto estava perfeito. Ela, timidamente, agradeceu. Foi quando a criança soltou: “Mas ela não pode comer, porque mamãe não deixa”. A mãe ralhou com a filha e tentou uma explicação: “Ela não está acostumada a comer esses pratos mais enjoados, gosta mesmo é do seu arroz com feijão”.

Eu gosto muito de arroz com feijão. E ovo. E couve. E salada. Mas não gosto de gente que destrata gente. Quantas cozinheiras passam por isso! Cozinham para os seus patrões e sequer podem experimentar o prato que fizeram. Triste arrogância. Muro da vergonha que separa quem tem mais de quem tem menos. Imagine impedir alguém – que cuida da nossa vida, da nossa comida, da nossa roupa, da limpeza de nossa casa – de desfrutar da comida que nos prepara. Olhei com tristeza para a lamentável cena. Dei um abraço forte na cozinheira e, mais uma vez, agradeci. E parti. Parti saudoso dos almoços de domingo na casa do poeta. Em que Lúcia faz parte da família. Da minha casa, em que Lu cuida e é cuidada. Alimenta-nos e é alimentada por tudo o que podemos dar a ela.

O conceito de “próximo” na Bíblia é desafiador. É preciso cuidar de quem está perto. Se não conseguirmos fazer isso, não cuidaremos de ninguém.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/09/2014

 

 

Racismo: um crime lamentável

O racismo é um crime lamentável. E mais do que isso, é uma prova do apequenamento do ser humano. Da ausência de razão. De emoções estranhas, capazes de fazer com que uma pessoa sinta-se superior à outra. Triste humanidade desumana. No passado, os horrores da escravidão macularam nossas ações. Mulheres e homens tratados com brutalidade. Arrancados de sua pátria para servir de objeto aos “senhores”. A literatura é recheada de histórias dessa dor e indignidade. “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, narra a trajetória dolorosa de uma escrava fugitiva que sonhava com o direito de ser mãe. Direito, eles não tinham. Nem de amar. Eram arrancados dos seus sem nenhuma comiseração.

Bom ver que nossa Constituição e nossas leis são rigorosas contra essas horrendas atitudes. Mas, na prática, ainda temos o desprazer de ver pessoas que cultivam o racismo em seu interior e o exteriorizam quando não refletem. A atitude, tão comentada na mídia, da torcedora de um time de futebol, infelizmente, não é uma atitude isolada. É deplorável que tenhamos que conviver com isso. Toscos pensamentos de superioridade. Será que os graves crimes contra a humanidade não serviram ao menos de exemplo do que somos capazes quando nos julgamos melhores que os outros? É preciso educar nossa gente. Educar para os valores de uma convivência correta.

O respeito ao outro tem que ser o norte de nossas vidas. Somos cidadãos. Convivemos com todas as diferenças que nos fazem belos, que nos dão a unicidade da existência. Somos únicos e membros de uma mesma família humana. E não há nenhuma razão para que nos sintamos melhores nem piores que os outros.

Respeito. É disso que precisamos para prosseguir. Como ensinou Mandela, “ninguém  nasce odiando outra pessoa devido à cor de sua pele, à sua origem ou ainda à sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E se podem aprender a odiar, as pessoas também podem aprender a amar”. Amemos, então.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/09/2014

 

Política é coisa séria

Resolvi não ser candidato nestas eleições. Sou muito grato aos milhares de eleitores que confiaram em mim e posso dizer que desempenhei meu papel. Tive a honra de presidir a Comissão de Educação quando da votação do PNE – Plano Nacional de Educação. Estabelecemos metas que podem, se cumpridas, mudar a face de nossa educação. Presidi a Frente Parlamentar em defesa da Adoção e as mudanças do código de ciência, tecnologia e inovação, entre outros.

A educação sempre foi minha paixão. A educação e a literatura. Já escrevi 70 livros entre romances, peças de teatro, ensaios de filosofia e pedagogia, literatura infantojuvenil, contos, biografias, poesia etc.  Vivo agora a alegria de ver esses livros sendo lançados em outros países. Espanha e América Latina, Itália, Inglaterra, Líbano e China. Vou dar palestra, em outubro, no maior evento literário do mundo, a Feira de Frankfurt. Essas são as razões de não me candidatar. Não conseguiria dar a atenção devida ao parlamento. Entretanto, sou um entusiasta da política, da boa política. Nesse meio, conheci pessoas valorosas, que exercem a militância correta de fazer da vida um serviço aos cidadãos. E também conheci gente perversa, que age no subsolo tentando, de forma criminosa, destruir biografias e iludir o povo. É preciso separar o joio do trigo. Há muito joio. Mas há muito trigo. Preocupo-me ao ver que essas pessoas estão por aí, tentando angariar votos. E há, também, os que não sabem o que farão se eleitos. Política é coisa séria. O voto é um exercício de poder. Olhar com cuidado, desconfiar de promessas mirabolantes, refletir, eis as ações necessárias para que o futuro nos agradeça.

Continuo trabalhando pelo país que tanto amo. Nas salas de aula, onde professo minha crença no ser humano, e nos livros, onde conto histórias e partilho sentimentos, faço minha parte. Façamos nossa parte. É isso que nos realiza. A consciência de que não estamos aqui por acaso.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/08/2014

Antônio Ermírio, uma face humana da generosidade

Quando Antônio Ermírio de Moraes completou 80 anos, tive a honra de, ao lado do grande pensador José Pastore, organizar um livro sobre a sua vida. Foram 80 depoimentos de artistas, intelectuais, empresários, políticos, escritores e familiares sobre a trajetória de um gigante do mundo empresarial, de um homem cuja capacidade de trabalho era impressionante. Antônio Ermírio era um líder comprometido com a geração de empregos e com o desenvolvimento do país. Era um brasileiro apaixonado pelo Brasil. Mas não era só isso.

No seu velório, fiquei atento à quantidade de pessoas de todos os cantos que vinha para lhe render homenagem. Ouvi histórias comoventes de gratidão. Entre elas, a de uma ex- funcionária que viajou de sua cidade para agradecer ao homem que salvou sua vida pagando a cirurgia e todo o tratamento do coração. Ele era um homem de coração. Uma trabalhadora do Hospital Beneficência Portuguesa, com os olhos marejados, dizia de sua simplicidade. Ele era, decididamente, um homem simples. Convivi com Antônio Ermírio durante um bom tempo. Fui seu confrade na Academia Paulista de Letras. Desfrutei de muitos momentos de prosa em que sua sabedoria deixava marcas de entusiasmo. E testemunhei muitas ações de generosidade que ele fazia com a intenção nobre de ajudar o próximo. Sem alardes. Pelo contrário, insistia que não fizéssemos divulgação, que não era essa a intenção, que o valor do ato generoso estava no silêncio, no saber-se útil ao irmão. Eu insistia em homenageá-lo pelas doações. Ele, delicadamente, agradecia e dizia ter aprendido com o pai que ajudar ao próximo é um dever de consciência, é um exercício de cidadania. Vi seus olhos emocionados na apresentação musical de jovens da antiga FEBEM. Ele havia doado os instrumentos. Eu lhe dizia que precisávamos dar uma segunda chance àqueles jovens e que o desenvolvimento da sensibilidade, proporcionado pela música, era essencial. Ele concordava e insistia que deveríamos nos preocupar também em dar emprego a eles. O trabalho dignifica o homem – era essa sua oração. Foi ele o mecenas de muitas igrejas. Construções, restaurações, espaços de encontro com Deus. Que belo encontro com Deus está experimentando Antônio. Deus, a essência do Amor. Antônio, um homem que se permitiu ser uma face humana da generosidade. Do amor em ação. Sabia ele do poder da educação. Repetia quase que um mantra: “Educação, pelo amor de Deus”. Heliópolis é uma das testemunhas de seu fazer pelo outro. Pelos que estão distantes das possibilidades. Talentos todos têm, mas, infelizmente, alguns futuros se perdem porque não há quem os tome pelas mãos e os conduza nos primeiros acordes. O resto eles fazem. Orquestras de canções tantas, vidas em afinação. Peças de teatro. Artistas em cena revelando o talento do autor Antônio Ermírio e de sua inquietude no mover as pessoas pelas lágrimas ou pelo riso na construção de um país melhor. Seu intento era esse. Fazer! Aproveitar o dia, aproveitar a vida para deixar um perfume novo em ambientes malcheirosos pelo egoísmo, ausência de amor. Amou os seus. Sua mulher, Maria Regina, seus nove filhos, seus netos e bisnetos. Que linda família! Soube educá-los para a vida e para o exercício do respeito. Nada de exibicionismos. Nada de exageros. Deu certo. Apesar da dor de enterrar dois filhos, a imagem dos seus familiares atesta uma educação correta. Ouvi de sua mulher no velório: “Agora, ele está com os dois filhos, e eu, com os outros. Um dia, estaremos todos juntos”. Essa é a fé que nos alimenta. A saudade é parte de nossa condição humana. Somos caminhantes. E não sabemos o dia da despedida. A experiência do mistério nos desafia. Por isso, pensar na morte é um alimento para a vida. Fortalecemos a nossa jornada quando tomamos consciência de nossa finitude. Somos pó e ao pó voltaremos. Assim nos ensinaram. Mas somos mais do que pó. Somos amor. E é o amor que nos identifica. E é o amar que justifica nossa existência. Precisamos de referenciais. Os exemplos nos elevam. Antônio Ermírio de Moraes é um referencial. Aprendamos com ele esses valores tão estranhamente escassos: a decência, o respeito, a honestidade, o trabalho, a simplicidade, a generosidade. É isso. A saudade é amenizada pela certeza de uma vida que modificou e que deu significado a milhares e milhares de vidas. De um incansável trabalhador na arte de produzir riquezas e de edificar gentes. Um homem bom!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/08/2014

Entre livros e sonhos

Escrever é um ofício que me realiza. Não consigo imaginar um mundo sem palavras. São elas que se lançam para dar significado ao que sentimos. Pontes encantadas. E, quando necessário, muros. Sem agressividade. Mas com palavras certas.

Poetizamos pela palavra. Criamos personagens, inventamos situações, tecemos argumentos pela palavra. Gosto de escrever. E escrevo como profissão de fé na pessoa humana. Reescrever dá um pouco mais de trabalho. As rasuras nos lembram de que vamos corrigindo. De que a palavra talvez possa ser outra. De que os tempos fugidios exigem novos olhares.

Revisei quatro livros que serão lançados na Bienal: “Famílias que educam”, “A escola dos nossos sonhos”, “Semeadores da esperança” e “Aprendendo com os aprendizes”. Já faz algum tempo que os escrevi. Tratam da minha outra paixão, além da escrita: o nobre exercício do educar. Os livros falam de família, de escola, de professores e de alunos. Dos espaços sagrados em que nos deparamos com o exercício diário da generosidade. A convivência ganha significado na troca. Aprendemos, ensinamos, tornamo-nos cúmplices da boa nova, que é a educação. Formamos para o hoje e para todos os outros dias. Com exemplos e com textos. Mas, acima de tudo, com a convicção de que o que fazemos tem uma razão de ser.

Na Bienal, muitas outras palavras estarão aguardando os visitantes. Conversas com autores, autógrafos. Aproveito para convidar todos os leitores deste jornal para o lançamento dos meus livros no sábado, dia 30 de agosto, às 14h30, no estande da Editora Cortez, e para se deixarem seduzir por este universo de letras, de palavras, de pessoas.

Ao terminar a revisão desses livros, fiquei refletindo sobre quantas revisões devemos fazer sobre nossas escolhas. Que bom que a vida nos dá outras oportunidades.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/08/2014

Uma visita inesperada

O calvário existe. Cada um sabe o peso da sua cruz. O sofrimento e a esperança nos moldam. O sofrimento chegou para a família de Eduardo Campos. Sim, porque além de um político respeitado em todo o país, além de um homem que governou seu estado com brilhantismo e que anunciava um futuro feliz, Eduardo era filho, era esposo, era pai. Cinco filhos. O país lamenta a prematura partida do estadista. A família chora seu amado. As famílias, das outras vítimas, igualmente choram.

A morte é uma visita inesperada. Alguns não compreendem. Minutos depois do anúncio da partida, já falavam em sucessão, em outra candidatura. Mesquinho poder. Passa uma impressão estranha do quanto somos descartáveis no jogo de interesses. O luto existe. O respeito também. Olhar a morte nos ajuda a enxergar a vida. A consciência da finitude nos aproxima do que de fato somos. Consciência de todos. Igualamo-nos ao saber que seremos visitados por ela. Alguns mais jovens; outros, mais idosos. Alguns ainda na infância como nas tristes cenas das guerras tantas. A morte sempre vem. Quem se alimenta de fé tem outra perspectiva. É como o inverno nos países frios que, aparentemente, destrói as folhagens. Parecem mortas as árvores. Apenas parecem. Elas renascem exuberantes na primavera. A eternidade é a primavera da alma. E, aí, surge a esperança. A esperança do reencontro e, ao mesmo tempo, a esperança de viver melhor o que nos resta. Deixar de lado as complicações. Brigando menos. Desperdiçando pouco os encontros que nos acalentam. No dia dos pais, Eduardo celebrou a vida com seus filhos. É essa a lembrança, no meio da dor, que há de alimentar a esperança.

Depois do calvário, vem a Páscoa. Para os judeus, é a passagem da escravidão para a libertação; para os cristãos, a passagem da morte para a vida. A fé não expulsa a dor, ela fica, ela nos frequenta, mas depois vai. E ficamos nós tentando manter acesa a chama do que de bom aprendemos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/08/2014

E a guerra continua

É inexplicável o que está acontecendo na faixa da Gaza. Inexplicável! Toda justificativa dada só mostra uma coisa: o fracasso das relações humanas. As cenas das crianças mortas são horrendas. Com elas, morre o futuro, a esperança, a possibilidade de um novo tempo. Tempo difícil este. As crianças que não morrem são ensinadas a odiar. Odeiam quem não conhecem. Odeiam por fazerem parte de outro povo, de outra religião, de uma gente que mata a sua gente.

A faixa de Gaza é uma estreita faixa de terra localizada no Oriente Médio, fronteira com Egito e Israel. Grande parte de sua população é formada por palestinos que ali se refugiaram após a guerra árabe-israelense de 1948. Quantas tentativas de paz, quantos tratados assinados, quanta oração – aliás, os que matam se dizem religiosos. E colocam Deus para justificar essas atrocidades. Religião é religação, o que fazem é um desligamento. Por trás do discurso religioso, há outros interesses. Interesses econômicos são legítimos, desde que obedeçam minimamente à ética das relações humanas. Quando lemos sobre atrocidades cometidas em tantos momentos da história, perguntamos: como tratavam a mulher dessa maneira? Como faziam isso com os negros? E com os índios? Quanta crueldade naquelas arenas de violência. O triste é que parece que não evoluímos. O que estamos assistindo é tão feio, tão perverso, tão medonho como naquele tempo em que se jogavam cristãos nas arenas para serem comidos por animais. Os animais estavam famintos, por isso atacavam.

Que fome têm os animais racionais de hoje? Que valor orienta suas ações? É de causar tristeza e indignação. Falo das crianças sem futuro, mas também da horrível cena de mulheres e homens com vidas findadas pelo ódio e pela ganância de alguns líderes. Líderes? Líderes verdadeiros não agem assim. O nosso poder é apenas o da indignação, o da tristeza, o da oração. Que Deus, tão usado por aqueles que odeiam, nos inspire a amar. É essa a nossa redenção.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/08/2014

Shakespeare, Juca, Lear

Que Shakespeare é um genial leitor da alma humana, capaz de transformar em textos intrigas, dramas – vícios e virtudes do ser humano –, ninguém duvida. Que Juca de Oliveira é um mestre dos palcos e das telas, um ator que se reinventa a cada personagem para cumprir o compromisso com a essência de sua vida – ser operário da arte – é mais do que sabido.

E Lear, o Rei? Texto desafiador. Parece que foi escrito ontem. Trata de temas que nos incomodam hoje. Uma luta em que os vícios da vaidade, da ingratidão, do egoísmo parecem suplantar a virtude da sabedoria. Mas talvez o intento de Shakespeare seja exatamente o oposto. Mostrar o quanto erramos quando “envelhecemos sem ficarmos sábios”. O Rei comunica às três filhas que quer se aposentar. E que vai dividir o poderoso reino entre elas; para isso, quer ouvir as melhores declarações de reconhecimento de sua grandeza. Quer alimentar sua vaidade. Duas filhas fazem o jogo do pai e o engordam de elogios. A mais nova, a sincera, a que o amava de verdade não aceita fazer parte da trama. O pai, furioso, a renega e a expulsa. Divide o reino apenas com as duas que, depois de terem o poder, se cansam do velho pai. É a filha mais nova que vem salvá-lo. Assim segue a história. E Juca opta pela esperança no desenlace da trama.

A vaidade é um vício que emburrece. Perdemos o senso de nós mesmos. Acreditamos no poder que não temos. Permitimos aos aduladores a façanha do engodo. E nos esquecemos da transitoriedade da vida. “Somos pó e ao pó haveremos de voltar”. É esta a arma contra a vaidade: a sabedoria. Aristóteles ensina que o último degrau da sabedoria é a humildade. Virtudes que nos alimentam do que somos, que nos nutrem de felicidade e nos ensinam a viver. No cotidiano das escolhas corretas, no valor aos afetos desinteressados, no exercício nobre do pensar. Ver Juca interpretando vários personagens de Lear, em um monólogo surpreendente, nos comove e nos move. O futuro existe.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 25/7/2014