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O filho da mãe

A mãe é cozinheira em casa de família. Não pensa em aposentadoria, embora esteja perto dos 70 anos. Gosta do que faz. O filho único é advogado. Estudou em uma universidade particular paga pela mãe. Formado há alguns anos, tem clientes importantes. Veste-se bem. Mora em um bom apartamento. A mãe preferiu ficar no seu canto. Um canto distante do trabalho e da vida do filho. Não reclama. Comenta que o transporte público está melhorando. No percurso, tem tempo para pensar, para rezar, para agradecer a Deus por sua vida. Ficou viúva muito nova. Com um problema sério na coluna, quase morreu no único parto. Resistiu e resiste às dores que surgem. Sem lamentos, sem queixumes.

O filho não a visita muito. Diz que falta assunto, que vivem em mundos diferentes. Ele é casado, e a esposa acha estranho ter uma sogra cozinheira. E não acha bom que os filhos convivam com a avó. “Muito rústica”, na opinião da nora.

Conheci essa cozinheira. Sua patroa é um encanto e foi ela quem me contou a história do filho. Por acaso, eu também o conheço. Um dia nos encontramos em uma universidade e disse a ele que conhecera sua mãe. Ele corou, constrangido. Pediu-me que perdoasse a simplicidade dela. E buscou todo tipo de desculpas por ter nascido em um lar tão acanhado. Ouvi com tristeza e tentei ajudá-lo. Falei de meu pai que conheci empresário, mas que, antes, fora servente de escola e feirante, e que era profundamente simples. Disse que foi ele o maior mestre que tive na vida. Quisera eu ter a mansidão, a generosidade, a sabedoria de meu pai! Ele ouviu e falou que gostaria muito de tê-lo conhecido. Eu não desperdicei a oportunidade, “Sabe que sua mãe lembra muito meu pai?”.

Não os encontrei mais, mas conheço histórias semelhantes. Filhos que se envergonham dos pais, porque frequentam ambientes requintados, têm amigos importantes etc. Tristes árvores que negam as raízes. Sentimentos mesquinhos de quem pouco entende de sentimentos. Saudade de meu pai!

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/11/2014

Alcione, a voz que emociona

A menina que saiu do Maranhão para conquistar o Brasil e o mundo tem a consciência de que nasceu para cantar. Cantou, menina, em sua terra natal. Fez-se professora para agradar ao pai e nunca deixou de professar a crença de que sua voz é um presente de Deus. Cantou para o papa João Paulo II e se emocionou. Emociona plateias de todas as idades que iniciaram histórias de amor ou afogaram mágoas de dor ouvindo sua voz, suas canções.

 

O samba é seu companheiro. Canta as escolas de samba por saber que, em cada uma delas, moram gentes e sonhos. É Mangueira, sempre, no coração. Tradições de poetas, ritmistas, artistas do povo que aguardam a avenida para desfilar os seus sonhos, para contar o enredo que marca suas histórias.

A história de Alcione é digna. É ciosa de sua obrigação social, obrigação que todo mundo tem, a da generosidade, da doação, do cuidado com o outro. Ama a sua terra, o Maranhão, e as outras terras que lhe abriram as portas das oportunidades. É grata a Jair Rodrigues, o artista que a viu cantando, acreditou em seu talento e a fez gravar seu primeiro disco. Ela, que trabalhava em uma loja de discos, e que, na noite, oferecia sua voz e sua emoção.

Alcione tem temperamento forte, determinação, mas mais forte é a braveza de uma guerreira que nasceu para cuidar. Cuida dos sobrinhos, dos amigos – a saudade do genial Emílio Santiago, dos admiradores. É respeitosa com o seu público e sente gratidão pelas pessoas que saem de suas casas para a verem cantar.

São Paulo recebe, novamente, esta genial cantora. Alcione, a voz que emociona. Alcione, a menina que veio ao mundo para cantar com eterna alegria.

“Nasci pra fazer esse povo cantar 

Se faltava alegria, acabou de chegar 

Manda a tristeza pra outro lugar 

Que o samba não pode parar”. 

(trecho da música Eterna Alegria)

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Entrevista: 

Gabriel Chalita: Na canção “Obrigada”, você agradece as pessoas que saem de casa para vê-la cantar. Depois de tantos anos de carreira, o que a inspira no início de cada show? 

Alcione: É a paixão pelo que faço, a gratidão a Deus, aos meus pais, ao meu público, a minha família. Enfim, a tudo que a música pôde me dar de bom.

 

Gabriel Chalita: Você é uma das maiores cantoras brasileiras. Quais conselhos você pode dar àqueles que cantam bem, que sonham em construir uma carreira e que já tiveram tantas portas fechadas?

Alcione: Porta fechada é pra bater! Não desista, tenha responsabilidade, viva para isso, respeitando seu público, os profissionais de sua área e cuide de sua saúde.

 

Gabriel Chalita: Você acha que o resultado da grande interpretação vem mais da emoção ou da técnica?

Alcione: Acho que é da emoção, porque a técnica é importante, mas é a emoção que move o mundo. E cantar é um dom de Deus também…

 

Gabriel Chalita: Qual a sua relação com a cidade de São Paulo? O que esta cidade já lhe deu? Quais emoções você viveu por aqui?

Alcione: São Paulo é uma cidade cuja tradução é trabalho. O povo de São Paulo tem uma tradição como trabalhador, por isso se diz que esta cidade não para. Já vivi muitas e belas emoções em São Paulo.

 

Gabriel Chalita: Quando você olha para trás, o que foi mais penoso e o que foi mais prazeroso em sua trajetória? 

O mais penoso foi me separar dos meus pais e irmãos, no início da carreira. Deixar a minha cidade de São Luís para trás. Porém, o melhor de tudo foi poder, com essa distância, construir uma trajetória, uma carreira, levando conforto e tranquilidade para todos os meus. Isso não tem preço!

 

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ALCIONE 

THEATRO NET SÃO PAULO

Dia 11 de novembro, às 21h 

 

A cantora maranhense Alcione é atração do Palco Petrobras Premmia no próximo dia 11 de novembro, às 21h. Marrom, como é conhecida mundialmente, interpreta músicas de seu CD “Eterna Alegria” no Theatro Net São Paulo, na Vila Olímpia.  

SOBRE O SHOW

Três anos após lançar os discos “Ao Vivo na Mangueira e Jam Session”, ambos de 2011, Alcione volta aos palcos paulistas em grande estilo. Com o show intitulado “Eterna Alegria, ao Vivo”, a cantora resgata um trabalho que ostenta o mesmo título do seu último álbum gravado em estúdio e serviu-lhe de base para este novo produto, numa reedição de parceria entre Marrom Music e a Biscoito Fino.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 09/11/2014 | Foto: Divulgação

Belos cabelos brancos

Conheci duas senhoras numa missa. Logo que cheguei, uma delas me abriu um sorriso, dando-me boas vindas. Disse que eu era lindo. Eu retribuí. Ela disse que já era velha. Respondi que a beleza não se esvai com o tempo. Ela concordou, sorrindo, e me informou que ia completar 93 anos. A amiga já fizera 90. Contou-me que toma meia taça de vinho tinto toda noite por sugestão médica. A de 90 disse que faz o mesmo. A de 93 reagiu, dizendo que ela tomava a taça inteira e que ocultava isso do médico. A amiga riu e explicou que nem tudo deve ser dito.

Uma pessoa, no banco de trás, tossiu. A senhora de 93 ofereceu uma pastilha. Explicou-me que sempre carrega pastilhas para aliviar sua tosse e a dos outros. A missa começou. A 1a leitura era do Livro da Sabedoria sobre a honra da velhice: “mas os cabelos brancos são uma vida sensata. A de 90 olhou para a de 93 e disse, baixinho: “Viu? Estão falando da gente!”. E brincou: “E eles nem sabem que disfarçamos a brancura dos cabelos”. A missa prosseguiu. Rezaram, cantaram, comungaram e ensinaram a estar em comunhão. Ao final, conversamos um pouco mais. Confidenciaram-me o segredo de viver tanto e tão bem. A de 93 disse que havia optado pela alegria e que, por isso, “dava banho” na alma, não permitindo que nenhuma sujeira permanecesse. Nem raiva, nem ressentimento, nem frustração pelo que não acontecera. “Até porque muita coisa ainda há de acontecer, pois não tenho pressa nenhuma de morrer”. A de 90 acrescentou: “Ela sempre foi muito namoradeira”. A de 93 não se fez de rogada: “E tem graça viver sem amor”?

Belos cabelos brancos têm aquelas duas. Amigas desde a escola. Casaram. Vieram os filhos. Foram-se os maridos. Choraram o tempo certo. Deles se lembram, mas sem dor. O ritmo diminuiu. Perderam forças físicas. Tomam mais cuidado para não cair. Sabem mais de tropeços do que antes. Mas o essencial é que elas continuam achando que  viver é bom demais.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/11/2014

 

 

 

Nita e Paulo Freire, um livro sobre o amor

Nita Freire nos presenteou com os detalhes cotidianos do apaixonado Paulo Freire. Conta que estavam os dois vivendo o luto da despedida. Ela havia enviuvado, depois de um casamento de quase 30 anos. Ele havia perdido Elza, de quem fora cúmplice de sonhos e afagos durante 42 anos. Encontraram-se nos desencontros. Encantaram-se.

Os relatos trazem a adolescência da paixão nos anos de maturidade. Não há idade para amar. Nita revigora uma frase corriqueira na vida de Paulo Freire: “eu optei por viver”. Bilhetes em cardápios de avião, em guardanapos. Poemas lidos com vagar nos telefonemas apaixonados, quando estavam distantes. Paulo, o patrono da educação brasileira, era um homem romântico. Com as mulheres que amou e com as causas que abraçou.

No pouco convívio que tive com Paulo Freire, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o que mais me chamava atenção era o seu “gostar de viver”. Não pode ser educador quem não gosta de viver. Gostar de viver é permitir que o encantamento do encontro revele-se aos aprendizes e os prepare para os encontros tantos que a vida há de proporcionar. Fala Paulo Freire em esperança, em autonomia, em tolerância, em boniteza. A vida é bonita, mesmo diante das feiuras que insistimos em construir. “A vida é bonita, é bonita e é bonita”, cantava o poeta Gonzaguinha que ficava “com a pureza da resposta das crianças”. Paulo Freire é puro, sem ser ingênuo. É crente, sem ser estreito. É livre, sem ser descompromissado. Conquistou os educadores do Brasil e de tantos outros cantos do mundo. Do quintal de sua pequena Jaboatão aos quintais do mundo, sua curiosidade buscou, incansavelmente, caminhos de justiça para a concretização de seu sonho maior: uma educação igualitária. Foi criticado por aqueles que não compreenderam a dimensão dos seus ditos, o protagonismo da sua aspiração. Mas encarava com leveza: “Nita, não importa o que fazem com o que digo e com o que penso e faço. Se me distorcem, o problema não é meu, é de quem o faz!”. Críticos, há por todos os lados; Paulo Freire, não. É único. E é nosso, um brasileiro.

Queria ele uma educação libertadora. Que desse a todos as condições para o desenvolvimento do seu talento. Sem discriminação. Sem exclusão. Defendia os professores como multiplicadores dessa boa nova que é a educação. A que forma as gentes, a que prepara para os fatos corretos. Nita nos revela que Paulo Freire foi um eterno menino, até o momento de sua morte: “Paulo nunca quis perder sua alegria-menina e sua enorme tolerância com relação a fragilidades humanas. Em certos momentos, pensei que seria importante chamar-lhe a atenção sobre esse jeito sem limites de generosidade de entrega aos outros e outras, aliás, devo reconhecer, uma de suas maiores virtudes, mas ele não me dava ouvidos.” . Um homem sério, com a alma inocente e a boa fé de um menino.

Quando participo, hoje, de congressos internacionais e vejo tantas teses atuais sobre a prática educativa, sobre o sonho de uma educação para todos, sobre o amor pelo ofício de professor, lembro-me, com orgulho e respeito, de Paulo Freire. O homem que amava as coisas do povo. O homem da antevisão. Disse tanto. Fez tanto. E jamais negligenciou a responsabilidade de cuidar das pessoas. Educar é isto. É não desistir nunca do outro.

Descrição

Nós dois é um convite aos leitores de Paulo Freire e de Nita Freire, para que conheçam um pouco mais sobre a vida e a história de amor do casal. Uma reunião de cartas, bilhetes, fotos que nos ajuda a reconstruir a trajetória de encantamento que uniu os dois. Uma experiência que merece ser dividida para que mais pessoas percebam o quanto uma união calcada no respeito e na admiração pode transformar duas vidas.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 02/11/2014

 

Somos todos brasileiros

Nada justifica o preconceito. Nada. Nem alegrias nem decepções. Nem celebrações de vitórias nem lamentos de derrotas. O preconceito é feio. É mesquinho. É a prova de que ainda temos muito a aprender na arte de conviver com as diferenças. Opiniões diferentes, olhares diferentes para temas diferentes, pessoas diferentes.

Vez ou outra, por alguma razão, surgem pessoas que disparatam os seguintes dizeres: “eu não sou preconceituoso, mas…”. A palavra que introduz a triste mensagem que será dita já é uma amostra de que o que vem não foi fruto de reflexão, mas de impulsos gerados por emoções estranhas. Ganhar ou perder uma eleição. Ganhar ou perder o campeonato de futebol. Ganhar ou perder na sugestão, na opinião, faz parte. Mas é preciso que o vencedor tenha humildade; e o perdedor, também. Até porque nada é definitivo. E o conceito de vencedor e perdedor é bastante relativo. Nessas eleições, vozes se pronunciaram mostrando o quão feio é o preconceito. Somos todos filhos de um mesmo país. De um gigante que tem mulheres e homens com sotaques diferentes, religiões diferentes e formas diferentes de ver o mundo. Mas somos únicos no sonho de termos direito a um futuro, de melhorarmos o que nos envergonha e de aprimorarmos o que já conquistamos. Juntos. Não há estado melhor ou pior. Não há região melhor ou pior. Não há mulher e homem melhores ou piores. Cada um exerce o sagrado direito de ser livre. Liberdade que requer responsabilidade. Porque o outro, também, é livre. Liberdade que significa usar a razão. Usa a razão quem controla os ímpetos, as incontinências que levam a agredir. Quantas palavras malditas em redes sociais, quanto descuido com o outro, cidadão como eu, brasileiro como nós. 

Sejamos, como diz o nosso hino, “um povo heroico”, que preza pela igualdade, pela liberdade. Afinal, “Brasil, de amor eterno seja símbolo”. Um amor que vence qualquer divisão, qualquer indisposição. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/10/2014

Brasileiros na Feira do Livro de Frankfurt

Fui convidado para dar uma palestra na Feira de Frankfurt, a maior feira literária do mundo. Foram convidados pelos organizadores da Feira, apenas três brasileiros: Paulo Coelho, Walcyr Carrasco e eu.

Paulo Coelho ponderou sobre o futuro do livro e sobre a necessidade de o mercado editorial compreender melhor o mundo tecnológico e as novas possibilidades de leitura: os tabletes, os celulares, o livro em meio digital. Falou com a autoridade de um autor que já vendeu 165 milhões de exemplares em todo o mundo.

Walcyr Carrasco falou sobre a mente criativa do ficcionista. Discorreu sobre a gênese da personagem. Com muito humor, trouxe histórias do cotidiano que inspiram o escritor de ontem e de hoje. Trouxe Flaubert e Machado de Assis para explicar como os temas que agradam ao leitor se repetem e como a vida e a arte se misturam.

Eu palestrei sobre a semiótica na sala de aula e a formação dos novos leitores. Acredito, profundamente, que, apesar de todo o aparato tecnológico que nossos tempos oferecem, o livro sobreviva, assim como  a milenar arte da contação de histórias. Sobrevive o professor. Máquinas não têm alma. Professores têm. Alunos precisam de alma. De cumplicidade.

Falei de muitos autores brasileiros, mas aproveitei a oportunidade para usar Goethe, o gênio da literatura alemã, como exemplo. Goethe tinha uma mãe que lhe contava histórias antes de dormir. E que dele omitia os finais, deixando-o curioso para o dia seguinte. Como Sherazade fazia para amolecer o coração cheio de ódio de seu marido, o Sultão. Com um repertório incrível, durante mil e uma noites, ela emendava uma história na outra para prender a atenção de seu interlocutor e se manter viva.

Contadores de histórias alimentam almas e mentes. Os pais deveriam ser os primeiros contadores de histórias. De histórias nascidas da literatura universal e de histórias de suas próprias famílias. A voz da mãe, a voz do pai, enchem de futuro os seus filhos.

Preocupo-me com o excesso de tecnologia no processo educativo. Tudo o que é em excesso faz mal. O meio-termo aristotélico é sempre um bom aprendizado. Se os aprendizes têm novas possibilidades de pesquisa com a internet, têm, igualmente, necessidade de diálogos parecidos com o que o Sócrates tinha com seus discípulos, em épocas que nem lousas ou cadeiras faziam parte da relação de ensino-aprendizagem, quanto mais os computadores.

Sócrates contava histórias. Jesus Cristo contava histórias. Shakespeare contava histórias. Mandela, para convencer o seu povo a trocar a luta da segregação pela edificação do oráculo da paz, contava histórias.

Por que alguém compra um livro? “Para o entretenimento e para o conhecimento”, respondeu Paulo Coelho na Feira de Frankfurt. Entreter, conhecer, verbos que condizem com o nossa trajetória. Educar, também. Tudo educa. Até os exemplos ruins nos educam quando temos capacidade de discernir.

Há alguns que se preocupam muito com uma literatura que venha a agredir o que é considerado “politicamente correto”. É preciso ter prudência. O “politicamente correto” muda muito. A literatura, não. O que é descartável são os livros que têm por objetivo ajudar a resolver problemas pontuais. Os clássicos ficam. Quando Monteiro Lobato cria a sua “Negrinha”, não o faz para ajudar a propagar o preconceito, ao contrário, coloca-se como uma voz capaz de revelar o sofrimento dos negros, o horror do racismo que, muitas vezes, tenta se disfarçar de bondade, da mesma forma que Machado de Assis faz em “Pai contra mãe”.

Livros semeiam ideias, ampliam horizontes, fazem nascer desejos, acalentam solidões.

A Feira de Frankfurt é um mundo complexo e gigante. Países de todos os cantos do planeta mostram a face iluminada de sua literatura. Escritores, editores, ilustradores, livreiros, artistas de um fascinante universo conversam sobre o presente e o futuro do livro. Milhares de palestras e de eventos nos abrem a mente para o que cada um, em sua língua, em sua cultura, faz para que o livro tenha o destaque que merece.

Walcyr Carrasco, autor de dezenas de livros, mas também de novelas marcantes que quebraram tabus e abriram possibilidades de um mundo menos perverso com os diferentes (somos todos diferentes), insistiu na ficção que nasce da intenção amorosa de melhorar o mundo.

O Brasil foi o país homenageado na Feira de Frankfurt de 2013. Este ano, foi a Finlândia, país modelo em educação. Revelam eles, com orgulho, o quanto seus professores e alunos leem. O quanto a arte desenvolve a sensibilidade e a capacidade pessoal e profissional. Na educação, formamos o nosso futuro. Que seja menos violento, menos preconceituoso, menos injusto. Que os livros ajudem as pessoas a conviverem melhor. Essa é a verdade que tenho como escritor. Escrevo para revelar minha opção pela esperança. Escrevo porque acredito no ser humano. Quando um livro é lido, uma janela se abre. Vamos abrir as janelas da liberdade. Vamos abrir as janelas da generosidade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/10/2014

Alguma delicadeza

Maria Bethânia disse poemas no belíssimo Theatro Net, recém-inaugurado em São Paulo. Aliás, sempre que nasce um novo teatro, é preciso celebrar. Palco em que as emoções da arte inspiram as ações da vida.

Bethânia disse poemas. E cantou. Seu canto é expressão de uma voz a serviço do talento. A menina que, nos anos 60, subiu ao palco do Rio de Janeiro para cantar “Carcará” continua o seu ofício de tocar almas e fazer pensar. Entre poemas de Pessoa, Drummond, Vinicius, Cabral e de Reynaldo Jardim, o autor de “Maria Bethânia Guerreira Guerrilha”, a baiana, a brasileira falou sobre educação. Com os pulmões plenos, bradou que estudou em escola pública e professou que a educação pública brasileira tem jeito. E, mais do que isso, homenageou dignamente os seus professores.

Na plateia, eu aplaudia a cantora que desafia o tempo e continua a surpreender. Falou Bethânia do silêncio e da delicadeza. A poesia pede, ao menos, alguma delicadeza. Em tempos de urgências, parece difícil parar, refletir, ler um poema e se permitir o milagre do entranhamento. É o poema nos preenchendo ou nos esvaziando de acordo com o tempo. E com a necessidade. Alguma delicadeza… será que a vida de tantas agressões e solidões – não a necessária, a que faz refletir, mas a brotada na ausência de terra amorosa – não carece dessa delicadeza? Gestos de cavalheirismo parecem pouco convidativos. Elegâncias com os mais velhos. Cuidado no dizer, consciente do poder perfurador de palavras malditas. Atenção ao outro, que também sou eu, espelho de minha alma, irmão de convivência. 

Não descuidemos dos encontros, os desinteressados, os que colaboram com as nossas emoções mais belas, os que nos elevam ao patamar do que somos. Pessoas, inspiração de Pessoa, o que falou sobre o sino da sua aldeia, sobre uma tarde calma, sobre sua alma, porque tinha delicadeza para ver as delicadezas que a vida nos proporciona. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/10/2014

 

Dia do professor

Dia 15 de outubro comemora-se o dia do professor. Professor é quem professa a crença na pessoa humana e quem faz da arte de ensinar o seu ofício. Ensina quem, também, aprende. Ensina quem se permite surpreender com o que o aluno traz em sua história. Ensina quem alimenta de esperança a si mesmo e aos seus.

Há tantos outros adjetivos que poderiam ser utilizados para homenagear o professor. Mas a homenagem de que os professores precisam, realmente, é que a carreira que abraçaram seja valorizada. Não há como melhorar a educação – e é senso comum que ela não vai bem – sem cuidar de quem cuida, incansável e esperançosamente, no dia a dia, de nossos alunos. Valorizar o professor é dar formação inicial e continuada adequadas, é respeitar quem forma as gerações, é dar uma remuneração digna que faça com que essa carreira seja objeto de desejo de crianças e jovens. Hoje, isso não acontece. É triste vermos que nossas crianças e jovens sequer cogitam a profissão de professor. Por que não enxergam o prestígio que deveriam enxergar nessa escolha? Há quem diga que salário não é tudo. Geralmente, quem diz isso é quem tem muito dinheiro e nunca entrou em uma sala de aula. O salário é uma forma de reconhecimento, sim. Por que as carreiras de juiz, de promotor, de delegado federal, entre outras, são tão atrativas e a de professor não? No passado, um professor ganhava como um juiz. O que aconteceu? Chegamos à conclusão de que o professor não é tão importante assim para o país? Quem forma o engenheiro, o médico, o enfermeiro, o artista? Quem ensina o escritor a escrever? Quem abre as janelas das possibilidades e insiste que o futuro existe?

Professores, irmãos meus de ofício, não desanimemos. Nossa escolha é digna, nobre e apaixonante. Continuemos a cuidar de gente com competência e ternura. E com amor.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 17/10/2014

Ives, mãos de obreiro e alma de poeta

Recebi a obra, “Poesia Completa”, de Ives Gandra da Silva Martins. Uma primorosa edição limitada da Editora Resistência Cultural. Fui lendo e bebendo da alma leve de um homem que não se cansa de declarar o seu amor à vida, aos seus filhos e, principalmente, à Ruth, sua eterna namorada.

Ives tem mãos de obreiro. E que obreiro! É um dos maiores juristas do país. Tem títulos acadêmicos conquistados nas numerosas universidades internacionais. Seus pareceres são aulas de direito constitucional, tributário e outras teorias que denotam seu saber. É advogado cioso do seu ofício. Décadas dedicadas a lutar pela justiça e a defender teses que vão ao encontro dos valores que iluminam sua vida. É o homem da ética. Na teoria e na prática. O direito dissociado da ética é nau sem norte. 

Mas Ives não é apenas obreiro. É poeta. E, na poesia, ele traz um frescor novo, sempre novo à vida. O poeta é assim. É capaz de olhar para sua amada todos os dias e surpreendê-la como no primeiro encontro, encanto. No livro, as cartas à Ruth, com quem é casado há mais de 60 anos. Nas cartas, as confissões. Um amor que se renova, porque iluminado pela consciência das escolhas corretas.

É possível ser competente, cientista, objetivo e, ao mesmo tempo, leve pelos amores que, em família, o fazem acreditar na providência divina: “Meu Deus, minha família, minha amada / Dão apoio, que sempre necessito. / Eu desço bem sereno a estreita escada, / Que tem no fim da vida o próprio rito.” Deus é a certeza maior que o faz olhar para trás e agradecer. No cristianismo de Ives, a certeza de que cumpriu e de que continuará a cumprir a parábola dos talentos. O que Deus lhe concedeu, ele multiplicou. Sua vida é uma inspiração. Mãos de obreiro, porque produzir nos alimenta; alma de poeta, porque amar nos nutre de encantamento.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 10/10/2014

 

 

Teresinha e Francisco, irmãos da bondade

Francisco de Assis nasceu na Itália em 1182. Teresinha do Menino Jesus nasceu na França em 1873. De séculos e lugares distintos, esses dois jovens continuam marcando a história da humanidade. Irmãos da bondade, Francisco e Teresinha são celebrados nesta semana. Dia 1o de outubro, Teresinha. Dia 4, Francisco. O que eles têm em comum? O que deles permanece desafiando o tempo? Nem por distração, esses dois jovens deixaram de amar o ser humano. Nem por descuido, abandonaram a missão de fazer o bem. E fizeram o bem sem concessões. 

Francisco fez uma opção clara por amar aqueles que outros, de sua época, não quiseram amar: os “derrotados”, os “invisíveis”, “os malcheirosos”, os abandonados. A todos, tratou como irmãos; inclusive, os animais, criaturas que também têm sentimentos. Teresinha, na sua “pequena via”, deixou um legado de simplicidade, de delicadeza, de confiança em Deus. Da clausura do convento, tornou-se padroeira das missões. De seus poemas, nascem lições de um amor que transcende o mundo do poder e da competição. Seu desejo era fazer cair uma chuva de rosas sobre aqueles que mais necessitavam,  para perfumá-los de vida.

Os santos são mais do que intercessores, são exemplos de passos corretos num mundo tão ausente de referenciais. A busca pelo poder a qualquer custo macula as relações humanas. A agressividade com que nos tratamos rouba de nós a capacidade de nos vermos como irmãos. As guerras, infelizmente, persistem. Mas persistem,  também, a arrogância, a intolerância e a perversidade. Guerras internas. Qual o remédio, então? Na inspiração de Francisco e Teresinha, a perseverança na bondade. Não permitir que o que vemos nos impeça de ver o que deveríamos ver. Mesmo nos fétidos terrenos do egoísmo, moram sementes de generosidade. Façamos nossa parte.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/10/2014