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A lente do medo

A guerra sempre nos mostra a face embrutecida da humanidade. Pretensos líderes que se acham conhecedores do “bem e do mal”. Comeram eles a árvore do fruto proibido, como narra o Gênesis. Alguns imaginam que a proibição de Deus para Adão e Eva era para roubar-lhes a liberdade. Não era. Comer o tal fruto proibido significaria comer um ao outro com os dentes do ódio, com a boca da destruição, com a intenção do apequenamento. Assim nasceu o pecado. O homem e a mulher podem tudo, menos destruir o outro ou a si mesmo, porque isso nos desumaniza. No texto bíblico, ficaram eles envergonhados depois de comer o que a serpente ofereceu. Envergonhados por saberem-se ávidos pela destruição do outro. Envergonhados deveríamos ficar cada um de nós com esses mesmos pecados de destruição que nos acometem.

Uma cena chocante correu mundo afora. Comoveu, revoltou, indignou. Um fotógrafo, Osman Sagirli, estava na Síria, a 10 km da fronteira com a Turquia, no local em que milhares de refugiados, amedrontados pela sombra da destruição, buscavam sobrevivência.  Seu objetivo era registrar rostos comuns, de adultos e crianças que se perdiam naquela multidão. Foi quando, ao tentar fotografar uma menina de quatro anos, a pequena Hudea, percebeu sua estranha reação. A menina levantou as mãos pensando ser a câmera uma arma. Mordeu os lábios de pavor. Olhou tão assustada que ele teve o ímpeto de abraçá-la, de aconchegar a dureza de sua trajetória. Tão menina e tão cheia de marcas. Sangues jorram naquela região há muito tempo. Famílias destruídas. Túmulos que não dão conta dos tantos que perderam o direito ao futuro.

Como corrigir isso? Como voltar ao paraíso e encontrar mulheres e homens vivendo em harmonia? Cenas assim são comuns nas guerras que sabemos e nas outras que, no escuro dos lares, roubam a inocência de crianças. Exatamente daqueles que deveriam ser os mais cuidados, os mais protegidos, os mais amados.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Foto: Osman Sagirli Data: 10/04/2015

 

Páscoa, passagem

Páscoa é passagem. Passagem da morte para a vida. Passagem da escravidão para a libertação. Passagem para um novo começo. Momento de renovação. Na Páscoa antiga, celebrava-se o fim dos tempos duros no Egito e o início de uma nova caminhada sem a opressão de dono algum. Moisés conduziu o povo com a fé no amanhã, com a esperança dos novos ventos. E o mar se abriu diante daquela gente valente que trocou as correntes pelo desconhecido. Na Páscoa nova, a ressurreição de Cristo, a força que rasga a morte, inaugura um tempo novo para aqueles que compreendem que mal algum supera o Bem. Na madrugada do domingo, a esperança se reacende, após o período da escuridão gerado por homens mal informados, mal formados, mal amados. O calvário de Cristo se repete ainda hoje. Cruzes são carregadas por mulheres e homens de todos os cantos que aguardam um canto novo para viver. 

Em sua mensagem de Quaresma, papa Francisco nos alerta: “Fortalecei os vossos corações”. Vivamos este momento como o tempo de formação de nossos corações, tomando por inspiração o amor humilde derramado por Cristo sobre nós. “Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador, mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro”.

Façamos esse percurso, hoje, no dia da Páscoa, tempo de celebração da vida. Recusemos as atitudes individualistas anunciadas pela temerosa globalização da indiferença. Persigamos as sendas do amor ao próximo, aos mais necessitados que nos revelam quão frágil é a vida. Somos todos irmãos. Cada vida cuidada sinaliza nossa presença, nossa intervenção na humanidade. Nossa ação de fé.

“Na casa de meu Pai há muitas moradas”, é essa a promessa do Filho de Deus. É a fé que nos abre as portas dos Céus. Temos inseguranças diante da morte: medo, lamentação. O útero materno que nos acolheu durante nossa gestação foi nosso primeiro espaço seguro. Dele partimos para onde estamos hoje. Choramos a insegurança diante do novo. O mundo em que vivemos é um novo útero que, apesar dos solavancos todos, nos acolhe. E, desse útero, iremos para onde não sabemos, assim como foi com o nosso nascimento. A crença na ressurreição nos anima a não nos desesperarmos. 

A Páscoa tem símbolos que expressam todos esses significados. O ovo é sinal de vida. Vida que se renova quando se compreende, quando se sente. Ressignificar a própria vida nos ajuda a ser mais doces. Ovos de chocolate. A docilidade diante do outro, a bondade, a generosidade, a compreensão de que nossas relações podem fertilizar uma terra melhor, sem as escravidões contemporâneas. Fertilidade é o símbolo do coelho. Capaz de gerar vidas. Geramos vida não apenas no nascimento de novas pessoas, mas no nascedouro de ideias que combatem a escravidão. O ódio é uma forma de escravidão, a apatia também. As drogas que interrompem a vida jovem é uma escravidão. As lícitas e as ilícitas. O amargor é uma escravidão assim como o é a ausência de sonhos. 

O povo que saiu do Egito significa muito. Sair do comodismo, da alienação, da mentira, da corrupção. E acreditar no novo. Acreditar em um tema que alimente de vida a nossa vida. Os profetas antigos serviam para manter aceso esse tema. Os profetas de hoje nos inspiram com seus atos. Fazem-nos continuar acreditando no ser humano, apesar dos deslizes. Recobram-nos o barro de que fomos feitos. Francisco, o líder católico, alimenta-nos: “Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.” Que o domingo de Páscoa seja a renovação de nossa força, de nossa fé, de nosso amor. Feliz Páscoa!

 

Renova-te.

Renasce em ti mesmo. 

Multiplica os teus olhos, para verem mais.

Multiplica-se os teus braços para semeares tudo.

Destrói os olhos que tiverem visto.

Cria outros, para as visões novas.

Destrói os braços que tiverem semeado, 

Para se esquecerem de colher.

Sê sempre o mesmo.

Sempre outro. Mas sempre alto.

Sempre longe. E dentro de tudo.

Cecília Meireles

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/04/2015

Sexta-feira da Paixão

Desde criança, sempre me impressionei com o sofrimento de Cristo nos episódios que antecederam sua morte. Pregaram na cruz o Pregador do Amor. Flagelaram o Homem que ensinou contra os flagelos impostos aos marginalizados do seu e de todos os tempos. Humilharam o Bem-aventurado que falou e viveu a humildade. Injustiças sempre causaram dor. 

Lembro-me das procissões em minha cidade natal, dos cantos tristes, das encenações da paixão. Caminhávamos em silêncio, até o alto da cidade, revivendo a Via Sacra e imaginando como era Gólgota, lugar em que a Cruz foi fincada e o Homem Bom, crucificado. Depois, na Igreja, lembro-me de toda aquela gente passando para ver o Jesus morto. Queriam tocar na imagem sofrida. As beatas, atentas, ralhavam quando alguém apanhava uma pétala do caixão do Mestre. Eu ficava triste. Enchia minha mãe e meu pai de perguntas. Eles sugeriam que eu perguntasse ao padre. O padre sorria, ao me ver, e dizia: “Lá vem ele, indignado e perguntador”.

Eu queria entender por que Jesus precisava sofrer daquele jeito, entender por que os homens que o saudaram com festa, na chegada a Jerusalém, mudaram de opinião e quiseram vê-lo crucificado. O padre me dava algumas respostas, mas elas não me aquietavam. Nem naquela época nem hoje. Compreendo o sofrimento como parte da vida, mas não consigo compreender a perversidade. O que faz com que algumas pessoas se esforcem tanto para matar outras. Morte física ou moral. Dores no corpo e na alma. Pregos que penetram a pele e palavras que perfuram os sentimentos. Quem somos nós que fazemos repetir a paixão de Cristo em nossa história? Peço sempre a Deus que me livre de julgamentos apressados e de gestos incorretos contra meus irmãos. Não quero jamais perder o inconformismo que me incomodava tanto na infância. Nenhum homem pode ser tratado dessa maneira quanto mais o Filho de Deus. Que esses dias santos nos impulsionem a pensar nos sofrimentos que causamos aos outros. Sempre é tempo de mudar.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 03/04/2015

Sobre a lucidez e a cegueira

“Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.” José Saramago

Há uma obra do genial escritor português José Saramago, chamada “Ensaio sobre a lucidez”, que dá sequência à outra não menos importante, “Ensaio sobre a cegueira”. As angústias frente aos desmandos das ações humanas no poder são as mesmas. Os eleitores, no “Ensaio sobre a lucidez”, num dia cinza e chuvoso, primeiramente, demoram a ir às urnas, o que causa imensa preocupação nas autoridades. Depois saem, quase em bando, o que traz alívio. Mas dura pouco, pois a apuração mostra um número assustador de votos em branco. Convocada nova eleição, o feito piora. A população não aguenta mais os partidos de direita, os de esquerda e os do meio. Os políticos não compreendem o recado e começam a agir de forma ainda mais errática. A mentira se alastra. As ameaças, também. Até que as autoridades resolvem abandonar a cidade. Abandonada já estava ela com atitudes pouco lúcidas de seus governantes. Cegos pelo poder, inebriados pelo isolamento da realidade, enxergavam apenas seus próprios interesses e devaneios.

Lucidez vem de luz. Uma pessoa lúcida é alguém dotado de clareza, de compreensão dos fatos, de percepção da realidade. Há cegueiras em todas as áreas da atividade humana; em outras palavras, há ausência de lucidez. Parece-nos mais fácil perceber a cegueira alheia, olhar com clareza os erros dos outros e lamentar diante do que vemos. Enxergar as sujeiras que nos envolvem parece mais difícil. E esse deveria ser nosso real intento.

Os governantes nascem das comunidades onde estão inseridos. Não caem de planetas longínquos. A expressão “o poder revela o homem” parece servir a homens não preparados para o exercício do poder. Qualquer que seja esse poder. Pessoas com pouca maturidade para tal ou falta de capacidade para enxergar com clareza seus próprios erros e corrigi-los. Porque errar não é tão grave quanto a teimosia de permanecer no erro.
Pessoas revelam-se, não raro, cegas ou pouco lúcidas em cargos de comando. Agem desbaratinadas, atabalhoadas, incorretas porque não estavam preparadas para exercer autoridade. Autoridade não é um exercício de dar ordens, gritar, ameaçar. Ao contrário, é fazer com que o outro seja tão autor quanto eu da demanda que proponho, da ideia que tenho, da ação que realizo. É conquistar o outro para as teses que me parecem mais corretas no exercício do poder. É envolver com honestidade meus governados. Sem mentiras. Sem apelações. Sem arrogâncias. Uma das formas mais comuns da cegueira, no exercício do poder, é a arrogância. O arrogante é dono da verdade. É incapaz de ouvir o clamor daqueles que “votam em branco”, é ausente na escuta democrática, porque imagina saber tudo. O mentiroso é,também, cego. Cria histórias e delas fica refém para se manter no poder. O que ameaça e persegue, da mesma forma, sofre de ausência de lucidez, porque é incapaz de se sentir tão humano quanto seu liderado. Assim também são os perversos, os que gastam o tempo tentando amealhar maldades sobre seus concorrentes. Os cargos passam, a essência humana fica. Apoderar-se do cargo é prova de cegueira. Compreender a efemeridade de cada posição ocupada é prova de lucidez.

Valem estas modestas reflexões para todos os exercícios de poder. Para aqueles que administram empresas ou governos, para os que lideram pessoas em companhias ou nas famílias, os que dirigem pelotões ou grupos de voluntários. O líder não é agressivo, não impõe medo, não se distancia da verdade. Ao contrário, o líder é admirado pela lucidez de suas falas e pela coerência de suas atitudes. É educado para ser competente, humilde e amoroso. É cuidadoso com o que não lhe pertence, mas que cabe a ele administrar.

Somos todos passageiros do tempo. Não permanecemos eternamente nos cargos que ocupamos nem no espaço fascinante deste mundo. Não agarramos o poder e nem a idade que nos convém. Vamos envelhecendo, e os dias vão escorrendo de nossas mãos. Cegos seremos, se nos sentirmos donos do mundo ou das pessoas. Bendita lucidez que faz com que nos reconheçamos pequenos diante da história e, ao mesmo tempo, capazes de gigantescos gestos de bondade. Lúcidos,comandamos melhor o nosso destino e as pessoas que, por alguma razão, estão sob nosso cuidado.
Lembremo-nos de Mandela governando com olhos de amor seu ferido povo. Lembremo-nos de Dulce, a irmã que exercia o poder da caridade. Ou de algum conhecido nosso, anônimo,  que consegue ver os desvarios dos outros e prosseguir lúcido.

Das casas nossas e dos outros, nascem os que governam. Cuidemos, então, da educação. Quem sabe amanhã a lucidez seja uma companheira mais frequente do que a cegueira.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/03/2015

Liberdade, profissão inegociável

Em uma roda de jovens, a discussão sobre o mercado de trabalho e as novas profissões tomou um rumo muito interessante. As incertezas sobre que caminho seguir na vida sempre povoaram a mente daqueles que, ávidos por um futuro, têm a preocupação de não errar nas escolhas. Antigamente, parecia mais definitivo. Cursar uma faculdade era renunciar a qualquer outra possibilidade. Parecia ser aquela a profissão que exerceria a vida toda. Hoje, há maior flexibilidade. Cursar mais de uma faculdade é possível, há cursos de pós-graduação para áreas tão distintas. Há graduações à distância. Mudar de emprego e de área também não é mais incomum. Em outros tempos, os sonhos das famílias para o destino dos seus filhos eram restritos a áreas como medicina, direito, engenharia e algumas poucas outras. Ser doutor era quase uma exigência. Hoje, há incerteza nos pais até na compreensão do que faz o profissional de áreas como mecatrônica, medicina nuclear, ecogastronomia, entre outros. Os cursos de gastronomia, turismo, hotelaria vão ganhando mais adeptos. As áreas todas de tecnologia mostram-se como caminhos interessantes de sucesso profissional. A criatividade, o design, a moda ganham mais força.

Falavam sobre essas questões aqueles estudantes, quando um disse da preocupação com outros jovens que não tinham qualquer preocupação. Daqueles que trilhavam caminhos sem volta. Comentavam sobre os tantos tipos de vícios. Dos amigos que se perdem. Foi quando um deles ensinou: “Ainda não sei que vestibular prestar. Tenho muitas dúvidas. Gosto de muitas coisas. Agora, de uma coisa, eu não abro mão. Da minha liberdade. Liberdade é uma profissão inegociável. O resto, a gente ajeita”.

É isso. Às vezes, há excesso de preocupação com profissões que remuneram mais ou menos e há falta de cuidado com a essência da realização humana. É preciso educar nossos jovens para que saibam dizer “não” a tudo o que retira deles o que de mais precioso eles têm: a liberdade.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 27/03/2015

São José, o educador

No dia 19 de março, comemora-se o dia de São José. São José, o pai nutrício de Jesus. São José, o padroeiro dos operários. São José, o artesão de Nazaré. São José, o santo da simplicidade. São José, o educador do filho de Deus.

A vida de José é narrada nos evangelhos e na tradição dos grandes pensadores cristãos. Carpinteiro, ensinou a Jesus o ofício de talhar a madeira, de tomar cuidado com as ferramentas para não ferir nem a si nem ao outro. Esculpir o formato certo. Fazer com que cada objeto da criação seja útil. Artistas do ofício de fazer peças úteis e belas. Uma cadeira para o descanso. Uma mesa para partilhar. Um armário para guardar o necessário. Um local para servir de aconchego quando se volta ao lar.

No lar de Nazaré, o menino Jesus pode conviver com um homem cioso do seu papel na história. Um contador de histórias, talvez. Jesus adulto gostava de contar histórias e de, por meio delas, desvelar mistérios da alma humana e oferecer ensinamentos para o cotidiano. As parábolas de Jesus nascem de uma mente acostumada a acumular sabedoria. Desde cedo, bebeu em fontes santas e profundamente humanas.

Os textos sagrados não trazem detalhes do dia a dia da pequena família. Maria, a mulher que se acostumou ao silêncio e à profundidade dos dizeres, certamente O embalou em canções de ternura e O ensejou para o protagonismo essencial a todo ser humano. Era ela a mulher escolhida para gerar o Amor e para suportar a dor. No dual dos seus dias, soube inspirar a serenidade. Uma mãe cativante, uma senhora eternamente menina, com títulos tantos para expressar a devoção de povos tantos que, no seu carisma, tentam se animar. 

E José? Sobre o que conversavam? Quais medos tinham? O que os fazia chorar? E sorrir? Saíam para passear? Contemplavam as paisagens daquele local? Como eram as refeições? Diziam o quê, um ao outro, antes de dormir? Amanheciam com quais esperanças?

Na carpintaria, o menino Jesus aprendia na madeira o que haveria de esculpir na humanidade. O Artesão dos homens estava em construção. O ensinamento do Mestre constrói um novo tempo. Era o Amor o Seu tema, e não a vingança. Era de paz que Ele falava e não de acúmulos de ódios ou de posses. Era o abraço ao que estava sem braço por ter sido alijado no caminho. Como José O inspirou a nos inspirar? “O filho pródigo” nos ensina a perdoar e a acolher aquele que se gastou por aí. E nos ensina a estarmos atentos à inveja daquele que se julga sempre correto. O “Bom Pastor” traz o ensinamento de que nenhuma ovelha deve ser deixada de lado. É preciso compreender que cada uma é diferente. E que todas elas merecem atenção especial. Que nenhuma se perca. Precisam elas da voz do pastor. Naquela época, cada pastor que chegava para buscar  suas ovelhas emitia um som que fazia com que apenas as “suas ovelhas” o seguissem, porque elas reconheciam o “seu” pastor. No “Semeador”, a necessidade da boa semente. Da semente que cai em terra fértil. E que é capaz de produzir frutos.

Que histórias José contou para o seu filho para que Ele pudesse depois dizer à multidão que O seguia? Sentavam-se eles no chão, talvez, e revezavam-se no dizer e no preencher de vida os dias de preparação. No chão daquelas casas simples em que moravam, a firmeza do caráter ia se moldando. José ensinava o correto nas palavras e nas ações. No respeito à Maria. No acolhimento às dúvidas do menino, de todo menino que necessita da presença do pai. 

Não sei se José ensinou ao filho lições de matemática ou de física ou de geografia. Não sei detalhes daqueles dias naqueles tempos. Sei que os valores fundamentais que educam o caráter de uma pessoa estavam na lida de São José, o educador. Ensinar a ser bom, ensinar a ser honesto, ensinar a respeitar o outro, ensinar a amar. Amar como fundamento da vida em qualquer profissão. Amar como verbo inspirador de outros valores e ações. Amar como razão de existir. Na carta aos Coríntios, Paulo nos ensina que o amor é paciente, é benigno, não é soberbo nem inconveniente, muito menos interesseiro. O amor não se ressente nem se diminui diante do mal. Ao contrário, regozija-se com a verdade e compreende o tempo.

Quando o coração de José falava ao coração de Jesus, as palavras aguardavam. E, assim, na simplicidade de Nazaré, naquela pequena família, os grandes ensinamentos da humanidade estavam sendo esculpidos. Carpinteiros de vidas. Um Novo Testamento. Uma Nova Aliança. Não mais baseada no “olho por olho, dente por dente”, mas no abraço que conforta porque compreende que, na trajetória, em algum momento, qualquer um dos viventes pode cair e se machucar. Que nunca falte um “bom samaritano” para agir.

Vez em quando, é bom parar e relembrar a vida de homens que nos iluminam em meio às escuridões que nos frequentam.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/03/2015

 

De mãos dadas

“O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. (Mãos Dadas – Carlos Drummond de Andrade)

Relacionamentos são a base da vida em sociedade. Relacionamo-nos o tempo todo, em todos os ambientes que frequentamos. Como somos diferentes, temos reações diferentes nos diferentes momentos da nossa vida. Não somos previsíveis. Mesmo quando repetimos alguns comportamentos, estamos expostos a surpresas e não imaginamos como vamos agir. Nos momentos em que os problemas não parecem tão significativos, conseguimos caminhar sem grandes percalços. Mas quando surgem as adversidades, somos, muitas vezes, vítimas de desejos que não controlamos com tanta facilidade.

Muitos pais se preocupam com a inteligência dos seus filhos. Alguns têm conclusões apressadas, comparando irmãos. Julgando que um filho é mais inteligente do que o outro, porque tem mais facilidade para essa ou para aquela matéria, ou porque é capaz de memorizar textos, ou números, ou dados. Estudos recentes descartam essa métrica de definição de quem é mais ou menos inteligente. As inteligências são múltiplas. E os múltiplos momentos da vida é que oportunizam suas manifestações.

Há uma base de conteúdos que se imagina necessária com a qual cada aluno, em cada etapa da vida, deve trabalhar. Nas diversas profissões também é assim. Há instrumentos que nos permitem trabalhar nesse ou naquele campo. Um médico precisa desenvolver habilidades e competências que nos deem segurança para uma intervenção cirúrgica, por exemplo. E, para isso, estuda com esse foco. Um engenheiro dialoga com números e projetos, e plantas, e possibilidades, cotidianamente. Um artista estuda escolas de dramaturgia para que sua intuição se una a tantas técnicas no ofício de fazer nascer personagens e momentos. E assim se multiplicam as profissões e as suas exigências. Avalia-se o preparo para o trabalho. Mas há algo comum e necessário a qualquer atividade profissional e pessoal, a necessidade de nos relacionarmos.

Valores desenham a face humana que enxerga e é enxergada. Que fala e ouve. Que diz “sim” ou “não”; que escolhe, portanto. Que é capaz de gestos de generosidade e compreensão. No desenvolvimento do trabalho, o jogo da convivência é essencial. Um precisa do outro. Um precisa ouvir o outro – talento difícil em tempos tão apressados e egoicos. Parece que o que outro vai dizer nada tem a acrescentar em meu repertório. Ledo engano. Aprendemos o tempo todo com outras pessoas.

Em uma peça de teatro, cada personagem é fundamental para que a arte cumpra o seu papel. Em um jogo de basquete, também. Em uma agência de viagens ou em um banco ou em uma construção, cada um tem sua função.

Deve nos preocupar o excesso de diálogo com os meios tecnológicos e a ausência das prosas nas relações humanas. Tempos sombrios estes em que nos silenciamos diante do outro. Não praticamos o silêncio da atenção, da escuta, mas o silêncio do aborrecimento, da impaciência, da arrogância. 

O escritor Carlos Drummond de Andrade narra a história de um jardineiro, muito amável, que cuidava com amor e extrema dedicação das flores. Conversava com elas, contava história, ouvia lamúrias de algumas, guardava confidências de outras. Mas tinha problemas com o girassol, que não ia muito com a cara do jardineiro. Mas mesmo assim, ele não deixava de regá-lo e de afofar-lhe a terra. O patrão, incomodado com o longo tempo que o funcionário dedicava às plantas, resolveu demiti-lo. Moral da história:

Depois que o jardineiro saiu, as flores ficaram tristes e censuravam-se porque não tinham induzido o girassol a mudar de atitude. A mais triste de todas era o girassol, que não se conformava com a ausência do homem. “Você o tratava mal, agora está arrependido?” “Não, respondeu, estou triste porque agora não posso tratá-lo mal. É minha maneira de amar, ele sabia disso, e gostava”. (Maneira de Amar – C.D. de Andrade)

A delicada metáfora drummondiana robustece nossa certeza de que as relações ficam muito mais saudáveis quando estamos dispostos a conviver sem a petulância de saber mais que o outro. É com o outro que tenho a nobre missão de caminhar de mãos dadas para não me perder neste mundo tão grande. 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 15/03/2015

E nasceu a mulher

No livro do Gênesis, há o relato da criação da mulher. Nos mitos antigos, também. Deusas e mulheres ocupando espaços. A bela Afrodite que emergiu das espumas das águas do mar. Psiquê que foi se apaixonar pelo homem errado. Ou não. Eros era um deus eternamente menino ou eternamente belo. Adoecido, fez com que o amor desistisse de habitar os homens. E, sem amor, o que somos?

A mulher nasceu muitas vezes. Nas histórias tantas que nos contaram, a mulher teve diferentes papéis. Sofreu as dores de parir e de ser parida em uma sociedade falocrática. O homem era quem saía para a caça e, portanto, tinha a mulher como um objeto seu. Houve sociedades matriarcais, mas em menor escala. As mulheres de Atenas pouco participavam do berço da democracia. Eram os homens que divagavam em elucubrações filosóficas e decidiam nos negócios do Estado. Mulheres medievais, mortas acusadas de feitiçaria. Mulheres escravas, vítimas das dores horrendas e dos flagelos que vinham de todos os lados. De outras mulheres, inclusive. Das sinhás que odiavam as mais belas – cenas de arcadas dentárias arrancadas para que morressem de hemorragia. Tristes marcas de tempos não tão distantes. Sofrem, ainda hoje, as mulheres. Vítimas de estupros em cantos diversos desse planeta. Vítimas de companheiros violentos. Vítimas de condições desiguais no mercado de trabalho. Vítimas, enfim, de preconceitos de uma sociedade que se acostumou a privilegiar o homem.

As leis trouxeram significativo avanço, mas a prática ainda é perversa. Comportamentos inadequados demonstram uma ignorância na relação entre homens e mulheres. Discursos aparentemente generosos colocam a razão no universo masculino e a emoção no feminino. Por quê? Os homens não têm o direito de se emocionar? As mulheres não têm a capacidade de serem racionais? Tratadas como frágeis e necessitadas de cuidados são as mulheres objetos de seus “protetores”. Frágeis, somos todos nós, os viventes. E necessitamos também de cuidados, mulheres e homens. Sem que isso signifique que tenhamos um dono.

Mulheres nasceram e nascem, também, na literatura, na música, nas artes. Protagonistas de dores e amores. De odiosidades e invejas. São Capitus, Dorotéias, Marias, Macabéas, Lucíolas, Beatrizes, Cinderelas, Teresas, Gabrielas. E muitas, muitas outras. Patroas. Amantes. Amadas. Ousadas. Dissimuladas. Musas. Amaldiçoadas. Vítimas ou algozes das paixões. Ditas em versos, em verbos e palavras. “Mulher é desdobrável. Eu sou”, proclama a poeta Adélia Prado. A mulher nasceu para gerar ideias, conceitos, relações, pessoas. Mãe de seus filhos e de seus temas. Sonhadora romântica com companheiros que compreendem o chorar e o sorrir e que, também, expressem sem receios de interpretações apressadas suas dores e utopias. Na literatura de Clarice Lispector, “O destino de uma mulher é ser mulher”, vencendo os obstáculos e a complexidade de ser. Apenas ser. 

Seja o que você quer ser,

porque você possui apenas uma vida

e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que quer. 

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.

Dificuldades para fazê-la forte. 

Tristeza para fazê-la humana. 

E esperança suficiente para fazê-la feliz. 

Clarice Lispector

As mulheres nascem todos os dias. Ou, no dizer de Simone de Beauvoir, “tornam-se”. Mulheres nascem quando assumem o comando da própria história com a liberdade de trilhar os tantos caminhos que a conduzem ao templo da felicidade. Acompanhadas ou não. Solitárias por decisão. Mães por escolha. Livres para esculpir a profissão que lhes convém sem necessidade de autorização. A não ser aquela consentida de partilhar um projeto comum.

As mulheres nascem quando rompem os grilhões do medo de assumir o leme. De levar a nau para onde decidirem. De alcançarem patamares que, até ontem, eram de exclusividade masculina. Chegaram ao mercado de trabalho por luta e por merecimento. Tiveram que provar que são competentes. Provas tidas como desnecessárias aos homens. Mas não se importaram com isso e nasceram para um novo tempo.

Nascerão ainda, sonhamos todos, para tempos que hoje parecem frequentar as utopias, tempos de igualdade real, tempos de respeito, tempos de paz.

Que pretendes, mulher?

Independência, igualdade de condições…

Empregos fora do lar?

És superior àqueles

que procuras imitar.

Tens o dom divino

de ser mãe

Em ti está presente a humanidade.

 

Mulher, não te deixes castrar.

Serás um animal somente de prazer

e às vezes nem mais isso.

Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.

Tumultuada, fingindo ser o que não és.

Roendo o teu osso negro da amargura. 

Cora Coralina

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 08/03/2015 

 

O perfume de Yasmin

Eu tive um irmão com síndrome de Down. Era o terceiro de quatro filhos, e eu era o caçula. Meu irmão cantava e dançava boa parte do dia. Tinha também os seus brinquedos e todo o nosso afeto. Naquela época, a inclusão era ainda uma utopia. Frequentar escolas com outras crianças, aprender e ensinar, conviver,  era, praticamente, um tabu. Minha mãe dedicou a vida a cuidar dele, e nós o amávamos muito.

Dia desses, conheci Yasmin, uma menina com Down que estuda em uma escola municipal e que conversa e que abraça e que ri de pequenas coisas, porque percebe que, nas pequenas coisas, está a alegria. Yasmin me abraçou fortemente, quis ficar no meu colo, encostou a cabeça no meu ombro e, quando a professora quis levá-la, ela explicou: “está bom aqui”. Yasmin trouxe a memória afetiva do meu irmão. Ele faleceu com 33 anos. Cedo demais. Ele foi o meu companheiro de tantas brincadeiras infantis e a minha inspiração para alguns dos meus primeiros escritos. Júnior era o seu nome. O nome de meu pai, um homem bom, que cuidou de todos nós e nos ensinou a amar as diferenças e a compreender a beleza que há nelas.

Sempre defendi a bandeira da inclusão. Alunos com deficiência convivendo com outros alunos, aprendendo juntos o valor da solidariedade, do respeito;  e desenvolvendo habilidades que, todos nós, com maior ou menor dificuldade, somos capazes. Yasmin transmitia a espontaneidade e a alegria tão comuns nas crianças com Down. A professora levou-a com delicadeza, dizendo-me, “essa menina é um presente”. Meu pai dizia isso do meu irmão: “Meu filho Júnior é especial, um presente especial de Deus”.

Há muito a ser feito pelas pessoas com deficiência. A verdadeira inclusão depende de ações concretas em todos os ambientes que eles têm o direito de frequentar. Se olharmos para trás, já evoluímos muito. E assim tem que ser. O perfume de Yasmin frequentou a minha alma naquele dia. Saudade do meu irmão.

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 06/03/2015 

O jardim da infância, o palco da vida

“Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído, é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.” Rubem Alves

Tenho vivido experiências intensas de escuta e de aprendizado nas diversas regiões desta imensa cidade de São Paulo. Encontros com educadores, pais e alunos têm aumentado minha fome de trabalho pela educação. O carinho e a confiança dessa gente aumentam a responsabilidade e a necessidade de prosseguir com coragem e com muita humildade. Humildade de quem aprende com as palavras, com os gestos e com as emoções que têm tornado tão ricos esses momentos. Em um desses encontros com a rede, ao chegar ao CEU Vila Curuçá, um aluno, Nathan Viana, de 13 anos, quis ler um poema seu. Atentamente, eu o ouvi declamar: 

A vida é como lugares,

E esses lugares têm que ser bem utilizados.

 

O primeiro lugar é um jardim

Um jardim bem florido

Quem não aproveitou, errou.

 

O segundo é um túnel com dois caminhos

Certo e errado, muita gente seguiu o errado

Agora está soterrado.

 

O terceiro não tem jardim nem túnel

Ele é só trabalho, só trabalho…

Ele é o lugar para ver se você aproveitou os outros lugares.

 

E o quarto lugar é outro jardim,

Mas é de orquídeas que quando são tocadas fortemente

Suas pétalas caem,

Mas quando são tocadas suavemente se sentem emocionadas.

 

Devemos respeitar esses lugares e cuidar deles,

Porque eles são a nossa vida.

Deu-me o livro de presente, coordenado por duas educadoras, Maria Gorete Cordeiro e Rosmari Pereira de Oliveira. Li vários outros poemas nascidos, certamente, de várias outras experiências de vida. E alimentei-me de esperança. Saraus literários, contação de histórias, violeiros que iluminam as palavras com suas canções. Projetos nascidos da inspiração de professores, bibliotecários, alunos.

Olhei para o Nathan, tão menino e tão cheio de familiaridade com as palavras. Um jardim florido na infância de todos nós, celeiro dos frutos que daremos, dos fluxos que haveremos de viver. Fala o pequeno poeta em escolhas erradas, em trabalho, em suavidade.

Vi-me, ali, na minha infância, quando comecei a escrever. E, em pensamento, fui conduzido pelos versos do Príncipe dos Poetas, Paulo Bomfim. 

EU SOU AQUELE MENINO

Eu sou aquele menino

Que o tempo foi devorando,

Travessura entardecida,

Pés inquietos silenciando

Na rotina dos sapatos,

Mãos afagando lembranças,

Olhos fitos no horizonte

À espera de outras manhãs

(…)

Que varandas me convidam

A ser criança de novo,

Que mulheres, só meninas,

Me tentam cabular

As aulas do dia a dia?

Eu sou aquele menino

Que cresceu por distração.

Nesses encontros, contemplo os talentos que se revelam e me preocupo em abrir as cortinas do palco da vida  para que cada um desempenhe o seu papel. Que se tornem protagonistas da própria história, com um repertório ampliado que lhes possibilite escolher, com uma postura ética, que os ajude a perceber que conviver com respeito é o melhor caminho para a construção de uma sociedade de paz.

Há muitos que ainda estão à margem. Há muitos que padecem da ausência de afetos dentro das próprias casas. Há muitos que engatinham sem perspectivas de levantar porque lhes falta a mão necessária. O amanhã depende do hoje, dos alicerces que estamos levantando. É a educação a política pública garantidora das demais. Todo esforço é essencial para não deixar ninguém para trás. 

Agradeço aos educadores e aos alunos desta rede imensa pela valentia de persistir, de realizar e de sonhar. E pelos jardins que plantam em minha alma.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 01/03/2015