Artigos

Canta São Paulo

Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!
(Florbela Espanca)

São Paulo, a cidade que não para, precisa enfrentar os seus problemas e buscar soluções. O sonho de viver em uma cidade de paz não pode ser abortado. Quantos de nós não viemos de outras paragens para “fazer a vida” na cidade grande! Trouxemos no coração um misto de saudade da partida e de esperança na chegada, alimentados pelo desejo de encontrar, na metrópole, um canto que realizasse o nosso “sonho feliz de cidade”, traduzido na música Sampa, de Caetano Veloso. Confessa, ainda o artista, que é sempre um difícil começo e que, rapidamente, aprendemos a chamá-la de realidade. É assim a nossa cidade. De todos. De cada um. Muitos cantos. Muitas dificuldades. Mas muitos encantos. Acolhedora, gigante e desafiadora. Nessa mistura de gentes, vaivéns coloridos de passos apressados, na “dura poesia concreta” dos cantos e esquinas, convivemos. Conviver é mandatório para os cidadãos. E aprender a conviver é um dos desafios da educação.

Convictos de que a formação musical desenvolve habilidades fundamentais na formação de nossos jovens e crianças, lançamos, nesta semana, o “Canta São Paulo”, um projeto de parceria entre a Secretaria Municipal de Educação e a Secretaria Municipal de  Cultura, juntamente com o Theatro Municipal de São Paulo. O intuito é fazer com que todas as escolas de ensino fundamental tenham pelo menos um coral. Para isso, serão disponibilizadas 500 vagas aos professores da Rede Municipal de Ensino interessados em participar do curso de formação de orientadores musicais com prática coral de conjunto. Esses 500 orientadores musicais constituirão grupos corais nas escolas, formados por alunos de diferentes faixas etárias, pelas famílias, pela comunidade, por educadores. No final do próximo ano, um grande concerto com a participação de todos os alunos, professores, orientadores e tutores envolvidos será  apresentado à cidade. Além disso, os concertos do Coral Paulistano que já fazem parte da programação cultural dos Centros Educacionais Unificados (CEUs)  vão agregar os novos grupos Corais, que passarão a integrar os concertos como forma de treinamento e aproximação das famílias e comunidades.

Heitor Villa-Lobos, nosso genial musicista,  dizia que “É preciso fazer o mundo inteiro cantar. A música é tão útil quanto o pão e a água.” Era um de seus sonhos ensinar as crianças a cantar. Incomodado com o descaso da educação com a formação musical, apresentou um revolucionário projeto de Educação Musical ao grande educador Anísio Teixeira, na época secretário de Educação do Rio de Janeiro. O maestro foi convidado a executar seu projeto que incluía, exatamente, a criação do Canto Coral nas escolas. “A música é um fenômeno vivo da criação de um povo”, ensinava o maestro, magistralmente. Nem é preciso dizer que Villa-Lobos executou o projeto com enorme mestria. Chegou a organizar grandes encontros orfeônicos com até 40 mil alunos!

“A música é um elemento básico e insubstituível na formação espiritual de um povo. A sua função não se limita à importância da formação estética, mas a de assumir um caráter eminentemente socializador. Dentro desse conceito é que foi implantado o ensino da música e do canto orfeônico nas escolas brasileiras. Entretanto, para corresponder à sua verdadeira finalidade educacional, o canto orfeônico não deve limitar-se a uma simples exibição pública das qualidades musicais mais ou menos acentuadas da infância. Mas deve participar da vida cotidiana da escola, conferindo ao ambiente escolar uma impressão de sentimento cívico, de solidariedade e de disciplina”. (Villa-Lobos)

Resgatamos o sonho e o conceito do notável compositor e vamos torná-lo, mais uma vez, realidade.  O Canta São Paulo quer despertar crianças e jovens para a autoria e para o sentimento de coletividade. Fazer da música um pretexto para encontros entre família, escola e comunidade. Integrados. Juntos. Uma só voz, entoada por tantas vozes. Afinados. Parceiros.  A música ajuda a conviver, desenvolve a sensibilidade e as múltiplas inteligências que cada um possui. A música acalma a alma. Semeia paz.

Canto Orfeônico dirigido por Villa-Lobos, em 1942.

Fonte: Instituto de Educação Caetano de Campos
Site: http://www.boamusicaricardinho.com/villalobos_83.html

Canta São Paulo nasce oferecendo, pelo menos,  500 corais para esta cidade. Vozes de negros e brancos, mulheres e homens, irmãos de longe ou de perto, com gostos, palpites, opiniões diferentes que hão de cantar a vida. Somos educadores. Não acreditamos na violência combatendo a violência. Acreditamos na inteligência realizando o seu papel: convivendo em paz, cantando o canto do respeito, da vida, valor inegociável em qualquer canção, ação.

Em pouco tempo, essas vozes serão ouvidas. Preparamos, hoje, o futuro. Em nossas escolas. Em nossas esquinas. Em cada canto, um canto bom. Canta São Paulo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 21/06/2015

 

O mal existe?

A existência do mal foi um dos problemas filosóficos enfrentados por um dos mais importantes pensadores do cristianismo, Santo Agostinho. Agostinho abordou o tema dentro de uma lógica de premissas, para ele,  incontestáveis. As duas primeiras são: “Deus criou todas as coisas” e “Deus é plenamente bom”. Diante dessas assertivas, como encaixar a existência do mal? Se Deus é plenamente bom, não poderia ter criado o mal. Se Deus criou todas as coisas, nem o homem nem ninguém poderia ter criado o mal. Então, o mal não existe?

O mal essencial, talvez, não exista. Na perspectiva agostiniana, o mal é a ausência do bem, é a ignorância diante do que nos faz felizes ou não, como queria outro pensador chamado Aristóteles. Ignorar a bondade nos faz pessoas perversas. Ignorar a beleza da verdade nos faz pessoas despreocupadas com o uso da mentira. Ignorar o respeito ao outro nos faz insensíveis. E assim por diante. Na prática, o mal existe. E é fruto da liberdade do homem em fazer o correto ou se deixar levar por algo que, aparentemente, lhe traga alguma vantagem. O corrupto pratica um mal porque pega o que não lhe pertence. Sua ação é danosa à sociedade. O mentiroso também pratica um mal porque espalha inverdades que visam destruir pessoas ou conceitos. O que trai, o que dá mau exemplo, o que desconstrói histórias de vida, igualmente, pratica o mal.

Imaginemos um jornalista comprometido com o erro, com a mentira, com a injustiça, quanto de estrago ele é capaz de fazer! Assim, também, um pai de família que opta pela violência e não pelo afeto. Ou um motorista que dirija embriagado. Ou um promotor de justiça movido pelo ódio e não pela defesa da sociedade. Na vida, encontraremos pessoas assim. Os bons e os que desconhecem a felicidade serena dos que acreditam no amor. Tenho repetido que nunca vi um perverso ser feliz. São pessoas atormentadas que fazem da vida um tormento para si e para os outros. Gosto de Santo Agostinho e me inspiro nele. Vale a pena ser bom!  

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2015

 

Deus e a ciência

Certa vez, uma jovem estudante enviou uma questão para um dos mais famosos cientistas de todos os tempos, Albert Einstein. A pergunta era direta: “Cientistas rezam”? E ela explicava que se tratava de uma curiosidade que os instigava, ela e o grupo de estudantes do qual fazia parte. Queriam saber se é possível, ao mesmo tempo, acreditar na ciência e na religião.

Einstein respondeu, também diretamente, sem rodeios. Explicou que os cientistas acreditam que tudo o que ocorre no que nós conhecemos, incluindo os fatos da vida humana, deve-se às leis da natureza. Os nossos sentidos são capazes de apreender sobre esses fatos. Entretanto, admite Einstein, o nosso conhecimento dessas forças é imperfeito. Por mais que a ciência evolua, ou quanto mais ela assim o faz, os cientistas que se dedicam seriamente ao seu estudo acabam se convencendo de que um Espírito infinitamente superior se manifesta nas leis do universo. O trabalho científico, conclui ele na carta, leva a um tipo especial de sentimento religioso. Que nada tem de ingênuo.

Com alguma frequência, vejo alguns intelectuais tentando demonstrar que a crença em Deus significa a ausência da real inteligência do homem. Que se trata de uma necessidade de criar Deus para justificar o injustificável e que, com todo o conhecimento disponível, com tudo o que a evolução foi capaz de nos trazer, torna-se desnecessária a existência de Deus.

O papa Francisco, recentemente, falou sobre a convivência entre as teorias científicas e a fé. Buscar explicações para a evolução do mundo não significa desacreditar em uma Força Superior capaz de originar e de gerar a vida. Até hoje, a ciência não conseguiu chegar às razões primeiras de todas as coisas. Há um aspecto a ser considerado entre os ativistas ateus. O tanto que eles falam sobre Deus tentando fazer com que as pessoas deixem de acreditar. Se para eles, Deus não existe, por que gastar tanto tempo com Ele, então? Se alguns ateus criticam os fundamentalistas religiosos – e talvez tenham razão em fazê-lo –, precisam refletir se não estão se tornando fundamentalistas do ateísmo. Os radicalismos, os desrespeitos às crenças diferentes nos separam desnecessariamente. É possível e necessário conviver com as diferenças e aprender com esses convívios.

Desde muito cedo, afeiçoei-me às ciências sociais. Sou um leitor compulsivo. Gosto de estudar os clássicos e de reler teorias sobre temas que me instigam. A fé é um deles. Por um lado, há um caminho interessante a ser percorrido pelos filósofos e teólogos que gastaram a vida para nos dar explicações sobre a nossa presença no mundo. De onde viemos? O que fazemos por aqui? E para onde vamos? Por outro lado, enche-nos de esperança olharmos a fé das outras pessoas. A fé nascida na simplicidade e na experiência com a Bondade Infinita que nos ouve as dores e nos surpreende com milagres cotidianos. A experiência do homem com a natureza, a observação da vida nas suas mais variadas formas, o belo se manifestando em amanheceres e entardeceres frios ou quentes. E o agir humano. A manifesta caridade em mulheres e homens que, alimentados de fé, alimentam os seus irmãos.

É fato que há pessoas que não frequentam nenhuma religião e que praticam a caridade. Mas é fato, também, que a inspiração do que vem de Deus independe das religiões. As religiões deveriam nos religar ao Sagrado. Deveriam nos ajudar na ressignificação do que somos. A nossa relação com Deus repercute na nossa relação com os irmãos nossos.

Quão linda a prática e a oração de Madre Tereza de Calcutá. A mulher que nos ensinou que “quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las”. Ou Francisco de Assis que assim orou: “Apenas um raio de sol é suficiente para afastar várias sombras”.

Os livros nos abrem horizontes, a ciência nos garante mais segurança, autonomia. Retira-nos véus de ignorância sobre os mais variados temas. E é bom saber que os estudos nos trazem novidades constantes. E, ratificando ou retificando verdades, a ciência vai evoluindo. 

Mas, voltando a Einstein, o nosso conhecimento é pequeno demais para compreender a grandeza do universo e de tudo o que existe além do que conhecemos. É preciso humildade para ser cientista e para se ter fé.

Acreditar em Deus não é desacreditar no homem, é – ao contrário – valorizá-lo como a inteligência criada pelo Artista para dar continuidade à obra, livremente, respeitando apenas os limites do amor, como nos ensina Agostinho de Hipona.

Ciência e religião podem, sim, conviver, caminhar em harmonia. Uma ou outra despertam, invariavelmente, em nós, a esperança. O prazer da descoberta. A importância da busca. Einstein, cientista e homem comum, fez das pesquisas e das descobertas a sua fé: “Quando abro a porta de uma nova descoberta já encontro Deus lá dentro.”

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 14/06/2015

Inveja

Tenho um programa de televisão, todas as quintas-feiras, na Rede Vida. Chama-se “Caminhos” e vai ao ar às 23h. O tema desta semana foi “inveja”. Parte do programa é feito com os comentários, acerca do tema escolhido, de meus seguidores no Facebook. As participações são sempre muitas. Mas fiquei impressionado ao ler, em minha fan page, a quantidade de depoimentos sobre este horrendo vício que é a inveja. Pessoas que tiveram suas vidas destruídas. Perderam emprego. Adoeceram. Viram a família sendo arruinada por atitudes inexplicáveis de quem se dizia próximo, amigo.

Gostei de uma mulher, em especial, que deu uma explicação interessante sobre a diferença entre a inveja e a cobiça. A inveja, disse ela, é ainda pior do que a cobiça. A cobiça é desejar algo do outro para mim. A inveja é desejar destruir algo do outro. Ou destruir o outro. Na cobiça, eu quero o lugar dele, o que já não é correto. Na inveja, eu quero acabar com ele, mesmo que eu não possa ter o seu lugar. O que me incomoda é vê-lo feliz. Costumo dizer que o amigo verdadeiro não é apenas aquele que o ajuda nos momentos em que você mais precisa. Talvez isso seja fácil. O amigo verdadeiro é aquele que vibra com suas vitórias, porque não as inveja. A inveja é um caso sério de desamor, por si mesmo e pelos outros. O invejoso é, sem dúvida, atormentado. É mal resolvido. É ausente dos melhores sentimentos. Quem é generoso, paciente, bondoso, definitivamente, não é invejoso.

Diz São Paulo sobre o amor a que ele chama de caridade:  “A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade”. Evidentemente a inveja dos outros nos incomoda, mas vale a pena refletir, se, vez ou outra, esse mal sentimento não nos toma de surpresa. Errar é parte da caminhada. Corrigir e prosseguir, também.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 12/06/2015

 

O menino da porteira

Histórias da nossa infância ajudam a compor o que somos. Revisitar o passado é abrir as portas de emoções que permaneceram e tentar compreendê-las. Tentar, porque as emoções são tinhosas, arredias até. Controlar as emoções é tarefa quase impossível. Talvez consigamos conviver com elas e decidir o que fazer depois que elas vêm. Mas impedi-las de vir, não sei se temos esse poder. O medo, a tristeza, a euforia, a paixão, a raiva, a alegria, esses e outros convivas do nosso sentir vêm. O depois depende da nossa razão, das nossas escolhas, da nossa maturidade. Sentir raiva independe de mim. Não permitir que a raiva faça com que eu destrua o outro depende de mim. Sentir medo não depende de mim. Permitir que o medo me paralise depende. A paixão surge como surge a capacidade de refletir sobre o outro, sobre o amanhã com o outro que agora me toma. Somos assim, frágeis e, ao mesmo tempo, detentores de algum poder que nos leva a não nos deixar dominar por uma parte do que somos. Se não podemos negar nossas emoções, talvez o melhor a fazer seja conviver com elas. Aproveitarmo-nos delas para construir relações saudáveis e abandonar as doentias.

Eu era menino ainda quando fui assistir ao filme “O menino da porteira”. Morávamos em Cachoeira Paulista, interior de São Paulo, e lá não havia cinema. Tínhamos uma casa em Caraguatatuba. Íamos nas férias. Era uma casa simples que tinha apenas um quarto grande, uma cozinha, uma varanda e dois banheiros. Dormíamos todos juntos. Meus pais, eu, meus três irmãos e a Rosa, uma mulher que ajudou a nos criar. Algumas vezes, iam também meus avós e tia Leila. Não sei como cabia todo mundo. Sei que era uma festa, desde os preparos para pegar a estrada até a chegada à praia. Minha mãe passava a noite cozinhando. Levávamos comida na praia. Eu nem dormia na véspera da viagem. Empolgação de criança. A casa ficava na rua do cinema. E foi a primeira vez que fui assistir a um filme.

Assisti a “O menino da porteira”, um dos maiores sucessos da bilheteria da época. Um filme baseado em uma canção. Uma linda canção de Tedy Vieira:
 
Toda vez que eu viajava pela estrada de ouro fino


De longe eu avistava a figura de um menino


Que corria abrir a porteira depois vinha me pedindo


“toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo


Quando a boiada passava e a poeira ia baixando


Eu jogava uma moeda e ele saía pulando

”

obrigado boiadeiro que Deus vá lhe acompanhando”


Pra aquele sertão afora meu berrante ia tocando (….)

Olhos fitos na tela, vivi profundas emoções. A beleza da tela grande. Do som. Das personagens. Da canção. Da história daquele boiadeiro. Tudo aquilo foi tomando conta de mim. Até o final do filme. Voltei para casa triste. Chorei. Fiquei deitado pensando nas despedidas. Não me lembro muito bem dos detalhes do que pensei, lembro que fiquei triste. E resolvi ir novamente ao cinema no dia seguinte e no outro e também no outro. Fui ver seguidas vezes o mesmo filme. E voltava chorando. Era um menino, já disse.

Quando minha mãe quis entender por que eu ia todos os dias, já que todos os dias eu voltava chorando, respondi algo de que me lembro bem: “Será que sempre o menino morre no final”? Minha mãe ainda se lembra dessa história. E de tentar me explicar que era apenas um filme. E que os filmes tinham sempre o mesmo final, independentemente da nossa vontade. A canção que inspirou o filme determinou este desfecho:

Pros caminhos desta vida muito espinho eu encontrei


Mas nenhum calor mais fundo do que isto que eu passei


Na minha viagem de volta, qualquer coisa eu cismei


Vendo a porteira fechada o menino não avistei



Apeei do meu cavalo num ranchinho à beira chão


Vi uma mulher chorando quis saber qual é a razão
”boiadeiro veio tarde, veja a cruz no estradão


Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”

Revisitando esses tempos de inocência, penso em quanto é importante para as crianças os cenários imaginativos das várias linguagens da arte. O cinema, a contação de histórias, as conversas, o território sagrado do brincar e do conviver. Os espinhos todos, nós encontramos e encontraremos na vida. Eles nos causam emoções doídas. Mas se tivermos a oportunidade de uma educação que nos ajude a compreender nossa trajetória e nos ajude a sermos dela protagonistas essas dores nos farão mais bem do que mal. Conhecermos o sofrimento nos ajuda a compreender o sofrimento dos outros e a termos compaixão. Vez ou outra, lembro as dores que já me incomodaram. Irmãos meus que morreram. Meu pai. Amigos que se foram. Dores da injustiça – como doem as injustiças! E me lembro desse filme e daquele menino que eu gostaria que tivesse sobrevivido àquela boiada. A homenagem do boiadeiro ao amigo que partiu, prematuramente, foi o respeito em não mais tocar o berrante naquelas bandas:

Lá pras banda de ouro fino levando gado selvagem


Quando passo na porteira até vejo a sua imagem


O seu rangido tão triste mais parece uma mensagem


Daquele rosto trigueiro desejando-me “boa viagem!”



A cruzinha no estradão do pensamento não sai


Eu já fiz um juramento que não esqueço jamais


Nem que o meu gado estoure que eu precise ir atrás


Neste pedaço de chão berrante eu não toco mais.

A homenagem que tento fazer aos sofrimentos que vivi é tentar compreender os sofrimentos do outro e ajudar o outro a prosseguir. Em outras palavras, é combater, a todo custo, a indiferença. Sou profundamente grato à família que tive e tenho. Aos amigos que fui acumulando. Aos que me estenderam a mão e compreenderam minhas imperfeições. E assim tento agir com os outros que encontro por aí e que de mim precisam. Que as nossas emoções infantis, as ingênuas, as puras, as dolorosas e as alegres nos ajudem a ressignificar nossa vida. O hoje se alimenta do ontem e nos ajuda a escrever o amanhã.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 07/06/2015

O hábito de ser cidadão

Uma senhora de 89 anos está no metrô. Em pé. Segura-se com dificuldade. Há espaço reservado para idosos. A lei garante e a placa sinaliza. Dois jovens estão sentados nesses espaços e fingem estar dormindo. Assim, a consciência pesa menos. Um homem abre o vidro de seu carro, em uma grande avenida, e joga na rua algum lixo que o incomoda. Fecha o vidro e prossegue.  E o pior. Há uma criança no carro. Sentada no banco da frente. Tudo errado. Um casal chega a um restaurante onde há uma fila de espera. O homem saca, discretamente, uma nota de vinte reais do bolso e entrega ao maitre para que providencie rapidamente uma mesa. Não gostam de esperar. Nem de respeitar os outros. Uma mãe para o carro em fila dupla esperando o filho sair da escola. Fala ao celular enquanto disfarça o estrago que faz no trânsito. Ignora as buzinas e o olhar atravessado dos outros motoristas. Um motorista fecha o cruzamento atrapalhando uma fila de carros. Buzinam de raiva. Ele finge que não é com ele. Tem pressa. E é folgado.

Quantos outros fatos do cotidiano poderíamos citar que demonstram o quanto estamos longe de exercer o hábito de ser cidadão? Cidadania não é um conceito distante. É prático. Trata de direitos e deveres. Trata do sagrado direito de ser respeitado e de respeitar. Com alguma frequência, lascamos frases como “Este país não tem jeito”, “Eita povo mal educado”, “O que falta é ética, é vergonha na cara”. Frases que dizem alguma coisa quando são coerentes com quem as diz.

Há um ditado antigo que reza: “As palavras comovem, mas os exemplos arrastam”. A construção da cidadania depende do exemplo cotidiano. De todos. Ou isso ou seremos uma sociedade hipócrita que exige do outro o que não é capaz de fazer. E mais ainda, será difícil formar uma geração cidadã com exemplos tão erráticos. Não se colhe laranjas de um abacateiro.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 05/06/2015

O amor na Festa de São Vito

No domingo passado, fui à festa de São Vito. A festa, já tradicional no calendário da cidade de São Paulo, acontece no bairro do Brás.

Músicas incríveis: cantores se revezam no palco, com canções conhecidas do repertório italiano. Temos muito em comum com a Itália. Nossos gestos durante a fala, nossa irreverência nos comentários, nosso jeito brincalhão de viver a vida. Bailarinos também se apresentam. E muita, mas muita comida.

Comi um macarrão delicioso. E uma Ficazza de entrada. E uma outra entrada com berinjelas e cebolas muito bem temperadas. E também uma deliciosa Ficazzella. Ah, ia me esquecendo de que comi, ainda, polenta com queijo. Vou deixar a sobremesa para contar em uma outra ocasião. Mas não foram poucos os deliciosos doces que ornaram nossa mesa.

Andei um pouco pela festa e conversei com muitas pessoas que estavam ali, em família, para aproveitar a alegria, o prazer da convivência. Conheci muitos voluntários que todos os finais de semana deixam seus afazeres para trabalhar na festa que tem, também, como finalidade ajudar uma creche cuidada com muito carinho por professores e voluntários da comunidade.

Dentre as tantas histórias que lá ouvi, uma foi especial pelo tempo de um amor que foi se transformando e permanecendo. É a história da Neide e do Modesto. Casados há 56 anos, namoraram outros seis. E continuam contando histórias um sobre o outro. Em um determinado momento, ele me disse de uma viagem que fizeram à cidade de Polignano, na Itália. Contou da emoção, das lágrimas que brotaram dos olhos em um amanhecer repleto de gratidão de sua amada. Ela contou histórias sobre ele e sobre o quanto ele gosta de contar histórias. Um falava delicadamente do outro. Quase que em segredo. “É a melhor companheira que a vida podia ter me dado”, “É um homem bom, maravilhoso”. Perguntei sobre brigas. Disfarçaram quase que me explicando que essas coisas não contam. Ficaram no tempo os estranhamentos. Sobreviveram a eles. E chegaram aos tempos da cumplicidade. Fiquei fascinado com os dois. Quanta história! Quantas lágrimas regando cicatrizes e acalmando os dias que ainda viriam! E vieram. E os afetos foram amadurecendo e decidindo que o melhor era permanecer.

Casais assim servem de exemplo em tempos em que o descarte parece mais fácil do que os encaixes. Pessoas perfeitas não existem. Existe a complementaridade. O respeito. Os dois, Neide e Modesto, mais de uma vez, falaram em respeito. E muitas vezes em amor.

Esqueci-me de dizer que comi um delicioso Riccitelli. Saí de lá bem alimentado. De deliciosas iguarias. De histórias de amor.

Fica a sugestão para visitar a festa de São Vito que vai até o dia 5 de julho. Há 97 anos, nossos irmãos italianos reúnem-se em torno da Paróquia de São Vito, santo de muitos devotos na Itália, protetor dos jovens, dos artistas e daqueles que, por um acidente de percurso, tornaram-se dependentes de droga. Santo conhecido por acudir aqueles que padecem de doenças nervosas. Tradição trazida pela comunidade italiana de nossa cidade que se mobiliza todos os anos para a grande festa. Festa alegre! Colorida!

Vale a pena saborear as comidas preparadas pelas “mammas” de São Vito, senhoras de cabelos brancos e largo sorriso, que comandam as enormes panelas fumegantes. Mulheres incríveis que sorvem o prazer do cozer, do fazer, do conviver.

E quem sabe você consiga encontrar o adorável casal de que falei ou algum outro ou ouvir alguma história de uma das “mammas”.

No dia seguinte, tive que dobrar o tempo da corrida para gastar as calorias. Mas o melhor é que, até hoje, estou revivendo o que vivi. Viva São Vito! 

****

97ª Festa de São Vito

Quando: De 23 de maio até 5 de julho de 2015.

Todos os sábados e domingos, a partir das 19h

Onde: Praça de alimentação – Rua Polignano A Mare, 255, Brás

Cantina – Rua Fernandes Silva, 96, Brás

Quanto: Praça de alimentação – R$ 5 couvert artístico

Cantina – Sábado R$ 65; Domingo R$ 30

Mais informações: www.associacaosaovito.com.br

 

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 31/05/2015

 

Lembra de mim?

Ouço com alguma frequência esta pergunta: “Lembra de mim?”.  Às vezes, lembro. Às vezes, não, como todo mundo. Fico um pouco preocupado em responder que não lembro. Acho deselegante, afinal, a pessoa vem com tanta expectativa que não me parece correto desapontá-la. Mas também não gosto de mentir. Então, fico revirando minha caixa de memórias para tentar identificar o meu interlocutor. Exatamente como na divertida crônica de Luis Fernando Veríssimo: O grande Edgar. Só que, nessa história, a confusão era ainda maior, pois o interpelado não era quem o interpelador pensava que fosse.

De qualquer forma, quando sou surpreendido com a fatal pergunta, costumo sorrir, esperando  que a pessoa diga, naturalmente, de onde nos conhecemos. Algumas me salvam nessas embaraçosas situações, dizendo: “Lembra de mim? Fui seu aluno na PUC!”.  Ufa, fica mais fácil.

Dia desses, um homem me abordou e demorou a dizer de onde nos conhecíamos. Ele falou: “Professor, não tem como o senhor se lembrar de mim. Fui seu aluno no Colégio Friburgo, em Santo Amaro, há mais de 20 anos. Eu era um adolescente e nunca mais me esqueci de suas aulas”. Contou-me algumas histórias que eu contava, lembrou-me de alguns projetos. Fiquei comovido. Disse-me ele que tinha muitos medos e que eu fui significativo em sua transformação.

Sou muito grato por esse ofício de ser professor. Não sei com quantos alunos, em todos esses anos, tive a honra de conviver. Sei do poder que temos quando entramos em uma sala de aula e nos deparamos com mulheres e homens carentes de espaços e de orientação para que protagonizem a própria história. Lembro-me de professores inesquecíveis que me alimentaram de futuro e que me ajudaram a compreender que eu poderia fazer escolhas corretas. Ao final da conversa, agradeci o carinho e disse-lhe que, agora, seria eu a não me esquecer de sua gratidão. Coisas da vida. Como diria Guimarães Rosa, “Mestre não é aquele que ensina, mas quem de repente aprende”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 29/05/2015

Chaplin, o musical, a inspiração, o talento

Estreou, no Theatro Net São Paulo, “Chaplin, o musical”.  Só essa notícia já mereceria uma comemoração. Musicais ajudam a cidade a solidificar, cada vez mais, sua vocação como Capital da Cultura. São Paulo, que já foi considerada a locomotiva do Brasil pela sua indústria, vai se firmando, hoje, em outras áreas. A cultura é uma delas. Peças de teatro, cinemas, museus, exposições, saraus literários em todos os cantos da cidade, e tantas outras manifestações culturais, agradam os paulistanos e atraem turistas de dentro e fora do Brasil. Mas a estreia de “Chaplin” tem outros ingredientes que merecem ser degustados com prazer.

Chaplin é um dos maiores artistas de todos os tempos. Fazia emocionar sem nada falar. Na delicadeza dos seus gestos, dizia o que era necessário. Brincava com o cotidiano. Cotidiano duro teve o menino que nasceu em Londres, que viu o pai humilhar a mãe, que viu a mãe se acabando, que foi criado em um reformatório, que fugiu da polícia e assim segue o seu doloroso início. Sobrevivente dos solavancos, estreou no cinema e foi construindo uma carreira que conquistou o mundo. Ator, diretor, produtor, homem carente de dizeres que melhorassem o mundo. Errou, certamente, como erramos todos nós. Seus erros, entretanto, exilaram-no, roubaram dele o que o fez ser amado. E todos esses percursos surgem de forma correta neste musical. Em “O Grande Ditador” Chaplin, enfim, fala. O cinema estava mudando. E o seu texto traz para o contexto daqueles tempos um alento de esperança:

“Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objetivo. Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém.

Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos.

O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho. 

A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.

Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados:

As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.

O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos céticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.

Pensamos em demasia e sentimos bem pouco:

Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;

Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.

Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”

Trecho do filme “O grande ditador”, de Charles Chaplin. Tradução: Fernando Barroso.

A outra notícia boa é que a montagem brasileira de “Chaplin, o musical” é simplesmente genial. Jarbas Homem de Mello é Chaplin. Que perfeição! É o ator se entregando à personagem. E emocionando. O elenco todo está muito bem. Direção, direção musical, coreografia, figurino, cenografia. Enfim, aplausos ao talento do artista brasileiro e à coragem e determinação dos produtores. Este musical é produzido por Claudia Raia e Sandro Chaim.

Quem puder vá ao teatro. Esta peça é uma homenagem não só ao genial Charles Chaplin, mas à genialidade do que somos capazes de fazer por aqui.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/05/2015

 

 

 

Onde anda a verdade?

Bons tempos os nossos em que as mídias sociais surgiram para democratizar a informação e aproximar as pessoas. Com alguns toques, podemos divulgar uma ideia, um evento, um chamamento a uma causa. Em pouco tempo, milhões de pessoas poderão se conectar com o que se quer apresentar. De lançamento de livros a defesa de conceitos. Desde a mobilização para uma caminhada em defesa de algum ideal até a venda de móveis ou imóveis. E tantas outras benesses. Podemos pesquisar sobre pessoas com as quais vamos nos encontrar. Sobre temas. É muita mudança em pouco tempo. Esse é o lado bom. Mas há um outro lado e, sobre esse, é preciso nos debruçarmos com alguma frequência, pois se refere a um valor que é essencial para a vida em sociedade: a verdade.

Onde anda a verdade nestes tempos virtuais? Quantas histórias absurdas são acessadas por pessoas, de todos os cantos, que acreditam no que é absolutamente mentiroso? Desde o erro até a perversidade. O erro pode ser um texto atribuído a Clarice Lispector, por exemplo, e que ela nunca tenha escrito. E de um em um, a mentira vai ficando verdadeira. Pode ser que o primeiro a afirmar tenha feito não por maldade, mas por descuido. E há o perverso. Aquele que quer destruir a imagem de alguém e que cria histórias mentirosas para que os que sofrem com a ausência de senso crítico as divulguem. Tenho escutado as mais absurdas histórias de pessoas que leram no Facebook ou no Twitter, ou em algum blog, alguma informação sobre alguém e resolveram acreditar e decidiram espalhar. Cenários ruins para quem preza a verdade.  

Podemos criticar, opinar, convergir ou divergir; tudo isso enriquece a democracia. Mas inventar é tosco, desonesto e só colabora para que o erro se sobreponha ao correto. Antes de espalhar o que se lê, não custa um pouco de cuidado. Estamos falando de vidas humanas e de seus ideais. De pessoas e de biografias que têm sentimentos e serviços prestados a uma causa. Um pouco de cuidado não faz mal a ninguém.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 22/05/2015