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Razões para ser feliz

Conversa um casal de amigos sobre os dissabores dos seus tempos. São amigos há algum tempo, ou melhor, há muito tempo. Conversam sobre as adversidades, sobre os intransigentes. Sobre os que perderam, ou nunca tiveram, a capacidade de compreender. Lamentam a secura dos dizeres. São econômicos alguns dos seus interlocutores, quando se trata de algum elogio. São fartos, os mesmos, se o assunto é algum maldizer. Falam ou teclam barbaridades sobre vidas alheias. Sem nenhuma necessidade. Pensam eles.

Viveram muito, os dois. Viram mudanças de estilo de vida e de companhias. Alguns amigos já partiram. Foram embora sem serem comunicados. É assim que é. A morte não envia cartas para que se preparem, para que façam as devidas despedidas. Mas seria melhor se fosse diferente? Se fôssemos comunicados com dias ou meses ou se soubéssemos, desde que tivéssemos a idade de algo saber, a data do fim de nossa permanência por aqui? Concordam os dois que o melhor é prosseguir, prosseguindo.

Voltam o assunto para outra direção. Riem de algumas lembranças. De esquisitices. De manias que, a poucos, revelaram. Tiveram receios de serem tachados de estranhos e segredaram esses traços. Entre os dois, entretanto, há luz suficiente para que se vejam como são. Os anos emprestaram essas intimidades. Gostam de remexer no baú de memórias onde moram sentimentos lindos que jamais deixaram de permanecer. Moram pessoas que, aparentemente ausentes, continuam. Não fazem isso como fuga. Nem tem a incorreção de comparar os tempos de hoje com os tempos de outros “hojes” – que outros chamam de ontem. Mas ontem era hoje. E se foram. Ou não. Quem entende o tempo? Seria melhor entender? Seria melhor se soubéssemos, hoje, o que aconteceria amanhã? Os amigos comungam a delícia das surpresas e o prazer de serem surpreendidos pelos enlaces não planejados. Amaram e foram amados. Choraram as despedidas. Recobraram os desejos. Despediram-se novamente e, novamente, viram surgir uma silhueta nova, um olhar que dizia, um toque que acordava.

Acordaram de muitos sonambulismos. Perplexidades com a crueldade alheia criaram feridas que foram cicatrizadas. Não se ocupam muito delas. Sabem que as razões para ser feliz são muitas, desde que não se remexa no não acontecido. Lamentações têm o seu tempo e o seu espaço. Já a felicidade é uma brisa sem a qual não se poetiza a caminhada. E, sem poesia, eles não estariam ali. Conversando. Rindo. Apalpando momentos e planejando amanhãs. São quase centenários. Vivem em uma casa com outros que ali optaram estar ou por ali foram deixados por familiares sem tempo. Fazem planos para uma festa em que comemorarão alguma data. Esquecem-se de coisas próximas e se lembram das que se foram há muito tempo. E gostam de falar sobre elas.

Vez ou outra recebem visitas inesperadas. E se satisfazem com elas. Aproveitam para falar. Para contar histórias vividas ou romanceadas. Quando inventam algo mais picante, riem por dentro e, depois, gargalham sem testemunhas quando a visita se vai. Divertem-se por serem tão convincentes.

Creem em Deus e, por isso, rezam. Lembram-se dos que se foram e pedem uma partida serena. Sem solavancos. Sem dores exageradas. O bom seria se fossem em um dia ensolarado, não muito quente. Se pudessem viver o amanhecer do lado de lá, na claridade que o Amor preparou.

Mas não têm pressa de partir. Gostam de estar ali. E de compartilhar tantos instantes. Em um silêncio qualquer, respiram de prazer. De viver.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia e Diário de S. Paulo) | Data: 18/09/2016

O Amor e as Imperfeições

Era um dia qualquer. Hora do jantar. A filha, quase adolescente, tinha os olhos marejados. Chorara solitária lamentando algum erro.

A mãe e o pai, atentos, perceberam logo. A mãe disse à filha que depois conversariam. O pai quis saber o que ocorrera. Entre eles havia diálogo. E ternura.

O irmão mais velho estava apressado. Mas guardou sua pressa e permitiu que a irmã dissesse algo. Ela não quis dizer. Pediu desculpas, mas preferia o silêncio e, se possível, ir para o quarto. O pai lhe disse que poderia ir, mas, se ela não dissesse o que estava acontecendo, ele ficaria muito triste. Ela era sua filha, o seu amor. E ele estava ali para emprestar a sua ternura, qualquer que fosse o ocorrido.

A filha chorou e, entre soluços, soltou: “Eu errei”. E não conseguiu prosseguir. O pai a abraçou e emendou: “Eu também”. A filha olhou para o pai e quis saber quando. O pai prosseguiu: “Hoje”. Deu uma pausa e seguiu: “Ah, ontem, também”. E mais um silêncio e uma troca de olhares: “E, também, antes de ontem”. A filha sorriu. “Pai, estou falando sério. Tirei nota baixa. Isso nunca tinha acontecido. Fiquei nervosa. Não sei o que aconteceu. Era prova oral. Eu…”. O pai interrompeu a filha e levantou o copo com suco. “Vamos brindar”. “Brindar?!”, estranhou a esposa. “Brindar a imperfeição da nossa filha. Ela é como nós. Ela erra. Que bom. Ela é humana”. A filha abraçou o pai, sorrindo.

Cena do cotidiano de uma família. Poderia ter tido outro desfecho. Há pais que projetam nos filhos o sucesso que não obtiveram na vida. Há pais que sonham com filhos perfeitos. Que não erram jamais. Que não demonstram nenhuma fragilidade. Que sejam heróis. Os heróis de verdade não são os que não cometem erros. Os heróis de verdade são os que se preocupam com os erros dos outros e com os próprios e que se põem a caminhar fraternalmente. Nas quedas, é bom encontrar uma mão que nos ajude a levantar e um abraço que nos ajude a perceber que não estamos sós. Nas quedas, é bom saber que a vida prossegue. E que os instantes se sucedem nos explicando que o tempo do amor tem o poder de cicatrizar a dor.

O problema da menina pode parecer simples. Uma nota baixa. Mas um vulcão de medo a tomou desprevenida. Medo de não dar certo na vida. Medo do erro. Medo de não ser amada por isso. O pai mostrou o cenário correto. Todos nós erramos. E os erros nos humanizam! Os erros nos aproximam. Os erros nos preparam para o acerto maior. Ter um norte na vida. Um tema. Uma disposição para cuidar e ser cuidado. Amar e ser amado. Generosamente. Brindemos a família, então. A que erra. A que ama.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 11/09/2016.

Um Pouco de Lucidez

Uma criança usou toda a sua autoridade para dizer “um pouco de lucidez” e prosseguiu com a serenidade tão cara aos sábios, “um pouco de lucidez, por favor!”.

Era uma destemperança de adultos. Não ouvi o início da conversa, mas ouvi o tom belicoso com que se tratavam. Um interrompia o outro. Nenhum dos dois concluía o próprio pensamento. Cortavam-se mutuamente. Alguns cortes demoram a cicatrizar; por isso. é melhor ser cuidadoso. Não estavam sendo cuidadosos aqueles dois. Aqueles dois adultos. E a criança deixou a conversa prosseguir por algum momento. Talvez tivesse a ilusão de que se entenderiam. Talvez tivesse visto cenas boas que lhe comprovassem quanto os dois se amavam. Não fosse isso, não estariam juntos. Mas o amor nem sempre traz razão às emoções teimosas. E os que se amam, por vezes, esquecem-se da beleza do amor. E se perdem em desnecessidades. Permitem que surjam intrusos.

A criança queria apenas lucidez. Não sei onde lhe ensinaram essa palavra. Lucidez tem uma possível origem na palavra latina “Lux”. A luz dissipa as sombras que escondem parte do que precisaria ser conhecido para se chegar a conclusões mais acertadas. Os dois estavam sem luz. Não apenas os dois. Adultos precisam ouvir mais as crianças. Os anos vão nos acumulando imprecisões, vícios, precipitações, teimosias. Perdemos a espontaneidade. Cercamo-nos de defesas erradas e, por isso, atacamos. É assim nas relações de paixão e de amizade. É assim na política. Ou nas crenças religiosas. Ou nos comportamentos. Vestimo-nos de verdades absolutas e impedimos a luz de nos mostrar outros caminhos possíveis. E há outros, certamente, além daqueles que estamos vendo. A falta de luz, lucidez, faz com que não consigamos ver além da nossa teimosia.

Os teimosos estão com as pedras nas mãos. Nas ruas e nas mídias sociais. Estão cheios de razão sem razão. Decididos a cortar quem pensa diferente. Mas como exigir que todos pensem da mesma maneira? Nem aqueles dois, os pais da criança, conseguiam pensar da mesma maneira. Pelo menos não naquele momento em que o filho tentou pôr fim aos exageros. Não gosto de exageros. Nunca nos caem bem. Os exageros são as locomotivas para os fundamentalistas, para os radicais, para os que agem longe da luz.

Resolvi cumprimentar os pais pelos ditos do filho. Disse-lhes que devia ser fruto de uma educação cuidadosa. Sorriram-me os dois. Agradeceram e prosseguiram. Lúcidos.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 04/09/2016

Um Rio de Possibilidades

E o carnaval carioca encantou mais uma vez o mundo. E não era fevereiro. Nem março. Eram as Olimpíadas que chegavam ao fim. Atletas e amantes do esporte e do belo se encontraram na Cidade Maravilhosa. Outros, olhos fitos na tela, assistiram às competições. Era o Rio mostrando que fora esculpido com especial carinho pelo Artista. Mares e picos de montanhas. Florestas. Enredos de mistérios. Por que tanta beleza em um só lugar? E há o carioca e os que vieram aqui viver. Ontem e hoje. Mulheres e homens que fazem os 450 anos desta cidade. Arquitetos de obras que permaneceram e de risos que encantaram. A experiência de viver o Rio é inesquecível. Os muitos brasis se encontram por aqui. Alguns vêm a passeio e ficam. Outros se vão por necessidade. Fico imaginando os turistas se despedindo depois de tantos encontros. Encontrarão razões para voltar, certamente. É um rio de possibilidades esta cidade.

Lembro-me de minhas primeiras impressões, ainda criança, quando desci a serra e atingi o paraíso. Minha tia ainda mora na Tijuca. Meus tios que moravam em Vila Isabel já nos olham do alto. Tenho primos por aqui. E amigos. Muitos. Fui crescendo e me dividindo entre Rio e São Paulo. Nasci no meio do caminho. De Cachoeira Paulista, vinha passar as férias. Ver os shows. Os teatros. Vinha passear no calçadão. Vinha viver a tal carioquice. As escolas de samba sempre me surpreenderam – que capacidade é essa de contar uma história, de popularizar um tema em uma hora e alguns minutos? E a comunidade, comungando desse tema e da tradição de prosseguir, obedecendo ao compositor “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar”.

O Rio das letras, das artes, das paixões. Quantos poetas aqui se inspiraram. Quantos cantores se alimentaram de amanhãs, extasiados com a “princesinha do mar”. A ousadia de ontem ainda vive. E há o futuro. Há jovens com o direito de cumprir uma missão, um tema de vida. Que podem olhar para a sina de Machado de Assis e imaginar, “eu também posso”. Também quero uma “Carolina” para ser cúmplice por toda a vida. Também busco folhas para escrever a minha história.

Gosto de ouvir histórias. Sou escritor. Preciso delas para alimentar meu ofício. Vou partilhar algumas por aqui. Muitas vividas nesta cidade. Outras, em outros cantos deste fascinante país. Somos muitos e um só. Que a palavra seja um instrumento para exprimir esses encantamentos de cada canto que a vida nos proporciona.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia) | Data: 28/08/2016

Saudade de mim

Assim ela me disse em uma manhã ensolarada:
“Saudade de mim…”. “Tenho saudade de mim”.

E relatou a sua história. :
Depois de alguns anos de namoro, apaixonou-se por outro. Ficou em dúvida se prosseguia a sua relação ou se buscava viver o que acabara de aparecer.

Quem chegou chegou dizendo palavras de amor. Fez promessas de tempos únicos para os dois. Alimentou-a do que ela sentia falta. O outro namorado já estava acomodado com o tempo de convivência. Parecia uma relação boa, mas sem a quentura que é tão atraente quando se fala de amor.

Entre os dois, ela ficou. O primeiro trazia estabilidade. Ela o amava. Definitivamente, amava-o. Gostava de estar com ele. Gostava de sua disponibilidade em dela cuidar. Mas o segundo era como um furacão. Os dizeres. Os toques. Os olhares. Sentia-se mal. Não queria enganar alguém com quem dividira tantos momentos de encantamento. Mas como desperdiçar alguém que chega assim com tanta fome de paixão?

Ao segundo, explicou que tinha o primeiro. O segundo disse que esperaria algum tempo, mas que se sentia mal em saber que “o amor da sua vida” ainda tinha outro. Ela falava que não sentia nada pelo outro, mas que não era fácil terminar uma relação em que não havia brigas, não havia desrespeitos, havia apenas a ausência do que hoje ela sente pelo que chegou. O que chegou gosta do que ela fala. O amado é ele. O outro é apenas uma acomodação, e o tempo vai fazê-lo partir.

O tempo, em vez de trazer alívio, trouxe angústia. Como atender ao telefone do que chegou se, o que estava, estava perto? Buscava ficar sozinha para falar com o outro.

O outro não gostava de ligar e de demorar para ser atendido. O outro era mais exigente. Ela tinha que decidir.

Resolveu dizer ao amor que chegou primeiro que não mais o amava. Não foi fácil a preparação. Chorou sozinha imaginando a dor que poderia causar a alguém que a fizera tão feliz. Mas era preciso ser sincera com ela e com eles. Falou, então. Fez uma introdução permeada de choros e de dizeres desnecessários e falou. Disse que havia se apaixonado por outro. Que o que eles viveram foi lindo, mas era preciso mudar a página. O que ouviu fez-se de compreensivo. Disse que jamais queria vê-la infeliz. Que o amor é assim. Ela achou que ele aceitou muito passivamente a despedida. Sentiu-se confusa. Um pouco aliviada e um pouco desprezada. Imaginou que haveria muito choro. Só ela chorou. Imaginou que ele dissesse que faria qualquer coisa para não perdê-la. Não foi isso o que ele fez.

Com a cabeça inquieta, foi encontrar o que chegou e contou a história à sua maneira. Disse que foi difícil. Que ele prometeu jamais esquecê-la. Que chorou muito. Que imaginava que envelheceriam juntos. E continuou com sua narrativa inventiva e dramática. O que chegou ouviu e sugeriu a ela que não deixasse o outro. Que ele estava inseguro em entrar em uma relação assim. Que havia pensado melhor e que, talvez, não fosse justo desmoronar uma casa que, há muito, já os aquecia. Ela ouviu estupefata e começou a cobrar as palavras de antes. As exigências de que ela fosse apenas dele. O amor que ele jurara ter por ela. Ele foi carinhoso, mas não como antes. Ficaram juntos algumas semanas. Foi quando ele resolveu terminar. Subitamente. Juntos, não eram como ele tinha imaginado.

Ela não sabia o que fazer. Chorou muito. Viveu tempos inseguros. As semanas com o novo amor não foram leves. O peso de aguardar sua ligação. O incômodo de ligar e se sentir incomodando. A vontade de ligar o tempo todo. Por que ele mudou?

Ligou para o outro. Que a atendeu carinhosamente. Disse com docilidade que tinha saudade. Ele falou que seria bom se um dia saíssem todos juntos. Os dois casais. Falou que estava namorando.

Ela ouviu com dor esse relato. Não disse que havia terminado com o tal amor da sua vida que chegou fazendo tanto barulho e se foi deixando nada. Disse que sim. Que, certamente, marcariam para saírem juntos.

Desligou o telefone e ficou envolta em dúvidas. Ele já estava com outra antes de eles terminarem? Por isso ele aceitou sem reação alguma? Conheceu depois? Tão rapidamente? Pensou em ligar para o outro. Não. Não faria isso.

Fez. Ligou. E o outro atendeu friamente. Estava ocupado. Ocupou-se tanto dela antes. E, agora, ela era um estorvo, apenas.

Foi quando a encontrei em um dia ensolarado. Contou-me e esperou resposta. Disse que tinha certeza de que o amor verdadeiro era o primeiro. Mas que, agora, parecia não ter conserto. Depois, confessou que quem ainda ocupava seus pensamentos era o segundo. Por fim, confessou. Gostaria de, pelo menos por um tempo, não pensar nem no primeiro nem no segundo. O que achei bom, mas difícil. Em matérias de paixão, os pensamentos não permitem que decidamos nós em quem pensar.

O dia estava ensolarado. Bom sinal. Em um outro dia assim, ela vai abrir a janela e perceber que passou. Talvez passe pela sua cabeça ter feito a escolha errada. Talvez, não.

Escolhas são sempre desafiadoras. O amanhã nasce hoje. Parece desnecessário lembrar. Não é. Não temos a máquina que nos faz voltar no tempo para arrumar as coisas nem a máquina que nos permite ver o que será o futuro.

É um aprendizado separar a serenidade de um amor dos solavancos de uma promessa de amor. Espero que ela se encontre. Sentir saudade de si mesma foi um bom começo.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 26/06/2016

Ele é importante?

Foi essa a pergunta que um conhecido fez a mim sobre uma pessoa que acabara de entrar em um evento: “Ele é importante?”. “Como assim?”, perguntei. Meu interlocutor disse que costuma ir a eventos para conhecer pessoas importantes. Que isso é muito importante. Há pessoas que importam e outras que não importam, pensa ele. Fiquei estarrecido. Sei que há muitos que assim agem, mas disfarçam. Esse foi direto. Queria apenas conhecer pessoas importantes.

Não sei o que significa uma “pessoa importante”. Para mim, todas as pessoas o são pelo simples fato de serem pessoas. De existirem. De fazerem parte de um mundo em construção. Construir relações baseadas em algum interesse é sempre frustrante.

E pobres daqueles que, ao serem incensados por terem um cargo de destaque, por terem dinheiro, por serem considerados uma celebridade, mudam o comportamento e se alimentam desses aduladores. Ser importante é circunstancial. Ser amigo é essencial. Os que se iludem com as circunstâncias, certamente, conhecerão o abandono. Os que buscam “pessoas importantes” mudam sua busca de acordo com o momento. Se alguém se fascina com o importante que chegou, seu fascínio mudará quando outro importante chegar. O fato é que os verdadeiros amigos se revelam nos momentos de infelicidade, nos momentos em que a vida nos faz experimentar as quedas, nos momentos em que, mesmo não sendo “importantes”, temos importância. Relações descartáveis não prestam para nada

O importante é construir laços de amizade. É sentar com um amigo que não tenha nada para oferecer além do tudo que representa uma amizade. Conversar pelo prazer da prosa. Encontrar-se pela poética do encontro. Sentir o calor que o outro pode me proporcionar, porque está vivo e, se está vivo, é capaz de aquecer. Apenas isso. Nada mais triste do que não ter amigos. Ao final do evento, fui para casa pensando nisso. E agradecendo a Deus pelos mestres que tive e tenho na vida e que me ajudam a ter sempre os pés no chão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 24/06/2016

Aos que aqui ficaram

O desamor matou mais uma vez. O ódio pareceu vitorioso no triste fim de vidas que buscavam alguma alegria. Era uma boate.

Poderia ser um clube. Uma escola. Um cinema. Um prédio de trabalho. Uma praça. Uma rua em que atletas corriam. Esses lugares também foram manchados por radicalismos criminosos.

Como virar a página? Como chorar a dor das famílias buscando algumas ações que garantam que outras famílias não enterrem seus mortos, vítimas desses horrores?

A palavra do Papa Francisco é sábia. Mais uma vez. A de Barack Obama, também. Já a de Donald Trump, lamentável. O discurso do ódio nunca conseguirá combater o ódio. Violência não se combate com violência.

As superficialidades só interessam aos demagogos. Precisamos de um aprofundamento nas causas que geram esses monstruosos crimes. Educamos para o respeito ou para o escárnio? Buscamos uma convivência harmoniosa ou uma disputa desenfreada por saber quem é o melhor? Damos o exemplo da tolerância ou nos julgamos acima dos que imaginamos diferentes de nós? E falo da tolerância no seu sentido mais pleno. A tolerância que significa respeito à riqueza do outro, daquele cuja diferença me ensina, me complementa, me faz melhor. Não é a tolerância em estado dicionário que denota suportar, aturar aquele que pensa, vive e ama diferente de mim. Esse é o significado da tolerância que alimenta o falso sentimento de superioridade em relação ao outro. Não há pessoas de primeira ou segunda categoria. É preciso educar para que se entenda que a diferença é a base da essência humana. Não há duas pessoas iguais no mundo. E a riqueza do homem reside nisso.

É preciso, portanto, cuidar da semeadura. Qual é a semente que se planta em casa e na escola? Pais que se agridem plantam qual semente? Pais que agem e falam com preconceito sobre o que veem nas mídias ou nas ruas plantam qual semente? Professores que desconhecem o significado da cooperação em uma sociedade baseada na competição plantam qual semente? Jornalistas ávidos por informações pouco cuidadosas, desconectadas da verdade, capazes de destruir vidas alheias, plantam qual semente? Programas de rádio e televisão cujo ódio pulula na boca de apresentadores que não têm nenhum compromisso com a verdade e com a ética plantam qual semente? Líderes religiosos que propagam o ódio a quem eles consideram pecadores plantam qual semente?

Quem mais nos influencia? Redes sociais? Clubes? Shoppings? Parques? Como se comportam as pessoas nesses espaços? Que semente estão plantando?

Há uma comoção mundial em tragédias como a de Orlando. E é preciso que haja. A dor do outro deveria doer na gente.

Mas, aos que aqui ficaram, é preciso ação. No combate ao terrorismo e a toda forma de violência. Ações de governos e de organismos internacionais.

Mas é preciso ir além. É preciso pensar na floresta que queremos amanhã. Ela começa nas sementes que plantamos hoje.

Preocupa-me o ódio cotidiano. Os ditos incorretos revestidos, às vezes, de algum humor. O descontrole diante do que pensa diferente de mim. Os ataques de moralidade frente ao outro que julgo ser imoral. Preocupe-me a ausência do amor na convivência.

Eu não mato uma namorada por ela ter decidido que não é comigo que ela quer viver. Eu não agrido quem vota em um partido diferente do que eu voto. Eu não espanco o que torce para um time rival ao meu. Não. Essas falsas valentias só nos mostram a covarde face de quem semeia o mal.

“Quero cumprir o meu papel, semeando a correta semente “, esse seria um bom começo para os que querem um mundo melhor. Amanhã. E hoje.

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 19/06/2016

Fala com Santo Antônio

Dia 13 de junho foi dia de Santo Antônio. Eu estava no Rio de Janeiro e fui assistir à missa no Centro da Cidade, Igreja de Santo Antônio dos Pobres. Havia muita gente. Pessoas estavam ali para rezar, para fazer seus pedidos, para buscar a paciência que acalma as ansiedades.

Ao meu lado, estava uma senhora. Bem senhora. Tinha uma certa dificuldade para andar. Chegou calmamente. Pediu licença. Agradeceu a gentileza. Fechou os olhos, suspirou fundo e começou a conversar com Deus, penso eu. Logo, chegou uma outra mulher e sentou-se no mesmo banco em que estávamos. Era um pouco estabanada. Bateu a bolsa na senhora. Não pediu desculpas. Sentou e começou a chorar. A bolsa caiu de um lado. O folheto do outro. A senhora mansa e serena, que já vivera muito, tentou ajudar. Olhou para ela e disse: “Fala com Santo Antônio”. A outra olhou para ela e começou a dizer que a vida não estava fácil. Que a família estava com tantos, mas tantos problemas. Que um dos filhos havia feito isso, o outro aquilo. Que o marido não ajudava. A velhinha insistiu: “Fala com Santo Antônio”. “Eu já falei. Já pedi por minha família”, respondeu. A velhinha olhou para ela e disse: “Filha, peça por você; se você tiver paciência, se você tiver paz, fica mais fácil resolver o problema dos outros”. E, para finalizar, a velhinha olhou para a mulher e com um sorriso lindo, enfeitado pelas tantas rugas com que o tempo a presenteou, disse: “Me dá um abraço”. Elas se abraçaram e a missa começou.

Assistindo a tudo, concentrei-me na missa e rezei pelas duas. E agradeci por aprender com quem o tempo muito ensinou. Confesso que quando a mulher mais jovem chegou, derrubando tudo, batendo em todo mundo, eu pensei: “Que falta de educação!” A sábia senhora foi melhor do que eu. Compreendeu. Apenas, compreendeu. Disse coisas tão simples. E a acolheu. Pessoas vão às igrejas para serem acolhidas.

Namorar, verbo bom de conjugar

Namorar é conhecer, é cortejar, galantear.

Namorar é celebrar a presença mesmo quando a presença está ausente. É lembrar que se tem alguém para amar. É elevar.

No início de um namoro, há o desejo e o medo. O desejo de que seja real o que parece onírico. O desejo de que seja eterno o pulsar mais valente do coração. O desejo de que seja correspondido. E aí vem o medo. O medo de que seja ilusão, apenas. O medo de que os defeitos do outro sejam impossíveis de serem tolerados. O medo de que os meus defeitos afastem a pessoa amada. Desejo e medo causam bagunça. Mas os inícios de namoro sempre trazem alguma bagunça. Bagunça o pensamento, o cotidiano, as escolhas. Uma bagunça boa, talvez. Lembrar as frases ditas. Lembrar os olhares. Lembrar os primeiros afagos. Mesmo a quem não assume, o romantismo faz um bem enorme. Há quem comece um regime, há quem se matricule em uma academia de ginástica, há quem compre roupas novas, cuide melhor do cabelo, da pele. Afinal, há alguém com quem dividir os dias.

O tempo pode ser aliado ou não do namoro. A rotina pode ser deliciosa ou corrosiva. As palavras de delicadeza pronunciadas nos inícios não podem se esconder nos dicionários. Mesmo que o namoro não esteja no início, sempre haverá um início. O início de um ano, o início das férias, o início da primavera, o início de um dia. Há sentimentos que combinam com esses inícios. E, também, com as partidas. No início, quando um dos dois viaja ou quando apenas vai para casa, há despedidas carinhosas. Há um secreto desejo de que o tempo em que estarão separados passe rapidamente, e o tempo em que estão juntos não passe.

Passados alguns anos, depois de muitas despedidas, depois de alguma segurança de que as despedidas são provisórias, as despedidas perdem o seu encantamento. Ou não. Há namoros que perfumam o cotidiano com os mais tenros dizeres. Independentemente se tudo começou ontem ou há 50 anos. Namoros em que um boa-noite é sempre colocado com a intenção de que quem eu amo tenha a melhor noite do mundo. E que um bom-dia seja a frase ideal para esclarecer que o meu dia é bom porque o outro existe dentro dele.

Há quem esteja sem namorar há algum tempo. E há aquele que desacredita no amor. Talvez por incursões fracassadas em namoros insinceros. Talvez por abandonos ou por paixões que não foram correspondidas. Dor de amor é dor doída demais. Mas passa. Um dia, o dia diz que é hora de viver novamente sem a onipresença do amor que não me amou no meu pensamento. E outras possibilidades surgirão. Certamente, surgirão. Há ainda as teimosias do amor. Há gente que vê amor onde não há. Pessoas que projetam um amor em quem já tem o seu amor ou não demonstra nenhum desejo de reciprocidade. Namorar alguém e ser correspondido é elevação. Namorar alguém e não ser correspondido é desperdício. Não sei se há um amor à primeira vista ou se há desejo que vai se transformando em amor com o namoro, com o conhecimento. Não sei se há um amor maior, um namoro que foi muito melhor do que os outros ou se as comparações já são, em si, ruins. Não sei o que faz com que o cupido fleche alguém e determine que esse alguém terá algum senhorio sobre mim. Só sei que viver sem amor é viver sem o tempero mais saboroso que já se inventou. Amor est vitae essentia

Uma visita indesejada

Ruth tem marido e quatro filhos. Todos trabalham. Exceto os dois menores que vão à escola. À noite, todos se encontram em casa. Jantam juntos. Conversam sobre o dia. Entrementes os problemas de toda família, são o que se pode chamar de pessoas felizes. Em alguns finais de semana, viajam. Quando os filhos eram pequenos, viajavam com mais frequência. Agora, precisam entrar em acordo. Há algumas festas em São Paulo e os mais velhos gostam de frequentá-las. A casa de praia guarda muitas histórias, histórias boas do passado.

Ruth tem uma conhecida que, ao menos uma vez por semana, aparece para visitá-los. Quando ela chega, os que estão em casa se acomodam na cadeira e respiram fundo. A visita é sempre portadora de notícia ruim. Dela mesma ou dos outros: o marido é uma peste. A filha arruma um namorado pior que o outro. A vizinha, que enviuvou faz pouco tempo, tem levado gente estranha para casa. A rua está suja. A política vai de mal a pior. As novelas não prestam. Médico é tudo a mesma coisa. O tempo está maluco, o tal do efeito estufa está acabando com nossa paz etc. Enquanto fala, um filho levanta, depois o outro, depois o marido e, na sala, ficam apenas ela e Ruth. Não há economia nas reclamações. Ruth tenta animá-la contando alguma coisa boa. Ela, imediatamente, consegue ver algo ruim na notícia boa. “A filha do Alceu está namorando”, diz Ruth. “Muito difícil durar esse namoro, muito difícil”, conclui ela. “Nós vamos à praia no próximo final de semana”. “A dengue está correndo solta por lá e a previsão é de chuva, muita chuva”. Ruth, vez ou outra, pergunta a si mesma por que aceita aquela visita. Por que não se recusa a recebê-la? Quando ela se vai, há um cansaço que demora algum tempo para ir. A família se recompõe. E tudo volta ao normal.

Ruth agradece pela família que tem e dá uma desculpa para si mesma. “É melhor que ela venha, que eu preste bastante atenção no quanto ela é chata para nunca ficar assim”.