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A visita de Renata

Renata foi à casa de Marina. São amigas. Conheceram-se há muito tempo e, há muito tempo, têm o hábito de se visitarem.

Marina é professora de yoga. Gosta das práticas de meditação. Gosta da dança. Gosta de receber pessoas em sua casa para se alimentarem de prosa.

Renata é viúva. Vive do que o marido deixou. Vez ou outra, visita os filhos e os ajuda com os netos.

Marina preparou um foundue para receber a amiga. Renata chegou e quis saber logo o que teriam para jantar. Marina encheu o sorriso de satisfação e disse, no jeito que sabia, “Foudue”. Renata a corrigiu. Explicou qual era a pronúncia correta. Quis saber se havia algo mais. Marina falou que havia preparado uma bela maionese. Renata meneou a cabeça e disse que não combinava. E, de sua contrariedade com a tal maionese, foram nascendo outras observações. “Não gosto muito de bossa nova, você poderia colocar outra música?”, pediu Renata. E Marina foi logo mudando. “Pode ser música francesa, você gosta de Piaf?” Renata não disse nada, mas aquiesceu com a cabeça. “É esse queijo que você vai usar no fondue?” Marina não entendeu a contrariedade e perguntou: “Qual queijo eu deveria usar?” Renata fez uma expressão de tanto faz e não deu sequência ao assunto.

“Essa água é mineral?”, perguntou Renata. “É do filtro de casa, ué, você já tomou várias vezes”. Renata prossegue: “Tem coca zero?” Marina, prontamente, responde: “Tem, sim, vou pegar para você”. “Prefiro guaraná”. “Uhm, guaraná, eu não tenho”. “Ah, não. Então deixa. Eu não estou com sede. Depois tomo em casa”.

“Você não tem ar condicionado na sala, né?”

“Não tenho. O pé direito é alto. E está frio. Por que você quer ar condicionado?”

Renata olha para o nada. “Tem sobremesa?”

Marina se anima, “Eu fiz o pudim de leite que você adora”. “Pudim não combina com fondue, tem alguma fruta?” “Tem, Renata, tem morango, tem laranja, tem pera, uva”. “Gosto muito de mamão, mas não faço questão”.

Marina foi buscando alguma paciência sobrevivente.

“Cansei dessa música francesa”. Quando ouviu, Marina quis devolver com um “E eu cansei de você”. Mas não disse nada.O jantar estava por terminar. Era melhor respirar e ouvir a bossa nova que silenciava as chateações, “Tristeza, por favor, vai embora, minha alma que chora, está vendo o meu fim”.

“Preciso ir embora”, disse Renata se levantando. E prosseguiu, “Vai chover”. Pela janela, Marina viu o céu estrelado e uma lua querendo crescer. “Vai chover, sim”, concordou Marina já se despedindo.

Quando Renata se foi, ela olhou para o céu e agradeceu estar sozinha. A música prosseguia. O pudim estava delicioso. A água filtrada filtrava experiências ruins e dava refresco à noite fria.

Algumas amizades teimam em desrespeitar as delicadezas dos encontros. Outras teimam em aceitar. Por enquanto.

“Quero voltar àquela vida de alegria, quero de novo cantar”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 166/09/2018

A dor da outra

Lenita trabalha na casa de Ângela há um bom tempo. Faz tudo. E gosta do que faz. Da limpeza à organização da roupa, da comida aos cuidados com os filhos, das compras à companhia para a mãe de Ângela, Vera.

Vera tem andando doente. Anda quase nada sem ajuda. Até pelo banho de Vera, Lenita se responsabiliza.

O marido de Ângela é um bom homem, na opinião de Lenita, mas muito frio com a mulher, a sogra e os filhos. “Timidez, talvez”, pensa ela. Ângela, ao contrário, fala o tempo todo, e todo o tempo faz questão de demonstrar seu afeto aos seus.

Lenita também tem mãe, Eulália. Uma vez ao ano, organiza-se para ir visitá-la. Passa as férias no Nordeste revivendo os dias felizes em que toda a família vivia junto. Tem outras cinco irmãs. Duas moram na cidade em que mora a mãe, e as outras três moram, como ela, em lugares distantes por causa do trabalho.

As facilidades das novas tecnologias diminuíram as distâncias e amenizaram a saudade. Elas podem se ver enquanto conversam. A mãe também aprendeu. E assim, todas as noites, Lenita e Eulália se veem e se derramam em afeto.

Uma noite, estavam conversando, quando Lenita soou a campainha. Vera queria ir ao banheiro. Gentilmente estava Lenita com ela. Um dia, Ângela chegou em casa e viu Lenita com outro olhar. Foi só perguntar e os olhos de Lenita se encheram de lágrimas. A mãe de Lenita estava doente. Havia sido diagnosticada com câncer. Ângela ouviu e disse pouco. Câncer pode se curar e quando não cura demora muito para matar. Lenita ouviu sem muito reação. “Você esteve lá faz poucos meses, não vai inventar de me deixar sozinha, espera as férias e vai ver sua mãe; bem, o que temos para o jantar?” Lenita respondeu sobre o jantar. E, sobre o resto, nada lhe restou dizer.

Tudo limpo, foi para o quarto. Quando começou sua oração, ouviu a campainha. Foi logo atender Vera. E o fez, como sempre, com boa vontade.

Voltou para quarto. Ligou para a mãe. Choraram juntas. Acalmou a mãe. Disse que tudo ficaria bem. A mãe olhou nos olhos da filha, separadas a quilômetros e quilômetros de distância, e disse: “Como eu queria que você estivesse aqui”. A filha nada disse, apenas sorriu.

Na cama, a dor da necessidade. Na cama, os pensamentos briguentos com o que disse a patroa. Ela não havia pedido nada. Por que da recusa? Porque tantas vezes ouviu que fazia parte da família quando Ângela precisava de alguma coisa.

Uma oração pedindo a Deus uma noite calma. Um sono amigo. E nada. O olhar da mãe ainda estava com ela, “Como eu queria que você estivesse aqui”.

A noite não dormida despediu-se quando os afazeres reclamavam por ela. Café para a família toda, ajuda aos filhos de Ângela para que fossem à escola, banho em Vera. Depois seria o almoço para ser preparado, e todo o resto que o resto do dia lhe cobraria.

Poderia ir no final de semana ver a mãe. Apenas para abraçá-la, para chorar com ela os receios que chegaram, para dividir o amor necessário.

Faria isso. Com ou sem autorização. “Os tempos são outros”, pensava ela, “Não. Não vou desperdiçar a chance de amar. Minha mãe é meu maior amor”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 09/09/2018

O não-dito

Era o velório do pai. Foi de repente. Cassiano estava viajando e, quando voltou, o pai já agonizava em um hospital. Uma infecção qualquer que não sabiam explicar. Um sangramento no estômago. Um coração que resolveu parar de dizer.

E o pai se foi. E, com ele, as possibilidades de alguns ditos. O pai sempre foi um homem correto, cioso de suas responsabilidades. Na simplicidade da roça, aprendeu com o pai o que pôde. E cuidou do pai até o último instante. Amou-o. Respeitou-o. Não sabia muitos ditos elogiosos, mas sabia estar perto. E sabia respeitar. Dizia para si mesmo, com orgulho humilde, que nunca levantara a voz para o pai.

De seu jeito, tentou passar para os filhos os mesmos valores. Não estudou, mas deu estudo aos dois. Chorou nas duas formaturas. Emocionou-se abraçando a mulher. Economizou nas próprias roupas para vestir melhor os filhos. Para ele, uma bicicleta velha; para os dois, o que podia comprar de melhor.

Cassiano era o filho que mais discordava do pai. E debochava do irmão que trabalhava com o pai em uma barraca de coco e, à noite, cursava faculdade de direito. Cassiano gostava da vida boa. Gostava de viajar. Bebia mais do que o necessário, na opinião do pai. As horas de ausência de sono desperdiçadas, sabe-se lá onde eram outros pontos de divergência. O pai queria que Cassiano fizesse uma faculdade, que trabalhasse, que respeitasse as mulheres. E o filho ria arrogante da inferioridade do pai. Aliás, escondia ele que era filho de pai vendedor de coco. Quando perguntavam, desde muito tempo, respondia que era filho de empresário. A mãe tentava corrigir o filho. Mas não conseguia.

A última briga, antes da viagem de Cassiano, antes da súbita doença do pai, foi muito dura para toda a família. Era um jantar simples, e o pai falou de um conhecido que fora à barraca falar de um dinheiro que havia emprestado ao Cassiano. “Um dinheiro para você comprar uma cadeira de rodas para sua avó? Que vó é essa?” – o pai dizia indignado – “Eu não ensinei filho meu a mentir”.

Cassiano levantou-se da mesa e gritou que não tinha culpa de ter nascido pobre. Que não gostava da vida que levava. Que estava com uma namorada nova e que precisava de dinheiro para impressionar a moça. Que iria viajar com ela. E foi dizendo tudo aos gritos. O irmão estava na faculdade. Pai e mãe olharam-se tristemente. E foi assim a despedida.

No velório do pai, Cassiano lembrava do não-dito, das ausências de gratidão, das poucas demonstrações de amor ao homem que tanto fez a ele. A mãe não cobrou nada do filho. Era dia de dor e não de remexidas em feridas tão abertas. O irmão consolava a mãe. A sala do velório foi se enchendo. Amigos, o pai tinha aos montes. O filho olhava de um lado, olhava de outro. E chorava.

O irmão o abraçou forte. Cassiano desabou: “Na última vez que estivemos juntos, eu gritei tanto com ele, e agora não dá mais para fazer as pazes”.

Depois de uma pausa, ele disse: “Dá sim, beija a testa dele, se despede e diga tudo o que ficou faltando dizer, ele está te ouvindo, eu tenho certeza disso”.

Do lado de fora do velório, no cemitério movimentado, a chuva começava a acalmar o dia. Perto do túmulo onde o pai de Cassiano seria enterrado, já havia dois ou três homens mexendo na terra.

Todos os dias há alguém fazendo isso.

Todos os dias há alguém pensando no que poderia ter feito no último momento em que viveram juntos. No não-dito.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 02/09/2018

Um cotidiano feliz

Isabel gosta do despertar do dia. É assim desde que se lembra. Ainda menina, via a mãe levantar cedo para dar conta de um dia intenso de trabalho. Em casa e na rua. O pai trabalhava à noite. As manhãs, na casa de Isabel, eram de silêncio. Cada um fazia o que tinha que fazer sem despertar o sono de João.

Tudo isso faz muito tempo. O pai morreu cedo. A mãe ainda vive, e vive com a mesma disposição para a felicidade. Mora com Isabel. Ambas viúvas. Os dois filhos de Isabel não moram longe, mas cada um tem sua casa, seus dilemas, suas intenções. Isabel cultiva a paz. Os sofrimentos não a embruteceram. E não foram poucos. As perdas encheram de lágrimas um tempo. O tempo que veio depois surpreendeu. Nada de acontecimentos extraordinários. Mas um cotidiano feliz. Uma festa de fim de ano regada a amigos, o casamento de um filho, o neto nascendo, um dia de sol na praia, um dia de chuva caçando sujeiras no feijão esparramado sobre a mesa. Ela e a mãe. E as lembranças. E o prazer de estarem ali.

As manhãs, na casa de Isabel, começam com o aroma do café. A mãe, quando sente, ajeita a penhoar que fica ao lado da cama e se levanta para comer com a filha. Gostam de gostar uma da outra. Tomam os remédios que precisam tomar. Comem sem pressa. E conversam. Como gostam de conversar essas duas! Falam sobre o passado sem melancolias. Revisitam os álbuns da memória, os momentos que construíram, as pessoas que se foram. Conversam sobre algum assunto do dia, se vai chover, se o sol estará forte, se o médico marcado vai mudar alguma coisa da dieta, se o time que torcem vai, enfim, ganhar. Comentam sobre as crianças. E se satisfazem com isso. Depois dão por encerrado o desejum.

Enquanto a mãe de Isabel lava as poucas louças que usaram, a filha limpa a casa no dia de limpar, lava a roupa no dia de lavar, rega as plantas. É uma casa simples, mas tem jardim. Há pássaros que cantam por ali. E elas gostam. Depois, é o almoço. Isabel gosta de cozinhar. A mãe ainda dá os seus palpites. Mas o que Jurema gosta mesmo é de costurar. Na velha máquina, ainda desfila a sua arte. À tarde, às vezes, passeiam, visitam os filhos de Isabel, vão à casa de algumas amigas. Tudo muito perto. Gostam do lugar em que vivem. Se precisam ir ao centro da cidade, planejam antes. Preferem horários em que as conduções não estejam tão lotadas. Em algumas noites, vão à reza; em outras, ficam em casa. Escolhem um filme e se divertem juntas. Comendo pipoca ou brigadeiro de colher.

Nos cômodos, fotos antigas. Nas gavetas, guardados de tempos que se foram. Mas há espaços para novos enfeites. A conversa de ontem era sobre a formatura de uma neta, da mais velha. Faltam poucos anos.

“Meus Deus, como o tempo passa! Ela não é mais uma meninota”, diz Isabel. “E como passa!”, confirma a mãe, olhando por cima dos óculos, enquanto dá uma pausa no cerzir de uma calça.

O cheiro da casa simples é de banho tomado. E, no ar, há um perfume de felicidade que encanta qualquer um que acha que tem que buscar longe. Isabel também gosta do despedir do dia. Antes de dormir, agradece.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 26/08/2018

Pergunte aos professores

Era um evento organizado pela CESGRANRIO. Um seminário nacional de educação. Especialistas de diversas áreas do conhecimento foram desfilando suas opiniões. Há muito o que se dizer sobre o ensino/aprendizagem, sobre a formação de professores, sobre o currículo, sobre a sala de aula, sobre a participação das famílias no processo educativo, sobre o poder de desenvolver a autonomia de um aluno.

Uma das mesas foi diferente. Eram alunos do ensino médio que responderiam às perguntas dos educadores. Falaram eles sobre as experiências em suas escolas, sobre o desenvolvimento das emoções, sobre os encontros necessários. Falaram com a autoridade de quem vive o dia a dia de uma escola. E, a cada pergunta, um deles respondia.

A pergunta que me deixou mais intrigado foi a seguinte, “Imagine se o próximo presidente da república chamar um de vocês e perguntar qual a reforma necessária que se deve fazer na educação do Brasil. Se você tivesse o poder de influenciar o presidente, o que você diria?”. O jovem respondeu sem rodeios: “Pergunte aos professores”. Deu uma pausa e explicou, “Nenhuma reforma na educação dará certo sem a participação dos professores. Quem está nas escolas todos os dias? Quem está nas salas de aula? Quem conhece o problema real da educação do Brasil? E, vejam bem, há muitos brasis. Somos grandes demais para uma reforma que venha de cima para baixo sem ouvir os professores”.

O presidente da CESGRANRIO, professor Serpa, pegou o microfone e, do alto dos seus 76 anos, disse que havia tomado um banho de esperança ao ouvir aqueles jovens. E falou com o entusiasmo dos que resistem, dos que persistem generosamente professando a crença no ser humano.

Minha palestra foi depois. Tive a honra de encerrar o seminário. Meus pensamentos ganharam outro sabor. “Pergunte aos professores”. Que bela lição de sabedoria! Tenho ouvido aqui e acolá palpiteiros da educação culparem os professores pela falta de qualidade de muitas de nossas escolas. Falam como se conhecessem. Falam como se tivessem entrando em uma sala de aula. Não têm autoridade para tanto. Não experimentaram o sagrado chão da escola. Em salas sofisticadas, fazem projetos e ditam regras. Errado. Certo está o menino do ensino médio, o que reconhece o trabalho de um professor, o que vai além das respostas prontas. Poderia ele ter dito um achismo qualquer. Foi além. Reformas educacionais mexem com a vida de muita gente. E de muita gente que tem na educação a grande oportunidade para ter escolhas, para se realizar, para ser livre.

Na minha palestra, pude renovar o respeito que tenho por meus irmãos de ofício, os professores. Pela tessitura de linguagens que liberte os que se sentem aprisionados, por qualquer razão. O amanhã existe. Falei de Sherazade e da arte de contar histórias, acreditando na inteligência que vence a violência. Foram histórias que dançaram com histórias, uma após outra, em um bailado de mil e uma noites. Só assim um homem violento teve seu coração transformado.

Não acredito em nenhuma medida imediatista para conter a violência. Acredito na semente que gera uma nova paisagem. E acredito nos cultivadores dessas sementes.

Enquanto escrevo, minha mente mergulha em um baú de lembranças. E, ali, há imagem de muitos professores. Gratidão.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 19/08/2018

O dia dos Pais

Do que se lembram as pessoas, quando estão partindo?

Um amigo, com olhos marejados, falou da despedida de seu pai em uma cama de hospital. Os quatro filhos estavam lá. A mulher, também. E as duas noras.

Era o entardecer de um domingo. E foi a última vez que se falaram. O pai, com a voz em despedida, lembrou da festa de casamento. Apertou, com as forças que tinha, a mão da mulher e conseguiu ainda um sorriso. Ele havia se atrasado. Por causa da mãe. A mulher ouvia e mexia a cabeça em concordância. Depois, os nascimentos dos filhos. As preocupações. O tombo de um. A catapora de outro que passou para os outros. E a voz foi falhando. Os olhos, então, se fecharam. Junto com o Sol. Era noite quando mãe e filhos se abraçaram e choraram juntos. A doença os havia preparado para esse momento. “Não. Ninguém está preparado!”, foi o que disse o filho mais novo.

Meu amigo prosseguiu dizendo que é o primeiro dia dos pais sem o seu pai. Meus pensamentos viajavam, enquanto ele falava, pelo meu pai. Faz muitos dias dos pais que não o tenho comigo. Que não posso brincar com ele de quem tem as mãos maiores, que não posso preparar um sanduíche especial, ele gostava dos meus fazeres na cozinha. Faz tempo que só converso com ele em pensamento. Quando estou triste. Quando estou feliz. Em muitas conquistas na minha vida, eu olhava para frente e desejava profundamente que ele estivesse ali. Quem sabe?! Há entre os mundos que habitamos uma cortina de amor chamada mistério.

Quando fui ao Líbano lançar um livro e receber homenagens, eu vi meu pai muitas vezes. Era como se bebêssemos juntos a água limpa da fonte de onde tudo começou. As lembranças que ficam não são as materiais. São as dos laços preparados por artistas da alma. Os enfeites da nossa existência estão no ordinário da vida, no cotidiano comum. De um filho que cai e chora. De um pai que prepara o café. De crianças viajando no banco de trás de um carro e cantando. Na brincadeira de esconde-esconde embaixo de um lençol qualquer.

Meu pai gostava de uma cadeira de balanços de que seu pai também gostava. Ali, ele rezava. Ali, ele ouvia os discursos que eu fazia quando criança em cima de uma mesa. E ria. Dizia que eu inventava palavras. Eu gostava do seu riso. E, por isso, inventava mais.

Quando os meus livros foram sendo publicados, ele os lia. E relia. E comentava. E amava.

Seu amor estará comigo no dia de hoje. O amor não se despede. Permanece.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 12/08/2018

A vontade de ser aceito

E as aulas recomeçaram.

Os recomeços sempre serviram de algum ânimo para Jerônimo. A casa não era o melhor dos ambientes. O irmão mais velho, André, cultivador de desonestidades, era um tormento difícil de conviver. Bebia, usava drogas e, se tinha algum propósito, era o de se dar bem na vida, enganando alguém.

Jerônimo lamentava pelas atitudes do irmão, mas tinha medo. O irmão o via como um fracote, ameaçava-o, ridicularizava-o na frente de outros. O pai dos dois os abandonou desde sempre. A mãe, trabalhadora que só, não conseguia endireitar o filho mais velho nem acolher os medos do mais novo. Fazia o que podia para alimentar a casa, e o resto era o cansaço.

Jerônimo, no alto dos seus 9 anos, chorava sozinho a vida dura que levava. Discordava com ele mesmo do que ouvia sobre a infância. Não. Definitivamente, a infância não era um tempo bom. E como demorava para passar! Tempo longo. Um dia, seria adulto, cuidaria da mãe e nunca mais precisaria ver o irmão maldoso.

Era isso que pensava o menino que se preparava para ir à escola. A mochila, presente de uma tia, o irmão tinha levado. Pegou o caderno, do semestre anterior, um pequeno estojo com lápis e caneta e lá se foi para a escola.

O burburinho era bom. Gostava de estudar. Gostava de estar fora de casa. O professor de matemática, Amauri, começou a aula. Disse que gostava de ser professor e que matemática era a melhor matéria que existia. Com sorriso no olhar, olhou para cada um. Jerônimo se sentiu a pessoa mais importante do mundo.

“Qual o seu nome? ”

“Jerônimo”

“Que belo nome. Significado sagrado. Meu pai se chama Jerônimo”.

“E o seu?” Perguntou, olhando para uma menina.

“Clara”.

E um a um, o professor queria saber os nomes e explicar os significados. Jerônimo não sabia que seu nome vinha de sagrado. O irmão tantas vezes o chamou de desgraçado.

A aula foi tendo o seu ritmo e chegando ao fim. Ele queria que não acabasse. Gostou tanto! Na saída, encheu-se de coragem e disse ao professor, “Quero ser professor de matemática, igualzinho ao senhor”. Amauri sorriu e pediu um abraço.

No caminho de volta, a tristeza de voltar. O medo do irmão que ficava em um bar ao lado de casa. Ele dava uma volta enorme para não passar perto. O irmão, invariavelmente, ridicularizava-o. Ria alto dele. Dizia coisas desprezíveis. Mas não era momento de pensar nisso. Seria professor de matemática. Seria amigo do professor Amauri. Seria alguém capaz de ensinar, de acolher, de despertar sorrisos de outras pessoas.

Enquanto esses pensamentos preenchiam o menino, o professor também voltava para casa. Os seus dias não estavam sendo fáceis. A mulher, doente, demonstrava sinais de que não iria conseguir se recuperar de mais uma das tantas cirurgias. Os dois filhos, unidos, rezavam pela mãe. Amauri era um pai e tanto. E um marido capaz de milagres por um alívio de sua mulher. No caminho de casa, o abraço de Jerônimo lhe fazia companhia. Pensamento bom. A lembrança do afeto. Gratidão por ter escolhido ser professor. Na matemática da vida, é preciso compreender o significado da vontade de ser aceito. O resultado é a soma de duas bondades que se encontram. Os que subtraem nunca encontram a paz que multiplica esperanças mesmo nos que sofrem.

Chegando em casa, Jerônimo ou Amauri sabem que amanhã tem mais.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 05/08/2018

A fragilidade humana

A conversa que ouvi foi mais ou menos assim:

– Somos feitos de cristal, precisamos tomar cuidado.

– É.

– Se não souber pegar, quebra.

– É.

– Se usar de muita força…

– Preciso ir.

E alguma coisa mais depois que um dos dois deixou o elevador.

O que ficou prosseguiu me explicando:

– A gente tem que tomar cuidado até com quem diz que é amigo, eu já me quebrei muitas vezes.

Eu quis saber:

– E cristal quebrado, tem jeito?

Ele riu.

– Sei lá, tem tanta coisa que eu não sei.

O elevador chegou ao térreo e saímos. E a imagem do cristal inteiro ou quebrado ficou em mim.

A metáfora do cristal pode funcionar. Temos que tomar cuidado com os outros e exigir dos outros o mesmo cuidado. Mas é difícil. Um cristal quebrado nunca volta a ser o que foi um dia. Mas e um ser humano? Como viver sem as quebraduras na alma? Como nos defender a ponto de ninguém nos trincar?

Um cristal guardado e trancado em algum lugar talvez não corra riscos. Mas um cristal foi feito para ser usado. Para servir. Para embelezar. Para se encontrar com olhares, com mãos, com bocas.

Guardar os nossos sentimentos com medo de que nos machuquem é desconsiderar a razão da existência dos sentimentos.

Amar dá medo? Talvez. Tirarmos as nossas sandálias e pisarmos sem receio no chão do encontro dá medo? Pode ser que sim. Mas e então?

Não. Não somos cristais. O cristal trincado, quebrado, nunca volta a ser o que foi antes. Perde certamente o seu valor. No nosso caso, talvez não voltemos a ser o que fomos antes até porque mudamos o tempo todo. Mas, diferentemente do cristal, essas experiências não retiram o nosso valor. Valemos mais por conhecermos mais as trincaduras da alma. Por nos aproximarmos mais dos calvários humanos.

O nosso sofrimento nos fará compreender melhor os sofrimentos dos outros. Que linda palavra e que lindo significado tem a compaixão!

Queria ter conhecido mais as razões que fizeram aquele senhor, em um elevador, trazer a imagem dos cristais. Gosto de ouvir as histórias de vida que embelezam a vida. Gosto da canção que diz que “cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz”. Com rachaduras ou sem. Com trincaduras ou sem. Sem? Não. Não temos esse dom. Nossa capacidade é, apesar da fragilidade humana, ser feliz.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 29/07/2018

A luta do bem contra o mal

Junior é bom. Junior é mau. Junior acorda cedo e ajuda a sua mãe que está em uma cadeira de rodas há algum tempo. Antes de sair, passeia com o cachorro, rega as plantas, conversa com uns passarinhos que cantarolam primavera para a mãe.

Junior maltrata sua namorada. Trata-a como se fosse um objeto. Já a espancou algumas vezes. Depois se arrepende. Pede perdão. E, Julieta, a namorada, o recebe de volta.

Junior brinca com os filhos do seu irmão. É um ótimo tio. Nem um dia extenuante de trabalho tira dele a disposição para rolar no tapete da sala inventando todo tipo de estripulias.

Junior participa de rachas. Gosta da velocidade dos carros. Já foi alertado algumas vezes. Já viu amigos sendo presos por terem atropelado e matado pessoas que, inocentemente, caminhavam em calçadas.

Junior ajuda quem dele precisa. Como pode. Basta alguém de sua comunidade pedir alguma coisa que lá vai ele para arrumar um desarrumo qualquer.

Junior tem pavio curto e, quando bebe, piora. Não poucas vezes arrancou sangue de alguém que o desafiou em algum bar. Se olham para sua namorada, então, ele é capaz de deixar desacordado o desavisado. Julieta não gosta das atitudes do namorado. Mas tem medo. De ficar com ele. E medo de largar dele.

A mãe de Junior pouco sabe dele. Só sabe do seu afeto, do seu cuidado com ela, da sua meiguice com a família. Quando contaram de alguns arroubos do filho, ela não acreditou. “Junior é bom”, repete a mãe. E se põe a falar das coisas boas que ele faz.

Uma vez, uma diretora de escola disse o contrário: “Ele é mau, me desculpe, mas o seu filho é mau”. A mãe deu de ombros e saiu sem qualquer decisão. Isso foi antes do acidente que tirou dela boa parte dos movimentos. Acidente causado pela imprudência de Junior. Ele estava em alta velocidade, mas ela não percebeu, ele havia bebido e ela fez questão de não saber. O filho saiu ileso, a mãe ficou presa nas ferragens e, até hoje, em casa.

“A culpa não foi do Junior”, disse ela muitas vezes e, em outras vezes, quando alguma acusação era feita ao filho bom. “O problema é que ele é nervoso. Quando está calmo, é um anjo”. Era esse um outro texto que a mãe usava mais para a família. Para que compreendessem o menino.

O menino é um homem. E é dual. Tem atitudes generosas e atitudes perversas. Há teorias e teorias que tentam explicar essa luta no interior do ser humano. O bem e o mal. O homem nasce bom e a sociedade o corrompe? O homem nasce mau e a sociedade o melhora? O homem tem dentro dele dois lobos: um pacífico e um cheio de ódio. Cresce e domina o que ele alimenta mais? Qual a teoria mais correta?

Dona Amanda, mãe do Junior, não entende das filosofias. Nem percebe que excesso de proteção pode prejudicar. Julieta, a namorada, também não gosta de pensar muito. Se pensasse, se ouvisse alguns conselhos, se pesquisasse, não ficaria com alguém que a desrespeita.

E Junior? Nasceu como? Foi ficando como? Tem conserto?

Respostas simplistas não resolvem grandes inquietações. As perguntas sobre os outros talvez sejam um caminho para refletirmos sobre a nossa própria dualidade. Bondades e maldades, não sei por qual razão, estão em nós. Só sei que precisamos ser fortes o suficiente para decidirmos.

Prefiro continuar acreditando que o bem vence o mal. Sempre. Mesmo que demore um pouco…

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 22/07/2018

Saber dividir

Eram irmãos que estavam em uma fila recebendo alimento. ​Os dois eram bem pequenos, talvez com uma diferença de dois ou três anos. Não sei muito bem. ​Um estava com a perna machucada, o menor. O outro, por volta dos 7 anos, estava na fila.

O calor do dia não veio naquele dia. E o frio fazia com que a espera fosse mais incômoda. Voluntários se juntavam na tarefa de alimentar os que alimento não têm. Tudo muito organizado.

​A vida nas ruas é dura. Há muitos que julgam sem conhecer. Ninguém opta por deixar o lar e viver nas calçadas. Lembro-me de uma cena de um casal que vivia há pouco tempo na rua. Lembro-me dele dizendo que não aceitava ir para um albergue para passar a noite porque não havia albergue misto, e a ideia de dormir sem sua mulher era inconcebível. “Minha mulher é a mulher mais linda do mundo”, disse aquele homem. A mulher ria, tentando esconder a timidez. E, depois de alguma conversa, quando a mulher foi sentar-se na calçada, ele, elegantemente, tirou um lenço do bolso e forrou o chão onde o seu amor iria se sentar. Romantismos difíceis de se encontrar mesmo em casas onde abundam recursos e sofisticações. ​

Já vi afetos entre moradores de rua e seus animais de estimação. ​Bem, mas é sobre os dois irmãos que se tem de escrever. ​

O pequeno, um pouco maior, chegou para pegar o alimento. Cada um tinha direito ao seu. Ele compreendeu e não tentou pegar para dois. Pediu apenas mais um prato para dividir. A senhora olhou e quis saber. Ele mostrou o irmão sentado, com a perna machucada. “É meu irmão”, disse com um dizer orgulhoso, com um dizer cuidadoso. A senhora deu o prato e ficou observando. ​Ele chegou junto ao irmão e dividiu exatamente tudo o que havia no seu prato. A metade do frango. A metade da porção de arroz. Duas batatas para cada um. A metade da salada. O pão que veio junto, também foi dividido. ​

O irmão menor sorria agradecido. Sentaram-se juntos e começaram a comer. Havia também o suco. Ele se esqueceu de pedir dois copos. Deu para que o irmão tomasse primeiro a metade e, depois, ele tomaria o restante. ​A senhora, que servia a refeição, olhou comovida a cena. Levou mais comida para os dois. Conversou com eles. Quis entender a razão de estarem ali. Perguntou pelos pais. A história era mais triste do que ela imaginava. ​

Perderam tudo, mas tinham um ao outro. A senhora que servia, dona Regina, não conseguiu ir embora sem um gesto maior. “Querem dormir essa noite na minha casa?”. E eles, timidamente, disseram que não precisava. Ela insistiu. Disse que queria ir com eles às autoridades responsáveis. Que cuidaria deles. Não sabia como ainda. Mas cuidaria deles. ​Os dois irmãos ouviam a mulher com os braços abraçados.

Ela ainda teve tempo para perguntar a eles: “Quem os ensinou a dividir?”. O pequeno maior olhou para uma estrela no céu e, como se mostrasse a mãe: “Porque é lá que vão os que sabem cuidar”, explicou.

Mesmo que muito não tenha sido dito, Dona Regina entendeu.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia – RJ) | Data: 15/07/2018